quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Afinal, de quem é o recorde?

A aprovação recorde do governo, detectada na última pesquisa Datafolha, é um sinal importante sobre o humor dos brasileiros nesses tempos pré-eleitorais. O instituto aferiu que a soma de avaliações “ótimo” e “bom” dos entrevistados sobre o governo federal superou 52%. Foi a maior aprovação não apenas da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas de todos os presidentes da República desde Fernando Collor de Mello, quando o instituto Datafolha começou a fazer os seus levantamentos.

Um recorde deste quilate será comemorado aos quatro ventos pelo governo, ainda mais em véspera de eleição, mas o que cabe aos analistas é tentar entender as motivações dos entrevistados. E a aprovação recorde é realmente algo difícil de explicar, pois poucos governos foram tão atacados como o de Lula – talvez apenas Fernando Collor de Mello tenha recebido mais críticas do que o atual presidente. Nesta semana mesmo, um ex-presidente da República de triste lembrança veio a público para dizer que cabia o impeachment de Lula, mas que “faltou um Carlos Lacerda” para que o movimento ganhasse força no ano passado.

Também é interessante notar que embora a economia brasileira esteja em situação bem melhor do que há quatro anos, não houve, no período compreendido pela gestão Lula, uma taxa de crescimento econômico notável ou aceleração da atividade acima do que se verificou em períodos anteriores. Ao contrário, os críticos da gestão petista gostam de dizer que o Brasil “perdeu oportunidades” e poderia ter crescido mais. Críticas à parte, a verdade é que não houve um “milagre econômico” para alavancar a avaliação do governo federal.

Qual seria, então, a mágica deste governo para obter uma avaliação recorde em meio a tantas críticas, sem contar com nenhuma grande obra para apresentar, e ainda por cima aplicando uma política econômica ortodoxa, bem diferente daquela prometida
pelo presidente no passado?

O carisma de Lula e a identificação do povo brasileiro com a saga deste homem que saiu do interior do Nordeste, veio a São Paulo, venceu como líder sindical, apostou no sonho de se tornar presidente até a sua persistência ser recompensada explicam apenas parcialmente o fenômeno da alta popularidade do governo.

É preciso ajuda de uma pesquisa qualitativa para descobrir os demais fatores, mas uma hipótese a se testar é a de que os brasileiros se desencantaram com a política, com os políticos e suas promessas vãs. Estão mais pragmáticos e percebem que não existe muitas alternativas ao jeito que Lula escolheu para tocar o governo. Assim, na hora de avaliar a gestão e levando em conta os velhos problemas de um País pobre e cheio de contradições, os brasileiros reconhecem o esforço do presidente.

Por fim, a todos esses fatores – carisma, crescimento possível e identificação popular com o presidente – é preciso somar um outro, também importante: a tragédia que foram os 8 anos de governo tucano-pefelista. É comparando que as pessoas fazem as suas avaliações e ao colocar lado a lado os governos de Lula e Fernando Henrique, os números são de tal forma favoráveis ao petista que a população acaba sendo até um pouco condescendente com a atual gestão. Não deixa de ser irônico: a ruindade dos tucanos está sendo a grande salvação dos petistas.

4 comentários:

  1. Será que a falta de opção de candidatos melhores daria ao governo Lula a avaliação recorde de ótimo ou bom? Não sei se entendi muito bem a sua avaliação e sua posição: ao final vc critica os tucanos, mas não consegue elogiar Lula. Isso lhe daria a avaliação de ótimo ou bom para o governo petista?

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  2. Obrigado pelo comentário, eu realmente acho que a questão central é a comparação entre os governos. O do Lula está sendo compreendido pela população como melhor do que o de Fernando Henrique. Muito Melhor. É a hipótese que acho mais plausível para explicar a aprovação recorde. Não é uma questão de elogiar, mas de tentar entender o que ocorre na cabeça dos eleitores.

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  3. Luiz,
    Crescimento não é tudo.

    Crescimento do PIB está fortemente relacionado aos investimentos (formação bruta de capital). E os investimentos no país patinam há décadas, por falta de mobilidade social que inclua uma massa que não tem acesso ao mercado de trabalho e ao consumo. Pelos juros estratosféricos, carga tributária escorchantes etc. Fatores limitantes e que estão diretamente ligados ao criminoso endividamento do país. Pouco se pode fazer no curto prazo. Mas esses fatores pouco influenciam a vida das pessoas no curto prazo e o povo brasileiro não tem horizonte para o longo prazo.

    Por outro lado, nos 3 últimos anos, o país vem apresentando indicadores no trabalho, formalização do trabalho, massa salarial, renda, acesso ao crédito, programas de transferência de renda (pela primeira vez 40 milhões de pessoas recebem "atenção" não apenas na véspera das eleições), consumo popular etc, que são fantásticos. O poder de compra do SM é hoje o maior em 24 anos, segundo o DIEESE. Esses fatores são marginais no curto prazo para o crescimento do PIB, mas afetam diretamente a população excluída, a sensação de qualidade de vida das pessoas; muito mais do que o crescimento do PIB.

    Não estou minimizando o PIB para o país, longe de mim, só estou tentando entender como esse período influenciou no ânimo da população mais carente e que o faz aprovar de forma tão forte o Governo Lula.

    Para as classes mais abastadas, esses fatores citados, importam pouco. No último IBOPE, 22% dos que têm formação universitária disseram que o Governo Lula foi péssimo. Caramba, pra mim nem o Governo Collor foi péssimo (esse é um fenômeno mais difícil de ser explicado).

    Lula diz: Pra quem joga metade um prato de comida no lixo todos os dias, fazer 3 refeições por dia é muito pouco. Mas é o começo da dignidade para muitos." Repare nas fotos, o olhar que as pessoas dedicam a Lula. É quase um olhar de um padrinho querido.

    FHC navegou nesse parâmetro até 98, pela mesma condição de aumento da renda, poder de consumo, por conta do fim da inflação. Nem o confisco de 40% do salário foi capaz de diminuir o efeito que o fim da inflação teve nas nossas vidas. O problema é que em 98, nós tínhamos apenas uma memória daquele sentimento de dignidade. Suficiente apenas para o reeleger. Desde 97 a renda do brasileiro só caiu, até 2003.

    Hoje os indicadores econômicos e sociais se não estão magníficos, estão claramente aumentando o horizonte das pessoas que nunca tiveram horizontes.

    Essa idéia de que o Brasil perdeu oportunidades, é uma balela. O Brasil aproveitou as oportunidades para aumentar a renda e rever as contas externas que estavam uma calamidade. Mas isso também não afeta o horizonte do eleitor.

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  4. Talvez eu possa acrescentar dois artigos ao debate. Ambos da Folha de São Paulo de hoje.

    Valor Econômico (24/08/06)
    Cesta básica mais barata mantém Lula favorito
    http://www.informante.net/#3040


    Folha de São Paulo (24/08/06)
    Consumidor quer gastar mais, diz pesquisa
    http://www.informante.net/#3039


    "A sensação que dá é que a confiança do consumidor na economia nunca esteve tão boa. Há oscilações de um mês para outro, claro, mas parece que o consumidor está vendo ainda que a possibilidade de perder o emprego está se reduzindo", afirma Roberto Padovani, sócio-diretor da Tendências.

    Isso bate com o crescimento da avaliação positiva do Governo.

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