segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Desesperar, jamais!

Este blog entra em período de recesso a partir de hoje e até dia 8 de janeiro, salvo acontecimentos extraordinários. De junho de 2006 até hoje, foram quase 1,7 mil postagens e sem dúvida uma evolução e tanto, na audiência e na repercussão do que foi escrito por aqui. Já temos alguns ilustres visitantes, segundo aponta o contador do blog, como o pessoal do Palácio do Planalto, que todo dia dá uma espiadinha no Entrelinhas. Professores universitários, formadores de opinião, parlamentares, assessores dos três poderes, tanta gente que deixa seu IP disponível para a consulta do curioso blogueiro. Com muita humildade, agradecemos as visitas ilustres. O que move o blog, porém, não são os figurões, mas o leitor anônimo e diário, aquele que sempre volta, manda comentários, discorda, concorda, envia os posts para os amigos, enfim, faz o Entrelinhas acontecer. Para todos, figurões, figurinhas, leitores fiéis e infiéis, para os que concordam e discordam da opinião do blogueiro, seguem os votos de um excelente 2009, com muita paz e felicidade. Vamos todos cruzar os dedos para que o Brasil não seja tão afetado pela crise mundial como desejam aqueles que já anunciam as trombetas do apocalipse. Tem muito jogo para ser jogado ainda e, como diz o Ivan Lins, não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo! Portanto, que 2009 nos seja leve e repleto de boas notícias. Até dia 8 e mais uma vez, obrigado a todos pela audiência.

Três cenários para 2009

O que vai abaixo é o artigo do autor do blog para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do Entrelinhas.


Já não são poucos os analistas que dizem ser mais fácil hoje escrever sobre como será o ano de 2010 do que o de 2009. A piada é engraçadinha, mas a verdade é que neste momento qualquer análise prospectiva, seja de curto, médio ou longo prazo, é muito complicada em função da crise financeira internacional, que ainda está em curso e cujos desdobramentos serão cruciais para o que vem pela frente. Este colunista não é advinho nem consulta videntes, de modo que o máximo que pode fazer é tentar esboçar alguns cenários para 2009 no Brasil, a partir de hipóteses sobre os efeitos da crise na economia mundial e nacional. Até porque, como diria o presidente Lula, nunca antes neste país (ou em qualquer outro) o jogo político ficou tão dependente dos acontecimentos econômicos como agora.

Muito a grosso modo, é possível vislumbrar três cenários para a atual crise - o otimista, o moderado e o pessimista. Comecemos, então, pelo último. Alguns economistas têm qualificado a crise financeira iniciada nos Estados Unidos como a "pior da história do capitalismo". Ainda que o diagnóstico seja um pouco precoce, há elementos que corroboram esta visão: os problemas começaram no coração do sistema (os EUA); já geraram perdas financeiras monumentais, que engessaram o funcionamento do mercado de crédito não apenas nos EUA, mas também na Europa, Ásia e em boa parte dos países emergentes; e vem se propagando com uma velocidade espantosa - em poucos meses a economia real de todo o planeta foi seriamente afetada.

Crise profunda na economia e na política

Na visão dos mais pessimistas, portanto, o que está em curso é um processo gravíssimo e que vai devastar a economia mundial, legando desemprego em toda parte, empobrecendo os ricos e deixando os pobres miseráveis. Dentro desta lógica, os esforços dos governos e bancos centrais seriam insuficientes para conter a crise, que no fundo representaria o despencar de um castelo de cartas fundado no financismo e na desregulamentação destas atividades mundo afora, mas mais especialmente nos Estados Unidos e Europa. Como as finanças alavancavam o crescimento do mundo produtivo, seria inevitável que uma quebradeira generalizada se instalasse em todos os países do mundo. Para quem tem esta leitura da crise, o processo será longo e doloroso, alguns já falam em décadas de turbulências, um ciclo recessivo ímpar na história da humanidade.

Se tal cenário for verdadeiro, não há muito o que dizer do ano de 2009 no Brasil. Historicamente, todos os períodos de crise política séria ocorreram em cenários de crise econômica. Foi assim quando os metalúrgicos de São Bernardo iniciaram as greves que mudaram a história do movimento sindical, logo após a onda de carestia de 1977; foi assim quando o povo saiu às ruas na campanha das Diretas Já, logo após a crise de 1981/2; foi assim no final do governo Sarney, com a inflação nas alturas e ônibus presidencial levando pedras no Rio de Janeiro; e foi assim também por ocasião do impeachment de Fernando Collor, após a mais severa recessão desde a democratização, em 1991/2.

Não há dúvida, portanto, que uma retração forte na economia terá consequências na esfera política. Como se pode ver, porém, nem sempre a crise política é concomitante com a econômica - muitas vezes as conseqüências políticas chegam um pouco depois. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sem dúvida bateu no teto de popularidade possível para um governante - é muito difícil alguém ultrapassar o patamar dos 85% de aprovação. Assim, mesmo com uma crise muito grave, é possível que Lula acabe perdendo parte do seu capital político, mas entregue o abacaxi para o seu sucessor(a). Neste caso, a crise cairia no colo do infeliz que for eleito pelas urnas em 2010, que ainda por cima teria seu governo comparado aos anos de bonança do lulismo...

Os mais pessimistas, porém, acreditam que nem mesmo os 80% de popularidade de Lula estariam imunes à crise. Neste caso, o cenário seria quase inimaginável, pois, para o bem ou para o mal, a depender do gosto do analista, Lula conseguiu em seu governo um pacto de governabilidade que deixou os setores mais radicais sem discurso e a elite satisfeita com a moderação da gestão petista. Se o povão se decepciona com Lula e o PT, na esfera política tudo vira de ponta cabeça. Não necessariamente os partidos de oposição seriam beneficiados, pois a decepção abarcaria toda a classe política. No cenário de colapso econômico e crise política séria, este colunista aposta mais em soluções do tipo messiânicas do que propriamente no discurso tecnocrático e frio de um José Serra ou Aécio Neves. Ciro Gomes poderia despontar como alternativa, mas a verdade é que neste caso qualquer político mais verborrágico poderia encantar o povão. Garotinho, Collor, Heloísa Helena ou, por que não, Protógenes Queiroz seriam nomes a serem levados em consideração para a eleição presidencial de 2010.

Para quantificar o que se apresentou aqui como cenário pessimista, seria uma situação em que o PIB brasileiro sofreria pelo menos alguma queda em 2009, talvez já com deflação e crise cambial instalada. O despemprego subiria para a casa dos 15%, ou seja, dobraria em um ano.

Segundo cenário: pouso forçado, mas sem avarias na aeronave

A hipótese dominante no momento, porém, é a moderada. A maior parte dos economistas prevê que a economia brasileira sofra um baque com a crise internacional, mas permaneça crescendo no ano que vem. Os analistas moderados falam em algo em crescimento em torno de 2% a 2,5% do PIB no próximo ano, o que, dadas as circunstâncias externas, não seria de fato nenhuma grande tragédia. O desemprego subiria um pouco, talvez para a casa dos 10%, mas as demais variáveis macroeconômicas permaneceriam sob controle, isto é, sem crise cambial e sem deflação ou inflação descontrolada.

Em tal cenário, é evidente que a popularidade do presidente Lula também seria afetada, provavelmente cairia dos estratosféricos 85% para algum patamar mais baixo, o qual é muito difícil mensurar, mas pode-se dizer que ainda acima dos 50%. No campo político, os grandes beneficiários na hipótese de impactos moderados da crise no Brasil seriam os políticos com discurso mais técnico e que se apresentam como experientes gestores de questões econômicas. Serra, sem dúvida, mas também Dilma Rousseff e Aécio Neves, para ficar nos mais cotados para a eleição de 2010. O PSOL, por exemplo, poderia pensar, em um cenário deste tipo, em uma alternativa mais consistente à histriônica Heloísa Helena. O diretor deste Correio, ex-deputado Plínio de Arruda Sampaio, seria um nome à altura do debate que estaria colocado na campanha de 2010. Até mesmo o DEM, se se desgarrasse dos tentáculos tucanos, teria o que dizer lançando, por exemplo, o ex-governador Cláudio Lembo à presidência do país.

Evidentemente, o aumento do desemprego e a retração econômica se colocariam seriam para o presidente Lula um desafio na manutenção do pacto que conseguiu selar em seu governo. Movimentos sociais e sindicatos voltariam às ruas, a pressão seria muito maior e pela primeira vez nestes dois mandatos o presidente teria de desagradar algumas das partes – elites ou povão. Mantendo a política econômica conservadora, a consequência aparece nas ruas; agindo de forma mais arrojada, perde o apoio no andar de cima. Deste movimento do presidente dependeria, em grande medida, a vitória de um campo ou outro, governo ou oposição, na eleição de 2010.

Descolamento da crise: Lula de novo?

Por fim, cabe analisar o cenário otimista para 2009. Crescimento do PIB acima de 2,5%, variáveis macroeconômicas em ordem, com o câmbio mais estável e um ligeiro acréscimo no desemprego é tudo que o governo deseja. Para que isto aconteça, há duas condições, talvez complementares: lá fora, o pacote prometido por Barack Obama já teria efeitos bastante contundentes e amainaria a crise mundial; e aqui dentro, o mercado interno sustentaria o crescimento da economia.

Se tudo isto acontecer, o presidente Lula terá a seu favor a tese de que a boa gestão da crise afastou dos brasileiros os graves problemas que afetaram os países ricos. Na boca de qualquer outro, soaria como bravata, na de Lula, será uma arma poderosa de marketing político, permitindo a ele manobrar tanto para permamencer no cargo por mais quatro anos, se for o seu desejo, ou para ajudar a eleger, em 2010, o seu sucessor.

Nada, mas nada mesmo, é pior para a oposição do que um "descolamento" do Brasil da crise internacional. Tal situação coroaria os oito anos de governo Lula, nos olhos do povão, como antítese da gestão tucano-pefelista, que sucumbiu em todas as crises internacionais que enfrentou. Não é preciso ser nenhum gênio para imaginar o presidente repetindo pelo país afora: "antes, o Brasil quebrava a cada pequena crise em países da periferia, na Ásia, na Rússia; agora, o país resiste até mesmo à maior de todas as crises já enfrentadas na história do capitalismo..." Ou, para ser mais simples: "nunca antes neste país..."

Tudo somado, quem quiser acompanhar a vida política brasileira em 2009 vai ter que se ligar na economia. É nesta esfera que estará sendo jogado o jogo político já com vistas às eleições gerais de 2010. Cada novo número será uma pista de qual dos cenários prevalece. Talvez lá pelo meio do ano já seja possível dizer o que está acontecendo com algum grau de precisão.

E a todos os leitores deste Correio, por fim, ficam os votos de um bom 2009, dentro do possível! Que o futuro brinde a todos com um país mais justo e próspero.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Até na Faixa de Gaza...

Tragédias à parte, a imagem abaixo não deixa dúvidas: além de hexa, o tricolor do Morumbi é um verdadeiro amuleto. O rapaz em questão conseguiu escapar das bombas israelenses. Desnecessário dizer o que teria acontecido se ele estivesse vestido com a número 9 do curintians...

