sábado, 12 de agosto de 2006

Um balanço das entrevistas do Jornal Nacional

O assunto da semana foi sem dúvida a série de entrevistas da TV Globo com os presidenciáveis, especialmente no Jornal Nacional (a Globonews também entrevistou os candidatos). O comportamento dos âncoras do JN recebeu críticas de todos os lados – tucanos julgaram o casal William Bonner e Fátima Bernardes mais duros com Alckmin do que com o presidente Lula e os petistas disseram o oposto. Partidários de Cristovam Buarque e Heloísa Helena também reclamaram do modo como os candidatos do PDT e PSOL foram tratados.

As críticas são injustas. É preciso analisar a coisa toda com frieza, sem as paixões partidárias. Em primeiro lugar, Bonner e Fátima aprimoraram nesta primeira série de entrevistas o formato testado na eleição de 2002. Para quem não lembra, naquele ano também os candidatos foram entrevistados, e igualmente apertados pelos jornalistas. O tucano José Serra saiu-se especialmente mal porque esperava uma entrevista amena e não estava preparado para defender o governo Fernando Henrique Cardoso – queria falar apenas sobre o futuro. Lula saiu-se melhor porque a sua vidraça era, naquela época, pequena. Garotinho e Ciro também foram duramente inquiridos e em alguns momentos demonstraram irritação.

Desta vez, não havia desculpa. A direção de jornalismo da Globo tem realizado reuniões com os assessores dos candidatos e explicado muito bem o que pretende na sua cobertura eleitoral. A primeira entrevista é reservada aos temas espinhosos para cada candidato. Em setembro, os presidenciáveis terão no Jornal Nacional os mesmos 10 minutos (que na primeira série foram aumentados para 11 porque Alckmin passou o limite no primeiro dia) para falar de seus programas de governo. Trocando em miúdos, os candidatos deveriam estar informados sobre o tipo de entrevista que enfrentariam. Alckmin, o primeiro da fila, pareceu realmente assustado com as questões e demonstrou insegurança. Os demais já sabiam o que vinha pela frente e se saíram um pouco melhor. A bem da verdade, nenhum deles foi bem nesta primeira rodada de entrevistas.

Alckmin desconstruído

Do ponto de vista dos candidatos, é preciso analisar os programas de acordo com o objetivo de cada um. Para a imagem de "bom gerente" que Alckmin quer passar ao eleitor, a entrevista no Jornal Nacional foi simplesmente desastrosa. O pior momento foi na questão sobre educação, em que o candidato tucano não conhecia o dado apresentado por Bernardes e rebateu com um número que sequer é verdadeiro. Também não pegou bem a resposta sobre a permanência de Eduardo Azeredo no PSDB – Alckmin não defendeu a inocência do companheiro, mas não explicou como ele continua no partido apesar de ter recebido recursos do "valerioduto". Para a imagem de candidato ético, esta questão e a dos anúncios da Nossa Caixa, também mal respondida, foram demolidoras. Se não conseguiu passar a imagem de bom gerente nem a de candidato ético, a entrevista simplesmente não serviu aos objetivos do tucano. De positivo para o tucano, apenas a resposta, um tanto demagógica, é verdade, à questão do aumento de 16% aos aposentados que ganham mais de um salário mínimo: como disse que não vetaria o aumento, Alckmin dever ter conquistado alguns velhinhos para a sua candiatura.

