quinta-feira, 30 de abril de 2009

Lei de Imprensa em julgamento

Pelo andar da carruagem, a Lei de Imprensa deve ser extinta, pelo menos parcialmente. O julgamento está ocorrendo agora no Sumpremo Tribunal Federal. Pode ser que os ministros decidam também sobre a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício de jornalismo. Os leitores fiéis deste blog sabem a opinião do autor, que pode ser lida em vários comentários antigos, como este e este. Se prevalecer o bom senso, o STF acaba com esta absurda reserva de mercado que existe no Brasil. Jornalismo, como tantas outras profissões, não carece de nenhum deproma para ser exercido. Basta ser alfabetizado e contar com algum talento para a coisa. Por aqui a torcida é para que o Supremo estabeleça o fim da obrigatoriedade em seu sentido mais amplo, ou seja, que não haja exigência alguma de diploma. Jornalistas espetaculares não completaram nem mesmo o antigo ensino secundário, como Alberto Dines, para ficar em um exemplo paradigmático. Porém, se o STF entender que é preciso de algum diploma de curso superior, vá lá, já melhora bem a coisa. Por que historiadores, cientistas sociais, médicos ou mesmo publicitários não poderiam exercer a profissão de jornalista é uma coisa que só o corporativismo da Fenaj explica. Aliás, não explica. Vamos ver se os ministros votam com seriedade e acabam com mais este ranço de um Brasil arcaico.

Primo do Lugo?

Na Agência Estado: Morre d. David Picão, bispo emérito de Santos-SP

Dossiê do caso Folha-Dilma

Está no Observatório da Imprensa e vale a leitura, inclusive das indicações no pé da página. Claro que a Folha não publicaria uma carta tão forte contra o (mau) jornalismo praticado na reportagem que deu origem à polêmica.

CASO FOLHA-DILMA
A carta ministra ao ombudsman

Por Dilma Rousseff em 30/4/2009

Reproduzido do blog de Luis Nassif, 29/4/2009; título original "A carta que não foi publicada"

Senhor Jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva

Ombudsman da Folha de S. Paulo,

1. Em 30/03/2009, a jornalista Fernanda Odilla entrevistou-me, por telefone, a pedido do chefe de redação da Folha de S.Paulo, em Brasília, Melchíades Filho, acerca das minhas atividades na resistência à ditadura militar.

2. Naquela ocasião ela me informou que para a realização da matéria jornalística, que foi publicada dia 05/04/09, tinha estado no Superior Tribunal Militar – STM. No entanto, eu soube posteriormente que, com o argumento de pesquisar sobre o Sr. Antonio Espinosa, do qual detinha autorização expressa para tal, aproveitara a oportunidade e pesquisara informações sobre os meus processos, retirando cópias de documentos que diziam respeito exclusivamente a mim, sem a minha devida autorização.

3. A repórter esteve também no Arquivo Público de São Paulo, onde requereu pesquisa nos documentos e processos que me mencionavam, relativos ao período em que militei na resistência à ditadura militar. Neste caso, é política do Arquivo de São Paulo disponibilizar livremente todos os dados arquivados e, em caso de fotocópia, autenticar a cópia no verso com os dizeres "confere com o original", com a data e a assinatura do funcionário responsável pela liberação do documento.

4. Os documentos pesquisados pela jornalista foram aqueles relativos ao Prontuário nº 76.346 e as OSs 0975 e 0029, sendo também solicitadas extrações de cópias.

5. Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30/03 sobre minha participação ou meu conhecimento do suposto seqüestro de Delfim Neto, a matéria publicada tinha como título de capa "Grupo de Dilma planejou seqüestro do Delfim". O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de "factóide", uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha de S.Paulo.

6. O mais grave é que o jornal Folha de S.Paulo estampou na página A10, acompanhando o texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site www.ternuma.com.br ("terrorismo nunca mais"), atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa.

7. Após a publicação, questionei por inúmeras vezes a Folha de S.Paulo sobre a origem de tal ficha, especificamente o Sr. Melchiades Filho, diretor da sucursal de Brasília. Ele me informou que a jornalista Fernanda Odilla havia obtido a cópia da ficha em processo arquivado no DEOPS – Arquivo Público de São Paulo. Ficou de enviar-me a prova.

8. Como isso não aconteceu, solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 05/04/2009. Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de S.Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob tortura ou não, sobre aqueles fatos.

9. Mais estranho ainda é que a legenda da ficha publicada pela Folha dizia: "Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu". Ora, se a Folha sabia que os chamados crimes atribuídos a mim não foram por mim cometidos, por que publicar a ficha? Se optasse pela publicação, como ocorreu, por que não informar ao leitor de onde vinha a certeza da falsidade? Se esta certeza decorria de investigações específicas realizadas pela Folha, por que não informar ao leitor os fatos?

10. O Arquivo Público de São Paulo também disponibilizou cópia do termo de compromisso assinado pela jornalista quando de sua pesquisa, ficando evidente que a repórter não teve acesso a nenhum processo que tivesse qualquer ficha igual à publicada no jornal.

11. Mais ainda: a referida não existe em nenhum dos arquivos pesquisados pela jornalista, seja o STM, seja o Arquivo Público de São Paulo. O fato é que até o momento a Folha de S.Paulo não conseguiu demonstrar efetivamente a origem do documento.

12. Considero ainda que a matéria publicada na sexta-feira,17 de março, em que a Folha relata as minhas declarações ao jornalista Eduardo Costa, da rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, não esclarece o cerne da questão sobre a responsabilidade do jornal no lamentável e até agora estranho episódio: de onde veio a ficha que afirmo ser falsa?

13. Após 21 dias de espera, não acredito ser necessária uma grande investigação para responder à seguintes questões: em que órgão público a Folha de S.Paulo obteve a ficha falsa? A quem interessa essa manipulação? Parece-me óbvio que a certeza sobre a origem de documentos publicados como oficiais é um pré-requisito para qualquer publicação responsável.

14. Transcrevo abaixo o texto literal do termo de responsabilidade assinado pela jornalista em 22/01/09:

"Declaro, para todos os fins de Direito, assumir plena e exclusiva responsabilidade, no âmbito civil e criminal, por quaisquer danos morais ou materiais que possa causar a terceiros a divulgação de informações contidas em documentos por mim examinados e a que eu tenha dado causa. Ficam, portanto, o Governo do Estado de São Paulo e o Arquivo do Estado de São Paulo exonerados de qualquer responsabilidade relativa a esta minha solicitação.

Declaro, ainda, estar ciente da legislação em vigor atinente ao uso de documentos públicos, em especial com relação aos artigos 138 e 145 (calúnia, injúria e difamação) do Código Penal Brasileiro.

Assumo, finalmente, o compromisso de citar a fonte dos documentos (Arquivo do Estado de São Paulo) nos casos de divulgação por qualquer meio (imprensa escrita, radiofônica ou televisiva, internet, livros, teses, etc)." (Cópia em anexo)

15. Por último, cabe deixar claro que a ficha falsa foi divulgada em vários sites de extrema direita, como: a) Ternuma (Terrorismo Nunca Mais), blog de apoio ao Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, ficha falsa postada em 30 de novembro de 2008; b) Coturno Noturno – Blog do Coronel: ficha falsa postada em 27 de março de 2009 (a ficha está "atualizada" apresentando uma foto atual) (http://coturnonoturno.blogspot.com/2009/04/desta-parte-dilma-lembra-tudo.html). A partir daí, outros sites na internet também divulgaram a ficha: a) http://fórum.hardmob.com.Br/showthread.php; b) http:/www.viomundo.com.Br/blog/dilma-terrorista/

16. Estou anexando a este memorial cópia de alguns documentos que considero importantes para sua avaliação:

** Termo de responsabilidade assinado pela jornalista no Arquivo de SP;

** Cópia de fichas onde consta a foto (ou idêntica) à utilizada para montagem da ficha usada pela Folha de S.Paulo

** Cópia da solicitação da jornalista Fernanda Odilla ao STM de acesso a informações sobre Antonio Espinosa

** Autorização do Sr. Antonio Espinosa para acesso aos seus documentos

** Termo de Compromisso assinado pela jornalista Fernanda Odilla junto ao STM.

Leia também

Quando o "erramos" pretende encobrir a fraude – Sylvia Moretzsohn

Dilma e o mistério da máquina elétrica – Luis Nassif

Erros sobre erros na Folha – Luiz Weis

Platitudes, palpites – e uma notícia – Luiz Weis

Folha publicou ficha falsa de Dilma – Luiz Antonio Magalhães

Folha quer juros mais altos em 2010

O Banco Central da Folha de São Paulo já traçou o cenário para 2010 e 2011 (sim, 2011) e, com os números na ponta da língua, revela hoje, em matéria que mereceu chamada de capa e vai reproduzida abaixo, que a Selic subirá em pleno ano eleitoral. Bem, dá até desânimo comentar a matéria, se é que dá para chamar a coisa de matéria. Mas vamos lá: primeiro, a própria Folha não se cansa de dizer que o pior da "maior crise da história do capitalismo desde 1929" não passou, portanto dias mais difíceis virão pela frente. Ora, quando é para fazer a previsão do cenário para os juros, porém, o jornal dá como provável a recuperação da economia brasileira em 2010. Ademais, é um pouco ingênua a premissa de que o governo federal manterá, em 2010, o mesmo grau de autonomia que deu ao Banco Central todos esses anos. Ao contrário, os recentes movimentos em torno do Banco do Brasil mostram que a ala "desenvolvimentista" do governo Lula está avançando sobre os "ortodoxos" encastelados no BC. E é possível até que Henrique Meirelles deixe a presidência do banco para disputar a eleição de 2010... Este blog duvida que a taxa de juros suba em 2010, a menos que o crescimento seja tamanho que compense a impopular medida. Neste caso, porém, o crescimento será mais efetivo como cabo eleitoral do candidato governista do que a alta de juros para a oposição. Tudo somado, a materola da Folha não passa de cascata, como se diz no jargão das redações, e das ruins. Vai a seguir, para os leitores do blog.

Taxa de juros pode voltar a subir em 2010
Com expectativa de reaquecimento da economia e alta de preços das commodities, mercado projeta retomada na alta da Selic

Dúvida é se BC fará agora um corte maior do juro e depois subirá o que for necessário ou se vai reduzir menos a taxa para evitar alta forte em 2010

LEANDRA PERES
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Se o Banco Central confirmar as expectativas do mercado financeiro nas reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária) de junho e julho, o Brasil terá, pela primeira vez desde a estabilização econômica, em 1994, taxas de juros de um dígito, algo próximo a 9,25% ao ano. Mas o piso histórico não deverá durar muito. Provavelmente, não mais que um ano.
De acordo com as expectativas do mercado financeiro, a Selic -taxa de referência da economia- voltará a subir em 2010, ano eleitoral. As projeções até agora incorporam a elevação de um ponto percentual, o que colocaria a taxa próxima a 10,25% ao ano.
O Banco Central, que no último relatório fez questão de enfatizar o baixo risco de pressões inflacionárias em 2009, considera haver uma chance de 30% de a inflação chegar ao final do primeiro trimestre de 2011 em um patamar maior que 4,6%, acima do centro da meta fixada pelo governo.
A premissa que sustenta a provável elevação da Selic no ano que vem é a de que a economia brasileira estará se recuperando em 2011 amparada pela melhora no resto do mundo e pelo aumento nos preços das commodities. Como há uma defasagem de quase um ano entre o aumento de juros pelo BC e o impacto na economia, a elevação na taxa de juros teria que ser feita em 2010.

