sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Audiência recorde em fevereiro

Faltando poucas horas para o fim de fevereiro e apesar do Carnaval e do mês mais curto, o contador deste blog informa que já está batido o recorde de page views do Entrelinhas – o anterior era de outubro do ano passado. Como não temos a máquina dos portais e publicações da grande imprensa, o resultado é todo creditado ao boca a boca dos internautas que visitam este blog. A todos eles o autor destas mal traçadas agredece a audiência, os comentários, os e-mails – muitos dos quais apontado eventuais deslizes que a velocidade da internet acabam proporcionando – e principalmente a divulgação do Entrelinhas blogosfera afora.

São Paulo terá eleição mais animada do País

Se nada de realmente novo ocorrer no cenário político paulistano, a cidade vai assistir a uma das eleições mais animadas dos últimos tempos, com três candidatos fortíssimos na disputa. A última vez que isto aconteceu foi quando Jânio Quadros (PTB), Fernando Henrique (disputou pelo PMDB) e Eduardo Suplicy (PT) concorreram, em 1985. Para quem não lembra, quem levou a melhor foi o falecido ex-presidente, que bateu Cardoso por pequena margem. Fernando Henrique gosta de atribuir esta derrota ao PT, alegando que Suplicy lhe tirou os votos que garantiriam a vitória. Bobagem: se não tivesse se confessado ateu em um debate ou evitado sentar-se na cadeira de prefeito antes da eleição, provavelmente FHC teria batido Jânio...

Vinte e três anos depois, São Paulo deve assistir a um novo tríplice embate, desta vez com dois candidatos representando as forças conservadoras: Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM). A ex-prefeita Marta Suplicy (PT) espera se beneficiar da divisão da direita, mas terá a difícil tarefa de reduzir sua própria rejeição para ter chances de vencer o segundo turno.

Uma das variáveis mais interessantes da eleição paulistana deste ano será a composição das alianças político-partidárias. Os três pré-candidatos estão trabalhando ativamente nesta tarefa. Todos têm assediado o ex-governador Orestes Quércia, presidente estadual do PMDB em São Paulo e detentor do maior tempo de propaganda na televisão. Político experiente que é, o ex-governador avisou que o PMDB terá candidato próprio na capital – Alda Marco Antonio seria o nome mais forte até o momento –, mas continua conversando com emissários de Marta, Alckmin e Kassab.

Já o também ex-governador Alckmin espera conseguir o apoio do PTB de Campos Machado e Romeu Tuma. Se a conversa com o PMDB não prosperar, é bastante provável que o vice de Alckmin venha dos quadros do PTB – poderia ser o próprio Campos Machado.

O PT já se movimenta para tentar evitar que o chamado "bloquinho" (PSB, PDT e PCdoB) lance uma das três pré-candidaturas que vem sendo consideradas pelo grupo (Luiza Erundina, Paulinho da Força e Aldo Rebelo). Nos bastidores, há quem diga que a direção do PT já prometeu o ministério do Turismo para o PSB, a fim de contar com o apoio do partido nas eleições.

Em termos de alianças, o jogo parece estar mais difícil para Gilberto Kassab. Como o DEM não é forte em São Paulo, restaria a Kassab tentar o apoio de Orestes Quércia para a candidatura ganhar musculatura e tempo na TV. O problema é que Quércia não gostou da primeira aproximação de Kassab, que prometeu mundos e fundos ao ex-governador e nada entregou. Na verdade, o prefeito tem um problemão pela frente, porque no PMDB a preferência da militância se divide entre apoiar Marta Suplicy, Geraldo Alckmin ou partir para a candidatura própria e negociar um apoio apenas no segundo turno. Correndo sozinho ou com apoio apenas de nanicos, Kassab sem dúvida terá muito mais dificuldades para crescer.

Hoje, um segundo turno entre Alckmin e Marta parece francamente favorável ao ex-governador. De fato, se Geraldo Alckmin concorrer e não vencer a eleição municipal, sua carreira política estará encerrada, pois os caciques José Serra e Fernando Henrique Cardoso não o perdoarão por impedir a natural aliança do PSDB com Kassab sem trazer nenhum benefício ao partido. O problema todo para Alckmin será mesmo justificar porque diabos o PSDB lançou um candidato próprio para disputar a prefeitura contra um aliado que faz uma administração em que metade dos cargos é ocupado por tucanos. Esta contradição pode ajudar o PT e Marta.

Tudo somado, a eleição caminha para uma disputa acirradíssima em São Paulo. Cada voto vai ser disputado a tapa e com isto cresce também a importância dos nanicos e franco-atiradores de plantão. Quantos votos Ivan Valente (PSTU) conseguirá tirar dos petistas mais tradicionais, que se decepcionaram com o governo Lula? A histriônica Zulaiê Cobra (PHS) vai destilar seu ressentimento contra os tucanos e contar algumas das encantadoras histórias que sabe sobre Geraldo Alckmin e José Serra? Muita água ainda vai passar debaixo da ponte até outubro. O eleitor paulistano pode esperar muita animação nas ruas neste ano.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Dois jeitos de dar a mesma notícia

Na Folha Online: Desemprego sobe para 8% em janeiro e renda fica estável, diz IBGE
Na Agência Brasil: Desemprego em janeiro é o segundo menor desde março de 2002, revela IBGE

Nenhum dos títulos está errado, os dois retratam a mesma realidade. A má-vontade da Folha, porém, é evidente. Todo mês de janeiro o desemprego sobe, se comparado a dezembro, mês de fortes contratações temporárias. Em relação a janeiro do ano passado, o desemprego recuou e este é o dado mais relevante do material divulgado pelo IBGE.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

CPI dos Cartões: pizza no forno

O sucesso das negociações em torno da presidência da CPI Mista que investigará o uso indevido dos Cartões Corporativos apenas prova a hipótese lançada neste blog quando a oposição começou a urrar pelos corredores do Congresso: "queremos CPI, queremos CPI". Vamos relembrar: em uma das raríssimas vezes em que a atrapalhada articulação política do Planalto agiu com rapidez no Congresso, o governo devolveu os berros de Virgílio e seus companheiros com um desafio singelo: "Nós também queremos CPI e vamos investigar a bandalheira toda, desde 1998, quando foram criados os cartões".

A oposição ficou então com "medinho", como diria o impagável Capitão Nascimento, enfiou o rabo entre as pernas e foi pensar no que fazer para evitar a descoberta dos vinhos Romanée Conti comprados com o cartão da bandeira FHC, ao módico preço de R$ 28 mil a garrafa. Sem solução à vista, o jeito foi começar a negociar com o governo.

No meio do caminho, o acordão esbarrou na composição da CPI, pois o PMDB não queria abrir mão do seu direito legal de ficar com a presidência da Casa. Tucanos e Democratas perceberam que se aceitassem as regras que a base aliada queria impor, não conseguiriam nem jogar para as suas torcidas, como vinham fazendo, e passaram então a ameaçar com a CPI no Senado – curiosamente, esta era a proposta inicial do governo!

Conversa daqui, conversa dali, o acordo finalmente foi selado hoje: o PSDB fica com o presidência da Comissão, que vai investigar uma porção de coisas, mas não os gastos do ex-mandarim Fernando Henrique Cardoso e do presidente Lula.

Agora, o jogo vai ser apenas para a torcida. PSDB e DEM ganharam um palanquinho udenista em ano eleitoral e o governo, uma coceirinha no dedão do pé, nada que não dê para suportar até junho, quando os trabalhos da CPI deverão ser encerrados.

No fundo, o que está indo para o forno é uma pizza bem saborosa, embora a opinião pública talvez fique com a impressão de que tucanos e democratas estão realmente fazendo oposição. Só impressão, porque neste caso, como em todos que a sigla FHC aparece, a oposição primeiro se defende, depois tenta ver se dá para tirar algum proveito.

Lula não precisa do Orçamento, diz Maia

O blogueiro Cesar Maia (DEM), que no momento acumula também a função de prefeito do Rio de Janeiro, é um bom analista de alguns temas que entende mais profundamente (interpretação de pesquisas, um pouco de administração pública e economia, por exemplo). É claro que tudo que Maia escreve tem o viés de quem está no jogo político, mas alguns de seus comentários merecem ser lidos com mais atenção porque revelam enfoques originais. Nesta quarta-feira, o blogueiro-prefeito escreve sobre a tramitação do Orçamento da União e acerta em 90% do que diz, só escorrega quando diz que os empenhos feitos no ano anterior são ilegais - ao contrário, estão absolutamente dentro da regra. Pela maneira clara com que explica o mecanismo, vale a pena ler o comentário.

O ORÇAMENTO É PRESCINDÍVEL NO GOVERNO LULA!

1. O Parlamento ganha as primeiras formas, como as que tem hoje, ainda no século 15, na Inglaterra. A razão estruturante do Parlamento é a Lei de Orçamento, que na época obrigava o Rei a aprovar os novos impostos ou aumento dos anteriores, que queria usar.

2. No século 18, os poderes distintos, passam a constituir a ossatura do regime democrático. A Lei de Orçamento renova a cada ano as limitações e as obrigações do poder executivo. O absolutismo -em ultima instância- é o Poder Executivo governar sem Lei de Orçamento.

3. Nos Estados Unidos, o Congresso além de aprovar a Lei de Orçamento, ainda a executa, através de uma comissão mista de deputados e senadores, responsável por empenhar as despesas. No Reino Unido, os orçamentos bianuais aprovados -mesmo se para serem aplicados a menos, em seus detalhes, requerem autorização legislativa.

4. O governo Lula governa, tranqüilamente, sem Lei de Orçamento. Empenha ilegalmente no final do ano o orçamento não aprovado e despesas sequer iniciadas no ano anterior. Abre o orçamento por medidas provisórias, quando bem entende. Para constituir uma CPI o governo mobiliza suas bases -faz e acontece. Mas para aprovar a Lei de Orçamento, não mexe uma palha: tanto faz.

5. Mesmo as leis orçamentárias mais flexíveis para o poder executivo, não permitem que o executivo crie novos programas por ato administrativo. Mas para o governo Lula isso tanto faz. Não dá a mínima bola para a aprovação da lei de orçamento, governa sem ela, cria orçamento por medida provisória, empenha de um ano para outras despesas inexistentes no ano anterior, cria programas administrativamente, e vai levando.

6. Muitas vezes se fala em democracias incompletas, imperfeitas. Mas nesse caso, quando a coluna vertebral das relações entre o legislativo, e o executivo, da própria razão última do parlamento, dos limites do executivo, sua dependência às leis para seu gasto, deixam de existir, já não se pode falar em regime democrático. É o que ocorre este ano, e vem ocorrendo nos anos anteriores.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A pedidos: Nassif vs. Veja

Um leitor pergunta por que o Entrelinhas ainda não deu link para a série que o jornalista Luis Nassif está escrevendo sobre a revista Veja. Bem, o link para o blog do Nassif está na coluna ao lado, no Entrelinhas Indica, mas de fato vale a pena incluir aqui o endereço da página em que está a polêmica completa: é o http://luis.nassif.googlepages.com/

Jasson Andrade: ainda os cartões do Serra

O distinto leitor deve estar estranhando a diminuição das denúncias sobre uso indevido de cartões corporativos na grande imprensa brasileira. De fato, depois que foram descobertas falcatruas com os cartões do governo de São Paulo, os jornalões resolveram pegar mais leve. Afinal, ficaria meio ridículo só publicar matérias sobre os cartões federais se em São Paulo, sob o austero governo do candidato à presidência de 9 entre 10 grandes grupos de mídia, o tucano José Serra, a bandalheira é semelhante. Sobre este assunto, Jasson de Oliveira Andrade, um atento leitor do Entrelinhas, escreveu o texto abaixo, cuja leitura este blog vivamente recomenda.

