terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Jasson Andrade: ainda os cartões do Serra

O distinto leitor deve estar estranhando a diminuição das denúncias sobre uso indevido de cartões corporativos na grande imprensa brasileira. De fato, depois que foram descobertas falcatruas com os cartões do governo de São Paulo, os jornalões resolveram pegar mais leve. Afinal, ficaria meio ridículo só publicar matérias sobre os cartões federais se em São Paulo, sob o austero governo do candidato à presidência de 9 entre 10 grandes grupos de mídia, o tucano José Serra, a bandalheira é semelhante. Sobre este assunto, Jasson de Oliveira Andrade, um atento leitor do Entrelinhas, escreveu o texto abaixo, cuja leitura este blog vivamente recomenda.

Volto a escrever sobre os cartões corporativos. Agora só o do Serra. É que a mídia apenas fala daqueles do governo federal. Jornal de Mogi Guaçu, por exemplo, escreveu dois editorais e alguns artigos. Não citou os cartões do Serra. Além do mais, teremos a CPI federal. Em São Paulo não se permitiu a investigação pela Assembléia. Com a investigação no âmbito do governo Lula, iremos ouvir falar somente desta - e por muito tempo -, "esquecendo" a do nosso Estado. Somente um comentário. Tivemos a pesquisa CNT-Sensus, com boa avaliação do governo federal.

Ao noticiar a pesquisa, A Folha colocou em manchete: "Aprovação a Lula cresce apesar dos cartões". Já a notícia do Estadão é: "Governo Lula tem melhor avaliação desde início de 2003", mas também não esquece de acrescentar: "Presidente passa ileso pro crise dos cartões". Por que dessa boa avaliação? O próprio Estado responde no Editorial Lulomania: "Um sentimento de otimismo com a ECONOMIA (destaque meu) beneficia o presidente Lula". Se a economia vai bem, Lula também vai bem. Podem bater à vontade!

Antes de entrar no assunto deste artigo, uma observação. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao falar aos vereadores do PSDB em São Paulo, segundo noticiou o Estadão, ele recomendou que os edis tucanos deveriam dar atenção ao tema da segurança, dizendo que hoje todos têm medo: "Isso não é vida". FHC tem razão, mas se esqueceu de um pequeno detalhe: os tucanos governam São Paulo há mais de 10 anos. Os vereadores tucanos vão criticar os governos do PSDB?

Vamos aos cartões do Serra. O Estadão (16/2/2008) noticiou, em manchete: "Gasto sigiloso em SP com cartão dobra em 5 anos - Despesas passaram de R$ 2,19 mi em 2002 para R$ 4,49 milhões em 2007; Serra havia dito que Estado não tem "contas secretas". Na reportagem, a jornalista Sílvia Amorim revela: "Os dados estão registrados no sistema de acompanhamento dos gastos do governo (Sigeo) e contrariam o que disse o governador José Serra (PSDB) nesta semana ao comentar pela primeira vez o uso do "dinheiro de plástico" no Estado. Serra afirmou que não havia gastos secretos em São Paulo. "A diferença é que aqui não existe conta secreta. Aqui o secretário de Estado não tem cartão, ninguém compra em free shop", afirmou".

Em São Paulo, não tem o Portal da Transparência. Só os deputados estaduais podem entrar nessas contas, mais ninguém. Então aconteceu um fato surpreendente. O jornal Estadão para saber desses dados pediu - PASMEM - aos deputados do PT que levantassem os gastos. Eis o que a jornalista revela: "De 2002 a 2007, governo desembolsou R$ 20,451 milhões com os gastos secretos, conforme levantamento feito pela liderança do PT na Assembléia Legislativa [o líder é o deputado Pedro Simão] A PEDIDO DO ESTADO (destaque meu). Não há registro de despesas em 2001, quando foi criado o "dinheiro plástico" paulista". Logicamente a imprensa, inclusive de Mogi Guaçu, não vai escrever editoriais sobre essas revelações! Para não me estender, fico apenas nessa notícia. É que pretendo analisar um problema, em minha opinião, mais lamentável.

O Hospital das Clínicas era considerado um dos melhores, senão o melhor do Brasil, com fama internacional. Recebe doentes de vários países. Ultimamente, sem boa manutenção, houve incêndio que atingiu o Prédio dos Ambulatórios da unidade. Esse acidente teve outra conseqüência: contaminação pára exames do Hospital das Clínicas, é o que constatou o Estadão. Revela ainda o jornal: "Falta de refrigeração, causada pelo incêndio em dezembro, disseminou fungos e bactérias por laboratório". Em tópico, sob o título FASE DIFÍCIL, Fabiane Leite comenta: "É a quarta vez que o hospital, o maior da América Latina, passa por problemas desde dezembro do ano passado. O HC é uma unidade ligada ao governo do Estado de São Paulo". Além daquele incêndio de dezembro de 2007, que, segundo a jornalista, "houve prejuízo para cerca de 4.000 pacientes", aconteceram ainda pane no hemocentro e um princípio de incêndio em uma sala da endoscopia. Agora, com a contaminação (fungos e bactérias), paralizou-se os exames. É lamentável que tudo isso tenha acontecido no Hospital das Clínicas! No entanto, haverá silêncio sobre essa situação. Os comentários serão sobre os cartões!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

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