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Quando menos se espera...

... eis que chega o Natal!
Este blog faz os votos de boas festas para todos os seus fiéis e infiéis leitores, com a sincera esperança de que 2009 não seja um ano tão complicado e negativo como deseja a grande imprensa brasileira. Muita paz e felicidade a todos!

Lula: Brasil tem comando e não quebrará

Para quem não viu, vale a pena assistir aos 8 minutos de pronunciamento do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Nação. O discurso, que foi ao ar terça-feira em rede nacional de rádio e televisão, é sereno, didático e muito seguro. Se Lula tem razão ou não, a história vai mostrar.


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Dor de cotovelo tem limites

A blogosfera direitosa está em polvorosa com a proeminência do ministro Franklin Martins no noticiário dos últimos dias – o ministro da Comunicação Social ganhou dois simpáticos perfis na Folha e Estadão no final de semana. Acusam o ex-guerrilheiro de... ex-guerrilheiro e reclamam do poder do ministro de determinar para onde são direcionadas as verbas da propaganda estatal (não era assim no tempo de FHC, como todos podem se recordar...).

A histeria dos lacerdinhas de plantão seria apenas ridícula se não fosse também cínica: em 2010, se funcionar o plano do governador José Serra (PSDB), atual darling desta gente, terão de fazer campanha, em São Paulo, para o ex-guerrilheiro Aloysio Nunes Ferreira. Há livros na praça que revelam a participação do secretário de Serra no assalto, em novembro de 1968, do trem-pagador Santos-Jundiaí, quando foram "expropriados" NCr$ 108 milhões. Além disto, a turma de Olavo de Carvalho adora escrever que o ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique e futuro candidato dos reinaldos e mainardis ao Bandeirantes participou, em outubro de 68, do justiçamento do capitão do Exército dos EUA Charles Rodney Chandler, ocorrido em São Paulo. Bem, o Olavão nem mesmo a blogosfera direitosa está levando a sério, especialmente depois que ele afirmou ter provas definitivas de que Obama não é norte-americano, de modo que basta aqui dar como verdadeiro o episódio do assalto ao trem, que consta da historiografia séria do período.

Tudo isto para mostrar como é dura a vida dos direitosos. Batem no Franklin de manhã e depois passam a tarde pensando em bons argumentos para justificar as ações das donzelas convertidas que ajudam Serra a fazer este portentoso governo em São Paulo. Antes que alguém pergunte, este blog acha que Aloysio Nunes Ferreira é um dos melhores quadros do governo paulista e tem toda a condição de ser um excelente governador, se o povo assim o quiser. É provável que os mainardis e reinaldos preferissem alguém mais, digamos assim, "limpinho", talvez Afif ou mesmo o prefeito Kassab, mas infelizmente parece que o líder da patota não pensa desta forma.

Este blog, por fim, aposta que vai se divertir muito em 2009 assistindo as piruetas verbais e lógicas que os direitosos terão de dar a cada elogio público que o governador Serra fizer ao governo Lula. Como se sabe, Serra só fala mal do presidente em privado, para os reinaldos e mainardis, tomando um uisquinho (sim, Serra também bebe e recentemente trocou o vinho pelo scotch). Em público, na busca do voto popular, o tucano tem sido só elogios a Lula, Dilma e companhia. Ironicamente, as críticas têm sido reservadas ao tucano Henrique Meirelles. Em 2009, a tendência é a coisa piorar, especialmente se a crise financeira não se revelar o Armagedon que a Folha de S. Paulo vem anunciando. Quem viver, verá...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Dois anos em 2008

O que vai abaixo é o artigo do autor dessas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Um balanço do estranho ano de 2008, em primeira mão para os leitores do blog.

Definitivamente, não é nada fácil fazer uma análise retrospectiva sobre 2008. No fundo, foram dois anos em um: o primeiro começou dia 1° de janeiro de 2008 e terminou talvez em 15 de setembro, quando o Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, pediu concordata.

Sim, é claro que a crise financeira global não começou em 15 de setembro de 2008, mas aquele dia já pode ser considerado um marco histórico porque a partir dali o mercado financeiro entrou em parafuso, ampliando em muitas vezes o pânico já reinante. Foi também a partir daquela data que o sistema de crédito, especialmente nos EUA mas também na Europa, simplesmente parou de funcionar. As linhas existentes foram paralisadas pelo temor de que o governo norte-americano poderia permitir que instituições financeiras de peso simplesmente quebrassem. Dias depois, porém, o governo dos EUA anunciou o primeiro de uma série de planos de resgate, no valor de US$ 700 bilhões, que seria rejeitado na Câmara de Representantes em 29 de setembro e depois aprovado em outubro, com um novo formato.

Detalhes sobre o desenrolar da crise após 15 de setembro, porém, não são o foco deste artigo, mesmo porque essa história ainda está em curso e, como já foi apontado, não começou em 2008, ao contrário, seria preciso retroceder bastante para explicá-la – trabalho este muito mais adequado aos historiadores e economistas do futuro. O que importa aqui é analisar, em retrospectiva, como foi o ano de 2008 na política brasileira e também um pouco na economia, uma vez que neste ano essas duas esferas estiveram especialmente entrelaçadas, tendência que deverá se repetir em 2009.

Assim, e tendo em vista o marco do agravamento dos problemas na economia mundial a partir de setembro, é possível tentar entender o que ocorreu aqui dentro analisando dois cenários bastante distintos – pré e pós-agravamento da crise financeira global.

No campo econômico, entre janeiro e outubro o Brasil viveu um período de crescimento bastante expressivo. O consumo das famílias aumentou, a criação de empregos formais bateu recorde mês após mês, o desemprego também cravou marca histórica, caindo para 7,5% no final do ano, o investimento das empresas cresceu substancialmente e tudo isto podia ser percebido nas ruas, especialmente nas capitais, abarrotadas de automóveis novos e com edifícios sendo construídos em toda parte. A atividade foi tão pujante nos três primeiros trimestres do ano que já garantiam crescimento no Produto Interno Bruto superior a 5% , mesmo que não houvesse avanço algum no último trimestre de 2008. Sim, já começavam a aparecer problemas por aqui, como a queda do superávit comercial, uma vez que a economia mundial vinha desacelerando à espera do que viria pela frente, mas os resultados da economia nacional eram até surpreendentemente melhores do que o clima bem mais moderado lá fora, desde o início do ano, poderia ensejar.

Política: Lula nas alturas e as eleições municipais
Como reflexo do crescimento cada vez mais forte da economia, a popularidade do presidente Lula bateu sucessivos recordes em 2008, terminando em mais de 80% no final do ano, já com a crise em curso e começando a “bater” aqui no Brasil. Tal taxa é maior do que a obtida por todos os presidentes brasileiros desde a redemocratização – o recorde anterior era de José Sarney, que no auge do plano Cruzado teve seu governo aprovado por 72% dos brasileiros. No Nordeste, Lula consegue espantosos 90% de apoio popular e a rejeição ao seu governo não chega a 5%. É muito, para qualquer parâmetro comparativo que se utilize.

Além da altíssima popularidade do presidente, dois outros fatos são importantes para uma análise sobre a política nacional em 2008. Em primeiro lugar, as eleições municipais, que transcorreram de forma tranqüila, inusitadamente tranqüila, alguém poderia dizer. Mais uma vez ficou claro que a política nacional hoje é marcada pela despolitização. Em qualquer democracia, a campanha eleitoral e a eleição são os momentos em que os partidos se organizam para exporem as suas diferenças e revelarem o seu pensamento em relação à realidade do país. Não é o que tem acontecido nas últimas disputas eleitorais no Brasil e a deste ano foi especialmente emblemática deste movimento. Do Oiapoque ao Chuí, pouquíssimos candidatos se arriscaram a bater no governo federal. A esmagadora maioria seguiu a estratégia de “municipalizar” o pleito, restringindo o debate aos temas locais. Mesmo nas poucas cidades em que a eleição ganhou relevância nacional (São Paulo, Salvador, Belo Horizonte), foi mais pela insistência da mídia do que dos candidatos. Senão vejamos.

Na capital mineira, o que estava em debate era a criação de uma frente plural que unia PSDB, PT e uma enorme gama de partidos em torno de um candidato desconhecido do público, o empresário Márcio Lacerda (PSB). O processo foi desde o início conturbado, mas o governador Aécio Neves (PSDB) e o prefeito Fernando Pimentel (PT) conseguiram impor a seus partidos a candidatura de Lacerda com um vice oriundo do PT. Aécio fez o PSDB engolir o sapo de não lançar candidatura própria nem participar formalmente da aliança por capricho da direção nacional petista, que proibiu o acordo. O que parecia uma jogada de risco do governador e prefeito se revelou mesmo uma jogada de risco: Lacerda venceu a eleição, mas passou maus momentos e teve que suar a camisa (e usar o cofrinho) contra outro desconhecido, o deputado Leonardo Quintão (PMDB), um jovem político de futuro promissor, que com um estudado jeitão caipira conquistou o eleitorado que desaprovou a estranha aliança tucano-petista.

Durante toda a campanha, a imprensa questionou e especulou sobre a jogada de Aécio, que para muitos estaria sinalizando uma possível solução político-partidária para 2010, superando as divergências entre PT e PSDB em torno, naturalmente, de seu nome como cabeça de chapa para a disputa presidencial, ainda que fora do ninho tucano, no mesmo PMDB que acabou sendo a pedra no sapato da disputa municipal em Belo Horizonte. O sucesso relativo da estratégia de Aécio Neves acabou botando um pouco de água no chope de quem já dava como favas contadas a saída do governador mineiro para o PMDB e uma candidatura presidencial em 2010, com apoio do presidente Lula. De qualquer forma, não deixa de ser interessante notar que BH foi, paradoxalmente, a eleição mais “nacionalizada” do país por obra dos caciques locais, que avalizaram a tão questionada aliança em torno de Lacerda.

São Paulo: PSDB rachado, acertos de Kassab e erros de Marta
Em São Paulo, foi a imprensa quem tratou de nacionalizar a eleição. Os candidatos Gilberto Kassab (DEM), Geraldo Alckmin (PSDB) e Marta Suplicy (PT) pouco utilizaram os apelos da política nacional, e mesmo assim só o fizeram na fase final da campanha. Desde o início, porém, a mídia imprimiu à disputa paulistana o caráter de “grande prova para a popularidade de Lula e sua capacidade de transferência de votos em 2010”. Bobagem, até porque, como diria o filósofo futebolista, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa” – ou seja, 2008 é 2008, 2010 é 2010. No fundo, do processo eleitoral paulistano dá para tirar, sim, algumas lições válidas para a política nacional, apesar e até mesmo em função da falta de apetite dos candidatos para o debate mais profundo sobre os problemas do Brasil.