Volto a escrever sobre os cartões corporativos. Agora só o do Serra. É que a mídia apenas fala daqueles do governo federal. Jornal de Mogi Guaçu, por exemplo, escreveu dois editorais e alguns artigos. Não citou os cartões do Serra. Além do mais, teremos a CPI federal. Em São Paulo não se permitiu a investigação pela Assembléia. Com a investigação no âmbito do governo Lula, iremos ouvir falar somente desta - e por muito tempo -, "esquecendo" a do nosso Estado. Somente um comentário. Tivemos a pesquisa CNT-Sensus, com boa avaliação do governo federal.

Ao noticiar a pesquisa, A Folha colocou em manchete: "Aprovação a Lula cresce apesar dos cartões". Já a notícia do Estadão é: "Governo Lula tem melhor avaliação desde início de 2003", mas também não esquece de acrescentar: "Presidente passa ileso pro crise dos cartões". Por que dessa boa avaliação? O próprio Estado responde no Editorial Lulomania: "Um sentimento de otimismo com a ECONOMIA (destaque meu) beneficia o presidente Lula". Se a economia vai bem, Lula também vai bem. Podem bater à vontade!

Antes de entrar no assunto deste artigo, uma observação. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao falar aos vereadores do PSDB em São Paulo, segundo noticiou o Estadão, ele recomendou que os edis tucanos deveriam dar atenção ao tema da segurança, dizendo que hoje todos têm medo: "Isso não é vida". FHC tem razão, mas se esqueceu de um pequeno detalhe: os tucanos governam São Paulo há mais de 10 anos. Os vereadores tucanos vão criticar os governos do PSDB?

Vamos aos cartões do Serra. O Estadão (16/2/2008) noticiou, em manchete: "Gasto sigiloso em SP com cartão dobra em 5 anos - Despesas passaram de R$ 2,19 mi em 2002 para R$ 4,49 milhões em 2007; Serra havia dito que Estado não tem "contas secretas". Na reportagem, a jornalista Sílvia Amorim revela: "Os dados estão registrados no sistema de acompanhamento dos gastos do governo (Sigeo) e contrariam o que disse o governador José Serra (PSDB) nesta semana ao comentar pela primeira vez o uso do "dinheiro de plástico" no Estado. Serra afirmou que não havia gastos secretos em São Paulo. "A diferença é que aqui não existe conta secreta. Aqui o secretário de Estado não tem cartão, ninguém compra em free shop", afirmou".

Em São Paulo, não tem o Portal da Transparência. Só os deputados estaduais podem entrar nessas contas, mais ninguém. Então aconteceu um fato surpreendente. O jornal Estadão para saber desses dados pediu - PASMEM - aos deputados do PT que levantassem os gastos. Eis o que a jornalista revela: "De 2002 a 2007, governo desembolsou R$ 20,451 milhões com os gastos secretos, conforme levantamento feito pela liderança do PT na Assembléia Legislativa [o líder é o deputado Pedro Simão] A PEDIDO DO ESTADO (destaque meu). Não há registro de despesas em 2001, quando foi criado o "dinheiro plástico" paulista". Logicamente a imprensa, inclusive de Mogi Guaçu, não vai escrever editoriais sobre essas revelações! Para não me estender, fico apenas nessa notícia. É que pretendo analisar um problema, em minha opinião, mais lamentável.

O Hospital das Clínicas era considerado um dos melhores, senão o melhor do Brasil, com fama internacional. Recebe doentes de vários países. Ultimamente, sem boa manutenção, houve incêndio que atingiu o Prédio dos Ambulatórios da unidade. Esse acidente teve outra conseqüência: contaminação pára exames do Hospital das Clínicas, é o que constatou o Estadão. Revela ainda o jornal: "Falta de refrigeração, causada pelo incêndio em dezembro, disseminou fungos e bactérias por laboratório". Em tópico, sob o título FASE DIFÍCIL, Fabiane Leite comenta: "É a quarta vez que o hospital, o maior da América Latina, passa por problemas desde dezembro do ano passado. O HC é uma unidade ligada ao governo do Estado de São Paulo". Além daquele incêndio de dezembro de 2007, que, segundo a jornalista, "houve prejuízo para cerca de 4.000 pacientes", aconteceram ainda pane no hemocentro e um princípio de incêndio em uma sala da endoscopia. Agora, com a contaminação (fungos e bactérias), paralizou-se os exames. É lamentável que tudo isso tenha acontecido no Hospital das Clínicas! No entanto, haverá silêncio sobre essa situação. Os comentários serão sobre os cartões!

JASSON DE OLIVEIRA ANDRADE é jornalista em Mogi Guaçu

Vem aí a "crise das contas externas"

A julgar pelo que está nos jornalões desta terça-feira, a próxima gravíssima crise que o Brasil vai enfrentar será a das contas externas, que em janeiro apresentaram o pior resultado desde outubro de 1998, com um déficit de US$ 4,232 bilhões. O leitor não precisa se assustar muito, pois a crise das contas externas é apenas sucedânea da gravíssima crise da Febre Amarela (incrível como o pessoal parou de morrer da tal pandemia que a imprensa anunciava), que por sua vez substituiu a crise energética (São Pedro, que, como se sabe, é Lula desde criancinha, resolveu acabar com a mais remota possiblidade de apagão e pelo menos em São Paulo, está exagerando um pouco no serviço...). Antes da mídia anunciar o apagão que não houve, estava em cartaz a crise aérea, aquela causada pelos pobres que insistem em andar de avião e que tanto incomodou as madames de plantão (nunca antes neste país os telefones dos e das colunistas sociais tocou tanto e com tal número de reclamações sobre companhias aéreas e vôos atrasados). Tudo somado, o caro leitor pode ter certeza: a crise das contas externas vai durar o tempo exato de um novo "escândaldo" ganhar a simpatia da mídia para ocupar a posição de "crise do momento". Como dizia a propaganda, o mundo gira, a Lusitana roda. E estamos conversados.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Investimento estrangeiro aumenta
e deixa analistas neoliberais perplexos

Míriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg e sua turma devem estar preocupados: ao contrário das previsões que fizeram, os investimentos externos no Brasil continuam crescendo, apesar da crise da economia norte-americana. Os economistas neoliberais estão na verdade perplexos, porque vaticinavam que ao primeiro tremor nos EUA os gringos pulariam fora do barco brasileiro para "recompor suas posições" lá fora. Não foi o que aconteceu, ao contrário: o ingresso desse tipo de capital somou US$ 4,814 bilhões no primeiro mês de 2008, um aumento de 98,8% em relação aos US$ 2,422 bilhões no mesmo período de 2007. Os dados foram divulgados hoje pelo Banco Central. Para saber mais sobre o comportamento dos investimentos estrangeiros, basta clicar no link abaixo, manchete do UOL neste momento.

Investimentos estrangeiros dobram em janeiro de 2008

Em tempo: é claro que Míriam e Sardemberg vão atribuir a confiança dos gringos na economia brasileira à sólida política econômica implantada pelo excelso Fernando Henrique Cardoso, dez anos atrás... As always, Lula não tem nadinha a ver com isto.

PS: Só para constar, o resultado de janeiro de 2008 foi o melhor desde 1947, primeiro ano da série histórica. Depois reclamam quando o presidente diz que "nunca antes neste país"...

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Isto é jornalismo?



Não, nitidamente, não é jornalismo. Se alguém tinha alguma dúvida, a capa de Veja desta semana, reproduzida acima, é esclarecedora: trata-se de um panfleto de direita e não uma revista informativa. O jornalista Luis Nassif, que está escrevendo um dossiê sobre a revista Veja em seu blog, é até gentil ao classificar de “jornalismo de esgoto” o que é publicado na revistona mais vendida do país. Na verdade, não há jornalismo algum ali, apenas um apanhado de comentários e textos, muitos deles claramente ficcionais, sobre o que de mais importante a ultradireita considera ter ocorrido na semana. É, digamos assim, uma revista de formação e não de informação – e muito bem feita, por sinal.

Sem mencionar o conteúdo das “reportagens” internas, uma rápida análise da capa desta semana é suficiente para provar o caráter da revista. “Já vai tarde - o fim melancólico do ditador que isolou Cuba e hipnotizou a esquerda durante 50 anos” é uma chamada e tanto. Bem, “Já vai tarde” é o que pensa a família Civita e os muito bem pagos puxa-sacos que trabalham na árdua função de “editar” (editorializar seria mais preciso) Veja. Até aí, o script da ultradireita caminha bem. “Fim melancólico do ditador que isolou Cuba”, porém, já força um pouco a barra. Primeiro, porque não há nada de melancólico na renúncia de Fidel. Ele soube sair de cena, preparou a sua sucessão, continua escrevendo e divulgando as suas idéias (bem mais lidas do que as da família Civita, é bom que se diga). Ora, o que há de melancólico na troca de comando em Cuba? Ao contrário do que certamente desejavam a família Civita e os cubanos de Miami, não houve revolta popular contra o regime de Fidel e nem ele morreu no poder para que pudessem dizer que em Cuba a presidência era vitalícia.

Em segundo lugar, não foi Fidel quem isolou Cuba, mas os Estados Unidos da América - pátria dos Civita –, por meio do desumano embargo que já dura décadas. Outra incorreção da chamada é dizer que Fidel “hipnotizou” a esquerda mundial. Trata-se apenas de uma figura de linguagem ruim, pois a esquerda não foi “hipnotizada” por ninguém, ao contrário, estava lutando ao lado de Fidel, como esteve ao lado do camarada Stálin, por exemplo. A esquerda pode ter cometido erros, mas “hipnotizada” pelo comandante, definitivamente não foi.

A cereja no bolo desta edição de Veja é a pequena foto do presidente Lula no alto da capa, acima de Fidel e com pose de Superman. “Popularidade - Lula surfa nos bons números do capitalismo brasileiro” é a chamada que acompanha a imagem. Claro, trata-se de uma referência ao excelente desempenho do presidente brasileiro na pesquisa CNT/Sensus divulgada na semana passada. A revista já traz a explicação do aumento da popularidade logo na capa, para não deixar dúvidas: é a “rendenção” de Lula à economia de mercado o que o faz o mais popular dos presidentes brasileiros desde a redemocratização, a despeito da vergonhosa campanha da própria Veja contra o presidente. Ou seja, Lula é a esquerda que, domesticada, “deu certo”. Embora também não tolere o governo do presidente-operário, o panfletão da Abril deixa claro que, pelo menos até aqui, Lula e Fidel são diferentes.

Tudo somado, a edição de Veja desta semana devia ser estudada não nos cursos de jornalismo, mas nos de publicidade. É um bom jeito para os futuros marqueteiros dos futuros Malufs, Pittas e afins aprenderem como vender gato por lebre. Isto, melhor do que Veja ninguém faz.

Enquete nova no ar

A enquete da semana passada, sobre o que os paulistanos deveriam fazer se Gilberto Kassab e Geraldo Alckmin passarem para o segundo turno na eleição de outubro, foi bastante disputada e houve quase um triplo empate. Venceu a terceira alternativa, que recomendava ao eleitor "relaxar e gozar, afinal São Paulo já sobreviveu a Maluf, Jânio e Pitta". A nova enquete é sobre a popularidade de Lula e já está disponível na coluna ao lado. Divirtam-se e votem.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Humor carioca

A notinha abaixo, do jornalista Ancelmo Gois, é uma pérola do humor carioca. Difícil saber quem foi mais atingido, Fidel Castro ou Cesar Maia. Este blog sugere que Cesar siga o exemplo de Fidel e passe a se dedicar exclusivamente ao seu ex-blog, que é um raro sucesso de crítica e público. Pelo que se diz do Leme ao Pontal, o Rio agradeceria...

