Pular para o conteúdo principal

Sobre a reeleição sem limites

Ainda é cedo para saber, mas parece que Hugo Chávez venceu o plebiscito sobre a reeleição ilimitada na Venezuela. A mídia conservadora vai malhar o presidente venezuelano até mais não poder, é claro, mas a questão de fundo nesta história toda é uma só: o sistema democrático de governo deve limitar a vontade popular? Não se trata aqui de defender a perpetuação de um homem no poder, mas de uma questão teórica: se um povo decide, pelo voto nas urnas, que a regra do jogo deve permitir reeleições sucessivas para determinados cargos, porque esta decisão, tomada dentro das regras democráticas, deve ser ignorada em nome de uma suposta defesa deste mesmo povo?

Há muitos exemplos históricos de presidentes ou líderes que duraram muito mais do que dois ou três mandatos, em regimes democráticos. Na Europa, há os casos de Miterrand e Tatcher, ninguém jamais acusou a França e Inglaterra de ditaduras. Ok, há quem diga que no parlamentarismo o sistema é outro e permite este tipo de permanência do chefe de Estado, porque o chefe de governo e/ou o gabinete muda a cada crise. É um argumento apenas parcialmente correto, especialmente nos casos citados – Tatcher e Miterrand tinham poder de fato e governaram, cada qual a sua maneira, formulando as diretrizes e traçando os rumos de seus países.

Este blog tem uma opinião formada sobre a questão das reeleições e regimes de governo: cabe ao povo, no seu direito soberano, decidir sobre o seu destino. Se um plebiscito chama a população para decidir entre parlamentarismo, presidencialismo ou monarquia, como ocorreu aqui no Brasil, o resultado precisa ser respeitado. É uma prova democrática, não adianta a elite do país achar que o parlamentarismo é mais avançado e escrever uma Constituição de caráter parlamentarista, que se presta melhor a este regime, se a população nas urnas responde que prefere o presidencialismo. O mesmo vale para o plebiscito de Chávez: se o povo venezuelano decidir que o coronel pode ser candidato quantas vezes quiser, cabe à oposição tentar derrotá-lo nas urnas, pelo convencimento do povo daquele país. É "feio" um presidente ficar muitos anos no poder? Para a grande imprensa, é muito feio, horroroso, especialmente abaixo da linha do Equador. Do lado de cima, nem tanto, longas permanências no ooder em geral forjam "estadistas". Sim, é duro viver na colônia...

PS às 0h42 de segunda-feira: Chávez venceu. Os jornalões não vão perdoar, mas foi a vontade do povo venezuelano. Se fosse o Sarkozy, sobrariam elogios ao "despreendimento" do francês em servir a seu povo. Mas não é Sarkozy, é Chávez...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Doca Street, assassino de Ângela Diniz, morre aos 86 anos em São Paulo

Não existe verbete na Wikipédia sobre Doca Street. Morto nesta sexta (18) aos 86 anos, talvez agora ele ganhe uma página em seu nome nesta que é a maior enciclopédia colaborativa do mundo, onde só em português constam 1.049.371 artigos. A menção mais relevante no site a Raul Fernando do Amaral Street, o nome completo de Doca, aparece na entrada que fala de Ângela Diniz, socialite mineira assassinada em 1976 com quatro tiros disparados pela arma –e pelas mãos– de Doca, na casa que o casal dividia na Praia dos Ossos, em Búzios (RJ). Nada surpreendente. Afinal, desde que pôs um fim à existência de Ângela, Doca viu sua vida marcada e conectada ao crime que cometeu –ainda que, após seu primeiro julgamento, em 1979, ele tenha saído pela porta da frente do tribunal, ovacionado pelo público de Cabo Frio, também no litoral fluminense, escreve Marcella Franco em artigo publicado na Folha Online na sexta, 18/12, e reproduzido sábado, 19, no jornal. Vale a leitura, continua a seguir. Foi só em 198...

Dica da Semana: Tarso de Castro, 75k de músculos e fúria, livro

Tom Cardoso faz justiça a um grande jornalista  Se vivo estivesse, o gaúcho Tarso de Castro certamente estaria indignado com o que se passa no Brasil e no mundo. Irreverente, gênio, mulherengo, brizolista entusiasmado e sobretudo um libertário, Tarso não suportaria esses tempos de ascensão de valores conservadores. O colunista que assina esta dica decidiu ser jornalista muito cedo, aos 12 anos de idade, justamente pela admiração que nutria por Tarso, então colunista da Folha de S. Paulo. Lia diariamente tudo que ele escrevia, nem sempre entendia algumas tiradas e ironias, mas acompanhou a trajetória até sua morte precoce, em 1991, aos 49 anos, de cirrose hepática, decorrente, claro, do alcoolismo que nunca admitiu tratar. O livro de Tom Cardoso recupera este personagem fundamental na história do jornalismo brasileiro, senão pela obra completa, mas pelo fato de ter fundado, em 1969, o jornal Pasquim, que veio a se transformar no baluarte da resistência à ditadura militar no perío...

Política mundial? Leia o blog do Argemiro

Política internacional jamais foi o forte deste blog, que prefere manter o foco nas análises da mídia e da política brasileira. Para quem gosta de acompanhar o noticiário internacional em português e está cansado de ler o pouco que os nossos jornalões reproduzem por aqui, uma boa dica é o Blog do Argemiro Ferreira , um dos mais experientes correspondentes brasileiros trabalhando nos Estados Unidos. Colunista do jornal Tribuna da Imprensa , Argemiro faz excelente análises e traz informações diferenciadas, especialmente sobre a corrida eleitoral nos EUA. Um bom exemplo é o post abaixo, que começa com futebol e termina em Karl Rove. Quem quiser ler mais é só dar um pulo lá ... A promiscuidade no jornalismo político Certa vez estive envolvido numa discussão interna do Sindicato de Jornalistas do Rio sobre uma coluna iniciada por Pelé no Jornal do Brasil. Discordei da idéia de impedí-lo de escrever a pretexto de não ser jornalista. Mas o próprio craque, interpelado pelo sindicato, acabaria...