Em primeiro lugar, a insistência do tucano Geraldo Alckmin de sair candidato, a despeito dos reiterados apelos do governador José Serra para que o PSDB apoiasse Kassab, revela que as tensões no tucanato ainda não estão devidamente sanadas. A derrota de Alckmin foi certamente um alívio e uma vitória para Serra, que saiu reforçado do pleito de 2008 com a vitória do democrata Kassab – não é a primeira vez que Serra vence quando seu partido perde, diga-se de passagem –, porém as recentes declarações de Aécio Neves de que a candidatura presidencial tucana não está escolhida mostra que Serra ainda terá que vencer alguns obstáculos para ser o candidato à presidência de um PSDB unido, coisa que não ocorre desde 1998, quando Fernando Henrique foi reeleito.

Por outro lado, a polarização da eleição entre Kassab e Marta mostrou que a população entendeu o debate eleitoral como eminentemente local, isto é, de uma proposta de administração, a atual, contra outra, a anterior. O esperto Gilberto Kassab chegou a elogiar Lula diversas vezes e se concentrou em bater forte na candidata, apostando na estratégia de maximizar a alta rejeição que a ex-prefeita apresentava. O jingle “bate na madeira, Marta de novo, nem de brincadeira” é a expressão acabada desta estratégia. Deu certo, pois do outro lado a campanha de Marta não sabia muito bem para que lado atirar quando percebeu que o apoio de Lula seria discreto e não resolvia a questão da rejeição da candidata. No final, os marqueteiros perderam a cabeça e apelaram para insinuações sobre a suposta homossexualidade do prefeito (“ele é casado, tem filhos?”), despolitizando de vez a campanha.

Antes de entrar no caso de Salvador, vale a pena um rápido comentário sobre o comportamento das oposições de esquerda ao governo Lula, hoje representadas majoritariamente pelo PSOL, na eleição municipal deste ano. Para ser sucinto, foi algo entre o ridículo e o covarde. Dois exemplos bastam para que o leitor tenha a dimensão da falta de arrojo das esquerdas: em São Paulo, o candidato do PSOL não conseguiu nem sequer se posicionar a favor de uma medida nitidamente favorável aos mais pobres – o pedágio urbano -, com medo de perder os votos dos proprietários de veículos; no último mês de campanha, já sob o que os jornalões classificavam de “maior crise da história do capitalismo”, os candidatos do PSOL simplesmente ignoravam a questão, prosseguindo nas críticas pontuais aos adversários e tentando explicar que iriam fazer auditorias nas dívidas municipais para liberar verbas e investi-las nos necessários programas sociais. O primeiro caso é apenas ridículo, o segundo revela o medo das esquerdas de realizar o debate que de fato importa.

Salvador: quem bate em Lula, apanha nas urnas
A capital da Bahia é um ótimo exemplo de como a eleição municipal pode ser nacionalizada “às avessas” e demonstra a enorme força do presidente Lula no Nordeste. Faltando pouco mais de um mês para as eleições, o candidato do DEM, ACM Neto, herdeiro da oligarquia que dominou o Estado até 2006, era o favorito na eleição. O segundo colocado era o tucano Antonio Imbassahy, ex-prefeito da capital soteropolitana. Em terceiro estava o petista Walter Pinheiro e apenas em quarto lugar aparecia o prefeito João Henrique (PMDB), filho de João Durval, adversário histórico do avô de ACM Neto.

A campanha começou a ganhar emoção no momento em que o tucano Imbassahy, percebendo a ascensão de Pinheiro e João Henrique, partiu para o ataque e decidiu que sua chance era tirar o candidato democrata da disputa. A campanha do PSDB, e não a do PT ou PMDB, foi quem primeiro levou ao ar a gravação de ACM Neto prometendo “dar uma surra em Lula”. A partir daí, Neto, como é chamado na Bahia, começou a perder apoio, e teve que justificar o feito na televisão: “Exagerei na dose, reconheço. Hoje, mais amadurecido, não repetiria aquelas palavras”, desculpou-se o candidato no horário político em uma frase dúbia, que desloca a culpa pela trapalhada a, talvez, “doses a mais”. Tarde demais, de qualquer forma: a partir de setembro ACM Neto perdeu pontos a cada pesquisa e assistiu à ultrapassagem de Pinheiro e João Henrique, que de resto atropelaram também o tucano Imbassahy. O prefeito acabou reeleito, mas o que vale aqui destacar é que embora a campanha não tenha sido das mais politizadas no país, ganhou o caráter nacional pelo debate em torno da figura do presidente. E restou provado que pelo menos no Nordeste, quem bate em Lula acaba apanhando nas urnas.

Fazendo um balanço geral das eleições deste ano, é possível destacar três grandes vitoriosos ao final do processo: o PMDB, que na frieza dos números foi o grande vencedor da eleição (conquistou o maior número de prefeituras, de vereadores e empatou com o PT nas capitais – ambos comandarão 6, mas as peemedebistas têm mais peso político); José Serra, que conseguiu eleger o seu candidato à prefeitura da maior capital do país e com isto consolidou a sua própria candidatura à presidência do Brasil (especialmente pelo naufrágio de seu “companheiro” Alckmin) e por fim o PT, que mais uma vez cresceu bastante (36%, saltando de 410 para 558 prefeituras), em mais um passo para se tornar uma legenda de alcance nacional.

Apesar da vitória pessoal de Serra, a oposição sofreu um baque forte na eleição deste ano. Os dois principais partidos, DEM e PSDB, perderam espaço. No caso dos democratas, a queda foi grande: em 2004, 794 cidades estavam sob o comando do DEM, número que passou para 501 – queda de quase 37%, isto é, mais de um terço das prefeituras. Já o PSDB, que comandava 870 cidades caiu para 788 (-9,43%). Evidentemente, a análise quantitativa esconde a excepcional vitória democrata em São Paulo, cidade que o partido jamais havia conquistado pelo voto, nas urnas. Já o PSDB pela primeira vez ficou sem nenhum prefeito nas capitais dos três Estados mais importantes do país (SP, Rio e MG)– só venceu em Curitiba, São Luís, Cuiabá e Teresina.

Crise e política
Eleições à parte, a última questão a ser analisada é o impacto da crise mundial na política brasileira em 2008. Ainda é difícil perceber a influência das turbulências internacionais na cena política porque os efeitos econômicos também não foram ainda sentidos na intensidade que se imagina que serão no próximo ano. O que se pode dizer é que entre setembro e dezembro, o noticiário foi dominado pelo pessimismo – todos os dias o leitor, ouvinte e telespectador se deparava com uma notícia pior do que a do dia anterior. A maior parte das notícias, é certo, diziam respeito ao que se passava lá fora, mas à medida que o tempo foi passando começaram a aparecer na mídia os efeitos da crise no Brasil, como a queda abrupta na venda de automóveis, a diminuição do crédito ao consumidor e às empresas e o início das demissões que um ciclo de diminuição da atividade econômica naturalmente provoca. Nada disto, porém, parece ter tirado o ânimo dos brasileiros, que em dezembro avaliaram a gestão do presidente Lula com mais de 80% de “ótimo” e “bom”, fundindo a cabeça dos analistas mais conservadores, que já esperavam uma queda na popularidade do presidente.

Ainda não há dados conclusivos sobre o comportamento da economia no último trimestre de 2008, o que se pode dizer até agora é que de fato ocorreu uma queda forte na atividade econômica em outubro e novembro. Os dados para dezembro só serão conhecidos em 2009, mas pelo que se vê nas ruas e se escuta nas entrevistas dos líderes dos sindicatos patronais, o 13° e o Natal devem sustentar algum crescimento no período, elevando assim a estimativa do PIB de 2008 para alguma coisa acima de 5,5%. Assim, ainda que o ritmo de crescimento tenha sido freado no final do ano, os efeitos políticos da bonança econômica persistiram e o presidente Lula termina 2008 em alta com o povo que governa. Sim, talvez ele também tenha conseguido passar para o distinto público a impressão de que reagiu rápido e à altura da crise, com medidas importantes para a classe média e empresas em dificuldades, mas ainda é cedo para julgar se a alta popularidade já poderia ser atribuída não ao bom desempenho da economia, mas à condução da crise, como já começam a dizer alguns analistas. Evidentemente, este é o sonho de consumo dos petistas: atravessar a crise sem macular a espetacular popularidade do presidente – neste caso, só um milagre poderia impedir Lula de fazer seu sucessor. Mas isto é assunto para o próximo artigo, sobre as perspectivas de 2009.

Um bom Natal a todos os pacientes leitores!

sábado, 20 de dezembro de 2008

Governador Roberto Requião defende
controle do câmbio para enfrentar a crise

O que vai abaixo é uma entrevista do autor deste blog com o governador do Paraná, Roberto Requião, publicada no DCI. Na íntegra para os leitores do Entrelinhas.

Câmbio controlado e aumento nos gastos públicos - inclusive em custeio. Esta é a receita do governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), para o Brasil enfrentar a crise econômica mundial e evitar que os problemas se agravem no País. "O controle do câmbio é uma medida a ser tomada. E além disso, temos de investir pesadamente em infra-estrutura. O governo não pode diminuir gastos. Temos de compensar a diminuição de atividades do setor privado e continuar a cuidar do salário dos trabalhadores", afirmou Requião, em entrevista exclusiva ao DCI.


O governador do Paraná participa hoje, no Rio de Janeiro, do Fórum Governadores 2008, promovido pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil. Requião falará aos empresários da ADVB sobre "O Brasil que nós queremos" e certamente deverá abordar questões relacionadas ao momento delicado pelo qual passa a economia internacional. Segundo Requião, Barack Obama vai trabalhar para resolver os problemas dos americanos e para manter a hegemonia econômica dos Estados Unidos. "Eu não acredito que ele tome medidas para resolver o problema do Brasil, do México, do Equador, país que, aliás, está dolarizado, nem moeda tem mais", diz o sempre polêmico Roberto Requião.

Leia a seguir os melhores trechos da entrevista, concedida ontem, por e-mail.

DCI: Como o senhor avalia a crise financeira mundial? Que medidas acha que o presidente eleito, Barack Obama, tomará para tentar reverter o processo de recessão/depressão nos Estados Unidos?

Roberto Requião: Barack Obama se elegeu presidente dos EUA. Temos de parar de pensar que ele é uma espécie de Pai Thomas, preocupado com os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento do mundo: ele vai tomar medidas para manter a hegemonia dos EUA na economia mundial, para manter o dólar como moeda única e lastro de todos os países. Barack estará fundamentalmente preocupado com os EUA, eu não acredito que ele tome medidas para resolver o problema do Brasil, do México, do Equador, país que, aliás, está dolarizado, e nem moeda tem mais. Foi dito que a eleição dele foi fantástica, uma conciliação dos EUA consigo mesmos, melhorou a imagem dos EUA no mundo, mas não acredito que o presidente tome atitudes imediatas que não sejam exclusivamente para proteger os interesses do país.

DCI: Até agora, a crise teve efeitos limitados no Brasil, se comparados aos do resto do mundo. O senhor acha que as turbulências afetarão o País de maneira mais contundente em 2009? Que cenário vislumbra para a economia nacional?