Ilhas daqui e de lá
Cesar Maia barbudo

Pelo que deu para entender, Fidel Castro vai ser uma espécie de Cesar Maia de Cuba: não faz nada mas fica escrevendo uns artiguinhos para entreter a galera.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Um bom texto sobre Fidel Castro

Vale a pena ler o artigo abaixo, do mestre Alberto Dines, originalmente publicado no Último Segundo. Este blog não concorda com tudo que vai abaixo, mas admite que se trata de uma excelente análise.


Fidel, fiel


Renunciar é uma opção que não cabe na alma do ser político. O verbo mantém-se no vocabulário, ajuda na retórica, reaparece em emergências, serve como ameaça, mas na natureza do voluntarismo – é disso que se trata quando examinamos a política como filosofia - não cabe este gesto extremo.

Monarcas abdicam (quase sempre em favor de alguém), executivos demitem-se de cargos (para obter outros), representantes eleitos abrem mão dos mandatos (para logo tentar recuperá-los), crentes podem renegar suas crenças (inclusive para sobreviver, como acontecia na Inquisição), mas a renúncia é opção terminal, precursora do suicídio. Getúlio Vargas renunciou e matou-se, não havia meio termo, a transição entre um gesto e outro deve ter durado minutos.

Fidel Castro não renunciou: apenas trocou o título de comandante-em-chefe pelo de companheiro. Continua como guia, suas reflexões – embora permeadas de rememorações – funcionam como referência para o futuro. “Cuba mudou [em 1959] e seguirá seu rumo dialético" escreveu no “Granma” nesta sexta-feira.

Ficou evidente que o “renunciante” não abre mão da sua vocação missionária e, apesar da alegada fragilidade física tem energia para convocar não apenas seus leitores, mas o seu povo e seus dirigentes para continuar a caminhada iniciada há quase meio século.

Filósofos e cientistas políticos deverão ocupar-se nas próximas semanas com um novo game: qual é o matiz da dialética anunciada por Fidel – platônica, aristotélica, hegeliana ou marxista? Mas o que importa neste momento é compreender a dialética desta “renúncia”: Fidel Castro saiu de cena e roubou a cena.

A questão cubana arrombou a agenda eleitoral americana. O grito de guerra mudancista proclamado por Barack Obama e a aura de experiência exibida por Hillary Clinton não poderão passar ao largo da desumanidade do embargo econômico norte-americano contra Cuba. O bom-mocismo de McCain, agora ligeiramente empanado pelas relações com uma lobista, será obrigatoriamente testado pela inesperada rentrée da questão cubana no debate político americano.

A guerra no Iraque, de certa forma, homogeneizou as postulações dos três mais fortes candidatos à Casa Branca: nenhum deles consegue ser suficientemente diferenciado e afirmativo nesta matéria. Mas a “renúncia” de Fidel lançou a questão cubana na direção dos palanques e dos debates televisivos. Um dos candidatos, talvez o mais desesperado, poderá agarrar a bandeira do fim do embargo e os estrategistas eleitorais até agora ocupados com a imagem decadente do país, a crise imobiliária, a guerra contra o terror, as pesquisas genéticas, aborto, casamento gay e assistência médica, de repente terão que lidar com esta batata quente, quentíssima, que não interessa apenas aos exilados cubanos da Flórida, mas à comunidade latina dos EUA.

Apesar da encenação de renúncia, Fidel será doravante o avalista dos sucessores, a esta altura já escolhidos. O cronograma foi bem pensado e precisamente executado. Revigorado e, de certa forma, restabelecido (contudo limitado pela perda de algumas funções fisiológicas), o ex-comandante-agora-companheiro está perfeitamente apto a supervisionar a transição. Nenhum dos ditadores modernos conseguiu preparar sua sucessão, exceto Fidel.

Nenhum líder mundial contemporâneo conseguiu fazer um percurso tão surpreendente. O guerrilheiro incendiou uma geração, melancolizou outra e agora prepara-se para humanizá-las através de reflexões e textos. Em Sierra Maestra, os jovens idealistas faziam leituras coletivas de clássicos literários, agora o encanecido comandante oferece uma retribuição.

Em busca de metáforas, alguns comparam o líder cubano com D. Quixote, o sonhador alquebrado. Outros com El Cid, o Campeador (ferido e amarrado ao cavalo, ajudou a vencer os mouros no início da Reconquista da Espanha).

Fidel é fiel, nada mais do que isso.

O fracasso da oposição e da imprensa

O que vai abaixo é o artigo semanal do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do blog.

Se um marciano chegasse no começo de janeiro de 2008 ao Brasil e começasse a ler o que estava saindo nos grandes jornais nacionais ou assitir e ouvir o noticiário das emissoras de televisão e rádio, em poucos dias formaria a seguinte opinião sobre o país:

1. O presidente da República não passa de um fanfarrão corrupto, cuja popularidade só pode ser negativa. A oposição, em franca ofensiva política, já deveria estar preparando os termos de um pedido de
impeachment.

2. A economia do país estava em vias de sofrer uma verdadeira hecatombe por causa de uma gravíssima crise nos Estados Unidos que já ameaça devastar o sistema capitalista e acabar com a oferta de crédito no sistema financeiro internacional.

Permanecendo no Brasil, o marciano começaria a circular pelo país, a conversar com as pessoas, ouvir a tal voz rouca das ruas de que falava um ex-presidente de triste memória. Em pouco tempo, certamente começaria a achar estranho que quase tudo o que sai na imprensa tupiniquim não corresponde muito bem ao que ele consegue apreender no contato com a população e na observação dos fenômenos da economia local.

Em fevereiro, o marciano começa a desconfiar que a mídia brasileira é um tanto esquizofrênica, pois começa a ler notícias sobre a altíssima popularidade do presidente da República e uma sequência de excelentes notícias para a economia nacional: geração recorde de empregos, aumento vertiginoso na venda de automóveis, fim da dívida externa do país, a moeda nacional apreciando e os mercados financeiros bastante animados.

Alguém já disse que entender o Brasil não é tarefa para amadores. De fato, nada por aqui é muito fácil. Como explicar, tendo em vista o efusivo apoio da imprensa, o absoluto fracasso da oposição na campanha que vem sendo realizada desde a primeira posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2003, para colar nele a pecha de corrupto, inepto, beberrão e ignorante? Como explicar que, a despeito de todo o esforço que a mídia brasileira tem realizado para reduzir as expectativas dos brasileiros no sucesso do país, este entusiasmo com o crescimento siga tão inabalável, de maneira a fazer a economia girar com novos investimentos, contratação de mão de obra e uma firme aposta no desenvolvimento do mercado interno?

A má vontade da imprensa brasileira com o governo Lula já é parte da história do Brasil, embora esta história não esteja ainda escrita, é claro. No futuro, os pesquisadores terão nos jornais uma excelente fonte para entender o comportamento de uma elite que resiste a largar o osso. O preconceito contra o presidente-operário, a negação de que qualquer fato positivo no país possa ter a mais remota relação com atos do governo, tudo isto ainda vai ser objeto de exame mais detido pelos futuros historiadores, mesmo porque ainda há muito por vir sob a presidência de Lula. De qualquer forma, a marca mais forte do governo Lula até agora parece mesmo ser o fracasso das oposições e da imprensa em tentar jogar o povão contra o presidente. Mas este é um jogo que continua em curso.

Explicação necessária

O atento leitor Allan Ravagnani escreve perguntando se o Entrelinhas está fazendo campanha subliminar para eleger José Serra presidente da República em 2010. Ele reparou que os anúncios do Google Adsense, que ficam na coluna ao lado, sempre contém alguma publicidade com a palavra Serra (em um mesmo momento, reporta Allan, estavam presentes os seguintes anúncios : Serra fita SRamos, Hotel e Spa na Serra da Mantiqueira, Serralherias, Serra do Cipo-MG, Motoboy Taboao da Serra).

De fato, este fenômeno tem explicação: o Adsense, que foi uma grande sacada e é responsável por boa parte do faturamento da bilionária Google, promete entregar o maior número possível de cliques aos anunciantes, que pagam por visitas recebidas. E para entregar a mercadoria, o Adsense coloca em funcionamento um robô que identifica, nos sites e blogs que permitem a inserção da publicidade por alguns trocados, as palavras e assuntos mais frequentes naquele espaço. Assim, o Adsense faz inserir os anúncios de acordo com as palavras-chaves mais utilizadas. Pela lei das probabilidades, o internauta que está interessado em tais assuntos ou palavras-chaves tem mais chance de clicar no anúncio disponível no site ou blog.

Desta forma, o que está acontecendo não deixa de ser engraçado: o robô, burro como todo robô é, não percebe que o Serra tão citado aqui no Entrelinhas e nem sempre de forma muito elogiosa é o governador tucano de São Paulo e acaba despejando toda a sorte de anúncios que têm a palavra Serra embutida...

Brasil sem dívida? Mérito de FHC...

É impressionante a desfaçatez dos jornalistas, colunistas e blogueiros bate-paus do PSDB: foi só o Brasil chegar na posição de credor externo, pondo fim à tão polêmica dívida externa que a turma saiu berrando que o país só está assim tão melhor porque o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso "iniciou este processo". Claro que a tese é um disparate sem tamanho, até porque durante todo o governo Lula os economistas ligados ao tucananto diziam que o Banco Central estava fazendo bobagem ao quitar as nossas dívidas e comprar dólar para reforçar nossas reservas em dólar. Portanto, se o governo FHC tivesse continuidade com José Serra, o candidato em 2002, ou Geraldo Alckmin, o derrotado em 2006, podem ter cereza de que o Brasil não estaria assumindo neste momento a posição de credor externo. O mérito pelo "fim" da dívida externa (claro que não é bem isto, ainda há dívida, mas o país já tem mais a receber do que pagar) é de apenas uma pessoa: Luiz Inácio Lula da Silva. Foi dele a orientação para que a política econômica austera não fosse abandonada em nenhum momento, desde a posse, em 2003.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Crise? Que crise?

Se no coração do império as coisas não andam muito bem, com a tal crise do subprime (hipotecas de alto risco) se alastrando na economia norte-americana, aqui no Brasil nada parece afetar o crescimento do país. Hoje mesmo o dólar chegou ao menor valor em 9 anos – uma prova de que os investidores estrangeiros não estão desfazendo-se de suas posições por aqui. Depois de uma certa turbulência em janeiro, o Ibovespa recuperou as perdas e já garante ganhos aos que ali apostam seus recursos. Do jeito que a coisa vai, o presidente Lula inda acorda invocado qualquer dia desses, liga para George W. Bush e diz: "Companheiro Bush, sei que vocês estão meio apertados por aí. Se precisar de qualquer coisa, é só ligar, estamos à disposição!"

PSOL perde mais uma bandeira: reservas
brasileiras superam a dívida externa do país

A ex-senadora Heloísa Helena, do PSOL, e os eventuais candidatos do PSTU e PCO à presidência vão ter dificuldade para fugir da pregação udenista típica da oposição de direita na eleição de 2010. Até pouco tempo atrás, a principal bandeira da ultra-esquerda era o "rompimento com o FMI". Pois o governo Lula "rompeu", sem traumas, é bom que se diga, as relações que o Brasil mantinha com o Fundo Monetário Internacional, deixando capenga a plataforma econômica de Helena e seus companheiros.

Outra bandeira cara aos partidos de ultra-esquerda era a "auditoria da dívida externa", para que os brasileiros soubessem direitinho como os malvados banqueiros do hemisfério norte estariam sugando a riqueza produzida por aqui. Este blog já alertou, tempos atrás, que a dívida externa brasileira é hoje basicamente um dívida privada, de empresas nacionais que tomam empréstimos lá fora em função dos juros mais baixos.

