terça-feira, 30 de junho de 2009

Bovespa tem o melhor trimestre desde 2005

A oposição anda nervosinha e tem gente que não entende a razão. Está no título acima. Sim, a economia brasileira está andando, para frente, melhor do que boa parte dos demais países - todos, sem exceção, foram afetados pela crise nos Estados Unidos. Uns sofrem mais, outros sofrem menos. O Brasil parece mesmo estar no segundo time.

Ademais, se as coisas continuarem nesta toada, o presidente Lula poderá dizer, em 2010, que estava certo: a crise não passou de uma marolinha e durou pouco. A oposição apostava na crise econômica para derrubar a popularidade de Lula. Já viu que a aposta era uma canoa furada. No momento, o candidato mais forte da oposição à presidência, o governador José Serra (PSDB), aproveita seu tempo livre falando do Palmeiras no Twitter. A rigor, é das poucas manifestações públicas que se pode encontrar do ilustre ocupante do Palácio dos Bandeirantes. De vez em quando Serra finge que está bravo é dá um pau no Meirelles, o ex-tucano que cuida da taxa de juros no país. É a única crítica que Serra consegue oferecer - "os juros são altíssimos, escorchantes" e coisa e tal. Começa a lembrar o Brizola de antigamente, que vinha sempre com aquela conversa das perdas internacionais...

O fato é que o Brasil mudou. Como lembrava um amigo desta coluna, em 1985 Tancredo Neves dizia: "não vamos pagar a dívida externa com a fome do povo brasileiro". O Brasil estava à beira do precipício, em termos econômicos. Hoje, o Brasil pagou a dívida, empresta para os gringos, e o povão está comendo bem melhor. Vai ser difícil para Serra ou qualquer outro representante da oposição explicar que essas coisas na verdade foram todas planejadas minuciosamente por um gênio da raça chamado Fernando Henrique Cardoso e que o seu sucessor barbudo só surfou no que já havia sido montando. Mentira, como se sabe, tem pernas curtas. O povão pensa fácil: minha vida melhorou? Pois é, parece que sim. É isto que dá voto e prestígio a Lula.

Já no andar de cima o presidente habilmente construiu uma base de apoio ao não colocar a faca no pescoço dos que já acumularam renda e patrimônio para viver meia dúzia de gerações sem trabalhar. Essa gente estava assustada em 2002, afinal Lula poderia ser uma espécie de vingador do povaréu. Como o presidente é apenas um homem da esquerda moderada, os suspiros de alívio se transformaram menos em apoio entusiasmado e mais em uma postura de "melhor com ele do que com os aloprados petistas no comando".

É, vai ser parada muito dura para Serra ou qualquer outro candidato da oposição. Se bobear, a eleição repete o padrão de 2006, quando Alckmin investiu no neoudenismo, conquistou uma classe mérdia que jamais engoliu o ex-operário, e o resto vai de Dilma ou quem Lula beijar a testa. Pode até ser mais complexo do que isto, mas hoje a tendência é de que as coisas se resolvam com muita simplicidade. A ver...

Sarney subiu no telhado

O DEM decidiu apoiar o "licenciamento" de José Sarney do cargo de presidente do Senado durante um período destinado à investigação das falcatruas na Casa. Não foi um abandono completo, mas os democratas avisaram, com a sutileza que são capazes, que o gato subiu no telhado. O gato, no caso Sarney, pode até ter sete vidas, mas uma delas está por um fio. Resta agora saber como o PT vai agir. Se puxarem o tapete do ex-presidente da República, sobra apenas o PMDB na sua sustentação. É muito pouco.

O DEM continuará a apoiar Sarney?

A grande decisão política de hoje cabe ao partido Democratas, que se reunirá em Brasília para decidir se continua apoiando o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Como se sabe, o DEM foi diretamente responsável pela eleição de Sarney, pois PSDB e PT estavam fechados com Tião Viana e havia defecções no PMDB - alguns votos foram para Tião. É uma situação até surreal: Sarney é governista e inimigo de José Serra (PSDB), o candidato a presidente preferido por nove entre dez democratas para a eleição de 2010. No entanto, o DEM elegeu e até agora sustenta Sarney no cargo. Por que? A razão é simples e tem a ver com o perfil do partido, constituído por oligarcas de vários estados, especialmente na região nordeste (mas também em Santa Catarina, onde Jorge Bornhausen sempre agiu como um autêntico coronoel). Ou seja, os nobres parlamentares "demos" são iguaizinhos a José Sarney, praticamente não se distinguem, são unha e carne. É claro que em uma congregação de oligarcas, muitas vezes há disputa de interesses - foi assim quando Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho só faltaram ir às vias de fato no plenário do Senado - mas em geral essa gente se acerta. A situação de Sarney é complicada e o apoio do DEM, fundamental. Se perder esta sustentação, o presidente do Senado passa a correr riscco real de perder o cargo. Se o DEM continuar apoiando, Sarney pode durmir tranquilo. Não será um Arthur Virgílio da vida a derrubá-lo da cadeira de presidente da Casa.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Em que tucano confiar: Aécio ou Virgílio?

A nota reproduzida ao final deste comentário é do blog do jornalista Josias de Souza. Enquanto o senador Arthur Virgílio (PSDB-AP) xingava de coisas bem feias o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o governador Aécio Neves, correligionário de Virgílio, assoprava. Qual a diferença entre Aécio e Virgílio? Bem, uma diferença notável é a quantidade de votos de cada um. Aécio se reelegeu governador de Minas Gerais com mais de 60%, Virgílio perdeu o governo do Amazonas com menos de 10%. A outra é de estilo. Aécio faz política desde muito jovem, sempre agregando, sempre dialogando. Herança de seu avô Tancredo.

Arthur Virgílio é o oposto do hábil mineiro, age com o fígado, já prometeu "dar uma surra" no presidente Lula. Sua patética performance no Senado nesta segunda-feira e a prova cabal da falta de talento do líder tucano, que muito disse e pouco explicou. Afinal, qual foi o valor que emprestou de Agaciel Maia? Quem pagava a internação hospitalar da mãe do senador amazonense? E vai devolver os R$ 700 mil gastos no tratamento daquela senhora?

No fundo, política é sempre uma questão de estilo. Aécio está revelando a sua, é alguém com quem dá para sentar e conversar civilizadamente. De Arthur Virgílio, melhor guardar distância. Resta saber o que José Serra acha de tudo isto. Se bem que ultimamente o governador de São Paulo não acha nada sobre coisa alguma. Pelo menos não em público.

Abaixo a matéria do blog do Josias.

Aécio Neves destoa do PSDB e defende José Sarney

Num dia em que Arthur Virgílio (PSDB-AM) subiu à tribuna para pedir o afastamento de José Sarney, o governador tuano Aécio Neves remou noutra direção.
Em entrevista, Aécio disse que o Senado “tem problemas”. Mas afirmou ter “convicção” de que Sarney “saberá enfrentá-los”.
O governador mineiro não chegou a dizer que Sarney não pode ser tratado como “uma pessoa normal”, mas chegou perto disso:
Acha que Sarney "teve um papel muito importante no momento talvez mais importante das últimas décadas”. Que momento? “A transição democrática”.
A prevalecer esse entendimento, inaugurado por Lula, Sarney disporia de anistia prévia, concedida pela história, contra qualquer acusação que se lhe faça.

PS em 30/06: Um leitor amigo do blog lembra que foi ACM Neto e não Arthur Virgílio que prometeu "dar uma surra" no presidente Lula. É verdade. Virgílio foi um pouquinho mais sutil, disse o seguinte no final de 2005: "Eu duvido que tenha neste país, uma pessoa - pode ser o Presidente Lula, o Delúbio, o segurança do Lula, qualquer um- alguém que tenha coragem ousadia física de fazer mal a filho meu, à minha esposa sem que eu cobre do jeito que eu achar que eu devo como homem uma resposta muito drástica para uma afronta desse tipo. (...) Se isso é uma tática para intimidar aqui e intimidar acolá, eu já disse ainda há pouco que mexer comigo com meus valores, sobretudo envolvendo minha família é tão grave e dá uma confusão tão feia quanto passar a mão no bumbum da namorada do Mike Tyson num bar". Arthur Virgílio se acha um Mike Tyson. Devia lembrar como acabou a carreira do grande campeão.

Uma dupla demolidora

Está lá no Twitter do governador José Serra (PSDB), postado agora pouco:

joseserra_ Às 22h, longa entrevista ao Chalita na TV Canção Nova, canal 96 da Sky. Ou pela internet: www.cancaonova.com.br. Vou contar muita história.
12 minutes ago from web


Se o leitor tem alguma tendência masoquista, gosta de sofrer, este blog aconselha vivamente o programa. Serra sozinho já é complicado, contando "muita história" para o filósofo Gabriel Chalita, então, deve ser mesmo de lascar...

Yeda: uma comédia de erros e horrores

Está no UOL, nem vale a pena reproduzir a íntegra, o lide já basta. Vai o link para quem quiser se aprofundar. É claro que a governadora gaúcha Yeda Crusius (PSDB) não pode ter um bom secretário de Transparência, tudo que ela precisa é do oposto, um encarregado em opacidade, para tentar esconder as falcatruas cometidas com as sobras do caixa dois recolhido na campanha eleitoral. No dia em que ela conseguir explicar a compra da sua mansão (e o valor real da dita cuja), dá para começar a conversar. Transparência, com os tucanos é assim: é bom, però no mucho...

Alegando falta de apoio de Yeda, secretário da Transparência deixa o governo do RS

Flávio Ilha Especial para o UOL Notícias em Porto Alegre

Oito meses depois de assumir a Secretaria da Transparência do Rio Grande do Sul, o secretário Carlos Otaviano Brenner de Moraes está deixando o governo gaúcho. Ele pediu demissão e reclamou da falta de apoio da governadora Yeda Crusius (PSDB) à política de saneamento administrativo.
Na última sexta-feira (26), um relatório elaborado por Moraes recomendou o afastamento da secretária Walna Villarins Meneses, assessora direta da governadora, até que seja apurada a sua participação em episódios investigados pela Polícia Federal na Operação Solidária.
Além do afastamento de Walna, o secretário de Transparência recomendou a abertura de uma sindicância para apurar as denúncias contra a secretária. A governadora não deve acatar a sugestão por considerar inconsistentes as evidências contra a sua assessora. O relatório foi entregue ao chefe da Casa Civil, José Alberto Wenzel.

Crise? Venda de carros será recorde

É até engraçado: vai ter gente dizendo que a crise é gravíssima e o governo está dando sopa para o setor automobilístico. Abaixo, matéria da Folha Online a respeito da redução do IPI e as previsões da indústria.

