terça-feira, 31 de março de 2009

Castelo de Areia, barrigas e vazamentos

Mais um artigo do autor do blog para o Observatório da Imprensa. Em primeira mão para os leitores do Entrelinhas.

JORNALISMO POLÍTICO
Uma barriga e muitos vazamentos

O distinto público anda até meio atordoado com a cobertura da imprensa brasileira sobre o cenário político do país. Dia sim, dia não, tem denúncia nova saindo do forno. O cardápio anda variado, tem para todos os gostos: deputado democrata usa verba de gabinete para pagar a faxineira; dez partidos políticos levam uma boa graninha de empreiteiros, intermediados pela Fiesp, que ficam discutindo como mandar a “tulipa”, se era para fazer a coisa “por dentro” ou “por fora”; um nobre senador filiado ao PT empresta o telefone celular funcional para a filhota viajar ao exterior; tudo isto sem falar dos cento e tantos diretores para assuntos aleatórios do Senado Federal ou na inacreditável história da filha de um ex-presidente, contratada por outro senador, este integrante do DEM, que revela não dar expediente no gabinete do parlamentar e confessa, até com certo deboche, não saber se recebeu horas extras pelos dias (não) trabalhados durante o recesso legislativo.

Foi lama demais em período tão curto. Se é possível estabelecer um marco inicial na nova onda de corrupção que assola o Brasil (ou não é isto que todos estamos assistindo na televisão, ouvindo nas rádios e lendo nos jornais?), a coisa começou depois que o ex-presidente da República José Sarney (PMDB-AP) assumiu o comando do Senado Federal. Não, não deu tempo para Sarney aprontar todas as falcatruas que vem sendo divulgadas, o descaminho parece ser mais antigo. De toda forma, depois que Sarney sentou na cadeira antes ocupada pelo discreto Garibaldi Alves (PMDB-RN), o bicho pegou.

Este Observatório não trata de análise política, portanto a relação de causalidade entre a nova onda denuncista e a posse de Sarney fica para outro artigo, em outro veículo, pois o que realmente importa aqui é tentar perceber se a imprensa está ou não fazendo um bom trabalho na cobertura dos recentes episódios. E não é fácil mensurar a qualidade do que vem sendo apresentado ao público. Antes de tudo, é evidente que quanto mais informação houver sobre o que é feito com o dinheiro público, melhor. Mas exigir apenas isto da imprensa é muito pouco. Senão, vejamos.

O caso Luciana Cardoso
Grosso modo, as histórias escabrosas que estão aparecendo na mídia são fruto de denúncias de partes envolvidas no processo e há muito pouca apuração dos jornalistas nas matérias apresentadas nos veículos impressos, telejornais e noticiário radiofônico. Pelo que é possível perceber até aqui, as acusações chegam redondas aos repórteres e editores. Há, evidentemente, uma checagem básica sobre o teor da acusação e então o escândalo do dia está prontinho para o deleite do público. Sem contextualização alguma, sem indicação dos interesses da fonte que denunciou, enfim, sem maiores investimentos dos órgãos de comunicação em explicar o que está por trás de tanta falcatrua.

Antes de analisar mais de perto o problema, cabe logo apontar a honrosa exceção ao desleixo geral: no episódio envolvendo Luciana Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique, que trabalha para o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, fez exatamente o que manda o figurino: de posse da denúncia de que a moça era absenteísta, a repórter ligou para o gabinete por três dias consecutivos, verificou que de fato Luciana não frequentava o local e por fim conseguiu falar com a denunciada após a ligação ser transferida para o telefone da casa dela, Luciana. Fez uma excelente entrevista, publicada na sexta-feira (27/3), com destaque, na coluna que leva o nome da jornalista, na página 2 do caderno “Ilustrada”. No fundo, Mônica expôs ao ridículo a filha de Cardoso e provou que não tem medo da cara feia do pai da moça. Jornalistas não devem mesmo ter medo da cara feia de ninguém.

Nos demais casos, há pouco a comemorar no comportamento da imprensa. Os episódios envolvendo os diretores do Senado ou as horas extras recebidas durante o recesso parlamentar só apareceram porque gente com bala na agulha e algum interesse em espalhar a fedentina resolveu botar a boca no trombone. Não é possível, como bem lembrou Alberto Dines em seu comentário para o programa radiofônico do OI de segunda-feira (30/3), que os repórteres que há anos freqüentam o Congresso nunca tenham percebido a fila diária de funcionários no início da noite para bater o ponto e receber as horas extras na Câmara, ou simplesmente não soubessem o número de diretores que tinha o Senado Federal.

Versão fajuta
Os vazamentos de informações sigilosas de inquéritos da Polícia Federal também têm marcado a cobertura da Operação Castelo de Areia. O grande problema é que o vazamento tem sido seletivo. Inicialmente, da lista de partidos que receberam doações da empreiteira Camargo Corrêa, investigada na operação, não constava o PT. Segundo reportagem do Jornal Nacional de segunda-feira (30/3), o partido também está citado no relatório da operação, ao lado do PV e PTB, que também não foram acusados inicialmente.

Evidentemente, os jornalistas não têm poder adivinhatório e não poderiam escrever, como fez, erroneamente, a Folha Online, na semana passada, que os petistas também estavam sendo investigados. Coisa muito mais simples e ao alcance de qualquer cidadão, porém, é pesquisar no site do Tribunal Superior Eleitoral as doações feitas pelas empreiteiras em campanhas passadas – ajuda a entender o contexto e revela que as empresas do setor financiam praticamente todos os partidos políticos brasileiros, sem distinção ideológica. Muito concentrados em seguir a apuração policial, os jornais, emissoras de televisão e rádio acabam oferecendo pouca informação analítica, do tipo que realmente ajuda o público a entender melhor o que está em curso.

No caso da Operação Castelo de Areia, especificamente, o jornal O Estado de S.Paulo teve a infelicidade de publicar, na sexta-feira (27/3) matéria “informando” que o presidente Lula teria “convencido” o criminalista Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça, a entrar no caso em defesa da Camargo Corrêa. O problema é que na reportagem em questão, como bem observou o blogueiro Luiz Weis, neste Observatório (“A falta que fazem os goleiros”), não havia uma única linha que confirmasse a “informação” do título.

Sim, Bastos esteve por cinco minutos com o presidente dois dias antes de a matéria ser publicada, tomou um café, cumprimentou o ex-chefe e foi cuidar da vida. Confirmou o encontro ao jornal e negou ter recebido qualquer pedido de Lula. A explicação mais simples, de que a Camargo Corrêa, encrencada que está, tenha decidido contratar um dos melhores, senão o melhor criminalista do país, certamente não passou pela cabeça de quem escreveu a reportagem. Não, foi mesmo o Lula que chamou Bastos... para defender o DEM e o PSDB, inclusive. E, como bem assinalou Weis, pode até ser que o presidente tenha mesmo conversado com Bastos sobre o caso, mas não havia nada na reportagem do Estadão que autorizasse tal versão. Barriga, não das piores, mas barriga.

Manipulações a rodo
Tudo somado, o que está faltando na cobertura desses eventos é a capacidade de contar uma história com começo, meio e fim, que faça algum sentido. É evidente que existe uma disputa política por trás de tudo que está aparecendo na imprensa. Luciana Cardoso é funcionária de Heráclito Fortes há seis anos, a empregada doméstica (já exonerada) que recebia seus proventos pelo gabinete do deputado Alberto Fraga (DEM-DF) limpava a casa do parlamentar fazia pelo menos quatro anos, as filas pela hora extra não começaram ontem, nem os 180 diretores do Senado foram nomeados agora por José Sarney.

Em Brasília, todo mundo sabe de tudo, mas o que aparece nos jornais e nas telas da televisão depende da vontade de alguns em contar o que sabem, muito mais do que da disposição investigativa dos órgãos de comunicação. E quando alguém conta uma história cabeluda, algum interesse está em jogo.

O grande problema do jornalismo político praticado no Brasil é que muitas vezes os veículos, que também têm lá os seus interesses e as suas preferências ideológicas, preferem deixar o público no escuro e iluminar apenas as acusações e denúncias que lhes convêm, abrindo caminho a toda sorte de manipulação de informação. O que realmente se passa, o pobre leitor só vai saber muitos anos depois, nos bons livros de história.

Sobrou para a doméstica Izolda

Rodrigo Maia, presidente do DEM, deve estar suspirando aliviado: o deputado federal licenciado Alberto Fraga (DEM-DF), mandou exonerar Izolda da Silva Lima, empregada doméstica que recebia seus vencimentos como funcionária da Câmara Federal. O mais interessante de tudo é que faz pelo menos quatro anos que este arranjo, digamos assim, meio capenga, existe e ninguém "se deu conta". Agora o impoluto Rodrigo poderá dizer que Fraga errou, sim, mas percebeu o equívoco e corrigiu a besteira. Ou seja, o deputado está limpo, voltou a ser um homem bom que merece estar no partido baluarte da moral e dos melhores costumes no Brasil. Abaixo, matéria da Folha de S. Paulo dá mais detalhes sobre o edificante episódio.

Deputado exonera empregada doméstica paga com recursos da Câmara

O deputado federal licenciado Alberto Fraga (DEM-DF) determinou nesta segunda-feira a exoneração da secretária parlamentar Izolda da Silva Lima. Apesar de trabalhar como empregada doméstica na residência do parlamentar, Izolda recebia o salário com recursos da Câmara.

Em nota, Fraga disse que solicitou ao deputado Osório Adriano (DEM-DF) para exonerar a servidora --uma vez que ela está está contratada pelo suplente do atual secretário de Transportes do Distrito Federal.

"Assim que tomei conhecimento deste ato entrei em contato com o deputado Osório Adriano. Em minha vida pública sempre cumpri a lei e vou continuar cumprindo", afirma o deputado na nota.

Izolda confirmou à Folha, em reportagem publicada nesta segunda-feira, que trabalha como faxineira de Fraga. O deputado licenciado afirma que ela recebe pela Câmara, mas apenas mora em sua casa. Já Osório Adriano diz que nem a conhece. "Essa funcionária, eu não a conheço, embora seja do gabinete. Trabalha lá com o Fraga, eu não poderia adiantar o que ela faz com o Fraga", disse Adriano.

O deputado afirmou que não dispensou os servidores de Fraga uma vez que o parlamentar poderia reassumir sua cadeira no Legislativo se resolvesse deixar a Secretaria de Transportes. "Eu combinei com o Fraga, como ele vez por outra gosta de reassumir o lugar dele, porque ele é o titular, nós estaríamos prejudicando o pessoal cada vez que você mexe", afirmou.

Coronel da reserva da Polícia Militar, Fraga é conhecido na Câmara como o principal nome da "bancada da bala". Em 2005, presidiu a frente parlamentar contra a proibição do comércio de armas no país. Em 2007, assumiu a Secretaria de Transportes distrital.

Na tarde de quinta-feira, entre 15h30 e 17h, a Folha falou com Izolda duas vezes: pelo telefone da casa de Fraga e pessoalmente --com cerca de 1,50 m de altura, de calção azul e camisa de malha desbotada da seleção brasileira, ela recebeu a reportagem no portão da casa do deputado licenciado.