Hoje, porém, o Banco Central divulgou uma informação que enterra de vez o discurso ultra-esquerdista: o Brasil, na prática, já não tem dívida externa e assumiu a posição de credor no cenário internacional. Claro que ainda há empresas nacionais, inclusive estatais, com dívidas para pagar no exterior, mas o fato é que o montante que o Brasil em tem caixa, pela primeira vez na história, é suficiente para pagar tudo que é devido no estrangeiro. Para entender mais sobre o assunto, basta ler a matéria abaixo, da Agência Brasil. Este blog aguarda as reflexões do sábio Cesar Benjamin, mentor econômico de Heloísa Helena, para saber qual será a bandeira econômica da brava senadora em 2010.

Antes que acusem essas Entrelinhas de "lulismo" ou algo semelhante, cabe lembrar que já foi lançada aqui a candidatura de Roberto Requião (PMDB) como alternativa à esquerda da atual aliança que sustenta o presidente Lula. Requião tem seu trabalho no governo do Paraná para apresentar como cacife, não foge do pau, não treme diante da cara feia dos mercados financeiros e, o que é mais importante, não fala as besteiras que Heloísa Helena saí por aí repetindo, feito papagaia. Podem escrever, ninguém ouviria da boca do governador qualquer menção ao FMI, à "impagável" dívida externa brasileira e muito menos os ataques ao "governo mais corrupto da história", motes tão ao gosto de Heloísa Helena. Parece pouco, mas não agredir a inteligência dos eleitores é meio caminho andado para conquistar seus votos...
A seguir, a reportagem da Agência Brasil.

Brasil é credor externo pela primeira vez na história, revela BC

Kelly Oliveira, de Brasília - O Brasil passou a ser credor externo, fato inédito na história do país, informou hoje (21) o Banco Central. A autoridade monetária explicou que isso só foi possível com a redução da dívida externa total líquida, quando se deduzem da dívida externa bruta os ativos do país no exterior, constituídos fundamentalmente pelas reservas internacionais. Ou seja, as reservas internacionais e outros ativos são maiores do que a dívida externa.

De acordo com o Banco Central, a estimativa para o fechamento de janeiro de 2008 (que deve ser divulgado na próxima semana), é de que o montante da dívida líquida se tornará negativo em mais de US$ 4 bilhões, uma vez que o dinheiro aplicado no exterior supera o valor da dívida externa.

“Significando que, em termos líquidos, o país passou a credor externo, fato inédito em nossa história econômica”, diz o relatório Indicadores de Sustentabilidade Externa do Brasil, divulgado pelo Banco Central. Segundo o BC, o total da dívida líquida passou de US$ 165,2 bilhões, no final de 2003, para US$ 4,3 bilhões, estimativa para o fechamento de 2007.

Para o Banco Central, os resultados no setor externo da economia brasileira nos últimos anos mostram “inquestionável fortalecimento da posição externa do país”, devido aos números da balança comercial (exportações menos importações), das transações correntes ( engloba a balança comercial, serviços e rendas e transferências unilaterais) e do ingresso recorde de divisas no país.

“Em resumo, diante de um cenário internacional caracterizado por aumento considerável na incerteza, pela volatilidade dos mercados financeiros e desaceleração da atividade econômica, a melhoria desses indicadores tende a mitigar, embora sem anular por completo, o impacto de eventos externos adversos”.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Marcelo Miranda: Lula seria reeleito,
mas não vai tentar o terceiro mandato

O governador do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), é uma jovem promessa da política brasileira. Articulado e sério, ele vem fazendo uma boa gestão e ainda tem o mérito de ter derrotado nas urnas o coronel-fundador do Tocantins, Siqueira Campos, que tratava o governo estadual como uma capitania hereditária. Em almoço com jornalistas ontem, em São Paulo, do qual o autor destas Entrelinhas participou, Miranda rasgou elogios ao presidente Lula e disse que ele seria reeleito com facilidade, se disputasse a eleição de 2010. No entanto, Marcelo Miranda não acredita que o presidente aceite as pressões petistas para tentar o terceiro mandato. Na opinião do governador, que é aliado próximo de Lula, o candidato do coração do presidente é Aécio Neves, desde, é claro, que o mineiro deixe o PSDB e ingresse no PMDB.

Perguntar não ofende: Mainardi
e a Folha são "improcessáveis"?

Por que a Igreja Universal do Reino de Deus não pode processar a Folha nem os acreanos podem processar Diogo Mainardi, mas a revista Veja está corretíssima ao meter 5 processos contra o jornalista Luís Nassif? Certo está o presidente Lula: quem escreve o que quer, pode ouvir o que não quer ou ser processado pelo que foi dito e escrito. O jogo é este mesmo. E se é caso de litigância de má-fé, cabe à Justiça decidir e aplicar as penas da lei aos litigantes. É simples assim, não precisa ficar posando de vítima da igreja malvada nem destilar ironias e preconceitos contra o Bispo Macedo...

Futuro de Cuba é dos cubanos

Está bastante razoável a cobertura dos jornalões brasileiros sobre a renúncia do comandante Fidel Castro à presidência de Cuba. Claro, ninguém poderia esperar que Folha, Estadão e Globo deixassem de atacar o regime socialista da ilha ou que não qualificassem Fidel de "ditador" ou "tirano", mas há nos três jornalões abertura para a visão de quem simpatiza com o líder cubano, o que se não equilibra a cobertura, pelo menos permite um "respiro", digamos assim.

A reação fria dos dissidentes de Miami ao afastamento do comandante é talvez a notícia mais esclarecedora do que de fato acontece em Cuba: a renúncia não significa, a bem da verdade, o fim de uma era ou de um regime, até porque é o próprio Fidel que está no comando das ações de seu próprio afastamento. Lúcido, ele ainda permanecerá como uma espécie de "ombudsman" do governo de seu irmão Raul, escrevendo no jornal Granma e dando pitacos sobre assuntos de relevância. A tal "transição" que os liberais apostam ser inexorável não é assim tão certa, pelo contrário. Esta, aliás, é a questão que falta ser discutida: por que Cuba não poderia continuar construindo o sonho socialista na ilha, sem "transição democrática" ou "modelo chinês", como ardorosamente defendem os bate-paus dos "mercados" nos jornalões, rádios e televisões? O futuro de Cuba, é bom lembrar, pertence ao povo cubano...

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Um bom texto de um blog de direita

Nariz Gelado é um dos blog que vale a pena consultar para entender o que vai pela cabeça dos militantes anti-Lula. Ao contrário de Reinaldo Azevedo, que fecha com o governador José Serra (PSDB) até quando ele tem o que o pessoal da direita considera "surtos esquerdistas", a autora do blog, que se intitula Nariz Gelado, vocaliza outro tipo de pensamento, talvez um pouco mais alinhado com o partido Democratas, ex-PFL. O texto da blogueira é bom e o raciocínio, muito interessante. Não é todo dia que alguém de direita reconhece a força eleitoral do presidente Lula. Vale a pena ler na íntegra:

Querem falar de 2010? Então tá.

Na coluna Painel da Folha de S. Paulo de hoje, lemos que o DEM está decidido a apostar todas as fichas em Gilberto Kassab. Caso Geraldo Alckmin vença a queda de braço pela prefeitura, os democratas prometem encaminhar seu garoto prodígio para o governo do Estado em 2010. Estariam, assim, melando aquele que a torcida do Flamengo acredita ser o plano de Geraldo: ter uma crise serrista e renunciar à prefeitura em 2009 para candidatar-se ao governo de São Paulo. “E o Geraldo, à diferença do que se imagina, não conseguirá deixar a prefeitura” – foi, segundo a Folha, o aviso de um “cardeal” democrata.

Uma ameaça
Agora, prestem atenção: os democratas também avisam que, caso Serra apóie Alckmin para a prefeitura, o DEM irá desembarcar de sua provável campanha presidencial. Vou repetir: se José Serra apoiar Alckmin para a prefeitura de São Paulo, terá que enfrentar a próxima corrida presidencial com José Aníbal na coordenação e sem o DEM na retaguarda. [pausa para um acesso de riso, que quase me fez derrubar café no teclado] Mais uma vez: se José Serra apoiar, como é sua obrigação, Geraldo Alckmin para a prefeitura de São Paulo, o DEM promete que, em 2010, ou apoiará o candidato de outro partido ou lançará candidato próprio.

Como eu não acredito que o DEM, que vem se consolidando tão bem como partido de oposição ao lulopetismo, arriscaria sua imagem para apoiar uma Heloisa Helena, um Cristovam ou um Ciro Gomes – todos intimamente ligados a Lula -, é coerente cogitar que, caso Serra apóie o tucano para a prefeitura de São Paulo, o DEM apresentará uma candidatura própria para 2010.

Seria tão ruim quanto fazem parecer?
Não. Uma candidatura própria do DEM para a corrida presidencial só seria ruim para os tucanos. Mas quem disse que o que é ruim para os tucanos é ruim para o Brasil? Este é um conceito para lá de torto, que tem sido amplamente disseminado por aí. Uma de suas variantes dá conta de que o que é bom para o PSDB é ruim para o PT. Não é verdade - e o episódio da CPMF nos mostrou que, no PSDB, o conceito de " bom ou ruim para o país" varia ao sabor dos interesses do tucano em tela.

Mesmo que não passe do primeiro turno, uma candidatura própria para 2010 só traria benefícios ao DEM. Primeiro porque fortaleceria a imagem de um partido que, desde que passou por uma renovação, está se firmando como oposição a Lula e ao PT - um posto que, consolidado, pode significar pelo menos, sei lá, uns 20 milhões de votos. Depois, pouco importa o número de votos conquistados no primeiro turno: o DEM seria inevitavelmente chamado a negociar para o segundo - numa situação, digamos, muito melhor do que se já saísse aderindo na arrancada ( freirinhas e menininhas de tranças podem pular esta parte). Em terceiro lugar: se quiser sobreviver, um dia o DEM terá que criar seus próprios presidenciáveis - então, por que não começar em 2010, cuja eleição já está praticamente decidida?

É isso mesmo... Não importa o que aconteça: é bem provável que o candidato de Lula* - chame-se ele Ciro Gomes, Dilma Rousseff ou Bode Zé - vai ganhar a próxima eleição presidencial. A hora para tirar o PT do poder, cansei de falar, foi na eleição passada. Agora o PT virou uma espécie de PRI. Quem duvidar está desafiado a me explicar, sem rodeios, todos aqueles mensaleiros eleitos em 2006. Foi o uso da máquina? Pois é... Ela continua nas mãos deles. Foi a economia? Pois é... Ela continua bem, obrigada. Foi burrice, conivência, miséria intelectual de grande parte do eleitorado? Pois é... Este eleitorado continua o mesmo - desde que tenha comida na mesa, pouco, ou nada!, lhe incomoda o "mau uso" do dinheiro público. É feio mas é verdade - e qualquer um que pense o contrário, vai dar com os burros n'água.

Portanto, o melhor que o DEM poderia fazer, agora, é descartar vantagens imediatas e agir para - usemos um termo bem tucano - "pavimentar o futuro". Bater pé pela candidatura de Gilberto Kassab à prefeitura, fazer uma banana para José Serra e começar a construir um candidato para 2010 é o caminho mais acertado para um partido que, creio eu, mudou porque quer crescer. Como Kassab mal dá para a prefeitura de São Paulo, e a "civilização Maia"- Cesar, Agripino** e Rodrigo - não emplaca nem com banda de música, sugiro Kátia Abreu. Mas é só uma sugestão, claro. Como sempre fiz questão de lhes prevenir, eu nada entendo de política.