Com IPI menor, indústria prevê melhor ano da história em venda de veículos

EDUARDO CUCOLO
da Folha Online, em Brasília

O presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Jackson Schneider afirmou nesta segunda-feira que a prorrogação do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) menor para veículos pode garantir à indústria o melhor ano em vendas internas da história. Até o mês passado, a Anfavea previa queda nas vendas.
O executivo não adiantou em quanto pode ser o crescimento. Em 2008, o Brasil registrou vendas internas de 2,820 milhões de unidades.
Para este ano, a previsão da indústria era de queda de 3,9% nas vendas, para 2,710 milhões de veículos. Agora, com IPI menor até dezembro, o desempenho deve ser positivo.
"Se continuarmos nesse ritmo, devemos ter o melhor ano da história", afirmou
Segundo o executivo, o primeiro semestre do ano já apresentou resultados positivos, puxados pelo benefício fiscal. "Devemos fechar o primeiro semestre deste ano com um numero maior de vendas no mercado interno do que fizemos no primeiro semestre de 2008, que já foi recorde", afirmou.
O presidente elogiou as medidas anunciadas pelo governo nesta segunda e disse que estão dando os resultados esperados.
Segundo o presidente da Anfavea, as vendas chegaram a cair cerca de 20% no último trimestre de 2008, em comparação anual, e continuavam caindo.
"Estávamos com mais de 300 mil carros em pátio. Se nós não tivéssemos essa redução de IPI, provavelmente a história da indústria automotiva brasileira em termos de desempenho nesse ano teria sido terrivelmente pior."
Para Schneider, o mercado brasileiro tem demanda reprimida e muito espaço para crescer, e comparou com a Argentina. Segundo ele, no Brasil, a relação é de 8,1 habitantes por veículo. Na Argentina, é de cerca de 5.
Produção
De acordo com a previsão feita antes da prorrogação do IPI, a produção de veículos deveria ficar em 2,860 milhões de unidades em 2009, queda de 11,1% em relação a 2008. A Anfavea ainda não comentou se essa previsão será alterada. Até maio deste ano, a produção atingiu 1,187 milhão de veículos, queda de 14,2% em relação ao mesmo período do ano passado.
O mercado externo ainda é o principal responsável por esse recuo. As exportações de veículos caíram pela metade de janeiro a maio deste ano em relação ao mesmo período de 2008. Para o ano, a Anfavea prevê queda de 39%, para US$ 8,5 bilhões.

Kotscho e a hipocrisia de Serra

Muito bom o texto do jornalista Ricardo Kotscho, em seu blog. Vai abaixo, na íntegra, para os leitores do Entrelinhas.

Serra ataca “loteamento” ao lado de Roberto Freire

O governador José Serra saiu dos seus cuidados neste final de semana e compareceu ao 16º Congresso Estadual do PPS (antigo Partido Comunista Brasileiro, hoje linha auxiliar da aliança PSDB-DEM), em Jaguariúna, no interior de São Paulo, a 134 quilômetros da capital.

Foi e voltou de helicóptero e ficou lá apenas 45 minutos, o suficiente para atacar o governo federal e o PT:

“O PT usa o governo como se fosse propriedade privada. Quando o PT foi para o governo, incorporou esse patrimonialismo do partido. Em São Paulo, não existe esse loteamento governamental, ao contrário do federal”.

Não existe? Serra esqueceu-se que estava ao lado do presidente do PPS, Roberto Freire, suplente do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), atualmente ganhando a vida como membro de dois conselhos municipais em São Paulo, embora seja do Recife e more em Brasília.

Ex-candidato a presidente da República, hoje Freire não se elege nem síndico em sua cidade, mas fatura R$ 12 mil por mes para participar de uma reunião mensal e assinar as atas da Emurb (Empresa Municipal de Urbanismo) e da SP-Turismo.

Quem lhe arrumou esta boquinha foi o próprio governador José Serra, em 2005, quando era prefeito de São Paulo. Mantida pelo seu sucessor Gilberto Kassab, a sinecura abriga hoje 58 conselheiros, que custam R$ 4 milhões por ano à Prefeitura.

Quem fez a denúncia, em janeiro deste ano, foi o repórter Fabio Leite, do Jornal da Tarde. Mas, ao contrário do que acontece no plano federal, não mereceu nenhuma repercussão na chamada grande imprensa. Em seu texto, Leite escreveu que esta “bondade administrativa visa acolher aliados e engordar os salários dos secretários municipais”.

Até hoje esta informação não foi desmentida nem se tem notícia de que Roberto Freire, fiel à sua cruzada de paladino da moralidade alheia, tenha aberto mão da bem remunerada boquinha.

Em Jaguariúna, como anfitrião do governador, ele aproveitou para atacar o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo federal, que “não anda no país, o que anda é a corrupção”, segundo noticiário da Folha.

Antes de pegar o helicóptero de volta para São Paulo, Serra, que não foi perguntado sobre a aparente contradição entre o que falou sobre “loteamento” e a condição do conselheiro Freire, ainda garantiu aos ex-comunistas que fará “o possível para atender aos pedidos dos prefeitos do PPS”.

Ultradireita brasileira diz que
golpe em Honduras é "democrático"

Chega a ser risível a reação dos blogueiros direitosos - Reinaldo Azevedo e o tal Coronel do Coturno Noturno à frente - em relação ao golpe de Estado em Honduras. Não adianta a OEA (comunistas?) e os EUA (bolcheviques?) condenarem a quartelada, o pessoal acha que a "democracia" foi a grande vitoriosa no país da América Central. Golpe, para essa gente, só vale se for praticado por Hugo Cháves, Evo Morales e demais governantes de esquerda do continente americano - "golpes" esses, aliás, apoiados em mudanças constitucionais legítimas e acompanhadas por observadores internacionais. Realmente, dá vontade de rir da falta de senso da ultradireita brasileira. Mas é melhor não rir, porque se depender deles, o que vale em Honduras deveria valer na América Latina toda.

domingo, 28 de junho de 2009

Dois pesos, duas medidas

Nada contra a decisão do governador José Serra (PSDB) revelada na matéria abaixo, do jornal O Estado de S. Paulo de domingo. Mas fica a pergunta: se os mesmos atos tivessem sido anunciados pelo presidente Lula, a notícia teria este tratamento neutro e até simpático ou o jornalão teria caído matando nas "tentações autoritárias" do governo petista? Afinal, blog do Lula não pode, Twitter do Serra pode?

Serra amplia comunicação online

Governador tira restrição a ferramentas sociais para que órgãos do governo usem redes como Twitter e Orkut

Clarissa Oliveira

Acompanhado em tempo real por mais de 14 mil pessoas no Twitter, o governador José Serra (PSDB) decidiu afrouxar as restrições ao uso da internet em todos os níveis da administração estadual, para que ferramentas sociais sejam utilizadas para prestar contas da gestão, divulgar realizações do governo e melhorar o relacionamento com o cidadão. Cotado para disputar a Presidência no ano que vem, Serra passará a contar com uma rede mais ampla de comunicação com cidadãos.
A nova orientação começa a valer hoje, com a publicação de uma resolução da Secretaria de Gestão no Diário Oficial, determinando que pastas e órgãos de governo revejam seus critérios de acessibilidade. Atualmente, não há uma proibição centralizada ao uso dessas ferramentas. A Secretaria de Comunicação, por exemplo, já mantém perfis ativos em diversas redes sociais. Mas várias áreas da administração paulista possuem políticas próprias de restrição a alguns ou a todos esses sites.
O texto da resolução pede que seja autorizado o acesso a redes sociais, blogs, wikis e serviços de compartilhamento de arquivos, como vídeos, áudio e planilhas. Assim, os órgãos poderão se comunicar com cidadãos em sites como Orkut, YouTube, Facebook, Flickr, além do Twitter, onde Serra mantém seu próprio miniblog. Dos cadastros de relacionamento mantidos pela administração, diz a resolução, deverão constar endereço de e-mail e telefone celular para contato.
O texto também prevê que órgãos do governo se comuniquem com cidadãos por mensagem de texto no celular, desde que seja obtida autorização prévia do usuário. Nesse caso, surge a possibilidade de confirmar o agendamento para a emissão de um documento no Poupa Tempo, enviar um lembrete sobre uma consulta médica ou divulgar a realização de eventos.
CANAIS
Com as ferramentas sociais, a administração deixa de depender da iniciativa própria do cidadão de entrar no site do governo, para buscar informações. Esses dados poderão ser levados diretamente ao usuário, por meio de uma mensagem no Twitter ou um post no Orkut. Além disso, o governo ganha a chance de multiplicar seus canais de comunicação.
"O governo está se preocupando em instituir normas, diretrizes e políticas nessa área de gestão do conhecimento e inovação. É mudar processos de trabalho, formas de relacionamento e estar mais próximo do cidadão", afirmou Roberto Agune, coordenador do Grupo de Apoio Técnico à Inovação (Gati) da Secretaria de Gestão Pública do governo.
Ele citou como exemplo dessa abordagem a última eleição americana, em que o hoje presidente Barack Obama fez amplo uso da internet para se promover junto ao eleitorado. Mas nega que a implantação desse modelo no governo paulista tenha qualquer relação com a eleição de 2010. "A sociedade tem todos os mecanismos legais para verificar que o governo está fazendo o uso correto disso", rebateu Agune, acrescentando que o foco é melhorar o relacionamento e a prestação de serviços ao cidadão. "É obrigação do governo, e isso está na Constituição, prestar contas à sociedade", completou.
Segundo Agune, o alívio nas restrições ao uso da internet é mais uma etapa de uma estratégia iniciada em 2004. No início deste ano, Serra estabeleceu em decreto as diretrizes para uma política de gestão do conhecimento e inovação.
Entre os objetivos listados está a "promoção da transparência na gestão pública por meio do provimento de informações governamentais ao cidadão, possibilitando a crescente capacidade de participar e influenciar nas decisões político-administrativas que lhe digam respeito".
Agune esclareceu que a nova política não significa que o governo tenha afrouxado sua segurança de internet, que hoje está a cargo da Prodesp. Um relatório referente ao primeiro trimestre deste ano mostrou que foram barradas mais de 6 mil tentativas de ataque virtual na estrutura de tecnologia do governo.

Pausa esportiva

Quebrando a promessa, temos aqui a volta das "pausas esportivas" do blog. É que um amigo do Entrelinhas, com ótimos contatos na diretoria do São Paulo Futebol Clube, garante: Ricardo Gomes foi uma solução temporária para comandar a equipe e ficará no cargo de técnico até o começo do próximo ano, quando Luiz Felipe Scolari assume o tricolor com a missão de sempre: disputar o mundial interclubes. Porque qualquer outra coisa é café pequeno para o glorioso tricolor do Morumbi. Quem viver, verá.