Preocupação
"No segundo trimestre do ano que vem, deve haver uma revisão da política monetária. Em 2011, inflação e crescimento podem voltar a preocupar", diz o economista Roberto Padovani, estrategista para América Latina do Banco WestLB.
Por trás dessa discussão está o que os economistas chamam de "juros de equilíbrio", um número que ninguém sabe precisar, mas que é considerado como uma taxa neutra, que não deprime o consumo e, ao mesmo tempo, é capaz de evitar que ocorra um superaquecimento da economia.
"Para tirar a economia do atoleiro, os juros têm que operar abaixo do equilíbrio. Mas na frente será necessário um ajuste fino", diz o economista Caio Megale, da Mauá Invest.
O presidente do BC, Henrique Meirelles, em entrevista recente à Folha, disse que é "prematuro" afirmar que o país tem condições de manter a taxa de juros em um dígito.
O debate que toma conta dos economistas que acompanham o BC é como será feita a elevação. A principal incerteza é a duração da crise econômica. Mas fatores internos também vão pesar. Entre eles, a resistência do governo, por exemplo, a um ajuste nos juros em ano eleitoral e até mesmo a saída de Meirelles para se candidatar ao governo de Goiás.
A dúvida é se o BC fará uma queda mais ousada agora e depois subirá o que for necessário ou se preferirá reduzir a Selic menos agora para não precisar fazer um ajuste maior no ano que vem.
"Tem muita incerteza até o momento. A única coisa que se pode dizer é que, se a atual condução da política monetária continuar, em algum momento até 2010, pode ser que a Selic tenha que subir. Quanto e quando é impossível saber neste momento", afirma o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.


quarta-feira, 29 de abril de 2009

Conforme o previsto

A taxa básica de juros caiu mais um ponto percentual e passou agora para 10,25%. É a menor da história da Selic e os juros reais são os menores desde o plano Real. Evidentemente, tudo isto se deve à excelente gestão da economia durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Lula no máximo acertou ao manter os (a)fundamentos do seu antecessor. É o que o distinto público vai ler nos jornais de amanhã. Na grande imprensa, é sempre assim: Lula erra sozinho e, quando acerta, está sempre ao lado de FHC...

Itamar vice? Se cuida, Serra!

Está na Agência Estado: Itamar Franco estaria sendo sondado para ocupar o cargo de vice-presidente em uma chapa encabeçada por José Serra (PSDB). O ex-presidente se filiaria ao PPS para compor com o governador paulista em 2010. Seria um bom nome para compor a chapa? Sim, seria, porque a região nordeste é majoritariamente lulista, de modo que seria bom para Serra contar com apoio em Minas, onde Lula também é muito bem avaliado. Cálculos políticos à parte, porém, este blog acha que Itamar representa dois passos atrás para o PSDB. Um, porque representa o tipo arcaico, atrasado de político, dois, porque é um sujeito que tem a sorte de dar azar para os que com ele se aliam. Fernando Collor que o diga...

Abaixo, a matéria da Agência Estado sobre a volta de Itamar.

Aécio: Itamar tem condições de ocupar qualquer cargo

EDUARDO KATTAH

BELO HORIZONTE - O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), disse hoje que Itamar Franco (sem partido) tem condições de ocupar qualquer cargo e seja qual for a decisão do ex-presidente da República, ela terá o seu respeito. Aécio e Itamar conversaram ontem por telefone, mas o governador mineiro evita falar sobre a hipótese cogitada no ninho tucano paulista de o ex-presidente ser o candidato a vice numa eventual chapa encabeçada pelo governador de São Paulo, José Serra. Aécio e Serra disputam a indicação como presidenciável tucano em 2010.

Convidado para se filiar ao PPS, Itamar, de 78 anos, vem sendo apontado como uma alternativa para unir os dois maiores colégios eleitorais do País na próxima eleição presidencial. "Não vou comentar o caminho do Itamar. Eu disse ontem que o (ex-)presidente Itamar é um dos homens mais respeitados do Brasil e é um homem que tem condições de ser presidente da República, o que inclusive já foi, e ocupar qualquer outro cargo. Caberá a ele, no momento certo, tomar sua definição e qualquer que seja ela terá o meu absoluto respeito".

Porém, de acordo com Aécio, o ex-presidente "está muito tranquilo" e não tem pressa para tomar uma decisão. O governador mineiro também afirmou que não há risco de ele e Itamar estarem em campos distintos no ano que vem. Aécio costuma dizer o mesmo em relação a Serra, com quem acertou detalhes para a escolha do candidato do PSDB em um jantar na segunda-feira, em Belo Horizonte. "O que tenho certeza é que, pela afinidade que temos hoje, pelo respeito mútuo que nos une, o presidente Itamar e eu estaremos juntos em 2010, independente da posição que ele tome."

A Academia responde

A nota publicada aqui pedindo ajuda dos universitários para destrinchar a frase de Geraldo Alckmin sobre as chances do PSDB em 2010 começou a repercutir nos meios acadêmicos. Um professor da USP que prefere se manter no anonimato por temer as duras represálias que o governo Serra poderia lhe infligir escreve para dizer que na sua Academia "tem uns instrutores que nunca erram, são sábios: é 50 flexão, 30 supino e 40 leg press". É, pensando bem, talvez esses entendam melhor a interessante análise política do marido de dona Lu.

Uma chance para Aécio?

O ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) pode ser muita coisa, mas bobo não é. Ao contrário, além de muito esperto, é um excelente observador da política nacional nos textos produzidos para o seu blog. É óbvio que tudo que ele diz tem viés, mas por trás do discurso enviesado é possível perceber o burburinho de muita articulação que está em andamento nos bastidores de Brasília. A nota abaixo é um bom exemplo e revela um certo desejo de parte da base aliada do governo em trocar o candidato. Este blog não acredita que o PT possa abrir mão da cabeça de chapa em 2010 salvo uma situação realmente excepcional, mas também acha que se Aécio Neves for candidato pelo PMDB com apoio de Lula e um vice petista, deixaria o governador José Serra (PSDB) comendo poeira, completamente isolado. Não deixa de ser uma variável de uma equação em aberto.

Mudança de rumo
O linfoma de Dilma Roussef desfez o cenário montado por Lula para a sucessão, obrigando-o a revê-lo, pois a base vai começar a dispersar. O tratamento a que a ministra se submeterá – rádio e quimio – exigirá que ela se afaste (a decisão, no entanto, terá de partir dela), fazendo de Erenice Guerra quadro do qual não se deverá abrir mão por ora. E se Dilma não se recuperar a tempo, Lula pode costurar, junto com o PMDB, o “pós-Lula”, apoiando um nome forte para manter a unidade. Aécio Neves tem chance de ser o cabeça desta chapa.

A Ribeirão Preto de Jorge Rodini

Mais uma colaboração de Jorge Rodini, diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia, para o blog. Desta vez, sobre Ribeirão Preto, a capital nacional do chopp de qualidade.

A minha Ribeirão Preto não é a gênese, é a revisita. Não é a metrópole, é a cidade pacata do quarteirão francês. É onde o público ensina e forma os jovens a se transformarem líderes da coisa privada.

É a cidade largo, outrora capital da cultura, do renascimento, do experiente cheirando a novo.

É a do teatro do Imperador, das praças e do cafezinho. É Única. Altiva, capitaneia a região soberana, congrega os locais.

A Ribeirão pela qual me apaixonei é a do Otoniel, do antigo e, ao mesmo tempo, renovador colégio Estadão. Diretor herói do Sertão, que clamava pelo Hino Nacional com respeito e orgulho.

Ribeirão, das domingueiras recreativas aos sábados da Nove de Julho. É a cidade dos nomes globais. De Heraldo a Ernesto. Do Nacional ao Fantástico. Do Pereira ao Paglia. Universo das rádios, do Datena ao Marcio, irmão do Zé e do Edmo.

A Ribeirão em que meus filhos e meu neto nasceram não é menos charmosa, é mais comercial. É política, com conquistas e dissabores.

A Ribeirão que me entristece é a que não reconhece. Grandes nomes da educação, da cultura, das artes e do esporte. Figuras carimbadas, hoje desdenhadas. Esta não , definitivamente, a minha terra.

A minha terra tem palmeiras na Jerônimo, tem Museus, tem Bosques, tem Condomínios de luxo, tem estádios grandes e vazios, tem desenvolvimento, tem futuro.

Quem tem raiz, tem vida. Tem o chopp na veia, tem a história bem formulada, nunca acabada. Tem orgulho e cuidado. Somos responsáveis pelo que amamos.

A Ribeirão, enfim, que queremos é a que iremos construir, divulgar e respeitar.

Alckmin, um gênio da política moderna

Frase do secretário estadual de Desenvolvimento e ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin: "Estou confiante, otimista de que o PSDB será vitorioso, mas com pé no chão, calçando a sandália da humildade. Até porque a reeleição tem um ciclo de oito anos. Foi assim com Fernando Henrique [ex-presidente], e vai ser assim com o Lula. Nós temos um modelo igual ao dos Estados Unidos e por lá também foi assim."

É muita sapiência para caber em uma análise de um pobre blog interessado nas coisas da política. Melhor convocar os sábios da academia para melhor destrinchar o cada vez mais profundo pensamento do marido de dona Lu.

Brasil não lidera ranking de juro real

Uma matéria escondidinha no pé de página da Folha de S. Paulo informa: com a queda na Selic de hoje (qualquer que seja o montante), o Brasil já não terá o maior juro real do mundo - a liderança já é da China. Estará em terceiro lugar, mas a matéria, bastante confusa, não explica se a tal liderança já não fo perdida antes mesmo da eventual redução da taxa básica por aqui. Pelas contas do blog, se o juro real está em 6,6% na China, já é mais do que os 6,5% reais do Brasil verificados em março, conforme matéria do jornal O Globo publicada em 11/03 e reproduzida abaixo.

Brasil ainda tem o maior juro real do mundo

Luciana Rodrigues
RIO - Mesmo com a decisão do Banco Central de reduzir em 1,5 ponto percentual a taxa básica de juros Selic, o Brasil continua como o país de maior taxa de juro real (descontada a inflação) do mundo. Levantamento feito pela consultoria UpTrend mostra que, considerando a inflação projetada para os próximos 12 meses, o juro real brasileiro é de 6,5% ao ano. A Hungria aparece em segundo lugar, com 6,2% ao ano. Argentina e China vêm em seguida, com 4,3%.