* Lula e sua Bolsa Família tranferem votos presidenciais, sim, queridos. Se ele ainda não o fez é simplesmente porque ainda não subiu no palanque de ninguém.
** Quem me lê com freqüência sabe que eu muito admiro o senador Agripino. Infelizmente, isto não faz dele um bom candidato.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Carlos Melo: PT pressionará por 3° mandato

O autor deste blog entrevistou, para matéria que será publicada nesta terça-feira no jornal DCI, o cientista político Carlos Melo, professor do Ibmec, a respeito da pesquisa CNT/Sensus que mostra o aumento da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governo federal. Melo atribui o crescimento da aprovação do governo e do presidente a quatro fatores: o excelente desempenho da economia brasileira, em contraste com a crise nos Estados Unidos; as políticas sociais implementadas por Lula, que segundo ele têm um efeito significativo, especialmente entre os mais pobre; o carisma e dom que o presidente possui para comunicar-se diretamente com as massas; e, por fim, a falta de medidas impopulares no período. Segundo o professor, a falta de uma agenda reformista e de medidas que pudessem provocar maiores polêmica, como uma segunda rodada de mudanças na Previdência Social, por exemplo, acabam sendo benéficas para o presidente, que não tem pontos de desgaste com a população, pelo menos não do ponto de vista das ações governamentais.

Melo acha que o caso do uso indevido dos cartões corporativos não afetou a imagem de Lula porque existe uma certa exaustão da opinião pública com este tipo de denúncia. "Existe uma banalização dos escândalos políticos", disse o professor.

Carlos Melo também analisou a pesquisa de intenção de votos e disse que a performance do presidente, que lidera a enquete espontânea com 18% das intenções de voto contra 5% do segundo colocado, o governador José Serra (PSDB), deverá cada vez mais provocar no PT o desejo de um terceiro mandato para Lula, mesmo porque os demais candidatos petistas são todos um fiasco nas simulações realizadas. O professor, porém, não acredita que Lula possa topar este tipo de manobra para manter o PT no poder. A pressão sobre ele, porém, deverá ser grande.

Lula lidera na enquete sobre eleição de 2010

Alguns portais estão fazendo uma leitura equivocada da pesquisa CNT/Sensus e afirmam que o tucano José Serra, governador de São Paulo, está na frente na preferência popular para a eleição presidencial de 2010. Como o leitor pode ler na matéria da Agência Estado reproduzida abaixo, quem lidera a pesquisa é o presidente Lula que tem praticamente quatro vezes mais votos do que Serra. O governador paulista só "lidera" quando Lula não está na lista...

CNT/Sensus: Lula teria 18,6% dos votos para 2010

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera as intenções de voto na pesquisa espontânea para a eleição presidencial de 2010 realizada pela CNT/Sensus. Mesmo não podendo se candidatar à reeleição, Lula foi citado por 18,6% dos entrevistados, liderando as intenções de voto espontâneo. Em segundo lugar apareceu o governador de São Paulo, José Serra, com 5,1% das intenções, seguido de Aécio Neves, com 3%, Geraldo Alckmin com 2,1%, Ciro Gomes com 1,2% e Fernando Henrique Cardoso com 1%. O diretor da Sensus, Ricardo Guedes, destacou o fato de que 57,1% dos entrevistados não indicaram nenhum candidato, o que somado com os 18,6% atribuídos a Lula mostra um cenário eleitoral para 2010 ainda bastante indefinido.

Blogs direitosos entram em depresssão

A pesquisa apontando crescimento da popularidade do governo e do presidente Lula parece ter chateado os blogueiros direitistas. Reinaldo Azevedo, por exemplo, até agora não se manifestou sobre o tema. O tal Coronel do Coturno Noturno, aquele que sempre tinha uma "pesquisa interna do PSDB" com resultados favoráveis a Alckmin na campanha de 2006, ainda não escreveu palavra sobre o crescimento de Lula. Há alguns remédios na praça, como o Proazc, que podem ajudar a turma.

Iglecias: Alckmin, o PSDB e a democracia

Em mais uma colaboração para o Entrelinhas, o professor Wagner Iglecias comenta a corrida eleitoral em São Paulo, que cada vez mais atrai a atenção dos eleitores de todo o Brasil em função da luta interna no PSDB. Enquanto os tucanos não se entendem, a briga em São Paulo pode acabar influenciando diretamente a eleição de 2010, especialmente se o governador José Serra, favorito nas pesquisas de intenção de voto, for derrotado internamente pelo ex-governador Geraldo Alckmin. A seguir, a íntegra do artigo de Wagner Iglecias:

O PSDB surgiu em 1988 como uma dissidência de lideranças do PMDB insatisfeitas com os rumos que o governo Sarney havia tomado e com a crescente influência que o ex-governador paulista Orestes Quércia ganhava, desde a base, sobre o partido. Talvez por conta de sua própria origem o PSDB sempre foi uma agremiação de muitas lideranças importantes, mas com baixa penetração nos setores menos favorecidos da sociedade e com uma vida partidária, vista da base, de intensidade menor em relação a outros partidos, como o PT e o próprio PMDB. Muitas questões de governo e muitas decisões eleitorais foram tomadas, ao longo dos anos, em rápidas e relativamente harmônicas articulações feitas entre os cardeais tucanos.

Esta história, como se sabe, parece que vem mudando. Já é clássica na história política brasileira recente a foto em que Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Tasso Jereissati e Aécio Neves foram fotografados em luxuoso restaurante paulistano enquanto discutiam qual seria o nome do partido para a eleição presidencial de 2006. Como se sabe Geraldo Alckmin perdeu o saboroso convescote, mas levou a candidatura presidencial.

Alckmin é um sujeito que parece ter sujado muito mais de barro os sapatos, ao longo dos anos, que alguns de seus colegas de partido que estiveram naquele jantar. Geraldo nunca teve a fortuna de Tasso Jereissati, nem a história política de José Serra ou a trajetória intelectual de Fernando Henrique Cardoso. Mas vem se tornando um nome de grande relevância no tucanato. Alckmin é homem da base. E com ela não apenas conquistou a candidatura em 2006 como parece estar prestes a ter a legenda tucana para disputar a prefeitura de São Paulo em outubro próximo.

Como se sabe tudo parecia indicar que o PSDB abriria mão da cabeça-de-chapa para o atual prefeito Gilberto Kassab, do DEM, em nome de uma aliança que envolveria o apoio do ex-PFL à candidatura de José Serra à presidência da república em 2010. A equação parecia perfeita. Só faltou combinar com Alckmin, que se vê, como ex-governador e ex-candidato ao Planalto, no direito de vir a ser prefeito de São Paulo.

Não há dúvidas de que a dianteira de Alckmin nesta disputa, explicitada na semana passada pela vitória de José Anibal para a liderança do PSDB na Câmara dos Deputados, torna embaraçosa para tucanos e pefelistas a questão da sucessão paulistana. No entanto Alckmin está uma vez mais dando uma lição, no bom sentido do termo, no tucanato, e contribuindo para que um dos maiores partidos políticos do país aprofunde seu grau de democracia interna.


Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Jorge Rodini: a batalha paulistana

Em mais uma colaboração para o blog, Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia de pesquisas, comenta o resultado do levantamento feito pelo Datafolha sobre as eleições na capital de São Paulo. Para Rodini, o resultado não foi nada bom para o prefeito Gilberto Kassab (DEM). A seguir, a íntegra do comentário.

A última pesquisa Datafolha realizada no dia 14 de fevereiro de 2008 deve desencadear uma série de reflexões por parte dos especialistas.

A candidatura Kassab, para desgosto de Serra, patina. O prefeito paulistano perde para Maluf entre os que têm renda familiar até 2 salários mínimos, entre os que têm o Ensino Fundamental e empata entre os eleitores com mais de 35 anos.

Por outro lado, Alckmin supera Marta entre os votantes com escolaridade média e superior e renda acima de 2 salários mínimos, Marta ganha de Alckmin entre os que têm entre 35 e 44 anos. Kassab ganha de Marta entre os que têm Ensino Superior, isto tudo quando consideramos o cenário 1 da pesquisa, que contém todos os pré-candidatos mais viáveis eleitoralmente.

A rejeição de Marta aumenta conforme a elevação da faixa etária, escolaridade e renda familiar. A rejeição a Kassab diminui conforme aumenta a faixa etária dos paulistanos.

Num hipotético segundo turno, Marta perde para Kassab entre os mais idosos, os mais escolarizados e os de maior renda familiar. Alckmin perderia para a petista somente renda familiar até 2 salários mínimos.

O paulistano tem preferência pelo PT ( 22%). Em segundo lugar está o PSDB ( 11%) e em terceiro, o PMDB (4%). Mas 53,2% dos moradores da capital paulista declararam não ter preferência partidária. E 61% dos eleitores de São Paulo com preferência pelos PSDB disseram votar em Alckmin, 53% dos petistas afirmaram votar em Marta. Entre os peemedebistas, Maluf só perde para Alckmin (25%).

Do total, 52% dos eleitores peesedebistas rejeitam Marta, enquanto entre os petistas apenas 24% rejeita Alckmin.

Esta pesquisa demonstra que Alckmin vai brigar muito por sua candidatura, que Kassab ainda não tem a simpatia do povão e que Marta continua forte na camada mais sofrida da metrópole paulistana. E Maluf empata tecnicamente com Marta e Kassab entre os mais velhos.

Como São Paulo é importantíssima na definição presidencial de 2010, todos os olhos estão voltados para a batalha paulistana.

Comércio tem crescimento recorde em 2007

A notícia abaixo, manchete do portal UOL, apenas complementa a nota anterior, sobre a popularidade do presidente Lula. Na verdade, não complementa, mas explica. É até cansativo repetir, mas não há nada melhor para explicar o fenômeno Lula do que o já clássico bordão: "é a economia, estúpido!".

Venda do comércio sobe quase 10% e bate recorde

O volume de vendas do comércio varejista no Brasil cresceu 9,9% no ano passado, em comparação com 2006, aponta pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada nesta segunda-feira. A receita nominal do setor aumentou 14,1% em 2007.

É a primeira vez que a instituição calcula o desempenho do comércio com ajuste sazonal, ou seja, buscando neutralizar as diferenças entre os diversos períodos comparados.

Na série sem esse ajustamento, o crescimento do comércio foi de 9,6%, o maior desde 2001, quando a pesquisa começou a ser realizada.

Aprovação de Lula vai a 66% e bate recorde

A notícia abaixo, da Agência Estado, apenas confirma a teoria que vem sendo apresentada regularmente neste blog: a avaliação da população sobre a performance governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva descolou do ambiente político do país. O que vale para o povão é a economia e o Brasil, para desespero dos oposicionistas, há muito tempo não crescia tanto e por tantos anos seguidos como agora.

Ou seja, não tem cartão corporativo, mensalão ou mensalinho que afete a excelente imagem do presidente. A população, mais madura, já parece discernir o que é guerra política e o que é ação real de governo. Pelo visto, o povão não está gostando muito da atuação neo-udenista dos tucanos e democratas, mas a verdade é que não restou outra coisa para a oposição senão este tipo de estratégia. De fato, como criticar a acertada condução da economia, o PAC, a diminuição da desigualdade social, o Bolsa Família e demais projetos de Lula?

Avaliação positiva do governo Lula é a maior desde 2003
A avaliação positiva do governo de Luiz Inácio Lula da Silva subiu de 46,5% para 52,7% em janeiro, segundo a pesquisa CNT Sensus divulgada nesta segunda-feira, 18. O valor é o maior desde janeiro de 2003. Além disso, a aprovação de Lula crescer para 66,8%, a melhor desde dezembro do mesmo ano. Segundo os dados, os rumos da economia e os programas sociais do governo explicam a popularidade do presidente.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Nova enquete no ar

A enquete da semana passada, sobre o caso dos cartões corporativos, terminou com vitória da terceira alternativa, que obteve 43% dos votos - o pessoal realmente acha que Lula fez bem em dar um cartão para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e não para o filho dele, Paulo Henrique...