Folha: peidei, mas não fui eu

Este blog pede desculpas pela má expressão do título acima, mas não há nada mais apropriado do que a frase, popularizada em uma camiseta estampada do cantor Lobão, para o texto abaixo, da edição deste domingo da Folha de S. Paulo. É a segunda vez que o jornal volta ao assunto para se explicar. A história é simples. A Folha publicou uma "ficha" da ministra Dilma Rousseff, grosseiramente falsificada, e não consegue admitir que errou. Na primeira retificação, disse que não era possível provar a autenticidade da ficha (leia-se: publicamos uma mentira sem checar). Agora, saiu o laudo encomendado pela ministra: a ficha é mesmo falsa. E a Folha continua enrolando seus leitores: não escreve com todas as letras que publicou uma cascata, tenta salvar sua pele mas a emenda saiu pior que o soneto, conforme os leitores do Entrelinhas podem constatar a seguir:

Dilma contrata laudos que negam autenticidade de ficha

Imagem ilustrava reportagem da Folha; peritos não se basearam no jornal impresso

Professores compararam imagens reproduzidas pela internet com papéis do Arquivo Público; Folha reconheceu que ficha chegou por e-mail

DA REPORTAGEM LOCAL

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, encaminhou à Folha dois laudos técnicos, por ela custeados, que apontaram "manipulações tipográficas" e "fabricação digital" em uma ficha reproduzida pela Folha na edição do último dia 5 de abril.
A ficha contém dados e foto de Dilma e lista ações armadas feitas por organizações de esquerda nas quais a ministra militou nos anos 60. Dilma nega ter participado dessas ações. A imagem foi publicada pela Folha com a seguinte legenda: "Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu".
O laudo produzido pelos professores do Instituto de Computação da Unicamp (Universidade de Campinas) Siome Klein Goldenstein e Anderson Rocha concluiu: "O objeto deste laudo foi digitalmente fabricado, assim como as demais imagens aqui consideradas. A foto foi recortada e colada de uma outra fonte, o texto foi posteriormente adicionado digitalmente e é improvável que qualquer objeto tenha sido escaneado no Arquivo Público de São Paulo antes das manipulações digitais".
O laudo produzido pelo perito Antonio Nuno de Castro Santa Rosa da Finatec (Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos), ligada à UnB (Universidade de Brasília), chega às mesmas conclusões.
A ministra anexou o laudo da Unicamp em carta ao ombudsman da Folha. "Diante da prova técnica da falsidade do documento, solicito providências no sentido de que seja prestada informação clara e precisa acerca da "ficha" fraudulenta, nas mesmas condições editoriais de publicação da matéria por meio da qual ela foi amplamente divulgada, em 5 de abril de 2009", escreveu Dilma.
Em reportagem publicada no dia 25 de abril, intitulada "Autenticidade de ficha de Dilma não é provada", a Folha reconheceu ter cometido dois erros na reportagem original. O primeiro foi afirmar, na Primeira Página, que a origem da ficha era "o arquivo [do] Dops". Na verdade, o jornal recebera a imagem por e-mail. O segundo foi tratar como verdadeira uma ficha cuja autenticidade não podia ser assegurada, bem como não podia ser descartada.
O jornal também publicou um Erramos com os mesmos esclarecimentos. A ministra se disse insatisfeita, questionou a nova reportagem e decidiu contratar um parecer técnico.
Para a análise, os professores descartaram a imagem da ficha reproduzida pela Folha em sua edição impressa. Captaram na internet cinco imagens "com conteúdo similar ao utilizado pelo jornal Folha de S.Paulo". Dentre elas, escolheram como "objeto do laudo" a imagem divulgada no blog do jornalista Luiz Carlos Azenha, que reproduz artigos que criticam o jornal e questionam a autenticidade da ficha.
Para os peritos, a imagem do blog era a que tinha "a maior riqueza de detalhes". Goldenstein disse à Folha que "todas as imagens são de uma mesma família" e que a qualidade da imagem publicada pelo jornal não é boa o suficiente para "análise nenhuma".
Os professores compararam a imagem com documentos reais que supostamente teriam alguma semelhança (papel, caracteres) com a ficha questionada. Trata-se de cópias de fichas de presos pela ditadura, hoje abrigadas no Arquivo Público paulista. Escolheram as produzidas entre 1967 e 1969.
Contudo, no Erramos e na reportagem publicados no final de abril, a Folha havia explicado que a origem da ficha não era o Arquivo Público. A imagem não é datada -relaciona eventos ocorridos entre 1967 e 1969, mas pode ter sido produzida em data posterior.
Para concluir que a fotografia foi "recortada e colada", os professores compararam a foto de Dilma com fotos que encontraram no mesmo arquivo. A ficha questionada não informa que a foto de Dilma foi obtida naquele arquivo.
Sobre a impressão digital contida na ficha, os peritos apontaram não ser possível nenhuma conclusão, devido à baixa qualidade da imagem.

Crimes negados
Ouvido pela Folha na última quinta-feira, Goldenstein disse que não leu o blog do jornalista em que captou a imagem analisada e tampouco a reportagem original da Folha. "Não estou criticando o que a Folha fez. Vou ser bem sincero, eu nem li a reportagem original da Folha. Não cabe a mim julgar absolutamente nada. Meu papel é analisar essas imagens digitais que estão circulando na internet. O que a ministra me pediu: "É possível verificar, é possível um laudo sobre a autenticidade/origem da imagem? É possível dizer se vieram ou não do Arquivo Público?"."
Doutor em ciência da computação pela Universidade de Pennsylvania (EUA), ele diz que foi o primeiro laudo externo que produziu em sua carreira. A ficha questionada era uma das imagens que ilustrava a reportagem original cujo título foi: "Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto".
Na carta à Folha, Dilma escreveu: "Reitero que jamais fui investigada, denunciada ou processada pelos atos mencionados nesse documento falso e de procedência inidônea, ao qual não se pode emprestar nenhuma credibilidade".
A Folha tem procurado checar a autenticidade da ficha. Foram contatados três peritos de larga experiência na análise de documentos e um especialista em imagens digitais.
Todos disseram que teriam dificuldades em emitir um laudo, pois necessitavam do original da ficha, que nunca esteve em poder da reportagem. Disseram que a análise de uma imagem contida num e-mail não seria suficiente para identificar uma eventual fraude.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Lula: internet reduz poder da mídia tradicional

Com as devidas limitações de proporção - a mídia tradicional ainda tem um impacto muito maior do que a blogosfera -, o raciocínio do presidente Lula está correto: o peso do que sai na grande imprensa é cada vez menor e a internet é um importante meio de democratização dos veículos de comunicação. É quase óbvio, mas na boca de um presidente, pode ser tratado como apoio à tese de que quanto mais vozes e opiniões, melhor para o Brasil. Tem gente que não gosta de nada disto...

Lula diz que Internet reduz poder da imprensa tradicional

REUTERS, PORTO ALEGRE - A um mês do lançamento de um blog pelo Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira que o país nunca viveu um ambiente de liberdade de informação tão grande e, acredita que com o acesso cada vez maior à Internet, a imprensa tradicional está perdendo poder para os novos meios.

"Finalmente este país está tendo o gosto da liberdade de informação", disse Lula em discurso no 10o Fórum Internacional Software Livre em Porto Alegre (RS).

"Estamos vivendo um momento revolucionário da humanidade em que a imprensa já não tem o poder que tinha há alguns anos. A informação já não é mais uma coisa seletiva em que os detentores da informação podiam dar golpe de Estado", afirmou.

Pausa humorística

Abaixo, mais uma matéria impagável do grande rival do professor Hariovaldo Almeida Prado, revelando mais uma vez a campanha sórdida e descarada que o quatrocentão O Estado de S. Paulo realiza para tentar eleger Dilma Rousseff presidente do Brasil. Nivaldo Cordeiro se supera a cada dia que passa lá no Mídia sem Máscara... A direita brasileira é mesmo divertidíssima.

Estadão: persistência desinformativa

Nivaldo Cordeiro

Para o editor, dar destaque para míseros 8% de crescimento em relação a abril é mais substantivo do que anunciar a vigorosa queda de 40,7% em relação ao ano anterior.

Meu caro leitor, a persistência do jornal Estadão em criar fatos econômicos favoráveis inexistentes tangencia a demência, mas acreditar em loucura coletiva na editoria do jornal seria caridoso e definitivamente irrealista. A questão não é psiquiátrica, mas moral. Quero acreditar que tais atos de criação de fatos inexistentes não sejam meramente o resultado da troca por benefícios pecuniários governamentais pelas manchetes, ou a aquisição de prestígio político junto aos governantes do dia. Talvez haja nesses atos de mentira sistemática um grão de bondade, de que acreditem que as mentiras impressas, a hierarquizações maliciosa das notícias, possam ser favoráveis ao país. Estariam supostamente contribuindo para o bem comum.
Chamo a sua atenção para a nota do Caderno de Economia desta quinta feira: "Produção de aço tem crescimento de 8% em maio", em letras garrafais, seguindo um subtítulo que contradiz a manchete: "Na comparação com 2008 queda ainda é de 40,7%". Essa má fé jornalística é repugnante e serve tão somente para levar o leitor despreparado a tirar conclusões enganosas sobre a realidade. Impossível acreditar que algum bem mova esses mentirosos contumazes.
Notemos o advérbio "ainda". Por que o seu uso? Porque o editor quer fazer crer ao incauto leitor que a crise econômica já foi superada e que essa queda no comparativo é um ponto na curva ascendente em rumo da prosperidade, uma suposta superação da recessão. Quem é bem informado sabe que nada justifica qualquer conclusão nesse sentido.
O disparate fica mesmo por conta da desproporção das taxas. Para o editor, dar destaque para míseros 8% de crescimento em relação a abril é mais substantivo do que anunciar a vigorosa queda de 40,7% em relação ao ano anterior. Ninguém, no uso de suas faculdades racionais e morais, poderia deixar de perceber o que é estatística e economicamente mais relevante. Menos o editor estadônico, e suas vítimas, os leitores desavisados.
Essa maneira que o Estadão usa para mentir aos seus leitores é imoral.

Lula diz que só volta se oposição vencer

Muitos portais estão dando destaque para a frase do presidente Lula de que só disputará a eleição de 2014 se a oposição vencer a de 2010. Bem, é uma coisa até óbvia nas atuais circunstâncias, porque se Dilma vencer, teria direito à reeleição e não faria sentido para Lula concorrer outra vez. Bem, a x da questão é saber se as regras serão mesmo essas. Pelo andar da carruagem, a reeleição morre na próxima legislatura. E aí, com Dilma impedida, quem seria o candidato petista à presidência? Claro que Lula sabe disto, não nasceu ontem. O jornalista que o entrevistou, porém, não sabe ou não quis saber. Poderia ter perguntado sobre esta hipótese.

Pedro Alexandre Sanches:
Simonal e a ditabranca

O que vai abaixo é o início de um longo artigo do jornalista Pedro Alexandre Sanches, excelente repórter da revista Carta Capital. É uma visão bem distinta daquela apresentada por Mário Magalhães na Folha de S. Paulo, conforme noticiado aqui. Vale a pena ler na íntegra, o texto é bom e a história, fascinante. O leitor que tire sua conclusões.

