segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Recordar é viver: em 1999, aprovação de
Fernando Henrique Cardoso era de 12%

Uma curiosidade: na mesma edição em que a revista Veja publicava a matéria com o castelo de Edmar, no longínquo ano de 1999 (edição 1612, com data de capa de 25/08/99), a principal reportagem política era sobre a popularidade do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), desaprovado por 59% dos brasileiros e aprovado por apenas 12%. É até engraçado ler na íntegra a defesa, reproduzida abaixo, que a revista da Abril fez de Cardoso, comparando-o a outros "estadistas" impopulares. Recordar é viver...


Coração do povo

Há muitas pedras no caminho de quem quer o aplauso das ruas

Esdras Paiva

Fernando Henrique Cardoso é o primeiro presidente do Brasil a ter uma espécie de ministro das pesquisas de opinião. Desde o primeiro mandato, o cargo é exercido pelo discretíssimo sociólogo Antônio Lavareda, dono da MCI, que apresenta suas sondagens pelo menos uma vez por mês ao Palácio do Planalto. Nunca antes, nem nos tempos das alopradas acrobacias de marketing político de Fernando Collor, um presidente teve um consultor de pesquisas trabalhando permanentemente a seu lado. Nos Estados Unidos, onde essa função é chamada de pollster, o primeiro a adotá-la foi Jimmy Carter, que deixou a Casa Branca em 1981 e, impopularíssimo, não conseguiu reeleger-se. Pelo menos até agora, Fernando Henrique vive o mesmo paradoxo de Carter. Embora seja o introdutor do pollster no Brasil, FHC também está fazendo feio: nunca, no regime civil, um presidente brasileiro atingiu níveis tão abissais de popularidade no início ou no meio do mandato. A mais de três anos de completar sua gestão, com 59% de desaprovação, FHC está pior que Collor (57% de rejeição às vésperas do impeachment) e a um passo de José Sarney (que chegou a 62% de desaprovação pouco antes de passar o bastão).

Apresentado dessa forma, parece que o Brasil sob o comando de Fernando Henrique está caminhando para o fundo do poço – pelo menos no coração das massas. Mas as pesquisas, como os humores da população, escondem certas sutilezas e desvãos, que só começaram a vir à luz quando George Gallup resolveu ajudar sua sogra, Alex Miller, a eleger-se para um cargo no Estado americano de Iowa, em 1930. Gallup, fundador do instituto que leva seu nome, aplicou as técnicas que conhecia para medir o pulso da opinião pública e levou a sogra à vitória. De lá para cá, surgiu um universo de novas técnicas, seja para aferir a opinião dos eleitores, seja para melhorar a imagem do governante. Uma das sutilezas descobertas vive no reino etéreo do impressionismo. No caso de Fernando Henrique, conta a seu favor um fator que, normalmente, é apontado como dado negativo: o de que se elegeu duas vezes, com a tranqüilidade de vencer sempre no primeiro turno, mas nunca provocou paixão popular – tanto que suas vitórias não foram brindadas em carnavais de rua.

Mas por que a ausência de paixão popular é a favor de Fernando Henrique? "Collor despertava sentimentos extremados, de amor e ódio. Então, para reverter um quadro de impopularidade, seria difícil", rememora o sociólogo Marcos Coimbra, do instituto Vox Populi. "Já Fernando Henrique não provoca esse tipo de reação, nem amor, nem ódio. Então, se seu governo melhorar, sua popularidade também melhora, porque não há resistência passional à sua figura", completa Coimbra. Mas, nesses desvãos de passionalismos, existe um dado objetivo: a economia. É ela que faz a desgraça ou a glória de um governante. O especialista americano Wilber Chassel, da Universidade de Santa Mônica, acaba de concluir um estudo comparando a curva de popularidade de Ernesto Geisel, João Figueiredo, Sarney e Collor com o desempenho da economia. No trabalho, Chassel dá solidez estatística ao que todo mundo já sabia: se a inflação e o desemprego sobem, a popularidade cai, e vice-versa. É uma relação quase mecânica, de tal modo que se poderia apenas consultar a popularidade de um deles e, a partir daí, saber se a economia ia bem ou mal.

"É um fenômeno que ocorre em todo o mundo: se um dado econômico importante vai mal, a popularidade do governante vai mal", diz Orjan Olsen, um dos maiores especialistas em formação de opinião pública no país. Essa constatação carrega doses iguais de importância e de perigo. Viciados em popularidade, os governantes são sempre tentados à demagogia econômica em troca do aplauso popular. João Goulart, derrubado no golpe de 64, tinha esse vício – e fazia concessões para todos os lados. Campos Salles, que presidiu o Brasil na virada do século, de 1898 a 1902, fez o contrário. Herdou um país aos pedaços, fez uma política austera e impopular, com recessão e aumento de impostos. Deixou o Palácio do Catete sob vaias – mas a história reconhece que seu sucessor, Rodrigues Alves, só pôde reurbanizar o Rio de Janeiro e construir o Teatro Municipal porque Campos Salles fez o dever de casa. "Não é incomum que um governo sólido e honesto seja impopular", afirma o cientista político Jarbas Medeiros, da Universidade Federal de Minas Gerais. Winston Churchill ergueu o triunfo da Inglaterra na II Guerra, mas, ao deixar o governo, só quem lhe dava atenção era o papagaio que lhe trepava pela cabeça. Hoje, está na galeria dos grandes estadistas do século. Eis o perigo: se para Fernando Henrique não for possível conciliar o aplauso das ruas com o que precisa ser feito no país, como as reformas nada populares, qual será a sua opção?

3 comentários:

  1. Caro Luiz Antônio,

    Esta foi muito boa e peço desde já sua permissão para reproduzí-la no Língua de Trapo. Devo ressaltar que fiquei impressionado com o seu apurado "faro arqueológico". Parabéns!
    Luiz Moura

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  2. "(...)Rodrigues Alves, só pôde reurbanizar o Rio de Janeiro e construir o Teatro Municipal porque Campos Salles fez o dever de casa."

    Essa reforma não foi o grande impulso da construção das favelas cariocas?

    Só podia ser a Veja mesmo...

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  3. Muito bommmmmmmm! Obrigada por esta recuperação histórica.....

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