A enquete desta semana versa sobre a palpitante eleição municipal em São Paulo, que pode acabar com um segundo turno entre dois candidatos de direita, especialmente se Marta Suplicy desistir de concorrer. As alternativas já estão à disposição dos leitores na coluna ao lado.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Tropa de Elite vence festival de Berlim













Para surpresa de muita gente, o filme Tropa de Elite venceu o festival de cinema de Berlim, conquistando o Urso de Ouro. Nada parece fácil para José Padilha, diretor do filme, conforme informa a Folha Online: "Tropa foi exibido no original em português com legendas em alemão - o normal são legendas em inglês. Por causa disto, os jurados e o presidente do júri, o cineasta grego Costa-Gavras, tiveram que usar fones de ouvido, com narração em voz feminina." Ganhar assim só valoriza a vitória do diretor brasileiro. E reforça a sensação de que os responsáveis pela escolha do meloso O dia que meus pais saíram de férias para a disputa do Oscar são mesmo umas antas. Tropa era o filme, não resta a menor dúvida.

Este blog recomenda vivamente a quem não assistiu ao filme que o faça e, em homenagem à vitória de Padilha em Berlim, republica a crítica publicada aqui no dia 27 de outubro do ano passado, intitulada "Os erros da esquerda sobre Tropa de Elite". A seguir, a íntegra do artigo:

O autor destas Entrelinhas já estava se sentido um verdadeiro ET, mas finalmente viu o filme que todo mundo anda comentando. E achou Tropa de Elite excelente, bem acima da expectativa que tinha a respeito da fita. É violento? Sim, Tropa de Elite é violento, mas não mais do que Pixote ou Carandiru, por exemplo.

Na verdade, a polêmica que o filme causou se deve muito menos à violência presente na tela do que a um certo esforço de setores da intelectualidade em estigmatizar Tropa de Elite e o protagonista, o capitão Nascimento, como uma fabricação da direita a serviço da visão linha-dura da política de segurança no país, especialmente no Rio de Janeiro. Ou, em outras palavras, que o filme é "fascista" porque estaria a indicar medidas de força como as únicas possíveis para o problema da violência.


Vamos por partes. Primeiro, dá para compreender este tipo de leitura do filme, mas ela é profundamente injusta. Na verdade, intelectuais de esquerda têm uma dificuldade grande para formular idéias razoáveis na área de segurança pública. Em geral tratam a questão a partir do que escreveu o filósofo Michel Foucault, autor de Vigiar e Punir – e mesmo isto está presente no filme, em uma passagem que se revela bastante irônica com Foucault. Portanto, para a maior parte da militância de esquerda, segurança é sinônimo de "aparelho repressor do Estado" (capitalista, naturalmente). Partindo deste referencial, de fato sobra muito pouca coisa além de pregar a melhoria das condições de vida dos mais pobres, como se isto pudesse significar necessariamente uma diminuição da violência.

É até óbvio que a violência seja menor com a redução da desigualdade social, mas isto não é suficiente e deixa de fora fenômenos importantes como o tráfico de drogas. Afinal, que outra atividade – concessões de estradas em gestões do PSDB à parte – tem taxa de retorno tão alta? Em outras palavras, não basta apenas trazer perspectivas de educação e emprego para os pobres, porque o tráfico é uma máquina de fazer dinheiro a serviço de uma melhoria rápida e profunda na vida dos que com ele se envolvem, em que se pesem os riscos envolvidos na atividade.


A questão das drogas

A esquerda certamente se irrita com a forma com que os estudantes maconheiros e cheiradores são apresentados no filme. Mas o que se apresenta ali é uma caricatura, necessária para o que o diretor se propôs a discutir. Afinal, não é simplismo algum dizer que o sujeito que cheira cocaína está, em última análise, financiando um esquema criminoso que resulta nas mortes e verdadeiras carnificinas nos morros. Isto é fato, não é simplificação. Quem toma Red Label pode eventualmente matar alguém no trânsito, mas jamais terá fornecido recursos ao crime organizado (a menos, é claro, que compre a bebida de contrabandistas)...


No fundo há duas formas de ver as coisas quando o assunto é droga: ou se defende a liberação total e completa de todo tipo de substância tóxica, como defendem muitos economistas liberais da Escola de Chicago, sob a alegação de que o custo para combater o tráfico é mais alto do que os benefícios deste combate; ou se enfrenta o tráfico e se reprime o consumo.

Uma parte da esquerda aceita bem a idéia da liberação das drogas e pode assim ter motivos para a indignação com a maneira como o filme trata os jovens consumidores. A parte da esquerda que concorda com a proibição dos tóxicos, porém, também reclama e se apega na questão dos "direitos humanos" – exige da polícia tratamento, digamos, mais civilizado com o tráfico e também alguma tolerância com os consumidores. A segunda postura, no fundo, é apenas uma fuga do debate real.


Herói para quem precisa

Voltando ao filme, o que o diretor José Padilha fez foi mostrar as várias faces de uma questão bastante complexa, qual seja a da violência urbana que em boa parte, mas não apenas, se deve ao tráfico de drogas. O capitão Nascimento, protagonista de Tropa de Elite, não é retratado de forma alguma como um super-herói: tem síndrome do pânico, bate em mulher, faz uso da tortura e é assumidamente um justiceiro.

Aliás, alguém já escreveu, em observação bastante perspicaz, que Padilha não utiliza certas artimanhas, muito comuns em filmes norte-americanos, para fazer o público simpatizar com o "herói": ninguém ameaça o filho do capitão ou mexe com a mulher dele. Pode-se acrescentar que também não há nenhum momento em que Nascimento sofra uma emboscada ou apareça em situação difícil da qual consegue se livrar milagrosamente.

Na verdade, o fato de boa parte do público aceitar o capitão Nascimento como herói diz mais a respeito de um estado de espírito presente na população, especialmente no Rio e São Paulo, do que é propriamente fruto da intenção do diretor. É evidente que para quem já sofreu ou sofre com a violência urbana, o modo de agir do Batalhão de Operações Policiais Especiais acaba sendo celebrado como solução, até porque na polícia convencional, como o filme deixa claro, poucos confiam...

Assim, não se pode dizer que o filme seja fascista, embora parte do público esteja ávida por soluções fascistas para a tragédia da violência brasileira. Quando o capitão Nascimento diz que que entra no Bope está indo para guerra, isto é apenas verdadeiro e não havia outra forma para o diretor de Tropa de Elite retratar tal realidade.


No fundo, do ponto de vista da esquerda, melhor do que discutir se o filme está a serviço da direitosa política linha-dura da segurança é tentar formular com alguma clareza o que deve ser uma política cidadã de segurança pública. Nas atuais circunstâncias, o autor destas mal traçadas entrelinhas duvida que fosse possível prescindir de gente como o capitão Nascimento e de uma tropa de elite tal e qual a do Bope. Por uma razão simples: há mesmo, nas duas maiores cidades do país e em alguns entrepostos ou municípios estratégicos para o tráfico, como Campinas, uma guerra urbana em andamento. Infelizmente, é esta a realidade hoje e dá para entender o motivo de tamanho entusiasmo com o Bope. Em tempos de paz quem sabe o Batalhão de Operações Policiais Especiais seja simplesmente desnecessário e o capitão Nascimento compreendido apenas e tão somente como um personagem de dias confusos que o país enfrentou. É pelo que nos resta torcer.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Serra vs. Alckmin: a novela continua

O que vai abaixo é o artigo semanal do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do blog.

O ano de 2010 ainda está muito distante, mas boa parte da classe política só pensa nele, evidentemente por causa das eleições gerais que terão vez em outubro . O governador José Serra (PSDB), por exemplo, transformou o Palácio dos Bandeirantes, no aprazível bairro paulistano do Morumbi, em um verdadeiro
bunker de sua candidatura presidencial. Tucanos bem informados e inimigos do governador no partido informam que até a questão do financiamento da campanha de Serra já está sendo minuciosamente "trabalhada", digamos assim.

O também governador Aécio Neves se movimenta mais discretamente, como é da tradição de Minas Gerais, mas já trabalha com bastante afinco em seu projeto presidencial.

Na base governista, a situação é mais complicada porque o presidente Lula em tese não pode concorrer, em função da atual legislação eleitoral. Alguns nomes foram lançados e estão, no momento, sendo testados – casos de Dilma Rousseff, Tarso Genro, Jaques Wagner, entre outros. Há movimentação, inclusive, para que o PT abra mão da cabeça de chapa e apóie Ciro Gomes, do PSB, ou mesmo um nome do PMDB, que poderia ser o governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, o ministro Nelson Jobim ou até mesmo Aécio Neves, caso ele aceitasse o convite de Michel Temer e retornasse ao seu antigo partido.

Do ponto de vista do xadrez político que está em curso, a grande novidade da semana que passou foi a derrota do deputado Arnaldo Madeira, candidato apoiado por José Serra na eleição para líder da bancada tucana na Câmara Federal. Não foi uma derrota qualquer porque o vitorioso, deputado José Aníbal, não apenas defende com entusiasmo a candidatura de Geraldo Alckmin à prefeitura de São Paulo (Serra gostaria que o ex-governador ficasse de fora, a fim de que o PSDB indicasse o vice na chapa encabeçada pelo prefeito Gilberto Kassab), como é um dos grandes desafetos de Serra no tucanato.

A vitória de Aníbal praticamente selou a candidatura de Alckmin à prefeitura e o próprio Serra reconheceu, na sexta-feira, que o ex-governador só não será candidato se não quiser. Foi a primeira vez que o governador de São Paulo reconheceu publicamente a força de seu adversário de partido. Até agora, Serra vinha dando demostrações de grande apreço pela candidatura de Kassab e simplesmente ignorava o pleito de Alckmin.

Gente que conhece o tucanato de dentro já avisava há muito tempo que o governador não tem controle do partido em São Paulo. Geraldo Alckmin foi vice governador e governador por dois mandatos, não é nenhum idiota e aproveitou o período para montar suas posições no PSDB. Na disputa interna, da máquina partidária, não havia como Serra levar a melhor. O que não se sabia é que também nacionalmente Alckmin consegiu costurar um bom acordo (com o mineiro Aécio Neves, naturalmente) para isolar Serra. A jogada de Alckmin e Aécio funcionou e agora Serra está em uma posição desconfortável no PSDB.

Será realmente constrangedor para o governador Serra assistir a uma campanha em que o candidato de seu partido criticará o trabalho que vem sendo realizando em conjunto pelo prefeito Kassab e o grupo serrista do PSDB. Isto, no entanto, é pouco perto do constrangimento que surgirá se Alckmin vencer a eleição. Uma vez prefeito, ele deverá retribuir o apoio do governador Aécio Neves e trabalhar pela candidatura do mineiro à presidência da República. É tudo que Serra não precisava.

Geraldo Alckmin parece bobo, tem o infeliz apelido de "picolé de chuchu", mas a verdade é que de bobo ele não tem nada. Em 2002, o atual governador de São Paulo foi emparedado por Alckmin e perdeu a indicação para disputar a presidência pelo PSDB. Quando tudo indicava que a vingança, aquele prato que se come frio, seria servida em 2008, eis que mais uma vez o esperto Alckmin aplica um golpe de mestre e deixa Serra nas cordas, sem ação. O bunker montado no Bandeirantes vai continuar trabalhando a todo vapor, mas é possível que em 2010 José Serra tenha que se esforçar para garantir a candidatura à reeleição para o governo do Estado. O que já não vai ser pouca coisa...

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Ombudsman adverte: Folha protege Serra

O ombudsman da Folha de S. Paulo mais uma vez cumpre a sua função de defensor dos leitores e avisa que a redação do diário da Barão de Limeira não está conseguindo disfarçar as manobras para poupar o governador José Serra (PSDB) de qualquer tipo de má notícia. O que vai abaixo é o comentário de Mário Magalhães, o melhor ombudsman que o jornal já teve, sobre a vitória de José Aníbal na eleição para líder da bancada tucana na Câmara Federal. Do jeito que a coisa vai, é melhor trocar o logotipo para Folha de S. Serra...

