quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Rodini: eleição sem prognósticos

Em mais uma análise para este blog, Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia comenta os dados apresentados na pesquisa Datafolha sobre a corrida eleitoral para a Presidência da República. Segundo o especialista, os números do Datafolha mostram que Alckmin ganhou o debate, mas não conseguiu transformar a vitória em intenção de votos. A tarefa de Lula seria hoje bem mais fácil do que a de Geraldo Alckmin. Leia a seguir a interpretação do diretor da Engrácia Garcia.

A primeira pesquisa Datafolha após o debate na Band revela alguma modificação em relação a pesquisa anterior. Naquela, Lula tinha 50% de intenção de voto contra 43% de Alckmin e nesta Lula oscilou positivamente um ponto percentual e Alckmin caiu 3 pontos percentuais. Pela margem de erro das pesquisas, na primeira Lula poderia ter 48% ou 52% e Alckmin poderia estar com 41% ou 45%. Nesta Lula pode ter 49% ou 53% e Alckmin pode estar com 38% ou 42%.Ou seja, dentro da margem de erro, os resultados não são tão mais preocupantes para campanha tucana do que já eram, levando-se em consideração que ainda não se iniciou o horário eleitoral e o escândalo do dossiê está um pouco arrefecido.

As variações nos estratos, especialmente nos mais favoráveis a Alckmin podem ter ocorrido muito mais por uma acomodação das intenções de voto dos muitos eleitores que, apesar da simpatia por Lula, preferiram votar em Heloísa Helena ou Cristovam para forçar um segundo turno que dirimisse suas dúvidas. Este eleitor está à espera que se concretize as denúncias contra o presidente ou contra o PT em geral para poder mudar seu voto ou mantê-lo, em caso contrário.

Alckmin, com o debate, sedimentou, segundo esta pesquisa, sua base eleitoral. O debate não foi o causador deste aumento de diferença entre Lula e Alckmin. Os boatos de que o tucano acabaria com o Projeto Luz para Todos, Bolsa-Família e privatizaria o Banco do Brasil e a Petrobrás podem ter reforçado este movimento em favor de Lula dos eleitores causadores do segundo turno.

Em relação ao debate na Rede Bandeirantes, uma coisa é certa: pela pesquisa Datafolha, Alckmin foi considerado o melhor. Vejamos os motivos: entre as mulheres, 29% consideraram Alckmin melhor e 25% indicaram Lula. Os homens consideraram que o debate terminou igual. Alckmin foi considerado vitorioso na contenda por 34% dos mais jovens, enquanto Lula teve a escolha de apenas 26% deles.Houve certo equilíbrio nas outras faixas etárias e 35% dos que têm ensino médio preferiram a atuação de Alckmin no debate contra 27% de Lula. Entre os de nível superior, 45% aprovaram o desempenho do tucano, enquanto 25% preferiram Lula. Mesmo entre os de menor renda , a diferença a favor da atuação de Lula no debate foi pequena; 28% pró Lula contra 24% pró Alckmin. Dos que declararam ter votado em Cristovam Buarque, 29% admitem que Alckmin foi melhor no debate, enquanto 24% dos admiradores do ex-ministro da Educação preferiram Lula. Em relação aos eleitores de Heloísa Helena, 28% acharam que o tucano levou a melhor e 19% afirmaram que foi Lula. Entre os que não tem candidato (votaram nulo, branco ou não votaram no primeiro turno, mas pretendem votar no segundo), 27% elegeram Alckmin como vencedor e 22% Lula. Alckmin levou vantagem também entre eleitores de todos os partidos , a exceção dos petistas.Apenas 46% dos petistas afirmaram que o Presidente venceu o debate.

Para os sulistas, o ganhador do debate na Band foi Alckmin (35% x 18%).Para os eleitores do Sudeste, o tucano também ganhou (33% x 25%). Entre os eleitores do Norte/Centro-Oeste, 30% acham que o ex-governador paulista venceu contra 27% que preferiram Lula. Mesmo no Nordeste, onde a votação de Lula é impressionante, apenas 38% disseram que o Presidente ganhou a disputa de acordo com o que viram ou ouviram falar.

Síntese: O debate foi nitidamente favorável a Alckmin, segundo a primeira pesquisa de opinião divulgada após o primeiro enfrentamento entre os dois candidatos a presidência da República. Lula continua tendo dificuldades entre o eleitorado feminino (42% das mulheres votam em Alckmin). O debate pode ter aberto ao tucano a possibilidade de melhorar seu fraco desempenho entre os homens por ter mostrado mais firmeza e aguerrimento. O presidente está muito consolidado no universo masculino desde o início da campanha. A classe média, empobrecida, espera mudanças. A classe menos abastada, especialmente os nordestinos, sinalizam que querem que seu dia a dia continue como hoje, com o Bolsa-Família satisfazendo suas necessidades vitais. Os mais jovens esperam que uma porta de oportunidade se abra e desejam que a situação se transforme.

A Alckmin não resta outra saída a não ser a tentativa de desconstrução da imagem do Presidente Lula. Mostrar- se firme, seguro e com apetite pelo poder pode levar seu eleitor a virar torcedor e começar a ter argumentos de boteco, que é o que ganha uma eleição tão acirrada e que divide o Brasil.

A tarefa de Lula, sem dúvida, é bem mais fácil. Os argumentos de que a eleição de Alckmin pode piorar a situação dos mais humildes e que pode gerar a privatização dos bancos federais e de estatais importantes podem atrair os eleitores de Heloísa Helena.O Presidente tem que torcer para que não apareçam mais amigos que joguem contra o patrimônio, não expondo sua candidatura a riscos maiores. Sua desaprovação entre os sulistas mostra que a política agrícola não foi uma de suas prioridades e isto tem custado caro. A vantagem de Lula é que seu eleitor cativo já é torcedor e tem argumentado a seu favor há muito mais tempo que os do candidato tucano.

Esta ainda é uma eleição sem prognóstico.

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