Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

7 dias de ausência

O autor do blog já está com os primeiros sinais da síndrome de abstinência que certamente o acometará na próxima semana. Não, ao contrário do que pensam os maldosos, não se trata de nenhuma internação naquelas clínicas de recuperação em que o sujeito entra em um estado lastimável em função de seus vícios e sai ainda pior (com Jesus no Coração ou qualquer outra variante do fanatismo religioso). Não é o caso, ainda, do autor destas Entrelinhas, felizmente. A ausência se deve a um curto período de descanso, coisa que no passado remoto contava-se em 30 dias e era chamado de "férias". Até a próxima sexta-feira, o blogueiro se dedicará a prospecção de um futuro promissor, ou seja, vai passar a semana treinando o filho, que já dá boas pedaladas e tem um drible curto e seco que lembra um pouco o do centroavante Careca. A beira de completar 8 anos, o rapaz é a maior - mas não a única - esperança de futuro próspero para o progenitor. De qualquer forma, é preciso de um pouco de perseverança e treino, coisa que cabe ao pai proporcionar. Sim, é difícil não escrever, mesmo em férias, de maneira que sempre pode acontecer alguma edição extraordinária, diretamente de alguma lan house do litoral norte de São Paulo. Se nada de grande impacto acontecer, estaremos de volta no próximo final de semana. Como sempre, agradecemos a audiência, cada vez maior, e os comentários sempre inteligentes e perspicazes dos leitores, exceto aqueles relacionados às pausas esportivas do blog, em relação aos quais é concedido o devido desconto, porque não se deve esperar muita coisa de quem optou por sofrer na vida... Arrivederci, bambini!

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Porque Sarney permanece na Presidência

O presidente do Senado vai resistindo às pressões pela sua renúncia ou licença do cargo. A questão é mais simples do que parece: o governo não tem como substituir José Sarney (PMDB-AP) sem perder completamente a sua base de sustentação no Congresso. Sim, porque se Sarney renunciasse ou se afastasse do cargo pelo tal período de 60 dias, os senadores do PMDB partiriam para a retaliação. Nos bastidores do Congresso, há quem diga que o grupo poderia apoiar uma candidatura do senador democrata José Agripino Maia (RN) à presidência do Senado apenas como sinal de vingança pela falta de apoio a Sarney. Foi por esta razão que o PT recuou, e não por qualquer outro motivo mais nobre. Sem Sarney, o governo fica isolado no Senado, o que evidentemente não é nada bom para o presidente Lula (e nem para o país, pois significaria uma paralisia completa dos trabalhos parlamentares).

Sarney não nasceu ontem, tem muitos defeitos, a maior parte deles bem antiga, por sinal. Mas a verdade é que todos os seus colegas de Senado, sem exceção, têm exatamento os mesmos defeitos. Não existe um úncio parlamentar em todo o Congresso Nacional que possa bater no peio e dizer: "eu sou diferente, eu sou o ético". Não, nem mesmo Fernando Gabeira – vide as passagens da filhota para o Havaí ou o pagamento com recursos públicos de serviços privados prestados pela então namorada, atual esposa. Eduardo Suplicy, Cristovam Buarque, Chico Alencar, Pedro Simon, Heloísa Helena enfim, todos os deputados e senadores apontados pela mídia como puros e éticos já aprontaram bastante com o meu, o seu o nosso suado dinheiro que vai para o pagamento de tributos e depois vira piada nas mãos dos nobres parlamentares. A diferença entre eles é de ordem política e ideológica, uns defendem A, outros preferem B. Na prática parlamentar, são todos iguaizinhos.

Há, portanto, uma certa hipocrisia na grande imprensa ao noticiar os escândalos que envolvem José Sarney e seus familiares. A cobrança que se faz ao ex-presidente deveria, por justiça, ser a mesma para um Arthur Virgílio, paladino da ética para o alheio, porque para si, não cabe nenhuma, conforme se pôde observar no episódio dos R$ 723 mil utilizados para pagamento do tratamento de sua mãe - recursos esses, é claro, do Senado e que jamais poderiam ter a destinação que tiveram. Virgílio já devolveu a bufunfa? Vai pagar de uma vez ou parcelar a malfeitoria no lombo do contribuinte brasileiro? Repórter nenhum tem coragem de fazer tais perguntas ao tucano, mas conseguem ser mais duros com Sarney... Dois pesos, duas medidas, caso clássico.

No fundo, o melhor a ser feito neste momento é aproveitar a guerra que vem sendo travada no andar de baixo do Senado e Câmara - o funcionalismo das duas casas é que está fornecendo material e dossiês para a imprensa - para estabelecer regras mais rígidas para o uso da verba pública pelos deputados e senadores. Isto já começou na Câmara, de maneira ainda muito tímida, com a regulamentação do uso das passagens, e precisa ser ampliado.

Ainda sobre a ficha da Dilma

Versão mais completa, para o Observatório da Imprensa, de post publicado originalmente neste blog.

LEITURAS DA FOLHA
Jornal enrola os leitores com a ficha falsa de Dilma

Por Luiz Antonio Magalhães em 30/6/2009


"Peidei, mas não fui eu". Este observador pede desculpas pela má expressão, mas não há nada mais apropriado do que está frase, popularizada pelo cantor Lobão, para o texto reproduzido ao final desta nota, originalmente publicado na edição de domingo (28/6) da Folha de S. Paulo. Sim, pois foi a segunda vez que o jornal voltou ao assunto para se explicar, produzindo mais um clássico da arte de embromar os leitores. A história é simples. A Folha publicou uma "ficha policial" da ministra Dilma Rousseff, grosseiramente falsificada, e não consegue admitir que errou.

Na primeira retificação, o jornal da Barão de Limeira mandou brasa e escreveu que não era possível provar a autenticidade da ficha (leia-se: publicamos uma mentira sem checar). Agora, saiu o laudo encomendado pela ministra e, sim, a tal ficha é mesmo falsa.

A Folha, porém, não se deu por vencida e decidiu continuar enrolando seus leitores: não conseguiu admitir com todas as letras que publicou uma cascata e tentou salvar a sua pele. Mas a emenda saiu pior que o soneto, conforme os leitores deste Observatório podem constatar a seguir:

***

Dilma contrata laudos que negam autenticidade de ficha

Copyright Folha de S. Paulo, 28/06/09

Imagem ilustrava reportagem da Folha; peritos não se basearam no jornal impresso; Professores compararam imagens reproduzidas pela internet com papéis do Arquivo Público; Folha reconheceu que ficha chegou por e-mail

Da Reportagem Local

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, encaminhou à Folha dois laudos técnicos, por ela custeados, que apontaram "manipulações tipográficas" e "fabricação digital" em uma ficha reproduzida pela Folha na edição do último dia 5 de abril. A ficha contém dados e foto de Dilma e lista ações armadas feitas por organizações de esquerda nas quais a ministra militou nos anos 60. Dilma nega ter participado dessas ações. A imagem foi publicada pela Folha com a seguinte legenda: "Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu".

O laudo produzido pelos professores do Instituto de Computação da Unicamp (Universidade de Campinas) Siome Klein Goldenstein e Anderson Rocha concluiu: "O objeto deste laudo foi digitalmente fabricado, assim como as demais imagens aqui consideradas. A foto foi recortada e colada de uma outra fonte, o texto foi posteriormente adicionado digitalmente e é improvável que qualquer objeto tenha sido escaneado no Arquivo Público de São Paulo antes das manipulações digitais". O laudo produzido pelo perito Antonio Nuno de Castro Santa Rosa da Finatec (Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos), ligada à UnB (Universidade de Brasília), chega às mesmas conclusões.

