quarta-feira, 6 de junho de 2007

A PF está "balcanizada"?

Tem gente por aí tentando passar a versão de que a Operação Xeque Mate, que indiciou Genival Inácio da Silva, irmão do presidente Lula, mostra que a Polícia Federal está "balcanizada", isto é, vive uma guerra interna, com várias "facções" em disputa pelo comando da corporação. E que seria esta a razão do indicamento de Vavá – uma espécie de recado ao presidente Lula. Dentro deste mesmo raciocínio, o governo teria "perdido o controle" sobre a Polícia Federal, o que representaria um "grande perigo" para a democracia nacional.

Há alguns problemas, digamos assim, estruturais, nesta versão. Em primeiro lugar, é verdade que a Polícia Federal está dividida em grupos que disputam o poder na corporação? Sim, é verdade. Isto é uma novidade do governo Lula? Em absoluto, basta lembrar as disputas entre Vicente Chelotti (foto), o "rei do grampo", e o general Alberto Cardoso, chefe do gabinete Militar da Presidência da República, que inclusive extrapolavam o âmbito da própria PF durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Quem de fato perdeu o comando da Polícia Federal foi o ex-presidente tucano, legando ao ministro Márcio Thomaz Bastos a tarefa de juntar os cacos da incompetência dos vários ministros que passaram pela pasta da Justiça nos 8 anos de mandarinato cardosiano.

O segundo problema está na concepção de que a "PF sem comando" pode ser um "grande perigo" para a sociedade. Há uma contradição nesta idéia, porque a tese corrente na direita é que o governo Lula teria "aparelhado" a Polícia Federal, recheando a corporação de arapongas petistas, os tais "aloprados". Se aparelhou, então porque perdeu o comando? Não faz sentido. A Polícia Federal não pode nem deve ser braço de partido ou do governo. Tem de fazer o seu trabalho e precisa de recursos e de independência para tanto. Há quem veja "ameaças" do presidente Lula quando ele diz que a PF vai fazer o seu trabalho sem se importar com o nome e sobrenome dos investigados. Bobagem: como afirma o próprio Lula, quem anda na linha, não tem o que temer. Quando alguém reclama do "Estado policialesco", podem ter certeza, está fazendo um grande favor para bandido – há os que o fazem mediante boa remuneração e há os que se deixam levar pela inocência do argumento. Na soma, ambos fazem mais mal à democracia
do que os supostos exageros da Polícia Federal.

Por fim, resta dizer que o Brasil vive uma fase muito melhor do que a dos últimos anos por vários motivos, entre os quais o combate bastante firme à corrupção. Tem gente que adora dizer que os casos de corrupção terminam em pizza ou têm seus protagonistas absolvidos. É preciso ter um pouco de paciência. A Polícia Federal já realizou mais de 400 operações e prendeu mais de duas mil pessoas nos últimos 4 anos. Porém, o processo judicial – sobre o qual o governo, é bom que se diga, não tem a menor influência e nem poder para acelerar – tem seu próprio rito. A PF investiga e prende; cabe a Justiça processar e julgar. Felizmente, ainda não há no Brasil, como gostariam certos afoitos, execução sumária. O fato é que no passado, corrupto não era nem sequer incomodado – ou alguém lembra o número de operações realizadas ou corruptos presos sob FHC? – e hoje o cenário é bem outro.

A oposição adora dizer que o governo do presidente Lula é o "mais corrupto da história". Convém lembrar que não se deve falar de corda em casa de enforcado. É por esta razão que a população não levou a sério, na campanha do ano passado, as baboseiras de Geraldo Alckmin sobre este tema. A população sabe quando tentam vender gato por lebre...

Um comentário:

  1. Como disse o prof. Boaventura dos Santos, hoje, no Seminário sobre Democratização e Acesso à Justiça, (MJ, Brasília), a mídia e a Justiça operam em temporalidades distintas: a mídia existe no dia de hoje, a notícia vale no dia, então quer que tudo e todos sejam indicados, julgado, no mesmo dia. A Justiça tem de ser mais lenta, mais profunda, e menos imediatista.Além disso, a mídia opera com dois pólos: sempre tem de haver um vencedor e um derrotado, um ganhador e um perdedor. Não pensa em meios-termos, atenuantes, circunstâncias.

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