"Todas. O que precisar, eu tô à disposição dele. Também atividades domésticas, principalmente nos finais de semana", respondeu ela, ao ser questionada pela reportagem que tarefas fazia na casa de Fraga.

De acordo com os registros da Câmara, Izolda é servidora desde fevereiro de 2003. No dia 19 do mês passado, ela foi promovida de secretária parlamentar 05 para 06, com vencimento de R$ 480,86. Segundo ela, seu salário total é de R$ 1.080 por mês. Ela disse que trabalha com Fraga há quatro ou cinco anos.

Sobre o caso Daslu

Mais um artigo do autor destas Entrelinhas para o Observatório da Imprensa. Na íntegra, para os leitores do blog.

LEITURAS DE VEJA
Os ricos também sofrem

Uma das características marcantes da atual fase da revista Veja – e que a diferencia de um veículo noticioso – é a editorialização das reportagens. É bem verdade que em maior ou menor grau, os jornalões brasileiros também trazem em suas matérias um bocado de opinião travestida de informação, mas nenhum vai tão longe quanto Veja. No limite, é até complicado para os leitores comuns perceberem o que é fato e o que é contrabando ideológico no semanário da Abril, o mais vendido do país.

Um ótimo exemplo deste tipo de "confusão" está na reportagem de capa da edição corrente da revista (nº 2106, de 1/4/2009). Com o chamativo título "A queda da casa de luxo", a prisão da empresária Eliana Tranchesi, dona da Daslu, foi tema da "Carta ao Leitor", que na prática é o editorial da publicação, e de uma longa reportagem assinada por Laura Diniz, Bel Moherdaui e Sandra Brasil.

No espaço editorial, com o título "A lei vale para todos", Veja defende que a empresária "não pode ser demonizada como o símbolo da desigualdade e da injustiça social no país". Defende também que "é preciso desestimular as tentativas de enxergar na punição da dona da Daslu uma condenação também a todos aqueles que, apenas por desfrutar uma boa situação material, parecem aos olhos do populismo rasteiro cidadãos privilegiados e inimputáveis."

Ostentação e futilidade

Até aqui, nenhum problema, a "Carta ao Leitor" é um canal de comunicação entre a direção da revista e o seu público. E a direção de Veja tem todo o direito pensar dessa forma e escrever o que quiser. Além da preocupação com a "caça aos ricos", a publicação se mostra mais uma vez na vanguarda do liberalismo: "Deve-se refrear também o impulso de ver no comércio de artigos caros e requintados apenas mais uma demonstração viciosa das classes abastadas. As pessoas que fabricam e vendem essas mercadorias, desde que respeitem as leis, são cidadãos tão úteis à comunidade quanto quaisquer outros", deixa claro o editorialista de Veja.

Tudo bem de novo, não há mal algum em explicar ao leitorado que o comércio de alto luxo é tão útil ao país como o de alimentos, eletrodomésticos ou automóveis. O problema, no entanto, está na reportagem, onde o leitor de Veja espera ou deveria esperar um relato detalhado dos fatos que marcaram a semana.

O lide da matéria realmente revela os principais eventos relacionados à prisão da dona da Daslu, mais eis que no segundo parágrafo começa o contrabando ideológico: "Assim como ser pobre não é qualidade, ser rico não é um crime, ao contrário do que esperneiam os demagogos de credo esquerdista. A riqueza, no mundo capitalista moderno, é fruto de trabalho, ousadia e criatividade – e, como tal, produz emprego, consumo e outras oportunidades de negócios num ciclo virtuoso", diz a "reportagem".

Se parasse por aí, poderia ser apenas um pequeno lembrete, redundante com o editorial, é bem verdade. Mas a coisa vai mais longe, muito longe: "A Daslu parecia concentrar todos esses atributos [trabalho, ousadia e criatividade], por mais que seus detratores a apontassem como um ícone da ostentação e da futilidade – que, aliás, estão entre os direitos garantidos a qualquer cidadão numa democracia".

Realmente, é bom saber que ostentação e futilidade são direitos garantidos a todos os brasileiros pela nossa Carta Magna. Poderiam também ser melhor distribuídos, a exemplo da renda, que infelizmente acaba vedando o acesso dos compatriotas a esses bens tão básicos para qualquer existência...

"A dor da gente"

O que vem depois desta vigorosa defesa do liberalismo econômico volta a ser uma reportagem, embora com fatos escolhidos e dispostos de maneira a emocionar o leitor com a fragilidade da saúde da empresária, que desde 2006 luta contra um câncer. Nada contra o relato, faz parte da história e traz uma dimensão mais pessoal do drama de Eliana Tranchesi. Não é pouca coisa lutar contra uma doença grave e ao mesmo tempo se defender em um processo judicial com o valor de causa tão exorbitante quanto o que a empresária enfrenta, de cerca de R$ 600 milhões.

Humano, demasiadamente humano, porém, é o trecho em que as repórteres explicam como foi o dia da dona da Daslu atrás das grades:

"Eliana dormiu sozinha numa cela de 9 metros quadrados, onde às 21h30 de quinta-feira foi instalado um colchão especial recomendado pelo médico. Também recebeu frutas, livros, lençóis e toalhas. Na sexta-feira, almoçou a comida da prisão (arroz, feijão e frango). Na mesma entrevista, ela manifestou seu `inconformismo pela injustiça que estou vivendo e pela desproporção da pena´. `Tenho a sensação de que o tempo parou enquanto a vida corre lá fora´, comparou. E anunciou seu primeiro projeto em liberdade: `A evangelização em favelas onde o tráfico é intenso´."

Pode ser tudo verdade – provavelmente os fatos são esses mesmos –, mas o que se percebe na construção da reportagem é um encadeamento para comover o público e convencer os desavisados que a lutadora e sensível empresária foi parar no Carandiru por uma dessas maldades que acomete juízes despreparados. O crime de sonegação fiscal cometido por Eliana e seus sócios é do tipo que não provoca muita indignação, até porque a parte lesada, em última análise do governo brasileiro, não encontra grandes defensores por aí. Assim, ao terminar a reportagem de Veja, o leitor fica com a impressão de que uma barbaridade foi cometida contra a empresária e também contra o "direito de empreender".

Tudo somado, a mensagem final da matéria é rigorosamente a mesma da "Carta ao Leitor": "Sim, os ricos também sofrem (e isto não é nada bom para o Brasil)". No mais, a única coisa que ninguém vai achar nas páginas de Veja em matérias sobre a Daslu é uma explicação, breve que fosse, sobre o que seria possível ao governo fazer com o valor sonegado pela boutique – quantas moradias, cestas básicas, ligações de água e esgoto ou qualquer outra medida comparativa. Claro, o dinheiro extra que foi para o caixa da empresa deve ter garantido o emprego de alguns, mas em detrimento da carência de muitos. Já dizia Chico Buarque em uma antiga canção: "A dor da gente não sai no jornal". Na Veja então, nem pensar...

segunda-feira, 30 de março de 2009

Pausa para rir

Quando o autor deste blog quer relaxar, dar umas boas risadas, em geral visita o site do filósofo Olavo de Carvalho, aquele que um dia afirmou que Fernando Henrique Cardoso é um perigoso comunista trabalhando para a esquerda se tornar hegemônica no planeta. Ou então dá um pulo no Mídia Sem Máscara, onde também sempre encontra boas peças humorísticas. A ultradireita brasileira é mesmo uma piada, no passado criou o integralismo, hoje em dia se dedica a bater até em seus próprios "companheiros de farda". O texto que vai abaixo está lá no MSM, foi escrito por um tal de Nivaldo Cordeiro e, a começar pelo título, é de um ridículo tão atroz que faz Reinaldão Azevedo parecer um rapazinho de centro-esquerda. Bom, depois do título o leitor vai se deparar com um negócio tão escalafobético que é difícil chegar ao final sem gargalhar. Mas no fim, dá até pena, tamanha a indigência mental do autor. Dá para imaginar os "camaradas Mesquitas" lendo um troço desses sem rir da cara do panaca?

“Estadão” a soldo do PT

Nivaldo Cordeiro

Fique atento, caro leitor. Esse movimento contra a Camargo Correa na verdade é um movimento ligado à sucessão de 2010. Um aviso do PT aos financiadores de campanha.

Pouco a pouco se instala no Brasil o terror policial contra a plutocracia nacional. A esquerda, na marcha da sua revolução pela via de Antonio Gramsci, aparelhou a tal ponto os órgãos do Estado que o terror policial passou a ser tolerado como normalidade. O terror já faz parte da paisagem cotidiana, é manchete diária dos jornais.

Vimos o caso esdrúxulo da proprietária da loja Daslu ser condenada à inacreditável pena de 94 anos de prisão, que nem mesmo homicidas hediondos matadores de pais e de criancinhas receberam por seus crimes. A senhora Eliana Maria Tranchesi cometeu o “crime” mais bárbaro na ótica dos revolucionários, o de ter enriquecido por seus próprios méritos, por seu próprio empreendedorismo. Não vimos uma única palavra no jornal “Estadão” contra esse abuso judicial, que começou muito antes, pela formatação do sistema legal espúrio, tipificando crimes que não deveriam existir enquanto tal. E pelas escutas telefônicas “legais” (um abuso policial totalitário). Eis o desfecho justiceiro da Justiça tornada revolucionária.

O mesmo caso vimos quando do episódio da prisão de Daniel Dantas. O aparelhamento das forças policiais federais contra empresários enquanto tal e, em especial, contra aqueles ligados aos grupos políticos tidos por inimigos tornou-se rotina. Ser empresário no Brasil hoje se tornou algo muito perigoso. Como o Estado é o grande cliente da maior parte das grandes empresas, elas têm que vender para ele de qualquer forma. E vender para o Estado é se submeter às máfias esquerdistas que o controlam e cobram propinas, como toda a gente sabe e ficou muito claro por ocasião da CPI dos Correios e no depoimento do ex-deputado Roberto Jefferson. E fazer negócios com esses mafiosos significa o risco de que eles mesmos usem a lei (moldada por eles mesmos), a polícia e a Justiça a qualquer momento, ao seu bel prazer, contra os fornecedores do Estado e contra qualquer um que se ponha no seu caminho.

É a lei positiva utilizada como guilhotina contra as pessoas de bem, que não têm como escapar às armadilhas. Essa gente precisa ter uma vida produtiva e vida produtiva exige vender ao Estado. A situação lembra muito aquilo que aconteceu na Alemanha de Hitler. Quem não virou vassalo dos governantes nazistas foi simplesmente destruído, seja economicamente, seja moralmente. Muitos foram parar na prisão em face da inexorável lei injusta. O filme A LISTA DE SCHINDLER é uma crônica memorável desse momento funesto da História. Outro filme sobre a falsa Justiça sob revolucionários é o formidável UMA MULHER CONTRA HITLER. A lei praticando e suportando a mais hedionda injustiça

Escrevo essa nota, caro leitor, para apontar a má fé do “Estadão”, jornal posto a serviço do Planalto, como de resto toda a mídia. O caso dos grampos envolvendo o Grupo Camargo Correa, um dos gigantes da construção civil no Brasil, foi tão escandaloso que assustou a plutocracia nacional, tanto que mandaram plantar uma manchete “solidária” aos companheiros plutocratas:. “Operação assusta o Planalto”. Uma mentira escandalosa. Alguém imagina o Planalto assustado com os frutos de suas ações? O conteúdo da matéria não poderia ser mais ridículo, posto em negrito no alto da capa do jornal: “O advogado Marcio Thomaz Bastos, ex-ministro e conselheiro do presidente Lula, atendeu a solicitação do Palácio do Planalto e foi contratado pela Camargo Correa”. Ora, Lula agora escolhe os advogados das vítimas? Será isso um antídoto contra o totalitarismo em marcha? Deus nos acuda. Só um imbecil para engolir uma notícia dessa.

