domingo, 31 de maio de 2009

Marlos é seleção

Pausa esportiva do dia: bastou Muricy Ramalho sacar Jorge Wagner do time e o tricolor do Morumbi trucidou o Cruzeiro com facilidade. O grande nome do jogo - guardem, pois é complicado - foi Marlos, a única contratação do São Paulo para o resto da temporada. Pelo visto, única e suficiente. O rapaz sabe o que fazer com a redonda, dribla bem, tem ótima visão do jogo (basta ver o passe que deu no gol de Borges, o segundo da tarde) e potencial para ocupar logo mais o lugar de Elano na seleção nacional. Quem dava o tricolor como morto que se cuide. Rumo ao hepta...

Kotscho: manipulações sobre o 3° mandato

Muito boa a reflexão do jornalista Ricardo Kotscho, publicada em seu blog. Na íntegra para os leitores do Entrelinhas.

Metade do eleitorado já apóia 3º mandato

Dei o título acima a este post apenas para demonstrar como é possível, a partir das mesmas informações, dar manchetes completamente diferentes, com o sinal trocado.

Os editores da Folha de S. Paulo preferiram destacar que “3º mandato de Lula divide o país _ Proposta tem o apoio de 47% e é rejeitada por 49%, revela Datafolha; popularidade do presidente sobe”.

Leitores desavisados sobre os critérios editoriais da nossa grande imprensa poderiam inferir, a partir da manchete da Folha, que a luta de Lula por um terceiro mandato estaria dividindo o país, como se esta proposta estivesse para ser votada no Congresso Nacional e dominasse as conversas nas ruas.

Como sabemos, não se trata de uma coisa nem de outra. Quase toda semana, como na última, faz anos que Lula descarta a possibilidade de um terceiro mandato.

E a tentativa feita quinta-feira por um deputado inexpressivo (Jackson Barreto, do PMDB-SE) para colocar o asssunto em discussão na Câmara não conseguiu o número mínimo exigido de assinaturas.

Pela enésima vez repito aqui no Balaio que esta história de terceiro mandato é uma bobagem levantada por áulicos e adversários do presidente Lula, nunca foi cogitada por ele. Ele é contra por uma questão de princípios, em respeito à democracia e ao que está escrito na lei, como eu também sou.

Em entrevista que fiz com ele para a revista Brasileiros, no final de 2007, reproduzida outro dia aqui no Balaio, perguntei-lhe se não aceitaria disputar a re-eleição nem se o povo pedisse e ele me respondeu categoricamente que não, não havia esta possibilidade.

Então, qual a razão da pesquisa, por que afirmar que o país está dividido em torno desta questão? Por acaso, pensou-se em fazer a mesma pesquisa na segunda metade do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso?

A resposta pode estar em outras questões levantadas pela pesquisa, mostrando que, apesar da crise econômica mundial e das suas consequências para a vida do brasileiro, da gripe suína, das enchentes e das secas, a popularidade do presidente não só não foi abalada como continua subindo, assim como as intenções de voto em sua candidata à reeleição, a ministra Dilma Roussef:

O que mostra o Datafolha:

* A avaliação do presidente Lula, na metade do seu sétimo ano de governo, chegou a 69%, no mesmo patamar de antes da crise financeira.

* Se pudesse ser candidato à re-reeleição, ganharia com folga de José Serra já no primeiro turno.

* A intenção de voto para presidente em Dilma Roussef subiu de 3%, em março de 2008, para 16% agora, passando Ciro Gomes e Heloísa Helena, enquanto o líder das pesquisas, José Serra, caiu de 41%, em março de 2009, para 38%, diminuindo em oito pontos a distância de um para outro.

Qualquer um destes resultados da pesquisa também poderia ter sido manchete da Folha, assim como o fato de que mais brasileiros agora apóiam um terceiro mandato para o presidente:

* Em 2007, 31% eram a favor e 65 contrários à mudança na lei para que Lula pudesse concorrer a um terceiro mandato; agora, há empate técnico: 47% são a favor e 49% contrários.

Por isso, acho que a minha manchete _ “Metade do eleitorado já apóia 3º mandato” _, modéstia à parte, seria jornalísticamente mais correta.

Somando tudo e passando-se a régua, a pouco mais de um ano do início oficial da campanha presidencial de 2010, entende-se porque a oposição resolveu jogar tudo na criação de uma CPI da Petrobras, enquanto continua agitando o fantasma do terceiro mandato.

Ou alguém honestamente pode imaginar que a oposição está mesmo interessada em investigar a administração da Petrobras para melhorar o desempenho da empresa e que ainda haveria tempo útil para alterar a lei permitindo a re-eleição do presidente Lula?

Parece ser tudo só uma disputa por manchetes _ e, neste campo, como vimos, cada um pode escolher a sua.

Lula e a democratização da propaganda

A Folha de S. Paulo também publica neste domingo uma matéria muito interessante sobre os gastos da propaganda do governo Lula. O que a Folha vê como negativo este blog reputa muitíssimo positivo. A questão é simples, conforme se pode ver abaixo. Com praticamente o mesmo dinheiro, o governo Lula anunciou em mais de 5 mil veículos de comunicação. Durante a gestão de Fernando Henrique, eram apenas 500 os beneficiados.

A Folha sustenta que esta prática não é condizente com as regras de mercado e cita exemplos da Fiat e Itaú, que publicam anúncios para menos de 200 veículos. De fato, o governo Lula não obedece às regras de mercado, o que é a melhor notícia que se pode ter nesta área.

Com a maior distribuição dos recursos de propaganda, na prática o governo fomenta a democratização dos meios de comunicação. Antes, só os grandões levavam o meu, o seu, o nosso dinheirinho, impedindo o crescimento de outras publicações. Agora, jornais regionais e pequenos também levam e podem se tornar competitivos, o que é ótimo para a sociedade de várias formas: dinamiza o mercado de trabalho do setor, possibilita que diferentes vozes tenham meios de expressar suas ideias, enfim, é tudo de bom. Abaixo, a matéria da Folha sobre o assunto.

Propaganda de Lula chega a 5.297 veículos

Com PT no Planalto, o número de meios de comunicação que recebem verbas de publicidade federal aumentou 961%

Ao tomar posse, comerciais do petista atingiam 21 TVs e 270 rádios; no fim de 2008 já havia 297 TVs e 2.597 rádios veiculando anúncios oficiais

FERNANDO RODRIGUES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Os comerciais do Palácio do Planalto atingiram no ano passado 5.297 veículos de comunicação no país. O número representa uma alta de 961% sobre os 499 meios que recebiam dinheiro para divulgar propaganda do governo de Luiz Inácio Lula da Silva em 2003, quando o petista tomou posse.
Esse padrão de pulverização na publicidade é incomum na iniciativa privada. Segundo dados do Ibope Monitor, a Fiat anunciou em 206 meios de comunicação diferentes no ano passado. O banco Itaú, em 176. Trata-se de uma pesquisa por amostragem, mas mesmo com um desvio de 1.000% o número de veículos nos quais essas duas empresas anunciam não se aproximaria dos 5.297 escolhidos pelo governo federal.
A regionalização da propaganda federal é parte de uma estratégia de marketing do governo. Presidente mais bem avaliado no atual ciclo democrático, Lula viu sua alta popularidade se consolidar numa curva quase paralela ao avanço da distribuição de seus comerciais pelo interior do país.
"O fato de ter ampliado a presença do presidente na mídia regional pode ter ajudado [a elevar a popularidade do governo]", admite Ottoni Fernandes, subchefe-executivo da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, que está sob o comando do ministro-chefe da Secom, Franklin Martins.

Mudança de estratégia
Diferentemente dos antecessores, Lula regionalizou radicalmente a distribuição de verbas de publicidade. Não houve um aumento expressivo no valor gasto, mas uma mudança de estratégia. Grandes veículos de alcance nacional passaram a receber um pouco menos. A diferença foi para pequenas rádios e jornais no interior.
O orçamento total consumido em mídia por Lula e pelo tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), seu antecessor, oscilou sempre na faixa de R$ 900 milhões a R$ 1,2 bilhão por ano -sem contar patrocínios e outros custos relacionados à produção de comerciais.
No caso das verbas apenas para a Presidência, só há dados disponíveis a partir de 2003. Antes a propaganda presidencial era feita de maneira dispersa pelos vários organismos da estrutura federal. Lula gasta anualmente um pouco acima de R$ 100 milhões com comerciais idealizados pelas agências que servem ao Planalto.
A diferença em relação ao governo anterior é a distribuição das propagandas por muitos meios de comunicação de pequeno porte. Logo depois de tomar posse, os comerciais do petista atingiam, por exemplo, apenas 270 rádios e 21 TVs. No final do ano passado, já eram 2.597 emissoras de rádio e 297 TVs recebendo dinheiro do Planalto para divulgar mensagens da administração federal.
Não se trata de publicidade de utilidade pública. Campanhas de vacinação ou sobre matrículas escolares continuam sendo executadas pelos ministérios. A propaganda produzida pelo Planalto é sobre ações de interesse político-administrativo -como divulgar a lista de obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) ou o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida.
Às vezes o governo também atua como animador da população. No final do ano passado, uma campanha nacional foi veiculada para que os brasileiros não interrompessem o consumo por receio dos efeitos da crise econômica internacional.
"O presidente Lula, se eu pudesse escolher, deveria ser o profissional de comunicação do ano. Ele reduziu, no gogó, a tensão da população, da classe C ascendente. O presidente é ótimo em comunicação integrada. A regionalização da mídia é uma parte. Já existia antes de a crise chegar e ajudou", diz Mauro Montorin, publicitário da agência 141, uma das responsáveis pela conta da Presidência da República.
A capilaridade dos comerciais de Lula pode ser também mensurada pelo número de cidades brasileiras nas quais há propaganda do Palácio do Planalto. Em 2003, eram 182 municípios atingidos. Agora, são 1.149 -uma alta de 531%.
"A mídia regional é mais ligada às comunidades e tem mais credibilidade localmente (...) Partimos para uma política de atender a mídia regional, com mais entrevistas do presidente. Há uma mania no Brasil de achar que a mídia é só em São Paulo e no Rio", diz Ottoni Fernandes, subchefe da Secom.
A diretriz geral é dada pelo ministro Franklin Martins: "A imprensa regional está crescendo no Brasil. O objetivo do governo é se comunicar com a população e esses veículos do interior atingem uma parcela relevante da população".

