sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Quando os tucanos não se bicam

Na semana em que o PMDB fez barba, cabelo e bigode no Congresso, o PSDB conseguiu roubar a cena nos dias seguintes à eleição de José Sarney (AC) no Senado e Michel Temer (SP) para o comando da Câmara Federal. O que aconteceu na eleição para a liderança da bancada tucana na Câmara não foi uma mera disputa interna, normal em qualquer partido político. Quando é assim, os derrotados logo se resignan e a vida segue em frente. No caso da reeleição de José Aníbal (SP) para o cargo de líder – o que não era previsto no estatuto interno do PSDB, alterado especialmente para a ocasião -, o racha foi profundo e terá consequências futuras.

Para quem não conhece os bastidores tucanos, cabe alguma explicação. Aníbal já foi presidente do partido e em 2004, depois de perder a eleição para senador por São Paulo em 2002, fez um grande favor ao então candidato a prefeito da capital, hoje governador José Serra, disputando uma vaga na Câmara Municipal. Se elegeu com boa votação e foi o que no jargão político se chama de "puxador de votos", trazendo para o partido mais algumas vagas na Câmara e, portanto, mais tranquilidade para Serra governar.

A expectativa de Aníbal após a eleição era, no mínimo, a de ser presidente da Câmara Municipal ou mesmo secretário na prefeitura. Mas Serra operou contra o então vereador, que ficou a ver navios. Desde então, o hoje líder do PSDB na Câmara dos Deputados joga junto com os rivais de Serra. Em 2006, foi um dos articuladores da candidatura de Alckmin à presidência e atualmente é um dos soldados da pré-candidatura de Aécio Neves à presidência em 2010.

Evidentemente, o que está por trás da disputa dos tucanos na Câmara é justamente a vaga de candidato à presidência em 2010. José Aníbal só conseguiu dar o golpe que deu porque contava com o respaldo de Aécio Neves. O que talvez os aecistas não esperavam foi a reação da ala "serrista", que abriu uma dissidência de 19 deputados, comandados por Paulo Renato de Souza, ex-ministro da Educação de Fernando Henrique.

Bem, a esta altura, o leitor pode estar se perguntando: "e daí? Eles que são brancos que se entendam". É bem verdade que a questão está circunscrita ao PSDB, mas para um analista mais arguto, a questão pode ser resumida em outra frase bem popular: Serra não está com esta bola toda em seu próprio partido... E isto é uma informação relevante, porque muitos analistas já estão dando de barato que o governador paulista será o candidato à presidência do PSDB em 2010. Melhor ir devagar com o andor, porque o santo é de barro. Serra é o favorito, mas também era em 2006, quando o pio Geraldo Alckmin comeu pelas beiradas e se tornou o adversário de Lula nas urnas. Também é verdade que Serra já papou Geraldo ao nomeá-lo secretário, unificando o PSDB paulista, o que só torna ainda mais significativa a manobra de Aníbal, um paulista, no xadrez político que vai se tornando a disputa pela vaga de candidato tucano em 2010.

No fundo, a reeleição de Aníbal tem para Aécio o mesmo gosto que teve para Serra a nomeação de Alckmin, até então um defensor da candidatura do mineiro à presidência. O jogo só não empatou porque Serra está na frente nas pesquisas de opinião. Aécio, porém, não é nenhum bobo e vai trabalhar com o argumento da Grande Conciliação Nacional em tempos de crise para tentar ser ele o "pós-Lula", um candidato afável ao governo, mas com verniz de oposição. O grande problema de Aécio é que Serra já percebeu a jogada e se colocou ele mesmo, José Serra, neste papel. O jogo tende a ficar cada vez mais bruto daqui para frente, o que no fundo só ajuda uma pessoa: Dilma Rousseff...

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