Vemos aqui o exemplo clássico da desinformação, da mentira pura e simples transformada em nota soporífera objetivando tranqüilizar a opinião pública. Fique atento, caro leitor. Esse movimento contra a Camargo Correa na verdade é um movimento ligado à sucessão de 2010. Um aviso do PT aos financiadores de campanha. Quem não estiver com eles estará contra eles. O PT não vai entregar o poder de bandeja, isso eu tenho escrito desde sempre. Será que elegerão a Dilma fazendo morrer de medo os financiadores da oposição? Estaremos diante do grande lance do PT para transformar a ex-guerrilheira Dilma na futura presidente? Penso que sim.

Primeiro vieram e pegaram o Daniel Dantes. Depois a Eliana Tranchesi (que deu emprego para a filha do Geraldo Alckmin, diga-se, e por isso tornou-se alvo dos revolucionários). Agora os diretores da Camargo Correa. Quem serão os próximos? Quando empastelarão o “Estadão”?

Meu caro leitor, essa gente que está indo para as masmorras, como Daniel Dantas e Eliana Tranchesi, merece ir por causa não dos alegados crimes impingidos pela arapongagem. Eles na verdade cometeram outros dois crimes que não estão tipificados no Código Penal: covardia diante dos inimigos de classe (e da civilização) quando eles começaram sua escalada ao poder e apoio político e financeiro aos seus algozes, uma vez no poder. Por isso merecem o castigo e muito mais. Não me causam nenhum sentimento de pena, mas de repulsa moral.

Dilma cresce e já venceria Aécio

A pesquisa CNT/Sensus divulgada nesta segunda-feira pode ser analisada em dois aspectos básicos. O primeiro diz respeito à popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na verdade, não há novidade alguma na queda da aprovação do governo e de Lula. O levantamento confirma os dois anteriores, do Ibope e Datafolha, e os números todos estão alinhados, diferenças de metodologia à parte: a aprovação ao governo está pouco acima dos 60% nos três levantamentos e a popularidade de Lula oscila entre 76% e 78% nas enquetes do Sensus e Ibope – o Datafolha não pesquisa a aprovação pessoal do presidente. É evidente que a queda se deve aos efeitos da crise econômica mundial no Brasil, isto já é ponto pacífico entre os especialistas em pesquisas de opinião, como atesta a análise de Jorge Rodini para o blog.

O segundo aspecto que pode ser analisado a partir dos números divulgados na pesquisa diz respeitio ao cenário para a eleição de 2010. Muita gente presta atenção na pesquisa estimulada, realizada com um cartão em que são montados cenários para o eleitor escolher o seu candidato preferido. Faltando tanto tempo para a eleição, porém, a pesquisa estimulada acaba refletindo muito mais o "recall" dos políticos do que propriamente a real intenção de voto dos pesquisados. Na pesquisa espontânea este efeito também acontece, mas é possível perceber um pouco melhor os desejos da população, desejos esses que nem sempre conseguem ser traduzidos nas candidaturas conhecidas e apresentadas nos cartões pelos pesquisadores.

Na espontânea, a pergunta é direta: em quem o senhor(a) votaria para presidente se a eleição fosse hoje? Segundo o instituto Sensus, 16% dos entrevistados afirmaram que votariam no presidente Lula, apesar de ele não poder ser candidato. Em segundo lugar aparece José Serra (PSDB), com pouco mais da metade do percentual de Lula (8,8%). A grande surpresa é o crescimento da ministra Dilma Rousseff, que ultrapassou Aécio Neves (PSDB) e já está com 3,6% das intenções de votos na pesquisa contra 2,9% do governador mineiro. Pode parecer pouco, mas é um dado importante. Em outra pergunta da enquete, 50,1% dos entrevistados afirmaram que votariam em um candidato apoiado pelo presidente, o que também pode ser considerado um belo suporte para Dilma.

No fundo, é muito difícil fazer pesquisa com tamanha antecedência. No caso específico, há um problema adicional: Dilma é muito pouco conhecida, especialmente no Nordeste, ao passo que o grau de conhecimento dos brasileiros sobre Serra supera 95%. Com o horário eleitoral, a população saberá que é Dilma a candidata do presidente, o que deve alterar substancialmente o quadro. O marqueteiro Chico Santa Rita lembra que no ano passado, de 10 capitais onde o Datafolha realizou pesquisa um mês antes das eleições, somente em duas o favorito venceu o pleito – Curitiba e Porto Alegre. Nas oito demais, venceu que estava em terceiro, às vezes quarto lugar - casos de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.

Os números, portanto, são muito bons para Dilma e no que é possível especular, pode-se dizer que qualquer que seja o candidato tucano em 2010, terá que trabalhar muito bem para bater a ministra nas urnas.

Jorge Rodini: eleitores sem Vales

Abaixo, a análise do diretor do instituto Engrácia Garcia sobre a pesquisa CNT/Sensus divulgada hoje e que mostrou queda na popularidade do presidente Lula. No próximo post seguirá a opinião do autor do blog sobre o mesmo assunto.

Mais uma pesquisa CNT/Sensus na praça. Com ela, uma queda na aprovação do presidente Lula. Natural, previsível e decorrente da grave crise mundial por que passamos, este debacle não pode ser desprezado.

Parcela da população brasileira (especialmentes os mais jovens) sente a ameaça da perda do emprego e a falta de perspectiva na procura dele. As afirmações equivicadas sucessivas de Lula começam a causar incômodo. O que era engraçado, divertido e natural tornou-se debochado e treinado.

As palavras podem não ser mais de Lula e, assim sendo, não há porque seu eleitor levá-las a sério. Há percepção de frases conduzidas pela ótica do marketing, muitas vezes um mau marketing ou um marketing do mal.

Lula continua firme junto ao seu eleitorado Bolsa-Família, Luz para Todos e alguns outros Vales. Sinal de que terá de continuar dispendendo altas somas na manutenção desses programas.

Futuro, o Brasil tem. Passado, nem se fala. O presente é que é urgente. E as cobranças desta fatura estão começando a chegar. Pelos eleitores sem Vales.

Abaixo, reportagem da Folha Online sobre a pesquisa CNT/Sensus:

Dilma supera Aécio na disputa pela sucessão presidencial; Lula e Serra lideram

GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília

Pesquisa CNT/Sensus divulgada nesta segunda-feira mostra o crescimento da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) na corrida pela sucessão presidencial. Pela primeira vez desde que ela foi apontada como pré-candidata, o nome de Dilma aparece na frente do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), na pesquisa espontânea --em que os nomes dos candidatos não são apresentados aos eleitores.

Dilma aparece em terceiro lugar com 3,6% das intenções de voto na pesquisa espontânea, seguida por Aécio, que somou 2,9% dos votos. Apesar do crescimento de Dilma, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), mantém a liderança na corrida pelo Palácio do Planalto --perdendo apenas na pesquisa espontânea para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que não pode disputar o terceiro mandato.

Lula aparece em primeiro lugar na espontânea, com o apoio de 16% dos entrevistados. Em segundo lugar aparece o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), com 8,8% das intenções de voto. O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) aparece em quinto lugar na pesquisa espontânea, com 1,5% das intenções de votos, seguido pela ex-senadora Heloísa Helena (PSOL), que teve o apoio de 1,4% dos eleitores. Os demais candidatos somam 1,7% dos votos, além de 7% dos eleitores que votariam em branco ou nulo.

Na disputa direta entre Dilma, Serra e Heloísa Helena, o governador de São Paulo venceria a disputa com 45,7% dos votos. O índice cresceu três pontos percentuais em relação à pesquisa divulgada em janeiro, quando Serra somou 42,8% dos votos. Dilma recebeu 16,3% das intenções de voto, contra 13,5% registrados pela petista em janeiro. Heloísa Helena, por sua vez, recebeu 11% das intenções de voto contra 11,2% em janeiro.

Já na disputa entre Dilma, Aécio e Heloísa Helena, há empate técnico entre a ministra e o governador de Minas. Aécio somou 22% das intenções de voto em março contra 19,9% recebidos pela ministra. Heloísa Helena aparece em terceiro lugar com 17,4% das intenções de voto. Em janeiro, Aécio apareceu mais à frente de Dilma com 23,3% dos votos, contra 16,4% da petista.

"A gente vai notando que a Dilma vai ganhando espaço sobre o Aécio. A pesquisa mostra que a população está com maior percepção das eleições do que em pesquisas anteriores", disse o diretor do instituto Sensus, Ricardo Guedes.

Quando Dilma é substituída por Ciro Gomes na disputa com Serra e Heloísa Helena, o governador de SP ganha com 43,1% das intenções de voto. Ciro recebeu em março 14,9%, contra 12,8% de Heloísa Helena.

Já na substituição de Serra por Aécio, o tucano registra empate técnico com Ciro. O governador de Minas recebeu 21,2% dos votos, contra 19,2% do deputado. Heloísa Helena também aparece tecnicamente empatada com os dois candidatos, com 19% dos votos.

Segundo turno

Nas simulações de disputas em segundo turno, Serra sai vencedor em todos os cenários, mas quando é substituído por Aécio, o governador de Minas registra empate técnico com a ministra Dilma.

Na disputa direta entre Serra e Dilma, o tucano recebeu em março deste ano 53,5% dos votos, contra 21,3% para Dilma. Em janeiro, Serra recebeu 50,8% contra 16,6% de Dilma.

Na disputa Dilma x Aécio, há empate técnico, com 29,1% dos votos para a petista e 28,3% para o governador de Minas.

Em janeiro, a vantagem de Aécio sobre Dilma era maior, quando o governador conquistou 30,4% das intenções de voto, contra 23,9% para Dilma.

No cenário de disputa em segundo turno entre Serra e Ciro, o tucano venceria a disputa com 49,9% dos votos, contra 20,3% recebidos pelo deputado.

Já na disputa entre Aécio e Ciro, o deputado venceria a disputa com 31,2% dos votos, contra 26,8% do governador de Minas.

A pesquisa CNT/Sensus foi realizada entre os dias 23 e 27 de março, em 136 municípios de 24 Estados. Foram ouvidas 2.000 pessoas, e a margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou menos.

Estavam todos cegos

Uma hora é o castelo do deputado, depois os cento e tantos diretores do Senado. Agora, o nobre parlamentar que contrata uma faxineira pelo seu ex-gabinete. É fato: a cada dia, uma nova denúncia aparece na imprensa sobre os "bastidores" do Congresso Nacional. Há uma questão relevante, porém: por que diabos nada disto apareceu nos últimos anos? Eram todos puros até anteontem ou será que os jornalistas que frequentam o Congresso não conseguiam enxergar o que estava bem na frente de seus narizes? O comentário de Alberto Dines para o programa de rádio do Observatório da Imprensa da manhã de hoje toca nessas questões com bastante lucidez. Vale a pena ler o texto reproduzido abaixo, na íntegra.