A ministra anexou o laudo da Unicamp em carta ao ombudsman da Folha. "Diante da prova técnica da falsidade do documento, solicito providências no sentido de que seja prestada informação clara e precisa acerca da "ficha" fraudulenta, nas mesmas condições editoriais de publicação da matéria por meio da qual ela foi amplamente divulgada, em 5 de abril de 2009", escreveu Dilma.Em reportagem publicada no dia 25 de abril, intitulada "Autenticidade de ficha de Dilma não é provada", a Folha reconheceu ter cometido dois erros na reportagem original. O primeiro foi afirmar, na Primeira Página, que a origem da ficha era "o arquivo [do] Dops". Na verdade, o jornal recebera a imagem por e-mail. O segundo foi tratar como verdadeira uma ficha cuja autenticidade não podia ser assegurada, bem como não podia ser descartada.

O jornal também publicou um Erramos com os mesmos esclarecimentos. A ministra se disse insatisfeita, questionou a nova reportagem e decidiu contratar um parecer técnico. Para a análise, os professores descartaram a imagem da ficha reproduzida pela Folha em sua edição impressa. Captaram na internet cinco imagens "com conteúdo similar ao utilizado pelo jornal Folha de S.Paulo". Dentre elas, escolheram como "objeto do laudo" a imagem divulgada no blog do jornalista Luiz Carlos Azenha, que reproduz artigos que criticam o jornal e questionam a autenticidade da ficha. Para os peritos, a imagem do blog era a que tinha "a maior riqueza de detalhes". Goldenstein disse à Folha que "todas as imagens são de uma mesma família" e que a qualidade da imagem publicada pelo jornal não é boa o suficiente para "análise nenhuma". Os professores compararam a imagem com documentos reais que supostamente teriam alguma semelhança (papel, caracteres) com a ficha questionada. Trata-se de cópias de fichas de presos pela ditadura, hoje abrigadas no Arquivo Público paulista. Escolheram as produzidas entre 1967 e 1969.

Contudo, no Erramos e na reportagem publicados no final de abril, a Folha havia explicado que a origem da ficha não era o Arquivo Público. A imagem não é datada -relaciona eventos ocorridos entre 1967 e 1969, mas pode ter sido produzida em data posterior. Para concluir que a fotografia foi "recortada e colada", os professores compararam a foto de Dilma com fotos que encontraram no mesmo arquivo. A ficha questionada não informa que a foto de Dilma foi obtida naquele arquivo. Sobre a impressão digital contida na ficha, os peritos apontaram não ser possível nenhuma conclusão, devido à baixa qualidade da imagem.

Crimes negados

Ouvido pela Folha na última quinta-feira, Goldenstein disse que não leu o blog do jornalista em que captou a imagem analisada e tampouco a reportagem original da Folha. "Não estou criticando o que a Folha fez. Vou ser bem sincero, eu nem li a reportagem original da Folha. Não cabe a mim julgar absolutamente nada. Meu papel é analisar essas imagens digitais que estão circulando na internet. O que a ministra me pediu: "É possível verificar, é possível um laudo sobre a autenticidade/origem da imagem? É possível dizer se vieram ou não do Arquivo Público?"." Doutor em ciência da computação pela Universidade de Pennsylvania (EUA), ele diz que foi o primeiro laudo externo que produziu em sua carreira. A ficha questionada era uma das imagens que ilustrava a reportagem original cujo título foi: "Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto". Na carta à Folha, Dilma escreveu: "Reitero que jamais fui investigada, denunciada ou processada pelos atos mencionados nesse documento falso e de procedência inidônea, ao qual não se pode emprestar nenhuma credibilidade". A Folha tem procurado checar a autenticidade da ficha. Foram contatados três peritos de larga experiência na análise de documentos e um especialista em imagens digitais. Todos disseram que teriam dificuldades em emitir um laudo, pois necessitavam do original da ficha, que nunca esteve em poder da reportagem. Disseram que a análise de uma imagem contida num e-mail não seria suficiente para identificar uma eventual fraude.

Seleção Brasileira Evangélica de Futebol?

Do blog do sempre atento jornalista Maurício Stycer, um texto muito interessante, desta vez sobre a mistura de fé e futebol. O autor destas Entrelinhas concorda: coisa boa daí não sai. E, com todo respeito aos religiosos do escrete canarinho, é sempre bom ter algum jogador menos careta, de preferência ateu mesmo, para assustar a zaga adversária. Um time formado em conventos pode até dar espetáculo, mas dificilmente ganha Copa do Mundo.
Abaixo, na íntegra, o texto de Stycer.

Fervor religioso nos gramados causa constrangimento

As cenas de fervor religioso exibidas pela seleção brasileira depois da conquista da Copa das Confederações ainda repercutem no mundo. Ao ver os jogadores brasileiros ajoelhados rezando no meio do gramado, comandados pelo zagueiro Lucio, um narrador da rede britânica BBC observou que o capitão da seleção “parecia um pregador evangélico pela emoção com que proferia cada palavra”. Em texto publicado em seu blog, no site da BBC, o jornalista Ricardo Acampora escreveu:
“Num lugar como a Grã-Bretanha, onde o povo está acostumado a conviver respeitosamente com diferentes religiões, surpreende o fato de atletas usarem a combinação entre um veículo de grande penetração como a televisão e a enorme capacidade de marketing da seleção brasileira, para divulgar mensagens ligadas a crenças, seitas ou religiões.”
E disse ainda:
“Se arriscam a serem confundidos com emissários de pregadores dispostos a aumentar o número de ovelhas de seus rebanhos às custas do escrete canarinho, como emissários evangélicos em missão. Para os críticos deste tipo de atitude, isso soa oportunismo inadequado e surpreende ver que a Fifa não se opõe a que jogadores se descubram do “manto sagrado” que os consagrou para exibir suas preferências religiosas.”
A repercussão negativa não se restringiu à Inglaterra. O jornal “O Estado de S.Paulo” informa nesta quinta-feira que a Fifa “mandou um alerta à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pedindo moderação na atitude dos jogadores mais religiosos”. Escreve o jornalista Jamil Chade:
“Com centenas de jogadores africanos, vários países europeus temem que a falta de uma punição por parte da Fifa abra caminho para extremismos religiosos e que o comportamento dos brasileiros seja repetido por muçulmanos que estão em vários clubes europeus hoje. Tanto a Fifa quanto os europeus concordam que não querem que o futebol se transforme em um palco para disputas religiosas, um tema sensível em várias partes do mundo. Mas, por enquanto, a Fifa não ousa punir a seleção brasileira.”
Ouvido pelo jornal, Jim Stjerne Hansen, diretor da Associação Dinamarquesa, confirmou que pediu à Fifa que tome providências no sentido de reprimir manifestações como as realizadas pela seleção brasileira na África do Sul.
Como no domingo, depois de Brasil e Estados Unidos, nesta quarta-feira, ao final de Corinthians e Internacional, alguns jogadores da equipe paulista vestiram sobre o uniforme uma camiseta com as palavras “I Love Jesus”. Mas, diferentemente do que ocorreu na Copa das Confederações, foram manifestações isoladas, e não houve em campo nenhum ato religioso promovido pelo grupo corintiano.