Rádios e jornais
Em 2003, havia 5.772 rádios no Brasil, de acordo com o Ministério das Comunicações. Hoje, são 8.307 emissoras, incluindo as 3.685 chamadas "rádios comunitárias", cujo alcance do sinal é limitado.
No meio jornal, quando Lula tomou posse, existiam 2.684 títulos no país, segundo a Associação Nacional de Jornais; em 2006, último dado disponível, já eram 3.076 veículos.
Uma das razões para a iniciativa privada não anunciar na maioria desses veículos é a falta de mecanismos para auditar a penetração da mensagem e aferir a eficácia do comercial. Poucos jornais no país têm tiragem comprovada pelo IVC (Instituto Verificador de Circulação). Essa entidade só inspeciona 118 dos mais de 3.000 títulos.
O governo afirma exigir comprovação de impressão por parte do pequenos jornais antes de fazer o pagamento. No caso das rádios, diz Ottoni Fernandes, "há cadastro com todas as emissoras em cidades com mais de 50 mil habitantes", que precisam emitir faturas e dar alguma prova de veiculação do comercial. Essa é uma exigência do TCU (Tribunal de Contas da União), que foi consultado ao longo do processo de regionalização para aprovar os métodos do Planalto.

Datafolha: coitada da oposição...

Aprovação recorde de Lula, crescimento da candidatura de Dilma Rousseff e aumento do apoio à tese do terceiro mandato. Tudo isto em meio a tal "maior crise da história do capitalismo". É o que revela a pesquisa Datafolha publicada neste domingo na Folha de S. Paulo. Parece incrível e de fato é incrível. O que sobra para a oposição? O bom desempenho do governador José Serra (PSDB), sem dúvida. Ainda na liderança para a sucessão de Lula, Serra vive uma certa ilusão - seu recall é tamanho que só na campanha vai dar para saber como o povo reagirá ao entender que ele é o principal candidato da oposição, coisa que ainda não está clara para o povão. É evidente que Dilma vai subir muito mais e embaralhar o jogo - se o candidato fosse Lula, a eleição nem teria graça, conforme atestam os números da pesquisa espontânea, na qual o presidente tem 27% das intenções de voto contra 5% de Serra.

Na verdade, o grande enigma do cenário captado pela pesquisa Datafolha é a questão da crise. Afinal, seria natural que a popularidade presidencial continuasse caindo em função dos acontecimentos na economia. De duas uma: ou a crise parou de se agravar e os jornalões não estão conseguindo retratar este movimento; ou Lula se tornou imune aos efeitos da crise. Não dá nem para saber o que é pior para a oposição...

sábado, 30 de maio de 2009

Bom artigo sobre o fim da GZM

Do portal Comunique-se, mais um interessante balanço sobre a Gazeta Mercantil.

    O fim de um jornal melhor que os seus donos, por Thales Guaracy
    Thales Guaracy (*)
    A imprensa anda de luto pela Gazeta Mercantil, o jornal que vem estertorando nas mãos da CBM, Companhia Brasileira de Multimídia, de Nelson Tanure. Seu fim não se dá pela crise da imprensa, que vai abalando grandes jornais do mundo, a começar pelo New York Times, nos Estados Unidos, com a prevalência crescente da internet sobre a mídia impressa. É apenas um caso de má administração e incompreensão da natureza de um negócio. Com a Gazeta, vai se encerrando parte da história do jornalismo brasileiro, mas ela ainda nos dá uma lição, sua última contribuição para o futuro.
    Comecei a trabalhar na Gazeta em 1986, recém-saído da faculdade, depois de rápido estágio na TV Bandeirantes. Instalada num edifício da rua Major Quedinho, a Gazeta era um jornal venerável, considerado leitura obrigatória no mundo profissional. Sua circulação era menor que a da Folha de S. Paulo e de O Estado de S. Paulo, porém seu público era mais qualificado.
    Possuía também um braço na TV, o programa Crítica e Autocrítica, capitaneado pelo seu diretor editorial, Roberto Muller, que ia ao ar no domingo à noite. Era uma alternativa para o público que queria ver uma conversa mais séria, ainda que às vezes meio sonolenta, em lugar das mesas redondas de futebol.
    Na redação do jornal, havia uma constelação de estrelas do jornalismo, a começar pelo seu diretor, Matias Molina, o secretário de redação, Alexandre Gambirasio, e um time de repórteres tratados como primas-donas: Celso Pinto, José Casado, Getúlio Bittencourt, entre outros - todos premiados e com vasta folha de serviços prestados ao jornalismo brasileiro.
    A Gazeta era não apenas um grande jornal de negócios, como uma escola de jornalismo. Isso incluía princípios como a imparcialidade e a honestidade absolutas; a obsessão pela informação correta, segundo elemento essencial para a credibilidade; a busca incansável pela notícia exclusiva, que fazia a diferença.
    A disputa aberta e estimulada entre os repórteres pelo espaço da primeira página era uma forma de garantir a perseguição permanente pela qualidade, num mercado em que ainda não havia concorrentes importantes. A Gazeta valorizava o jornalista, que assinava todas as suas reportagens e era tratado como patrimônio da casa, a própria essência do negócio.
    Parecia um negócio inexpugnável, e teria sido, não fossem os seus proprietários: a familia Levy, cujo patrono, o deputado federal Herbert Levy, deixara a administração do jornal ao filho Luiz Fernando para cuidar de suas atividades políticas. A gestão fez da Gazeta Mercantil o único órgão de imprensa em que trabalhei a atrasar salário. Porto seguro para a publicidade de bancos e outras empresas que tinham no jornal um veículo perfeito, o mal uso dos recursos fazia com que volta e meia a empresa entrasse em dificuldades.
    Por sorte, naquela época, havia um grupo de empresários que, nos momentos mais difíceis, socorriam o jornal. Sabiam que ele era melhor que os seus donos. Agiam não por amizade, compromisso, ou mesmo medo, mas pelo entendimento de que o serviço prestado pela Gazeta era importante e insubstituível para a comunidade de negócios e o país.
    Assim, o jornal prosseguiu não por causa de seus criadores, mas apesar deles; pertencia não a uma família, mas à sociedade. Sempre foi respeitado muito graças ao espírito de corpo dos jornalistas que nele trabalhavam, enquanto seus proprietários eram tratados com reserva.
    Lembro de certa tarde em que eu, ainda um repórter principiante, fui fazer uma entrevista com o então diretor do Banco Central, Wadico Bucchi, em São Paulo. Encontrei Luiz Fernando Levy já na ante-sala, à espera de uma audiência. Levy continuou esperando, enquanto eu entrei na sua frente, atendido primeiro.
    Para Bucchi, o repórter principiante merecia preferência em relação ao dono do próprio jornal onde trabalhava. Ele sabia que eu estava ali em busca de notícia, fazendo meu serviço para uma publicação de prestígio. Levy estava lá para pedir alguma coisa.
    Quando o mercado se torna mais difícil, uma má gestão fica mais evidente e faz a diferença, sempre para pior. Surgiu o Valor Econômico, um concorrente que tomou da Gazeta boa parte de seu principal ativo: os jornalistas. A empresa mergulhou em dívidas e mesmo os seus mais antigos defensores desistiram de salvá-la. Acossado pelos credores, Levy entregou o título a Nelson Tanure, empresário do ramo de transportes, que resolveu investir em comunicação e cobriu-lhe dívidas.
    Tanure não tem a mesma familiaridade com as qualidades que fizeram da Gazeta um grande veículo e poderiam recuperá-la. E anunciou que fecharia o jornal por conta da cobrança na Justiça de dívidas trabalhistas anteriores à sua gestão e que, segundo explicou no próprio jornal, não lhe dizem respeito.
    Há hoje uma onda de empresários que arriscam tornar-se editores sem compreender a dependência desse negócio de sua matéria-prima essencial – gente. A Gazeta teve seus quadros reduzidos, os salários aviltados. A qualidade do jornal era até miraculosa, dadas as condições de trabalho.
    O que assusta hoje na imprensa não é a mudança da mídia impressa para a digital. A verdadeira ameaça ao negócio é a entrada de gente com dinheiro e ousadia, mas sem conhecimento do riscado – sobretudo, da importância da separação entre Igreja e Estado. Para mercadores vindos de outras áreas, é difícil aceitar que não se barganha conteúdo jornalístico por dinheiro, e que a credibilidade, que exige o sacrifício do ganho fácil, é a fonte do sucesso duradouro nesse tipo de negócio.
    A Gazeta virará agora uma embrulhada jurídica para que se saiba quem pagará as contas, se Levy ou se Tanure – um tipo de disputa à qual ambos, por sinal, estão habituados. Esse, porém, não é o verdadeiro fim da história. Jornal que sempre analisou em suas reportagens as causas do sucesso e do fracasso empresarial, a Gazeta fez de sua própria trajetória uma parábola do assunto que explorava.
    Em sua agonia, a Gazeta deixa como ensinamento o que é capaz de levantar e também derrubar um negócio de comunicação, não importa qual seja sua plataforma – o papel, a TV ou o mundo virtual. E, nesses tempos tão cheio de dúvidas sobre o futuro do negócio da informação, reafirma a convicção de que, enquanto os bons princípios do jornalismo forem praticados, sempre haverá uma imprensa livre e economicamente forte para proteger a sua e a nossa liberdade.
    (*) Jornalista

Cesar Maia revela que Lula sobe no RJ

Está muito interessante e informativo o artigo do ex-prefeito Cesar Maia na Folha de S. Paulo deste sábado. Como ele é um prócer do DEM, os dados sobre a popularidade do presidente Lula no Rio são insuspeitos. E, afinal, por que Lula não para de crescer na avaliação popular? O blog aceita respostas...


É a economia, estúpido?