COBERTURA DO CONGRESSO
O que os repórteres não viram

A mídia reagiu muito bem no fim de semana às revelações sobre os abusos administrativos nas duas casas do Congresso. Mas o que chama a atenção é o ar de espanto.

A mídia não deveria ser a penúltima a saber, deveria ser a primeira. Ela é quem deveria zelar pelos bons costumes parlamentares. O alarme deveria ter soado há mais tempo, em letra de forma.

Será que os repórteres que há anos freqüentam a Câmara nunca perceberam a fila diária de funcionários no início da noite para bater o ponto e receber as horas extras? Além do imponente Salão Verde, as equipes de TV não deveriam percorrer as demais dependências do Congresso para mostrar aos cidadãos como se comportam os seus representantes e aqueles que os servem? Ou jornalista só deve investigar aquilo que está na pauta?

O senador José Sarney (PMDB-AP) anda se lamuriando de que não pode ser responsabilizado pelos descalabros na Câmara Alta – afinal, só foi eleito no início de fevereiro. Mas ele era candidato desde o fim do ano passado; seu preposto e antecessor, Garibaldi Alves, ocupou a presidência por mais de um ano e outro parceiro, Renan Calheiros, presidiu o Senado durante grande parte do biênio anterior.

Pauta escondida

Onde estava a mídia que jamais se espantou com a tremenda farra parlamentar? E a multidão de assessores de imprensa com diploma de jornalista que trabalha no Congresso, a quem deve servir? Aos congressistas omissos que os empregam ou à sociedade que lhes paga os salários?

Este é um escândalo que deixa o caso da Daslu no chinelo. No supermercado do luxo de São Paulo existia uma organização criminosa para lesar o fisco. Em Brasília, no hipermercado de privilégios, graças à falta de curiosidade da imprensa, instalou-se uma rede de prevaricações jamais devassada.

Pausa esportiva

O autor destas Entrelinhas já ia esquecendo de escrever uma rápida análise do fim de semana futebolístico. Nada sobre a selecinha do Dunga, que não merece uma única linha por aqui, mas sobre o clássico de sábado à tarde, que terminou do jeito que este blogueiro previa. De toda maneira, não vai ser mais necessário escrever coisa alguma, porque o blog faz suas as palavras do jornalista Ricardo Kotscho, que com seu brilho usual analisou a peleja em post no Balaio do Kotscho, reproduzido abaixo para os leitores do Entrelinhas.

Dá-lhe Tricolor! Chora Palestra!

Placar do Morumbi: São Paulo 1, Palmeiras 0.

O Palmeiras pode até ser campeão paulista de novo, já que o meu São Paulo não dá muita importância para esses campeonatos regionais, mas invicto é que não vai mais ser.

Não tem jeito. Desde o meu tempo de menino em que o Palmeiras era chamado pelos antigos de Palestra Itália, podia ficar invicto um tempão, como agora, liderando o campeonato com folga, como agora, mas quando chega a hora de enfrentar a camisa tricolor, eles pipocam.

Perdão, leitores, pela falta de isenção, imparcialidade, essas coisas, mas só de ver o desespero do Vanderley Luxemburgo, soltando todos os palavrões do mundo, esgoelando-se à beira do campo, vendo seu time dominar a maior parte do jogo, ter mais oportunidades de gol e não conseguir fazer nenhum, já me dá uma alegria imensa.

Ganhar do Palmeiras não tem preço, como diz aquela propaganda. O nosso time tem um goleiro chamado Rogério Ceni e um técnico marrento de nome Muricy Ramalho, que valem por meio time. O resto a sorte ajuda.

Com aquele gol do velho Washington velho de guerra logo aos 2 minutos, a ajuda da trave e da sorte o tempo todo, nosso time de funcionários aplicados, mas sem muito brilho, acabou com o papo da porcada inteira _ e é isso que vale, o resto é comentário de analista esportivo independente, o que não é o meu caso.

Explico: metade da minha pequena família é palmeirense. O São Paulo pode perder de todo mundo, menos do Palestra do meu genro, o boa praça Fernando Ansarah, que levou dois dos meus três netos para o lado dele, mas deixou escapar a do meio que não tira a camisa do tricolor por nada.

Dá-lhe Tricolor! Chora Palestra!

Alô, Rodrigo Maia, o Fraga será expulso?

A história do deputado federal licenciado Alberto Fraga (DEM-DF), que acha normal usar recursos públicos para pagar o salário da sua empregada doméstica, ainda vai render bastante. Como todos sabem, o DEM é um partido que em hipótese alguma aceita este tipo de comportamento e fará questão de punir Fraga. Este blog aposta que o presidente da legenda, deputado federal Rodrigo Maia (RJ), não hesitará em mandar o parlamentar em questão procurar outra sigla, porque no DEM não tem esse negócio de misturar as esferas pública e privada. É só esperar um pouco, e não demora muito, porque entre os Democratas não tem este papo de justiça lenta e morosa. É tudo rápido, vapt-vupt. O que vai abaixo é a matéria da Folha de S. Paulo na qual Alberto Fraga justifica a contratação da faxineira pelo seu ex-gabinete na Câmara com o precioso argumento de que ela "vai ao banco, este tipo de coisa". Na íntegra, para os leitores do Entrelinhas.

Democrata afirma não ver problema em pagar empregada com verba de gabinete

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O deputado federal licenciado e secretário de Transportes do Distrito Federal, Alberto Fraga (DEM), disse não ver problema em usar a Câmara dos Deputados para contratar Izolda da Silva Lima, que mora e trabalha em sua casa, apesar de ele negar que ela seja empregada doméstica. Afirma que tem dinheiro para pagá-la, mas não o usa porque "não quer".

"Já fui e voltei tantas vezes da secretaria. E na verdade ela ainda é contratada por mim, pelo meu gabinete [que agora é ocupado pelo seu suplente, Osório Adriano]", justifica.

Fraga admite que pediu para Adriano não exonerar Izolda e disse que não tem nenhum receio em mantê-la lá.
"Eu pedi, evidentemente, se ele pudesse segurar ela. Se for o caso, se for para satisfazer o ego de vocês, eu volto amanhã para a Câmara e ela [Izolda] continua [contratada pelo gabinete]. Não tenho nenhum tipo de receio de vocês, não", afirmou.

Funções

O secretário não soube precisar que tipo de serviço Izolda exerce. "Desculpa, não tenho que ficar dando esse tipo de satisfação. Ela vai ao banco, esse tipo de coisa", afirmou.

Segundo ele, a funcionária vive em sua casa porque perdeu o pai recentemente e mora muito longe, em uma fazenda afastada de Brasília.

"Vocês não têm mais um castelo, agora querem uma doméstica fabricada. Mas vamos lá, vamos lá, eu gosto desse jogo", ironizou Fraga, em referência ao deputado federal Edmar Moreira (sem partido-MG), dono de um castelo avaliado em cerca de R$ 25 milhões não declarado à Justiça Eleitoral. Moreira está ameaçado de enfrentar processo de cassação.

Osório Adriano (DEM-DF) disse não ter como substituir todos os funcionários, pois Fraga volta para assumir o mandato quando julga conveniente. "Tem gente dele que até presta serviço para mim também. Substituir todo o pessoal é um trabalho imenso."

Adriano contou que ele e Fraga planejam uma dobradinha nas próximas eleições, com Fraga para senador e ele para deputado federal.

"Sou muito amigo do Fraga. A gente tem essa troca de interesses. Tem gente dele que me ajuda também. Esse pessoal de base, fazendo uma politicazinha", afirma Adriano.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Ou isto ou aquilo

O pessoal do DEM, do PSDB e seus amigos na grande imprensa precisam tomar uma decisão: ou bem a Operação Castelo de Areia foi uma "armação stalinista" do ministro Tarso Genro ou foi o oposto disto e o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos foi chamado pelo Palácio do Planalto (pelo presidente em pessoa, segundo O Estado de S. Paulo) para defender a construtora Camargo Corrêa. As duas coisas é que não podem ter acontecido ao mesmo tempo. Não faz sentido Lula chamar o melhor criminalista do país para defender os seus adversários democratas e tucanos da "ofensiva stalinista" de Genro... Portanto, ou a operação NÃO tem nada de "política" e tampouco alvos específicos, como querem os probos oposicionistas, podendo até atingir o PT – daí a suposta preocupação do presidente –, ou Lula NÃO chamou Márcio Thomaz Bastos para defender a Camargo Corrêa e a matéria do Estadão é uma grande cascata.

Sobre este mesmo assunto, aliás, vale a pena ler o comentário do jornalista Luiz Weis no blog Verbo Solto, que vai abaixo, na íntegra:

A falta que fazem os goleiros

O ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, desmente que passou a defender a Camargo Corrêa, investigada pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro e doações ilegais a políticos, “a pedido do Planalto”, como afirma O Estado de S.Paulo desta sexta-feira, 27.

“Tenho amigos pessoais lá dentro [da Camargo Corrêa] e eles que me procuraram. Nada de Planalto”, diz o criminalista.

Segundo o jornal, “o apelo ao advogado se deve ao temor do Planalto de que uma crise atinja colaboradores próximos. A empreiteira, oficialmente, é doadora também do PT.”

O desmentido é uma dessas coisas tão esperadas como uma empreiteira superfaturar obras, lavar dinheiro no exterior e fazer doações por fora a políticos que a ajudarão a fazer mais do mesmo no futuro.

Não é portanto o “nada de Planalto” de Thomaz Bastos que puxa o tapete da história do Estado. Ela tropeça em si mesma.

Não há na matéria de 209 palavras nenhuma que corrobore a informação. Ela até pode ser verdadeira, mas é mais uma daquelas inumeráveis na imprensa brasileira que pede ao leitor um voto de confiança sem fazer por merecê-lo.

O texto não tem uma aspa, mesmo sem identificação da fonte, que o ampare. Dá a entender que Lula pediu a Bastos para entrar na defesa da Camargo Corrêa. Na quarta-feira, quando estourou o escândalo, eles se encontraram em Brasília.

O ex-ministro não nega. “Estive com o presidente, mas só por cinco minutos, só para cumprimentá-lo no meio de uma reunião que ele estava tendo”, disse à Folha, repetindo o que dissera ao Estado.

O mais é ilação. Além do alegado “temor do Planalto” de que o caso atinja “colaboradores próximos” – do presidente, supõe-se –, a matéria se concentra nas relações do ex-ministro com o ex-chefe.

“Bastos continua atuando como conselheiro informal do presidente nas áreas política e judicial. Quando fala em nome de Lula, o ex-ministro o chama de ‘meu melhor cliente’.”

Uma coisa e outra são fatos sabidos. Lula poderia perfeitamente bem pedir ao advogado o que o jornal diz que pediu. As relações entre eles dão para tanto. Mas isso não comprova que pediu, comprova?

