segunda-feira, 27 de julho de 2009

Mídia e sensacionalismo

Um bom artigo de Igor Ribeiro sobre o comportamento da imprensa em relação à gripe suína e outros episódios está no Portal Imprensa. E abaixo, para os leitores do Entrelinhas. É preciso repetir sempre: a gripe "normal" mata mais do que a tal suína. E, só para comparar, morrem por semana, só em São Paulo, mais gente de acidente de moto e automóvel do que a gripe suína já matou em quatro ou cinco meses. Mas os jornalões gostam mesmo é de estardalhaço...

Ainda o sensacionalismo

Existe um fato cifrado na imprensa brasileira que poucos ousam contra-argumentar: vender a todo custo. Falam que sua principal missão é pela busca da verdade, que o que importa é a qualidade, diversidade, pluralidade, imparcialidade, independência etc. Balela. Isso tudo pode ter sua parcela de importância, mas o que dita o rumo do jornalismo no Brasil, hoje − ainda mais em tempos de crise − é a grana.

A prerrogativa do dinheiro sobre a verdade não é explícita e não se relaciona somente ao departamento comercial. Pelo contrário, as fórmulas publicitárias tentam, com legitimidade, fornecer alguma parcela de dinheiro lícito ao jornalismo. Por pior que sejam os formatos - como anúncios "ilha" que cruzam o noticiário impresso ou banners que seguem o cursor na internet, entre outros -, o mercado ainda se guia por regulamentações cada vez mais rigorosas e raramente superam em quantidade o editorial. O buraco é mais embaixo: a grande mídia vende, conscientemente, a própria credibilidade por meio de sensacionalismo.

São chamadas de capa exageradas, escaladas de telejornal em tom ameaçador, homes de internet com palavras-chave atraentes e equivocadas etc. É mania antiga e, justamente por isso, chama a atenção ainda persistir em tempos tão modernos como estes, quando se preza de diferentes formas a inteligência do leitor/consumidor e se incentiva sua boa educação.

Há quatro exemplos tácitos e recentes desse desespero comercial, os quais vou elencar rapidamente. Primeiro, e mais antigo, é a queda do avião da Air France, fato tratado pela imprensa como um tabuleiro do jogo Detetive. Especulações sobre as causas e opiniões enfáticas a respeito de problemas complexos com mecânica me lembraram as dúzias de especialistas em ranhura de pista por conta do acidente da TAM. Rendeu centenas de manchetes sanguinolentas e matérias constrangedoras com parentes de vítimas, enquanto a imprensa francesa nos dava uma aula de bons senso e jornalismo.

O segundo foi - e ainda é - a chamada gripe A, ou H1N1. O desrespeito às autoridades atuantes no caso é repetitivo. A começar pelo nome da doença, que continua sendo erroneamente citado, apesar do pedido insistente de que oficialmente não se chamasse mais de "suína". Depois, pelo alarme, quando se noticia com destaque mortes e infectados, deixando para o rodapé o fato de a gripe comum ter vitimado centenas de vezes mais pessoas neste ano do que sua prima temporã.

O terceiro tem sido a campanha paulistana para recuperar a região da Luz chamada de "Cracolândia". O alarme é, sim, necessário, mas com dois poréns. Crack é um problema que vai muito além dessa área e população, uma droga perversamente degenerativa que afeta centenas de pessoas dentro e fora de São Paulo, mas que na capital atrapalha o desejado plano urbanístico da "Nova Luz". A falta de um complexo judiciário competente no Brasil também fica em segundo plano, ainda que um sistema corrupto e cheio de falhas acompanhe esse e outros problemas brasileiros há anos, nunca abordados com a devida análise crítica pela mídia nacional.

Quarto e mais recente caso: dê uma busca na internet e procure manchetes ou chamadas com os dizeres "Felipe Massa em coma", ou algo do gênero. No meio da maioria das matérias pode ser visto ou lido que, na verdade, o coma foi induzido para que a agitação de um recém-acidentado não interferisse no seu tratamento. Agora sedado, o piloto continua internado, mas respondendo positivamente aos cuidados médicos. Será que é só a complicação de a titulagem não dar conta desse panorama que faz um editor ou diretor optar pela simples e equivocada abordagem fatalista? Pode acreditar: não é. Mas isso vende.

Os exemplos são muitos e frequentes, mas estes acima ilustram bem o problema. É péssimo o grande jornalismo ainda se sujeitar a essas artimanhas para tentar angariar ibope, page view ou venda avulsa. O pior é o público, que permanece à mercê dessa irresponsabilidade, na maioria das vezes sem o discernimento necessário para absorver a notícia criticamente. Triste imprensa brasileira...

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