SIMONAL, O BODE

copyleft PEDRO ALEXANDRE SANCHES

1999. Tocou o meu ramal telefônico no quarto andar da redação. Atendi. Era ligação lá de baixo, de uma das recepcionistas da Folha de S.Paulo, onde eu trabalhava. O cantor Wilson Simonal estava no saguão do jornal. Furioso, fora de si.
Pretenso Clark Kent de caricatura, vesti minha capa fajuta de super-herói de araque e desci para conversar com ele. Já que eu era o autor da entrevista que enfurecera um dos dois cantores brasileiros mais populares dos anos 1960 (o outro se chama Roberto Carlos), cabia a mim proteger e defender o jornal, a instituição, o prédio, os proprietários – e, bem, a mim mesmo – contra a (suposta) fera.
O que eu e Simonal conversamos, não faço a mínima idéia. Apaguei da memória, bloqueei. Só sei que não tive a gentileza e a generosidade de convidá-lo para entrar, sentar-se, tomar um café (bem, acho que eu não me sentia mesmo muito “dono” da “casa”...). E que aparei sozinho, ali mesmo no saguão, a emoção e a revolta do artista contra a entrevista que a Folha publicara no dia 21 de maio daquele ano e, de modo bem mais amplo, contra o exílio, o banimento, a morte de corpo presente que o Brasil lhe impunha desde ao menos 1974.
Lembro que, de transtornado no início, ele foi pouco a pouco serenando, ou melhor, deixando-se vencer pelo cansaço de uma situação que se repetia a cada nova entrevista, a cada vez que os jornalistas lembrávamos que ele ainda existia. Não esqueço, e jamais esquecerei, a expressão de desconsolo em seus olhos, do início ao fim da “conversa”.
Naqueles dias, eu, por minha parte, sabia pouco, ou quase nada, sobre tudo que acontecera a Simonal entre 1963 e 1974, hiato que o remeteu da ascensão e da fama absoluta ao mais indestrutível ostracismo. Como outros repórteres antes e depois, tateava a “notícia” (ou a não-notícia?) em “investigações” (investigações?) superficiais, desinformadas, crente de que sabia de tudo, sem saber de nada.
Aquela foi uma das quatro ocasiões de minha vida em que estive diante de Wilson Simonal. Logo depois, fui ao show motivador da reportagem “Proscrito, Simonal tenta cantar em SP”, que ele então estreava no teatro do hotel Crowne Plaza. Ao final de uma sôfrega e melancólica apresentação, fui cumprimentá-lo no minúsculo camarim, e o encontrei abandonado numa cadeira, passando mal, de cabeça baixa, olhando o chão. Aceitou meu cumprimento indiferente, sem esboçar reação.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Morte de Michael Jackson:
internet é o rádio do século 21

Impressionante a rapidez da notícia na web: no Twitter não é nem possível acessar o tópico sobre a morte do cantor Michael Jackson, o serviço congestionou. E todos os sites correram para dar a notícia em primeira mão. A audiência deste blog despencou na última hora, certamente está todo mundo atrás da confirmação oficial do passamento do artista. Pode parecer meio descabido, mas não é humor negro, é constatação: José Sarney é um rapaz de sorte.

Direita agora quer rifar Heráclito Fortes

O que vai abaixo está no blog do Reinaldo Azevedo. A ultradireita está irada com o senador Heráclito Fortes (DEM-PI) pela defesa que o nobre parlamentar anda fazendo de seu colega José Sarney (PMDB-AP). Reinaldão não deve ter se dado conta, mas não há um único democrata com moral para chamar Sarney para a briga. São todos coronéis também, unha e carne de Sarney. A crítica ao ex-presidente hoje se limita ao PSDB e um ou outro... peemedebista, como Pedro Simon! Reinaldão, porém, discorda dos tucanos que preferiram Tião Viana na disputa interna do Senado... Como se vê, o mundo girar e a Lusitana roda. A política brasileira é mesmo engraçada: a direita bate na direita, a oposição preferia o candidato do governo e agora fica tudo por isto mesmo. Se mexer muito, com o perdão da má expressão, vai feder ainda mais.
Abaixo, o texto publicado pelo jornalista da Veja.

Pede pra sair, Heráclito. Ou, então, que o DEM chame o de Éfeso!

Faz tempo que o senador Heráclito Fortes (DEM-PI) se esforça para atravessar a rua só para pisar em casca de banana, comprometendo, assim, o seu partido, o DEM, com tudo o que há de ruim no Senado. Sim, o DEM ajudou a eleger Sarney. A alternativa era o petista Tião Viana (AC). Se me tivesse sido dado escolher, teria feito a mesma opção, já disse aqui. No que respeita a malfeitorias, as diferenças entre petistas e não-petistas é só de argumento. Os do PT costumam ser mais elaborados e, por isso mesmo, mais deletérios para o processo político..

Espero que Heráclito não seja pego, mais adiante, nessa teia formidável de denúncias e privilégios inaceitáveis, o que contribuiria para caracterizar a sua defesa do indefensável como matéria de interesse pessoal. A eventual suspeita de equívoco logo se transformaria em discurso interessado.

Se o senador Heráclito esqueceu o que é uma República, a gente relembra. Deve haver centenas, senador, quem sabe milhares, de pessoas competentes na área em que o neto de Sarney é especialista. Também elas poderiam reduzir o spread dos empréstimos se ele era mesmo extorsivo.

Em companhia de Lula, o senador do DEM, que gosta dos holofotes, se torna o principal defensor de Sarney. Não só ele considera regular que seja o neto a ter a tal empresa, como ainda sugere que foi um bem para o país e que o parentesco prejudica o rapaz, coitadinho! Sem dúvida, senador Heráclito! Imagino a dificuldade que foi para esse rapaz provar a sua larga experiência no setor — ele tem 29 anos, não? — e o quão competente ele era para cuidar do assunto. Outra pessoa, com um sobrenome qualquer, teria muito mais dificuldades, não é mesmo? Há um déficit impressionante de senso de ridículo no Senado.

Heráclito sempre foi, assim, corpulento, né?, mas não dava sinais de adiposidade cerebral, que é sempre mais grave do que a outra quando se trata do interesse público. Agora que decidiu ser mais esguio, convém manter irrigados os canais do cérebro. Sua defesa é inaceitável para que pertence a um partido de oposição. Especialmente porque Sarney sugeriu hoje que se trata de uma conspiração que busca também atingir Lula.

Antes deste, houve outro Heráclito, o de Éfeso. Era um tanto enfezado e pessimista, mais deixou algumas boas tiradas. Sugiro ao menos duas como matéria de reflexão ao Heráclito do Piauí:
- “O caminho para cima e para baixo são o mesmo”;
- “O caráter de um homem é o seu destino”.

Conviria o DEM tirar Heráclito da sala. Ou, então, deixá-lo onde está, atuando como atua, e se transformar em sócio da decadência do oligarca. Em 2010, o DEM estará por aí tentando convencer o eleitor de que é diferente “desse pessoal”.

Alstom: um caso esquecido

Do jornal Hora do Povo, mais uma manchete impagável. O caso Alstom anda mesmo um tanto esquecido na brava imprensa brasileira. Será que corrupção do PSDB não vale tanto quanto as do PMDB? Ou será que a bagatela de US$ 1 milhão é pouca porcaria e os jornalões não se interessam por essas pequenas propinas cotidianas? Como diriam os jornais antigos: cartas para a redação!

Conta que tucano jura que não tem é bloqueada pelo governo da Suíça

O Ministério Público da Suíça anunciou o bloqueio de uma conta bancária de Robson Marinho, ex-tesoureiro de campanha do PSDB de São Paulo e atualmente conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. O MP suíço diz que reuniu indícios de que a conta recebeu propina da multinacional francesa Alstom, para obter contratos do Metrô paulista e na área de energia. Marinho negou que tivesse conta na suíça.

E se Sarney sair?

O licenciamento ou renúncia do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), resolve a crise instalada na Casa? Este blog aposta que não. Ao contrário, especialmente no segundo caso, em que haveria uma nova eleição, a disputa vai até se acirrar em torno de novos personagens. Ruim com Sarney, ruim sem Sarney. Esta crise só será resolvida após a eleição presidencial de 2010. É o que diz a lógica política em torno das atuais turbulências, como o leitor pode conferir aqui.

Cada dia a sua agonia

É o padrão das "investigações" e CPIs brasileiras: primeiro, tenta-se evitar a todo custo o início da apuração. Depois, quando a coisa toda se torna insustentável, abre-se a possibilidade da investigação, ao passo que se negocia com os protagonistas da lambança uma estratégia para minimizar os danos a todos os envolvidos. E por fim assa-se a pizza, para deleite de todos. Vai ser assim de novo...
Abaixo, matéria da Folha online sobre o referido assunto.

Sarney agora admite abertura de um inquérito contra Agaciel

da Folha Online

Hoje na Folha O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), admitiu ontem, pela primeira vez, abrir inquérito contra o ex-diretor-geral da Casa, Agaciel Maia, exonerado em março após 14 anos na função e suspeito de montar um esquema para distribuir favores entre senadores, informa reportagem de Valdo Cruz e Andreza Matais, publicada nesta quinta-feira pela Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

A abertura do inquérito, segundo a assessoria de Sarney informou à Folha, depende de a consultoria jurídica da Casa avaliar que há embasamento no pedido apresentado ontem pelo senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

Ontem, Demóstenes pediu que a Polícia Federal e a PGR (Procuradoria Geral da República) investiguem o ex-diretor, responsável por assinar parte dos atos secretos editados na instituição nos últimos 14 anos.

À PF, o parlamentar pediu a abertura de inquérito policial para apurar suposto crime de prevaricação cometido por Agaciel.

O senador argumenta que o ex-diretor nomeou uma servidora para o seu gabinete sem a sua autorização, por meio de ato secreto. "Ele nomeou à minha revelia, por ato secreto, tudo para atender um capanga dele aqui no Senado", afirmou.

Demóstenes disse que atos de nomeação de servidores precisam ser avalizados pelos parlamentares quando os funcionários são lotados em seus gabinetes. "O senhor Agaciel, ao praticar ato de ofício contra expressa disposição da lei para satisfazer interesse pessoal e alterar indevidamente atos corretos no banco de dados do Senado, tinha o objetivo de obter vantagem indevida para outrem."

O democrata pediu à PGR que instaure procedimento contra Agaciel por improbidade administrativa, uma vez que teria praticado atos para "satisfazer interesse pessoal". O senador quer que Agaciel seja responsabilizado "cível e criminalmente" pelo crime de improbidade administrativa.

Investigação

Demóstenes ainda pediu ao presidente do Senado para abrir processo administrativo disciplinar contra Agaciel também pelo crime de improbidade administrativa.

"Eu não autorizei a contratação de nenhuma servidora. Não consta nenhum ato com assinatura minha. É caso de demissão, ele tem que perder o emprego. Esse é o pedido para que seja demitido a bem do serviço público", afirmou.

O senador disse que ainda vai encaminhar pedido para que o TCU (Tribunal de Contas da União) investigue a folha de pagamentos do Senado. Demóstenes quer uma auditoria do tribunal nas folhas de pagamento para investigar supostos abusos cometidos em meio à edição de atos secretos.