E tem ainda esse tal de “Planalto”, que aparece três vezes na matéria, sem contar o título. “Planalto” quer dizer o quê? Lula? Algum “colaborador direto” do presidente? O moço do cafezinho?

Vamos nos entender. Matérias meia-bomba como essa se encontram aos montes nos diários brasileiros, mas na maioria das vezes os seus assuntos são irrelevantes, ou pouco mais do que isso (o que não justifica a sua publicação). Agora se está diante de um texto apresentado com destaque, e não por um jornal qualquer, segundo o qual, descontados os eufemismos, o presidente da República teria mobilizado o ex-ministro da Justiça para dar uma força a uma empreiteira suspeita de abastecer o caixa 2 de políticos de sete partidos, em conluio com a Federação das Indústrias de São Paulo.

Ainda que os repórteres tenham a convicção de que foi isso que aconteceu, porque apuraram a história como manda o manual, o resultado não se segura. No tempo em que ainda havia goleiros nas redações, matérias nesses termos seriam devolvidas aos seus autores para que as colocassem em pé – e, enquanto não conseguissem, elas ficariam na geladeira.

Jorge Rodini: olhares sem cor

Mais uma colaboração do diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia para o Entrelinhas. Neste comentário, Jorge Rodini analisa uma bola fora – e foi mesmo uma derrapada feia – do presidente Lula. Abaixo, na íntegra, para os leitores do blog.

Quando vejo meu time jogar para frente, com vontade de fazer gols e dar show para torcida, fico mais alegre, mais leve.

No entanto, quando temos um técnico retranqueiro, meu time pode até ser campeão que não vou ficar satisfeito.

Jogar para a platéia faz a torcida de nosso time ficar de alma lavada e a dos adversários morrerem de inveja. Às vezes, de admiração!

Quando descobrimos um garoto esguio de pernas finas, com fintas rápidas e jogadas elegantes, na nossa mente vem a lembrança de Pelé, de Robinho e de Kaká. Uns nascidos em familias humildes, outros em famílias com maior poder aquisitivo e de instrução.

Num grupo, todos são iguais. Pela Constituição, também. O que nos difere não será jamais a cor de nossa pele, de nossos cabelos ou de nossos olhos. O que nos distingue não será jamais o lugar em que nascemos ou que vivemos. Nem o que ganhamos ou o que perdemos.

O que nos faz únicos é somente o poder de cada um de ser ele mesmo. De ter sua própria opinião.

O mundo vive os efeitos da crise originária da catástrofe financeira/imobiliária dos Estados Unidos. Isto é fato. O Brasil está em dificuldades por conta disso. Também é fato. Culpar os "homens brancos de olhos azuis" é factóide.

O Brasil é um país de múltiplas raças de inúmeras origens, assim como os Estados Unidos. Muitos podem ter se sentido ofendidos com a afirmação de nosso presidente. Com razão. Na hora de jogar para seu público, Lula esqueceu-se que esses jogos são assistidos por todas as platéias.

Nessas horas, você pode jogar para platéia. Jogar para frente, dar show. A sua torcida vai ficar maravilhada. Só que, para fazer as outras torcidas terem admiração pelo que estão assistindo, você deve jogar com fatos, não com factóides.

Serra, Aécio e Dilma: iguais na diferença

O que vai abaixo é uma reportagem do autor do Entrelinhas para o jornal Valor Econômico, publicada na edição desta sexta-feira. Aliás, cabe aqui uma explicação aos leitores fiéis ou que acompanham o Entrelinhas desde o início: em janeiro, o blogueiro deixou, em um desses grandes passaralhos que volta e meia atingem as redações, o jornal DCI, no qual trabalhou por 8 anos e meio como editor de Política, do caderno São Paulo e de Opinião. Dias depois, foi promovido a Editor Executivo do Observatório da Imprensa - daí o maior número de matérias reproduzidas aqui que foram escritas originalmente para o OI. A matéria abaixo é uma colaboração para o caderno de fim de semana EU&, do Valor.

Iguais na diferença
Por Luiz Antonio Magalhães, para o Valor, de São Paulo

"É a economia, estúpido!" O já célebre bordão usado pelo marqueteiro James Carville para explicar a vitória de Bill Clinton, em 1992, contra o então presidente dos Estados Unidos, George Bush, que se candidatava à reeleição, parece bastante atual no cenário que se vislumbra no Brasil para as eleições de 2010. Com o agravamento da crise global, a economia deverá estar no centro das atenções durante a campanha, e o tamanho do estrago a ser provocado no país pelas turbulências externas certamente terá um peso determinante no resultado das urnas.

Se o debate econômico estará na ordem do dia, não deixa de ser uma ironia que os pré-candidatos mais cotados para vencer a disputa se apresentem até aqui com discursos bastante semelhantes e poucas diferenças nas propostas.

Redução da taxa básica de juros, aumento nos investimentos em obras de infraestrutura, maior inserção do país no comércio exterior e a luta determinada para aprovar as reformas estruturais são proposições que até já viraram lugar-comum na boca dos três principais postulantes à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que na semana passada viu cair, pela primeira vez no segundo mandato, seus espantosos índices de popularidade, em duas pesquisas de opinião.

A similaridade dos projetos macroeconômicos dos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) e da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, chama a atenção de cientistas políticos e especialistas em marketing político, mas naturalmente encontra contestação entre os defensores dos pré-candidatos.

"Pode haver divergências em aspectos pontuais, mas em relação às grandes diretrizes não há grandes diferenças. Na política macroeconômica é muito estreita a diferenciação", afirma o jornalista Gaudêncio Torquato, professor titular de marketing político na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP).

"Do ponto de vista das propostas para a economia, Serra e Dilma são muito parecidos, mais centralizadores e mais estatizantes do que Aécio", pondera a cientista política Lucia Hippolito. Ela lembra que a atual situação do país não comporta espaço para os candidatos apresentarem projetos muito distintos.

O líder tucano na Câmara Federal, José Aníbal (SP), usa a ironia para refutar a argumentação: "Qual é a política econômica do PT? A que está aí ou a que eles defendiam? O piloto automático funcionou na bonança, neste momento de crise o governo está completamente perdido", diz o ex-presidente nacional do PSDB, apontado como um dos articuladores da candidatura de Aécio Neves. Aníbal critica ainda a condução da política econômica, que teria sido atribuída ao Banco Central pelo presidente Lula. "A Fazenda fica brincando de reforma tributária. Isso não tem nada a ver conosco", provoca.

O deputado federal José Eduardo Cardozo (SP), secretário-geral do PT, também não concorda com a tese de que a política econômica do governo Lula represente uma continuidade em relação ao que foi iniciado por Fernando Henrique Cardoso.

Ele afirma que há, sim, diferenças grandes entre os projetos que disputarão os votos dos brasileiros. "A economia moderna dá ao governante uma margem de manobra muito estreita. O que diferencia as políticas econômicas é o contexto em que elas são colocadas. As propostas de Dilma estão embasadas em uma visão de Estado, em uma visão antineoliberal da economia", afirma Cardozo. "Já Serra e Aécio têm esse componente, essa matriz neoliberal que se projeta em seus governos."

"O governo Lula é radicalmente diferente. Voltamos a priorizar mercado interno, retomamos o projeto de nação, foi uma mudança grande. A inflexão que fizemos na política de distribuição de renda no país é o que permite ao país enfrentar a crise", complementa o ex-ministro José Dirceu.

Mesmo entre os envolvidos na disputa que se anuncia, há quem reconheça os pontos em comum. O deputado federal Paulo Renato (SP), tucano da ala serrista, admite que o espaço que separava PSDB e PT diminuiu depois da chegada de Lula ao Palácio do Planalto. "O PT caiu um pouco na realidade depois que chegou ao governo. Passou a defender pontos que já defendíamos", explica. O ex-ministro da Educação na gestão FHC, porém, ressalva que Dilma possui perfil "um pouco mais estatizante do que o do governo Lula" e espera dela propostas de maior intervenção na economia.

Provocações partidárias à parte, o fato é que desde a Carta aos Brasileiros da campanha de 2002, o espaço dos defensores de propostas heterodoxas para a economia diminuiu substancialmente no campo petista, ao passo que no PSDB a ascensão da liderança de Serra aumentou a visibilidade de economistas considerados desenvolvimentistas, posição que o próprio governador de São Paulo assumiu durante os dois mandatos de Fernando Henrique, em contraposição ao então ministro da Fazenda, Pedro Malan. Os pontos de convergência, portanto, são hoje muito maiores do que eram no passado.

É o que defende o economista Plínio Arruda Sampaio Jr., professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), para quem as três pré-candidaturas estão postas "dentro dos parâmetros da ordem estabelecida, com pequenas diferenças em relação à inserção do Brasil no mercado externo, ao grau de conflito entre Estado e mercado e às mudanças na relação de capital e trabalho".

Se as semelhanças são tantas no campo econômico, quais serão as estratégias de diferenciação dos candidatos em 2010, quando a crise ainda poderá ser o grande tema de debate? Não é uma questão simples. Acadêmicos, marqueteiros e políticos são unânimes em afirmar que a resposta depende em grande medida justamente dos efeitos das turbulências internacionais no país.

"Por enquanto, a crise está sendo boa para o governo, não para a oposição", sustenta Lucia Hippolito. Ela lembra que o presidente conseguiu passar para a opinião pública a ideia de que os problemas têm origem fora do Brasil e seu governo não tem culpa alguma pelo que está ocorrendo. Além disso, diz a cientista política, os governadores tucanos também poderão sair chamuscados nesse processo: "Serra governa o Estado que está sofrendo mais com a crise; o segundo é Minas. Por que a crise só atingiria a popularidade do governo federal?"

Para o experiente Chico Santa Rita, um dos pioneiros do marketing político tal como é praticado hoje no país, será necessário aguardar a definição do alcance da crise na vida real dos brasileiros antes de projetar as estratégias de diferenciação para as campanhas eleitorais. "É preciso ver, entre os mortos e feridos, quem se salvou. O tom vai depender muito do momento", explica.

Santa Rita recorda que, no ano passado, de dez capitais pesquisadas pelo instituto Datafolha um mês antes das eleições, em apenas duas - Curitiba e Porto Alegre - os favoritos nas enquetes conseguiram vencer o pleito. "Nas oito demais, ganhou quem estava em terceiro, às vezes em quarto lugar", observa o marqueteiro. Por isso mesmo, ele afirma que a dianteira de Serra nas pesquisas "não quer dizer absolutamente nada" e sugere ao PSDB que realize uma ampla e bem conduzida pesquisa qualitativa nacional para saber qual dos pré-candidatos reúne as melhores condições de enfrentar o governo.

O problema todo, lamenta Chico Santa Rita, "é que político usa pesquisa como os bêbados usam o poste - não como uma fonte de luz, mas como apoio".

Os políticos, por sua vez, concordam com a ideia de que a crise será um elemento fundamental na campanha, mas moldam os seus discursos de acordo com a candidatura que defendem.

"Imagine se tivéssemos seguido à risca a política do governo FHC, como estaríamos hoje?", questiona o petista Cardozo. "Não teríamos como enfrentar a crise, sem os bancos estatais, sem o BNDES, seguiríamos o modelo do México", responde, em seguida, enfático, o secretário-geral do PT, antecipando uma estratégia que pode voltar a ser usada em 2010: a da vinculação do PSDB com um projeto de privatizações de empresas e instituições que permanecem nas mãos do Estado.

