sábado, 28 de fevereiro de 2009

Krugman aprova Orçamento de Obama

Paul Krugman vinha criticando bastante os planos de Barack Obama para deter a crise financeira e econômica que abala os Estados Unidos. Mudou de idéia ao analisar o Orçamento para o próximo ano que o presidente enviou ao Congresso e que precisa ser aprovado até outubro. Abaixo, a tradução do artigo de Krugman para o New York Times que a Folha de S. Paulo publica na edição de hoje.

Orçamento muda EUA de rumo

ELEIÇÕES TÊM consequências. O Orçamento do presidente Barack Obama representa uma ruptura enorme, não só com as políticas dos últimos oito anos, mas com as tendências políticas dos últimos 30. Se ele conseguir que o Congresso aprove qualquer coisa parecida com o plano anunciado anteontem, terá posto os EUA num rumo novo.

Entre outras coisas, o Orçamento será recebido com enorme alívio pelos democratas que começavam a sentir um pouco de depressão pós-eleitoral. O pacote de estímulo econômico que o Congresso aprovou pode ter sido muito fraco e focado em cortes nos impostos. A recusa do governo em endurecer com os bancos pode ter decepcionado. Mas o temor de que Obama pudesse sacrificar as prioridades progressistas em seu Orçamento acabou. Isso porque este Orçamento prevê US$ 634 bilhões em gastos nos próximos dez anos com a reforma da saúde. Não dá para pagar por cobertura universal, mas é um começo impressionante.

Em outro front, também é animador ver que o Orçamento projeta US$ 645 bilhões em receita com a venda de autorizações para emitir carbono, o que mostra preparo para lidar com a mudança climática. E essas novas prioridades estão expostas num documento cuja clareza e plausibilidade parecem incríveis a quem se acostumou a ler os Orçamentos de Bush, que insultavam nossa inteligência a cada página. O que temos agora é um Orçamento no qual se pode crer.


Corte no déficit
Muitos perguntarão se Obama poderá realmente reduzir o déficit de US$ 1,75 trilhão neste ano para menos de um terço disso em 2013, como está prometendo. Sim, ele pode. Hoje o déficit é enorme por fatores temporários (ou que esperamos que sejam temporários): um recuo econômico grave vem deprimindo a receita, e grandes montantes precisam ser reservados para o estímulo fiscal e resgates financeiros. Mas, se e quando a crise passar, o quadro deve melhorar.

De 2005 a 2007 -nos três anos que antecederam a crise-, o déficit federal foi da ordem média de US$ 243 bilhões por ano. Durante esses anos as receitas estavam inflacionadas, até certo ponto, pela bolha imobiliária. Mas também é verdade que gastávamos mais de US$ 100 bilhões por ano no Iraque. Portanto, se Obama tirar os EUA do Iraque (sem afundar num atoleiro afegão) e conseguir arquitetar uma recuperação econômica sólida - dois "ses" grandes-, reduzir o déficit para US$ 500 bilhões em 2013 não deve ser difícil. Quanto aos juros sobre as dívidas acumuladas nos próximos anos, as taxas são inferiores a 4%, de modo que mesmo US$ 1 trilhão de dívida adicional somará menos de US$ 40 bilhões por ano a déficits futuros. E esses custos já se refletem na proposta orçamentária. Se temos boas prioridades e projeções plausíveis, o que há para não se gostar neste Orçamento? Basicamente, as perspectivas de longo prazo.

Segundo as projeções do governo, a razão entre a dívida federal e o PIB vai subir muito até se estabilizar em torno de 60%. Não seria um nível extraordinariamente alto pelos padrões internacionais, mas seria o maior endividamento dos EUA desde os anos imediatamente seguintes à Segunda Guerra. E isso nos deixaria com margem de manobra consideravelmente reduzida caso outra crise se apresentasse.