Agora, a matéria da Folha de hoje:

Com redução da Selic hoje, Brasil perde a liderança do ranking dos juros reais

FABRICIO VIEIRA, DA REPORTAGEM LOCAL

Uma redução hoje na taxa básica Selic, de qualquer magnitude, irá tirar o Brasil da liderança do ranking dos países com maior juro real do planeta. Se a expectativa do mercado de corte de um ponto percentual na Selic for ratificada, os juros reais do país descerão a 5,8%.

A liderança será assumida pela China, com taxa real de 6,6%, seguida pela Hungria, com 6,4%. Desde 2003, o Brasil não ficava na terceira colocação do ranking, que considera 40 países e é elaborado pela UpTrend Consultoria Econômica.

"Essa posição não era alçada desde 2003. Isso mostra que a política de afrouxamento monetário ainda deixa o país entre os melhores pagadores de juros, principalmente se considerarmos os dois graus de investimento do Brasil", diz Jason Freitas Vieira, economista-chefe da UpTrend.

Os juros reais são calculados tendo por base a taxa básica da economia, descontando dela a inflação projetada para os 12 meses seguintes.

Mesmo com o ciclo de redução da taxa básica conduzido atualmente pelo BC, a distância das taxas reais praticadas por aqui e a da maioria dos países pesquisados é bastante elevada. A taxa média dos 40 países da pesquisa ficou em 0,2% ao ano.

As taxas reais de juros são uma importante referência para o setor privado na hora de planejar seus investimentos. Também são acompanhadas com atenção pelo capital especulativo, que busca os países que mais pagam oferendo os menores riscos.

Entre as economias mais importantes da América Latina, a distância dos juros em relação ao Brasil é ainda maior. O México, por exemplo, está com taxa real de 0%. No Chile, essa taxa está negativa em 3,1%.

Hoje o Copom anuncia como fica a taxa básica Selic. A maioria do mercado projeta que os juros sejam reduzidos em um ponto percentual -de 11,25% para 10,25% anuais.

"A percepção de indícios de reativação da demanda interna tem crescido. Isso se refletiu nas apostas do mercado em relação ao resultado do Copom, que passaram a se concentrar num corte de um ponto, desfecho que desde meados de março consideramos o mais provável e que agora reiteramos", avalia a LCA Consultores. Mas há quem ainda projete um corte maior, de 1,5 ponto, como a Gradual Investimentos. Até o fim do ano, os analistas esperam que a taxa básica desça para 9,25%.

Pausa esportiva

Um bom sinal para o Santos Futebol Clube está na matéria abaixo, da Folha de S. Paulo. Se a contusão preocupasse mais, seria um excelente sinal. Agora só falta o Kléber Pereira ficar incapacitado para a decisão de domingo. Este blog continua botando fé: vai dar Peixe!

Goleiro Fábio Costa torce tornozelo, mas não preocupa o Santos

Apontado como um dos culpados pela derrota para o Corinthians, Fábio Costa tomou um susto no treino de ontem. Único titular do Santos a trabalhar com bola no CT Rei Pelé, o arqueiro sofreu uma contusão no tornozelo e teve de ser atendido.

Após ser examinado pelo médico Carlos Braga, o goleiro voltou à atividade e não preocupa Vagner Mancini.

"O Fábio deu uma torcidinha no pé. É uma dor suportável, e ele disse que voltaria a treinar. Uma manifestação dessa é importante e nos dá confiança", falou o técnico.

terça-feira, 28 de abril de 2009

E se a frase fosse do Lula?

Quase ninguém deu bola, mas o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), soltou uma pérola sobre a gripe suína digna de entrar nos anais do besteirol nacional - Stanislaw Ponte Preta teria feito miséria com a frase do governador. O sempre atento Vinícius Torres Freire reparou e reproduzi em seu blog:

Serra: "afasta de mim esse porco!"

"Ela é transmitida dos porquinhos para as pessoas só quando eles espirram", disse o governador de São Paulo, José Serra, sobre a gripe mexicana, dita "gripe suína". Serra estaria com febre, com a cabeça quente ou baixou um espírito de porco no governador?

A gripe dita "suína" é humana, demasiado humana. Num dia remoto, ela deve ter passado de um bicho para humanos, e daí o caldo genético do vírus sofreu transformações etc. Mas a gripe mexicana só é um risco porque é TRANSMITIDA ENTRE PESSOAS. Atualmente, o risco maior de que ela passe, em massa, de porcos para humanos só vai aparecer quando a gripe atingir, digamos, PALMEIRENSES, para fazer a brincadeira meio boba das torcidas paulistas.

Serra ainda ajeitou a declaração, publicada hoje na Folha, mas a emenda apenas embaralhou o soneto de pé de porco quebrado: "Portanto, a providência elementar é não ficar perto de porquinho algum, mesmo não tendo a gripe suína no Brasil. Ela pode ser transmitida de pessoa a pessoa, mas não temos nenhum caso registrado ainda".

Porca miséria.


Desnecessário dizer o que teria acontecido se o presidente Lula tivesse feito esta lambança toda...

Um novo Ebola?

Ok, pode ser que a gripe suína seja mesmo muito grave, mas o alarde da mídia em torno da doença parece um pouco exagerada. Faz lembrar o tal do Ebola, o vírus que dizimaria meia África e deixar um rastro de desgraça pelo mundo afora. Na época (edição de 9 de agosto de 2000), a revista Veja (sempre ela) publicou a seguinte matéria:

Truque assassino
Descoberto mecanismo de infecção do vírus Ebola, que mata nove entre dez contaminados

O Ebola é um pesadelo. Capaz de liquidar suas vítimas em poucos dias, é o mais violento de todos os vírus. De cada dez pessoas contaminadas, nove morrem. Isso ocorre porque o microrganismo ataca veias e artérias de todo o corpo, provocando hemorragia generalizada. Certos órgãos, como o fígado e os rins, simplesmente se desfazem e o sangue jorra em tal profusão que sai pelos olhos e poros. Na semana passada, cientistas americanos anunciaram o primeiro passo para combater esse assassino cruel: a descoberta da proteína usada pelo Ebola para destruir as células, causando o rompimento dos vasos sanguíneos. Entender o mecanismo de infecção torna possível o desenvolvimento de recursos para controlá-lo. "Remédios exigem maior prazo de pesquisa, mas uma vacina pode ser desenvolvida com rapidez", disse a VEJA Gary Nabel, coordenador da pesquisa no Instituto Nacional de Saúde, responsável pelos estudos com o vírus, nos Estados Unidos.

A primeira epidemia de Ebola da qual se tem notícia matou 500 pessoas em 1976, no Zaire (atual Congo). Dezenove anos mais tarde, um novo surto, com 245 mortes, chocou o mundo com cenas dantescas. Temeu-se que o microrganismo se alastrasse de maneira incontrolável, causando uma catástrofe de proporções planetárias. O clima de pânico internacional foi transposto para o cinema no filme Epidemia, com Dustin Hoffman, em 1995. A preocupação justifica-se. O Ebola é um vírus rápido, com um período de incubação de duas a três semanas, que se espalha num piscar de olhos. Um simples espirro é capaz de lançar milhares de micróbios no ar. Pode ser transmitido por contato sexual, pelo sangue e por secreções de pessoas contaminadas. Mas, da mesma forma abrupta que apareceu, a epidemia se foi. Uma particularidade do Ebola é a capacidade de devastar vilas inteiras e depois sumir sem ninguém saber ao certo como nem por quê. Isso explica, em parte, que o microrganismo continue raro, restrito a algumas regiões da África. Impressiona que já se saiba tanto sobre a fisiologia de um vírus e tão pouco sobre seu comportamento. "Ainda precisamos descobrir onde ele existe na natureza e qual bicho serve de transmissor para o ser humano", diz Nabel. A descoberta de seu mecanismo de ação pode ajudar os pesquisadores a entender doenças parecidas, como a dengue hemorrágica e as infecções por hantavírus que ocorrem no Brasil.


Bem, a África continua por lá e os africanos também. Mundo afora, parece que não foi muita gente que morreu contaminado pelo "pesadelo" da Veja. Notícia ruim vende mais, muito mais, e os veículos de comunicação, especialmente os impressos, andam precisando reforçar o caixa. Portanto, ninguém se espante muito com as manchetes assustadoras sobre a gripe suína. Este blog continua achando que deve ser coisa de palmeirense... Aguardemos a capa de Veja deste domingo!

Uma notícia, três manchetes

Mais uma da série, que já está ficando manjada dos leitores fiéis do blog: a notícia é o aquecimento da economia em março - a indústria paulista registrou alta de 0,5% –, mas dois dos três portais da grande mídia preferiram mancheter o acumulado do trimestre, que obviamente só poderia ser pior do que o primeiro trimestre de 2008, quando a economia estava bombando. Só o G1, da Globo, destacou a alta do mês passado, que sinaliza a retomada após o baque da crise. Do jeito que a coisa vai, problemão mesmo terão os veículos que querem apear Lula e Dilma do Palácio do Planalto no ano que vem, pois os números do primeiro e segundo trimestre de 2010 serão muito melhores do que os deste ano, gerando manchetes positivas (e provavelmente repletas da adversativa "mas": "Economia cresce, mas ainda é menor do que 2008" ou coisa do tipo...).

UOL
Atividade da indústria de SP cai 15% e tem pior trimestre em 6 anos

Agência Estado
Indústria de SP tem pior trimestre desde 2003

G1
Atividade da indústria de São Paulo cresce 0,5% em março

Kotscho analisa pisada de bola da Folha

O jornalista Ricardo Kotscho postou, em seu blog, uma boa análise do caso Folha-Dilma, que vai reproduzida abaixo, na íntegra. Vale a pena ler até o fim.

O Caso Folha-Dilma e o que ameaça os jornais

Qual o futuro da “velha” imprensa?, indaga meu bom colega Caio Blinder, correspondente do iG, em sua coluna de hoje, direto de Nova York.

Muitos jornalistas e leitores se fazem hoje esta pergunta. Pegando como gancho o filme “State of Play”, que aqui será “Intrigas de Estado”, segundo Blinder, “uma sessão-nostalgia para jornalistas para lá da meia idade, como eu”, ele escreve:

“A sessão-nostalgia do filme tem o ápice justamente quando rolam os créditos e vemos o processo de impressão e distribuição do papel-jornal. A cena é de doer, pois não dá para visualizar um happy-end para os jornais impressos. Aqui nos EUA é uma sucessão de más notícias, com jornais fechando, ameaçando fechar ou em regime de concordata. Como disse acidamente o comediante Stephen Colbert:

“Onde será impresso o obituário da indústria de jornais?”