A tática foi aplicada no segundo turno das eleições de 2006, quando Lula acusou Geraldo Alckmin de planejar a venda do Banco do Brasil e da Petrobras. Alckmin mordeu a isca e o resto da história é conhecido.

Do lado tucano, Aníbal e Paulo Renato tocam a mesma nota quando falam dos efeitos das turbulências no Brasil e suas consequências na campanha que se aproxima. "Dilma terá de explicar a má condução da crise no país. O mundo não vai estar recuperado e o governo terá de ser responsabilizado", diz o ex-ministro da Educação.

"O governo está à mercê da retórica do presidente Lula. Em São Paulo, o governador Serra está realizando investimentos públicos, são R$ 4 bilhões em estradas vicinais, outro tanto em metrô e transportes de massa. São Paulo está combatendo a crise, está fazendo, o governo federal está só observando", afirma o líder Aníbal.

Apesar das dificuldades para esboçar, 19 meses antes do pleito, uma estratégia coerente para a campanha eleitoral, alguns temas foram citados por quase todas as fontes ouvidas. No campo petista, não há nenhuma dúvida: Dilma deverá ser portadora da mensagem da continuidade do governo Lula. "Ela vai a tiracolo do presidente. Como o Nordeste é o 'país do Lula', acredito que ela deva buscar um vice do Sudeste para compensar. Talvez o [presidente da Câmara Federal] Michel Temer (PMDB-SP)", avalia Gaudêncio Torquato.

O deputado José Eduardo Cardozo está certo de que os adversários do PT já iniciaram a pré-campanha cometendo equívocos: "Eles estão correndo um grave risco ao explorar a crise. É difícil vender para a sociedade que a culpa é do Lula, vai ficar parecendo que estão torcendo pelo 'quanto pior, melhor'", adverte.

Fundamental mesmo para Cardozo, porém, será comparar as concepções de Estado, a visão macroeconômica e pontuar as diferenças, como as presentes na política externa, segundo ele "completamente diferente da executada pelo PSDB". O deputado petista lembra que os tucanos eram favoráveis à Alca, projeto que acabou sepultado durante os dois mandatos petistas.

Além da tática de colocar frente a frente os legados de Lula e Fernando Henrique, Cardozo aposta na "desconstrução" das gestões de Serra e Aécio em São Paulo e Minas. "Precisamos fazer um contraponto com os respectivos governos, compará-los com a nossa gestão federal. Vamos mostrar que temos resultados melhores", afirma, confiante, o secretário-geral do PT.

Pois é justamente o desempenho de José Serra e Aécio Neves nos Palácios dos Bandeirantes e da Liberdade o grande trunfo do PSDB, crê o deputado Aníbal, que de sua parte também pretende comparar as gestões para provar que os tucanos são mais eficientes e estão mais preparados para lidar com a crise. Já o ex-ministro Paulo Renato avalia que temas como a "banalização da corrupção e da transgressão" estarão na pauta da campanha tucana, qualquer que seja o candidato do partido.

Cientistas políticos e marqueteiros foram mais comedidos ao analisar as perspectivas do PSDB para o próximo ano. Em primeiro lugar, quase todos ressaltaram que a condução e a estratégia serão bem diferentes, a depender do candidato. Para Carlos Melo, professor de sociologia e política da Faculdade Ibmec São Paulo, Serra teria um discurso mais reformista e programático. Também seria mais agressivo em relação ao governo Lula, tocaria em temas como loteamento do governo e ineficiência da gestão e procuraria formas de fazer um embate político com o PT.

Já Aécio, na opinião do professor, se apresentaria como o candidato do consenso, disputando até mesmo partidos importantes da base do governo, como PSB, PMDB e PDT, além dos pequenos e fisiológicos. "Aécio não briga com o lulismo", ressalta. Na hipótese de os dois saírem candidatos, "Serra ficaria confinado à oposição, em maus lençóis", aposta Melo.

Torquato concorda com a ideia de que uma eventual campanha de Aécio seria bem diferente em relação ao que produziria o seu rival tucano e lembra que 2010 será o ano do centenário de nascimento de Tancredo Neves. "Aécio poderia fazer um grande discurso de emoção", comenta. Ele também não vê hoje o governador Serra com disposição de criticar o presidente. "Bater no Lula seria ruim para ele. Serra vai dar a espada para o DEM."

Lucia Hippolito é mais crítica em relação à posição da oposição. Segundo ela, nem Aécio nem Serra possuem um discurso para enfrentar a candidata do governo. "Os tucanos falam em porta de saída para o Bolsa Família. Ora, o nordestino quer entrar no Bolsa Família, não quer saber de saída. A oposição está sem discurso, sem bandeira, sem rumo. Hoje, a ministra Dilma estaria eleita", afirma.

O ex-ministro José Dirceu está alinhado com ela. "A grande fragilidade da oposição, hoje, não é falta candidato", afirma. "Eles têm bons candidatos, os dois são governadores de Estados importantes, estão bem colocados nas pesquisas. O problema da oposição é a falta de programa."

Que a grande variável da eleição será o efeito da crise no Brasil todos os analistas concordam. Poucos, no entanto, acreditam em um cenário de agravamento dos problemas econômicos de tal magnitude que permita abrir novas perspectivas em 2010.

Uma voz dissonante é a do professor Plínio de Arruda Sampaio Jr., ao lado de quem o economista Nouriel Roubini não passa de um rematado otimista. Segundo ele, as turbulências pelas quais o país passará até o pleito têm potencial de "liquidar o presidente Lula", movimento que já estaria em curso com a piora nos índices de popularidade - na semana passada o Ibope mostrou uma queda de 84% para 78% no apoio ao presidente e o Datafolha registrou declínio de 70% para 65% na aprovação do governo federal.

Para Sampaio Jr., o cenário sombrio no campo econômico abre caminho para candidaturas "outsiders", "à direita ou à esquerda". Heloísa Helena (PSOL), Roberto Requião (PMDB), Ciro Gomes (PSB) e até Anthony Garotinho (PMDB) são alguns dos nomes que passariam a ter chances reais de disputar o poder na conjuntura política imaginada pelo economista da Unicamp. Segundo ele, a lógica da eleição seria outra e as candidaturas da ordem "perderiam o chão".

Apesar de não acreditar em uma evolução tão negativa da economia nacional, José Eduardo Cardozo concorda com Sampaio. Para o deputado, só candidaturas de cunho populista e com forte apelo emocional teriam a ganhar se a crise evoluir para uma situação de convulsão social.

Alckmin que se cuide

Há um aspecto na nomeação do ex-ministro Paulo Renato para a secretaria da Educação de São Paulo no qual que pouca gente está reparando. O governador José Serra (PSDB) já incorporou em seu secretariado o seu antecessor Geraldo Alckmin, que agora desponta como franco favorito ao Palácio dos Bandeirantes em 2010.

Nos bastidores tucanos, porém, até as paredes sabem o que Serra pensa de Alckmin. Não é de maneira alguma o nome preferido do governador, porém o nome alternativo que vem sendo aventado como candidato tucano, o do secretário Aloysio Nunes Ferreira, não chega a empolgar o eleitorado. Serra pode não gostar de Alckmin, mas não é burro para criar um palanque fraco em São Paulo.

Com a entrada de Paulo Renato na equipe de governo, o jogo muda um pouco: o ex-ministro tem ambição política, é bem mais conhecido do que Aloysio e mesmo não alcançando os mesmos percentuais de Alckmin, tem condições de fazer um embate político com o ex-governador pela vaga de candidato do PSDB ao governo paulista.

É bom notar que Paulo Renato não é um "serrista" histórico, mas tem se aproximado do governador, agora mesmo foi o líder da insurgência da bancada tucana na Câmara Federal contra a reeleição do líder José Aníbal, que trabalha diuturnamente pela candidatura de Aécio Neves.

Tudo somado, o ex-governador Geraldo Alckmin vai precisar redobrar a atenção para não acabar como mais um postulante a uma vaga na Câmara dos Deputados. Com Serra operando, todo cuidado p

A cara do Brasil

A entrevista abaixo, da coluna da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, é emblemática do país em que vivemos. Pois em que outro lugar do mundo a filha de um ex-presidente da República "trabalha" para um senador, não sabe se recebeu ou não o salário de janeiro, e só aparece de vez em quando no gabinete?

Ninguém aqui está dizendo que Luciana Cardoso é safada ou mau caráter, muito menos absenteísta. O que espanta mesmo é a falta de senso político da filha de Fernando Henrique: estava na cara que uma hora a imprensa ia descobrir o fato e fazer um carnaval em cima da questão, ainda mais sendo o senador-empregador o impoluto Heráclito Fortes (DEM-PI). Será que não dava para Luciana ganhar a vida na iniciativa privada ou pelo menos na estrutura partidária do PSDB? Como dizem os muito mais novos, essa gente é "sem noção"...

LUCIANA CARDOSO
"O Senado é uma bagunça"

Funcionária do Senado para cuidar "dos arquivos" do senador Heráclito Fortes (DEM-PI), Luciana Cardoso, filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, diz que prefere trabalhar em casa já que o Senado "é uma bagunça". A coluna telefonou por três dias para o gabinete, mas não a encontrou. Na última tentativa, anteontem, a ligação foi transferida para a casa de Luciana, que ocupa o cargo de secretária parlamentar. Abaixo, um resumo da conversa:

FOLHA - Quais são suas atribuições no Senado?
LUCIANA CARDOSO - Eu cuido de umas coisas pessoais do senador. Coisas de campanha, organizar tudo para ele.

FOLHA - Em 2006, você estava organizando os arquivos dele.
LUCIANA - É, então, faz parte dessas coisas. Esse projeto não termina nunca. Enquanto uma pessoa dessa é política, é política. O arquivo é inacabável. É um serviço que eternamente continuará, a não ser que eu saia de lá.

FOLHA - Recebeu horas extras em janeiro, durante o recesso?
LUCIANA - Não sei te dizer se eu recebi em janeiro, se não recebi em janeiro. Normalmente, quando o gabinete recebe, eu recebo. Acho que o gabinete recebeu. Se o senador mandar, devolvo [o dinheiro]. Quem manda pra mim é o senador.

FOLHA - E qual é o seu salário?
LUCIANA - Salário de secretária parlamentar, amor! Descobre aí. Sou uma pessoa como todo mundo. Por acaso, sou filha do meu pai, não é? Talvez só tenha o sobrenome errado.

FOLHA - Cumpre horário?
LUCIANA - Trabalho mais em casa, na casa do senador. Como faço coisas particulares e aquele Senado é uma bagunça e o gabinete é mínimo, eu vou lá de vez em quando. Você já entrou no gabinete do senador? Cabe não, meu filho! É um trem mínimo e a bagunça, eterna. Trabalham lá milhões de pessoas. Mas se o senador ligar agora e falar "vem aqui", eu vou lá.