Ademais, o Orçamento Obama trata apenas dos próximos dez anos. Os problemas fiscais realmente graves dos EUA estão mais além desse horizonte: cedo ou tarde vamos ter que encarar as forças que empurram para cima os gastos de longo prazo -sobretudo o custo sempre crescente da saúde. E, mesmo que os custos da reforma fundamental da saúde sejam controlados, eu, pelo menos, acho difícil que o governo federal consiga cumprir suas obrigações de longo prazo sem elevar pelo menos um pouco os impostos sobre a classe média. Mas não culpo Obama por deixar algumas perguntas grandes sem resposta.

Há um limite ao pensamento de longo prazo que o sistema político consegue encarar sob uma crise grave. E este Orçamento parece ser muito, muito bom.

Míriam antecipa boas notícias

Dá até medo, porque ela quase sempre erra, mas o comentário abaixo está no blog da colunista Míriam Leitão. Como quem não quer nada, Míriam avisa que teremos boas notícias pela frente - a produção industrial do país em janeiro pode ter crescido mais de 10% em relação a dezembro do ano passado. Os números oficiais serão divulgados na próxima semana. Sim, a jornalista explica que o resultado será bom em relação ao mês anterior e ruim em relação a janeiro de 2008 (mas aquele mês foi o melhor janeiro dos últimos 10 anos, pelo menos).

No fundo, Leitão parece estar torcendo para que o dado de janeiro seja uma espécie de último suspiro antes da morte. Tudo que a colunista global quer é, como diria o próprio presidente, que Lula se lasque. E nada melhor para isto do que uma economia em franca desaceleração. Assim, no post abaixo ela cumpre a função de avisar que números bons serão divulgados em breve e explicar que não se trata, de maneira alguma, do fim dos problemas do país. Do jeito que a coisa vai, a turma da grande imprensa ainda vai sapecar um Só Serra Salva como slogan da campanha do tucano em 2010. Para a sorte do governador paulista, Lula não pode ser candidato, porque neste caso até Jesus apanharia do presidente nas urnas.

Produção industrial terá forte alta em janeiro

As principais corretoras e consultorias do país já estão divulgando as previsões para a produção industrial brasileira em janeiro, que será divulgada pelo IBGE na próxima sexta-feira, dia 6 de março: os números são ótimos quando comparados a dezembro de 2008.

A MCM Consultores Associados prevê alta de 11,3% na comparação com dezembro, a Link Corretora,10,1%; a Concórdia espera 8,8%.

São basicamente duas as explicações para a forte alta: base de comparação muito baixa frente a dezembro, e o aumento de mais de 90% da produção de veículos no mês.

Na avaliação do economista Leandro Padulla, da MCM Consultores, apesar da alta forte frente ao mês de dezembro, o mais importante neste caso é comparar com janeiro de 2008. Aí a previsão não é boa: queda de 9,2%. Ou seja: você pode escolher para onde olhar. Com o mês anterior é forte alta, com o mesmo mês do ano anterior é forte queda.

- Ainda é muito cedo para falar em recuperação e é muito improvável que isso aconteça para o nível de atividade em geral. O resultado está mais para uma saída do fundo do poço. Quando comparamos com janeiro de 2008, fica claro que o ajuste de produção está num patamar muito mais baixo do que vimos no ano passado - afirmou Padulla.

Como já explicou ao blog o economista Luis Otávio Leal, do Banco ABC Brasil, a indústria caiu cerca de 20% nos últimos três meses de 2008. Isso significa que a alta de janeiro ainda não leva o país ao mesmo nível anterior à crise.