Uma capa assim, só no HP

O jornal Hora do Povo é muito divertido, suas manchetes chamam atenção (é esta a função dos títulos em jornalismo, não dá para oferecer algo como "Michael Jackson morre aos 50" ou coisa similar, como fez, por exemplo, a Folha de S. Paulo), e o periódico traz notícias que a grande imprensa esconde. A capa da edição reproduzida abaixo é prova viva desses bons atributos do jornal.

Uma notícia, três manchetes

No G1, portal das Organizações Globo:
Indústria aumenta produção pelo quinto mês, aponta IBGE

No Estadão.com, do Grupo Estado:
Produção industrial sobe 1,3% em maio, a quinta alta consecutiva

No UOL, do Grupo Folha:
Produção industrial tem pior resultado desde 1991

É evidente que a notícia que merece ser destacada nos números divulgados pelo IBGE é a reação da indústria, pelo quinto mês consecutivo. O pessoal da Folha, porém, não aguenta dar notícia boa para o governo Lula e escolhe sempre o viés mais negativo possível. Sim, a produção industrial tem o pior resultado desde 1991, mas isto não se deve ao comportamento da indústria no mês de maio, propriamente, e sim à enorme queda que ocorreu entre novembro e janeiro. Como a comparação utilizada pela folha é do acumulado do ano (queda de 5,1% nos últimos doze meses encerrados em maio), a estatística é afetada pelo período bravo da crise.

Números, porém, devem servir para explicar a realidade ao leitor. É bom que ele saiba que a crise foi grave, mas muito mais importante é informá-lo sobre os rumos dos acontecimentos. E aí a Folha/UOL desprezam o óbvio: a retomada está em curso, pelo quinto mês consecutivo, no setor industrial. Mas nem adianta espernear, a Folha tem mesmo o rabo preso com as más notícias e compromisso com a derrubada da popularidade do governo Lula. Dá até uma certa pena.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Ruim assim, pior assado

Entre todos os partidos políticos, o PT está fazendo o papel mais ridículo na atual crise do Senado. Apoiar Sarney é uma posição politicamente defensável, tanto quanto pedir a sua saída da presidência do Senado. Ridículo é decidir uma coisa e depois voltar atrás e defender a posição oposta. O PT não era assim...

Enquanto isso, na Câmara...

Da Folha Online, matéria que dispensa comentários. Este blog já apontou aqui: a Câmara está passando ilesa por causa da crise no Senado. Afinal, foi lá que tudo começou, com o deputado do Castelo e a já célebre Agência de Viagens Câmara Federal Ltda. Os deputados estão mesmo se lixando enquanto a alegre turma da internet brada o "Fora Sarney"...

Conselho de Ética da Câmara absolve Edmar Moreira

da Folha Online
O Conselho de Ética da Câmara decidiu nesta quarta-feira, por nove votos a quatro e uma abstenção, absolver o deputado Edmar Moreira (sem partido-MG) da acusação de quebra de decoro parlamentar.
O relator do caso, deputado Nazareno Fonteles (PT-PI), havia sugerido em seu parecer a cassação do mandato do deputado. O relatório foi apresentado no último dia 17, mas houve pedido de vista e a sessão foi adiada para hoje.
O deputado Moreira Mendes (PPS-RO) sugeriu uma pena alternativa e alegou falta de provas para condenar Moreira. "O mandato é meu e vou votar de acordo com minha consciência. (...) [O deputado Edmar Moreira teve ato] atentatório contra o decoro parlamentar, mas não incompatível com o decoro", afirmou. "Proponho uma alternativa, de que tenha a suspensão de prerrogativas, como usar a palavra, se candidatar a membro da Mesa."
Em seu relatório, Fonteles afirma haver indícios da não prestação dos serviços de segurança nas empresas da família de Moreira, apesar de o deputado ter justificado o uso da verba indenizatória da Casa para a sua segurança pessoal.
Na opinião de Fonteles, o uso da verba indenizatória no pagamento de serviços de segurança em empresas de Moreira "violou os princípios constitucionais da legalidade, da impessoalidade e da moralidade".
O relator afirma que o parlamentar não negou ter utilizado a verba indenizatória da Casa para pagar serviços de segurança prestados por empresas de sua família --o que constitui, segundo Fonteles, procedimento incompatível com o decoro parlamentar.
"O princípio da moralidade traduz o raciocínio de que os agentes públicos não devem somente obedecer e estar em conformidade com a lei, mas em suas atividades, no seu agir, trilhar nas sendas do que é justo, honesto e probo", diz o relator no parecer. "A conduta do representado está plenamente caracterizada como procedimento incompatível com o decoro parlamentar", afirma.
Acusações
Moreira é acusado de justificar gastos com a verba indenizatória --benefício mensal de R$ 15 mil para deputados cobrirem gastos nos Estados-- com notas fiscais de suas próprias empresas de segurança. Na época não existia uma regra clara sobre essa prática. A suspeita é de que os serviços não eram prestados.
Outra questão que complica o caso de Edmar, que é dono de um castelo avaliado em R$ 25 milhões, é o fato de que o valor gasto pelo deputado com os serviços de segurança é o dobro previsto na Lei de Licitações.
Em depoimento no Conselho de Ética, ele também se complicou ao evitar responder perguntas do relator e ao se contradizer sobre a relação com o tenente reformado da Polícia Militar de Minas Gerais, Jairo Lima --apontado por ele como responsável por sua equipe de segurança.
Lima foi funcionário do gabinete do filho de Edmar, o deputado estadual Leonardo Moreira (DEM-MG), que acompanhou ao lado do pai e do irmão Júlio a leitura do parecer de Fonteles ao Conselho de Ética.
A suspeita é que Lima seria laranja do deputado para comprovar os serviços de segurança privada pagos com a verba indenizatória. O contrato assinado por Lima não tem data comprovando quando foi assinado e nem especifica o serviço prestado.
Edmar nega as acusações e afirma que seu processo por quebra de decoro parlamentar foi um "cala boca" e que ele foi o "boi de piranha" para desviar o foco dos escândalos que atingiram a imagem da Câmara desde o início do ano.

Pausa esportiva

Mais uma promessa não cumprida pelo blog, que só voltaria a falar de futebol em 2010, quando o tricolor retorna aos campeonatos que realmente importam - Libertadores e Mundial. A razão do descumprimento é fortuita: em São Paulo, o dia hoje amanheceu colorado. Ou foi só impressão do blogueiro, que já está preparando o chimarrão para saborear à noite?

Venda de carros bate recorde

A crise está tão brava no Brasil que o pessoal resolveu estocar automóvel para não passar necessidade durante as turbulências. É o que se pode constatar dos dados do mês de junho, quando foram vendidas mais de 300 mil unidades no país. Os jornalões, porém, vão dizer que se trata de "antecipação de compra em função do IPI reduzido" - na reportagem abaixo, da Folha Online, já vai uma dica de como a notícia será apresentada ao distinto público amanhã, quando os dados forem confirmados. Bem, para a grande imprensa, a questão é bem simples: se o governo diminui o IPI, age irresponsavelmente porque a arrecadação cai; se mantém o imposto como estava, age irresponsavelmente porque prejudica um dos setores mais importantes da economia. Não há escapatória, Lula está sempre errado. Sempre, e principalmente quando acerta.