Quem está ameaçando o futuro dos jornais? O primeiro suspeito é sempre a internet, o jornalismo online que é oferecido de graça o tempo todo e já chega às telas de 60 milhões de brasileiros.

Será mesmo só a internet a culpada pela debacle inexorável da imprensa de papel em nosso país? Há controvérsias…

Ao comentar este emblemático Caso Folha-Dilma, em que o jornal de maior circulação do Brasil se afunda cada vez mais ao tentar justificar uma inacreditável “reportagem” publicada no dia 5 de abril, o leitor Antonio Lúcio Rodrigues de Assiz escreve hoje no site Comunique-se:

“São essas práticas que ameaçam o futuro do jornalismo. Não são as novas tecnologias(…)”

Na própria Folha, uma solitária carta de leitor trata hoje do tema que o jornal gostaria certamente de esquecer. Escreve para o jornal Valmir de Costa, de Curitiba, Paraná:

“Em relação à reportagem `Autenticidade de ficha de Dilma não é provada´(Brasil, 25/4), a certa altura o texto diz que `o jornal cometeu um erro técnico: incluiu a reprodução digital da ficha em papel amarelo em uma pasta de nome `Arquivo de SP, quando era originalmente de e-mail enviado à repórter por uma fonte´.

Errado. O erro não é técnico, é ético. O texto tinha visivelmente a intenção de manchar a imagem de Dilma, qualificando-a como terrorista. Isso é erro técnico? Onde?”.

Desde o começo, todo o enredo desta história em que a Folha se enreda, é um clássico do antijornalismo que daria um outro filme, talvez mais emocionante do que o “State Of Play” do Caio Blinder. Se não, vejamos:

* Como o próprio nome indica, a sede da Folha fica em São Paulo, onde vive o principal personagem da matéria, jornalista Antonio Roberto Espinosa, ex-comandante da Vanguarda Popular Revolucionária. Mas a entrevista com ele foi feita por telefone, num total de três horas, pela repórter Fernanda Odilla, da Sucursal de Brasília. Não sairia mais barato escalar um repórter da sede para entrevistá-lo? Ou mesmo pagar uma passagem para Odilla conversar com ele pessoalmente sobre assunto tão delicado? Pelo menos, o jornal não erraria na grafia do nome dele e na sua qualificação profissional.

* Baseada na entrevista com Espinosa, cujos termos depois ele desmentiu em carta ao jornal, que só publicou dela um breve resumo muitos dias depois, a Folha deu a manchete de capa: “Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim”.

* Dilma, que também foi ouvida por telefone (não sei por que a Folha adora um telefone…), e teve uma entrevista de página inteira publicada na mesma edição, também mandou uma carta ao ombudsman, contestando o jornal:

“Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30 de março (…) a matéria publicada tinha por título de capa `Grupo de Dilma planejou sequestrou de Delfim´. O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de `factóide´, uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu”.

* O grande “furo de reportagem” estampado na primeira página, sobre um sequestro que não houve, foi a reprodução de um documento com o carimbo “capturado”, suposta ficha policial de Dilma que a repórter teria obtido no Dops paulista, em que ela é acusada dos mais variados crimes, para o jornal poder provar, como queria, sua condição de perigosa “terrorista”, “assaltante” e “assassina”.

* Dilma denunciou também na carta a falsidade deste documento e o jornal pediu um tempo para provar, mobilizando sua equipe de “reportagem”, a autenticidade da dita cuja. Com sua habitual agilidade para apurar seus erros, a Folha publicaria 20 dias depois, no último sábado, sem chamada de capa, uma estranhíssima matéria sob o título “Autenticidade da ficha de Dilma não é provada”.

* Mais estranho ainda é que, desta vez, a matéria tem por procedência a Sucursal do Rio, e não a de Brasília, menos ainda a da sede, que, com sua competente equipe de repórter especiais, deveria estar mais do que interessada em esclarecer o caso.

* Sem conseguir provar a autenticidade da tal ficha policial, o jornal admite ter cometido dois erros. Só dois? Sim, a Folha reconhece que o documento não foi capturado nos arquivos do Dops, mas chegou à redação por e-mail, de fonte não revelada. Diz o jornal: “O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada _ bem como não pode ser descartada”.

* Como assim? Em carta enviada ao ombudsman (e até hoje não publicada pelo jornal), no mesmo dia da publicação da segunda matéria, desmentindo a primeira, embora de forma bastante constrangida e enviezada, Antonio Roberto Espinosa vai direto ao ponto:

“A ficha citada, na verdade, foi produzida recentemente por quadros que, na época da ditadura, eram subalternos, faziam o trabalho sujo dos porões. Hoje já estão aposentados, mas se sentem como os heróis do regime de terror e preparam armadilhas com o objetivo de desestabilizar uma virtual candidatura presidencial da atual ministra Dilma. Eu e alguns amigos fizemos uma pesquisa amadora na internet e descobrimos que o primeiro a divulgar a ficha falsa, e seu provável autor, é o hoje coronel reformado (na época major) Lício Augusto Ribeiro Maciel, o Dr. Asdrúbal, torturador e assassino de dezenas de pessoas em Xambioá. A seguir foi reproduzida por dois dos mais conhecidos blogs da direita mais reacionária, também alimentado por quadros subalternos do regime militar, o Ternuma, do notório coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, e o A verdade sufocada _ As histórias que a esquerda não quer contar, também mantido por sargentos e oficiais de baixo escalão dos porões”.

* Estas acusações contra Dilma pela internet, a que se refere Espinosa, circulam em forma de spam desde o ano passado, junto com aquela falsa ficha policial da primeira página da Folha e serve de base para os milhões de comentários anônimos com ofensas, agressões e acusações à ministra que infestam blogs e sites. Mas a culpa pelos erros da Folha não pode ser atribuída à internet: ninguém com um mínimo de responsabilidade publica este lixo sem checar a sua origem.

* No final da sua carta, Espinosa repete um desafio ao jornal, que bem poderia aceitá-lo para que os leitores possam tirar suas próprias conclusões:

“Da mesma forma que a repórter Fernanda Odilla, em resposta à minha carta, em 8/4/2009, agora a Sucursal do Rio também garante que a Folha dispõe das gravações de minhas entrevistas. Essas entrevistas por acaso são secretas? Constituem um segredo jornalístico, inexpugnável e à prova dos leitores? Por que a Folha insiste em dizer que tem, mas não publica as entrevistas? Eu já estou cansado de desafiar o jornal a fazê-lo. Na sua coluna de 12/4/2009, V.Sa. (o ombudsman) também informou ter sugerido à Redação que as publicasse, ainda que na Folhaonline, e reiterou sua sugestão. Além dos arquivos secretos da ditadura, temos agora também as entrevistas secretas da Folha de S. Paulo, que são uma arma da redação contra suas fontes, os leitores e a verdade?”

Líderes evitam plenário para garantir
o fim da farra das passagens na Câmara

Não podia ser de outra maneira. Se a matéria fosse para análise dos deputados, a Câmara passaria por um vexame histórico hoje e o Plenário certamente avalizaria a farra dos bilhetes aéreos que está escandalizando o país. Abaixo, a matéria sobre a "aprovação" dos líderes às novas regras, que nem são assim tão rígidas. Versão do Último Segundo:

Líderes evitam plenário e restringem cota com ato da Mesa Diretora da Câmara

BRASÍLIA - Os líderes partidários se reuniram na residência oficial do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e decidiram, nesta terça-feira, restringir a cota área dos deputados. Ainda com receio do baixo clero, os dirigentes resolveram fazer a restrição através de um ato da Mesa Diretora, evitando assim que a matéria fosse votada em plenário.

A publicação do ato deve acontecer nesta tarde. A partir de então somente os deputados poderão viajar com recursos da cota. Ficam excluídos quaisquer terceiros, entre eles familiares. Além disso, assessores só vão poder voar quando autorizados pela terceira secretaria da Câmara. O ato também acaba com a cota adicional, de 25%, para líderes e membros da Mesa Diretora.

Ao anunciar o ato, Temer disse que “nunca existiu uma farra das passagens”, mas que a ação tomada vai “minimizar o noticiário” a respeito do tema. Ao negar a farra, Temer foi questionado sobre o porque das mudanças. Disse apenas que ela aconteceu devido “à lógica das coisas”.

Com o ato, a cota aérea de cada parlamentar vai ser calculada com base no custo de quatro passagens de ida do Estado de origem para Brasília e mais quatro voltas. Um deputado de São Paulo, por exemplo, vai ter direito a R$ 8,5 mil, já um do Acre vai ter direito a R$ 14,2 mil. Até mesmo os deputados do Distrito Federal vão contar com R$ 3,7 mil.

Além de restringir o uso, o ato da Mesa também da um prazo de 90 dias a partir do uso da cota para que o deputado disponibilize as informações sobre os gastos para a Câmara, que vai publicá-la em seu site oficial.

Por fim o ato também impede a acumulação de créditos de um ano para o outro, como acontece atualmente.

Punição

Sobre os abusos noticiados pela imprensa, Temer disse que pediu um estudo jurídico aos consultores da Câmara. A partir dele, que deve ficar pronto em 30 dias, cada caso vai ser enquadrado e os deputados faltosos responsabilizados. Sobre casos mais graves, como o de venda de passagens, Temer disse que tais processos podem sair da Câmara e ir para a Justiça.

Todos os furos do Congresso em Foco

Mais uma matéria do autor deste blog para o Observatório da Imprensa. Na íntegra, para os leitores do Entrelinhas.

COBERTURA POLÍTICA
Todos os furos do Congresso em Foco


Foi furo atrás de furo. O site Congresso em Foco, especializado na cobertura do legislativo federal, está colhendo agora os frutos de um investimento iniciado há pouco mais de meia década. A farra das passagens aéreas na Câmara Federal vem obrigando os jornalões a imprimir, quase diariamente, o nome do site em suas matérias sobre o assunto. Afinal, foi na internet que primeiro apareceu a lista dos deputados que voaram para o exterior com passagens pagas com dinheiro público, logo depois de duas outras reportagens exclusivas – uma revelou as viagens de artistas, entre as quais Adriane Galisteu, às custas do gabinete do deputado Fábio Faria (PMN-RN); a outra provou que Roseana Sarney (PMDB), ainda senadora, antes de assumir o governo do Maranhão, também ofereceu bilhetes a amigos e familiares.

Em pouco mais de um mês, foram três tiros certeiros. O Congresso em Foco, porém, já tem muita história para contar. Em fevereiro de 2004, o site estreava na rede mundial de computadores com o objetivo de acompanhar o dia a dia do Congresso Nacional e suprir as lacunas da cobertura tradicional da imprensa sobre os assuntos do legislativo federal. O jornalista Sylvio Costa, diretor do site, explica que antes do lançamento do Congresso em Foco, já editava um boletim eletrônico chamado "Congresso na Tela", preparado para clientes da agência de comunicação da qual é sócio, a Oficina da Palavra.