Noves fora tudo isso, o fato é que o país terá na semana que vem um bom número para comemorar, a produção industrial crescendo entre 8% a 10% em relação a dezembro. Imagina se fosse o oposto e o país tivesse uma queda sobre queda? Melhor um sinal de recuperação na mão do que nada.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Mainardi e Azevedo apóiam "ditabranda"
e guinada à direita da Folha de S. Paulo

Não poderia ser diferente, a Folha de S. Paulo já ganhou apoios em sua guinada à direita, conforme o leitor que tiver asco poderá ler abaixo. Diogo Mainardi e também Reinaldo Azevedo, em post que não vale a pena reproduzir, estão dando todo o apoio ao jornal da querela da "ditabranda". Do jeito que a coisa vai, Roberto Civita terá que dar um bom aumento salarial aos seus pitbulls se não quiser vê-los trabalhando para Otavinho Frias Filho. Os dois estão assanhados e, pelo visto, torcendo muito para que a Folha se transforme na versão diária de Veja. Para o leitor paulista, mais do que nunca é verdadeiro o slogan do jornal concorrente: "é melhor você começar a ler o Estadão..."

A seguir, o texto de Mainardi, em que Antonio Cândido é chamado de tacanho e caduco. Coisa finíssima...

A Vichy do PT

A USP é a Vichy do petismo. É dominada pelos colaboracionistas do regime. Uma hora, os professores doutrinam os estudantes. Outra hora, eles montam a plataforma eleitoral do partido. Outra hora, assumem cargos no Palácio do Planalto.

Um nome? Maria Victória Benevides. Ela passou por tudo isso: já doutrinou os estudantes, já montou a plataforma do PT e já assumiu cargos no Palácio do Planalto. Com tantas medalhas no peito, ela pode ser considerada, com uma certa ligeirice, o marechal Pétain da USP.

Nos últimos anos, Maria Victória Benevides combateu destemidamente todos os insubordinados que procuraram resistir à supremacia de Lula: Em 2005, ela atribuiu o mensalão ao "sensacionalismo da imprensa", acrescentando que ninguém podia dar ensinamentos de ética a Lula. Em 2006, ela passou um pito nos petistas que defendiam outro caminho para a economia. Em 2007, ela ridicularizou as lamúrias de Fernando Henrique Cardoso. Em 2008, ela se reuniu com outros trinta hierarcas da academia e, depois de fazer propaganda do PAC, engajou-se com entusiasmo na candidatura presidencial de Dilma Rousseff.

Até recentemente, Maria Victória Benevides podia contar com uma poderosa arma. Isso mesmo: a "Folha de S. Paulo". Sempre que Lula ou o PT se metiam numa enrascada, lá ia ela, a colaboracionista do regime, o marechal Pétain da USP, oferecendo uma espécie de arrazoado ao jornal, publicado sob a forma de um artigo, ou de uma carta, ou de uma frase: num ritmo de dez, onze, doze vezes por ano.

Quando o arsenal de Maria Victória Benevides parecia estar se esgotando, seu lugar na "Folha de S. Paulo" era preenchido por outro colaboracionista do regime, comumente identificado como "intelectual do PT". Quem? Fábio Konder Comparato.Goffredo da Silva Telles. Dalmo Dallari. Maria Rita Kehl. Emir Sader. Renato Janine Ribeiro. Paul Singer. Antonio Candido. Uma gente caduca, uma gente tacanha, uma gente cabotina, que pretende ser eternamente recompensada por seus gestos durante o regime militar.

Agora tudo mudou. Alguns dias atrás, um editorialista da "Folha de S. Paulo", Vinicius Mota, empregou o termo "ditabranda" - em vez de ditadura - para caracterizar aquele mesmo regime militar. É um trocadilho antigo. Já foi usado por Márcio Moreira Alves. E já foi usado na própria "Folha de S. Paulo", num artigo de 2004. Desta vez, porém, Maria Victória Benevides decidiu espernear, ordenando ao jornal que se retratasse. E Fábio Konder Comparato esperneou junto com ela. A "Folha de S. Paulo" respondeu candidamente, recordando que a ira dos dois professores, "figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela vigente em Cuba, é obviamente cínica e mentirosa".