Com imposto menor, venda de veículos bate recorde em junho

GUILHERME BARROS
Colunista da Folha de S.Paulo

A venda de veículos novos bateu recorde em junho, alcançando 300.204 unidades, segundo dados obtidos pela Folha. O último dia do mês, ontem, também registrou a marca recorde de unidades comercializadas para um único dia: 24.151.
Os licenciamentos, indicador de vendas, cresceram 16,8% em junho frente maio (256.978 veículos) e 14,7% ante o mesmo período do ano passado (256.005). No primeiro semestre outro recorde: 1,45 milhão de veículos vendidos, alta de 2,8% sobre as vendas dos seis primeiros meses do ano passado (1,41 milhão).
O mercado automotivo voltou a tomar fôlego com a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) no último trimestre do ano passado, por três meses. A medida já foi renovada por duas vezes, sendo a última na segunda-feira.
O governo decidiu manter o benefício até setembro e anunciou a elevação gradual do imposto a partir de outubro, até o restabelecimento das alíquotas, em janeiro de 2010 (veja os valores abaixo).
A prorrogação do IPI também já levou a indústria automotiva a prever um novo recorde de vendas neste ano. Antes, previa queda de 3,9% em relação a 2008, ano que teve o melhor resultado da história, com venda de 2,820 milhões de unidades.
"Se continuarmos nesse ritmo, devemos ter o melhor ano da história", afirmou na segunda-feira Jackson Schneider, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), por ocasião do anúncio da prorrogação.
A desoneração tributária ocorre para estimular a economia e evitar demissões na indústria a automotiva. Em troca, o governo abre mão de uma parte da sua arrecadação. Entre janeiro e maio, a isenção teve um impacto de R$ 1,75 bilhão. Para o segundo semestre, a previsão é de mais R$ 1,4 bilhão em perda de receita.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Bovespa tem o melhor trimestre desde 2005

A oposição anda nervosinha e tem gente que não entende a razão. Está no título acima. Sim, a economia brasileira está andando, para frente, melhor do que boa parte dos demais países - todos, sem exceção, foram afetados pela crise nos Estados Unidos. Uns sofrem mais, outros sofrem menos. O Brasil parece mesmo estar no segundo time.

Ademais, se as coisas continuarem nesta toada, o presidente Lula poderá dizer, em 2010, que estava certo: a crise não passou de uma marolinha e durou pouco. A oposição apostava na crise econômica para derrubar a popularidade de Lula. Já viu que a aposta era uma canoa furada. No momento, o candidato mais forte da oposição à presidência, o governador José Serra (PSDB), aproveita seu tempo livre falando do Palmeiras no Twitter. A rigor, é das poucas manifestações públicas que se pode encontrar do ilustre ocupante do Palácio dos Bandeirantes. De vez em quando Serra finge que está bravo é dá um pau no Meirelles, o ex-tucano que cuida da taxa de juros no país. É a única crítica que Serra consegue oferecer - "os juros são altíssimos, escorchantes" e coisa e tal. Começa a lembrar o Brizola de antigamente, que vinha sempre com aquela conversa das perdas internacionais...

O fato é que o Brasil mudou. Como lembrava um amigo desta coluna, em 1985 Tancredo Neves dizia: "não vamos pagar a dívida externa com a fome do povo brasileiro". O Brasil estava à beira do precipício, em termos econômicos. Hoje, o Brasil pagou a dívida, empresta para os gringos, e o povão está comendo bem melhor. Vai ser difícil para Serra ou qualquer outro representante da oposição explicar que essas coisas na verdade foram todas planejadas minuciosamente por um gênio da raça chamado Fernando Henrique Cardoso e que o seu sucessor barbudo só surfou no que já havia sido montando. Mentira, como se sabe, tem pernas curtas. O povão pensa fácil: minha vida melhorou? Pois é, parece que sim. É isto que dá voto e prestígio a Lula.

Já no andar de cima o presidente habilmente construiu uma base de apoio ao não colocar a faca no pescoço dos que já acumularam renda e patrimônio para viver meia dúzia de gerações sem trabalhar. Essa gente estava assustada em 2002, afinal Lula poderia ser uma espécie de vingador do povaréu. Como o presidente é apenas um homem da esquerda moderada, os suspiros de alívio se transformaram menos em apoio entusiasmado e mais em uma postura de "melhor com ele do que com os aloprados petistas no comando".

É, vai ser parada muito dura para Serra ou qualquer outro candidato da oposição. Se bobear, a eleição repete o padrão de 2006, quando Alckmin investiu no neoudenismo, conquistou uma classe mérdia que jamais engoliu o ex-operário, e o resto vai de Dilma ou quem Lula beijar a testa. Pode até ser mais complexo do que isto, mas hoje a tendência é de que as coisas se resolvam com muita simplicidade. A ver...

Sarney subiu no telhado

O DEM decidiu apoiar o "licenciamento" de José Sarney do cargo de presidente do Senado durante um período destinado à investigação das falcatruas na Casa. Não foi um abandono completo, mas os democratas avisaram, com a sutileza que são capazes, que o gato subiu no telhado. O gato, no caso Sarney, pode até ter sete vidas, mas uma delas está por um fio. Resta agora saber como o PT vai agir. Se puxarem o tapete do ex-presidente da República, sobra apenas o PMDB na sua sustentação. É muito pouco.

O DEM continuará a apoiar Sarney?

A grande decisão política de hoje cabe ao partido Democratas, que se reunirá em Brasília para decidir se continua apoiando o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Como se sabe, o DEM foi diretamente responsável pela eleição de Sarney, pois PSDB e PT estavam fechados com Tião Viana e havia defecções no PMDB - alguns votos foram para Tião. É uma situação até surreal: Sarney é governista e inimigo de José Serra (PSDB), o candidato a presidente preferido por nove entre dez democratas para a eleição de 2010. No entanto, o DEM elegeu e até agora sustenta Sarney no cargo. Por que? A razão é simples e tem a ver com o perfil do partido, constituído por oligarcas de vários estados, especialmente na região nordeste (mas também em Santa Catarina, onde Jorge Bornhausen sempre agiu como um autêntico coronoel). Ou seja, os nobres parlamentares "demos" são iguaizinhos a José Sarney, praticamente não se distinguem, são unha e carne. É claro que em uma congregação de oligarcas, muitas vezes há disputa de interesses - foi assim quando Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho só faltaram ir às vias de fato no plenário do Senado - mas em geral essa gente se acerta. A situação de Sarney é complicada e o apoio do DEM, fundamental. Se perder esta sustentação, o presidente do Senado passa a correr riscco real de perder o cargo. Se o DEM continuar apoiando, Sarney pode durmir tranquilo. Não será um Arthur Virgílio da vida a derrubá-lo da cadeira de presidente da Casa.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Em que tucano confiar: Aécio ou Virgílio?

A nota reproduzida ao final deste comentário é do blog do jornalista Josias de Souza. Enquanto o senador Arthur Virgílio (PSDB-AP) xingava de coisas bem feias o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o governador Aécio Neves, correligionário de Virgílio, assoprava. Qual a diferença entre Aécio e Virgílio? Bem, uma diferença notável é a quantidade de votos de cada um. Aécio se reelegeu governador de Minas Gerais com mais de 60%, Virgílio perdeu o governo do Amazonas com menos de 10%. A outra é de estilo. Aécio faz política desde muito jovem, sempre agregando, sempre dialogando. Herança de seu avô Tancredo.