Com o tempo, Costa percebeu que havia um interesse grande em uma cobertura especializada dos assuntos do Congresso e decidiu investir na ideia, tomando o cuidado de criar um novo nome para o site, hoje hospedado no portal iG, com quem tem um contrato que ajuda a pagar as despesas da redação. Sylvio Costa adianta que o Congresso em Foco não é lucrativo – o jornalista, que ainda trabalha na agência e também dirige o Espaço Cultural Brasil Telecom, diz que ainda está investindo no projeto, mas trabalha para torná-lo sustentável logo. Para tanto, a aposta é que a audiência qualificada seja uma vitrine e convença o mercado publicitário a anunciar no site.

Se o modelo de negócios ainda não está totalmente resolvido, a linha editorial já estava na cabeça do jornalista em 2004 e pode ser sintetizada na expressão "jornalismo político de serviços". "Queríamos mostrar quem são os parlamentares, o patrimônio deles, como votam em questões chaves, enfim, fazer um acompanhamento quase individual dos parlamentares". Para isto, explica Sylvio Costa, a internet é a melhor plataforma, uma vez que não oferece o empecilho do espaço físico limitado das publicações impressas. "Nosso pressuposto era o de que a qualidade de representação política no Brasil é muito baixa, mas poderia melhorar com o acompanhamento sistemático dos congressistas", revela Sylvio, em consonância com editorial publicado na segunda-feira (27/4) no site e reproduzido ao final deste texto.

O levantamento minucioso dos dados dos 513 deputados e 81 senadores deu origem ao livro O que esperar do novo Congresso – perfil e agenda da legislatura 2007/2011, editado em parceria com o Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). Sylvio Costa explica que a base de dados que o Congresso em Foco já conseguiu acumular a partir de diversas fontes, sobretudo oficiais, permite aos 9 jornalistas que hoje trabalham na redação do site cruzar informações, levantar pautas e descobrir histórias que os parlamentares certamente prefeririam manter ocultas.

Apesar da redação sempre muito enxuta – no começo eram três jornalistas e dois estagiários –, o site foi ganhando respeito e conquistando fontes antes exclusivas dos grandes veículos. Além disto, diz Costa, o Congresso em Foco sempre apostou na pesquisa cuidadosa das fontes públicas e oficiais, muitas vezes desprezadas no trabalho de quem acompanha o legislativo. Os levantamentos de assiduidade apresentados pelo site, por exemplo, são feitos a partir dos dados do próprio Congresso, bem como a lista dos parlamentares processados é fruto de pesquisa nas páginas do Judiciário na internet, explica o diretor.

Apesar de ter se notabilizado pelos furos e denúncias importantes de corrupção no Congresso Nacional, Sylvio Costa afirma que não pretende fazer uma página eletrônica de "escândalos", e sim "um veículo a favor do Congresso". "Queremos aumentar o conhecimento das pessoas sobre o Congresso para que ele seja melhor. Queremos discutir saídas para o Congresso e não passar a ideia de que está tudo perdido", explica o jornalista.

Bastidores de uma reportagem

No episódio que levou o Congresso em Foco para as primeiras páginas de praticamente todos os jornais do país – em muitos casos sem o devido crédito, conforme reclama o diretor do site –, a apuração começou muito tempo antes da publicação da lista dos deputados federais que viajaram para o exterior com suas mulheres, namoradas e familiares usando bilhetes de seus gabinetes. O repórter Lúcio Lambranho, que integra a redação desde 2006, conta que começou a investigar o tema em agosto de 2008. "Descobrimos que um assessor parlamentar estava sendo processado por desviar passagens da cota de um gabinete de um ex-deputado federal", revela o jornalista. A partir da denúncia, explica Lambranho, descobriu-se que o assessor havia sido contratado por um outro deputado, este da atual legislatura. Confrontado com o processo, o parlamentar demitiu o assessor.

A partir daí, os fios foram sendo puxados e a apuração chegou em um colaborador de Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, que teria viajado com passagens do gabinete da então senadora Roseana, irmã de Fernando. A história repercutiu e permitiu a abertura de novas fontes. "Foi como montar um grande quebra-cabeça", diz Lambranho. No final, três jornalistas participaram da investigação (além de Lúcio, Edson Sardinha e Eduardo Militão), que levou algumas semanas entre checagens e rechecagens até que o quadro estivesse completo. Lúcio Lambranho garante que não há furo: todas as viagens para o exterior dos nobres deputados estão computadas na lista publicada no site. Foram exatos 1881 voos internacionais entre janeiro de 2007 a outubro de 2008, a um custo de exatos R$ 4.765.946,91.

Motivações políticas: não há fontes desinteressadas

Questionado se a guerra política aberta com a eleição de José Sarney (PMDB-AP) para a presidência do Senado ajudou os repórteres do site na obtenção de informações, o diretor do Congresso em Foco é cauteloso. "Toda fonte tem algum tipo de interesse. Se imaginarmos que vamos fazer jornalismo com fontes desinteressadas, não vamos, não se faz jornalismo", diz Sylvio Costa. Ele nega, no entanto, que o Congresso em Foco tenha recebido "pronta" a lista das viagens ou que a informação tenha partido de uma única fonte com interesse na divulgação da denúncia. "Houve apuração. Claro que pode ter havido alguma plantação, mas acho que nenhuma história se sustenta se não houver veracidade", diz Costa, que se diz espantando quando alguém pergunta "quem é a fonte" da reportagem das viagens internacionais. "Tivemos uma preocupação grande em ouvir o ‘outro lado’, ligamos para os gabinetes para que todos pudessem se pronunciar", lembra Lúcio Lambranho.

Cobertura diferenciada e focada, um banco de dados amplo, muito esforço na investigação e permissão para apurações longas parecem ser os ingredientes que estão fazendo do Congresso em Foco um caso particular na cobertura da política nacional. "Há muito tempo que a imprensa de Brasília é pautada pelo Congresso em Foco", diz, orgulhoso, o diretor Sylvio Costa. Para quem está cansado do estilo copy-paste vigente na internet, especialmente nas agências de notícia e sites jornalísticos dos grandes portais, não deixa de ser uma boa notícia saber que existe, sim, jornalismo inteligente e bem apurado na rede mundial.

Luciana Cardoso pede para sair

Furo do blog do jornalista Josias de Souza, da Folha de S. Paulo. Se estava tudo regular, por que será que a filha de FHC deixou o "cargo"?

Filha de FHC pede demissão do gabinete de Heráclito

Em carta endereçada a Heráclito Fortes (DEM-PI), primeiro-secretário do Senado, Luciana Cardoso pediu demissão.

Luciana é filha do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Recebia contracheque do Senado desde 2003. Coisa de R$ 7,6 mensais.

Deveria despachar no gabinete do senador. Mas não dava as caras. Pilhada pela coluna da repórter Mônica Bergamo, Luciana vocalizou emendas que pioraram o soneto.

"Trabalho mais em casa, na casa do senador. Como faço coisas particulares e aquele Senado é uma bagunça e o gabinete é mínimo, eu vou lá de vez em quando”.

Perguntou-se a Luciana se já havia entrado no gabinete de Heráclito. E ela: “Cabe não, meu filho! É um trem mínimo e a bagunça, eterna”.

Na carta a Heráclito, Luciana anotou que decidiu se demitir para “evitar constrangimentos” ao pseudochefe. A certa altura do texto, a filha de FHC escreve:

“Sou testemunha de seus esforços para aprimorar a administração do Senado...”

“...Por isso mesmo, não quero que pairem dúvidas sobre seus propósitos nem sobre minha conduta”.

Em verdade, o afastamento de Luciana livra de “constrangimentos”, além do senador, o pai da demissionária.

Dias antes de Luciana ganhar o noticiário na condição de servidora fantasma, FHC discursara na Associação Comercial de São Paulo.

Discorrera sobre um fenômeno que, na opinião dele, alastra-se sob Lula: a “cupinização” do Estado brasileiro.

Pela lógica, nada poderia deixar FHC mais contrafeito do que ver uma Cardoso na condição de xilófaga, a roer a bolsa da Viúva sem a contrapartida do suor.

Corre no TCU uma representação em que o representante do Ministério Público no Tribunal, Marinus Eduardo Marcico, pede a devolução do dinheiro que o Senado borrifou na conta bancária de Luciana Cardoso.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Até a Míriam condena propaganda do PPS

O que vai abaixo é uma nota do blog da colunista global Míriam Leitão. Acontece uma vez a cada milênio: desta vez Míriam tem razão. Faltou dizer que o PPS faz o papel de laranja de José Serra (PSDB), dizendo aquilo que os tucanos não têm coragem de dizer, até porque sabem que é baixaria pura e simples. Doravante, o deputado Raul Jungmann, mentor da propaganda, será tratado aqui no Entrelinhas como Raul Laranjão. Até a campanha de 2010 o cítrico parlamentar terá muito trabaho pela frente...

Poupança
Propaganda do PPS é um despropósito

É um despropósito a propaganda do partido PPS que tem sido veiculada, como foi na noite de sábado.

Ela acusa o governo Lula de querer "mexer"na poupança como o governo Collor.

O que o governo Lula pretende fazer com a poupança não tem nada a ver com o que fez o governo Collor.

Collor fez "confisco" e prendeu as aplicações nos bancos por dois anos.

Lula pretende diminuir a rentabilidade da poupança alegando que precisa abrir espaço para queda dos juros. Sobre o assunto, o próprio Lula não é sincero quando diz que faz isso para "proteger" os pequenos poupadores. A verdade é que ele pretende fazer isso para que a poupança não fique mais atrativa que os fundos de investimento que compram títulos públicos e que são os produtos oferecidos aos poupadores com maior poder de poupança.

O confisco do Collor e a mudança de remuneração da poupança não podem ser comparados e fazer isso é manipular um velho trauma brasileiro.

A maioria dos economistas acredita que hoje a remuneração da poupança em TR mais 6% e sem recolhimento de IR é um teto para a queda dos juros. A queda da Selic torna menos rentáveis os títulos públicos. Com isso, os investidores podem passar a botar o dinheiro na poupança. E o Tesouro terá dificuldades em rolar a dívida. Está criado um desajuste macro. Por outro lado, os bancos bem que poderiam reduzir suas taxas de administração dos fundos para, pelo menos, garantir mais rentabilidade nos fundos.

A briga política quando chega na economia provoca muitas distorções e seria lamentável a manipulação desse fantasma agora. É preferível que os partidos de oposição avaliem o que será feito e em cima disso critiquem.

O que temos criticado aqui é a insistência com que Lula e Mantega dizem que vão mudar a poupança, sem explicar as novas regras. Isso eles não devem fazer porque cria incerteza no pequeno investidor.