A PESQUISA GPP de 16 e 17 de maio no Estado do Rio mostrou níveis de aprovação de Lula que nunca antes no Rio se havia visto.
Quando pesquisas nacionais apontavam níveis superiores a 70% (2008), a avaliação "ótimo-bom" de Lula na capital do Estado não chegava a 50%. Nessa última pesquisa, obteve no Estado 65% -na capital, 59%; na Baixada (popular), 74%; no interior industrial, 72%; no interior, 65%. As avaliações do governador permanecem entre 30% e 35%, apesar de feéricas campanhas publicitárias na TV, colagem em Lula e a boa vontade da imprensa local.
Lá se vão oito meses da crise econômica, com dados graves de desemprego, quebra de empresas e um futuro de incertezas. O Brasil, neste período, ficou entre os países com dados mais acentuados de queda na indústria, no PIB e no comércio exterior. Por que razão a máxima "é a economia, estúpido", de Carville (assessor de Clinton na época), que relaciona a economia à política não atingiu Lula? O indicador mais óbvio seria o desemprego, que afeta alguns diretamente e indiretamente os que temem o desemprego.
A Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE pode ajudar. Sendo pesquisa, tem alguma margem de erro. Mas a série de muitos anos sempre foi incorporada como sinal dos fatos nas principais regiões metropolitanas e em seu conjunto. Compare-se a PME de abril, de 2008 e de 2009. Pessoas em idade ativa aumentaram 496 mil, ou 1,2%. Pessoas economicamente ativas (PEA), 148 mil, ou 0,6%.
E não economicamente ativas (Pnae) 348 mil, ou 2%. Em seguida, abram-se os elementos negativos da Pnea. As pessoas que gostariam e estavam dispostas a trabalhar diminuíram de 12,2% para 12%. As marginalmente ligadas às PEA cresceram de 4,6% a 5,2%.
As desalentadas diminuíram de 0,1% a 0%. A taxa de desocupação cresceu de 8,5% para 8,9%, mas, paradoxalmente, o percentual de pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas caiu de 3,4% a 3%. Vale dizer: a taxa efetiva de desocupação, somando o desemprego aberto com o emprego precário, ficou estável em 11,9%.
Questionar os números vis a vis da crise é infantil depois de tantos anos. Os trabalhadores metropolitanos irem para o interior? A lógica é o inverso. É provável que o Bolsa Família tenha reduzido a migração, e isso ajudaria a explicar os números. Passando à lógica política, talvez os discursos de Lula o situem como um protetor.
Isso explicaria até números piores e sua avaliação. O mais provável é que os números estejam certos e que os primeiros meses de desemprego estejam protegidos pela indenização, FGTS, seguro-desemprego e a esperança. Mas não explicam a avaliação crescente de Lula no Rio.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Diversão garantida

O governador José Serra (PSDB) é um rapaz antenado e já tem um Twitter, avisa um atento leitor. Este blogueiro foi lá ver o que escreve o "futuro presidente do Brasil":

    "No 2° tempo, o Nacional só mandou uma bola no gol do Palmeiras. E marcou, num lance besta. Calou-se o estádio. Lembrei a Copa de 50."

Está sobrando tempo, governador?

DEM quer Serra na rua (fazendo campanha)

Boa apuração do repórter Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, reproduzida abaixo. É fato: o governador José Serra está se escondendo do debate público. Acha que pode ganhar a eleição de 2010 da mesma maneira que venceu em 2006 o governo de São Paulo: sem dizer o que vai fazer, sem programa, sem discurso. A verdade é que Serra venceu com facilidade a disputa pelo palácio dos Bandeirantes porque enfrentou um dos piores quadros petistas - o senador Aloizio Mercadante, um verdadeiro mico em loja de louças da política nacional. O DEM, portanto, está com a razão, pois a eleição presidencial é uma parada muito mais dura. Sim, Dilma Rousseff não é uma candidata "natural" à sucessão do presidente Lula, mas nem de longe poderia ser comparada a Mercadante. Dilma tem compostura, pegada de boa administradora e um discurso coerente. Mal comparando, Serra em 2006 disputou a corrida com um Barrichelo da política (garantia de vitória para o adversário), agora pode não pegar um Ayrton Senna, mas terá que enfrentar um Felipe Massa, piloto que tanto pode chegar em segundo ou vencer a corrida, mas vai sempre dar trabalho a quem estiver na liderança. Isto sem falar em Ciro Gomes, que pode fazer o papel desses pilotos que ninguém dá muita bola e acabam fazendo bonito nas pistas, surpreendendo os favoritos. É, melhor Serra pelo menos começar a esquentar o carro ou corre risco de acabar ficando para trás...
A seguir, a íntegra do texto de Josias de Souza, originalmente publicado em seu blog.

DEM pressiona Serra a antecipar a campanha de 2010

Condenado a uma aliança com o PSDB na sucessão de Lula, o DEM está incomodado com a passividade do tucano José Serra.

O incômodo, que era latente, tornou-se explícito numa reunião-almoço realizada nesta quinta (28), no Rio de Janeiro.
O repasto foi oferecido pelo prefeito carioca, o ‘demo’ Cesar Maia. Dividiu a mesa com as principais lideranças do DEM.
Fez-se uma análise da conjuntura política. Serra foi à berlinda. Lero vai, lero vem produziu-se a unanimidade.
Um a um, os presentes foram expressando sua irritação com a decisão de Serra de priorizar o governo de São Paulo em detrimento da campanha.
Eis a conclusão a que chegaram: a estratégia do governador podia fazer sentido no início do ano. Mantê-la agora pode resultar em grave erro de cálculo.
O DEM espanta-se com o crescimento da candidata de Lula nas pesquisas.
Na semana passada, o PT divulgara sondagem que atribui a Dilma entre 19% e 25% das intenções de voto, dependendo do cenário.
No mesmo levantamento, feito pelo instituto Vox Populi, Serra despenca dez pontos percentuais, situando-se entre 33% e 46%.
Para o DEM, Serra precisa levar sua campanha à vitrine imediatamente. Avalia-se que, sem contrapontos, Dilma vai encostar no rival.
Eis o que disse ao blog um dos participantes do conciliábulo ‘demo”:
“O Serra precisa sair em campo. Do contrário, mesmo com a crise financeira e com a doença, Dilma vai crescer um pouquinho a cada pesquisa...”
“...Vamos chegar a dezembro com uma diferença muito pequena. E ficará bem mais difícil costurar os acordos para a montagem dos palanques nos Estados”.
Puseram-se de acordo: o anfitrião César Maia; o filho dele, Rodrigo Maia, que preside o DEM; e Jorge Bornhausen, presidente de honra da legenda.
Compartilharam do ponto de vista o governador do DF, José Roberto Arruda, e os líderes no Legislativo: José Agripino Maia (Senado) e Ronaldo Caidado (Câmara).
Também presente, Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo –hoje, o ‘demo’ mais próximo de Serra—, silenciou.
“Quem cala consente”, avaliaria depois, em conversa com o blog, um dos comensais de Cesar Maia.
Coube justamente a Kassab a missão de transmitir a Serra, em nome do partido, a animosidade verificada na reunião-almoço.
De resto, foram à mesa as rusgas que envenenam as relações do DEM com o PSDB nos Estados. São mais graves no Distrito Federal e na Bahia.
No DF, o DEM tentará reeleger o único governador que lhe restou. E irrita-se com o flerte de Serra com Joaquim Roriz (PMDB), o principal opositor de Arruda.
Na Bahia, os ‘demos’ vão de Paulo Souto. E não se conformam com o namoro do tucanato local com o grupo de Geddel Vieira Lima (PMDB).
Ministro de Lula, Geddel oscila entre a candidatura ao Senado ou ao governo do Estado.
Se fizer a segunda opção, vai romper a aliança que o une ao governador petista Jaques Wagner, candidato à reeleição.
É um movimento que, na visão do DEM, Geddel não se animará a fazer. Sobretudo porque Paulo Souto encontra-se nem-posto nas pesquisas.
Noves fora a hesitação do tucanato baianos, o DEM incomoda-se com um assédio subterrâneo que o PSDB faz para atrair Paulo Souto para os seus quadros.
Ouça-se, de novo, um dos presentes à reunião do Rio: “Esses arranjos estaduais passam pela definição da candidatura nacional...”
“...Há toda uma estrutura a ser colocada na rua. Essa estrutura só se move se tiver uma voz por trás. A voz do candidato à presidência...”
“...A previsível queda de Serra nas pesquisas deve reduzir o tamanho do salto. E o PSDB vai se dar conta de que os acordos regionais ficam mais difíceis...”
“...De nossa parte, há toda a boa vontade. Mas as pessoas na base, que caminhavam para uma aliança com a perspectiva de poder, já não vêem mais essa perspectiva tão segura”.

Coisa fina

Mais uma do blog Coturno Noturno, do tal coronel ultradireitista, para os leitores terem ideia do que vai pela cabeça dessa gente. Desta vez, o que é muito raro, Fernando Henrique está coberto de razão - o mínimo que se espera de uma autoridade com bom senso é discutir a questão das drogas para minimizar a violência no país - são 50 mil homicídios por anos no Brasil, a maior parte relacionada ao tráfico de drogas...

    FHC e a sua marcha da maconha.
    E Fernando Henrique Cardoso continua a sua marcha particular em favor de uma nova postura global frente à maconha. Agora está Londres para participar de um evento da Comissão Latino-Americana para Drogas e Democracia. O ex-presidente afirmou ao diário britânico The Guardian, um dos mais influentes do país, que é chegada a hora para uma "mudança de paradigma" no debate sobre as drogas. "A guerra contra as drogas é baseada na corrupção. Como as pessoas podem acreditar na democracia se a regra da lei não funciona? Os usuários deveriam ter acesso a tratamento e não à prisão", disse Fernando Henrique. Enquanto isso, no Brasil, o PT descia o porrete na sua gestão no programa de TV, a CPI da Petrobras ameaçava investigar o seu mandato e deputados tucanos assinavam a proposta de PEC para o terceiro mandato de Lula. Não é um barato, bicho? É bicho tucano, valeu?

    Postado por Coronel às 09:30:00 9 comentários

Edição de colecionador


Já está nas bancas o que se supõe ser a última edição do jornal Gazeta Mercantil. A menos que Luiz Fernando Levy consiga um novo interessado na marca nos próximos dois meses, o jornal morreu. De morte matada, é bom dizer...

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Última edição da GZM sai amanhã

Está no Portal Imprensa. É triste, mas parece que a última edição da Gazeta Mercantil sai mesmo amanhã, dia 29. Uma história que começou em 1920 termina de forma melancólica, mas nada surpreendente. Uma pena, até porque por melhor que seja o Valor Econômico - e o jornal é realmente muito bom -, é sempre interessante ter alguma concorrência por perto para evitar acomodação. E, mais ainda, uma pena pelos profissionais que ainda hoje fazem da Gazeta um jornal muito digno e de qualidade superior à média do mercado.

Sem acordo, Gazeta Mercantil deixa de circular a partir 01/06

Por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA

Ficou acertado que todos os funcionários do diário entram em regime de férias remuneradas de trinta dias, que podem ser prorrogadas por mais trinta. O prazo tem valor de aviso prévio, caso nenhum acordo seja feito durante o período de recesso.

Segundo informam representantes da CBM, a empresa tentará realocar os funcionários no Jornal do Brasil e em outras publicações da companhia. Cogita-se, ainda, a criação de um portal de notícias econômicas que receba parte da redação da Gazeta, no entanto, não há nenhuma decisão acertada.

Guto Camargo, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo (SJSP), afirmou ao Portal IMPRENSA que a entidade não recebeu nenhuma informação ou pedido oficial sobre o assunto.

"Não fomos informados sobre a circulação do jornal ou o destino dos funcionários. No entanto, se isso se efetivar, lamentamos muito, porque a situação é ruim para os jornalistas que trabalham na Gazeta e ruim para a comunicação brasileira, pois a informação será mais concentrada e monopolizada".