Requião: Até agora, do ponto de vista do Estado do Paraná, não temos problemas, temos uma superarrecadação, um excesso de arrecadação. Mas a crise já chega. Nós prevíamos para novembro a criação de 12 mil empregos novos; nós criamos 161 mil empregos este ano, um recorde brasileiro em relação à população do estado. E na verdade se registraram apenas 4 mil novos trabalhadores com carteira assinada. No entanto, nós tivemos a manutenção da criação de empresas - 4 mil novas empresas registradas na junta comercial. A Volvo demitiu 440 trabalhadores. A queda do valor das empresas paranaenses foi fantástica. A única empresa que não perdeu foi a Companhia Paranaense de Energia Elétrica, que na crise ainda conseguiu subir 1,4%. Eu acredito que não é um cenário azul. O estado não terá grandes alterações no ano que vem. Temos o Fundo de Desenvolvimento Urbano, as reformas que tínhamos de fazer na educação e na saúde já foram feitas, hospitais foram fundados, e o importante não é diminuir despesas e custeios, pois isto significa diminuir despesas com educação, com saúde e com segurança, e estabelecer uma série de hierarquização de investimentos - investimentos que tenham um efeito multiplicador na economia.

DCI: O senhor acha que o governo está tomando as medidas necessárias para minimizar os efeitos da crise no País? Se estivesse no comando da política econômica, que medidas o senhor tomaria?

Requião: O governo federal está tentando tratar uma pneumonia com aspirina. As medidas não estão incorretas, mas elas estão em doses muito pequenas. O presidente Lula liberou o depósito compulsório dos bancos, e eles investiram em letras do Tesouro, não repassaram para a economia. Controle dos empréstimos, do câmbio, nós perdemos mais de R$ 7 bilhões de dólares na entrada e na saída, embora a entrada tenha se mantido constante, e num volume razoável. Portanto, o controle do câmbio é uma medida a ser tomada. E além disso, temos de investir pesadamente em infra-estrutura. O governo não pode diminuir gastos: temos de compensar a diminuição de atividades do setor privado e continuar a cuidar do salário dos trabalhadores. Afinal, um dos aspectos desta crise é uma superprodução sem salários para dar conta dela. Mas precisamos continuar a alimentar os salários para que a economia possa andar.

DCI: O Paraná está preparado para enfrentar os efeitos da crise? Que medidas já foram tomadas?

Requião: O Paraná está preparado para enfrentar os efeitos da crise. O Paraná tem tomado atitudes no caminho certo. Isentamos as micro e pequenas empresas de qualquer tipo de imposto, nós criamos um fundo de aval para o financiamento dos agricultores, o Paraná tem um programa de irrigação noturna das 21h às 6h, com desconto na eletricidade rural, que já é barata, de 75% para os agricultores. O Paraná tem uma série de medidas que culminam agora com a redução dos impostos sobre aquilo que o povo compra, os bens de consumo de salário: 95 mil itens estão tendo a tributação diminuída, de 25% e 18% para 12%, e uma compensação em impostos que incidem sobre as pessoas mais ricas é uma justiça tributária. E este é um dos caminhos que o Brasil pode tomar: a redução de impostos que recaem sobre a população mais pobre.

DCI: Em 2009, além da crise, estão na agenda do Congresso as reformas política e tributária. Sobre a primeira, o que, no atual sistema político, o senhor avalia que deveria ser modificado? É favorável ao fim da reeleição?

Requião: A reforma tributária do governo federal é uma reforma neutra, mas ela agiliza a cobrança, ela é bem engendrada. O Paraná vota a favor da reforma tributária. Agora, a reforma política é conversa mole, isto não muda nada, despolitiza o País, acaba com a discussão de temas que não podem ser temas de uma região ou de uma cidade, como a educação, a saúde pública, a independência do Brasil. A reforma política proposta é a reforma política do consenso de Washington. É a despolitização do processo eleitoral e político brasileiro. Eu já fui favorável ao fim da reeleição; hoje, não mais. Quatro anos é muito pouco para um governo. Eu peguei um estado quebrado, levei três anos arrumando, e tinha um ano só para trabalhar; hoje eu estou conseguindo, em meu segundo mandato, completar isso tudo. É necessário um mandato mais longo ou a reeleição. O resto é demagogia.

DCI: Sobre a reforma tributária, o senhor acha que é possível aperfeiçoar o texto do relator Sandro Mabel e aprová-lo em 2009?

Requião: O texto da reforma tributária nós discutimos com o Mabel. No Paraná, estamos votando e recomendando o voto na reforma tributária.

DCI: O PMDB saiu fortalecido nas eleições deste ano. Em 2009, certamente começa o debate sobre a eleição de 2010. Hoje, o PMDB está aliado com o presidente Lula, mas já há no partido lideranças que defendem o lançamento de candidatura própria -o senhor mesmo já foi apresentado como possível presidenciável- ou ainda uma aliança com o PSDB, em torno de José Serra. Qual a sua opinião sobre os rumos do PMDB em 2010?

Requião: O PMDB saiu fortalecido nas eleições deste ano, o partido tinha de pensar em se coligar com o PT. Não pode fazer uma coligação pela direita. O PT tem as suas mazelas, nós temos muitas, talvez muito mais que o PT. Mas nós tínhamos de reunir o PMDB e o PT nesta visão de centro-esquerda para enfrentar esta tentativa de volta da direita ao governo do Brasil.

DCI: Como o senhor avalia a alta popularidade do presidente Lula no cenário de crise econômica? A economia é o que sustenta a aprovação ou há algo mais além dela?

Requião: A popularidade de Lula deve-se à elevação do nível de renda das classes C, D e E, às políticas sociais, ao crescimento que ocorreu no Brasil. Conforme a linha econômica a que se afilie um crítico, trata-se de dar uma explicação ou outra, mas concretamente o governo do Lula foi bem.

DCI: O senhor não poderá concorrer em 2010 ao governo do Paraná. Quais são os projetos políticos do governador Requião?

Requião: O meu projeto é terminar o governo. Se começarmos a pensar em projetos políticos, perdemos o foco do estado, começamos a pensar em integrações, e esquecemos os compromissos e objetivos assumidos em uma campanha eleitoral. Eu posso pensar em muita coisa, mas o fundamental é que eu não envolvo isso, neste momento, na governança do Paraná. Eu me limito integralmente a cumprir os compromissos de campanha.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Folha ignora popularidade de Lula

O jornal Folha de S. Paulo ignorou solenemente na primeira página desta terça-feira o recorde de popularidade do presidente Lula aferido pelos institutos Ibope e Sensus. Não deu uma mísera chamada. Outros assuntos, certamente mais relevantes, mereceram chamadas na capa, como os que seguem abaixo:

Dentistas são autorizados a adotar hipnose e acupuntura
Câmara pode efetivar donos de cartórios sem concurso
Voluntários e militares furtam doações a vítimas da chuva em SC
Em assalto em SP, executivo do Citibank é morto
Prédios de Brasília necessitam adaptação para o inchaço de pessoal, diz Niemeyer


Este blog tem um palpite: se José Serra fosse o editor da primeira página da Folha, teria o recado de botar uma notinha sobre a popularidade presidencial. Talvez no lugar dos dentistas acupunturistas, uma vez que acupuntura é coisa lá do Geraldo Alckmin...

Como enganar o leitor sem mentir

A matéria abaixo, da Folha Online é um primor de manipulação jornalística. Não há uma única mentira na reportagem, mas ela simplesmente não mostra a realidade dos fatos. Primeiro, o título seco dá um número (pessoas demitidas em novembro) que não quer dizer coisa alguma. Afinal, 34 mil é muito ou muito pouco? Não há dado comparativo - quanto foi no mês passado? Todo mês há demissões nas empresas, o que interessa saber é o saldo (contratações menos demissões). Este dado não consta da reportagem.

Em seguida, o lide da matéria traz um outro número que economista nenhum utiliza, pois é um dado sem ajuste sazonal. Diz a Folha Online que o emprego em São Paulo na indústria caiu 1,46% em novembro, na comparação com outubro. Mentira? Não, verdade, mas é o dado sem ajuste sazonal. Só no terceiro parágrafo é que aparece o número que realmente importa, com ajuste sazonal: queda de 0,19% (ante queda de 0,14% em outubro). Ou seja, o ritmo do aumento de demissões ficou praticamente estável em novembro em relação a outubro. Isto no meio da maior crise da história do capitalismo, segundo a Folha...

A matéria também não dá muita bola para o dado do emprego acumulado no ano. Claro, não podia ser diferente, pois o número é bom para o governo (alta de 5,66%). Definitivamente, a Folha deveria mudar de slogan: ao invés do "De rabo preso com o leitor", passaria a ser "O que é bom (para o Lula) a gente esconde, o que é ruim a gente dá na manchete".

Indústria paulista demite 34 mil em novembro, diz Fiesp

O nível de emprego da indústria de transformação do Estado de São Paulo caiu 1,46% em novembro na comparação com o mês anterior, nos dados sem ajuste sazonal, segundo levantamento da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) divulgado nesta terça-feira.

No mês passado, foram perdidos 34 mil postos de trabalho, segundo a entidade. Em outubro, a queda sobre setembro tinha sido de 0,14%. No acumulado do ano, o nível de emprego está 5,66% maior que no mesmo período do ano passado, com 123 mil novas vagas abertas.

Considerando os dados com ajuste sazonal, que elimina características específicas de cada período, a baixa no emprego no mês passado foi de 0,19%.

Dos 21 setores que fazem parte da pesquisa, cinco tiveram desempenho positivo no mês passado, 14 setores mais demitiram do que contrataram e dois ficaram estáveis.

De acordo com o levantamento, novembro foi um mês mais favorável para o setor de máquinas, escritório e equipamentos de informática, que apresentou alta de 1,82%, seguido por produtos químicos, com expansão de 0,36%.

Na outra ponta, com as maiores quedas, estão couros e artigos de couro, artigos de viagem e calçados, com perda de 3,3%, e borracha e plástico, com recuo de 2,78%.

Por setores, no acumulado do ano, o que mais contratou foi o de máquinas, escritório e equipamentos de informática, com 58,08% de alta no nível de emprego, seguido por coque, refino de petróleo, combustíveis nucleares e álcool, com elevação de 29,27%.

Os que mais demitiram foram couro, artigos de viagem e calçados, com queda de 9,58%, e confecções e artigos de vestuário, com recuo de 2,22%.

Liberal elegante produz texto inteligente

Cláudio Lembo é o político conservador preferido deste blog. Inteligente, irônico e muito culto, Lembo é do tipo que faz a festa dos jornalistas: não há como conversar com ele e sair "sem lide". No governo do Estado, abandonado por seus amigos tucanos, ele mandou ver, criticou a elite branca e má e lamentou que, no dia em que o PCC parou São Paulo, Alckmin e Serra não tivessem telefonado, "nem a cobrar". No artigo abaixo, publicado no Terra Magazine, Cláudio Lembo dá um show de bola. Vale a pena ir até o fim. Os argumentos são bons, embora discutíveis, mas sobre a forma com que vão apresentados não há reparo a fazer...

