Pular para o conteúdo principal

A saga dos homens bons do DEM no Senado

Peço licença aqui ao sempre generoso Hariovaldo Almeida Prado (aliás, vale a pena ler a nota sobre a festança de Hebe Camargo) para usar a expressão "homens bons", consagrada pela verve do professor. Sim, os homens bons do partido Democratas no Senado estão em péssimos lençóis. Apoiaram a eleição de José Sarney (PMDB-AP), eram unha e carne com o impoluto Agaciel Maia e agora se queixam de perseguição. Nada como um dia após outro para ver Heráclito Fortes (DEM-PI) afirmar que "há uma campanha orquestrada contra o Senado". Foi um desabafo e o adiposo senador fazia referência ao caso das passagens de avião liberadas por Roseana Sarney (PMDB-MA) a familiares. "Isso não é justo", completou Heráclito, que defendeu a colega e aproveitou para dar uma estocada nos jornalistas: "Aí, então, está na hora de fechar o Congresso. Se forem atrás de pagamento de passagem, não escapa nem jornalista. Vai ser um constrangimento. Se vier à tona, vai comprometer muita gente", explicou.

A grande imprensa é realmente engraçada. Heráclito é um dos maiores entusiastas da aliança entre o DEM e PSDB. Alguém poderia perguntar ao governador tucano de São Paulo, José Serra, o que ele achou da frase de seu simpático aliado. Ou pelo menos o que pensa José Serra sobre os problemas enfrentados pelo Senado - a tal sórdida perseguição da imprensa aos homens bons daquela Casa. Claro que Serra não diria coisa alguma, ele nunca diz nada mesmo, mas pelo menos os repórteres poderiam terminar suas matérias com o final de sempre: "questionado sobre isto e aquilo, o governador paulista disse que não falaria de política porque tem de governar o Estado..." (é, estava chovendo forte em São Paulo).

Heráclito, porém, não é o único homem bom em maus lençóis no Democratas. O senador Efraim Morais (PB) vem alegando que liberou o pagamento de R$ 6,2 milhões em horas extras para cerca de 3,8 mil funcionários do Senado durante o mês de janeiro, quando o Congresso estava em recesso e ninguém apareceu nem para dar bom dia, em obediência "a critério administrativo, vigente há anos, por ser o mês de janeiro de recesso parlamentar". Bem, até uma criança de cinco anos conseguiria rebater a argumentação do impoluto senador: "se mandarem o senhor pular do 25° andar, o senhor pularia?" Se o vergonhoso critério era aplicado "há anos", não seria o DEM a mudar as coisas, não é mesmo? Afinal, a luta pela moral e bons costumes é só mesmo para uso externo e em tempos de campanha eleitoral.

Bem, hipocrisia tem limites, o que não tem limite é a cara de pau da grande imprensa em apresentar os ex-pefelês, todos pimpões, nesta ladainha do "a gente somos honestos" e tendo o desplante de cobrar do governo Lula "mais rigor com a corrupção". Melhor ler o professor Hariovaldo...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Doca Street, assassino de Ângela Diniz, morre aos 86 anos em São Paulo

Não existe verbete na Wikipédia sobre Doca Street. Morto nesta sexta (18) aos 86 anos, talvez agora ele ganhe uma página em seu nome nesta que é a maior enciclopédia colaborativa do mundo, onde só em português constam 1.049.371 artigos. A menção mais relevante no site a Raul Fernando do Amaral Street, o nome completo de Doca, aparece na entrada que fala de Ângela Diniz, socialite mineira assassinada em 1976 com quatro tiros disparados pela arma –e pelas mãos– de Doca, na casa que o casal dividia na Praia dos Ossos, em Búzios (RJ). Nada surpreendente. Afinal, desde que pôs um fim à existência de Ângela, Doca viu sua vida marcada e conectada ao crime que cometeu –ainda que, após seu primeiro julgamento, em 1979, ele tenha saído pela porta da frente do tribunal, ovacionado pelo público de Cabo Frio, também no litoral fluminense, escreve Marcella Franco em artigo publicado na Folha Online na sexta, 18/12, e reproduzido sábado, 19, no jornal. Vale a leitura, continua a seguir. Foi só em 198...

Dica da Semana: Tarso de Castro, 75k de músculos e fúria, livro

Tom Cardoso faz justiça a um grande jornalista  Se vivo estivesse, o gaúcho Tarso de Castro certamente estaria indignado com o que se passa no Brasil e no mundo. Irreverente, gênio, mulherengo, brizolista entusiasmado e sobretudo um libertário, Tarso não suportaria esses tempos de ascensão de valores conservadores. O colunista que assina esta dica decidiu ser jornalista muito cedo, aos 12 anos de idade, justamente pela admiração que nutria por Tarso, então colunista da Folha de S. Paulo. Lia diariamente tudo que ele escrevia, nem sempre entendia algumas tiradas e ironias, mas acompanhou a trajetória até sua morte precoce, em 1991, aos 49 anos, de cirrose hepática, decorrente, claro, do alcoolismo que nunca admitiu tratar. O livro de Tom Cardoso recupera este personagem fundamental na história do jornalismo brasileiro, senão pela obra completa, mas pelo fato de ter fundado, em 1969, o jornal Pasquim, que veio a se transformar no baluarte da resistência à ditadura militar no perío...

Política mundial? Leia o blog do Argemiro

Política internacional jamais foi o forte deste blog, que prefere manter o foco nas análises da mídia e da política brasileira. Para quem gosta de acompanhar o noticiário internacional em português e está cansado de ler o pouco que os nossos jornalões reproduzem por aqui, uma boa dica é o Blog do Argemiro Ferreira , um dos mais experientes correspondentes brasileiros trabalhando nos Estados Unidos. Colunista do jornal Tribuna da Imprensa , Argemiro faz excelente análises e traz informações diferenciadas, especialmente sobre a corrida eleitoral nos EUA. Um bom exemplo é o post abaixo, que começa com futebol e termina em Karl Rove. Quem quiser ler mais é só dar um pulo lá ... A promiscuidade no jornalismo político Certa vez estive envolvido numa discussão interna do Sindicato de Jornalistas do Rio sobre uma coluna iniciada por Pelé no Jornal do Brasil. Discordei da idéia de impedí-lo de escrever a pretexto de não ser jornalista. Mas o próprio craque, interpelado pelo sindicato, acabaria...