Questionado sobre uma declaração de representantes da CBM, que afirmaram não querer o envolvimento do Sindicato nas próximas negociações, ele declarou que "a função do Sindicato é resguardar os direitos dos jornalistas, e é isso que nos propusemos a fazer nesse episódio".

Acordos da última reunião

Até a próxima segunda-feira (1), os salários de oito a doze mil reais referentes ao mês de abril serão depositados e durante a semana o grupo CBM buscará meios de sanar as demais pendências. Já as rescisões contratuais ainda não foram pagas por "total falta de recursos", segundo declarações do vice-presidente do Grupo CBM, Eduardo Jacomé.

Jacomé informou aos funcionários que existem três opções para salvar o diário: que a família Levy queira permanecer à frente do jornal; o aporte de investidores interessados ou que os próprios funcionários assumam a direção da Gazeta.

Ele explicou que "apesar da Gazeta ter mais capital, ele não entrava em caixa" por conta de ações trabalhistas. Por fim, ele agradeceu "o esforço e o alto nível" dos funcionários na tentativa de manter a circulação do diário.

De outubro do ano passado até o começo do mês de maio, segundo Jacomé, Nelson Tanure - presidente da CBM - investiu mais de R$ 20 milhões e, durante o ano passado, a empresa recebeu aporte de R$ 15 milhões para que jornal honrasse seus compromissos.

O último fechamento

Segundo fontes informaram ao Portal IMPRENSA, o clima na redação da Gazeta é desolador, em total contrasenso à agitação do fechamento da última edição do jornal. O choro é comum à quase todos os funcionários. O restante reage à notícia com aspereza negando-se a dar declarações.

"Temos que fechar o diário em situação precária. É muito triste; é muito choro e é bem difícil pensar que tudo isso está acabando hoje", declarou. "Tem gente que está aqui há quase vinte anos. É o trabalho de uma vida...".

História

Fundado em 1920 como um boletim diário de mercado, a Gazeta Mercantil fez história no Jornalismo brasileiro como a publicação mais tradicional sobre economia e negócios.

Dirigido por vários anos pela família Herbert Levy, uma crise financeira fez com que o controle acionário da publicação passasse para as mãos do empresário Nelson Tanure, da Companhia Brasileira de Multimídia (CBM), também proprietário da Editora Peixes e do Jornal do Brasil.

Segundo o último levantamento auditado pelo IVC, realizada em Julho de 2007, a tiragem do jornal era de 70 mil exemplares.

Economist: mídia no meio da tempestade

Texto longo, mas muito interessante. Publicado originalmente no Observatório da Imprensa. Para quem se interessa por mídia, leitura obrigatória.

O NEGÓCIO DA NOTÍCIA
No meio da tempestade

Por The Economist em 28/5/2009; tradução de Jô Amado

Talvez o indício mais certo de que os jornais estão à beira do abismo seja o fato de que os políticos, por tantas vezes seus alvos, estejam começando a sentir pena deles. No dia 9 de maio, Barack Obama terminou um discurso, que até teve algo de cômico, com uma defesa sincera de empresas sob ataque. Comissões da Câmara dos Representantes e do Senado realizaram audiências sobre o assunto no mês passado. O senador John Kerry, de Massachusetts, chamou os jornais de "espécie em risco de extinção".
E é verdade. Segundo a American Society of News Editors, o emprego nas redações caiu 15% nos dois últimos anos. Paul Zwillenberg, da OC&C, uma empresa de consultoria, avalia que quase 70 jornais locais britânicos fecharam desde o início de 2008. O Independent e o Evening Standard, de Londres, dependem da generosidade de investidores estrangeiros. O arrocho não se restringe aos países anglófonos: os jornais franceses só evitaram destino semelhante garantindo um aumento em seus já pesados subsídios governamentais.
Os noticiários das emissoras de televisão também estão se debatendo. As audiências se romperam e se desgastaram: a parcela de norte-americanos que assiste ao noticiário do final da tarde nas "três grandes" redes (ABC, CBS e NBC) caiu de cerca de 30%, no início da década de 1990, para cerca de 16%. Os equipamentos para noticiários locais ficam caros, à medida que os revendedores de carros e as lojas enxugam seus anúncios. A ITV, maior emissora comercial britânica, está apelando para ser desobrigada de produzir noticiários locais.

Descoberta alarmante

Tudo isso provocou muita angústia. No entanto, as dificuldades enfrentadas pelas empresas jornalísticas não prevêem o fim das notícias. À medida que amplos setores da indústria murcham, brotam novos botões. O resultado é uma empresa menor e menos lucrativa, mas também mais eficiente e inovadora.
O quadro mais nítido de como o consumo de notícias está mudando vem de pesquisas feitas pelo Pew Research Centre. Desde 1994, o percentual de norte-americanos que diz que ouviu o noticiário pelo rádio na véspera caiu de 47% para 35%; entre os que lêem jornais, caiu 58% para 34%. Nesse mesmo período, as audiências de TV a cabo e da internet aumentaram. Em 2008, pela primeira vez, mais pessoas disseram que acompanhavam notícias internacionais e nacionais pela internet do que pelos jornais.
Não se trata apenas da pessoa trocar um tipo de mídia por outro. Quase todo mundo que obtém notícias via internet, normalmente também as vê na televisão ou lê num jornal. Apenas 5% dos norte-americanos têm o hábito de acessar notícias somente na internet. A tecnologia permitiu que pessoas bem informadas ficassem ainda mais bem informadas, mas não ampliou a audiência por notícias. A descoberta mais alarmante do Pew Centre – pelo menos, para quem é do ramo – é de que o percentual de jovens entre 18 e 24 anos que não acessaram notícia alguma na véspera subiu de 25% para 34% nos últimos dez anos.

Google News não tem editor

Aqueles que realmente procuram, obtêm notícias de outra maneira. Ao invés de se submeterem laboriosamente a um jornal matutino ou a um telejornal da noite, cada vez mais procuram o tipo de informação que querem, quando querem. Poucos pagam. Robert Thomson, editor-chefe do Wall Street Journal, diz que muitos deles acessam o noticiário online como se fosse "um restaurante de comida a quilo".
A principal vítima dessa tendência não é tanto o jornal (embora esteja em evidente declínio), mas o pacote de notícias convencional. Veja qualquer jornal metropolitano importante, ou acesse sua página na internet, e encontrará as mesmas coisas. Haverá uma mistura de notícias locais, nacionais, internacionais, de economia e esportivas. Haverá a previsão do tempo. Haverá anúncios maiores e classificados. Haverá cartas de leitores e, provavelmente, uma palavra cruzada.
Esse pacote, que foi primeiramente imitado pelas emissoras e, em seguida, pelos pioneiros da internet, como AOL.com ou MSN.com, funciona como um centro comercial antiquado. Oferece uma razoável seleção de informações úteis, de qualidade confiável, num único lugar. E o destino do pacote de notícias é semelhante ao daquele centro comercial. Alguns clientes foram atraídos pelos descontos; outros procuraram as butiques.
Os grandes shopping centres do mundo da mídia são portais virtuais como o Yahoo! ou o Google, que reúnem dezenas de milhares de matérias. Alguns deles, como a Reuters e a Associated Press, exigem registro. Mas a maioria consiste apenas de um título, uma frase e um link com o site de um jornal ou de uma emissora de televisão onde a matéria pode ser lida na íntegra. Os agregadores ganham dinheiro afunilando os leitores na direção dos anúncios, que podem ser talhados de acordo com seus supostos interesses. E são fáceis de operar: o Google News nem sequer tem um editor.

Para continuar a ler, clique aqui

Choque de gestão do PSDB: mais um livro
impróprio é distribuído a crianças de 9 anos

Nem vale a pena comentar mais esta lambança da secretaria de Estado da Educação de São Paulo reproduzida abaixo, em matéria da Folha de S. Paulo. O que tinha de ser dito a este respeito já foi escrito aqui. Pelo visto, a área educacional tem tudo para virar o calcanhar de Aquiles do pré-candidato José Serra (PSDB) em 2010. Choque de gestão é isto aí, a desculpa da secretaria beira o ridículo...

Livro para adolescentes é entregue a crianças em SP

A obra, uma coletânea de poesias, tem frases como "Nunca ame ninguém. Estupre"

Volume faz parte do mesmo programa da rede estadual de ensino que teve um livro recolhido por conter palavrão e conotação sexual

FÁBIO TAKAHASHI
DA REPORTAGEM LOCAL

O governo de São Paulo enviou a alunos de terceira série (faixa etária de nove anos) um livro feito para adolescentes, que possui frases como "nunca ame ninguém. Estupre".
A coletânea de poesias faz parte do mesmo programa de melhoria da alfabetização que teve um livro recolhido por conter palavrões e expressões de conotação sexual: "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol", também distribuída para a terceira série.
A nova obra, "Poesia do Dia -Poetas de Hoje para Leitores de Agora", foi enviada às escolas há cerca de duas semanas para ser usada como material de apoio. Foram distribuídos 1.333 exemplares.
"Não é para crianças de nove anos. São várias ironias, que elas não entendem", afirmou o escritor Joca Reiners Terron, autor do poema mais criticado por professores da rede, chamado "Manual de Auto-Ajuda para Supervilões".
Alguns dos versos são "Tome drogas, pois é sempre aconselhável ver o panorama do alto"; e "Odeie. Assim, por esporte".
"Espero que o Serra [governador José Serra] não ache o texto um horror, como ele disse do outro livro. Horror é quem escolhe essas obras para crianças", disse Terron.
Em nota, a direção da Abril Educação (responsável pela Ática) afirma que o livro é recomendado para adolescentes de 13 anos, "indicação reforçada na contracapa, na apresentação e no suplemento ao professor".
Após questionamento da Folha, a Secretaria da Educação da gestão José Serra (PSDB) decidiu ontem retirar os livros das salas de aula. Os exemplares, no entanto, permanecerão nas escolas, para consulta de alunos mais velhos.
O entendimento é que os assuntos do poema devem ser abordados na escola, mas com supervisão de um especialista.
A secretaria não esclareceu como é feita a escolha dos livros. A sindicância aberta para apurar o caso do outro livro ainda não foi concluída.

Críticas
Professor da Faculdade de Educação da USP, Vitor Paro afirma que a escolha do livro para crianças de nove anos "é produto da incompetência e ignorância do governo".
"Por que os livros só foram retirados após o jornalista questionar? A análise não deveria ter sido feita antes?", diz.
A coordenadora do curso de pedagogia da Unicamp, Angela Soligo, classifica como "um horror" o poema. "Tem uma ironia que talvez só o adulto entenda. É totalmente desnecessário para uma escola."
"Já é o segundo caso. Os professores ficam inseguros com o material", disse ela.