A bruxa está solta no México

Epidemia de uma nova gripe, crise econômica bem mais aguda do que em todo resto da América Latina e agora um terremoto de seis graus. É muita coisa ao mesmo tempo. O México parece estar pagando pelos pecados de seu vizinho do norte, além dos seus próprios. O lado bom é que os mexicanos são craques em reconstruir o seu país. Já fizeram isto antes, não são de se abalar com facilidade. Forza, México!

Serra fala sobre Dilma

Da Agência Estado:

Misturar doença e sucessão é 'desrespeitoso', diz Serra

RIBEIRÃO PRETO - O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), afirmou hoje que acha "desrespeitoso" misturar a doença da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, com a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tanto ele quanto Dilma são pré-candidatos à sucessão em 2010. "Acho até desrespeitoso misturar a doença da ministra Dilma com a eleição. Já desejei a ela pronto e definitivo restabelecimento e especular de eleição com doença não é apropriado de minha parte", disse Serra, em um rápido pronunciamento sobre o assunto, em Ribeirão Preto (SP), onde participou da abertura da Agrishow 2009.


O governador Serra não é bobo. A mistura a que ele se refere pode ajudar sua provável adversária a subir nas pesquisas. "Apropriado" ou não, é o "talking of the town", como diria o poliglota Fernando Henrique Cardoso, da política nacional. Para o bem e para o mal.

Copom: bolsa de apostas aberta

Este blog acha que vem por aí uma redução de um ponto percentual. Muitos analistas acham que vem menos, para que o governo tenha tempo de achar uma solução para a questão da poupança. Com um ponto, será a menor taxa da história da Selic (10,25%) e com meio ponto, também... A menos que deixe a taxa como está, o Banco Central fará história nesta quarta-feira.

Dines: a doença de Dilma e a mídia

Comentário do mestre Alberto Dines para o programa de rádio do Observatório da Imprensa.

DILMA ROUSSEFF
O Globo errou a mão

Políticos eventualmente tiram partido até de notícias ruins, mas a quase-candidata à presidência Dilma Rousseff teria preferido ir para as manchetes em situação diferente.

O tratamento para neutralizar o linfoma extraído há três semanas – e confirmado oficialmente no sábado (25/4) – tem todas as condições de ser bem-sucedido, mas como a própria ministra declarou, este é mais um grave desafio que deverá enfrentar. Sozinha.

É também um novo desafio a ser enfrentado por nossa mídia, que ainda não encontrou maneira de equilibrar seu inalienável compromisso de ser veraz e manter a sociedade informada com o imperioso dever de tratar com humanidade e delicadeza aqueles que enfrentam situações pessoais dolorosas.

A manchete de primeira página de domingo (26) do Globo falava em tratamento prolongado de um câncer e abalo em sua candidatura. Tanto as palavras câncer como tratamento longo não poderiam ser omitidas ou disfarçadas, representam a verdade científica porque não se trata de suspeita, é diagnóstico confirmado. Mas a afirmação de que a candidatura sofreu um abalo tem algo de apelativo, é sobretudo pouco solidária. Pressupõe dificuldades, dor, sofrimento. Riscos.

Políticos também merecem compreensão mesmo quando não merecem a simpatia e o voto. Nem heroína nem objeto político, a ministra Dilma Rousseff precisa ser tratada como ser humano.

A crise, por Ricardo Antunes

Vale a pena ler a entrevista abaixo, da Agência Brasil. Ricardo Antunes é um excelente sociólogo e costuma elaborar boas análises.

Crise atual pode ser mais intensa do que a de 1929, diz sociólogo

Gilberto Costa
Repórter da Agência Brasil

Brasília - Em 1980, o cineasta mineiro João Batista de Andrade filmou O Homem que Virou Suco para contar as agruras de um imigrante nordestino confundido com um assassino de um manager de uma empresa multinacional. A imagem antecede ao conceito, usado pelo sociólogo Ricardo Antunes, de “liofilização” organizacional - tomado de empréstimo da química para explicar o processo de transformar substância líquida em pó (como acontece com o leite em pó ou com o veneno).

Para Antunes, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista em temas do mercado de trabalho, as empresas, antes da crise atual, passaram por processos de “liofilização” e enxugaram suas “substâncias vivas”, os trabalhadores, por meio da modernização tecnológica e da reestruturação produtiva. O resultado disso foi o crescimento do chamado desemprego estrutural, que poderá aumentar em muito com a crise econômica mundial de hoje.

Ele avaliou que o trabalho está sob enorme ameaça e o dia 1º de maio deste ano será “digno do século 19”. Nesse contexto, são abandonadas as teses sociológicas que enxergavam o fim do trabalho ou do trabalhador como categoria de análise e voltam a circular críticas ao capitalismo e idéias de uma sociedade assentada em novas relações de produção. Ele afirmou que a crise mundial atual poderá ser mais intensa do que a de 1929, nos Estados Unidos.

Agência Brasil - Que ameaças a crise econômica mundial trouxe ao trabalho?

Ricardo Antunes - Não é mais ameaça. A crise econômica já tem um resultado devastador para a classe trabalhadora. A OIT (Organização Internacional do Trabalho) fez a previsão de novos 50 milhões de desempregados em 2009, o que eleva o número de desempregados para até 340 milhões de pessoas no mundo. Este número é uma estimativa moderada. Só a China anunciou que 26 milhões de ex-trabalhadores rurais, que estavam ocupados nas cidades, perderam o emprego. A tragédia que se abateu entre os trabalhadores é monumental, a começar pelos imigrantes à cata de trabalho nos países do norte do mundo, mas também a classe trabalhadora em geral, que estava empregada na indústria metal-mecânica, têxtil, no setor alimentício. A primeira providência que o empresariado toma na eminência de uma crise é o corte nos postos de trabalho. É emblemático que os Estados Unidos, a Inglaterra e o Japão vivem a maior taxa de desemprego das últimas décadas.

ABr – Qual a versão brasileira dessa situação?

Antunes – O governo tentou nos vender a idéia, completamente falsa, de que estávamos imunes à crise. A verdade, no entanto, é que nós, no final do ano, tivemos 640 mil novos desempregados. De lá para cá, os dados melhoraram, porque o governo tomou medidas, como a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos automóveis, para impedir que a recessão fosse mais dura. Mas essas medidas têm folego curto. A economia brasileira é muito globalizada. O Brasil depende muito do mercado externo por causa das commodities. O desfecho da crise brasileira está bastante atado ao desfecho da crise internacional. Não podemos ter uma ilusão de que o país é uma ilha rósea em um mar turbulento.

ABr – Antes da crise essa “ilha” tinha metade dos seus trabalhadores sem os direitos reconhecidos, não?

Antunes – Chegamos a quase 60% da nossa População Economicamente Ativa, em meados dos anos 2000, na informalidade, o que é expressão da tragédia social. Imaginar que o Brasil vai ficar no século 21 fornecendo, por exemplo, cana-de-açúcar com trabalho semi-escravo e pessoas cortando até 17 toneladas de cana por dia, sob um regime de mensuração do trabalho que subtrai os valores de remuneração. Essa não pode ser a alternativa brasileira. O Brasil não é o pior cenário no contexto internacional, mas pensar que estamos imune a ele é um completo equívoco.

ABr – O trabalho no Brasil chegou ao século 21?

Antunes – Estamos vivendo uma situação bastante contraditória. Embora o mundo produtivo às vezes atinja um patamar do século 21, as condições de trabalho estão regredindo às condições verificadas nos séculos 18 e 19. O trabalho escravo, semi-escravo e infantil, que nós imaginávamos fazer parte do início da Revolução Industrial, estão hoje esparramados em vários setores, e não é só no Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos, também existe trabalho infantil, e o trabalho sujo do imigrante, que é tratado como um cidadão de quarta categoria. Tudo isso nos joga a querer ser uma economia do século 21 com condições pretéritas de trabalho, o que faz com que a luta do 1º de Maio de 2009 seja semelhante à luta do 1º Maio de 1886, ano da Revolta de Haymarket, em Chicago, nos Estados Unidos.

ABr – O senhor disse que políticas como a isenção do IPI têm fôlego curto. Por que os governos optam por medidas para a indústria automobilística, a despeito dos problemas ambientais e dos problemas de saúde? Não há outros setores com maior empregabilidade?

Antunes – O Brasil é uma triste repetição de governos que representam os interesses dominantes. Por que que a indústria automobilística joga pesado? Porque seu lobby é decisivamente forte, assim como os bancos também o são. Os governos olham para o capital, para o setor produtivo e financeiro, de um modo muito diferente de como olham para o trabalho. Os trabalhadores só conseguem alguma medida em seu favor quando lutam de forma consciente. Como muitas centrais sindicais, hoje, estão prisioneiras de política oficiais, trabalhadores e sindicatos de base perderam força. Muitas das centrais oscilam em defender a política do governo e defender os trabalhadores. Mas sabemos que as conseqüências para o desemprego, quando a indústria automobilística entra em recessão, são graves. Se reduz o emprego nessa indústria aumenta o nível geral de desemprego porque a cadeia produtiva atinge o fornecedor, toda a rede de autopeças, que existe em função da montagem do sistema automotivo.

ABr – E quanto à sustentabilidade?

Antunes – Se voltarmos a produzir, recuperaremos o emprego da indústria automobilística e de sua cadeia produtiva, mas aumentam os níveis de destruição ambiental e de poluição global. Se tivermos a retração do emprego, o desemprego aumenta a barbárie social. Atividades que são profundamente positivas na medida em que preserva a sociedade, pela via reciclável, daquela tendência do capitalismo de destruir as mercadorias para produzir outras, são subvalorizadas e não recebem incentivos. Isso nos faz ter que pensar um novo modo de vida e de produção para o século 21. Vamos querer viver eternamente nesse sistema que exclusão, precarização, informalidade, desemprego e barbárie social são o predominante?

ABr – As características desse sistema é que constituem a atual morfologia do trabalho, tratada em um dos novos artigos de seu livro Adeus Trabalho?, relançado agora?

Antunes – O meu livro foi, desde sua primeira edição (em 1995), uma resposta à tese do fim do trabalho e de que a classe trabalhadora não tinha mais sentido. O que venho mostrando desde então é que é preciso compreender quem é a classe trabalhadora de hoje. Temos trabalhadores no telemarketing que não existiam antigamente, de hipermercados, motoboys. Temos uma nova morfologia, um novo desenho. Não é que acabou o trabalho, e muito menos as possibilidades da revolução do trabalho. A nova morfologia é para não ter uma visão restrita da classe trabalhadora como apenas os operários metalúrgicos.

ABr – Essas idéias do fim do trabalho foram apropriadas pelas correntes de ciência social aplicada que defendiam a chamada qualidade total, a eficiência e o aumento da produtividade. Essas melhorias não foram benéficas à sociedade?