Arthur Virgílio é o oposto do hábil mineiro, age com o fígado, já prometeu "dar uma surra" no presidente Lula. Sua patética performance no Senado nesta segunda-feira e a prova cabal da falta de talento do líder tucano, que muito disse e pouco explicou. Afinal, qual foi o valor que emprestou de Agaciel Maia? Quem pagava a internação hospitalar da mãe do senador amazonense? E vai devolver os R$ 700 mil gastos no tratamento daquela senhora?

No fundo, política é sempre uma questão de estilo. Aécio está revelando a sua, é alguém com quem dá para sentar e conversar civilizadamente. De Arthur Virgílio, melhor guardar distância. Resta saber o que José Serra acha de tudo isto. Se bem que ultimamente o governador de São Paulo não acha nada sobre coisa alguma. Pelo menos não em público.

Abaixo a matéria do blog do Josias.

Aécio Neves destoa do PSDB e defende José Sarney

Num dia em que Arthur Virgílio (PSDB-AM) subiu à tribuna para pedir o afastamento de José Sarney, o governador tuano Aécio Neves remou noutra direção.
Em entrevista, Aécio disse que o Senado “tem problemas”. Mas afirmou ter “convicção” de que Sarney “saberá enfrentá-los”.
O governador mineiro não chegou a dizer que Sarney não pode ser tratado como “uma pessoa normal”, mas chegou perto disso:
Acha que Sarney "teve um papel muito importante no momento talvez mais importante das últimas décadas”. Que momento? “A transição democrática”.
A prevalecer esse entendimento, inaugurado por Lula, Sarney disporia de anistia prévia, concedida pela história, contra qualquer acusação que se lhe faça.

PS em 30/06: Um leitor amigo do blog lembra que foi ACM Neto e não Arthur Virgílio que prometeu "dar uma surra" no presidente Lula. É verdade. Virgílio foi um pouquinho mais sutil, disse o seguinte no final de 2005: "Eu duvido que tenha neste país, uma pessoa - pode ser o Presidente Lula, o Delúbio, o segurança do Lula, qualquer um- alguém que tenha coragem ousadia física de fazer mal a filho meu, à minha esposa sem que eu cobre do jeito que eu achar que eu devo como homem uma resposta muito drástica para uma afronta desse tipo. (...) Se isso é uma tática para intimidar aqui e intimidar acolá, eu já disse ainda há pouco que mexer comigo com meus valores, sobretudo envolvendo minha família é tão grave e dá uma confusão tão feia quanto passar a mão no bumbum da namorada do Mike Tyson num bar". Arthur Virgílio se acha um Mike Tyson. Devia lembrar como acabou a carreira do grande campeão.

Uma dupla demolidora

Está lá no Twitter do governador José Serra (PSDB), postado agora pouco:

joseserra_ Às 22h, longa entrevista ao Chalita na TV Canção Nova, canal 96 da Sky. Ou pela internet: www.cancaonova.com.br. Vou contar muita história.
12 minutes ago from web


Se o leitor tem alguma tendência masoquista, gosta de sofrer, este blog aconselha vivamente o programa. Serra sozinho já é complicado, contando "muita história" para o filósofo Gabriel Chalita, então, deve ser mesmo de lascar...

Yeda: uma comédia de erros e horrores

Está no UOL, nem vale a pena reproduzir a íntegra, o lide já basta. Vai o link para quem quiser se aprofundar. É claro que a governadora gaúcha Yeda Crusius (PSDB) não pode ter um bom secretário de Transparência, tudo que ela precisa é do oposto, um encarregado em opacidade, para tentar esconder as falcatruas cometidas com as sobras do caixa dois recolhido na campanha eleitoral. No dia em que ela conseguir explicar a compra da sua mansão (e o valor real da dita cuja), dá para começar a conversar. Transparência, com os tucanos é assim: é bom, però no mucho...

Alegando falta de apoio de Yeda, secretário da Transparência deixa o governo do RS

Flávio Ilha Especial para o UOL Notícias em Porto Alegre

Oito meses depois de assumir a Secretaria da Transparência do Rio Grande do Sul, o secretário Carlos Otaviano Brenner de Moraes está deixando o governo gaúcho. Ele pediu demissão e reclamou da falta de apoio da governadora Yeda Crusius (PSDB) à política de saneamento administrativo.
Na última sexta-feira (26), um relatório elaborado por Moraes recomendou o afastamento da secretária Walna Villarins Meneses, assessora direta da governadora, até que seja apurada a sua participação em episódios investigados pela Polícia Federal na Operação Solidária.
Além do afastamento de Walna, o secretário de Transparência recomendou a abertura de uma sindicância para apurar as denúncias contra a secretária. A governadora não deve acatar a sugestão por considerar inconsistentes as evidências contra a sua assessora. O relatório foi entregue ao chefe da Casa Civil, José Alberto Wenzel.

Crise? Venda de carros será recorde

É até engraçado: vai ter gente dizendo que a crise é gravíssima e o governo está dando sopa para o setor automobilístico. Abaixo, matéria da Folha Online a respeito da redução do IPI e as previsões da indústria.

Com IPI menor, indústria prevê melhor ano da história em venda de veículos

EDUARDO CUCOLO
da Folha Online, em Brasília

O presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Jackson Schneider afirmou nesta segunda-feira que a prorrogação do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) menor para veículos pode garantir à indústria o melhor ano em vendas internas da história. Até o mês passado, a Anfavea previa queda nas vendas.
O executivo não adiantou em quanto pode ser o crescimento. Em 2008, o Brasil registrou vendas internas de 2,820 milhões de unidades.
Para este ano, a previsão da indústria era de queda de 3,9% nas vendas, para 2,710 milhões de veículos. Agora, com IPI menor até dezembro, o desempenho deve ser positivo.
"Se continuarmos nesse ritmo, devemos ter o melhor ano da história", afirmou
Segundo o executivo, o primeiro semestre do ano já apresentou resultados positivos, puxados pelo benefício fiscal. "Devemos fechar o primeiro semestre deste ano com um numero maior de vendas no mercado interno do que fizemos no primeiro semestre de 2008, que já foi recorde", afirmou.
O presidente elogiou as medidas anunciadas pelo governo nesta segunda e disse que estão dando os resultados esperados.
Segundo o presidente da Anfavea, as vendas chegaram a cair cerca de 20% no último trimestre de 2008, em comparação anual, e continuavam caindo.
"Estávamos com mais de 300 mil carros em pátio. Se nós não tivéssemos essa redução de IPI, provavelmente a história da indústria automotiva brasileira em termos de desempenho nesse ano teria sido terrivelmente pior."
Para Schneider, o mercado brasileiro tem demanda reprimida e muito espaço para crescer, e comparou com a Argentina. Segundo ele, no Brasil, a relação é de 8,1 habitantes por veículo. Na Argentina, é de cerca de 5.
Produção
De acordo com a previsão feita antes da prorrogação do IPI, a produção de veículos deveria ficar em 2,860 milhões de unidades em 2009, queda de 11,1% em relação a 2008. A Anfavea ainda não comentou se essa previsão será alterada. Até maio deste ano, a produção atingiu 1,187 milhão de veículos, queda de 14,2% em relação ao mesmo período do ano passado.
O mercado externo ainda é o principal responsável por esse recuo. As exportações de veículos caíram pela metade de janeiro a maio deste ano em relação ao mesmo período de 2008. Para o ano, a Anfavea prevê queda de 39%, para US$ 8,5 bilhões.

Kotscho e a hipocrisia de Serra

Muito bom o texto do jornalista Ricardo Kotscho, em seu blog. Vai abaixo, na íntegra, para os leitores do Entrelinhas.