Um nunca acabar

Os lisboetas cunharam expressão de fazer inveja: As obras de Santa Engracia. Simples, composta por apenas cinco palavras. Em sua singeleza indica obras que nunca terminam.

Santa Engracia seria homenageada com um belo e grande templo. As obras estenderam-se no tempo sem fim. Mais de duzentos anos. Não terminaram em honra da padroeira pretendida.

Chegou o Estado Novo português. A destinação do edifício perdeu o objetivo inicial. Santa Engracia foi esquecida. O templo projetado passou a receber os despojos de personalidades ilustres.

A Igreja de Santa Engracia se transformou em Panteão nacional. Perdeu a Santa. Não ganhou a arquitetura, apesar da localização privilegiada do edifício. Ganhou o Tejo que pode ser observado à distância.

A comparação pode merecer críticas de nativistas. Com a ironia constante da expressão lisboeta, as obras de Santa Engracia lembram o processo das reformas políticas em curso no Congresso nacional.

É um nunca acabar. Há anos fala-se em grandes mudanças. O Executivo deseja. O legislativo elabora projetos de lei. Propostas de emendas constitucionais são apresentadas. Um labor incessante.

Tudo bem. Nada termina, porém. Não existe clima para grandes mudanças. O sistema eleitoral brasileiro - produto da Revolução dos Tenentes - tem história e bons fundamentos.

Quem tem um mínimo de juízo faz permanecer o que permite bons resultados. A democracia, apesar de alguns tropeços, funciona com normalidade. A legislação básica ingresso no cotidiano da cidadania.

Se assim é, não há necessidade de se examinar as propostas apresentadas ao Congresso. Ao contrário. Existem projetos preocupantes. Um, entre estes, pretende extinguir a reeleição. Até aí tudo bem.

Avança, contudo. Deseja estender o mandato eletivo para cinco anos. Pretende que as eleições, em todos os níveis, ocorram em um só dia.

Um verdadeiro rodízio eleitoral.

Um perigo! Por mais racional que se mostre o eleitorado, pleitos sempre contêm carga de emoções. Acontecimentos de campanha alteram o ânimo dos eleitores. Podem conduzir a resultados de ocasião.

Aí, consertar os equívocos coletivos, só dentro de cinco anos. As democracias estáveis abominam pleitos múltiplos. Realizam eleições sucessivas e diluídas nos espaços geográficos nacionais.

Eleições gerais e conjuntas, ou seja, para todos os cargos eletivos, não é recomendável. Basta imaginar o eleitor perante a urna eletrônica com anotações para os sete cargos a ser ocupados.

Em um só instante, cumpre escolher vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, senador, governador de Estado e presidente da República. Um rosário.

Estaria dilapidada a possibilidade de uma escolha meditada pelo eleitorado, acrescentando-se o tempo despendido para a operação de votar. Dois obstáculos de uma vez.

É decidir os destinos dos entes federados em um só dia. Grande perigo. Em determinado momento, um determinado partido pode empolgar e conduzir ao extermínio das oposições.

A democracia é regime dispendioso, mas ainda é o melhor dos regimes. As escolhas cabem ao cidadão. Para exercitar, este deve ser chamado muitas e contínuas vezes para o exercício do voto.

De dois em dois anos, é oportuna a presença de milhões de eleitores perante as urnas. Erros podem ser corrigidos. Acertos confirmados. Todos os partidos, sem emoções, podem ser sufragados.

Afasta-se o risco dos aluviões eleitorais. A democracia só se aprimora com prática permanente, sem longos soluços temporais.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Ninguém mais leva grande imprensa a sério

Duas novas pesquisas revelam que a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva superou 80%, batendo mais uma vez recordes históricos. Como a Folha Online deu a notícia? Assim: "Brasileiros estão mais preocupados com inflação e desemprego, revela pesquisa". E o Globo Online, agiu de que maneira? Desta: "Brasileiro espera piora na inflação, no emprego e na renda no próximo ano". E a manchete do Estadão.com.br sobre as pesquisas? Está na mão: "Cresce preocupação com desemprego e inflação".

Sim, Lula bateu mais um recorde, os anteriores já eram seus nos levantamentos dos institutos Sensus e Datafolha. No Ibope, que tem a série histórica mais antiga, José Sarney era até ontem o presidente mais popular desde a redemocratização – no auge do Cruzado, seu governo tinha 72% de aprovação. Pois o governo Lula destronou o de Sarney ao chegar a 73% de avaliação positiva. O Ibope não pesquisava, naquela época, a aprovação pessoal do presidente, então não há como comparar os 84% obtidos por Lula com os 72% do governo Sarney, mas é bastante provável que a avaliação do atual presidente seja melhor do que a de José Sarney em 19887. Governo contra governo, o placar é favorável a Lula, que tem muito mais carisma do que o hoje senador peemedebista.

Tudo isto posto, a verdade é que os resultados mostram a falência completa da mídia impressa brasileira, toda ela francamente oposicionista ao governo do PT, na cotidiana tentativa de sabotar o trabalho do presidente. No futuro, historiadores vão se divertir lendo os jornalões e comparando as versões do papel com a realidade dos fatos.

Não, o que sai nos jornais não são os fatos, mas uma ardilosa versão, sempre com objetivo, muitas vezes explícito, de detonar o presidente Lula. Ninguém aqui está dizendo que os jornais mentem, mas sim que procuram na realidade o que de pior houver contra o governo federal. Além das ridículas manchetes acima, "comemoradas" pela grande imprensa como "tábua de salvação" diante dos espetaculares números obtidos pelo presidente (no Nordeste a taxa de aprovação a Lula supera 90%, de acordo com o Ibope), muitas outras "jogadinhas" foram tentadas, todas sem sucesso.

Por exemplo, a tal "crise aérea", que simplesmente não existiu, o "perigo de um novo apagão" (não, Lula não é FHC nem Dilma tem cara de Pedro Parente), a "fraqueza financeira" da Petrobrás e tantas outras manipulações têm sido tentadas, todas sem sucesso. A rigor, a cada duas ou três semanas a grande imprensa joga uma casca de banana. Mas Lula jamais escorrega e cai, para desespero dos jovens prepostos dos donos dos jornalões, encarregados de bolar as "jogadinhas" contra o presidente.

Aos olhos do povão, este é um bom governo e Lula, um ótimo presidente. Se ele pudesse ser candidato de novo, seria reeleito mais uma vez e com grande facilidade. A imprensa nacional deveria se preocupar não com a performance de Lula nas pesquisas, mas com a sua própria performance. A julgar pela diferença entre a avaliação popular e a da imprensa sobre o governo, a população simplesmente não dá mais bola para o que sai nas manchetes. Está se formando e informando de outra maneira e faz uma leitura crítica do que lê, ouve e assiste. É o Diogo Mainardi ou Reinaldo Azevedo criticando Lula? Então nem precisa ir até o fim da leitura... Míriam Leitão, Sardemberg, Dora Kramer? Esquece, é a turma do "lado de lá". No fundo, o povão já aprendeu a fazer a pergunta mais básica de todas: a quem essa gente representa? Qual a motivação desse pessoal para escrever ou falar no rádio e na televisão? Não é muito difícil responder...

No fundo, a grande imprensa precisa mesmo torcer, e muito, para a oposição levar em 2010, porque mais 8 anos tentando vender manipulação barata nas bancas é uma terefa inglória. O restinho de credibilidade pode acabar se esvaindo pelo ralo...

sábado, 13 de dezembro de 2008

Recessão é improvável, mas pode ocorrer

Uma boa entrevista com um bom entrevistado. Originalmente publicada no Terra Magazine. Não que este blog concorde com tudo que diz o sempre lúcido Júlio Gomes de Almeida, mas a análise é boa e faz pensar. A seguir, na íntegra:


Júlio: recessão no Brasil não está descartada


A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de manter a taxa básica de juros (Selic) em 13,75% é um "erro" e não contribui para reverter a escassez de crédito na economia brasileira. A avaliação é de Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

- O Banco Central errou ao achar que há um risco grande na questão de inflação.

Em entrevista a Terra Magazine, o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) diz que o risco de inflação no país é "relativamente baixo".

- O balanço entre riscos de inflação e riscos de desaceleração forte da economia é muito, mas muito desequilibrado para o segundo.

Ele também não descarta a possibilidade de recessão na economia brasileira.

- Existe hoje efetivamente, ao lado de um risco relativamente baixo da inflação, um risco elevado de desaceleração da economia ou até mesmo de uma recessão. Não podemos descartar uma recessão.

Leia a entrevista:

Terra Magazine - Essa decisão do Copom de manter os juros é correta?

Júlio Gomes de Almeida - Nesse caso, não existe ponderação a fazer. Foi uma decisão - do nosso ponto de vista - errada. Errada porque o balanço entre riscos de inflação e riscos de desaceleração muito forte da economia é muito, mas muito desequilibrado para o segundo. Ou seja, existe hoje efetivamente, ao lado de um risco relativamente baixo da inflação, um risco elevado de desaceleração da economia ou até mesmo de uma recessão. Não podemos descartar uma recessão.

Diversos países estão reduzindo seus juros para aquecer a economia em meio à crise. Levando isso em conta, a atual taxa é suficiente para debelar os efeitos da crise?

Todos os países também têm os seus problemas, suas moedas, muitas delas estão se valorizando. Mas de novo, esses países estão medindo os riscos da inflação, que eu acho que são muito baixos hoje a nível mundial, ou bem mais baixos, com o risco de uma recessão - que hoje são muito elevados. O risco de desaceleração da economia, que aqui é muito alto, também é alto no mundo. O BC acredita que nós temos uma problema inflacionário grave devido à desvalorização da moeda.

Por quê?

Porque ao lado da desvalorização da moeda, que realmente está ocorrendo, nós temos uma redução de preços importante para a economia e para o consumidor, como por exemplo no setor de alimentos, que advém do fato de que no mundo as commodities têm caído de preço. Considerada por si só a desvalorização do Real é um fator inflacionário. Porém, a queda de preços de alimentos e outros produtos, a nível mundial, mais do que contrabalanceia isso. Eu não vejo risco de aumento da inflação do Brasil, mas vejo risco grande do país entrar em desaceleração forte beirando a recessão. A atitude correta seria baixar.

A diminuição dos juros não compensaria a escassez de crédito causada pela crise?

Em parte. Colaboraria para isso. O Banco Central errou ao achar que há um risco grande na questão de inflação. Com a manutenção dos juros, ele não colabora para ampliar o crédito na economia. Existe uma escassez grande de crédito na economia e essa medida do BC não ajuda a resolver.

Terra Magazine publicou reportagem mostrando que Lula pode tirar Meirelles por discordar dos juros altos (veja aqui). Como avalia essa questão?

Eu acho que não é uma medida isolada que o presidente vai se basear para tomar uma atitude como essa. Uma iniciativa dessa é tomada pelo conjunto da obra, pela avaliação do todo. E aí eu não sei como ele avalia o Henrique Meirelles. O que eu acho é que (a manutenção dos juros em 13,75%) é um erro irreparável, porque tem horas que você pode voltar atrás no erro. Nesse aí não dá. O BC já errou e já acertou em outras ocasiões. Mas o erro de ontem foi extremamente grave.