Leia a notícia completa na Folha desta quinta-feira, que já está nas bancas.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Heráclito e a tibieza da oposição no Senado

O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) defendeu a legalidade da conta secreta do Senado Federal. Pode até ser que o nobre parlamentar tenha razão, mas a atitude dele revela bem a cara da oposição brasileira: de rabo preso com as benesses que envolvem o "puder", é simplesmente incapaz de... fazer oposição! A comédia de erros que os brasileiros estão assistindo não começou ontem, claro, mas os oposicionistas poderiam se aproveitar da situação para encurralar o PMDB governista. Não conseguem, apesar dos esforços de uma parte desta mesma oposição, pelo simples motivo de estarem umbilicalmente ligados às falcatruas cometidas, a torto e direito, há muito tempo no parlamento. É mesmo simples assim...

Kassab e a cara nova do conservadorismo

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), é um político novo e talentoso. Conservador, é claro, ou não estaria no Democratas, mas perspicaz e inteligente. Venceu uma eleição em que duas cobras criadas da política paulista estavam na disputa - Marta Suplicy e Geraldo Alckmin - e não foi apenas pelo bom marketing político desenvolvido pela equipe que contratou (o que, por si só, já demonstra a inteligência do prefeito). Kassab venceu a eleição do ano passado porque conseguiu costurar um acordo político com o PMDB que os petistas tentaram, mas não conseguiram efetivar.

Agora, neste mandato que é legitimamente seu (o primeiro era de José Serra, a quem Kassab sucedeu na prefeitura), algumas novidades começam a chamar atenção. Na semana passada, a prefeitura botou na internet a lista de todos os funcionários públicos que trabalham nas várias secretarias e autarquias da municipalidade e arrolou ali os salários recebidos por cada um deles. A grita foi geral, há alguns erros na listagem, mas a medida é excelente e muito corajosa. Deveria, aliás, ser uma regra na administração pública, em todas as esferas - federal, estadual e municipal - e para todos os Poderes.

Sim, porque quem trabalha com administração pública deve se submeter a regras diferenciadas em relação ao setor privado. Salário de funcionário público deve, sim, ser do conhecimento de todos os cidadãos, afinal são eles, os cidadãos, que pagam os tais salários, por meio dos tributos cobrados pelo governo. Ademais, a legislação trabalhista para o funcionalismo é diferente daquela aplicada na esfera privada justamente em função das características diferenciadas - os servidores têm estabilidade e se aposentam com os salários da ativa, por exemplo.

Na verdade, Kassab teve uma excelente sacada porque está atento ao chamado "talking of the town": assim como no caso do projeto Cidadade Limpa, no primeiro mandato, o prefeito percebeu um anseio importante da população, desta vez por maior transparência na apresentação das contas públicas. A medida é quase a decorrência de um Orçamento Participativo (bandeira histórica do PT, por sinal): primeiro a cidadania discute como o dinheiro vai ser gasto, depois fica sabendo como efetivamente o poder público empenhou os recursos. E não adianta dizer que basta publicar os "grandes números" (x milhões gastos com pagamento de salários do funcionalismo, y milhões com custeio). Com as facilidades da internet, o ideal mesmo é que sejam expostos os dispêncios minuciosamente, porque só assim a fiscalização é possível.

É chato para os procuradores e subprocuradores terem os seus megasalários, quase sempre acima de R$ 15 mil, expostos na rede, mas só assim a população pode debater e pressionar, se for o caso, pela correção dos abusos. Este blogueiro acha que, na média, os salários pagos aos funcionários públicos é baixo, deveria ser muito melhor (bem como a qualificação do pessoal), mas há, sim, evidentes abusos e muitas malandragens. Um exemplo: é um absurdo um secretário muncipal ganhar R$ 5 mil, tal salário é muito inferior ao que seria pago por cargo equivalente na iniciativa privada, o que afasta os talentos da gestão pública – ou permite que apenas os muito ricos, que não necessitam do salário para sobreviver, participem do governo, o que já é uma distoração importante no sistema. Por outro lado, não é correto que os valores recebidos pelos secretários apareçam em diferentes rubricas, sem a devida soma dos benefícios que eles desfrutam ao participar de conselhos de autarquias e empresas mistas. A maioria dos secretários ganha bem mais do que os R$ 5 mil constantes em seus hollerites, os jetons das reuniões dos conselhos muitas vezes superam o salário...

Essas pequenas distorções, porém, devem ser corrigidas proximamente porque Kassab não é burro e vai levar adiante a sua idéia de apresentar da forma mais transparente possível as contas da prefeitura. E isto deve provocar uma melhora significativa na popularidade do prefeito, que vai posar mais uma vez como o homem que enfrenta os poderosos e não tem medo de cara feia. Ainda é cedo, mas em janeiro de 2010 Gilberto Kassab estará muito bem posicionado para a disputa do governo de São Paulo. Poderá até levantar a bandeira de implantar o Cidade Limpa em todo o estado e tornar transparentes as contas públicas da máquina estadual, coisa que este blog duvida que o governador José Serra (PSDB) tenha coragem de fazer.

Alô, Franklin, esqueceu
do cheque d'O Globo?

A matéria abaixo, do portal Comunique-se, revela que a turma do jornal O Globo ficou magoada com a política do governo Lula de diminuir as verbas dos grandes jornais e distribuir o montante para mais veículos de comunicação. Conforme revelou no mês passado o repórter Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, a gestão Lula gasta mais ou menos a mesma coisa do que a de seu antecessor Fernando Henrique Cardoso com publicidade oficial - na verdade, considerando a inflação, Lula gasta um pouco menos. Só que FHC distribuia o butim para apenas 500 jornais e emissoras de rádio e televisão. Lula mudou a metodologia e agora praticamente 5 mil veículos têm acesso aos aportes publicitários do governo federal. Pelo jeito, o pessoal do Globo sentiu o golpe. Ou então não caiu o cheque deste mês. Franklin Martins deveria pedir para o Ottoni Fernandes verificar se houve algum problema com o depósito...
A seguir, a matéria do Comunique-se.

O Globo acusa governo de ‘cooptação’ da imprensa

Da Redação

O jornal O Globo, em editorial publicado nesta quarta-feira (24/06), criticou duramente a estratégia de comunicação do governo Lula. Medidas como a concessão de um canal para o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a distribuição de verbas publicitárias para veículos menores e a criação da coluna do presidente são classificadas como evidências “do projeto de cooptação de parte da mídia”.

“Não há justificativa técnica para a inserção de anúncios neste tipo de veículo. Operações como essas são conhecidas. Getúlio Vargas manejou recursos do Banco do Brasil com o mesmo objetivo. A História mostra que o desfecho é sempre uma conta com vários zeros endereçada ao Tesouro Nacional”, diz o texto.

No editorial “Para cooptar”, O Globo também critica outras ações do governo, como a criação do blog da Petrobras e a proposta apresentada, durante o primeiro mandato, de criação do Conselho Federal de Jornalismo.

“Não por coincidência, eram propostas ao estilo bolivariano, projeto autoritário de subjugação da sociedade, de inspiração cubana, exportado por Hugo Chávez para Equador, Bolívia, Paraguai e com influência até na Argentina”, afirma o jornal, sobre a criação do conselho e a “tentativa de controle da produção audiovisual por meio da Ancinav”.

Senado: mais um capítulo da crise sem fim

Conforme a análise de ontem, surgiu hoje mais um capítulo da crise sem fim do Senado da República, com o aparecimento de uma outra conta bancária da Casa, que supostamente maneja o dinheiro por meio de uma Conta Única (não tão única assim, foi-se descobrir). Um aspecto interessante da questão é que os sucessivos escândalos na Casa Alta estão ajudando os parlamentares da Casa Baixa. De fato, deve ter um monte de deputado comemorando o péssimo momento de seus colegas senadores. Gente como Fabio Faria, o namoradinho de Adriante Galisteu, Edmar Moreira, o homem do Castelo, aquele outro que "se lixa", todos eles estão suspirando aliviados com o desenvolvimento da crise no legislativo. Pegou o Senado, mas até agora não pegou a Câmara. O que também se deve à enorme habilidade do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que trabalha muito bem com ações para protelar certas investigações, deixando assim que o tempo cure as feridas (mais do que o tempo, a crise seguinte, porque o Congresso não vive sem crise...). Da CPI da Petrobras, então, ninguém fala mais nada. Está tudo suspenso, esperando José Sarney (não) tomaras providências necessárias para esvaziar a lixeira do Senado. Mas os deputados precisam ficar espertos, uma hora dessas algum senador se lembra de que o melhor a fazer quando há uma crise é criar outra ali do lado. Este blog aposta que nem vai demorar muito...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Diploma de jornalista: perguntas e respostas

Está muito didático o artigo abaixo, de Carlos Brickmann, para o Observatório da Imprensa. Faço minhas as palavras de Carlinhos.

DIPLOMA DESNECESSÁRIO
Perguntas e respostas sobre o canudo

Por Carlos Brickmann em 23/6/2009

O curso de Jornalismo perdeu a validade?

Não: a transmissão de conhecimento é sempre útil e aquilo que se aprende é propriedade perpétua de quem o adquiriu. O diploma de Jornalismo vai continuar existindo; quem o tirar continuará tendo registro. Imagine que você tenha aprendido mandarim: isso jamais foi exigido para trabalhar em Jornalismo, mas vai ajudá-lo muito a conseguir um bom emprego e a desempenhar suas funções com eficiência.

As empresas são obrigadas a contratar quem não fez o curso?

Não: as empresas vão contratar os profissionais que lhe oferecerem o melhor serviço. Se as faculdades de Jornalismo formarem profissionais mais bem qualificados que os que não as cursaram, os diplomados terão a preferência. O que ocorreu foi o fim da reserva de mercado, não a criação de outra reserva.

As empresas podem contratar quem quiserem?

Sim. Mas, como o mercado é competitivo, as empresas sempre procurarão contratar os profissionais de melhor qualidade. E os que tiverem curso superior, se bem feito, levarão vantagem sobre os que não o tiverem – a menos que o talento e a capacidade de estudo dos que não tiverem curso superior superem a desvantagem da falta de educação formal.

As empresas vão contratar não-jornalistas para pagar menos?

Não: profissionais como Roberto Muller, Rodolfo Konder, Ricardo Kotscho, Fernando Gabeira, Luís Carta, Ennio Pesce, Nahum Sirotsky, Rolf Kuntz, ou como este colunista, sempre ganharam os melhores salários das diversas redações em que trabalharam, e não têm diploma de jornalista. O cálculo é mais complexo e engloba a relação custo-benefício: profissionais de alto nível custam mais caro, tenham diploma de jornalista ou não, e seu trabalho é habitualmente melhor.

Para que investi tempo e dinheiro fazendo faculdade de Jornalismo se o diploma é desnecessário para exercer a profissão?

Para que aprender inglês, espanhol, alemão e japonês se os respectivos diplomas são desnecessários para exercer a profissão de jornalista? Porque acreditam que os conhecimentos que adquiriram são úteis. Mas, se alguém fez uma faculdade daquelas bem maleáveis, no facilitário, apenas para obter o diploma, terá perdido seu tempo e dinheiro. Mas iria perdê-lo de qualquer forma: o mercado de trabalho é competitivo e impiedoso com quem não estuda, formal ou informalmente.

Qual a consequência do fim da obrigatoriedade do diploma na ética jornalística?