Serra ataca “loteamento” ao lado de Roberto Freire

O governador José Serra saiu dos seus cuidados neste final de semana e compareceu ao 16º Congresso Estadual do PPS (antigo Partido Comunista Brasileiro, hoje linha auxiliar da aliança PSDB-DEM), em Jaguariúna, no interior de São Paulo, a 134 quilômetros da capital.

Foi e voltou de helicóptero e ficou lá apenas 45 minutos, o suficiente para atacar o governo federal e o PT:

“O PT usa o governo como se fosse propriedade privada. Quando o PT foi para o governo, incorporou esse patrimonialismo do partido. Em São Paulo, não existe esse loteamento governamental, ao contrário do federal”.

Não existe? Serra esqueceu-se que estava ao lado do presidente do PPS, Roberto Freire, suplente do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), atualmente ganhando a vida como membro de dois conselhos municipais em São Paulo, embora seja do Recife e more em Brasília.

Ex-candidato a presidente da República, hoje Freire não se elege nem síndico em sua cidade, mas fatura R$ 12 mil por mes para participar de uma reunião mensal e assinar as atas da Emurb (Empresa Municipal de Urbanismo) e da SP-Turismo.

Quem lhe arrumou esta boquinha foi o próprio governador José Serra, em 2005, quando era prefeito de São Paulo. Mantida pelo seu sucessor Gilberto Kassab, a sinecura abriga hoje 58 conselheiros, que custam R$ 4 milhões por ano à Prefeitura.

Quem fez a denúncia, em janeiro deste ano, foi o repórter Fabio Leite, do Jornal da Tarde. Mas, ao contrário do que acontece no plano federal, não mereceu nenhuma repercussão na chamada grande imprensa. Em seu texto, Leite escreveu que esta “bondade administrativa visa acolher aliados e engordar os salários dos secretários municipais”.

Até hoje esta informação não foi desmentida nem se tem notícia de que Roberto Freire, fiel à sua cruzada de paladino da moralidade alheia, tenha aberto mão da bem remunerada boquinha.

Em Jaguariúna, como anfitrião do governador, ele aproveitou para atacar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo federal, que “não anda no país, o que anda é a corrupção”, segundo noticiário da Folha.

Antes de pegar o helicóptero de volta para São Paulo, Serra, que não foi perguntado sobre a aparente contradição entre o que falou sobre “loteamento” e a condição do conselheiro Freire, ainda garantiu aos ex-comunistas que fará “o possível para atender aos pedidos dos prefeitos do PPS”.

Ultradireita brasileira diz que
golpe em Honduras é "democrático"

Chega a ser risível a reação dos blogueiros direitosos - Reinaldo Azevedo e o tal Coronel do Coturno Noturno à frente - em relação ao golpe de Estado em Honduras. Não adianta a OEA (comunistas?) e os EUA (bolcheviques?) condenarem a quartelada, o pessoal acha que a "democracia" foi a grande vitoriosa no país da América Central. Golpe, para essa gente, só vale se for praticado por Hugo Cháves, Evo Morales e demais governantes de esquerda do continente americano - "golpes" esses, aliás, apoiados em mudanças constitucionais legítimas e acompanhadas por observadores internacionais. Realmente, dá vontade de rir da falta de senso da ultradireita brasileira. Mas é melhor não rir, porque se depender deles, o que vale em Honduras deveria valer na América Latina toda.

Domingo, 28 de Junho de 2009

Dois pesos, duas medidas

Nada contra a decisão do governador José Serra (PSDB) revelada na matéria abaixo, do jornal O Estado de S. Paulo de domingo. Mas fica a pergunta: se os mesmos atos tivessem sido anunciados pelo presidente Lula, a notícia teria este tratamento neutro e até simpático ou o jornalão teria caído matando nas "tentações autoritárias" do governo petista? Afinal, blog do Lula não pode, Twitter do Serra pode?

Serra amplia comunicação online

Governador tira restrição a ferramentas sociais para que órgãos do governo usem redes como Twitter e Orkut

Clarissa Oliveira

Acompanhado em tempo real por mais de 14 mil pessoas no Twitter, o governador José Serra (PSDB) decidiu afrouxar as restrições ao uso da internet em todos os níveis da administração estadual, para que ferramentas sociais sejam utilizadas para prestar contas da gestão, divulgar realizações do governo e melhorar o relacionamento com o cidadão. Cotado para disputar a Presidência no ano que vem, Serra passará a contar com uma rede mais ampla de comunicação com cidadãos.
A nova orientação começa a valer hoje, com a publicação de uma resolução da Secretaria de Gestão no Diário Oficial, determinando que pastas e órgãos de governo revejam seus critérios de acessibilidade. Atualmente, não há uma proibição centralizada ao uso dessas ferramentas. A Secretaria de Comunicação, por exemplo, já mantém perfis ativos em diversas redes sociais. Mas várias áreas da administração paulista possuem políticas próprias de restrição a alguns ou a todos esses sites.
O texto da resolução pede que seja autorizado o acesso a redes sociais, blogs, wikis e serviços de compartilhamento de arquivos, como vídeos, áudio e planilhas. Assim, os órgãos poderão se comunicar com cidadãos em sites como Orkut, YouTube, Facebook, Flickr, além do Twitter, onde Serra mantém seu próprio miniblog. Dos cadastros de relacionamento mantidos pela administração, diz a resolução, deverão constar endereço de e-mail e telefone celular para contato.
O texto também prevê que órgãos do governo se comuniquem com cidadãos por mensagem de texto no celular, desde que seja obtida autorização prévia do usuário. Nesse caso, surge a possibilidade de confirmar o agendamento para a emissão de um documento no Poupa Tempo, enviar um lembrete sobre uma consulta médica ou divulgar a realização de eventos.
CANAIS
Com as ferramentas sociais, a administração deixa de depender da iniciativa própria do cidadão de entrar no site do governo, para buscar informações. Esses dados poderão ser levados diretamente ao usuário, por meio de uma mensagem no Twitter ou um post no Orkut. Além disso, o governo ganha a chance de multiplicar seus canais de comunicação.
"O governo está se preocupando em instituir normas, diretrizes e políticas nessa área de gestão do conhecimento e inovação. É mudar processos de trabalho, formas de relacionamento e estar mais próximo do cidadão", afirmou Roberto Agune, coordenador do Grupo de Apoio Técnico à Inovação (Gati) da Secretaria de Gestão Pública do governo.
Ele citou como exemplo dessa abordagem a última eleição americana, em que o hoje presidente Barack Obama fez amplo uso da internet para se promover junto ao eleitorado. Mas nega que a implantação desse modelo no governo paulista tenha qualquer relação com a eleição de 2010. "A sociedade tem todos os mecanismos legais para verificar que o governo está fazendo o uso correto disso", rebateu Agune, acrescentando que o foco é melhorar o relacionamento e a prestação de serviços ao cidadão. "É obrigação do governo, e isso está na Constituição, prestar contas à sociedade", completou.
Segundo Agune, o alívio nas restrições ao uso da internet é mais uma etapa de uma estratégia iniciada em 2004. No início deste ano, Serra estabeleceu em decreto as diretrizes para uma política de gestão do conhecimento e inovação.
Entre os objetivos listados está a "promoção da transparência na gestão pública por meio do provimento de informações governamentais ao cidadão, possibilitando a crescente capacidade de participar e influenciar nas decisões político-administrativas que lhe digam respeito".
Agune esclareceu que a nova política não significa que o governo tenha afrouxado sua segurança de internet, que hoje está a cargo da Prodesp. Um relatório referente ao primeiro trimestre deste ano mostrou que foram barradas mais de 6 mil tentativas de ataque virtual na estrutura de tecnologia do governo.