FOLHA - E o que ele te pediu nesta semana?
LUCIANA - "Cê" não acha que eu vou te contar o que eu tô fazendo pro senador! Pensa bem, que eu não nasci ontem! Preste bem atenção: se eu estou te dizendo que são coisas particulares, que eu nem faço lá porque não é pra ficar na boca de todo mundo, eu vou te contar?

Serra muda secretaria de Educação:
Paulo Renato deve assumir o cargo

O governador José Serra (PSDB) deve anunciar ainda hoje mudanças na secretaria estadual de Educação de São Paulo. Desgastada por uma série de eventos no mínimo constrangedores, como a apostila com dois Paraguais, os casos dos bônus dos professores, das assinaturas das revistas da Abril, entre outros, a titular da pasta Maria Helena Guimarães Castro será substituída, segundo os bastidores do tucanato, pelo seu ex-chefe Paulo Renato de Souza. De fato, Maria Helena trabalhou com o hoje deputado federal tucano no ministério da Educação, cargo que Paulo Renato exerceu por 8 anos na gestão Fernando Henrique. Se para os professores da rede a mudança vai significar uma troca de seis por meia dúzia, ninguém pode dizer ao certo. Paulo Renato é mais experiente e tem mais traquejo político do que a atual secretária, o que pode fazer toda a diferença.

Já do ponto de vista do presidenciável tucano José Serra, a mudança faz muito sentido: tudo que o governador não pode ter em seu governo é uma sequência de lambanças adminstrativas e/ou políticas que forneçam munição para seus adversários, internos e externos, em 2010. E Maria Helena Guimarães Castro estava dando bala para Aécio Neves e Dilma Rousseff...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Conforme Queríamos Demonstrar

Apenas para não deixar passar: conforme antecipado aqui na nota anterior, Reinaldão Azevedo já está lá, firme e forte, esbravejando contra a prisão da dona da Daslu. É até engraçado. Ser de direita tem os seus charmes - mais dinheiro na conta, jantares com bons vinhos ao lado do patrãozinho, essas coisas que o Mastercard não paga –, mas a verdade é que o pedágio é alto: afinal, ninguém merece pagar um mico como defender dona Tranchesi ou os probos diretores da Camargo Corrêa...

Operação Castelo de Areia na Veja


O esperto Edu Marcondes esteve na Abril e antecipa a próxima capa de Veja. Bem, se não for isto, vai ser bem parecido... Com direito a brilhantes artigos dos mainardis e azevedos de plantão. Este blog aposta que o primeiro vai bater no juiz De Sanctis e o segundo fará uma inesquecível defesa da carola dona da Daslu.

Martins Costa: o mensalão da oposição

Ainda sobre a Operação Castelo de Areia, vale a pena ler o que disse o jornalista Luciano Martins Costa no programa desta manhã do Observatório da Imprensa. O comentário vai reproduzido abaixo, na íntegra para os leitores do Entrelinhas.

PESOS & MEDIDAS
A imprensa diante dos escândalos


Por Luciano Martins Costa, comentário para o programa radiofônico do OI, 26/3/2009

O escândalo provocado pela prisão de executivos da empreiteira Camargo Corrêa, com a revelação de operações financeiras irregulares envolvendo partidos políticos da oposição ao governo federal, é uma excelente oportunidade para testar a idoneidade da imprensa brasileira.

Se for verdadeira metade das acusações que foram publicadas, estamos diante de um repeteco do chamado "mensalão", desta vez no lado oposto do espectro político-partidário.

Vamos ver como a imprensa se comporta.

Como os leitores se recordam, todo o ano de 2005 foi dominado pela agenda do caso que acabou derrubando o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, e outros dirigentes do Partido dos Trabalhadores. O ponto de partida do escândalo chamado de "mensalão" era o uso de caixa 2 – recursos financeiros não contabilizados, no linguajar adotado pela defesa dos acusados. O ponto de partida do caso atual, que a Polícia Federal batizou de Operação "Castelo de Areia", é o mesmo: doações de empresa a partidos políticos, em troca de favorecimentos em futuras obras e contratos públicos, tudo armado em torno de licitações fraudadas.

Régua e compasso

Por enquanto, a imprensa parece tão perplexa quanto a diretoria da Camargo Corrêa. O material publicado nos jornais de quinta-feira indica que as edições foram atropeladas pelo peso do noticiário, que envolve sete partidos, uma das maiores empreiteiras do país e a Federação das Indústrias no Estado de São Paulo, a Fiesp, além de doleiros e altos funcionários de um banco suíço.

Nenhum jornal conseguiu acrescentar dados relevantes ao que foi revelado pela Polícia Federal e pela Procuradoria da República, mesmo porque as diligências policiais se encerraram às 19h45 de quarta-feira (25/3), horário em que a maioria das redações começa o fechamento da edição do dia seguinte.

Portanto, os leitores ainda não têm condições de avaliar se a imprensa irá demonstrar, no atual escândalo, o mesmo apetite que revelou na divulgação do caso que manteve o governo federal sitiado durante praticamente o ano inteiro, em 2005.

Os próximos dias dirão se a imprensa usa o mesmo peso e a mesma medida para as delinquências da política.

Agenda comprometida

Na inauguração do novo escândalo, uma tendência fica muito clara: todos os partidos acusados de envolvimento em irregularidades apontadas pela Polícia Federal, envolvendo a Camargo Corrêa e doleiros, tiveram amplo espaço para suas defesas nas páginas dos jornais de quinta-feira (26).

O Globo, por exemplo, foi muito cioso em garantir a versão dos acusados, como convém ao bom jornalismo. Mas esse não tem sido o comportamento padrão da nossa imprensa em ocasiões anteriores. O leitor pode fazer por si mesmo as comparações com a cobertura de outros escândalos, como o caso que quase custou o mandato ao senador Renan Calheiros. Naquela ocasião, os jornais praticamente não deixaram espaço para a defesa do acusado.

Também é interessante observar como a imprensa vai tratar o juiz Fausto Martin de Sanctis, que acatou o inquérito da Polícia Federal e da Procuradoria da República e expediu dez mandados de prisão e quase vinte mandados de busca no caso atual. Trata-de do mesmo juiz que mandou prender o banqueiro Daniel Dantas na chamada "Operação Satiagraha", e que entrou em confronto com o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, que concedeu dois habeas corpus seguidos ao banqueiro.

Chuva de lama

Lembre-se o leitor que, no caso Satiagraha, a imprensa claramente demonizou o juiz, colocando-o sob a mesma suspeita de abuso que tem sido lançada contra o delegado que presidiu o inquérito, Protógenes Queiroz. Portanto, para fazer um bom juízo, convém ficar de olho na forma como a imprensa irá noticiar o mais novo escândalo nos próximos dias.

Uma coisa é certa: o caso promete contaminar tudo que se relacione com política no Brasil. A revelação de que praticamente todos os partidos se valem de financiamentos irregulares, se confirmada, seria uma excelente oportunidade para a imprensa abrir uma campanha pela reforma da legislação eleitoral.

Num período em que a abertura dos trabalhos legislativos revela uma sucessão de falcatruas no Congresso Nacional, e quando o lançamento antecipado das candidaturas à Presidência da República ameaça aprisionar o noticiário político numa agenda que caberia melhor no noticiário policial, a previsão do tempo só pode ser uma: muita chuva de lama até o fim de 2010.

Manchete surreal na Folha Online

Leitores do blog apontam e é pura verdade: beira o surrealismo a composição de manchete e linha fina da Folha Online sobre a Operação Castelo de Areia que está na home page do portal no momento:

PT pode ser investigado por doações da Camargo Corrêa
Partidos beneficiados seriam PSDB, PPS, PSB, PDT, DEM, PP e PMDB, apontam gravações da PF.

Mais um pouco, a turma da Barão de Limeira vai manchetar coisas assim: "PT pode ser investigado no caso de pedofilia em Catanduva", "Petistas podem estar envolvidos na farsa montada por Paula Oliveira na Suíça" ou, ainda melhor, "Gols de Ronaldo são resposta ao presidente Lula"... Afinal, se acham que botar no título a formulação "o PT pode ser investigado" é mais importante do que a lista dos partidos que de fato estão sob suspeita, vale qualquer coisa, ou não?

Agora, dizer que a dona da Daslu, presa por contrabando pela Polícia Federal em São Paulo, tem relações muito estreitas com o tucanato – família Alckmin à frente –, isto a Folha não diz...

quarta-feira, 25 de março de 2009

Governadores no Datafolha:
Yeda naufraga no vermelho

A Folha de S. Paulo publicou hoje uma pesquisa sobre a popularidade de 10 governadores dos Estados considerados mais imporantes do país (na verdade, são nove estados, mais o Distrito Federal). Duas coisas chamaram atenção no material da Folha.

Primeiro, a composição da manchete e linha fina da capa: "Aécio lidera ranking de governadores" e "Mineiro é mais bem avaliado pelos eleitores, diz Datafolha; aprovação de Serra cresce, mas ele cai para 5° lugar". Bem, só faltou o jornal pedir por favor ao governador paulista para publicar essa quedinha de 3° para 5° no ranking e ainda mais por dar a liderança absoluta e inconteste de Aécio Neves.

Em segundo lugar, chama atenção o desempenho horroroso de Yeda Crusius, governadora tucana do Rio Grande do Sul. Ela é a única dos 10 pesquisados que tem mais rejeição do que aprovação. Apenas 17% dos gaúchos acham que Yeda faz um bom governo, o resto reprova a administração do PSDB no Estado. Conforme comentado aqui ontem, Yeda vai ser para o presidenciável do partido mais ou menos a mesma coisa do que os "aloprados" do PT foram para Lula em 2006. Com uma diferença grande: o tucano terá que explicar o desastre gaúcho desde o início da campanha, Lula só teve que falar de Freud Godoy, do churraqueiro e companhia limitada no finalzinho do período eleitoral.

Desemprego é o menor desde 1998

Nesta crise gravíssima e que vai acabar com o governo Lula, notícia boa na grande imprensa sempre merece um "mas, porém, no entanto". É só ver abaixo a formulação da Folha Online para o fato do desemprego ser neste ano da graça de 2009, auge da crise, o menor desde 1998, quando a série começou a ser feita...

A cara de pau é tanta que invertem a notícia, colocando no adversativo o fato de maior impacto. É óbvio que o menor desemprego desde 1998 é muito mais notícia do que a alta, mais do que esperada, por sinal, da taxa. Abaixo, a íntegra da matéria da Folha Online.

Desemprego tem alta recorde, mas é o menor para fevereiro

Desemprego em seis regiões metropolitanas do país ficou em 13,9% em fevereiro, contra 13,1% em janeiro. No ano passado, no mesmo período, a taxa era de 14,5%.

Apesar de esperado, o crescimento foi o mais intenso para o período de toda a série, iniciada em 1998. Em relação à taxa de desemprego, porém, trata-se da mais baixa para um mês de fevereiro. No ano passado, no mesmo período, a taxa era de 14,5%.

No mês passado, o contingente de desempregados nas seis regiões foi estimado em 2,756 milhões de pessoas, 136 mil a mais do que no mês anterior.

Em fevereiro, o nível de ocupação diminuiu 1,3%, pelo segundo mês seguido, o que também era esperado de janeiro para fevereiro, segundo o Dieese/Seade. O total de ocupados nas seis regiões investigadas foi estimado em 17,107 milhões de pessoas, e a PEA (População Economicamente Ativa), em 19,863 milhões.