Nenhuma. Ética se tem ou não se tem. Ética não se aprende em cursos superiores. Há canalhas com diploma, há canalhas sem diploma.

Caem as prerrogativas legais da profissão de jornalista?

Não: o piso profissional, a jornada de cinco horas, o reconhecimento do Jornalismo como profissão diferenciada (mesmo que você trabalhe numa empresa distribuidora de petróleo, continuará sendo jornalista e descontando imposto sindical para o Sindicato dos Jornalistas, não o dos Petroleiros), tudo continua em vigor. Outras prerrogativas já caíram ao longo do tempo (jornalista era isento de Imposto de Renda, pagava metade da sisa, o Imposto de Transmissão Intervivos, tinha 50% de desconto em passagens de avião) e não houve enfraquecimento da profissão.

Por que outras profissões precisam de diploma e jornalista não? Posso então pleitear um cargo de ministro do Supremo?

Pode. A lei não exige diploma de Direito para ministros do Supremo. As condições necessárias são "notável saber jurídico e ilibada reputação". Caso o presidente da República (que também não precisa ter diploma de curso superior) o indique e o Senado o aprove, o novo ministro estará nomeado.

Senado: salve-se quem puder

Está cada vez mais quente o clima no Senado Federal. Com as demissões do diretor-geral da Casa e do diretor de Recursos Humanos, é possível que a situação melhore, momentaneamente, mas este blog duvida que os problemas sejam totalmente sanados. O que está em curso é uma histórica disputa pelo Poder no Legislativo, com evidentes implicações na sucessão presidencial. Para quem não entendeu nada até agora, a explicação mais simplificada é a seguinte: o governador José Serra (PSDB) quer detonar a ala governista do PMDB - Sarney é o maior expoente desta ala e adversário pessoal de Serra desde o tempo da candidatura de Roseana Sarney. Com o perdão da má expressão, Serra quer ferrar Sarney. Se fosse só ele, porém, talvez o jogo não estivesse tão pesado, apesar da conhecida truculência do governador paulista. O problema é que há uma ala do PT que também não deseja ver o PMDB tão fortalecido.

E tudo isto ocorre em meio a uma outra disputa, nos andares inferiores da Casa, na qual as viúvas de Agaciel Maia distribuem dossiês a torto e a direito, para intimidar os senadores que poderiam assumir um papel de liderança neste momento. Como todo mundo comeu na mão de Agaciel, inclusive os tais "éticos" - vide os casos dos benefícios concedidos à mulher de Cristovam Buarque ou à namorada de Eduardo Suplicy –, o bicho pega de verdade. O tucano Arthur Virgílio está tentando assumir a liderança - já esclareceu que Agaciel mandou uns euros amigos para a sua conta quando seu cartão de crédito o deixou na mão em Paris -, mas a tarefa não é fácil porque todos os colegas têm algum rabo preso e preferem que as coisas se resolvam sem muito alarde. Porém, sem uma solução negociada, o pau vai continuar a comer no andar de baixo e no de cima. Este blogueiro acha que o Senado vai se arrastar na crise até a próxima as eleições de 2010, com chances de carregar a "herança maldita" para a próxima legislatura.

A blogosfera, por Jorge Rodini

Em mais uma colaboração para o Entrelinhas, o diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia, Jorge Rodini, escreve sobre a blogosfera. A seguir, a íntegra do comentário.

Os homens são contraditórios nas suas similaridades. Quando vestem mantos virtuais, sentem-se mais poderosos, mais ouvidos, mais acarinhados. As palavras saem das teclas com a rapidez de flechas, que podem acertar no alvo ou não.
Quem de nós pode garantir que não magoou alguém com seus artigos, textos, comentários? Às vezes o que é de Chico não é de Francisco. A relação de um blogueiro com seus comentaristas é, realmente, a de pai ou mãe para filho. Apesar do espaço democrático, tal qual na relação filial, os pais tem que impor limites. Ou as famosas regras do blog.
Convivendo dioturnamente com pensamentos diversos, com com as limitações do ser humano, o blogueiro é também um diretor de escola. Tem leitores de todas as idades, frutos de culturas diferentes e isso é que engrandece a todos.
Aprender com cada um dos comentaristas é se renovar a cada instante. Sempre existirão discussões, briguinhas, querelas quixotescas, mas também faz parte.
A blogosfera é uma menina ainda. Não fez história, mas mudou toda a histótia.
Precisamos ter paciência com a menina. Ela é linda, rápida, atualizada, mas também pode ser mordaz.
Ela está amadurecendo, seus comentaristas, leitores , articulistas, moderadores e os donos dos blogs também.
Sem comentários não há discussão. Sem discussão pouco se absorve, portanto que fiquem todos... dentro dos limites.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Tucano Richa encrencado com caixa 2

No blog do jornalista Josias de Souza, da Folha de S. Paulo, uma boa reprodução de uma história que acabou sendo objeto de reportagem do Fantástico sobre um esquema de caixa 2 da campanha do prefeito de Curitiba, Beto Richa (PSDB-PR). As denúncias podem acabar abalando a altíssima popularidade do prefeito, que, como bem anota Josias, seria hoje o favorito para a sucessão de Roberto Requião (PMDB) no governo do Paraná. Com Richa encrencado, quem ganha é o senador Álvaro Dias, outro tucano que deseja suceder Requião. Este blog não ficaria nem um pouco espantado se a fonte da denúncia fosse gente ligada ao senador. Tucanos, como se sabe, são bichos que raramente se bicam. Brigam mais entre eles do que com as demais espécies...

Vídeo levanta suspeitas de 'caixa dois' de Beto Richa

O malfeito foi registrado em vídeo. Exibe a distribuição de dinheiro a 23 pessoas num comitê que participou da campanha de Richa, em 2008
A verba não consta da prestação de contas que a tesouraria do PSDB levou à Justiça Eleitoral. Daí a suspeita de caixa dois.
O conteúdo do vídeo foi às páginas do "Gazeta do Povo", um dos principais jornais do Paraná.
A divulgação das imagens forçou o prefeito tucano a demitir três pessoas.
São elas: Manassés Oliveira, secretário de Assuntos Metropolitanos; Raul D’Araújo Santos, superintendente da mesma secretaria; e Alexandre Gardolinski, assessor da secretaria de Emprego e Trabalho.
Vai abaixo um relato do episódio que eletrifica o cenário político paranaense:
1. No centro da encrenta está um partido nanico, o PRTB. Em Curitiba, a legenda era afinada com Beto Richa;
2. Porém, a direção nacional do PRTB decidiu se coligar com outro candidato: Fábio Camargo. Concorreu à prefeitura pelo PTB;
3. Acertado com o tucano Beto Richa, um pedaço do PRTB de Curitiba divergiu do apoio formal dado ao petebista Fábio Camargo;
4. Richa era prefeito. Disputava a reeleição. O PRTB local já participava de sua gestão. Controlava, por exemplo, a secretaria de Trabalho e Emprego;
5. Manassés Oliveira, o filiado do PRTB que Richa nomeara para o comando da secretaria de Trabalho, licenciara-se do cargo para candidatar-se a vereador;
6. Para surpresa generalizada, Manassés e outros 27 candidatos a vereador decidiram desistir de suas candidaturas;
7. Rejeitaram a coligação com o PTB de Fábio Camargo, desfiliaram-se do PRTB e mantiveram o apoio a Beto Richa;
8. Os dissidentes do PRTB inauguraram um núcleo da campanha tucana de Richa. Chamava-se “Comitê Lealdade”;
9. Funcionava numa casa do bairro curitibano do Ahú. O próprio Beto Richa participou da inauguração;
10 Richa confiou a coordenação do comitê a Alexandre Gardolinski, um dos dissidentes do PRTB;
11. Descobre-se agora, nove meses depois da reeleição de Richa, que a “lealdade” dos dissidentes pode não ter sido motivada apenas por afinidade política;
12. Veio à tona um vídeo de conteúdo devastador. Exibe a distribuição de dinheiro vivo à turma que debandou do PRTB;
13. O rateio ocorreu numa sala do “Comitê Lealdade”. A gravação foi feita pelo “coordenador” Alexandre Gardolinski;
14. Nas imagens, 23 ex-candidatos a vereador, aqueles que se desligaram do PRTB para apoiar Richa, aparecem recebendo dinheiro;
15. Entre os personagens pilhados estavam o pagador Gardolinski, o secretário Manassés Oliveira (recebe em nome dele e de terceiros) e o superintendente Raul D’Araújo Santos;
16. Na última quinta (18), quando soube que o vídeo chegara às mãos de jornalistas, Beto Richa demitiu os três da prefeitura;
17. No total, nove dos dissidentes do PRTB ganharam cargos na prefeitura de Richa em janeiro de 2009. Entre eles Gardolinski, Manassés e D’Araújo Santos;
18. Ouvido, Alexandre Gardolinski, o coordenador que distribuiu o dinheiro e fez a filmagem, disse que o dinheiro serviu para custear “eventos” de campanha.
19. Eventos de quem? Segundo Gardolinski, eventos de “todos os partidos que tinham afinidade com o prefeito” Richa. Citou PSDB, PDT, DEM e PR;
20. Gardolinski reconhece que as verbas não foram declaradas à Justiça Eleitoral. De onde veio a grana? Diz que foi doada por “amigos”;
21. Pode citar os nomes dos “amigos”? E Gardolinski: “Não, não posso. Seria indelicado com eles. Não seria elegante da minha parte”;
22. Manassés Oliveira, o secretário de Trabalho demitido por Beto Richa disse: “Esse dinheiro, o Alexandre Gardolinski passou para nós...”
“...E tinha autorização para cada ex-candidato gastar até R$ 800. Não sei quem autorizou. Não sei de onde vinha o dinheiro nem se foi declarado...” e “...O Gardolinski é que vai ter que explicar a origem do dinheiro”.
23. Em nota, Beto Richa manifestou-se assim: “Ao tomar conhecimento das imagens, determinei imediatamente o afastamento dos envolvidos...” e “...Esse tipo de atitude não tem nada a ver com o nosso jeito democrático e transparente de fazer política...” e ainda “...Não vamos permitir que esse fato, que aconteceu num comitê independente que apoiava nossa candidatura à reeleição, seja explorado contra nossa administração, aprovada pela grande maioria dos cidadãos curitibanos”.
O tucano Beto Richa é visto como candidato favorito ao governo do Paraná, em 2010.
A campanha nem começou e já tem um contencioso a elucidar.
Atualização feita às 23h33: Na noite deste domingo (21), o “Fantástico” veiculou trechos do vídeo comprometedor de Curitiba. Assista à reportagem.

Senado: ou vai ou racha

Está complicada a situação no Senado Federal. Todo dia sai uma nova denúncia e a estratégia do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP) parece ser a de rezar para que o recesso chegue logo. Pode até ser uma tática válida em situações de crise amena, mas a atual é grave. Algo vai acontecer antes dos senadores sairem de férias ou a situação de Sarney ficará insustentável.

domingo, 21 de junho de 2009

Furo da Folha: Simonal era dedo-duro, sim

O que vai abaixo é uma boa contribuição do repórter Mário Magalhães, da Folha de S. Paulo, sobre o "Caso Simonal". Há um filme em cartaz sobre a história do cantor e muita gente saiu por aí reclamando da injustiça das esquerdas com o já falecido artista. Bem, parece que a coisa não foi bem assim, conforme revela o furo da Folha.