Maria Victória Benevides cancelou sua assinatura da "Folha de S. Paulo" e disse que nunca mais aceitará se manifestar por meio do jornal. Fábio Konder Comparato acompanhou-a. Os outros colaboracionistas do regime publicaram um manifesto de apoio aos dois. Se eles cumprirem a promessa de nunca mais aparecer no jornal, todos nós sairemos ganhando. O melhor a fazer é tirar-lhes a voz, na "Folha de S. Paulo" e no resto dos jornais. Só assim Vichy cairá.

Cumprindo o que prometeu

Mais uma de Barack Obama, na versão da Folha Online. De fato, o presidente norte-americano está em começo de governo, é cedo para avaliar a performance. Mas este blog reitera: até aqui, dentro das condições catastróficas que está enfrentando - o legado de Bush é um fardo dos mais pesados -, Obama está mandando muito bem.


Obama confirma retirada de cerca de 90 mil soldados do Iraque


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou nesta sexta-feira a retirada parcial das tropas americanas do Iraque até 31 de agosto de 2010, o primeiro passo efetivo de seu governo para encerrar o conflito que, em mais de cinco anos, custou cerca de US$ 1 trilhão e deixou mais de 4.250 soldados americanos mortos. Embora não tenha falado em números exatos, o plano de Obama representaria a retirada de entre 92 mil e 107 mil dos 142 mil soldados que atuam no país.

O plano anunciado por Obama inclui ainda a manutenção de uma força de segurança "de 35 mil a 50 mil homens" no país, com a retirada completa até o final de 2011, seguindo os prazos do acordo de segurança assinado pelo antecessor George W. Bush com os iraquianos, no final do ano passado.

Estas tropas, segundo Obama, serão responsáveis por treinar e equipar as forças de segurança iraquianas, além de servirem em missões de combate ao terrorismo e garantir a segurança dos diplomatas americanos que permanecem em solo iraquiano.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Especulações rumo a 2010

Dia desses um leitor mandou um comentário elogioso ao autor deste blog, mas fazendo uma séria ressalva. Dizia o missivista que as análises aqui publicadas eram tão boas que qualquer vírgula mal colocada ficava estranha nos textos (um evidente exagero). E completava, sugerindo peremptoriamente: nunca mais use "muita água vai rolar debaixo da ponte", é um clássico dos chavões.

Pois não é que este post poderia perfeitamente começar com o chavão proibido? Para não deixar o leitor em questão amuado – atento que ele (ou ela) é, deve ser dos poucos fiéis ao blog –, vamos iniciar com uma formulação mais precisa do ditado popular. Digamos que ainda é um tanto cedo para falar da eleição presidencial de 2010, mas a cada dia que passa a sucessão de Lula fica mais presente no jogo político nacional. Afinal, o que para uns é muito tempo, para outros é pouco: faltam exatamente 19 meses para a eleição de outubro do próximo ano.

Isto posto, vale observar que uma das principais questões da eleição de 2010 será a política de alianças das principais candidaturas. O jogo para a construção das coligações está em curso e deve durar até maio ou junho de 2010. Em julho os candidatos serão homologados nas convenções partidárias, portanto toda negociação terá que estar fechada um ou dois meses antes. Até agora, a grande dúvida é a postura do PMDB. Nove entre dez analistas apostam que o partido irá rachado para a disputa do próximo ano e é provável que estejam certos: uma ala, hoje majoritária no partido, trabalharia pela aliança com o PT em torno de Dilma Rousseff. Os dissidentes, capitaneados atualmente pelo ex-governador Orestes Quércia, presidente do PMDB de São Paulo, e pelo impoluto senador Jarbas Vasconcelos (PE), apoiariam, dentro das possibilidades da legislação eleitoral, o tucano José Serra, atual governador de São Paulo.