Derrota ocultada

Título do alto da pág. A8: "Vitória de Aníbal fortalece Alckmin".

Título do "Estado": "Candidato de Alckmin bate o de Serra na Câmara".

Do "Globo": "Aníbal vence no PSDB e derrota grupo de Serra".

José Serra é o governador de São Paulo.

O grande defensor, no PSDB, do apoio à candidatura de Kassab (DEM) a prefeito de São Paulo.

É presidenciável.

Mais que a vitória de Alckmin, o que ocorreu ontem foi uma derrota de Serra.

Mesmo que se divirja dessa avaliação, o título deveria incorporar a constatação inescapável: Serra perdeu.

A propósito, a reportagem informa até o placar da votação na bancada tucana de Minas. Mas não na de São Paulo.

Ciro ainda pode ser presidente?

Ainda sobre a nota anterior, Alexandre Porto, um atento leitor deste blog, informa: "Eu assisti a essa parte da audiência. Houve um debate entre os dois, mas não um bate-boca como tenta mostrar a matéria. Essa versão é falsa. Nenhuma dessas palavras foi dirigida a ela de forma grosseira. Ao contrário ele rebatia outras pessoas que trataram os defensores da obra de forma grosseira. Ela o interrompeu sim, várias vezes e ele a respondeu. Ele não a incluiu entre os críticos pelos quais ele não tem respeito, muito pelo contrário."

O autor destas Entrelinhas não tem razão alguma para duvidar da versão do leitor, mesmo porque ainda não assistiu ao debate entre Ciro e Letícia na televisão. Ainda que o deputado tenha sido elegante com a atriz, porém, o prejuízo para Ciro está evidente. Na mídia, ele vai aparecer como o malvado que defende a destruição da natureza contra a beldade que defende a sua preservação. Ora, Ciro é um sujeito coerente e a defesa que faz da transposição do Rio São Francisco é sempre muito consistente. Se ele não tivesse nenhuma outra ambição, quisesse permanecer ali no Congresso, como deputado ou talvez senador, este tipo de debate não faria mal algum à sua imagem. Porém, presidenciável que é, Ciro poderia evitar o desgaste de discutir com a bela Sabatella. Desta forma, ainda que a versão da Folha Online e demais portais seja distorcida, Ciro teria sido mais inteligente (ou menos ingênuo?) ficando longe deste vespeiro.

Por que Ciro não será presidente?

Esta é fácil, basta ler o texto reproduzido abaixo. No Brasil ainda vale o ditado "em mulher não se bate nem com uma flor", mas Ciro Gomes parece que não aprende... Um sujeito que briga com a Leticia Sabatella realmente não merece o voto do povo brasileiro. Abaixo, a história do dia na versão da Folha Online.

Ciro bate boca com Leticia Sabatella ao defender transposição do São Francisco

RENATA GIRALDI

O deputado Ciro Gomes (PSB-CE) bateu boca nesta quinta-feira no plenário do Senado com a atriz Leticia Sabatella por divergências sobre a manutenção das obras de transposição do rio São Francisco. Ciro disse que escolheu como opção de combate sobre o tema "meter a mão na massa e às vezes, [a mão fica] suja de cocô".

"Não sei se estou no mesmo lugar que o seu, mas é parecido. Eu, ao meu jeito, escolhi a opção de meter a mão da massa, às vezes suja de cocô, às vezes. Mas minha cabeça, não, meu compromisso, não", disse Ciro dirigindo-se à atriz.
Lula Marques/Folha Imagem
Ciro Gomes bate boca com Letícia Sabatella sobre transposição do São Francisco
Ciro Gomes bate boca com Letícia Sabatella sobre transposição do São Francisco

Defensor das obras, Ciro entrou em choque com a atriz que o interrompeu várias vezes enquanto ele discursava no plenário do Senado. "Tecnicamente é necessário que os críticos tomem juízo, não no sentido negativo da palavra, mas para ver se é possível", disse ele. "Por alguns [críticos] não tenho respeito. Faço honestamente essa confissão porque não percebo boa fé em alguns."

Antes de se desentender no plenário com a atriz, Ciro criticou o bispo dom Flávio Cappio, que fez greve de fome em protesto contra obras de transposição. Segundo o deputado, o religioso não compareceu a todas as oportunidades de debate sobre o assunto.

O Senado promove uma sessão para discutir as obras de transposição do São Francisco no plenário Casa. Além de deputados e senadores, participam do debate o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) e artistas. Geddel e o senador Cesar Borges (PTB-BA) também divergiram publicamente.

Porém, em entrevista, Geddel evitou confrontos principalmente com dom Cappio. "Posso até discordar da maneira dele. Mas defendo o direito dele de discordar e manifestar suas posições", disse o ministro.

Geddel afirmou ainda que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve visitar o local das obras do São Francisco nos próximos dias. "Acho que a sociedade brasileira está extremamente madura para saber o papel de cada um na democracia e para saber o importante papel da igreja e de outras entidades da sociedade civil e a legitimidade do governo para montar seus projetos", afirmou ele.

Se Marta for esperta, fica no ministério

A vitória do deputado José Aníbal na eleição para líder da bancada do PSDB na Câmara Federal praticamente selou a candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin à prefeitura de São Paulo neste ano. Alckmin tem mais força no partido do que o governador José Serra, de maneira que só não será candidato se não quiser e não há nenhuma razão objetiva para uma desistência, pelo menos não nesta altura do campeonato.

Se o cenário for mesmo o de uma disputa dura pelo eleitorado de direita entre Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab (DEM), este blog avalia que a melhor coisa para o PT seria deixar a ministra Marta Suplicy de fora da disputa. A razão é simples: se ele estiver no jogo, os dois candidatos da direita vão centrar fogo na ex-prefeita, pelo menos até ficar mais claro o cenário de quem tem chances reais de disputar o segundo turno. Sem Marta na parada e com um candidato de baixa rejeição – os deputados José Eduardo Cardozo ou Arlindo Chinaglia, por exemplo –, o PT poderia adotar uma estratégia mais discreta para chegar ao segundo turno, e apostar no desgaste que a disputa entre Alckmin e Kassab certamente provocará para então tentar reconquistar o palácio do Anhangabaú.

O grande risco para o PT é ver o seu candidato fora do segundo turno. Neste caso a disputa final seria entre os dois postulantes da direita. Tendo em vista o perfil do eleitorado de São Paulo, porém, esta situação é bastante improvável: com exceção da eleição de Jânio Quadros, em 1984, todas as demais tiveram um petista disputando o primeiro lugar com um candidato mais conservador (Erundina e Maluf em 1988, Suplicy e Maluf em 1992; Suplicy e Pitta em 1996; Marta e Maluf em 2000; e por fim Marta e Serra em 2004). Não é fácil quebrar uma tradição tão forte.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Serra está dodói? A Folha vai ajudar

Depois da derrota desta quarta-feira para Geraldo Alckmin, o governador José Serra (PSDB) está precisando de um tempo para respirar e conseguir pelo menos chegar em pé no próximo round. Pelo que circula nos bastidores, a vitamina do governador chega nos próximos dias, com a publicação na Folha de S. Paulo de nova pesquisas do instituto Datafolha sobre as eleições municipais em São Paulo. Este blog aposta um Gold Label como o prefeito Gilberto Kassab (DEM) subirá e o ex-governador Alckmin cairá na preferência dos entrevistados do Datafolha.

Serra derrotado no PSDB: Aníbal será líder

O ex-governador Geraldo Alckmin conseguiu mais uma vez derrotar seu sucessor e correligionário, o governador José Serra, em uma disputa interna no PSDB. Desta vez, foi na eleição para líder da bancada na Câmara Federal: o candidato apoiado por Alckmin, José Aníbal, venceu, por 36 votos a 22, o candidato de Serra, Arnaldo Madeira. Parece pouco, mas não é: na prática, significa que Alckmin só não será candidato a prefeito de São Paulo se não quiser, pois tem mais força no partido do que Serra. O racha no PSDB não é novo e a votação de hoje só acirra a guerra interna na agremiação.

Como se manipula a opinião pública

A primeira página do Estadão desta quarta-feira, reproduzida ao lado, é um excelente exemplo do uso de imagens com objetivo de manipular o noticiário. A foto dos presidentes Lula e Sarkozy, em cinco colunas, é o elemento mais forte da capa. A intenção, obviamente, é mostrar Lula como um jeca deselegante, que decidiu se encontrar com o francês em mangas de camisa. Já Sarkozy aparece impecável, de terno e gravata. Se o jornal quisesse, poderia ter revelado aos seus leitores exatamente o que aconteceu, a saber: o cerimonial dos dois países acordaram que, em função da altíssima temperatura na Guiana Francesa, os dois presidentes vestiriam trajes informais. Lula agiu de acordo com o combinado, mas Sarkozy decidiu encarar o calor de terno, quebrando o protocolo. Quando Lula puxou o francês para os cumprimentos da população local, sob o sol escaldante, (está registrado na foto interna do jornal), Sarkozy percebeu a bobagem. Voltou para a sombra ensopado e o cerimonial pediu aos fotógrafos que não registrassem a cena. Depois do almoço, seco e refeito, o presidente da França voltou a posar para as câmeras. Sem as devidas explicações, a imagem passa a idéia de que foi Lula quem quebrou o protocolo. E como uma imagem vale mais do que mil palavras, o mal está feito, como provavelmente era a intenção editorial do Estadão.

Na economia, só boas notícias

O que vai abaixo é a manchete e principais chamadas desta manhã do portal UOL. Enquanto a política vai mal, a economia só traz boas notícia para os brasileiros. Emprego em alta e inflação em baixa é tudo de bom para o povão. Se a crise americana e o Banco Central daqui mesmo não atrapalharem muito, 2008 pode ser mais um bom ano para o Brasil. Lula, é claro, continuará sendo beneficiado pelos bons resultados de sua gestão, ainda mais em um cenário no qual os tucanos não poderão, definitivamente, dizer que o presidente é um sortudo porque os ventos de fora empurram o país para frente.

Emprego na indústria tem maior alta em seis anos
Desemprego cai nas 6 principais metrópoles
IPCA desacelera em janeiro e sobe 0,54%

Rodini: cartão vermelho neles

Em mais uma colaboração com o blog, Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia de pesquisas, escreve diretamente de Ribeirão Preto, terra do famoso Pinguim, sobre o escândalo dos cartões corporativos. A seguir, a íntegra do comentário.

No país da abundância das riquezas naturais e da ausência de catástrofes da natureza, o Administrador Público insiste em criar facilidades para seus apaniguados.

A utilização do Cartão Corporativo, em tese, é saudável, pois proporciona transparência e agilidade operacional para despesas pequenas ou extraordinárioas. O problema não é o Cartão, mas quem detém a posse dele.

No Brasil, seu uso indiscriminado gera situações cômicas, ridículas e mostra a falta de respeito com o suado dinheiro do povo.

Ministros tomando chopp no nosso Pinguim, fazendo compras em Free-Shop e aspones comprando em Camelódromos mostram a falta de critério de quem decide os portadores do cartão.

Qual a diferença entre a ação da Ministra Matilde e a do Ministro da Pesca. Nenhuma: os dois foram mal-versadores do dinheiro público, portanto deveriam estar ambos "no óleo". E os demais?

Jantar com valor acima do normal é crime. Numa nação em que milhões esmolam por uma Bolsa Família e os demais pagam por isso, o que estes "políticos" estão fazendo é uma afronta.

Cartão Vermelho neles!

"Jornalista não processa jornalista"

A frase acima é do colunista Diogo Mainardi, da revista Veja, e foi escrita por ele quando o jornalista Franklin Martins decidiu procesá-lo por calúnia e difamação. Segundo a ética de Mainardi, que se acha jornalista, os profissionais da comunicação deveriam resolver suas divergências no debate público, utilizando os veículos para os quais trabalham.