MR-8 deixa o PMDB para fundar o PPL

O jornal Hora do Povo, editado pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro, revela, na edição de 10/11 de dezembro, o fim de uma relação que já durava décadas, do MR8 com o PMDB. Segundo a reportagem, reproduzida abaixo, o Oito, como a agremiação é carinhosamente conhecida, vai tentar em 2009 fundar um partido político, o PPL ou Partido Pátria Livre. Nos últimos anos, o MR8 tem se posicionado de maneira francamente favorável ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na campanha eleitoral deste ano, o jornal Hora do Povo recomendou voto na ex-prefeita Marta Suplicy (PT) na eleição paulistana, ao passo que o PMDB local participou da aliança que reelegeu Gilberto Kassab (DEM).

Para quem não lembra, o MR8 foi responsável, junto com a Aliança Libertadora Nacional (ALN), pelo espetacular seqüestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969. Em troca da libertação de Elbrick, o Oito e a ALN conseguiram tirar das mãos da ditadura militar 15 presos políticos, entre os quais Gregório Bezerra, José Dirceu, Luís Travassos, Flávio Tavares e Vladimir Palmeira (clique aqui para ler o manifesto conjunto do MR8 e ALN lido em cadeia de rádio e televisão como condição para a soltura do embaixador. E a seguir, a reportagem do Hora do Povo e a carta fundadora do novo partido.

MR8 inicia construção do Partido Pátria Livre

Depois de três dias de debates, com a participação de dirigentes e militantes vindos de todo o país, o Comitê Central do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) aprovou a “Carta ao Povo Brasileiro”, conclamando à fundação de um novo partido, o Partido Pátria Livre, para, com os outros partidos da frente de forças políticas que hoje integram a base do governo, “concentrar todas as energias para completar a grande obra da independência nacional”. A Carta, que publicamos na íntegra nesta edição, sintetizou as conclusões da reunião, realizada em São Paulo, que discutiu o informe do secretário geral Sérgio Rubens de Araújo Torres. A primeira reunião da Comissão Organizadora que está sendo formada será em janeiro.


Carta ao Povo Brasileiro

O Brasil vive um momento decisivo da sua história.

A crise econômica produzida pela especulação irrefreada dos monopólios para obter mega-lucros à margem da produção explodiu no coração de Wall Street e se alastra pela Europa e o Japão.

As superstições neoliberais, que livraram de qualquer controle social a ganância devastadora das feras, elevaram a níveis inauditos a desproporção entre a capacidade de produção e o nível de consumo das grandes massas empobrecidas – e acabaram por cobrar seu amargo preço.

Nunca houve período em que os monopólios desfrutassem de tamanha liberdade para afrontar a resistência a seus interesses com os métodos que derivam da sua condição intrínseca de perseguir um lucro além do obtido pela extração direta da mais-valia de seus empregados: fixação de sobrepreços, especulação, fraude, suborno, espionagem, chantagem, intimidação, assassinato, pilhagem e genocídio.

O grau de profundidade da depressão que fatalmente ocorrerá nos países mais atingidos está na razão inversa da capacidade dos governos e da mobilização popular de estabelecerem sólidos mecanismos de contenção dessas práticas - enquanto não for possível superá-las por um ordenamento econômico onde as empresas públicas ocupem o lugar dos monopólios privados.

Os monopólios são o fruto podre e envenenado do modo de produção capitalista. Brotaram da impotência do mercado frente ao processo de concentração e centralização do capital e se voltam contra ele para livrar-se das amarras da concorrência e impor sua tirania. Por isso já se disse, com muita propriedade, que seu surgimento anuncia o esgotamento do sistema.

Mas seria tolice pensar que o socialismo, por ser a alternativa mais avançada ao domínio dos monopólios, seja a única opção quando se trata de combatê-los efetivamente. O mercado não tem como evitar o nascimento de seus edipianos rebentos. E, manietado por eles, não pode restringir a sua ação. Mas o Estado, a depender da força que tenham dentro e fora dele os trabalhadores e o capital privado não-monopolista, pode contê-los. Mais: pode evitá-los, e inclusive eliminá-los, através da constituição de empresas estatais, sem que o socialismo tenha sido implantado. Portanto, não é recomendável fugir das complexidades da vida, porque a conseqüência seria trocar a luta política por um propagandismo estéril e imobilista.

Como toda a crise ocorrida no centro do sistema imperialista, esta também pode, em decorrência das medidas que adotemos para enfrentá-la, nos levar de roldão ou fortalecer a nossa independência.

Os monopólios de mídia e a oposição, em absoluta discrepância com os interesses da Nação, difundem toda a espécie de boatos, pseudoteorias e previsões alarmistas que possam ajudar a crise a se introduzir no país.

No afã de responsabilizar o presidente Lula pelas dificuldades econômicas que adviriam desta invasão, os corvos semeiam a desordem, sem medir as conseqüências. A perspectiva de poderem extrair algum dividendo eleitoral do sacrifício do país os cega para o alto preço que acabaria tendo que ser pago por todos.

No entanto, é perfeitamente possível derrotá-los mais esta vez, barrando a crise e acelerando o crescimento econômico.

Antes de mais nada, é preciso reduzir as taxas de juros astronômicas praticadas no Brasil.

Sem erradicar essa praga, cultivada pelos setores interessados em transferir renda do setor produtivo aos monopólios financeiros, nenhuma medida de combate à crise terá eficácia e sequer será levada a sério pelos agentes econômicos.

A própria imagem do Brasil no G-20 sofreria um dano considerável se ele fizesse internamente o oposto do que nosso presidente aprova e defende nas reuniões internacionais.

Paralelamente, é preciso intensificar o processo iniciado pelo governo Lula de fortalecer a ação do Estado na economia, através do investimento público, da expansão do mercado interno, da ampliação da infra-estrutura, da substituição de importações - e reforçá-lo com o controle sobre o fluxo de capitais e a regulação econômica estatal onde ela se fizer necessária. Em uma palavra: retomar e aprofundar o projeto nacional-desenvolvimentista, cujos alicerces foram plantados na era Vargas, e depositar no lixo da história os restos do modelo dependente em sua versão mais extremada, a neoliberal.

O projeto nacional-desenvolvimentista tem por base a aliança entre o Estado, os trabalhadores e o setor privado nacional para defender o país da voragem dos monopólios e promover, simultaneamente, crescimento econômico e distribuição da renda.

Historicamente, quando ele foi implantado, não tinha sentido falar de monopólios nacionais, pois eram todos externos, ainda que mantivessem filiais no Brasil.

Hoje, não se pode dizer o mesmo. No ramo financeiro, no das telecomunicações, mineração, siderurgia, petroquímica, construção e outros surgiram empresas nacionais - nove entre dez cevadas à sombra do criminoso processo de privatizações - que reproduzem as práticas anti-sociais dos monopólios externos e compartilham com eles o espaço nos mesmos cartéis para açambarcar o mercado, esfolar consumidores, esmagar fornecedores e sugar o Estado, bloqueando, em conseqüência, o livre desenvolvimento das forças produtivas nacionais.

Confundir esses setores com o capital privado nacional não-monopolista seria um erro de conseqüências desastrosas. A pior coisa que o governo poderia fazer ao Brasil e a si mesmo no momento de empregar o máximo de firmeza para conjurar a ameaça de penetração da crise seria facilitar a qualquer espécie de monopólio privado o acesso aos recursos públicos, em detrimento dos setores que podem, de fato, alavancar o desenvolvimento: o setor estatal e o setor privado nacional não-monopolista.

Ao fazer balançar dentro dos EUA velhos mastodontes como o Citibank, a General Motors e outros tantos, a crise internacional abre largas avenidas para o desenvolvimento do Brasil. Mas nenhuma delas passa pelo fortalecimento da ação dos monopólios no interior da nossa economia.

Mostra disso foi dada com a escandalosa utilização do compulsório pelos bancos para adquirir patrimônios e não para liberar crédito conforme o prometido; com as falcatruas da Odebrecht, às expensas do BNDES, no Equador e na Venezuela; com as manobras da Vale do Rio Doce para catapultar o preço dos minérios; com o seqüestro das máquinas dos agricultores do Mato Grosso, por bancos que sequer lhes emprestaram recursos próprios, pois operavam como repassadores de recursos do BNDES; com a reedição da prática terrorista das montadoras de usarem as férias coletivas como prenúncio de demissões, apesar de receberem R$ 8 bilhões do setor público - Banco do Brasil e Nossa Caixa - para financiar as vendas de veículos.

É verdade que nosso dever de brasileiros nos obriga a assumir a defesa de qualquer empresa nacional (mesmo monopolista) nas eventuais disputas resultantes de suas contradições com os monopólios externos, pois as primeiras não têm por meta remeter lucros - declarados ou não - para fora do país.

Porém, o mais importante é deixar claro para o conjunto da sociedade o antagonismo entre os monopólios privados de qualquer origem e a perspectiva de desenvolvimento com distribuição da renda, o único que interessa aos trabalhadores e à esmagadora maioria do empresariado nacional - pois crescimento econômico com concentração da renda é, e não tem como deixar de ser, a ante-sala de todas as crises.

Ao contrário dos monopólios externos, cujos 500 maiores controlam através de 420 filiais cerca de 40% da nossa economia, os monopólios nacionais não chegam a duas dezenas. A médio prazo, têm apenas duas possibilidades: serem engolidos por monopólios externos ou cruzarem as fronteiras para piratear os vizinhos. Como a formação histórica, social e cultural do Brasil é um poderoso freio ao exercício do segundo papel, o caminho que acabaria se impondo seria a desnacionalização dessas empresas.

Portanto, a idéia de compensar a drenagem de nossos recursos para fora, realizada pelas multinacionais estrangeiras, com a drenagem de recursos para dentro, através de “multinacionais brasileiras”, é um atalho que leva ao precipício. Ilusão vadia, dispendiosa e suicida, quando implica em retirar recursos vitais à expansão da produção interna para financiar via BNDES - ou seja, com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador - uma versão caricata da aventura ultramarina.

Hoje, mais do que nunca, o que interessa ao povo brasileiro é avançar no caminho indicado pelo presidente Lula com o PAC: crescimento econômico com expansão do mercado interno - mais produção, mais emprego e mais salário.

Para isso é indispensável ampliar, no interior da economia nacional, o peso do setor estatal e do setor privado nacional não-monopolista em relação aos monopólios, pois no Brasil, assim como no mundo, são eles a fonte dos maiores problemas e das maiores desgraças.

Ao enfraquecê-los, a crise internacional nos oferece uma oportunidade ímpar de acelerar esse processo. Não devemos desperdiçá-la.

Os mais de 40 anos de experiência do Movimento Revolucionário 8 de Outubro nas lutas políticas e sociais do nosso povo nos dão a convicção de que para fazer frente a esse momento é imprescindível o registro de um novo partido político no Brasil.