A "Carta ao Povo Brasileiro" de Heloísa Helena

Heloísa Helena (PSOL) foi ao Jornal Nacional com um objetivo muito claro: acalmar a classe média e mostrar que não é a radical que andam pintando por aí. Deste ponto de vista, foi quem melhor apresentou o tempo disponível. Em que pese a arrogância na resposta que deu sobre a reforma agrária – Bernardes quis saber se ela desapropriaria fazendas produtivas e Helena replicou de bate-pronto: "não, meu amor, porque a Constituição não permite" –, a negativa firme e sua defesa da propriedade privada funcionaram como uma espécie de "Carta ao Povo Brasileiro" do PSOL. Para quem não lembra, em 2002 o PT lançou a "Carta" para acalmar os mercados, prometendo cumprir os contratos firmados no governo Fernando Henrique Cardoso. Helena também foi nos momentos em que criticou o governo federal de forma muito mais assertiva que Alckmin no dia anterior, mostrando assim que a sua candidatura pode encarnar o "anti-Lula". Também vale reparar que a senadora não se sentiu intimidada com o pequeno índice de intenção de votos e falou como se estivesse empatada com Lula, pronta para assumir o governo. Ou seja, passou uma imagem auto-confiante, ao contrário de Alckmin.

Educação, Educação e mais Educação

Sobre Cristovam Buarque é que surge a grande dúvida. Se o objetivo dele era se colocar como candidato de um assunto só – Educação – o objetivo foi plenamente atingido, ainda que em alguns momentos Cristovam tenha tropeçado. Todos os 11 minutos foram dedicados a este único tema, de tal forma que a última questão de Bonner foi até irônica ("qual é a sua segunda prioridade"), mas o pedetista não se abalou e... falou mais um pouco sobre educação. Se Cristovam pretendia ampliar o seu eleitorado e falar de outros temas, evidentemente o programa foi um fracasso total. Talvez tenha sido esta a entrevista pior conduzida. O casal apertou bem o candidato, colocou Cristovam na defensiva em diversos momentos, mas deveria ter ampliado os temas e não permitido que ele passasse o programa inteiro falando do que mais entende.

Presidente não quer marola

A entrevista com o presidente Lula foi a única realizada fora dos estúdios da Globo, no Palácio do Alvorada. Bonner e Fátima estiveram impecáveis e calaram a boca dos tucanos que passaram a semana dizendo que a Globo favoreceria o presidente. As perguntas foram tão ou ainda mais duras quantos as feitas para Alckmin. Até o nono minuto da entrevista, Lula dava explicações sobre o escândalo do mensalão. Como Alckmin, o presidente só teve refresco na última questão. Voltando, porém, à análise dos objetivos de cada candidato, é possível dizer que o presidente se saiu bem, pois a intenção ali era apenas manter a dinâmica da campanha tal como ela está agora e impedir que da entrevista surgissem fatos novos que pudessem alterar o curso da eleição, que até agora lhe é francamente favorável. Lula sabia que teria de falar de corrupção e mensalão e, embora bastante tenso, não derrapou. Os atos falhos que apareceram certamente decorrem da tensão e servem até para criar uma imagem simpática de Lula, antagônica à maneira robotizada com que Alckmin aparece na telinha. O presidente, ao contrário de todos os demais candidatos, aparece como um brasileiro de carne e osso, homem que acerta e erra. Todos os demais procuram mostrar que jamais cometeram ou cometerão erros na vida.

Tudo somado, a impressão que fica é favorável à TV Globo, que vai expurgando os seus demônios e deixando para trás um passado em que manipulava, distorcia e até fazia campanha aberta contra políticos – Leonel Brizola sempre foi a vítima preferencial, mas Lula também sofreu na pele o poder da Vênus Platinada. Os tempos mudaram, o público está muito mais atento e não aceita qualquer gato por lebre. Em setembro, uma nova rodada de entrevistas colocará em xeque este primeiro diagnóstico. Até aqui, saldo positivo para o Jornal Nacional.

Um comentário:

  1. Luiz,
    Tenho lido o seu blog com freqüência e, sinceramente, o tenho achado um tanto tendencioso! A favor de Lula e contra os tucanos. Bem, os atos falhos do presidente, eu não os veria como fatores de simpatia e sim como aquilo que verdadeiramente são: escapes do inconsciente, que demonstram o que as coisas são no duro!

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