Pausa esportiva

Quebrando a promessa, temos aqui a volta das "pausas esportivas" do blog. É que um amigo do Entrelinhas, com ótimos contatos na diretoria do São Paulo Futebol Clube, garante: Ricardo Gomes foi uma solução temporária para comandar a equipe e ficará no cargo de técnico até o começo do próximo ano, quando Luiz Felipe Scolari assume o tricolor com a missão de sempre: disputar o mundial interclubes. Porque qualquer outra coisa é café pequeno para o glorioso tricolor do Morumbi. Quem viver, verá.

Folha: peidei, mas não fui eu

Este blog pede desculpas pela má expressão do título acima, mas não há nada mais apropriado do que a frase, popularizada em uma camiseta estampada do cantor Lobão, para o texto abaixo, da edição deste domingo da Folha de S. Paulo. É a segunda vez que o jornal volta ao assunto para se explicar. A história é simples. A Folha publicou uma "ficha" da ministra Dilma Rousseff, grosseiramente falsificada, e não consegue admitir que errou. Na primeira retificação, disse que não era possível provar a autenticidade da ficha (leia-se: publicamos uma mentira sem checar). Agora, saiu o laudo encomendado pela ministra: a ficha é mesmo falsa. E a Folha continua enrolando seus leitores: não escreve com todas as letras que publicou uma cascata, tenta salvar sua pele mas a emenda saiu pior que o soneto, conforme os leitores do Entrelinhas podem constatar a seguir:

Dilma contrata laudos que negam autenticidade de ficha

Imagem ilustrava reportagem da Folha; peritos não se basearam no jornal impresso

Professores compararam imagens reproduzidas pela internet com papéis do Arquivo Público; Folha reconheceu que ficha chegou por e-mail

DA REPORTAGEM LOCAL

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, encaminhou à Folha dois laudos técnicos, por ela custeados, que apontaram "manipulações tipográficas" e "fabricação digital" em uma ficha reproduzida pela Folha na edição do último dia 5 de abril.
A ficha contém dados e foto de Dilma e lista ações armadas feitas por organizações de esquerda nas quais a ministra militou nos anos 60. Dilma nega ter participado dessas ações. A imagem foi publicada pela Folha com a seguinte legenda: "Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu".
O laudo produzido pelos professores do Instituto de Computação da Unicamp (Universidade de Campinas) Siome Klein Goldenstein e Anderson Rocha concluiu: "O objeto deste laudo foi digitalmente fabricado, assim como as demais imagens aqui consideradas. A foto foi recortada e colada de uma outra fonte, o texto foi posteriormente adicionado digitalmente e é improvável que qualquer objeto tenha sido escaneado no Arquivo Público de São Paulo antes das manipulações digitais".
O laudo produzido pelo perito Antonio Nuno de Castro Santa Rosa da Finatec (Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos), ligada à UnB (Universidade de Brasília), chega às mesmas conclusões.
A ministra anexou o laudo da Unicamp em carta ao ombudsman da Folha. "Diante da prova técnica da falsidade do documento, solicito providências no sentido de que seja prestada informação clara e precisa acerca da "ficha" fraudulenta, nas mesmas condições editoriais de publicação da matéria por meio da qual ela foi amplamente divulgada, em 5 de abril de 2009", escreveu Dilma.
Em reportagem publicada no dia 25 de abril, intitulada "Autenticidade de ficha de Dilma não é provada", a Folha reconheceu ter cometido dois erros na reportagem original. O primeiro foi afirmar, na Primeira Página, que a origem da ficha era "o arquivo [do] Dops". Na verdade, o jornal recebera a imagem por e-mail. O segundo foi tratar como verdadeira uma ficha cuja autenticidade não podia ser assegurada, bem como não podia ser descartada.
O jornal também publicou um Erramos com os mesmos esclarecimentos. A ministra se disse insatisfeita, questionou a nova reportagem e decidiu contratar um parecer técnico.
Para a análise, os professores descartaram a imagem da ficha reproduzida pela Folha em sua edição impressa. Captaram na internet cinco imagens "com conteúdo similar ao utilizado pelo jornal Folha de S.Paulo". Dentre elas, escolheram como "objeto do laudo" a imagem divulgada no blog do jornalista Luiz Carlos Azenha, que reproduz artigos que criticam o jornal e questionam a autenticidade da ficha.
Para os peritos, a imagem do blog era a que tinha "a maior riqueza de detalhes". Goldenstein disse à Folha que "todas as imagens são de uma mesma família" e que a qualidade da imagem publicada pelo jornal não é boa o suficiente para "análise nenhuma".
Os professores compararam a imagem com documentos reais que supostamente teriam alguma semelhança (papel, caracteres) com a ficha questionada. Trata-se de cópias de fichas de presos pela ditadura, hoje abrigadas no Arquivo Público paulista. Escolheram as produzidas entre 1967 e 1969.
Contudo, no Erramos e na reportagem publicados no final de abril, a Folha havia explicado que a origem da ficha não era o Arquivo Público. A imagem não é datada -relaciona eventos ocorridos entre 1967 e 1969, mas pode ter sido produzida em data posterior.
Para concluir que a fotografia foi "recortada e colada", os professores compararam a foto de Dilma com fotos que encontraram no mesmo arquivo. A ficha questionada não informa que a foto de Dilma foi obtida naquele arquivo.
Sobre a impressão digital contida na ficha, os peritos apontaram não ser possível nenhuma conclusão, devido à baixa qualidade da imagem.

Crimes negados
Ouvido pela Folha na última quinta-feira, Goldenstein disse que não leu o blog do jornalista em que captou a imagem analisada e tampouco a reportagem original da Folha. "Não estou criticando o que a Folha fez. Vou ser bem sincero, eu nem li a reportagem original da Folha. Não cabe a mim julgar absolutamente nada. Meu papel é analisar essas imagens digitais que estão circulando na internet. O que a ministra me pediu: "É possível verificar, é possível um laudo sobre a autenticidade/origem da imagem? É possível dizer se vieram ou não do Arquivo Público?"."
Doutor em ciência da computação pela Universidade de Pennsylvania (EUA), ele diz que foi o primeiro laudo externo que produziu em sua carreira. A ficha questionada era uma das imagens que ilustrava a reportagem original cujo título foi: "Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto".
Na carta à Folha, Dilma escreveu: "Reitero que jamais fui investigada, denunciada ou processada pelos atos mencionados nesse documento falso e de procedência inidônea, ao qual não se pode emprestar nenhuma credibilidade".
A Folha tem procurado checar a autenticidade da ficha. Foram contatados três peritos de larga experiência na análise de documentos e um especialista em imagens digitais.
Todos disseram que teriam dificuldades em emitir um laudo, pois necessitavam do original da ficha, que nunca esteve em poder da reportagem. Disseram que a análise de uma imagem contida num e-mail não seria suficiente para identificar uma eventual fraude.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Lula: internet reduz poder da mídia tradicional

Com as devidas limitações de proporção - a mídia tradicional ainda tem um impacto muito maior do que a blogosfera -, o raciocínio do presidente Lula está correto: o peso do que sai na grande imprensa é cada vez menor e a internet é um importante meio de democratização dos veículos de comunicação. É quase óbvio, mas na boca de um presidente, pode ser tratado como apoio à tese de que quanto mais vozes e opiniões, melhor para o Brasil. Tem gente que não gosta de nada disto...