Esse partido deve se guiar por cinco pressupostos básicos:

1º. Que na atual etapa do nosso desenvolvimento histórico a principal questão da luta mais ampla e fundamental pelo avanço da democracia está na superação das relações de produção dependentes, ou seja, na conquista da plena independência nacional.

2º. Que esta luta corresponde às necessidades e interesses de todos os setores da sociedade brasileira, à exceção dos monopólios, e implica na constituição de uma frente de forças políticas e sociais que abrace e transforme cada vez mais em realidade viva o projeto nacional-desenvolvimentista.

3º. Que politicamente esta frente está hoje constituída pelos partidos que integram a base do governo, com destaque para o PT e o PMDB, que são os maiores e mais influentes. A principal expressão e o principal líder dessa aliança é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Fora dela o que existe é o retrocesso. Por isso, utilizar reais ou supostas limitações da frente para combatê-la, ao invés de lutar para impulsioná-la, só tem levado setores que se pretendem à esquerda ao vexatório papel de linha auxiliar das viúvas do neoliberalismo encasteladas no PSDB e no Dem.

4º. Que o ritmo de desenvolvimento de todo esse processo de lutas é ditado pelo grau de consciência e organização de seus maiores interessados, os trabalhadores. Portanto, a atuação do partido no movimento sindical e nos movimentos sociais é fundamental e decisiva.

5º. Que no horizonte da luta pela ampliação da democracia está a construção de uma sociedade socialista, onde o mercado, ao invés de devastado pelos monopólios, seja superado pelo planejamento consciente do conjunto das atividades econômicas, à medida que os meios de produção se convertam em propriedade pública, através de um Estado que incorpore crescentemente às suas atividades as amplas massas da população, até esgotar seu papel e extinguir-se.

Da letra do Hino da Independência vem o nome deste novo partido que convocamos a brava gente brasileira a construir conosco: Partido Pátria Livre. Porque é exatamente disso que se trata: concentrar todas as energias para completar a grande obra da independência nacional.

Esta obra ainda não foi concluída. Várias gerações de brasileiros ao longo da história deram o melhor de si para desenvolvê-la e obtiveram êxitos notáveis. A maior parte dessa construção, que começou com Tiradentes, passou por Getúlio e chegou a Lula, já foi realizada. Mas a que falta deixa o país e o povo vulneráveis à espoliação externa que tolhe o nosso desenvolvimento econômico, político, social e cultural.

Concluí-la aceleradamente será o principal objetivo do Pátria Livre.

O primeiro passo dessa caminhada é recolher as 500 mil assinaturas, até o mês de junho de 2009, para que o PPL possa apresentar seus candidatos às eleições de 2010.

Aos companheiros do PMDB, com os quais tivemos a honra de conviver por mais de 30 anos no interior da mesma estrutura partidária, repartindo o pão, as glórias e eventuais desventuras, o nosso sincero e comovido reconhecimento. Seguiremos juntos na grande frente nacional que se aglutina em torno do presidente Lula, pela qual tanto nos batemos e que, ainda mais do que antes, continuará a contar com a nossa plena dedicação.

São Paulo, 7 de dezembro de 2008,
Comitê Central do Movimento Revolucionário 8 de Outubro

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ronaldo muda grito de guerra do Timão

Maldade ouvida da boca de um palmeirense eufórico com a ida de Ronaldo Fenômeno para o Parque São Jorge: "agora a Fiel terá que mudar seu grito de guerra. Passará a ser: 'Aqui tem um bando de loucas, loucas por ti Corinthians". Como diria Ancelmo Góis, é, pode ser...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Lago: Maranhão, a galápagos política

O diretor do instituto Engrácia Garcia, Jorge Rodini, envia ao blog um interessante artigo do governador do Maranhão sobre a crise política que abala aquele estado. Diz Jorge: "O estado do Maranhão pode de novo virar refém da velha oligarquia. Quem conhece este lindo e pobre estado da alma por dentro e por fora sabe por quantas passou. O governador Jackson Lago expressa na carta a seguir pedido de Justiça. E clama para que não devolvam o Maranhão para o abismo da falta de educação, saúde e dignidade." A seguir, a íntegra da carta de Lago:


Arma-se um golpe no Maranhão. Trama-se, nos bastidores, um golpe contra a democracia. O objetivo é a reintegração de posse de um feudo político, o usucapião vitalício e hereditário do Maranhão. Melhor seria decretar o território maranhense a nossa galápagos política. Lá, fica revogada a alternância de poder.

Proíba-se a imprensa nacional de perscrutar nossa história. Na galápagos só entram os cientistas políticos, curiosos para estudar algumas espécies raras, extintas no território nacional e que ainda vicejam no Maranhão. O velho oligarca, a filha do oligarca, onde mais no país, senão na nossa galápagos, podemos estudar com darwiniana curiosidade tão raros exemplares da evolução política brasileira?

Arma-se um golpe no Maranhão, como se não houvesse juízes em Brasília. Alega-se desequilíbrio na disputa, por conta de convênios legalmente firmados entre o Governo do Estado e municípios. Imputa-se a mim, candidato sem mandato, sem cargo público, sem tempo no horário eleitoral, imputa-se a mim esse desequilíbrio. Mas na nossa galápagos, não é desequilíbrio que o grupo familiar de uma candidata seja proprietária de 90% de toda a mídia do Estado. Não desequilibra o pleito que o Fórum da capital tenha o nome do pai, e o Tribunal de Contas do Estado ostente o nome da filha. Em nome do pai e da filha e do santo espírito da democracia, nada perturba nossa galápagos.

Nomeiam hospitais, escolas, pontes, centros administrativos, ginásios de esporte, vilas e até municípios. Criou-se até o gentílico sarneyense, para quem nasce no município de Presidente Sarney. Contra a lei, contra a moral, contra tudo.

Constrange-se o próprio presidente da República, que em seis anos de mandato nunca pisou em nossa capital e jamais inaugurou uma obra no Maranhão. Não, isso não desequilibra nenhuma disputa. É assim mesmo na nossa galápagos.

Dediquei quarenta anos de lutas enfrentando a mais formidável máquina de desinformação. Fundei um partido, o PDT, no qual estou até hoje. Estive no seu nascedouro, signatário da Carta de Lisboa, juntamente com Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Francisco Julião e Neiva Moreira.

Combati o golpe militar em defesa das liberdades democráticas.

Na política estadual concorri a vários cargos públicos para o Legislativo estadual e federal. Denunciei a situação de miséria do camponês maranhense, sonhei e lutei pela Anistia, disputei várias eleições com derrotas e vitórias. Por três vezes nossa capital me fez o seu prefeito. Saí de todos os mandatos com o patrimônio de médico e funcionário público. Não me fiz sócio de qualquer empreendimento, em busca de vantagens.

Em 1994 disputei o governo estadual e obtive 21% dos votos. Contava, na ocasião, com o apoio de dois dos 217 prefeitos do Estado. Em 2002, ainda na oposição ao Governo do Estado, obtive 42% dos votos para governador. Finalmente, em 2006, com o lema Trabalho, Saúde e Educação para Libertar o Maranhão, obtive 34,36% dos votos no primeiro turno, o que permitiu unir os demais candidatos na Frente de Libertação do Maranhão que finalmente liberou nosso estado sofrido e exausto do domínio oligárquico de mais de 40 anos.

O Maranhão deu seu grito de liberdade! Seguimos o nosso objetivo de criar melhores condições de vida para o nosso povo. Construí em dois anos 160 escolas públicas , afrontando as três escolas que Roseana Sarney fez em 7 anos e 4 meses de mandato. Pavimentei mais de 2 mil quilômetros de asfalto. Vamos inaugurar em breve o primeiro hospital de emergência/urgência no interior do estado. Nas últimas eleições o Estado confirmou o ocaso oligárquico, elegendo 70% dos prefeitos dos partidos da Frente de Libertação.

Essa votação expressa o natural repúdio do povo maranhense a tantos anos de atraso. No entanto, sou acusado, no Tribunal Superior Eleitoral, de abuso de poder econômico e de mídia. Pasmem, sou acusado, pelo grupo Sarney, de abuso de poder econômico e de mídia!

Fabricam provas, corrompem testemunhas, pregam verdadeiro terrorismo no Estado, jactando prestígios, antecipando decisões judiciais. Quousque tandem?

Tenho um olho na Justiça, na qual confio, e outro no povo maranhense, fiador do meu destino. Em contrição, soletro os versos gonçalvinos “a vida é combate, que aos fracos abate, aos fortes, aos bravos, só pode exaltar”.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Crescimento do PIB no terceiro trimestre
afasta o risco de uma recessão no Brasil

O Brasil é um país realmente estranho. Enquanto o mundo atravessa a "maior crise da história do capitalismo" (de acordo com a sempre precisa análise da mídia local), por aqui a economia ainda não foi realmente afetada pela turbulência internacional, pelo menos não na magnitude que a mídia local esperava (e torcia desesperadamente, para ver se com isto cai pelo menos um pouco a estratosférica popularidade do presidente Lula, odiado e desprezado por esta mesma mídia).

Bem, nesta terça-feira saiu o resultado do PIB do terceiro trimestre deste ano: crescimento de 6,8% em relação a 2007 e 1,8% em relação ao trimestre anterior. Sim, o resultado é anterior ao agravamento da crise mundial, mas a questão não é esta. O relevante agora é que o PIB veio bem acima do que os analistas esperavam (entre 5% e 6%) e deve provocar de imediato uma mudança grande nas expectativas do mercado, do empresariado e dos consumidores. Até a ultra-reacionária Míriam Leitão reconheceu: todo mundo vai rever as contas para cima. Quem falava em retração já neste fim de ano, como o pessoal da LCA (conforme outro post do mesmo blog da jornalista global), já diz que teremos crescimento de quase 0,5% neste final de ano (sobre uma base bastante forte, diga-se de passagem). A tal "recessão" que a mídia estava dando como certa para detonar a popularidade de Lula já não ocorreria mais no primeiro trimestre de 2009 e sim no segundo, ainda de acordo com o wishfull thinking dos analistas conservadores, como a própria Míriam.

Este blog não está dizendo que não vai acontecer nada de ruim para a economia nacional em 2009 e muito mesmo negando a gravidade da crise mundial. A questão central aqui simples: a imprensa brasileira, inclusive a especializada, não tem a mais remota idéia da "gravidade" da crise, até porque nenhum analista honesto poderia afirmar peremptoriamente, no curso dos acontecimentos, que esta é a crise "mais grave do capitalismo". Pode até ser que seja isto mesmo, mas para chegar lá será preciso que o desemprego nos EUA bata a casa dos 25% e o mundo entre em uma depressão econômica realmente profunda. A Europa teria que ficar pobre, sim, pobre, como ficou no período entre a primeira e segunda guerra mundial.