Antunes – Esse conjunto de medidas nasceram no Japão e depois se ocidentalizaram. Esses processos tiveram como resultado o aumento da produtividade e dos ganhos do capital, maiores lucros das empresas e crescimento do desemprego. Com esse processo de liofilização, digo utilizando um termo cunhado pelo sociólogo espanhol Juan Jose Castillo, as empresas passaram a produzir dez vezes mais com cinco vezes menos trabalhadores. Quem perdeu foi o pedaço da humanidade que depende do trabalho. Foi aí que o desemprego estrutural, em escala planetária, aumentou. O problema é que as pessoas afetadas hoje estão no desemprego, informalidade, precarização, narcotráfico, economia do crime.

ABr – O que o senhor acha da proposta de banco de horas para evitar o desemprego atual, visando uma extensão de jornada no futuro?

Antunes – É ruim, descalibra a vida dos trabalhadores. Fiz uma pesquisa há alguns anos analisando essa situação e havia trabalhadores que não teriam férias nos três anos seguintes. Significa que o trabalhador nunca vai poder ter férias programadas, vai estar sempre devendo. Por que os trabalhadores têm que pagar o ônus de uma crise sobre a qual não têm nenhuma responsabilidade?

ABr – Em um dos artigos da última edição de Adeus Trabalho?, o senhor afirma que “a crise penetra no centro dos países capitalistas, numa intensidade nunca vista anteriormente”. A atual crise é pior que de 1929?

Antunes – A crise atual é diferente, e seu espectro é de mais intensidade. A crise de 1929 ainda foi herança de um período cíclico: ciclo de expansão e ciclo de crise. Há pensadores muito qualificados que dizem que desde o fim dos anos 1960 entramos em uma crise estrutural de longa duração, na qual não teremos mais aqueles ciclos. É uma longa fase depressiva, onde não há mais como equacionar dentro da lógica do capital a destruição ambiental e não tem como atender toda a humanidade que precisa trabalhar para sobreviver. Estamos em um buraco de proporções razoáveis. Isso não quer dizer, no entanto, que estamos no fim do capitalismo.

ABr – O senhor diz que o socialismo não morreu. Que projeto a classe trabalhadora pode ter neste cenário?

Antunes – Se há um pensador que ressurge das cinzas com vigor explosivo neste momento é o Karl Marx. Nenhum pensador chegou perto de análise crítica do (livro) O Capital (de 1867). Um texto escrito há 150 anos se mostra atual, ainda que o capitalismo tenha mudado bastante. No Manifesto Comunista (de Karl Marx e Frederich Engels, de 1848) já estava escrito que o capitalismo precisa de um mercado global. Assim como não há capitalismo em um só país não há socialismo em um só país. As revoluções socialistas do século 20 foram derrotadas, mas àqueles que disseram que o socialismo acabou eu provocaria dizendo que o socialismo não pôde começar. O século 21 é um laboratório em ebulição.

domingo, 26 de abril de 2009

Se ouvir "dá-lhe porco", fuja correndo

Está no site do El País:

Los casos sospechosos de gripe porcina en España se elevan a ocho
El último caso es el de una joven, que regresó de Cancún, hospitalizada en Algeciras (Cádiz)

Já estão dizendo por aí que esta epidemia de "gripe porcina" tem o dedo do Wanderley Luxemburgo. Ok, deve ser maldade de corintiano, mas não deixa de ser incrível perceber como tem palmeirense mundo afora: México, Canadá, Estados Unidos, Espanha, a gripe se espalha em uma velocidade estonteante... Por fim, não é por nada, não, mas é sempre bom lembrar que o governador José Serra (PSDB) é palmeirense roxo.

Pausa esportiva

Sim, agora ficou quase impossível. O paulistinha está nas mãos do Corinthians, só um milagre fará o Santos marcar três vezes e não tomar nenhum em pleno Pacaembu lotado por um bando de loucos, aquele bando de loucos.

Quase, no entanto, também é só mais um detalhe, como diria o Rei. E Deus está nos detalhes. Este blog é agnóstico, ateu, mas tem uma quedinha por milagres. Se na próxima semana os deuses do gramado fizerem justiça, os meninos da Vila calarão o Pacaembu.

De fato, nada seria mais lindo do que um três a zero com gols de Madson, Neymar e Fabão (o Kléber Pereira não merece marcar nenhum...), o silêncio certamente faria eco ao da final de 1950 no Maracanã, quando o Brasil perdeu de 2 a 1 para o Uruguai. Pois é, a vida sem sonhos é mesmo muito chata, então nada como sonhar um pouco: avante, Peixe!

Lei Afonso Arinos para Veja

Abaixo, título, linha fina e o lide de reportagem (?) da revista Veja sobre o bate boca no Supremo Tribunal Federal:

O DIA DE ÍNDIO DE JOAQUIM BARBOSA

A descompostura quase provoca uma crise institucional no STF por causa do destempero de Joaquim Barbosa – justo ele, um ministro símbolo de coragem, cultura, inteligência e elegância

Em 200 anos de existência, o Supremo Tribunal Federal (STF) nunca testemunhara uma explosão de temperamento tão perturbadora. Na semana passada, durante uma rude discussão sobre a aposentadoria de servidores do Paraná, o ministro Joaquim Barbosa atacou o presidente Gilmar Mendes com uma série de acusações sem fundamento que ele leu em algum panfleto partidário. Joaquim Barbosa, culto, elegante, inteligente e corajoso relator do processo do mensalão, teve seu "dia de índio" – aquele costume civilizadíssimo de certas tribos do Xingu que concede a cada guerreiro um dia por ano em que ele pode gritar e ofender quem quiser sem sofrer retaliações.

Os leitores do blog com conhecimentos sólidos de Direito poderiam esclarecer: cabe a aplicação da Lei Afonso Arinos ao autor da matéria? Ok, o departamento jurídico da revista deve ter analisado o caso, mas que há no mínimo insinuação de racismo parece não haver muita dúvida.

sábado, 25 de abril de 2009

Dilma: considerações humanas e políticas

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, confirmou neste sábado que está lutando contra um câncer linfático. Terá que fazer quimioterapia por pelo menos quatro meses e, segundo os médicos que a assistem, o prognóstico é bom. Dilma afirmou que vai continuar trabalhando no mesmo ritmo durante o período de tratamento.

Dilma Rousseff é boa de briga e já enfrentou coisa mais pesada do que um linfoma no passado. Este blog aposta na rápida recuperação da ministra, que hoje é a preferida do presidente Lula para disputar a eleição presidencial de 2010.

A doença, no entanto, tem, sim, implicações políticas, não dá para tapar o sol com a peneira. Dilma não é uma "petista autêntica", integrava o PDT até 1999, quando deixou a legenda e se filiou ao Partido dos Trabalhadores. A pré-candidatura da ministra à presidência está fortemente ancorada no apoio de Lula, muito mais do que nas instâncias partidárias. Ainda assim, atualmente ninguém ousa, dentro do PT, a dizer que o partido pode ter outro candidato à presidência que não Dilma. Com a doença agora tornada pública, é possível e provável que o debate sobre nomes alternativos comece a acontecer, ainda que em tom baixo e sem muito alarde – mesmo que a ministra se recupere rapidamente e fique totalmente saudável, é natural que seja assim.

Na verdade, o grande problema do PT hoje é que a agremiação não tem um "sucessor natural" para o presidente Lula. Dilma ganhou força durante os seis anos de governo – está na equipe desde 2003 – e se consolidou como candidata, mas o fato é que todos os demais nomes aventados estão dois patamares abaixo. Marta Suplicy perdeu força com a derrota na eleição do ano passado, Tarso Genro se enrola para explicar as operações da Polícia Federal, os governadores petistas são de Estados periféricos e têm pouca visibilidade nacional, enfim, não existe um nome alternativo para a disputa presidencial. Na verdade, há um nome, sim, mas a legislação atual não permite que ele dispute o pleito – um tal de Luiz Inácio Lula da Silva.

Tudo somado, a doença que Dilma Rousseff começa a enfrentar com a braveza e garra que lhe são características pode ter alguns efeitos na política nacional. Em um primeiro momento, pouca gente vai falar nisto, mas o linfoma de Dilma já entrou na pauta política. A própria ministra, por sinal, poderá se beneficiar com a publicidade que se vai dar ao caso. E, vencendo o câncer, Dilma poderá se apresentar em 2010 como uma guerreira a quem dificuldade nenhuma abate. Um bom perfil para gerenciar uma crise sem precedentes na história do capitalismo...

No fundo, este episódio serve para mostrar aos analistas mais apressados que a política, como a vida de todos nós, tem um ritmo próprio e que nem sempre é possível antecipar todos os lances. Falta pouco mais de um ano para a eleição de 2010 - 17 meses, exatamente. Parece pouco tempo, mas é muito. Um mundo de coisas vai acontecer até lá. De resto e por fim, o Entrelinhas está de dedos cruzados e na torcida pela pronta recuperação de Dilma Rousseff.

Folha publicou ficha falsa de Dilma

A Folha de S. Paulo reconheceu neste sábado que publicou, na edição de 5 de abril, junto com reportagem que tratava de um suposto plano para sequestrar o então ministro Delfim Netto, um documento falso sobre a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. O reconhecimento do jornal é boa notícia, mas poderia ter sido mais elegante. "Autenticidade de ficha de Dilma não é provada", diz o título da matéria reproduzida abaixo. Ora, o jornal informa que a ficha publicada foi recebida por e-mail, está no site ultradireitista Ternuma e não existe no Arquivo Público do Estado de São Paulo, onde estariam guardados os documentos do Dops. O correto, portanto, seria dizer que a ficha é falsa, pura e simplesmente. O reconhecimento envergonhado do erro só piora as coisas para a Folha, que por sinal não deu o mesmo espaço para desfazer o equívoco do que ele mereceu na edição de 5 de abril, quando teve chamada na primeira página do jornal. Errar é humano, reconhecer o erro é obrigação de quem erra. Com igual espaço e destaque, de preferência.

Além da questão do espaço, cabe notar que a Folha marotamente publicou, abaixo da matéria sobre o erro da ficha, uma reportagem sobre a "volta" de Delúbio Soares ao PT. Cabia ali, claro, Dilma também é petista, mas é impossível não perceber a mão leve da editorialização do noticiário. É quase como se a Folha dissesse: "errei, mas este PT não presta mesmo...".

Autenticidade de ficha de Dilma não é provada

Folha tratou como autêntico documento, recebido por e-mail, com lista de ações armadas atribuídas à ministra da Casa Civil

Reportagem reconstituiu participação de Dilma em atos do grupo terrorista VAR-Palmares, que lutou contra a ditadura militar

DA SUCURSAL DO RIO

A Folha cometeu dois erros na edição do dia 5 de abril, ao publicar a reprodução de uma ficha criminal relatando a participação da hoje ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) no planejamento ou na execução de ações armadas contra a ditadura militar (1964-85).