Ironias da política

Só falta acontecer o que está abaixo, em matéria da Folha Online: o PT derrubar a proposta de terceiro mandato para Lula. O presidente não é nenhum bobo, sabe fazer dos limões uma bela limonada. Se a matéria tramitar, for à votação e cair com o voto petista, Lula terá conseguido mais uma bela diferenciação em relação ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Afinal, um pagou para aprovar a sua própria reeleição, outro terá mandado seu partido votar contra a tese que o beneficiava. Ficaria ruim para a oposição, que perderia mais um "argumento" - o de que o PT e Lula não prezam a democracia. Afinal, mudar a regra do jogo durante o jogo é feio e foi feito sob o mandarinato de FHC, com apoio entusiasmado do então PFL, hoje DEM. Coisas da política...

PT diz que vai derrubar proposta da 2ª reeleição; PMDB defende respeito à vontade de Lula

MÁRCIO FALCÃO- Os líderes dos partidos aliados criticaram a proposta do deputado Jackson Barreto (PMDB-SE), que prevê a possibilidade de duas reeleições continuadas para prefeitos, governadores e presidente da República. Barreto diz que apresentará a PEC (proposta de emenda constitucional) hoje à tarde.
O líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP), disse que o partido vai derrubar a proposta. "O PT vai encaminhar contra essa proposta. O próprio presidente Lula disse que não quer [a segunda reeleição e o terceiro mandato]."


Tirando o atraso

O blog esteve ontem, quarta-feira, com poucas atualizações porque o autor estava em Brasília participando de um evento muito interessante, promovido pelo ministério da Justiça, sobre mídia e segurança pública. O assunto será objeto de artigo para o Observatório da Imprensa na próxima terça (e republicado aqui). Nesta quinta, o Entrelinhas volta ao seu ritmo normal.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sobre o jornalismo político

Mais um artigo do autor destas Entrelinhas para o Observatório da Imprensa. Na íntegra, para os leitores do blog.

    COBERTURA POLÍTICA
    Fatos, versões e as negativas das fontes

    Por Luiz Antonio Magalhães em 26/5/2009

    Não é nada fácil fazer jornalismo político. Muita informação apurada não pode ser publicada porque as fontes não autorizam. Às vezes, porém, o repórter tem tanta certeza de que conseguiu um furo de reportagem que publica o que apurou, mesmo se suas fontes não avalizem a publicação da história.

    Há algumas semanas, o jornalista Kennedy Alencar, da Folha de S.Paulo, revelou ao país que os governadores tucanos Aécio Neves e José Serra tinham se acertado. Aécio teria assentido em ser o candidato a vice-presidente na chapa a ser encabeçada por Serra em 2010.

    A revelação caiu como uma bomba nos bastidores políticos, especialmente no PSDB. Os principais líderes do partido vieram a público para informar que a notícia de Kennedy não procedia. Aécio chegou a dizer que se tratava de uma piada. Serra negou, o ex-presidente Fernando Henrique, citado por Kennedy como o articulador do pacto entre os grão-tucanos, desmentiu tudo.


    Na sexta-feira (22/5), em sua coluna na Folha Online, Kennedy voltou ao assunto no final do texto. Tentou esclarecer o que aconteceu, mas a emenda parece ter ficado pior que o soneto. Escreve Kennedy:

    Jogo tucano
    É natural que o governador de Minas, Aécio Neves, tenha ficado chateado com a revelação de que ele fez acordo com o colega de São Paulo, José Serra. Aécio aceitou ser vice de Serra, condicionando isso a uma saída honrosa. A intenção era anunciar o acordo em agosto ou setembro, enquanto a ministra Dilma ainda deverá estar em recuperação, a fim de acelerar uma ofensiva para fazer alianças com o PMDB nos Estados.

    A repercussão da divulgação do acordo gerou atrito no PSDB. Aécio se sentiu traído por seus colegas de partido. Ele precisa de tempo para construir um discurso de saída no qual leve vantagem: popularizar o seu nome pelo país, pois ainda tem alta taxa de desconhecimento para quem deseja disputar a Presidência.


    A divulgação da notícia afetou esse cronograma, que, talvez, precise ser alterado e leve o mineiro a exigir uma prévia mais restrita, no começo de 2010, a fim de dar caráter natural a uma união que formaria uma chapa bastante competitiva.


    Versão conveniente
    Do jeito que escreveu o repórter da Folha – dos mais bem informados e competentes do país, diga-se de passagem –, fazer jornalismo político é mais fácil do que parece. Se a informação publicada é contestada pelos protagonistas e/ou personagens diretamente interessados na notícia, basta depois explicar aos leitores que justamente a reportagem publicada foi capaz de modificar todo o cenário que estava estabelecido e provocou um novo rumo para os acontecimentos.

    Doravante é possível escrever que Lula já trabalha com a idéia de lançar Antonio Palocci à presidência da República e depois avisar que a má repercussão da notícia publicada levou o presidente a abandonar esse propósito. Ou que Serra estuda fazer implante capilar, mas acabou deixando o embelezamento de lado ao perceber o ridículo de tal operação quando o seu segredo vazou para a mídia.


    É óbvio que muita notícia publicada em jornais e revistas têm força para mudar o curso dos acontecimentos. Também é fato que políticos, especialmente eles, muitas vezes se fazem valer do artifício de "plantar" uma notícia para conseguir um determinado objetivo, ainda que seja perceber a reação do público à plantação.

    O caso da reportagem de Kennedy pode tanto ser uma plantação (de Aécio ou Serra ou ainda de petistas interessados em jogar pó de mico na seara tucana), um furo de reportagem que provocou mesmo o recuo do governador mineiro ou pura e simplesmente uma "barriga", como se diz no jargão da profissão.

    O melhor que pode acontecer para o repórter é o acordo por ele anunciado com tanta pompa ser realmente selado no futuro. Neste caso, o seu furo será reconhecido e valorizado. Se isto não acontecer, porém, três coisas podem ter acontecido: ou a matéria realmente teve o poder de mudar a estratégia do governador mineiro; foi plantada por algum dos interessados; ou, por fim, não passou de boato soprado por alguma fonte que gozava da confiança do repórter, porque obviamente um profissional do gabarito de Kennedy Alencar jamais inventaria tal notícia.

    É claro que no caso da aliança Serra-Aécio não se concretizar, o repórter vai reiterar a versão da notícia-que-abalou-a-aliança. É o que melhor lhe convirá. Não parece coisa muito crível, mas também não dá para simplesmente duvidar da palavra do repórter. Coisas do jornalismo...

terça-feira, 26 de maio de 2009

O melancólico fim de um jornal

Outro artigo do editor destas Entrelinhas para a edição desta semana do Observatório da Imprensa. Desta vez, uma reflexão mais séria. Afinal, seriedade não é algo que a Veja mereça... Na íntegra, para os leitores do blog.


    IMPRESSOS EM CRISE
    Gazeta Mercantil, um final melancólico


    Por Luiz Antonio Magalhães em 26/5/2009
    O último a sair vai acabar se esquecendo de apagar as luzes, tantas foram as vezes que no meio jornalístico se falou na decadência e no iminente fechamento do jornal Gazeta Mercantil. Agora, aparentemente, o desenlace de uma história que começou em 1920 está próximo, cada vez mais próximo.
    Na segunda-feira (25/05), um comunicado publicado na primeira página da própria Gazeta informava que o grupo que atualmente controla o jornal – Editora JB S.A., de propriedade do empresário Nelson Tanure – decidiu rescindir o contrato de arrendamento da marca Gazeta Mercantil e devolver o comando do jornal ao antigo dono, Luiz Fernando Levy. No mesmo dia, Levy avisou a redação que não tem mais interesse no negócio (
    ver aqui).
    Algumas horas mais tarde, o site da Gazeta informou que "a CBM [Companhia Brasileira de Multimídia, de Nelson Tanure], por meio da Editora JB, encaminhou correspondência à Gazeta Mercantil reafirmando sua disposição em apoiar o processo de transição para a retomada da edição do jornal Gazeta Mercantil pela empresa de Luiz Fernando Levy a partir de 1º de junho". A matéria informa também que a Editora JB propôs "a constituição de um grupo de representantes das duas empresas para formalizar o termo de distrato e definir como a Editora pode colaborar para que não ocorra qualquer descontinuidade operacional".
    O desfecho da história ainda não é certo. Se Levy não quiser de volta o jornal, há a possibilidade, aventada pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, do "direito de uso da marca destinar-se a entidade sem fins lucrativos criada mediante entendimentos entre funcionários e o Tribunal da Justiça do Trabalho, com vistas ao usufruto de rendas oriundas da comercialização do jornal", conforme
    nota publicada no site do sindicato.
    É possível, portanto, que a Gazeta Mercantil não feche as portas no dia 1º de junho, mas a verdade é que nunca esta situação esteve tão perto de se concretizar. Se deixar de circular na próxima segunda-feira, cada dia sem jornal nas bancas (e nas mãos dos assinantes) representará uma dificuldade a mais para o jornal se reerguer.

    As razões de Tanure
    De acordo com a matéria dada no site da GZM e com o comunicado publicado no jornal, o empresário Nelson Tanure decidiu pela recisão contratual em função da "incessante penhora de receitas financeiras do uso da marca Gazeta Mercantil para garantir o pagamento de obrigações trabalhistas da Gazeta Mercantil S. A., de propriedade de Luiz Fernando Levy, relativas a períodos anteriores à celebração do contrato de arrendamento da marca pela Editora JB". Segundo o atual controlador, "o desinteresse em continuar o contrato de licenciamento e uso da marca Gazeta Mercantil resulta da indevida imputação de dívidas que absolutamente não são da Editora JB, e sim da Gazeta Mercantil S.A.".
    Ainda de acordo com a versão de Nelson Tanure, a CBM já realizou, desde dezembro de 2003, quando arrendou a marca do diário econômico, "adiantamentos à Gazeta Mercantil S.A. que beiram R$ 100 milhões, devidamente certificados pela BDO Trevisan".
    A Associação dos Funcionários e Ex-Funcionários da Gazeta Mercantil, porém, contesta a versão de Tanure e diz que a atitude do atual controlador não muda nada para quem tem ações contra a empresa e a Editora JB. Segundo escreveu Marcelo Moreira, presidente da associação, em comentário no portal Comunique-se, "o empresário [Nelson Tanure] e suas empresas já foram responsabilizados judicialmente por conta das ações trabalhistas contra a GZM. A sucessão [das dívidas trabalhistas] foi reconhecida". Moreira espera que, na impossibilidade de um acordo com Levy, a marca da Gazeta seja arrestada judicialmente em favor da associação que preside.

