quarta-feira, 11 de outubro de 2006

A central tucana de inteligência e as alternativas para Geraldo Alckmin

A terceira semana da campanha presidencial neste segundo turno deve começar sob o signo das pesquisas realizadas após o debate inaugural entre Geraldo Alckmin (PSDB) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT.

A ampliação da liderança de Lula apontada nos últimos levantamentos de intenção de voto ainda não pode ser considerada uma tendência consolidada, embora seja razoável supor que boa parte dos eleitores de Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) acabe mesmo migrando para a candidatura petista, especialmente após a radicalização conservadora do discurso de Alckmin.

O problema central para a aliança tucano-pefelista é que a situação do candidato lembra a famosa frase “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”: Alckmin precisa bater duro em Lula para “desconstruir” o mito do presidente-operário, cujo carisma conquista as pessoas e evita que toda e qualquer denúncia arranhe a sua imagem. Batendo duro, no entanto, Alckmin corre o risco de irritar justamente o eleitorado que precisa conquistar.

De fato, a pauta política da semana passada girou em torno da atitude de Alckmin no debate da TV Bandeirantes. Onde uns viram firmeza, outros enxergaram arrogância e desrespeito. O jornalista Fernando Rodrigues lembrou em seu blog o célebre debate em que Cristovam Buarque humilhou Joaquim Roriz, que parecia incapaz de acertar uma concordância verbal durante o programa. A população mais pobre do Distrito Federal não gostou da empáfia de Cristovam e devolveu nas urnas elegendo Roriz governador. No caso atual, as primeiras pesquisas indicam que a tal acachapante vitória de Alckmin no debate, conforme comemorado pelos tucanos já no dia do programa, não aconteceu. Os eleitores de Lula acham que o presidente venceu, o oposto ocorrendo no público que já vota em Alckmin.

Na verdade, a campanha de Geraldo Alckmin tinha duas alternativas de estratégia para o segundo turno. A primeira, vocalizada pelo prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, era Alckmin fazer algumas “concessões” à esquerda para conquistar a maior parte dos votos de Heloísa Helena e Cristovam e tentar roubar eleitores que sufragaram o nome de Lula no primeiro turno. Segundo Maia, o ideal neste caso seria Alckmin caminhar ao lado de Denise Frossard e Gabeira no Rio de Janeiro, e não ter feito logo um acordo com o polêmico Anthonty Garotinho. O candidato poderia focar a campanha na questão ética e anunciar programas sociais de impacto, a fim de convencer a massa pobre que não é um “exterminador do futuro”.

A segunda alternativa foi a que a campanha julgou mais adequada: Alckmin está se colocando como político de quase extrema-direita, partindo para o ataque contra Lula e tentando forçar uma polarização em nível nacional, como ocorreu no México, onde os conservadores ganharam por pequena margem de votos. Aliado a este discurso veio uma fala demagógica sobre temas de baixa relevância, como a venda do avião que serve a Presidência ou os gastos dos cartões corporativos. Enfim, Alckmin vestiu o figurino udenista e apostou na “indignação” das classes médias e no preconceito de classe contra o presidente-operário. Uma aposta arriscada, pois joga contra si o estigma de candidato dos ricos e atiça a militância de esquerda, que, por sinal, já está bastante mobilizada para evitar a volta da direita ao poder.

É claro que o tucanato ainda pode fazer novos movimentos em sua campanha e virar o jogo, mas esta coluna avalia que a construção de um Geraldo Alckmin de cunho lacerdista foi para Lula uma tábua de salvação em um momento delicadíssimo da campanha, em que seu adversário estava ascendendo após um escândalo montado pelo próprio PT e que só prejudicou o presidente. A sorte de Lula, portanto, é que também o PSDB conta com a sua “Central de Inteligência”.

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