Hoje, de fato, esta divisão é pule de dez, como se diz no turfe. Quércia e Jarbas provavelmente conseguiriam ainda alguns outros apoios localizados no partido, mas o PMDB formalmente comporia a chapa indicado o candidato a vice de Dilma. Isto é hoje, mas a eleição só acontece em outro de 2010 e até lá... Não apenas água, o que vai rolar mesmo vai ser muito uísque nas noites de negociação entre os caciques do PMDB, o presidente Lula e seus articuladores palacianos e petistas. De tudo que vai ser conversado, uma hipótese que começa a ser aventada discretamente em Brasília pode significar um tiro de morte nas ambições de Serra de contar com o apoio de pelo menos uma parcela do PMDB: e se o presidente da Câmara, Michel Temer, for o vice de Dilma Rousseff?

Se Temer, que há anos tenta, sem sucesso, desbancar Quércia em São Paulo, for o vice de Dilma, o jogo muda de figura. Fica muito complicado para o ex-governador apoiar Serra neste cenário e mesmo que Quércia insista neste movimento, será então uma liderança isolada dentro de um PMDB paulista no qual Temer certamente terá uma boa dose de sustentação. Muita gente acha que Michel Elias Temer Lulia - este o nome completo do deputado - é o mais serrista entre os líderes do PMDB. Bobagem, Temer é um pragmático, político da escola antiga, do tipo que em uma negociação pensa primeiro em suas próprias vantagens, depois nas vantagens próprias e por fim mais uma vez nas póprias vantagens. Aí toma a decisão, levando em conta o que melhor lhe convém...

Sim, Temer foi um político muito presente no governo Fernando Henrique e é bastante identificado com os tucanos. Mas jamais ousou sair do PMDB, nem mesmo após ter tomado uma surra de Quércia na única vez que ousou desafiá-lo internamente em São Paulo. Temer dialoga com o PSDB, mas não é de maneira nenhuma um tucano. É mais conservador, em diversos aspectos, do que alguns quadros do PSDB, mas possui autonomia política e uma extrema habilidade para a negociação, que lhe valeram a sobrevivência ao lado de Quércia sem se confundir com o grupo do ex-governador e, por duas vezes, a presidência da Câmara Federal.

Analisando friamente o personagem em questão, ninguém chega duas vezes à presidência da Câmara dos Deputados sem um mínimo de competência política. Não é preciso ser bom de voto no povão – Temer por sinal quase não se elegeu para esta legislatura –, mas é necessário muita lábia, jogo de cintura e liderança entre os seus pares. Temer tem tudo isto e pode acabar se tornando o vice que Dilma pediu a Deus, pois compensaria defeitos notórios da ministra-chefe da Casa Civil – falta de jogo de cintura, pouco (ou nenhum) conhecimento dos meandros do Congresso.

É evidente que o presidente Lula, que provavelmente assumirá, em algum momento, o comando das negociações para selar a aliança em torno de sua candidata, sabe de tudo isto. Atualmente, o nome mais falado para compor a chapa com a ministra é o baiano Geddel Vieira Lima, que é outro habilíssimo político da velha guarda, já foi da tropa de choque de FHC e hoje toca bumbo no quintal petista, mas tem um olho no Palácio de Ondina, onde hoje reina o petista Jaques Wagner. É claro que Geddel força a mão pela vaga de vice, mas talvez fique satisfeito em garantir-se senador com apoio de Wagner, por exemplo... As duas vagas baianas, é bom lembrar, serão das mais disputadas do país, tem muito cacique para pouca cadeira (além de Geddel, só para ficar nos mais expressivos, a briga poderia contar com Paulo Souto, Antonio Imbassahy, Cesar Borges, Antonio Carlos Magalhães Júnior, Jutahy Magalhães Jr.). E ainda que o ministro da Integração Nacional esteja jogando sério ao lutar pela vaga de vice, é bom lembrar que muito tempo de exposição na fogueira política pode causar danos irreparáveis quando a disputa se aproxima.