Lula diz que Internet reduz poder da imprensa tradicional

REUTERS, PORTO ALEGRE - A um mês do lançamento de um blog pelo Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira que o país nunca viveu um ambiente de liberdade de informação tão grande e, acredita que com o acesso cada vez maior à Internet, a imprensa tradicional está perdendo poder para os novos meios.

"Finalmente este país está tendo o gosto da liberdade de informação", disse Lula em discurso no 10o Fórum Internacional Software Livre em Porto Alegre (RS).

"Estamos vivendo um momento revolucionário da humanidade em que a imprensa já não tem o poder que tinha há alguns anos. A informação já não é mais uma coisa seletiva em que os detentores da informação podiam dar golpe de Estado", afirmou.

Pausa humorística

Abaixo, mais uma matéria impagável do grande rival do professor Hariovaldo Almeida Prado, revelando mais uma vez a campanha sórdida e descarada que o quatrocentão O Estado de S. Paulo realiza para tentar eleger Dilma Rousseff presidente do Brasil. Nivaldo Cordeiro se supera a cada dia que passa lá no Mídia sem Máscara... A direita brasileira é mesmo divertidíssima.

Estadão: persistência desinformativa

Nivaldo Cordeiro

Para o editor, dar destaque para míseros 8% de crescimento em relação a abril é mais substantivo do que anunciar a vigorosa queda de 40,7% em relação ao ano anterior.

Meu caro leitor, a persistência do jornal Estadão em criar fatos econômicos favoráveis inexistentes tangencia a demência, mas acreditar em loucura coletiva na editoria do jornal seria caridoso e definitivamente irrealista. A questão não é psiquiátrica, mas moral. Quero acreditar que tais atos de criação de fatos inexistentes não sejam meramente o resultado da troca por benefícios pecuniários governamentais pelas manchetes, ou a aquisição de prestígio político junto aos governantes do dia. Talvez haja nesses atos de mentira sistemática um grão de bondade, de que acreditem que as mentiras impressas, a hierarquizações maliciosa das notícias, possam ser favoráveis ao país. Estariam supostamente contribuindo para o bem comum.
Chamo a sua atenção para a nota do Caderno de Economia desta quinta feira: "Produção de aço tem crescimento de 8% em maio", em letras garrafais, seguindo um subtítulo que contradiz a manchete: "Na comparação com 2008 queda ainda é de 40,7%". Essa má fé jornalística é repugnante e serve tão somente para levar o leitor despreparado a tirar conclusões enganosas sobre a realidade. Impossível acreditar que algum bem mova esses mentirosos contumazes.
Notemos o advérbio "ainda". Por que o seu uso? Porque o editor quer fazer crer ao incauto leitor que a crise econômica já foi superada e que essa queda no comparativo é um ponto na curva ascendente em rumo da prosperidade, uma suposta superação da recessão. Quem é bem informado sabe que nada justifica qualquer conclusão nesse sentido.
O disparate fica mesmo por conta da desproporção das taxas. Para o editor, dar destaque para míseros 8% de crescimento em relação a abril é mais substantivo do que anunciar a vigorosa queda de 40,7% em relação ao ano anterior. Ninguém, no uso de suas faculdades racionais e morais, poderia deixar de perceber o que é estatística e economicamente mais relevante. Menos o editor estadônico, e suas vítimas, os leitores desavisados.
Essa maneira que o Estadão usa para mentir aos seus leitores é imoral.

Lula diz que só volta se oposição vencer

Muitos portais estão dando destaque para a frase do presidente Lula de que só disputará a eleição de 2014 se a oposição vencer a de 2010. Bem, é uma coisa até óbvia nas atuais circunstâncias, porque se Dilma vencer, teria direito à reeleição e não faria sentido para Lula concorrer outra vez. Bem, a x da questão é saber se as regras serão mesmo essas. Pelo andar da carruagem, a reeleição morre na próxima legislatura. E aí, com Dilma impedida, quem seria o candidato petista à presidência? Claro que Lula sabe disto, não nasceu ontem. O jornalista que o entrevistou, porém, não sabe ou não quis saber. Poderia ter perguntado sobre esta hipótese.

Pedro Alexandre Sanches:
Simonal e a ditabranca

O que vai abaixo é o início de um longo artigo do jornalista Pedro Alexandre Sanches, excelente repórter da revista Carta Capital. É uma visão bem distinta daquela apresentada por Mário Magalhães na Folha de S. Paulo, conforme noticiado aqui. Vale a pena ler na íntegra, o texto é bom e a história, fascinante. O leitor que tire sua conclusões.

SIMONAL, O BODE

copyleft PEDRO ALEXANDRE SANCHES

1999. Tocou o meu ramal telefônico no quarto andar da redação. Atendi. Era ligação lá de baixo, de uma das recepcionistas da Folha de S.Paulo, onde eu trabalhava. O cantor Wilson Simonal estava no saguão do jornal. Furioso, fora de si.
Pretenso Clark Kent de caricatura, vesti minha capa fajuta de super-herói de araque e desci para conversar com ele. Já que eu era o autor da entrevista que enfurecera um dos dois cantores brasileiros mais populares dos anos 1960 (o outro se chama Roberto Carlos), cabia a mim proteger e defender o jornal, a instituição, o prédio, os proprietários – e, bem, a mim mesmo – contra a (suposta) fera.
O que eu e Simonal conversamos, não faço a mínima idéia. Apaguei da memória, bloqueei. Só sei que não tive a gentileza e a generosidade de convidá-lo para entrar, sentar-se, tomar um café (bem, acho que eu não me sentia mesmo muito “dono” da “casa”...). E que aparei sozinho, ali mesmo no saguão, a emoção e a revolta do artista contra a entrevista que a Folha publicara no dia 21 de maio daquele ano e, de modo bem mais amplo, contra o exílio, o banimento, a morte de corpo presente que o Brasil lhe impunha desde ao menos 1974.
Lembro que, de transtornado no início, ele foi pouco a pouco serenando, ou melhor, deixando-se vencer pelo cansaço de uma situação que se repetia a cada nova entrevista, a cada vez que os jornalistas lembrávamos que ele ainda existia. Não esqueço, e jamais esquecerei, a expressão de desconsolo em seus olhos, do início ao fim da “conversa”.
Naqueles dias, eu, por minha parte, sabia pouco, ou quase nada, sobre tudo que acontecera a Simonal entre 1963 e 1974, hiato que o remeteu da ascensão e da fama absoluta ao mais indestrutível ostracismo. Como outros repórteres antes e depois, tateava a “notícia” (ou a não-notícia?) em “investigações” (investigações?) superficiais, desinformadas, crente de que sabia de tudo, sem saber de nada.
Aquela foi uma das quatro ocasiões de minha vida em que estive diante de Wilson Simonal. Logo depois, fui ao show motivador da reportagem “Proscrito, Simonal tenta cantar em SP”, que ele então estreava no teatro do hotel Crowne Plaza. Ao final de uma sôfrega e melancólica apresentação, fui cumprimentá-lo no minúsculo camarim, e o encontrei abandonado numa cadeira, passando mal, de cabeça baixa, olhando o chão. Aceitou meu cumprimento indiferente, sem esboçar reação.