Simonal 3.540/72

PROCESSO A QUE A FOLHA TEVE ACESSO EXPLICITA COLABORAÇÃO ENTRE CANTOR E O DEPARTAMENTO DE ORDEM POLÍTICA E SOCIAL; EM VIDA, ARTISTA DESMENTIA VÍNCULO COM ÓRGÃOS DE SEGURANÇA

MÁRIO MAGALHÃES, DA SUCURSAL DO RIO

Wilson Simonal de Castro, um dos mais talentosos cantores do Brasil em todos os tempos, declarou formalmente em 1971 que era informante do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), a polícia política do antigo Estado da Guanabara.
Seu depoimento na polícia foi avalizado reiteradamente em processo judicial por seu advogado Antonio Evaristo de Moraes Filho.
A declaração de Simonal e a confirmação de Evaristo nunca foram divulgadas -conhecem-se apenas as manifestações de proximidade do artista com o Dops, mas em público ele negava ter sido informante.
A Folha teve acesso ao processo 3.540/72, do qual consta o depoimento em que Simonal reconhece seus serviços.
Ele foi processado sob acusação de ser o mentor de uma sessão de tortura -em dependências do Dops- para obter confissão de desfalque de Raphael Viviani, ex-funcionário de sua firma.
Relatório confidencial do Dops, anexado aos autos e ainda hoje inédito, explicitou a ligação -reafirmada por um agente do órgão, Mário Borges, em interrogatório na Justiça.
Testemunha de defesa do artista, o tenente-coronel do Exército Expedito de Souza Pereira descreveu-o como "colaborador das Forças Armadas". Foi Simonal (1938-2000) quem se disse "colaborador dos órgãos de informação", sublinharam Viviani e seu advogado, Jorge Alberto Romeiro Jr.
O Ministério Público, representado pelo atual deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ), apontou o intérprete como "colaborador das Forças Armadas e informante do Dops". Sentença proferida pelo juiz João de Deus Lacerda Menna Barreto concordou.
Acórdão (decisão de corte superior) do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro), assinado em 1976 pelos desembargadores Moacyr Braga Land e Wellington Pimentel, referendou: Simonal era "colaborador das autoridades na repressão à subversão". Foi a palavra final da Justiça.
Todos esses documentos integram o processo 3.540, instaurado em 1972 na 23ª Vara Criminal, concluído em 1976 e em cujas 655 folhas jamais houve divergência: dos amigos mais fiéis ao antagonista mais ressentido, todos estiveram de acordo que Simonal -e ele assentia- era informante do Dops.
Em abril, a Folha pediu ao TJ para ler os papéis. Localizados em junho, eles foram consultados pelo jornal na íntegra. A história que eles descortinam vai na contramão de versões que rejeitam a relação do cantor com o aparato de segurança da ditadura militar (1964-85).
Entrevistas com sobreviventes da época e pesquisa em periódicos jogam luz no episódio.
Em 2000, a Folha publicou reportagem com base na sentença de 11 páginas, encontrada no Arquivo Público do Estado do RJ, que guarda o acervo do Dops.
Contudo, não achou cópia do conjunto do processo nem do informe interno acerca de Simonal, da declaração em que ele se afirmou colaborador ou de lista de eventuais pessoas delatadas por ele.
Desde a década de 1930 havia informantes da polícia política nos meios culturais do Rio. Eles não costumavam ser identificados nominalmente em relatórios, como se constata no Arquivo do RJ.

Tortura
A controvérsia sobre as conexões do cantor ressurgiu com vigor devido ao documentário "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei", de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.
O filme narra da ascensão ao estrelato à morte no ostracismo, determinada pela imagem de "dedo-duro" -função que no fim da vida Simonal contestava ter desempenhado. Ele se dizia alvo de mentira inventada por inimigos, de racismo e de perseguição da esquerda.
O cantor não foi julgado pela colaboração com a ditadura, mas por ter levado Viviani para a sede do Dops, na rua da Relação, região central do Rio.
Simonal foi ao departamento e emprestou seu carro aos policiais, que buscaram Viviani em casa quase à meia-noite de 24 de agosto de 1971, passaram pelo escritório do artista e terminaram na rua da Relação.
Lá torturaram Viviani com choques elétricos, socos e pontapés até ele assumir por escrito o desvio.
Simonal estava no Dops, para onde ajudou a transportar -desde seu escritório, em Copacabana- o ex-chefe de escritório da Simonal Comunicações Artísticas.
Ele não participou da tortura nem a testemunhou.
Um inquérito foi instaurado na 13ª DP porque a mulher do funcionário registrou o desaparecimento.
Foram condenados o cantor, um policial do Dops, Hugo Corrêa de Mattos, e um colaborador do órgão, Sérgio de Andrada Guedes. Em 1974, por crime de extorsão, a pena de cinco anos e quatro meses de reclusão. Em 1976, depois da desclassificação do crime para constrangimento ilegal, a três meses. Simonal passou nove dias detido. Os três negaram as acusações.

"Subversivos"
Relatos jornalísticos recentes sustentam que foi o inspetor Mário Borges, chefe da Seção de Buscas Ostensivas do Dops e notório torturador de presos políticos, a fonte original da classificação de Simonal como informante.
Na 23ª Vara, Borges disse que o cantor "era informante do Dops e diversas vezes forneceu indicações positivas sobre atividades de elementos subversivos".
Não citou a identidade dos "elementos". O interrogatório do policial ocorreu em 16 de novembro de 1972.
Acontece que, 450 dias antes, Simonal já prestara declarações no Dops que foram anexadas ao processo e não chegaram ao noticiário.
Às 15h de 24 de agosto de 1971, perto de nove horas antes da diligência contra Viviani, Simonal afirmou ter ido à rua da Relação "visto aqui cooperar com informações que levaram esta seção a desbaratar por diversas vezes movimentos subterrâneos... subversivos no meio artístico". Também não nomeou os "movimentos".
Ou seja, o primeiro a sustentar que Simonal era informante foi ele mesmo, e antes da ação da polícia. Na ocasião, o cantor lembrou que no golpe de Estado de 1964 esteve no Dops "oferecendo seus préstimos ao inspetor José Pereira de Vasconcellos" -outro denunciado por sevícias contra opositores.
Simonal assinalou que se aproximou ainda mais do Dops quando pediu e obteve proteção contra uma ameaça de explosão de bombas em um show.
Em 1971, ele se queixou de um "grupo subversivo" que prometia sequestrá-lo se não "arrumasse" dinheiro.
A voz anônima parecia, ele disse, a de Viviani.
Na 13ª DP, o cantor depôs em 28 de agosto. Apresentou-se como "homem de direita" e relembrou ter dito no Dops (no dia 24) que conhecia, "como da área subversiva", "uma irmã do senhor Carlito Maia" -era a produtora cultural Dulce Maia, ex-presa política e àquela altura exilada.
Esse depoimento vazou à imprensa, mas nele Wilson Simonal calou, nem lhe perguntaram, sobre a atuação como informante.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sobre o ludopédio

Leitores escrevem perguntando a opinião deste blogueiro sobre a tragédia da noite de ontem, no Morumbi. Bem, sãopaulino, como todos sabem, só leva em consideração dois campeonatos: Libertadores e Mundial. Portanto, as pausas esportivas deste blog só retornarão em 2010, o ano para os tricolores acabou ontem. É verdade, não se pode ganhar sempre, talvez a equipe de Muricy tenha perdido o elã, aquela gana de vencer que sempre foi a característica marcante dos times dirigidos pelo treinador. Não pensem que é fácil sair da euforia de um hexacampeonato para jogar bola em Ximboca da Serra contra equipes de nível inferior, como Palmeiras, Corinthians e assemelhados. O grande erro de Muricy foi ter escalado titulares no paulistinha, com a garotada dos juniores o São Paulo não teria feito feio e os atletas do time de cima teriam tido um período maior de preparação. Bem, a verdade é que o ano terminou, resta agora iniciar o período de preparação para a próxima Libertadores, o que passa, é claro, pelo hepta neste ano da graça de 2009. Mas não perderemos tempo com campeonatos de menor importância, de maneira que as pausas esportivas do blog retornam em 2010.

PS às 23h30: Muricy Ramalho não é mais treinador do São Paulo. Como sempre ocorre no mais querido, o técnico sai com elegância, neste sábado se despede do elenco. De fato, havia mesmo alguma coisa errada, o desgaste natural dos anos, depois de tantas conquistas - ele "só" foi tricampeão brasileiro... Que venha um grande nome para honrar a memória do mestre de todos os mestres, Telê Santana. Saudações tricolores e boa sorte a Muricy.

Diploma desnecessário: algumas opiniões

Abaixo, a opinião de alguns bons jornalistas brasileiros sobre a questão da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. Paulo Henrique Amorim, Juca Kfouri, Caio Túlio Costa, Eugênio Bucci (professor de jornalismo na ECA) e Ricardo Kotscho, além de Reinaldo Azevedo, cujo texto é muito longo e pode ser lido aqui, concordam com este blogueiro - o diploma é desnecessário. PHA é o que tem a posição mais próxima ao que foi escrito pelo autor destas Entrelinhas, defende que o jovem interessado em abraçar a profissão faça uma faculdade qualquer - História, Direito, Matemática - e depois realize um curso técnico de três meses para se inteirar de alguns macetes do jornalismo. O que vai a seguir foi retirado do Blog do Paulo Henrique Amorim e dos portais da Revista Imprensa e Comunique-se. Boa leitura.

************

Saiu a Lei Áurea do jornalismo
Por Paulo Henrique Amorim
Chega de diploma! O Supremo Tribunal Federal prestou um inestimável serviço ao jornalismo e, portanto, à democracia. Acabou com a exigência do diploma para jornalistas. Um jornalista não precisa de mais do que um curso para-profissinal a de três meses para começar a exercer a profissão.
O resto ele aprende, se aprender, o resto da vida. É melhor ler os romances da maturidade de Machado de Assis do que perder quatro anos em faculdades – especialmente as particulares – que não formam jornalistas.
Mino Carta não tem diploma e é o melhor jornalista brasileiro.Mauro Santayana, outro excelente jornalista, costuma dizer que a exigência do diploma elitizou as redações.
As redações não refletiam mais a composição da sociedade brasileira: as redações se tornaram quase brancas, quase ricas e quase ignorantes …
Jornalista deveria ter um curso universitário: estudar matemática, história, filosofia, biologia – e fazer um curso profissionalizante de jornalista de, no máximo, três meses.O diploma fez os jornalistas parecidos com os donos dos jornais.
E ajudou a construir o PiG.