Não é o perfil de Temer, muito pelo contrário, fazer alarde da sua condição de possível candidato a vice — em qualquer das chapas, aliás. Michel vai "se colocar à disposição do país" (e do presidente ou do governador Serra - hipótese muito menos provável pelo fato de ambos serem paulistas). Só entrará em campo quando o jogo estiver arrumado e a sua posição em campo for absolutamente combinada com o treinador - Lula ou Serra.

Tudo somado, se Michel Temer entrar no campo ao lado de Dilma, vai dar um trabalhão para José Serra em São Paulo. Será o desmonte de uma aliança na qual o tucano vem trabalhando com afinco, que incorporaria o DEM, PPS e uma parcela expressiva do PMDB, Quércia à frente, além, é claro, a burguesia de São Paulo. Temer do lado adversário tem potencial de estragar todo este minucioso planejamento, pois neutralizaria Quércia, atrairia parte do empresariado que já aprendeu a confiar em Lula, mas mantém um pé atrás com o PT e Dilma, e asseguraria o precioso tempo do PMDB não apenas para a chapa presidencial, mas provavelmente na maior parte das composições estaduais. Temer ao lado de Dilma é tudo de ruim para Serra.

Comparação é tudo

A manchete do UOL nesta tarde de quinta-feira grita: Inadimplência atinge maior nível desde 2002. Seria realmente horrível a economia voltar às taxas do tempo do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), não é mesmo?

Neste caso em particular, porém, até que FHC não mandou tão mal. Lendo a matéria, o leitor fica sabendo que a taxa das pessoas físicas hoje está em 8,3% e que estava em 8% no mês passado e em 7,3% antes da crise, em setembro. Ou seja, não foi nenhum grande salto, mas em se tratando de um portal do Grupo Folha, a regra é berrar bem alto: "está ruim, está piorando, vai piorar ainda mais".

Basta ler a reportagem, porém, para ver que o grito histérico não faz muito sentido, pois o índice geral de inadimplência, levando em conta as pessoas jurídicas, está apenas um pouco superior ao verificado em agosto de... 2007! Está aí o texto da matéria, que não deixa mentir: "O indicador nas linhas de aquisição de veículos passou de 4,5% para 4,7%. No cheque especial, recuou de 10,6% para 10,3%. No crédito pessoal, subiu de 5,5% para 5,7%. A inadimplência geral, que inclui também pessoa jurídica, passou de 4,4% em dezembro para 4,6% em janeiro, a taxa mais alta de agosto de 2007 (4,7%)."

Bem que o pessoal lá da Barão de Limeira podia lançar um novo slogan: Folha, de rabo preso com a crise financeira mundial!

Cadê o protecionismo que estava aqui?

Os conservadores brasileiros passaram o ano passado dizendo que a vitória de Barack Obama seria ruim para o Brasil porque os democratas em geral são muito mais protecionistas do que os republicanos. Teve até gente da esquerda que embarcou nesta e saiu por aí dizendo que o governo brasileiro estava na torcida por McCain, que Lula sempre se deu muito bem com Bush e outras baboseiras. Nada como um dia após o outro para provar que as coisas são mais complicadas do que parecem.

A redução dos subsídios agrícolas anunciadas nesta quinta-feira para o primeiro Orçamento do governo Obama, conforme reportagem abaixo, da Folha Online, significa uma das maiores pauladas nos grandes fazendeiros norte-americanos, abrindo aos países situados abaixo do Rio Grande uma enorme janela de oportunidades. E uma porta aberta para a Rodada de Doha finalmente terminar.