O que aconteceu em 29 foi uma hecatombe e a mídia está vendendo uma nova hecatombe sem que os fatos do momento autorizem tal previsão, especialmente porque agora, ao contrário de 29, os governos dos Estados Unidos e da Europa, para não falar de Japão, China e emergentes, estão agindo de maneira muito firme (e aplicando muito, muito dinheiro) para evitar o agravamento da situação. Parece razoável esperar pelo menos algum efeito das medidas tomadas, portanto parece bastante precipitado escrever que as turbulências deste ano já são piores do que as de 29. Pode ser que sim, mas também pode ser que não, e a prudência manda aguardar os fatos para analisar o cenário com mais clareza. Para Folhas, Estadões e Globos, porém, o que vale mesmo é berrar bem alto: fogo na floresta! E torcer para que o povão acredite e passe a culpar Lula pelo incêndio. Até agora, e estão aí os 70% de aprovação presidencial que não deixam mentir, a estratégia não tem funcionado direito...

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ano que vem tem mais


6-3-3 é só TRICOLOR...

PS: ser tricolor é caro, mas vale a pena

O filho do autor destas Entrelinhas já pediu ao pai um uniforme novo, para atualizar as estrelas, porque o do penta ficou velho. É, ser sãopaulino tem dessas coisas, todo ano tem que comprar camisa nova...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Lula 70% e o "sifu"

Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha divulgada nesta sexta-feira revela que a aprovação do povo brasileiro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva bateu novo recorde, alcançando espantosos 70% de "ótimo" ou "bom".

Lula é mesmo um fenômeno. Desde o final de setembro, os jornais, a televisão e o rádio só falam em uma coisa – na crise financeira mundial. Uns mais outros menos, o tom geral é o de que uma tragédia está em curso. Todo dia tem notícia ruim e péssima, todo dia o brasileiro fica sabendo que sua alegria vai ficar triste logo mais. Com tal clima, era de se esperar que a popularidade do presidente despencasse, mas não foi isto que se viu. Ao contrário, subiu 6 pontos percentuais. Hoje, no Brasil, apenas 7% da população acha o governo Lula ruim ou péssimo.

Não deixa de ser curioso que a notícia da popularidade tenha sido publicada no mesmo dia em que os jornalões repercutiam a nova gafe presidencial, do "sifu", que já se tornou célebre. Entre os blogs direitosos, não se fala em outra coisa e o lapso chega a ser atribuído ao excesso de consumo daquela água que passarinho não bebe. O autor deste blog viu e reviu a cena e assistiu também outros trechos do discurso. Não há a menor dúvida: Lula já tinha pensando no exemplo que ia dar e preparou a piada. Não foi um "improviso", como tantos analistas andam dizendo, mas algo programado. No fundo, o "sifu" ajuda a entender a alta popularidade de Lula: ele é um grande comunicador e fala a linguagem que o povão entende. Neste episódio em particular, a intenção era corrigir o rumo da postura adotada no enfrentamento da crise. Para não cair no ridículo de ter um discurso otimista em meio ao caos econômico da maior crise do capitalismo desde 29, Lula explicou que agia como o médico que pega um paciente doente e tenta animá-lo. Para ficar mais claro, sapecou a frase: "vocês não diriam ao paciente: meu, sifu..."

Ora, é evidente que dito assim, qualquer um entende: o presidente sabe da gravidade da crise, mas não pode agir demonstrando preocupação ou desespero. É o mínimo que se espera de um líder...

Mas o mais interessante no aumento da popularidade aferido pelo Datafolha é que ele se deu entre os mais ricos e escolarizados, que normalmente são os que mais rejeitam o presidente-operário. Segundo cientistas políticos ouvidos pela reportagem do DCI, a razão deste movimento é simples: a classe média "sentiu firmeza" nas ações do governo Lula depois que a crise começou. Até agora, todos diziam que ele "não tinha sido testado" em uma situação de crise (o que é mentira, porque o mensalão foi uma crise, na esfera política) e que iria sucumbir se algo mais grave acontecesse. Bem, o fato é que as medidas tomadas pelo governo tem sido elogiadas até pela oposição. Ok, a crise está só começando, mas até aqui, Lula já demonstrou que não tem medo de cara feia e vai trabalhar com os instrumentos que tem para tentar evitar o pior para o Brasil. Não é pouca coisa...

Jorge Rodini: a palavra de Lula

O que vai abaixo é mais uma colaboração do craque Jorge Rodini, diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia, sobre as recentes e polêmicas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na íntegra, o comentário de Rodini:

O presidente Lula pode não ser intelectual, pode não gostar de ler, pode não ter formação universitária. Mas não podemos deixar de reconhecer sua grande empatia com a maioria do povo brasileiro. Que também não é nada disso.

A classe média, em dia de jogo de futebol, usa expressões chulas o tempo todo. Nós, brasileiros de qualquer segmento social, adoramos xingar qualquer motorista trapalhão no trânsito, qualquer juiz de futebol bem ou mal intencionado ou até mesmo ex-presidente com aquilo roxo.

Mas tem ocasião e tem ocasião. Tem que ter intimidade com quem ouve. Tem que respeitar o rigor do cargo. Tem que proteger as crianças.

Lula tem a maior aprovação popular (70% de conceito ótimo e bom na última pesquisa Datafolha) da história. Os brasileiros, mesmo os que tem simpatia pelo PSDB, avaliam positivamente o presidente. Já chamou a crise de "marolinha" e, mesmo assim, consegue se aninhar nos braços esplêndidos do povo. Está na hora de Lula virar estadista. Passou da hora.

A expressão "sifu" é entendida por qualquer criança com 4 anos. É aí que está o problema. Criança não entende de crise, de demissões, de ajuda federal ao empresariado, de CPI manipulada, de empréstimos da CEF para Petrobrás, de "subprime".

O ex-presidente Collor também era mestre no "improviso". Lula, ao usar expressões, digamos, populares, aproxima-se do sentimento dos brasileiros. Não é tão improvisado assim. Faz parte da estratégia. O problema é que seu próprio povo está percebendo que já "sifu".

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

José Serra e o "pós-Lula"

O que vai abaixo é o artigo do autor deste blog para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do Entrelinhas.

José Serra (PSDB) está apoiando a candidatura de Tião Viana (PT-AC) à presidência do Senado. E trabalha para convencer senadores de seu partido e também do DEM a deixar de lado a busca por nomes alternativos, como o de Pedro Simon (PMDB-RS), lançado pelo também peemedebista e ex-presidente da Casa Renan Calheiros (AL). Na disputa da Câmara dos Deputados, José Serra está fechado com a candidatura de Michel Temer (PMDB-SP), que também tem o apoio do PT. Nas últimas semanas, José Serra saiu na foto ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva várias vezes, em diferentes eventos e foi recebido no gabinete presidencial pelo menos duas vezes. Fechou um negócio de bilhões com Lula, a venda da Nossa Caixa ao Banco do Brasil, e chegou a participar de entrevista coletiva ao lado do ministro Guido Mantega, da Fazenda, na qual fez elogios às medidas tomadas pelo governo para enfrentar a crise financeira mundial.

A movimentação de Serra deve deixar um pouco confusa a militância tucana. Afinal, agora que a crise econômica redentora para as ambições tucanas de voltar ao Planalto chegou, não seria a hora de cair matando no presidente Lula? Por que, então, Serra, o principal pré-candidato do PSDB à presidência em 2010 está "amaciando" tanto e até estabelecendo parcerias com Lula? Seria puro cálculo político, jogo de cena visando obter recursos para as obras que alavancarão a sua campanha? Neste caso, por que Lula colocaria a azeitona na empada de Serra? Quando duas raposas como Lula e Serra se entendem, não se poderá jamais dizer que só um lado saiu ganhando – o governador vai receber o din din da Nossa Caixa, mas o presidente ficou credor de diversas ações políticas de Serra, eleição do Senado inclusa, segundo o que vai nos bastidores brasilienses.

Voltando então à pergunta inicial – por que Serra anda tão pouco oposicionista – a resposta não é simples e parte dela reside na análise que os tucanos fazem do comportamento da economia brasileira nos próximos dois anos. Uma entrevista concedida por Luiz Carlos Mendonça de Barros ao ultraconservador Reinaldo Azevedo é emblemática. Mendonção foi ministro de Fernando Henrique, era da ala "desenvolvimentista", ou seja distante de Pedro Malan e próximo de José Serra. Segundo o economista, o Brasil vai crescer entre 2% e 2,5% no próximo ano, uma queda expressiva em relação a 2008, mas a crise vai bater mais forte nas classes médias e alta e nas regiões Sul e Sudeste. Os pobres e muito pobres, os nordestinos e nortistas serão os que sentirão menos os efeitos da crise. Assim, explica Mendonção, a crise financeira não deve abalar muito a popularidade do presidente Lula, que dificilmente cairá abaixo dos 50%, mesmo que a crise piore muito a economia brasileira. O pior para os tucanos é que a boa avaliação do presidente tende a cair mais entre os mais ricos e classe média, público que já seria majoritariamente "tucano" ou pelo menos oposicionista. No povão, que de fato importa para decidir uma eleição, o efeito seria muito reduzido.

Ora, com tudo isto posto, não é preciso ser nenhum gênio para entender a estratégia de Serra, cuja ambição para ser presidente do país é algo que o diferencia de qualquer outro brasileiro. O governador de São Paulo percebeu que não dá para bater de frente com Lula e tenta agora uma aproximação tática com o presidente. Aécio Neves, governador de Minas, já tinha percebido isto bem antes de Serra, e se posicionava como o político capaz de promover a união, tendo patrocinado uma inusitada aliança em Belo Horizonte que uniu, ainda que informalmente, PT e PSDB. José Serra agora também parece ter adotado a postura do "pós-Lula" para se eleger em 2010. Não critica o governo, fala bem do presidente e chega até a propor medidas rigorosamente iguais às tomadas por Lula, como foi o caso da ajuda de R$ 4 bilhões às montadoras – Lula deu quatro, Serra copiou e mandou mais quatro.

É evidente que se o mundo mudar e a crise virar o país de ponta cabeça, atingindo em cheio a popularidade de Lula, Serra estará entre os primeiros a bradar contra todos os erros e incompetências do governo federal – cuja atuação até agora, é bom ressaltar, ele mesmo avaliza.
"Política é como nuvem: você olha e vê um formato, mas quando olha de novo já vê outro formato". A frase, atribuída a mais de um político mineiro (Magalhães Pinto e Tancredo Neves, ninguém sabe quem de fato cunhou a expressão), reflete bem o atual momento brasileiro. Tudo indica, e os tucanos concordam com este cálculo, que Lula chegará em 2010 forte, como um eleitor de peso, isto se não for ele próprio candidato à presidência – tempos de crise sugerem soluções criativas. Se assim for, Serra (ou Aécio) farão uma campanha sem grandes críticas ao governo, apostando na fórmula vitoriosa de 2006, quando ambos se elegeram com votações expressivas em seus estados sem falar patavinas do que fariam depois de eleitos. E sem criticar ninguém.

Se assim for, por fim, apenas o PSOL e quem sabe o DEM, caso tenha coragem de lançar uma candidatura própria e deixar de orbitar em torno dos tucanos, terão discurso de oposição. O "pós-Lula" no fundo é o grande sonho do presidente, conciliador por natureza. Resta saber se a crise vai deixar este sonho acontecer.