************

‘A necessidade do diploma era um interesse corporativista’, diz Juca Kfouri
"O jornalista esportivo Juca Kfouri declarou ao Portal IMPRENSA que não é a favor da exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão e que a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) foi acertada.
O principal argumento de Kfouri é o fato dos ‘grandes nomes do jornalismo não terem o diploma’. ‘Essa é a minha opinião: curta e grossa’, completou. No entanto, ele salienta que é a favor da formação em jornalismo para agregar qualidade ao que é produzido.
Para ele, a lei que determinava formação específica para atuar como jornalista ‘foi herdada da ditadura militar’. Sublinhou também que ‘a necessidade do diploma era um interesse corporativista que não fazia mais sentido’."

************

Para Eugênio Bucci, mais importante que o diploma é ‘a manutenção e o cultivo da liberdade de imprensa’
"Eugênio Bucci, jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), comentou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que na última quarta-feira (17) decidiu pela revogação da exigência do diploma para o exercício do jornalismo.
‘A primeira coisa que eu digo é que a decisão dos STF é uma coisa julgada, não é nem próprio avaliar se é correta ou não, não cabe a mim julgá-la’, afirmou Bucci. Em entrevista ao Portal IMPRENSA, ele disse que já havia manifestado, antes da decisão do Supremo, sua impressão de que o diploma já cumpriu um papel que classificaria como ‘civilizatório’ no Brasil.
‘Embora a exigência seja uma excentricidade brasileira, já que outros países não a tem, ela ajudou a elevar os padrões da profissão no país. No entanto, nos tempos atuais, a manutenção do diploma deixou de ser prioritária para o atendimento das necessidades do cidadão relativas à informação’.
Questionado sobre o que seria prioritário, Bucci citou como exemplo a observância, a manutenção e o cultivo da liberdade de imprensa. ‘Seria prioritário no Brasil a independência das redações e a preservação de um ponto de vista livre do poder; a capacidade de informar os cidadãos e fiscalizar o poder econômico’, declarou.
Sobre o posicionamento dos veículos de comunicação, o jornalista acredita - apesar de afirmar que não pode falar em nome das empresas - que a tendência é ‘as redações contratarem os melhores. Não acredito que seja o caso de contratarem os mais baratos. A qualidade da informação tornou-se uma exigência do público, e aqueles que têm uma formação sólida terão vantagem nessa disputa’, concluiu."

************

O exercício do Jornalismo virou uma terra sem lei’, diz Ricardo Kotscho
"A necessidade de que seja aprofundada a discussão sobre algumas regras que dêem algum norte ao trabalho dos jornalistas é a principal observação feita por Ricardo Kotscho sobre o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do Jornalismo, decidido na última quarta-feira (17), pelo Superior Tribunal Federal (STF).
Segundo ele, a tomada de uma decisão definitiva já é um fator positivo, em razão do tempo em que tal discussão se arrasta. ‘Acho ótimo que, finalmente, a Justiça tenha tomado uma decisão, ao que parece definitiva’, disse. ‘Já não aguentava mais ficar discutindo esta questão do diploma nos congressos, seminários, debates de que participo faz décadas’.
No entanto, o jornalista lembra da importância de que sejam, rapidamente, estudadas algumas regras, que serviriam para nortear os trabalhos os profissionais da área. ‘Com o fim da lei de Imprensa, que todos queriam, e da regulamentação da profissão, sem colocar nada no lugar, o exercício do jornalismo agora virou uma terra sem lei. Acho que esta discussão deveria prosseguir para que alguma regra do jogo seja estabelecida, em defesa das empresas e dos profissionais sérios e, principalmente, dos cidadãos, do conjunto da sociedade’, finalizou."

************

Em palestra, Caio Túlio Costa diz ser a favor da queda do diploma desde os anos 80

"Caio Túlio Costa declarou ser a favor do fim da exigência do diploma para exercer a profissão de jornalismo. ‘A decisão do Supremo Tribunal Federal veio coroar um trabalho que começou na década de 80’. Naquele período, Caio Túlio trabalhava na Folha de S. Paulo e já fazia manifestação para a queda do diploma. A afirmação foi feita em palestra nesta quinta-feira (18/06) promovida pela Associação Brasileira das Agências de Comunicação (Abracom).
Jornalista formado pela ECA-USP, Caio Túlio acredita que, a partir de agora, a formação possa melhorar e ser mais completa. ‘Para ser jornalista, basta ter moral e vocação. O curso universitário precisa apenas ensinar técnicas’.
Ele chamou a atenção para a dificuldade que a nova geração de jornalistas têm para interpretar textos. ‘As novas mídias, como celular, e-mail e Twitter, entre outros, tornarão a informação cada vez mais livre. Isso causará uma transformação na linguagem. O mundo está cada vez mais visual’, aposta.
Caio Túlio reforçou a importância de lidar com todas as formas de disseminação da informação para atender as necessidades de empresas cada vez mais globalizadas e se manter no mercado, que está cada vez mais exigente por qualidade final."

Fernandes: o longo inquilinato do PMDB

Está muito interessante a análise da editora de Política do jornal Valor Econômico, a jornalista Maria Cristina Fernandes, sobre a crise no Senado. Atualmente é raro ler uma análise profunda, bem escrita e embasada em fatos concretos como a que vai a seguir, na íntegra, para os leitores do blog. Vale a pena ler até o fim.

A declaração do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, de que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), deve pairar acima dos homens comuns é tão disparatada quanto reveladora do poder que as disputas internas no Congresso têm no jogo sucessório.

Só houve um ano comparável ao de 2009, o de 2001, quando aconteceram as movimentações que selaram o cenário político da sucessão presidencial de um governo de oito anos.

Da redemocratização até a chegada do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao poder, o PMDB havia reinado inconteste no Senado. A aliança entre tucanos e pefelistas que conquistou a Presidência em 1994 , manteve a hegemonia pemedebista do Senado, com a eleição de José Sarney que, embora dividisse com os pefelistas a origem no PDS, estava filiado ao PMDB desde que se tornara vice de Tancredo Neves.

Foi com o sucessor de Sarney no cargo, o senador baiano Antônio Carlos Magalhães, que o PFL chegou oficialmente à presidência da Casa em 1997. O cargo não voltaria mais a ser ocupado pelo partido, a não ser nos 58 dias de Edison Lobão (MA) em 2001. ACM foi o único senador não-pemedebista eleito presidente da Casa dos últimos 25 anos. Assim como Lobão, o petista Tião Viana (AC) apenas exerceu um mandato tampão em 2007.

Ao final do comando carlista do Senado, já estava sinalizado que o avanço do PMDB na aliança com os tucanos para a sucessão de FHC levaria de volta ao partido a primazia na Casa.

Este movimento também seria fortalecido na Câmara. O PFL veria naufragar a candidatura do deputado Inocêncio Oliveira (PE) quando o PMDB, aliado ao PSDB, reverteria a regra consuetudinária que dava à maior bancada eleita a preferência e elegeria o então deputado tucano Aécio Neves (MG) à presidência da Casa.

O ano de 2001 seria marcado pela troca de acusações entre ACM e o senador Jader Barbalho (PMDB), que o sucederia no cargo com o apoio do Palácio do Planalto. Ambos seriam obrigados a renunciar - ACM, pela participação da quebra de sigilo do painel eletrônico do Senado, e Jader, pelo sigilo fiscal e bancário quebrado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em investigação sobre desvios no Banpará.

À queda de ACM seguiria-se o empenho do comando do PFL, ao longo de 2001, em viabilizar a candidatura da governadora Roseana Sarney (MA). Ao final do ano, o Datafolha colocava a candidata pefelista em segundo lugar, atrás de Lula, ultrapassando Ciro Gomes e jogando poeira em José Serra, que, naquele momento, situava-se em 6º lugar.

A candidatura Roseana não resistiria à operação da Polícia Federal que, no início de 2002, fizera uma apreensão de R$ 1,34 milhão no escritório do marido da governadora. Sarney atribuiu a operação aos aliados de Serra na PF. A tensão no relacionamento entre eles dura até hoje.

Com o naufrágio da candidatura Roseana, o PFL se dividiria entre Ciro, Serra e a neutralidade. O deputado cearense colhia elogios do partido à medida que subia nas pesquisas. Vítima de sua verborragia, Ciro, que era candidato da aliança PPS, PTB e PDT, refluiu, enquanto Anthony Garotinho (PSB) o ultrapassaria e terminaria a disputa em terceiro lugar.

No segundo turno, Serra teve dificuldade em reagrupar o PFL. Também não conseguiu atrair a maioria dos votos de Ciro e Garotinho que, juntos, tiveram votação superior à sua. E, apesar de ter uma vice pemedebista (Rita Camata), não conseguiria evitar que lideranças do partido, como o então governador de Minas, Itamar Franco e Orestes Quércia, além de Sarney, aderissem a Lula.

O economicismo que vê na urna uma simples extensão do bolso dos eleitores, sempre pode atribuir o fracasso de FHC em fazer seu sucessor exclusivamente à galopada dos juros, da inflação e da renda salarial.

Ignora-se que a deterioração dos indicadores econômicos, antes de se traduzir nas urnas, impacta a movimentação da base de apoio político do Executivo na federação e no Congresso.

Assim como a economia, sozinha, não derrotou Serra, não é apenas o bom desempenho no enfrentamento da crise mundial que levará Lula a eleger a ministra Dilma Rousseff presidente.

Assim como Roseana, Ciro e Garotinho demonstraram potencial em angariar os votos dos insatisfeitos e arregimentar apoio político em torno de si, num cenário de rearranjo da aliança governista, talvez seja cedo para dizer que a polarização entre Serra e Dilma esteja sacramentada para 2010 num Senado conflagrado.

Um dos motivos por que o PMDB reina quase absoluto no Congresso Nacional é pelo fato de, apesar de não ter candidato à Presidência da República desde 1994, manter-se como principal força eleitoral em Estados e municípios.

Com a infeliz defesa de Sarney, Lula sinalizou para a importância de se manter essa aliança. O PMDB do Senado, ameaçado pela rivalidade de pólos de poder internos, também pode atomizar seu apoio no cenário eleitoral de 2002 entre candidatos que, a exemplo de Dilma, também se vendam como pós-lulistas.

Essa percepção foi o que levou Lula a abrir as portas para que o PMDB, no início do ano, chegasse à Presidência de ambas as Casas, como não acontecia há 16 anos. A aliança entre PSDB e PT no Senado, que culminou com a derrotada candidatura de Tião Vianna (PT-AC) à presidência do Senado, é uma tentativa de resistir à essa hegemonia, mas tem fôlego curto pela rivalidade de seus projetos nacionais de poder.

Se o pragmatismo de Lula pode ter como desfecho uma bem sucedida dobradinha PMDB/PT, também parece certo que essa aliança, estendida à primazia do partido nos palanques estaduais, reforçará a hegemonia pemedebista no Senado. A legenda nutre-se do mais enraizado poder político do país. E não há como podar os vícios que imprimiu ao Congresso, frutos de poder desmedido e de rara alternância, sem fazer concorrência à origem da força pemedebista, o poder local. Ao buscar garantias à permanência de seu partido no mais alto cargo da República, Lula também impõe limites à transformação da política nacional.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras