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Dines: vazamentos, furos e precipitação

Mestre Alberto Dines concorda com o humilde blogueiro que assina estas Entrelinhas. Como se pode ler abaixo, ele também acha que a Folha de S. Paulo comeu bola na manchete de quarta-feira, em que praticamente culpava o piloto pelo desastre com o Airbus da TAM.
Antes bem acompanhado do que só!


Comentário para o programa de rádio do Observatório da Imprensa, 2/8/2007

A publicação de notícias protegidas por sigilo é geralmente justificada. O dever do jornalista é informar, é isso que o leitor espera dele. Em casos como o da catástrofe com o Airbus da TAM este dever torna-se imperioso, inadiável: o país está de luto, a sociedade está angustiada e muitos mortos continuam insepultos.

O jornalista Fernando Rodrigues obteve novos dados extraídos das gravações da caixa-preta do jato e na quarta-feira (1/8) o seu jornal, a Folha de S.Paulo, abriu uma manchete que tomou conta do noticiário da manhã: "Caixa preta indica erro do piloto".

Efetivamente aconteceu alguma coisa errada com os manetes que controlam as turbinas do avião. Isso já fora antecipado na quarta e quinta-feira da semana passada e depois repetida pela revista Veja. Os novos dados obtidos por Fernando Rodrigues reforçam a hipótese do problema nos manetes, mas não esclarecem por que foram acionados erradamente.

Na mesma quarta-feira, à tarde, depois da enorme repercussão da sua matéria na CPI do apagão áereo, o jornalista Fernando Rodrigues amenizou o julgamento; numa entrevista à UOL News, declarou: "Suspeitas recaem agora sobre o Airbus e a TAM" e completou: "A responsabilidade dos pilotos é difusa". No fim da tarde, o título da sua entrevista no mesmo site dizia: "Caixa-preta não isenta TAM e Airbus".

De onde se conclui que o vazamento é legítimo, mas o julgamento precipitado não é.

Comentários

  1. Ouvi rumores de que será iniciada uma investigação para determinar quem vazou a transcrição da caixa-preta para o Fernando Rodrigues. Uma coisa é clara, não foi ninguém ligado à CPI. Na minha opinião especialista baseada em mais de trinta anos como tradutor, a versão vazada ao Fernando Rodrigues estava em *português*, enquanto que a da CPI era a tradução americana da transcrição em português, ou uma transcrição feita diretamente em inglês, "traduzida" pela Luciana Genro.

    Por que foi entregue à CPI uma versão em inglês da transcrição? Onde está a versão em português que foi "vazada" para o jornalista?

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  2. O F Rodrigues deve tê-la recebido traduzida, ou a traduziu, porque a fala original dos pilotos só pode ser ouvida com o auxílio de um software especial.E o "tradutor" nem se deu conta do problema implícito na frase em inglês "It can't", sugerindo que o equipamento do avião não faz o que devia (it é neutro, refere-se ao equipamento, não ao piloto), não que o piloto afirma "não consigo" (ele diria "I can't" (eu não consigo).Ou seja, a ser fiel a tradução das frases em portugês realizada nos Estados Unidos, o piloto erstá indicando uma falha no equipamento automático do avião, não uma ação inadequação dele.

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  3. "It can't" é tão pouco natural em inglês que só pode ser tradução de "não dá" -- o tradutor americano, não com muita competência, tentou manter a neutralidade de "não dá" e produziu um monstrengo semântico que deve guinchar no ouvido deles.

    Já o contrário é praticamente impossível. Somente um tradutor brasileiro com poderes paranormais conseguiria fazer de "it can't" algo tão natural como "não dá". Eu mesmo, que trabalho com isto profissionalmente e em tempo integral desde 1972, não tenho a certeza de que, diante de "it can't", conseguiria lembrar de "não dá" -- é provável que não. Portanto, ou o FR é um tradutor paranormal ou a transcrição em português existe. Aliás, sabendo como são feitas as degravações de línguas estrangeiras (fiz isto em um período de vacas magras para o Itamaraty), eu diria que o tradutor americano trabalhou com base em uma transcrição portuguesa, não ouvindo e traduzindo diretamente. Ainda mais agora, que os programas de reconhecimento e transcrição de voz são tão comuns que chegam a ser distribuídos de graça.

    Sou categórico: o FR fez a reportagem dele com base numa transcrição em português. Toda essa história do "vazamento" está com um cheiro cada vez mais podre de armação.

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