O crescimento da taxa de desemprego ocorreu em quase todas as regiões, com exceção de Salvador, onde ficou estável em 19,4%. No Distrito Federal a taxa passou de 15,7% em janeiro para 16,3% em fevereiro; em Belo Horizonte foi de 8,8% para 9,4%; em Porto Alegre, de 10% para 10,4%; em Recife, de 18,3% para 19,1%; e em São Paulo, de 12,5% para 13,5%.

Segundo os principais setores de atividade, houve queda em todos os pesquisados. O nível ocupacional recuou nos serviços (eliminação de 88 mil ocupações), na indústria (77 mil), na construção civil (27 mil), comércio (27 mil) e em outros setores (10 mil).

Em janeiro, no conjunto das regiões pesquisadas, o rendimento médio real dos ocupados ficou estável (leve alta de 0,2%) e passou a valer R$ 1.193, enquanto o dos assalariados permaneceu em R$ 1.255.

São Paulo

Na cidade de São Paulo, em fevereiro, o contingente de desempregados foi estimado em 1,397 milhão de pessoas, 92 mil a mais do que em janeiro. O nível de ocupação (8,953 milhões) em fevereiro recuou 2% em relação ao mês anterior (9,132 milhões).

Apesar do crescimento da taxa de desemprego para 13,5%, trata-se do menor patamar para um mês de fevereiro desde 1996.

Por setor, o emprego na indústria retraiu 4,1% (terceiro mês seguido de queda), em serviços caiu 0,9%, no comércio recuou 0,7% e em outros serviços (construção civil e doméstico principalmente), teve queda de 5,4%.

O rendimento médio real dos ocupados aumentou 0,8% em janeiro ante dezembro e passou para R$ 1.229, e o dos assalariados, subiu 0,4%, para R$ 1.271.

Câmara aprova novo Super Refis

A Câmara Federal aprovou na noite de terça-feira a criação de um mega sistema de refinanciamento tributário. A medida estava prevista na MP 449, mas originalmente se destinava apenas ao perdão de dívidas de até R$ 10 mil. Com a crise, os parlamentares decidiram ampliar a abrangência da matéria e além do perdão, incluiram a possibilidade de parcelamento, em até 180 meses, de todos os débitos vencidos até novembro de 2008, para pessoas físicas e jurídicas. Não vai faltar quem diga que a medida é um prêmio aos sonegadores, mas o fato é que em um momento de turbulência internacional, a MP 449, tal como foi aprovada na Câmara, deve dar fôlego às empresas. A medida também estabelece critérios de pagamentos mínimos das parcelas, o que deve ajudar a evitar uma queda mais brusca na arrecadação. É preciso analisar os detalhes, mas um sistema inteligente não só evita a queda como pode ajudar inclusive a aumentar a arrecadação de tributos que estavam vencidos e custariam tempo, esforços e dinheiro para serem recebidos. É uma boa notícia, portanto, falta agora a aprovação no Senado Federal e a sanção do presidente Lula. Abaixo, matéria da Agência Reuters traz mais detalhes sobre a votação da matéria.

Câmara aprova MP que refinancia dívidas com a União

BRASÍLIA (Reuters) - A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira a Medida Provisória 449, que perdoa e refinancia dívidas de contribuintes com a União.

O texto original da MP apenas perdoava dívidas de até 10 mil reais com a União vencidas até 31 de dezembro de 2002. O relator, deputado Tadeu Filippelli (PMDB-DF), além de manter isso no texto aprovado, permitiu que todos os débitos de contribuintes com a União vencidos até o fim de novembro de 2008 sejam parcelados em até 180 meses com descontos nos juros e multas.

O governo argumenta que, além de beneficiar as pessoas físicas em um momento delicado da economia, a medida fortalecerá as empresas para combater os efeitos da crise financeira global. A oposição, entretanto, acusa o Executivo e sua base aliada no Congresso de beneficiar os maus pagadores de impostos.

"Tem que incentivar a produção e o emprego daqueles que produzem na forma da lei, e não daqueles que produzem à margem da lei", disparou durante a sessão o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA).

O relator estabeleceu ainda que o parcelamento de tais débitos seja corrigido pelo maior índice entre a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) e 60 por cento da Selic. O Executivo pode vetar esse artigo, pois quer que a atualização seja feita por 100 por cento da Selic.

"O governo defende o parcelamento, que é uma medida contra a crise, mas deve prevalecer a Selic", sublinhou a jornalistas o líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS).

Para viabilizar as novas regras, o texto aprovado prevê um regime tributário de transição, o que levou alguns parlamentares a apelidarem o projeto de "minirreforma tributária". O projeto também foi classificado como um novo programa de recuperação fiscal (Refis).

A oposição ainda apresentou três destaques para tentar impedir o refinanciamento de todas as dívidas com a União e cobrar garantias de manutenção de empregos das empresas com faturamento bruto superior a 2,4 milhões de reais que forem contempladas por empréstimos de bancos públicos, mas foi derrotada pelos governistas.

O projeto tem ainda de ser apreciado pelo Senado antes de seguir para a sanção presidencial.

terça-feira, 24 de março de 2009

Para entender o presidente do Brasil

"Uma gripe, num cabra muito fino, deixa ele de cama. Num cabra macho, ele vai trabalhar e não perde uma hora de serviço por causa de uma gripe."

A frase acima foi pronunciada ontem pelo presidente Lula em Recife, Pernambuco, durante evento em uma fábrica da Sadia. Muita gente vai dizer que a analogia da gripe com os efeitos da crise no Brasil é uma estupidez e que o presidente só fala abobrinha, é um completo néscio. Quem pensa assim não entende patavinas de comunicação. Lula pode ser inculto, mas não é nem um pouco estúpido. Na verdade, é bem mais inteligente do que a média e sua intuição política é espantosa. O que o presidente disse em Pernambuco é um exemplo perfeito de sua inesgotável capacidade de se fazer entender pelo público ao qual está falando. Os "cabras finos" naturalmente tapam o nariz, enojados, mas os "cabras machos", que estão mesmo acostumados a não faltar ao trabalho nem se a gripe for uma pneumonia, naturalmente entedem e aplaudem a mensagem do presidente. Boa parte dos agora 78% de popularidade de Lula está justamente aí, na capacidade de se comunicar com a massa. Infelizmente para os tucanos, isto não se ensina na Sorbonne ou em Harvard...

Jorge Rodini: o nome do jogo é...

Em mais um comentário para o Entrelinhas, Jorge Rodini, diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia, analisa um certo jogo que vem sendo disputado com afinco em Brasília. Abaixo, a crônica do aprendiz de jogador.

Há tempos tenho vontade de jogar num cassino. O problema é que, não havendo cassinos legais no Brasil, não sobrando dinheiro para me aventurar no exterior e não gostando de jogar baralho a dinheiro, não me resta outra alternativa senão esperar.

Pode ser que o Governo implante o jogo legal em alguma área maravilhosa do Nordeste. Ou no Sul. No Rio, que coisa linda. Ou , melhor ainda, em São Paulo, muito mais perto para mim.

Quero jogar apenas algumas vezes. Sentir o risco de ganhar ou perder da roleta. Pensar em fórmulas matemáticas e liquidar o cassino, mesmo que uma vez solitária. E, depois de ganhar, parar. Porque senão vou perder o que ganhei e o que ainda nem faturei com meu trabalho.

Mas vou viajar com o dinheiro do meu esforço. Com passagens aéreas emitidas a partir de dinheiro proveniente da minha conta. Bancar as despesas de viagem com a sobra da minha renda. Afinal sou um brasileiro normal, que vive do seu trabalho e paga os impostos, direta ou indiretamente, ao governo para que este realize, idealmente, ações sociais , educacionais, de saúde e de infraestrutura.

Pois é! Sou idealista também, esqueci de dizer. Como a maioria dos brasileiros, que sonham em consumir, estudar , educar seus filhos e ter uma vida pacata e segura.

Alguns não pensam como nós, simples mortais. Jogam há muito tempo. O nome do jogo é trivial. Brincam em grupos. Saem do Planalto para ir se divertir próximo aos Lençóis. Voltam ao Estado querido e dizimado. Mas retornam às custas do dinheiro da Viúva. E do nosso... imposto suado, às vezes parcelado.

Passagens aéreas grupais. Nomes conhecidos, lugares disputados no maior vigor. O nome do jogo é Política.

Agora com a ascensão do Todo Poderoso, apareceram as máculas. Os disparates. Os inúmeros diretores. As contas de celulares para parentes. O nome do jogo passou a ser Rixa.

Não quero pertencer a Câmara Alta. Nem poderia, como a maioria do pagadores de impostos não pode. Só queria jogar meu solitário jogo uma vez. O nome deste nosso jogo é Trabalho.

Como brasileiro, sinto muito pelo que se transformou a nossa representação. Alguns destes representantes não poderiam denegrir seus estados, decepcionar seus eleitores. Mas o nome do jogo é Engodo.

Espero que todos estes jogadores em referência percam. E muito! Que nunca mais recuperem seus votos, sua credibilidade, sua decência. E que devolvam estes valores para o erário. Mas aí é ter fé demais. Talvez continuem jogando indefinidamente. Para sempre.

O nome do jogo é? Bingo, acertamos: Pif-Paf!

Yeda será calcanhar de Aquiles tucano

A notinha a seguir está na edição de hoje do "ex-blog" do ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM).

RESULTADOS DO DATAFOLHA PARA GOVERNADORES CANDIDATOS À REELEIÇÃO!
DF – Arruda (DEM) = 41% / CE - Cid Gomes (PSB) = 39% / BA - Jaques Wagner (PT) = 38% / PE - Eduardo Campos (PMDB) = 34% RJ - Cabral (PMDB) = 26% / RGS – Yeda (PSDB) = 9%.

O que se pode concluir da série, além do erro do partido de Eduardo Campos, membro do PSB e não do PMDB, é que Maia quis fustigar Sergio Cabral, seu rival na política fluminense, e acabou deixando pior na fita a governadora Yeda Crusius (PSDB), grande lanterninha da lista.

De fato, Yeda será em 2010 um tormento para a candidatura presidencial tucana. Serra ou Aécio terão de passar bastante tempo explicando um governo desastroso, recheado de denúncias de corrupção. Se Yeda de fato tentar a reeleição, tanto pior para o presidenciável, porque os gaúchos vão associá-la ao dito cujo, o que provavelmente fará diminuir a votação do candidato a presidente no Estado.

É interessante notar que a votação de Geraldo Alckmin em 2006 foi muito boa entre os gaúchos, no primeiro turno ele bateu o presidente Lula por 55% dos votos a 33%. Com o desastre da gestão Yeda, é provável que o PT faça a festa no estado e vincule as candidaturas de Tarso Genro e da gaúcha-mineira Dilma Rousseff, reduzindo assim o espaço para José Serra ou Aécio nos pampas. Se a eleição for muito disputada, os votos do Rio Grande podem se tornar decisivos e o tucanato vai se arrepender de ter vencido a eleição de 2006 com a atrapalhada, para dizer o mínimo, Yeda Crusius.