O primeiro erro foi afirmar na Primeira Página que a origem da ficha era o "arquivo [do] Dops". Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada -bem como não pode ser descartada.

A ficha datilografada em papel em tom amarelo foi publicada na íntegra na página A10 e em parte na Primeira Página, acompanhada de texto intitulado "Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto".

Internamente, foi editada junto com entrevista da ministra sobre sua militância na juventude. Sob a imagem, uma legenda ressaltou a incorreção dos crimes relacionados: "Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu".

O foco da reportagem não era a ficha, mas o plano de sequestro em 1969 do então ministro Delfim Netto (Fazenda) pela organização guerrilheira à qual a ministra pertencia, a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Ela afirma que desconhecia o plano.

Em carta enviada ao ombudsman da Folha anteontem, Dilma escreve: "Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30 de março (...) a matéria publicada tinha como título de capa "Grupo de Dilma planejou sequestro do Delfim". O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de "factóide", uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha."

A reportagem da Folha se baseou em entrevista gravada de Antonio Roberto Espinosa, ex-dirigente da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e da VAR-Palmares, que assumiu ter coordenado o plano do sequestro do ex-ministro e dito que a direção da organização tinha conhecimento dele.

Três dias depois da publicação da reportagem, Dilma telefonou à Folha pedindo detalhes da ficha. Dizia desconfiar de que os arquivos oficiais da ditadura poderiam estar sendo manipulados ou falsificados.

O jornal imediatamente destacou repórteres para esclarecer o caso. A reportagem voltou ao Arquivo Público do Estado de São Paulo, que guarda os documentos do Dops. O acervo, porém, foi fechado para consulta porque a Casa Civil havia encomendado uma varredura nas pastas. A Folha só teve acesso de novo aos papéis cinco dias depois.

No dia 17, a ministra afirmou à rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, que a ficha é uma "manipulação recente".

Na carta que enviou ao ombudsman, Dilma escreveu: "Solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 5.abr.2009. Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de S. Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob tortura ou não, sobre aqueles fatos."
A ministra escreveu ainda: "O mais grave é que o jornal Folha de S.Paulo estampou na página A10, acompanhando o texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site www.ternuma.com.br ("terrorismo nunca mais"), atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa."

Fontes
Dilma integrou organizações de oposição aos governos militares, entre as quais a VAR-Palmares, um dos principais grupos da luta armada. A ministra não participou, no entanto, das ações descritas na ficha. "Nunca fiz uma ação armada", disse na entrevista à Folha de 5 de abril. Devido à militância, foi presa e torturada.

Na apuração da reportagem do dia 5, o jornal obteve centenas de documentos com fontes diversas: Superior Tribunal Militar, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Arquivo Público Mineiro, ex-militantes da luta armada e ex-funcionários de órgãos de segurança que combateram a guerrilha.

Ao classificar a origem de cada documento, o jornal cometeu um erro técnico: incluiu a reprodução digital da ficha em papel amarelo em uma pasta de nome "Arquivo de SP", quando era originária de e-mail enviado à repórter por uma fonte.

No arquivo paulista está o acervo do antigo Dops, sigla que teve vários significados, dos quais o mais marcante foi Departamento de Ordem Política e Social. Na ditadura, era a polícia política estadual.

Entre as imagens reproduzidas pelo arquivo, a pedido da Folha, não estava a ficha. "Essa ficha não existe no acervo", diz o coordenador do arquivo, Carlos de Almeida Prado Bacellar. "Nem essa ficha nem nenhuma outra ficha de outra pessoa com esse modelo. Esse modelo de ficha a gente não conhece."

Pelo menos desde novembro a ficha está na internet, destacadamente em sites que se opõem à provável candidatura presidencial de Dilma.

O Grupo Inconfidência, de Minas Gerais, mantém no ar uma reprodução da ficha. A entidade reúne militares e civis que defendem o regime instaurado em 1964. Seu criador, o tenente-coronel reformado do Exército Carlos Claudio Miguez, afirma que a ficha "está circulando na internet há mais de ano". Sobre a autenticidade, comentou: "Não posso garantir. Não fomos nós que a botamos na internet".

Pesquisadores acadêmicos, opositores da ditadura e ex-agentes de segurança, se dividem. Há quem identifique indícios de fraude e quem aponte sinais de autenticidade da ficha. Apenas parte dos acervos dos velhos Dops está nos arquivos públicos. Muitos documentos foram desviados por funcionários e hoje constituem arquivos privados.

Mais um escândalo no Congresso

Apareceu nesta sexta-feira mais um escândalo com potencial de causar grandes estragos no Congresso Nacional. A matéria da Agência Estado, reproduzida abaixo, trata apenas do Senado, mas na Câmara não deve ser muito diferente. A eleição dos peemedebistas José Sarney e Michel Temer destampou uma caixa de Pandora do Congresso Nacional que não será tampada tão cedo. Ao contrário do mito grego em que a Esperança ficou no fundo do baú, neste caso foi a Ética que não conseguiu deixar a caixa. A cada dia que passa, os brasileiros acordam mais estarrecidos com as mamatas do legislativo federal. Ou senadores e deputados entendem que precisam explicar este tipo de coisa ou qualquer hora dessas alguém joga uma bomba no Congresso Nacional. Não terá sido por falta de aviso.

Seis meses no Senado garantem plano de saúde familiar vitalício

Benefício dos 81 senadores e 310 ex-parlamentares custa R$ 17 milhões por ano à Casa

Eugênia Lopes e Rosa Costa, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Os 310 ex-senadores e seus familiares pensionistas custam pelo menos R$ 9 milhões por ano, cerca de R$ 32 mil por parlamentar aposentado. Detalhe: para se tornar um ex-senador e ter direito a usar pelo resto da vida o sistema de saúde bancado pelos cofres públicos é preciso ocupar o cargo por apenas seis meses. Antes de 1995, a mordomia era ainda maior: bastava ter ficado na suplência por apenas um dia.

No total, os 81 senadores da ativa e os 310 ex-senadores e seus pensionistas usufruem de um sistema privilegiado de saúde que consome cerca de R$ 17 milhões por ano. Os parlamentares da ativa e seus familiares não têm limite de despesas com saúde: em 2008, gastaram cerca de R$ 7 milhões - R$ 80 mil por senador.

No ano passado, os gastos globais do Senado com saúde para parlamentares e servidores foram de R$ 70 milhões. O Senado não divulga, no entanto, o valor dessas despesas apenas com senadores. O diretor-geral, Alexandre Gazineo, alega que precisa de "tempo" para obter esses dados.

O Estado apurou que, em 2008, o Senado gastou cerca de R$ 53 milhões com a saúde de 18 mil servidores efetivos e comissionados, entre ativos e inativos. Ao contrário dos senadores, que não descontam um tostão para ter todas as despesas de saúde pagas, os servidores em atividade e inativos têm descontados, em média, R$ 260 por mês. O custo de cada servidor ao ano é de cerca de R$ 3 mil.

Para este ano, a previsão feita no Orçamento estabeleceu R$ 61 milhões para arcar com a saúde dos senadores e servidores. Na quinta-feira, o Senado anunciou contingenciamento de R$ 25 milhões nas despesas médicas e odontológicas. Ou seja: o orçamento de 2009 deverá ficar em R$ 36 milhões. A área técnica do Senado está convicta de que o corte recairá integralmente sobre a saúde dos servidores. Os senadores continuarão com as despesas ilimitadas.

Técnicos começaram a fazer estudo para compensar o corte no orçamento deste ano no plano de saúde dos servidores. Uma das hipóteses é aumentar a contribuição dos funcionários. Atualmente, existem 262 servidores e funcionários comissionados em tratamento de câncer à custa do Senado. Diante do anúncio de contingenciamento, 18 famílias procuraram a direção do Senado nas últimas 24 horas para saber se serão atingidas com o corte de gastos.

O pagamento das despesas médicas de senadores, ex-senadores e dependentes é regulamentado pelo Ato nº 9, de 8 de junho de 1995. A norma prevê que o Senado arca com todas as despesas dos senadores, sem limites. Estabelece até o pagamento de cirurgias e tratamento médico no exterior. Tudo tem de ser autorizado pela Mesa Diretora, que raramente nega o pedido de gastos médicos.

O limite de R$ 32 mil de gastos anuais para ex-senadores, aliás, é frequentemente ignorado. É o caso, por exemplo, do ex-senador Reginaldo Duarte (PSDB-CE) - ele recebeu R$ 45.029,02 de ressarcimento em gastos médicos, em fevereiro deste ano. Levantamento feito no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi) pelo site Contas Abertas mostra que o ex-senador Carlos Wilson (PT-PE), que morreu no início de abril, recebeu R$ 114.513,49, no ano passado.

"Isso deve referir-se a gastos com saúde", disse o primeiro-secretário do Senado, Heráclito Fortes (DEM-PI). Carlos Wilson foi senador até o início de 2003, quando deixou o Congresso e assumiu a presidência da Infraero. Em 2006, ele se elegeu para a Câmara, onde passou usufruir do direito de ter as despesas de saúde custeadas. "Ele teve ressarcimento de despesas de médicas. Mas não sei dizer quanto foi", afirmou o segundo-vice-presidente da Câmara, ACM Neto (DEM-BA).

Além dos senadores e ex-senadores, a regalia de atendimento médico vitalício também é estendida aos servidores que ocuparem o cargo de diretor-geral e secretário-geral da Mesa. Essa mordomia, criada em 2000, beneficia hoje Agaciel Maia, que deixou o cargo em março por não ter registrado em seu nome a casa onde mora, avaliada em R$ 5 milhões. Outro favorecido é Raimundo Carreiro, hoje ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).

RAIO X
Balanço das despesas com saúde senadores e ex-senadores

Parlamentares

81 senadores não têm limites de gasto com saúde. Basta apresentar a nota com a despesa
Eles não têm desconto para usufruir do sistema de saúde
O Senado gasta cerca de R$ 7 milhões por ano com esse sistema
A previsão orçamentária estabelece ao menos R$ 80 mil por ano para gastos de saúde de cada senador e dos seus familiares. Ou seja, cerca de R$ 7 mil por mês
Há verba de R$ 25 mil ao ano para tratamento psicológico e dentário dos senadores e familiares

Ex-parlamentares
310 ex-senadores e pensionistas que têm direito vitalício ao pagamento de saúde financiado pelo Senado
No ano passado, 112 ex-senadores pediram ressarcimento de gastos médicos. Entre eles, Carlos Wilson, que morreu no início do mês, e Jamil Haddad
Os ex-senadores e suas famílias também não contribuem para ter direito ao sistema de saúde
A estimativa é de que o Senado gaste de R$ 9,6 milhões por ano com o pagamento de despesas de saúde de ex-senadores e pensionistas
Os gastos com saúde de ex-senadores estão limitados a R$ 32 mil por ano - R$ 2,6 mil mensais, incluídas despesas com tratamento odontológico e psicológico