    Origens da crise
    A situação hoje dramática da Gazeta esconde um passado de muito sucesso. A partir de meados dos anos 1970, o jornal se consolidou como o principal diário especializado em economia do país. Sob a direção de Roberto Müller Filho, o jornal brilhou, assumiu não apenas a liderança quantitativa, com uma tiragem que chegou a superar os 100 mil exemplares, como caiu no gosto do empresariado nacional e dos gestores da máquina pública. Contando com uma equipe de jornalistas muito bem preparados, vários deles formados na própria casa pelo lendário Matías Molina, outros escolhidos a dedo e trazidos de revistas e jornais gerais, a Gazeta sabia promover (e manter) os seus talentos.
    Armênio Guedes, Celso Pinto, Tom Camargo, Getulio Bittencourt, Sidnei Basile, Mário Alberto, Lilian Witte Fibe, Ottoni Fernandes Jr., Paulo Totti, Aloysio Biondi, Dirceu Brisola, foram alguns dos reconhecidos talentos que trabalharam sob a batuta de Müller (que deixou o jornal no meio da década de 1980 para ser chefe de gabinete do então ministro da Fazenda Dilson Funaro; depois foi secretário da Ciência e Tecnologia na gestão de Fleury Filho, em São Paulo).
    De meados dos anos 1970 até o final da década de 1990, sob o comando de Müller e seus sucessores (Sidnei Basile e Mario Alberto), a liderança da GZM era indiscutível. No período final, porém, os problemas financeiros já eram conhecidos dos jornalistas, mas a confiança na superação também era inabalável. Afinal, um jornal como a Gazeta Mercantil não tinha como perecer.
    No fundo, a crise da Gazeta não começou muito diferente do que em outros jornais brasileiros. É só voltar no tempo: meados da década de 1990, Plano Real, estabilidade (e forte apreciação) da moeda nacional, início da revolução das novas tecnologias no país (telefonia celular, internet, televisão a cabo etc.). Grande parte dos conglomerados de comunicação do Brasil decidiram entrar de cabeça na aventura das novas tecnologias. A idéia reinante era de que quem ficasse de fora, iria ver a história passar na janela, como a Carolina da música do Chico Buarque.
    Alguns investiram pesado em televisão a cabo (Abril, Globo), outros preferiram gastar com o desenvolvimento de serviços na internet (Folha, Estadão, JB, GZM). Outros fecharam parcerias com empresas de telefonia móvel, prospectaram novos mercados, flertaram com a diversificação de atividades. E quase todos se endividaram bastante para realizar os novos investimentos, a maioria contraiu dívidas em dólar porque o câmbio estava muito favorável. Estava, mas poucos anos depois, em 1999, o Brasil quebrou e o real forte simplesmente acabou. Forte mesmo, só o dólar, que fez mais do que dobrar o valor das dívidas, em reais, das empresas de comunicação. Para piorar a situação, em 2000 veio o "estouro" da bolha da internet, que revelou aos empresários um fato desolador: a internet não era lucrativa, ou pelo menos não seria no prazo que imaginavam, salvo as exceções que só comprovavam a regra.
    Com problemas sérios de gestão, a Gazeta Mercantil e tantos outros jornais brasileiros enfrentaram uma crise profunda. A receita tradicional para os problemas desta ordem começou a ser aplicada: grandes cortes nos custos (especialmente em recursos humanos), renegociação das dívidas com os credores e, como não poderia deixar de ser, acenos para que o governo estendesse a mão amiga. Ainda no final da gestão Fernando Henrique Cardoso, a ajuda veio na forma da flexibilização da legislação, que vetava o capital externo no setor de mídia. Quando o Lula assumiu o presidência, porém, a situação ainda era dramática e se falava em um "Pró-Mídia", com injeção direta de capitais via BNDES.

    Valor Econômico: concorrência no mercado
    O tal "Proer" da imprensa não vingou, mas a recuperação econômica, a partir de 2004, mudou o cenário e permitiu a boa parte das empresas de comunicação algum fôlego. No caso da Gazeta, que investira em internet, ampliação da rede de impressão do jornal Brasil afora e até em televisão, em parceria com a TV Bandeirantes, havia um problema adicional, além dos conhecidos problemas de gestão: concorrência.
    Em maio de 2000, os grupos Globo e Folha lançaram, juntos, um jornal especializado em economia – o Valor Econômico. A primeira edição circulou no dia 2 de maio sob o comando de Celso Pinto e Carlos Eduardo Lins da Silva – este, o atual ombudsman da Folha de S.Paulo. Com um time de primeira qualidade – boa parte dos jornalistas foram recrutados da própria Gazeta – o Valor começou a ocupar espaço. Com dinheiro para campanhas publicitárias e um estilo arrojado que constrastava bastante com o projeto gráfico tradicional da Gazeta, o Valor Econômico foi se firmando como o grande jornal de economia do país.
    Sidnei Basile, hoje executivo da Editora Abril, em entrevista concedida à Hérica Lene, autora da tese "A crise da Gazeta Mercantil: tradição e ruptura no jornalismo econômico brasileiro", afirma que em cada mercado nacional relevante só há espaço para um grande jornal de economia. Ex-diretor de Redação da Gazeta, Basile lembra os exemplos do The Wall Street Journal, nos Estados Unidos, Financial Times, na Inglaterra, Les Echos, na França, Il Sole 24 Ore, na Itália e justifica a sua tese dizendo que ao contrário da notícia cotidiana, que tem caráter regional, a de economia tem característica nacional. Assim, os jornais de economia e negócios precisariam necessariamente ter dominância nacional para poder pagar a operação.

    Solução Tanure e a morte anunciada
    A tese de Basile pode até estar errada, mas o fato é que a partir de 2000 a situação da Gazeta foi se agravando rapidamente ao passo que o Valor conquistava – mais em status no mercado publicitário e entre os formadores de opinião do que propriamente em circulação – a posição que até então sempre fora da Gazeta. Com sucessivos problemas para fechar o mês, o jornal atrasava o pagamento de salários e faturas dos fornecedores, não depositava o dinheiro do Fundo de Garantia dos trabalhadores, enfim, começava a correr sérios riscos de ter problemas para manter sua operação em funcionamento.
    Em dezembro de 2003, quando a situação do jornal era claudicante, apareceu o empresário Nelson Tanure com uma oferta de arrendamento da marca Gazeta Mercantil em troca de um valor anual (3% da receita da Companhia Brasileira de Mídia, algo em torno de R$ 8 milhões ao ano), além de adiantamentos para dar conta do passivo trabalhista que Luiz Fernando Levy já não conseguia pagar com os recursos gerados pelo jornal. Depois de uma breve negociação, Tanure assumiu o controle do jornal e iniciou uma operação para torná-lo mais enxuto e rentável. O pressuposto do negócio, porém, era o de que o passivo trabalhista deveria permanecer sob a responsabilidade de Levy, enquanto ele, Tanure, manteria e modernizaria a Gazeta Mercantil.
    O que está na raiz desta mais recente crise, talvez a última do jornal, é justamente o fato de a sucessão das dívidas trabalhistas ter sido reconhecida pelo judiciário e Tanure ter passado a ver bens seus e de suas empresas penhorados para pagar os credores. Nelson Tanure aparentemente não queria a Gazeta para produzir um bom jornal, mas para fazer um bom negócio, cuja definição por excelência é pagar pouco e receber muito. Não deu certo, Tanure de fato pagou pouco, mas não está levando coisa alguma – ao contrário, o passivo trabalhista, mesmo com o rompimento, é um fantasma a lhe assombrar.
    Assim, dá para entender por que Luiz Fernando Levy não quer de volta o mico que passou a Tanure. Nada a ver com jornal ou jornalismo, o problema dos dois empresários são as contas que não fecham. O pior de tudo é imaginar os trabalhadores do jornal assumindo a Gazeta com a ilusão de poderem repetir modelos do estrangeiro e emplacar uma espécie de autogestão daquilo que no fundo não passa de uma massa falida. É o que falta para o Valor nadar de braçada e se consolidar como o jornal de economia do Brasil. Um final melancólico para uns, estimulante para outros...

Veja e não coma...

Abaixo, mais um artigo do autor do blog para o Observatório da Imprensa. Sobre a revista Veja, esta maravilha do jornalismo brasileiro.


    LEITURAS DE VEJA
    42 páginas para perder peso, tempo e inteligência
    Por Luiz Antonio Magalhães em 26/5/2009
    A revista Veja desta semana (edição 2114, data de 27/05) dedica a sua capa a uma reportagem de incríveis 42 páginas editoriais (considerando os anúncios, são 57 páginas) intitulada "Emagrecer pode ser uma delícia". Sim, deve ser uma delícia, até porque a concorrente Época também deu capa, na semana anterior (edição 574, de 16/5), para matéria bastante parecida – "Comer para viver melhor".
    No caso de Veja, porém, trata-se de um arrazoado que ganhou um status diferenciado, qual seja o de "Especial Mulher". É claro que os homens são mais gulosos e relapsos, mas não parece ter sido este o critério da Redação para a identificação da pauta com o gênero feminino. Ao longo das 57 páginas do tal "Especial Mulher", os anúncios são todos dirigidos ao público feminino, à exceção de um, do automóvel Outlander, da Mitsubishi. Os anunciantes "compareceram" e a pauta saiu do forno. Redação e Departamento Comercial, irmanados, produziram um belo material de utilidade pública para a mulher moderna que compra ou assina a Veja.
    Letras miúdas
    Nada será como antes. Agora é possível saber que dá para "comer bem sem culpa" ou então anotar a receita de um "franguinho básico com jeito húngaro". A revista informa também que restaurante por quilo pode ser um senhor ajudante para controlar a balança, desde que obedecida uma certa "regra de três" nos pratos. E apresenta também histórias muito humanas de gente como Luciana Gimenez (vive no regime) e seu marido Marcelo de Carvalho (não vive sem picanha), Deborah Secco (tomou anfetaminas para perder peso) e de uma durona nutricionista escocesa que examina até as fezes de seus, digamos, clientes para averiguar se eles não saíram da linha.
    De fato, Veja conseguiu presentear suas leitoras com um projeto muito especial, especialíssimo. No ponto alto da edição, aparecem duas geladeiras abertas, uma com substâncias (não dá para chamar de outra coisa) que perfazem 7 mil calorias, e a outra, de gente normal, contendo 70 mil calorias. Entre as duas geladeiras, um anúncio esperto da linha de produtos Becel (leite, iogurte e margarina que reduzem "a absorção do colesterol dia após dia*"). Nas letrinhas miúdas e publicadas na vertical, a explicação do misterioso asterisco da propaganda: "* seu consumo deve estar associado a uma dieta equilibrada e a hábitos de vida saudáveis").
    Tudo somado, resta dizer que é realmente bonito quando o trabalho da Redação complementa com tanta felicidade precisão a competência da turma do Departamento Comercial. Só não é jornalismo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Levy anuncia o fim da Gazeta Mercantil

O empresário Luiz Fernando Levy informou à redação da Gazeta Mercantil, na tarde desta segunda-feira, que não pretende aceitar a devolução do jornal, anunciada na primeira página da Gazeta pelo também empresário Nelson Tanure, dono da editora JB S.A., atualmente responsável pela edição do diário econômico. Segundo informação de jornalistas da GZM, na prática a decisão de Levy significa o fim do jornal, que deverá ser descontiuado a partir de 1° de junho.