A idéia de determinadas categorias prescindirem da Justiça era apenas insólita, mas agora fica claro que na própria revista Veja ninguém leva Mainardi muito a sério: os jornalistas Eurípedes Alcântara, diretor de Redação, e Lauro Jardim, editor especial, anunciaram que vão processar o colega Luís Nassif pela série de matérias – excelente, por sinal – que ele vem publicando em seu blog sobre a transformação de Veja, para usar as palavras do próprio Nassif, "em um pasquim sem compromisso com o jornalismo, recorrendo a ataques desqualificadores contra quem atravessasse seu caminho, envolvendo-se em guerras comerciais e aceitando que suas páginas e sites abrigassem matérias e colunas do mais puro esgoto jornalístico".

Noves fora zero, Dioguinho da Veja podia escrever um artigo explicando por que seus chefes podem processar jornalistas, mas os demais colegas não podem processá-lo. Daquele jeitinho divertido e repleto de ironias, Dioguinho certamente vai conseguir provar que ele é o único "jornalista improcessável" da brava imprensa brasileira. Temos dito.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

FHC e a chef de US$ 12 mil

Está muito interessante o texto do jornalista Janio de Freitas publicado hoje na Folha de S. Paulo e reproduzido abaixo. Vale a pena ler na íntegra. A parte mais interessante está em negrito.

Presidentes sem segurança

A CONDIÇÃO para o acordo por uma CPI mista é excessiva, ao vedar a priori que o exame dos gastos "eventuais", de 1998 para cá, alcance as despesas encobertas da Presidência propriamente dita, tanto no segundo mandato de Fernando Henrique como nos anos de Lula. Não é o único problema do acordo, nos termos em que foi propalado ontem.
Proposto pelo governo, por intermédio do seu líder no Senado, Romero Jucá, o acordo é a segunda tentativa aprovada por Lula para amoldar a CPI à sua conveniência. A primeira foi a proposta de inclusão do período Fernando Henrique e o inquérito só no Senado, não por comissão mista, de senadores e deputados, pretendida pela oposição. Se a primeira fórmula sugeria a intenção de retrair o PSDB e o DEM e, em último caso, embaraçar o inquérito com a overdose de material, a segunda indica com clareza que o propósito é evitar o exame dos gastos com Lula, família e adjacências.
Não há indício, e até agora não havia suspeita, de irregularidades corrosivas nessa área. A fixação de Lula em evitar o conhecimento público dos gastos sugere a conveniência de levantá-los. E, além de não haver razão ética para deixar de fazê-lo em um exame de conjunto, não há também razão legal. Encobrir esses gastos com o argumento de "razões de segurança nacional" é tão pejorativo para a segurança nacional quanto ridículo. A tendência é que o exame não seja mais do que divertido, com a desproporção entre novos guarda-roupas e as necessidades, exageros de conforto doméstico, e por aí. Se bem que os milhões em questão proponham interrogações mais numerosas.
No caso de Fernando Henrique, a par de quaisquer outros efeitos, a comicidade de gastos estaria garantida. Ninguém imaginaria que o presidente contratasse uma "chef" de restaurante do Rio para a ir a Brasília, a cada semana, a fim só de fazer o cardápio semanal de Fernando Henrique. Com a remuneração do equivalente, à época, de US$ 12 mil. Foi razoável que incluísse no breve serviço algumas aulas para Fernando Henrique escolher vinhos pela coluna da esquerda, nos restaurantes em que ele escolhe e Tasso Jereissati paga. Àquela altura, do guarda-roupa a outras grã-finices a Presidência fez uma relativa orgia. Os cidadãos não têm o direito de saber dessas coisas cuja dose de leviandade é um medidor de seriedade? E se houver feitos mais graves há, também, mais razões para serem levantados e postos no conhecimento da população. A segurança nacional não entra aí.
Em nome da oposição, o acordo foi acertado com Romero Jucá pelo deputado peessedebista Carlos Sampaio, que não teve representação outorgada pelos oposicionistas. Atribuiu-se o poder de representá-los por ter formulado, na Câmara, um pedido de CPI ainda não adotado. Caso os oposicionistas superem as insatisfações com a iniciativa de Carlos Sampaio, permanecem outros problemas.
Um deles é a constante referência de Romero Jucá à investigação do uso "de cartões" de crédito governamentais. Mas os gastos postos sob suspeita valeram-se também de dinheiro, com totais superiores aos dos cartões em vários setores do governo. A haver CPI, antes de tudo é preciso eliminar as armadilhas, porque o governo não está aceitando investigações por desejo de que sejam feitas, mesmo.
Outro indício de precipitação (ou pior) do acordo é o período a ser investigado. O prazo ontem referido por oposicionistas é o de "uso dos cartões a partir de 1998". A entrada dos cartões em uso efetivo vem de 2001/2002, até então guardada na gaveta das conveniências a autorização de uso que o próprio governo Fernando Henrique estabelecera.
Se, porém, tudo der em nada quanto aos gastos obscuros do governo Lula, o governo Serra tem mais do que o necessário para suprir o vazio.

Much ado about nothing

Hoje vários líderes oposicionistas estão reclamando com muita veemência do acordo em torno da CPI dos Cartões e também da indicação, pelo PMDB, do senador Neuto de Conto (SC) para presidir a Comissão. Para quem está de fora, pode parecer que os tucanos e democratas estão realmente incomodados. Na verdade, não estão, é tudo jogo para a torcida: os termos desta CPI foram negociados por emissários do Palácio do Planalto, de um lado, e do simpático apartamento da rua Rio de Janeiro, no bairro de Higienópolis, onde mora o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por outro. Já está tudo combinado e o resto, como diria o bardo, é muito barulho por nada.

A roda das candinhas anônimas

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para a edição desta semana do Observatório da Imprensa. No fundo, um texto didático, para quem não estava entendendo direito do que o pessoal anda falando por aí...

Tudo começou no sábado (9/2), na Folha de S. Paulo, com um artigo intitulado "0x0", da lavra do jornalista Fernando de Barros e Silva, publicado na página 2 do jornal e cuja íntegra está reproduzida abaixo. Pouca gente deve ter entendido o comentário, especialmente a parte final, em que Barros e Silva critica severamente "certos blogs politicamente aparelhados por PT e PSDB", em especial dois, o do "pequeno dândi que serve a Lula" e do "grasnador a serviço do serrismo".

O jornalista da Folha invocou uma frase do professor Demétrio Magnoli – "não direi seus nomes, assim como não jogo lixo na rua" – para justificar a sua opção em deixar no ares alvos de uma crítica tão contundente.

No mesmo dia, o "grasnador serrista" acusou o golpe e escreveu alguns comentários em seu blog sobre o assunto, devolvendo em grande estilo a crítica que recebeu:

"Não tenho tempo para radicais de salão, esquerdistas de beira de piscina, filhotes bastardos e rejeitados do submarxismo uspiano, a engrolar em antíteses mesquinhas aqueles que seriam os contrastes profundos do Brasil. Não são a minha prioridade porque, de fato, não são nada além de contínuos das próprias irresoluções, vítimas das próprias angústias morais e prisioneiros de uma desordem mental incapaz de escolher entre o bem e o mal, o legal e o ilegal, o lícito e o ilícito, o moral e o imoral, a vontade e a imposição, a virtude e o vício. Poderia lhes recomendar leitura. Mas é um caso de remédio."

Já o suposto "dândi lulista" preferiu ignorar o assunto e não fez comentário algum sobre o texto de Barros e Silva.

Na segunda-feira (11/2) foi a vez do professor Magnoli escrever uma carta para o "Painel do Leitor" da Folha esclarecendo que admira muito o "grasnador serrista" e sequer lê o que o "pequeno dândi". Na carta, Magnoli também não disse o nome de nenhum dos personagens da refrega, embora tenha se postado claramente em favor de um deles.

Este observador não muita tem certeza, mas começa a achar que está entrando em cena um novo tipo de jornalismo, no qual é possível contar histórias interessantíssimas sem nominar os seus protagonistas. Talvez seja possível também evitar dizer o lugar onde se passam as ações, o período em que os fatos ocorreram: "Há muito tempo, num reino bem distante, viviam brigando o grasnador serrista e o dândi lulista..."

Nome aos bois

Antes que o leitor comece a se perguntar se também este texto vai esconder o nome dos blogueiros em questão, é possível imaginar, com base nas posições defendidas por ambos, que o "pequeno dândi lulista" referido pelo colunista da Folha seja o jornalista Paulo Henrique Amorim, apresentador da TV Record e titular do site Conversa Afiada; e, o "grasnador serrista", Reinaldo Azevedo, colunista da revista Veja e titular de um blog que leva seu nome.

O jornalista Fernando de Barros e Silva talvez tenha preferido deixar os nomes dos colegas de lado para evitar processos judiciais. Afinal, se achou o assunto relevante e merecedor de um registro em sua prestigiada coluna na página 2 do maior jornal do país, não haveria outra razão para o jornalista da Folha deixar de dividir com seus leitores o alvo de sua pena ferina. Se a razão não foi esta – e Barros e Silva realmente despreza o comportamento dos tais blogueiros – fica difícil entender a razão pela qual ele resolveu escrever o texto. Falta de assunto?

Qualquer que seja a motivação do jornalista da Folha de S. Paulo, a reação de Azevedo e Magnoli veio na mesma toada. Os dois poderiam colocar um ponto final na conversa de candinhas iniciada por Barros e Silva, mas preferiram continuar fofocando ao lado dos leitores, sem comprar a briga e fazer o debate sobre o tema de fundo que a coluna tratou: as relações, partidárias ou políticas, que vigoram na blogosfera. No final, o debate ficou restrito aos iniciados e não cumpriu o que é a essência do jornalismo: servir ao interesse público.

A seguir, o texto que deu início à polêmica:

0 x 0
Fernando de Barros e Silva # copyright Folha de S.Paulo, 9/2/2008

PT e PSDB dividem e disputam a hegemonia política do país há muitos anos. Isso não é novidade para ninguém. Foi na eleição de 1994 que os partidos se consolidaram como pólos do jogo democrático. Tudo indica que em 2010 continuará sendo assim – embora, sem Lula, Ciro Gomes possa romper a monotonia dessa gangorra.

Fernando Henrique, que ao longo da vida – como intelectual e político – viu coisas importantes antes dos outros, disse certa vez que PT e PSDB competiam para ser a locomotiva das forças do atraso no processo de modernização do país.

É verdade. Resta saber o que exatamente resultou das alianças políticas firmadas e dos compromissos assumidos por tucanos e petistas. Ou quanto eles próprios revelaram ser identificados com o atraso que prometiam combater. Não é um jogo muito bonito e deve acabar 0 x 0. A história fará melhor balanço.

O fato é que tucanos e petistas, como lembrou Elio Gaspari, se parecem no essencial. Mais, talvez, do que gostariam. Convergiram para o centro, tornaram-se pragmáticos e cínicos no exercício do poder.

O efeito dessa hegemonia tucano-petista sobre o pensamento crítico foi devastador. Quantos radicais do nada, quantos Fla x Flus imaginários! Mas tudo sempre pode piorar. Em termos de degradação moral e miséria intelectual, nada supera hoje certos blogs politicamente aparelhados por PT e PSDB.

Farei como falou um dia Demétrio Magnoli: não direi seus nomes, assim como não jogo lixo na rua. O pequeno dândi que serve a Lula e o grasnador a serviço do serrismo são, no fundo, a mesma pessoa. Um não existe sem o outro. Funcionam, além disso, como seitas virtuais, mobilizando um restrito grupo de seguidores ruidosos que costuma mimetizar até jargões e cacoetes ofensivos dos gurus. É lamentável.

No caldeirão fervilhante desse parajornalismo rebaixado, é impossível discernir o que é engajamento, o que é negócio e o que é só lobby de si mesmo. PT e PSDB – tudo a ver.