sexta-feira, 15 de maio de 2009

Manipulando números

Manchete do UOL: Lula já gastou R$ 6,3 bilhões em propaganda. O título dá a entender que o presidente torrou bastante com publicidade. Pode ser mesmo muito dinheiro, parece que é. Na matéria, bastante honesta do excelente repórter Fernando Rodrigues, o leitor fica sabendo que o valor se refere ao período de seis anos. Na média, R$ 1 bilhão por ano. Fica sabendo também que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não era muito chegado a dar publicidade aos seus gastos com... publicidade. Quem divulgou os gastos de 2002, 2001 e 2000 foi o atual governo. Antes não há referências para comparar. Bem, ainda assim, fica claro que FHC gastou a mesma coisa que Lula, no que período que é possível comparar. Em três anos foram R$ 3 bilhões. Um bilhão por ano, exatamente a mesma coisa que na gestão de Lula. A manchete mais correta, portanto, seria algo como "Lula e FHC gastam R$ 1 bi por ano em propaganda". Mas aí realmente já seria querer demais do UOL...


Lula já gastou R$ 6,3 bi em propaganda

Saíram os números oficiais sobre propaganda estatal federal. Eis o número mágico: Lula já gastou R$ 6,3 bilhões com propaganda de 2003 a 2008, segundo dados oficiais divulgados nesta semana pela Presidência da República.

Eis os dados:

Fatos notáveis:

1) o valor de 2008 é quase idêntico ao de 2007. Houve uma estabilização. É natural que em anos pares (quando há eleições no Brasil) o valor gasto com publicidade estatal tenha um freio. Há restrições legais para o governo fazer propaganda o tempo todo;

2) os picos de Lula continuam sendo 2005 e 2006, o período em que o mensalão dominou o noticiário e quando foi necessário fazer um saneamento na imagem do presidente e do seu governo;

3) esses números se referem a toda a administração pública federal direta e indireta. Estão incluídos, portanto, gigantes como Petrobras, Banco do Brasil, CEF e outras estatais;

4) essas estatísticas não incluem valores de patrocínios, que chegam a aproximadamente R$ 1 bilhão por ano. Patrocínio vai desde colocar um logotipo na camiseta do time de futebol do Flamengo até dar apoio a bandinhas no interior do país;

5) na disputa entre os meios de comunicação por abocanhar um naco desse dinheirão de propaganda, a TV vem se mantendo no patamar dos 60%. Revistas começaram a era Lula recebendo 11,4% de todas as verbas publicitárias federais. Hoje, estão com 7,9%. Jornais aumentaram sua participação no bolo: tinham 10,3% em 2003; agora, estão com 13,1%. A publicidade estatal em internet ainda é percentualmente mínima, embora tenha mais que dobrado de tamanho: os veículos online ficavam com 1% do total no início da gestão Lula e agora estão com 2,6%;

6) não há números completos e atualizados para os 8 anos do governo FHC. O governo Lula divulgou com atualização monetária apenas os gastos publicitários dos últimos 3 anos do tucano (2000, 2001 e 2002). Nesse seu período final, FHC gastou bem, tanto como Lula. Eis a tabela:



Finalmente, uma observação e uma pergunta: O Brasil é um dos países do planeta com mais gastos estatais publicitários. Por que os governos no Brasil gastam tanto em publicidade?

Respostas?

2 comentários:

  1. Os gastos bilionários do governo em publicidade não seriam a resposta aos "achaques" das grandes empresas de comunicação, feitos através da "escandalização do nada", forçando assim o governo a "comprar" seu direito de resposta?
    É uma teoria...

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  2. Colocar gastos de estatais como Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa distorcem os dados. São empresas que concorrem com outras do mesmo ramo no setor privado que também realizam gastos publicitários gigantescos. Por exemplo, o setor bancário privado é um dos maiores anunciadores.

    Seria complicado pedir para o Banco do Brasil concorrer em pé de igualdade, apresentar resultados satisfatórios e ainda atender a outros objetivos do governo se não puder gastar boa soma em publicidade (assim como seus concorrentes). Ou seja, parte substancial do gasto publicitário do governo é por razões mercadológicas, e deveria ser separada do somatório de publicidade governamental. Isso não quer dizer que não possam ser questionados? É difícil explicar a campanha da Sabesp para todo o país por razões mercadológicas.

    Na minha visão os governos gastam muito para promoverem suas ações, mas pouco para orientar o cidadão. É esse último que deveria prevalecer.

    Jefferson Marinho

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