Garotinho livre para voar

O ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho deixa oficialmente amanhã o PMDB para integrar o PR. Deve carregar alguns correligionários, outros permanecerão peemedebistas por causa da legislação da fidelidade partidária. Como Garotinho não tem mandato, ele pode se mover livremente, pois não perde cargo algum. O que se diz nos bastidores político do Rio é que Garotinho mudou de legenda para poder disputar o governo do Estado. Justo, até porque já faz tempo que ele perdeu o controle do PMDB local para Sergio Cabral, portanto dificilmente teria a legenda para concorrer, mesmo que Cabral se tornasse candidato a vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff.

É claro que tudo faz muito sentido, mas há uma hipótese alternativa que pouca gente leva em consideração. Se a crise financeira mundial se agravar e/ou tiver um repique forte em 2010, Garotinho pode perfeitamente mudar os seus planos e disputar a presidência da República. É certo que ele saiu muito chamuscado na última campanha, quando não conseguiu a legenda do PMDB para disputar a presidência após uma capa da revista Veja que matou a sua pré-candidatura, mas quem acompanhou a eleição de 2002 de perto certamente vai se lembrar da atuação bastante incisiva de Garotinho, que chegou a passar José Serra nas pesquisas de opinião.

Dono de uma retórica invejável, muitíssimo melhor do que a de todos os demais pré-candidatos, menos radical do que a histriônica Heloísa Helena, Garotinho teria tudo para crescer em um cenário de crise profunda. Não dá para dizer que ele poderia ser um novo Collor, porque não conta com a simpatia da mídia, mas a comparação com Jânio da Silva Quadros talvez caiba. Neopopulista de mão cheia, Garotinho só precisa estar em paz com a Justiça para ter reais chances na disputa. É um nome para não ser subestimado.

Kotscho, Serra e a arte da delação

No Balaio do Kotscho, um bom artigo sobre a promoção do dedo-durismo pelo governo do Estado de S. Paulo. Na íntegra, para os leitores do Entrelinhas.

Caça aos fumantes convoca dedo-duros

Que maravilha! Está oficialmente aberta a temporada de caça aos fumantes. A lei antifumo do governo Serra só entrará em vigor no próximo dia 7 de agosto, mas quem não tiver mais nada para fazer pode desde já pegar em armas e se alistar na grande cruzada contra o cigarro.

“Governo Serra vai estimular `dedo-duro´na lei antifumo”, diz o título do caderno Cotidiano da Folha de domingo, acrescentando logo abaixo: “Clientes poderão enviar até fotos para denunciar desrespeito à legislação”.

Comandante-em-chefe das forças da lei, o secretário da Justiça, Luiz Antonio Marrey, dá a senha _ ”serão admitidos todos os meios de prova lícitos em direito” _ e convoca suas tropas:

“É importante que as pessoas defendam os seus direitos e exijam que ninguém fume em locais fechados”.

Como se fosse necessária uma convocação oficial… Assim que começou o debate sobre a lei antifumo, vários leitores do Balaio e de outros blogs e publicações já se ofereceram como voluntários para esta guerra sem quartel.

Posso imaginar a cena: milhares de cruzados antifumo percorrendo os bares e restaurantes da cidade, celulares em punho, prontos para flagrar os contraventores, dedar os estabelecimentos e chamar a polícia.

Já que todos os nossos problemas de segurança pública estão resolvidos, deixando os policiais à disposição para defender a lei antifumo, e o ar que respiramos em São Paulo está que é uma pureza só, o inimigo público número um a ser atacado passa a ser o cigarro.

Quer dizer, começa com o cigarro, mas em pouco tempo as tropas do dr. Marrey poderão ser empregadas também em outros combates. Hoje mesmo, no Painel do Leitor da mesma Folha já temos uma pista sobre o que nos aguarda.

O leitor Ricardo Marques (São Paulo, SP) indaga: “Será que a próxima medida será podermos fotografar os motoqueiros que trafegam na calçada para `fugir´dos automóveis parados no farol?”

Por que não? Uma vez nas ruas, as tropas de dedo-duros poderão também fotografar carros furando o farol vermelho, os buracos nas ruas, o lixo não recolhido nas calçadas, maridos traindo suas mulheres e vice-versa, tipos suspeitos em frente às lojas, táxis clandestinos, ambulantes sem licença com produtos paraguaios, estudantes matando aula, colegas de trabalho indo ao cinema na sessão da tarde, funcionários públicos usando o carro oficial para passear, desafetos em geral mijando fora do penico, falhas na iluminação pública, porteiros dormindo na guarita dos prédios, cachorros vadios cagando onde não devem _ não faltará serviço, com certeza.

Convido os leitores a completarem a lista dando novas tarefas aos dedo-duros. Em breve, quem sabe, poderão se esquecer até dos fumantes. E São Paulo se transformará num imenso arraial da delação, com todo mundo dedando todo mundo até que o último santo possa assumir o poder.

domingo, 24 de maio de 2009

Tanure desiste da Gazeta Mercantil

O comunicado abaixo saiu na primeira página da edição da Gazeta Mercantil que está nas bancas nesta segunda-feira. Na prática, o significado do comunicado é simples: Nelson Tanure, dono da editora JB S.A., está devolvendo a GZM ao antigo dono, Luiz Fernando Levy. O jornal poderá ser descontinuado se Levy não aceitar a devolução. Em entrevista ao jornal gaúcho , na sexta-feira, 22/05, o ex-dono da Gazeta afirmou que não gostaria de retomar o comando do jornal: “'Infelizmente está acontecendo, mas é bem complicado. O Tanure quer devolver, mas é uma coisa unilateral, por enquanto. No fundo a gente não desliga da Gazeta, mas pra mim é definitivo: a hipótese da minha participação não existe. É uma decisão pessoal, familiar. Não vou ter ações de uma empresa de comunicação!' Prossegue Levy: 'Algum tipo de solução vai ter que ter. Nada comigo. Evidentemente há esse espírito de renascer, eu estou disposto a contribuir. Mas tem que ver o que vai ser, não pode ser pior do que já foi. Minha participação? Pode ser num conselho editorial, num projeto sério. Mas sem envolvimento financeiro'”, disse o empresário ao jornal Já.

Claro, é só mais um capítulo de um imbróglio que já vem se arrastando há muitos anos e que não deve terminar com a recisão do contrato, anunciada no comunicado. O que pode acontecer no dia 1° de junho é a descontinuidade da edição da Gazeta, o que seria um golpe fortíssimo nas chances do jornal de se reerguer no futuro. A semana começa quente, muito quente, no setor de mídia brasileiro. A seguir, a íntegra do texto que está na primeira página da Gazeta.

COMUNICADO
A EDITORA JB S.A. comunica ao público em geral e aos assinantes e leitores do jornal
GAZETA MERCANTIL que a partir de 1º de junho próximo não mais responderá pela publicação daquele jornal por haver exercido direito contratual de rescindir o Contrato de Licenciamento de Uso de Marcas e Usufruto Oneroso (“CONTRATO”) celebrado por escritura pública de 16/12/2003, conforme Notificação, Interpelação e Protesto Extrajudiciais dirigidos (a) à Gazeta Mercantil S.A. (“GZM”), proprietária das marcas nominais objeto dos registros 817.972.242, 817.972.250 e 817.972.269 (Classes 11, 38 e 41) do Instituto Nacional da Propriedade Industrial – INPI, e (b) às demais pessoas jurídicas e físicas integrantes do grupo econômico Gazeta Mercantil, partes no CONTRATO.

Na execução do CONTRATO a EDITORA JB S.A. observou os princípios da probidade e boa-fé que nortearam sua celebração, tendo cumprido suas obrigações contratuais com o grupo econômico Gazeta Mercantil, inclusive a de efetuar adiantamentos de recursos financeiros por conta dos royalties contratuais, de modo a propiciar à GZM
renda para solução de suas obrigações pecuniárias anteriores à celebração do CONTRATO, em sua maioria de natureza trabalhista -- adiantamentos que, por excederem aos royalties devidos, tornaram a EDITORA JB S.A. credora da GZM. Tais princípios, entretanto, deixaram de ser observados pela licenciadora na execução do CONTRATO, causando prejuízo à EDITORA JB S.A. e à normal exploração econômica das marcas objeto do CONTRATO, o que fundamentou a decisão de rescisão contratual.

A EDITORA JB S.A. já manifestou à GZM que está à disposição para colaborar no que estiver ao seu alcance para que o grupo econômico Gazeta Mercantil dê continuidade, sem interrupção, na publicação do jornal GAZETA MERCANTIL a partir de 1º de junho, reafirmando de público essa sua disposição de colaboração – que entende ser do interesse daquele grupo econômico, de seus funcionários, dos assinantes, dos leitores e do público em geral.

Ao fazer o presente comunicado sobre a rescisão do CONTRATO, com a retomada pela GZM
da posse direta das marcas nominais, a EDITORA JB S.A
(a) consigna sua convicção de ter,
como licenciada, contribuído para o fortalecimento e a modernização do jornal GAZETA MERCANTIL,
(b) agradece a confi ança, o apoio e a colaboração dos assinantes, leitores, funcionários,
anunciantes, fornecedores e agências de publicidade durante o período em que exerceu o direito de uso da marca Gazeta Mercantil para a publicação daquele jornal e
(c)
espera que a GZM e os demais integrantes do seu grupo econômico dêem continuidade à publicação do renomado jornal, preservando a marca e em benefício da mídia nacional.

Rio de Janeiro, 25 de maio de 2009

EDITORA JB S.A.

