quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Jorge Rodini: crise, que crise?

Em nova colaboração para o blog, Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia de pesquisas, analisa as consequências das turbulências no mercado financeiro internacional para o Brasil. A seguir, a íntegra do comentário:

A turbulência no mercado imobiliário americano já está servindo de lição para economistas, jornalistas econômicos, ministros, ex-ministros, consultores financeiros e até para o nosso presidente Lulaflon.

Segundo esses gurus, a tal crise americana de farto crédito e muito risco não afetaria o Brasil, pois o país verde-amarelo tem um excesso de reservas internacionais, sólida base econômica, balança comercial excepcional, estando descolado do olho do furacão americano.

É óbvio que estamos diante de mais uma bravata nacionalista. Todos seremos afetados pela crise americana, em maior ou menor escala. Acabou-se a era do crédito fácil em nível mundial. Essa inadimplência do americano comum pode ter sido proveniente da alta de juros na maior potência do Mundo, que vai levá-lo ao menor consumo, inclusive de produtos asiáticos. Assim, os tigres ficarão menos famintos... e seus investimentos provalvelmente irão encolher.

Ao mesmo tempo, investidores internacionais tendem a retirar suas aplicações nos países emergentes (leia-se Brasil) para arrefecer suas perdas nos mercados principais. Neste mesmo espaço temporal, a inflação americana pode começar a ficar fora de controle, minimizando a probabilidade de queda substancial nos juros, que estimularia a retomada do crescimento e minimizaria as novas inadimplências. Quem está pagando em dia começa a cortar o consumo e estoque de outros bens para se precaver.

Espero que este ciclo todo não de concretize, mas que é possível, é. Os gurus sempre querem se antecipar, mas se esquecem de estudar a história. As crises, no mundo de hoje, propagam-se numa velocidade de internet.

Devemos ter muito cuidado com estes rompantes. A crise existe e tem que ser muito bem administrada, tanto pelos bancos centrais europeus e americano, e muito mais pelos governos, inclusive pelo nosso.

Perdemos a onda mundial de excepcional crescimento e agora podemos afundar neste maremoto. Passou da hora de governar.

Como dizia um velho amigo meu, ao invés de se aventurar por mares nunca dantes navegados, devemos todos " por a bóinha e vir para o raso", especialmente nossos gurus.

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