Leitoa não aguenta mais o presidente Lula

O que vai abaixo é o parágrafo final do artigo da colunista Míriam Leitão publicado no jornal O Globo. Não valeria a pena reproduzir o artigo inteiro, repleto de barbaridades contra o presidente, o trecho final deixa claro onde ela quis chegar.
    "Na falação turca, Lula mandou os jornalistas viajarem mais. Os que cobrem a Presidência não fazem outra coisa nos últimos anos. O presidente está convencido de que é o único governante que tem grandeza. Até Pedro II, hoje com suas virtudes reconhecidas pelos republicanos, foi tratado com desprezo e atingido pelas farpas de Lula, o Grande. Seus impulsos, cada vez mais incontidos, mostram que qualquer minuto de seu mandato, além dos oito anos previstos em lei, seria excessivo."
Como diria Roberto Jefferson, Lula parece provocar na jornalista global os instintos mais primitivos. Ora, a popularidade do presidente contradiz a idéia de que "qualquer minuto" de seu mandato seja excessivo, mas a colunista apresenta a sua "tese" com tamanha empáfia que realmente causa espanto que a maioria do povaréu não pense como ela, a iluminada. No fundo, dá até uma certa pena da jornalista: "os cães ladram, a caravana passa", diz o ditado popular. Em um balanço futuro, os artigos de Leitoa terão servido apenas e tão somente para embalar peixe na feira, ao passo que o mandato do presidente Lula terá entrado para a história.

A colunista, porém, não tem muito senso do ridículo e força a mão em frases de efeito como a do último parágrafo de seu texto acima reproduzido. A quantidade de bobagens ditas em passado recente por Míriam Leitão – para não falar nas previsões que jamais se concretizam – é tão grande que este blog sugere aos estudantes de jornalismo que leiam a coluna sempre com muita atenção para aprender o que não fazer no exercício da profissão. Analisando desta forma, até que Míriam tem alguma utilidade para o jornalismo brasileiro...

A nova estratégia de Serra

O leitor Edu Marcondes manda o seguinte recado: a meteórica subida de Dilma nas pesquisas após o uso da "peruquinha básica" já provocou mudanças na estratégia tucana para a eleição de 2010. Diz Edu: "Visando ganhar simpatias no eleitorado, o governador José Serra mandou produzir cartazes com novo visual. Com exclusividade, conseguimos uma prova da gráfica", reproduzida abaixo:

sábado, 23 de maio de 2009

Simão: Serra só sabe proibir

Está hilário o trecho reproduzido abaixo, retirado da coluna de José Simão publicada hoje na Folha de S. Paulo. Simão está coberto de razão. Que nós, paulistas, merecemos um governador assim, vá lá, é o estado mais conservador do país. O que não dá é para imaginar, por exemplo, um nordestino admitindo a ingerência de um presidente da República em suas festas juninas. Do jeito que a coisa vai, Serra proibirá chopp na orla do Rio, vetará o chimarrão nas repartições públicas federais do Rio Grande do Sul, acabará com a pesca no Pantanal. Ok, a Dilma também é sisuda, mas o governador de São Paulo é exatamente a antítese do jeito festeiro e alegre do brasileiro. Este blog não duvida da força eleitoral do governador, mas aposta que este tipo de medida será usada na campanha do ano que vem. Se bem trabalhadas, as peças publicitárias poderão caracterizar Serra como autoritário - "o homem que proíbe" ou algo do tipo. A seguir, o texto de José Simão:

O Serra escova os dentes com vinagre. Serra proibiu quentão nas quermesses das escolas estaduais. Vou lançar a enquete: O que mais o Serra vai proibir? Chiclé de bola, calabresa em porta de estádio, boquete em carro, picanha em churrascaria, sexo em motel, soltar pum embaixo do cobertor e cachorro abanar o rabo. E o que vai permitir? Sopa de hospital e exame de próstata! O problema não é o que ele proíbe, o problema é que ele SÓ proíbe!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Assim é muito fácil...

A observação abaixo está no blog do jornalista Luis Nassif e é muito interessante. Pode até ser que Kennedy Alencar tenha razão - o autor destas Entrelinhas admira o trabalho do repórter da Folha, sempre bem informado e atento –, mas no episódio em questão a coisa ficou realmente ruim para Kennedy. Não há como comprovar (nem desmentir) a versão que o repóter apurou. Em casos como este, só há uma coisa a fazer: esperar. Se os fatos mostrarem que a versão estava correta, palmas para Kennedy. Do contrário, ninguém nunca saberá se a aproximação entre Serra e Aécio realmente existiu e depois não vingou ou se simplesmente jamais aconteceu. De qualquer forma, é importante notar a coragem de Kennedy ao sustentar a sua apuração - tem muita gente batendo no repórter da Folha atualmente, até por razões bastante obscuras.

A inverdade que virou inmentira

Por André Leite

Assim até minha avó pode ser colunista de política. Kenney Alencar anunciou com estardalhaço que Aécio tinha aceito ser vice de Serra num acordo costurado por FHC. Disse ele que o anúncio aconteceria perto de agosto e não haveria prévias no partido.

Aécio negou, FHC negou, todo mundo negou. Mas ele ainda tinha o benefício da dúvida, já que informou que o anúncio aconteceria daqui a dois meses.

Agora, na sua última coluna, diz que a publicação do acordo fez tudo mudar. Aécio vai seguir como pré-candidato até 2010, quando exigirá prévias no partido para que o candidato seja escolhido.

Resumindo, diga qualquer coisa a respeito de qualquer coisa. Uma semana depois diga que o fato de ter dito o que era segredo fez tudo mudar e que agora vale o que se dizia antes de você publicar sua coluna.

Segue abaixo trecho da coluna desta semana e o link para referência.

Jogo tucano

É natural que o governador de Minas, Aécio Neves, tenha ficado chateado com a revelação de que ele fez acordo com o colega de São Paulo, José Serra. Aécio aceitou ser vice de Serra, condicionando isso a uma saída honrosa. A intenção era anunciar o acordo em agosto ou setembro, enquanto a ministra Dilma ainda deverá estar em recuperação, a fim de acelerar uma ofensiva para fazer alianças com o PMDB nos Estados.

A repercussão da divulgação do acordo gerou atrito no PSDB. Aécio se sentiu traído por seus colegas de partido. Ele precisa de tempo para construir um discurso de saída no qual leve vantagem: popularizar o seu nome pelo país, pois ainda tem alta taxa de desconhecimento para quem deseja disputar a Presidência.

A divulgação da notícia afetou esse cronograma, que, talvez, precise ser alterado e leve o mineiro exigir uma prévia mais restrita, no começo de 2010, a fim de dar caráter natural a uma união que formaria uma chapa bastante competitiva.

Poupança: oposição tomou doril?

Sumiu do noticiário as críticas dos líderes oposicionistas ao "confisco" do governo Lula nas cadernetas de poupança. E sumiu por uma razão simples: a oposição percebeu que o discurso não estava colando. Dia após dia, os líderes do DEM e PSDB foram deixando o assunto de lado e de repente nem o PPS manteve o assunto na pauta. Mas no ano que vem, podem apostar, o impoluto e probo deputado Raul Jungmann (PPS-PE) virá a público dizer que ele próprio e oPPS "impediram o confisco" do malvado Lula na poupança. Dá até pena uma oposição tão fraquinha...

Torres Freire: a lógica do terceiro mandato

O artigo abaixo, do jornalista Vinicius Torres Freire, da Folha de S. Paulo, é muitíssimo interessante. O autor destas Entrelinhas não concorda com tudo que Vinicius escreve, mas reputa o colunista da Folha como um dos melhores e mais lúcidos do país. Assim, vale a pena ler o artigo até o final, ainda que para elaborar um argumento contrário ao que ele escreve.

A nova política da crise econômica

Engenharia política domina debate eleitoral em ano de recessão porque a tensão social diminuiu nos anos Lula

A ENGENHARIA política passou a dominar o debate eleitoral num ano em que a economia deve apresentar seu pior desempenho em duas décadas. O mundo político trata agora de Lula 3, referendo, extensão de mandatos, mudança de prazos de filiação política, recomposição de alianças e de raras candidaturas alternativas. Não é mero zunzum. A política politiqueira tem estado reunida a fim de rever estratégias para 2010. O imprevisível da silva, a doença de Dilma Rousseff, obviamente desencadeou o rebuliço. Mas por que o caso Dilma se tornou tão obviamente importante?
Uma primeira hipótese diria que a escassez de candidatos presidenciais e a fraqueza da oposição incentiva extravagâncias como Lula 3.
Os escândalos que ceifaram a liderança do petismo, o fato de Lula ter se tornado um neocaudilho do PT e a extrema degradação e irrepresentatividade dos demais partidos da coalizão lulista limitaram as opções do governismo. A indefinição assustada do PSDB, a irrelevância eleitoral do DEM e do PPS, a popularidade de Lula e a falta do que dizer do antilulismo deixam a oposição na defensiva. A ruína moral do Congresso, a curiosa escassez de novas lideranças políticas e o colapso das diferenciações ditas "ideológicas" contribuem para a rarefação de alternativas. Mas tais explicações são parciais.
Um caso extremo da patologia política brasileira nos lembra de que a ocasião faz o monge e também candidaturas presidenciais: Fernando Collor em 1989. O colapso econômico e o descrédito das lideranças da "Nova República" deixaram uma raia aberta para o bonapartismo alucinado e corrupto do collorismo.
Porém, mesmo que se confirme em 2009 a pior recessão desde Collor, a crise sobrevém depois de três anos de crescimento bom. Ainda mais importante, ocorre num período de crescimento mais bem distribuído da renda e na vigência do maior colchão social já visto no país.
Goste-se ou não, as transferências sociais de renda e o aumento do salário mínimo, entre outras políticas, amortecem os efeitos sociais, econômicos e políticos da crise. Note-se, de resto, que Lula anestesia "radicais" (MSTs e sindicatos).
A "rede de proteção social" poderia ter suscitado uma divisão política no país (considerem o caso de muitos vizinhos da América do Sul, Argentina inclusive). Mas a rede de proteção social faz parte de uma política conservadora: de manutenção das "reformas" (mesmo na geladeira) e de normalidade econômicas (ou de "quase ortodoxia").
Tão importante quanto é a grande aliança de Lula com a grande empresa. Lula prossegue a reorganização da propriedade do grande capital iniciada sob FHC. FHC desatou o nó caquético da organização e da posse do capital, privatizando com o auxílio do Estado. Lula, o pós-moderno, financia com o Estado a reorganização da grande propriedade depois do período algo caótico da "abertura" dos anos 90, formatando as empresas brasileiras para a era dos grandes oligopólios globais, fase 2, a dos países ditos emergentes. Não há, pois, oposição do "capital".
A dobradinha FHC-Lula, afora as sortes da economia mundial, criou uma certa calmaria. A política ora se move num quadro estreito de tensões e expectativas reduzidas.