Devagar com o andor, o santo é de barro. Primeiro deixem Obama governar, depois analisem o trabalho dele. O resto é chute e má vontade com o primeiro negro a ocupar a presidência dos EUA. Até agora - e iso já foi escrito aqui - Obama está indo muito bem: fim de Guantánamo, restrição salarial os mega-hiper-super executivos que comandam empresas nas quais o governo injetar recursos públicos, e agora o fim dos subsídios aos grandes agricultores. Nada mal, e são só os dois primeiros meses de governo...
A seguir, a matéria da Folha Online:

Obama vai cortar subsídios de grandes produtores agrícolas

A proposta do presidente dos EUA, Barack Obama, para o Orçamento do ano fiscal de 2010 - que começa em outubro deste ano -, inclui a eliminação gradual dos subsídios aos produtores agrícolas que registrem ganhos de mais de US$ 500 mil por ano. Além disso, a proposta prevê a eliminação dos subsídios para a manutenção de estoques de algodão no país.

Os cortes aos produtores devem poupar ao governo cerca de US$ 9,8 bilhões em 10 anos, segundo fontes ouvidas pela agência de notícias Reuters. Já a eliminação dos subsídios à estocagem de algodão devem levar a uma economia para o governo de US$ 570 milhões no mesmo período.

Subsídios à agricultura estão no centro das divergências entre países ricos e emergentes no âmbito das negociações da Rodada Doha de liberalização comercial. As negociações, iniciadas no final de 2001, entre os países-membros da OMC (Organização Mundial do Comércio) na capital do Qatar, Doha, estão paralisadas sobretudo pela recusa de alguns países a reduzir as tarifas sobre produtos agrícolas.

Em dezembro, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, disse que a redução do "enorme" volume de subsídios "generosamente concedidos ao setor agrícola dos países ricos, em detrimento dos agricultores nos países em desenvolvimento, melhoraria, igualmente, as condições de vida de centenas de milhões de pessoas", em discurso na ONU (Organização das Nações Unidas).

Orçamento

O projeto de Orçamento prevê gastos totais de US$ 3,606 trilhões para o ano fiscal de 2010 (que começa em outubro deste ano), contra US$ 3,724 trilhões do ano fiscal anterior, segundo dados oficiais divulgados. Para o exercício 2010, que nos Estados Unidos começa no dia 1º de outubro, o projeto de Orçamento prevê ainda um déficit de US$ 1,171 trilhão, contra US$ 1,75 trilhão em 2009.

O texto da proposta encaminhada ao Congresso tem 140 páginas, mas não contem todos os detalhes --o documento completo só deve ser divulgado na segunda quinzena de abril.

Segundo divulgado mais cedo, o Orçamento inclui uma verba de US$ 250 bilhões adicionais para o setor bancário e financeiro, caso seja necessário. O jornal "The Wall Street Journal" ("WSJ") informou hoje que o governo Obama não tem planos para utilizar essa verba adicional, mas quis incluí-la de qualquer forma, caso a situação do setor financeiro se deteriore ainda mais.

Obama ainda planeja um fundo de US$ 634 bilhões para reformar o sistema de saúde do país nos próximos dez anos. O plano prevê aumento dos impostos dos mais ricos para custear o fundo. Os recursos para reduzir o déficit também virão de um programa de venda de créditos de carbono.

O texto do Orçamento divulgado hoje diz que o sistema de saúde será financiado em parte através de um "reequilibrio do código fiscal de modo a que os mais ricos paguem mais".

O presidente americano prometeu nesta semana que reduzirá o déficit pela metade até o final de seu mandato, em 2013, para US$ 533 bilhões. A Casa Branca alega que o elevado déficit do país é reflexo das políticas fiscais herdadas do governo de George W. Bush.

Pentágono

O orçamento do Pentágono tem atingido níveis recorde em razão das guerras no Iraque e no Afeganistão, com o aumento dos recursos para as forças militares e o custo da construção de novos armamentos. O valor destinado às forças militares é de US$ 534 bilhões.

O governo, no entanto, já manifestou intenção de reduzir os gastos com sistemas de armas antiquados e redirecionar esses recursos para a luta contra os rebeldes no Iraque e os talebans no Afeganistão, além de medidas de defesa contra os sistemas de comunicação do país. "Iremos eliminar os contratos sem concorrência que gastaram bilhões no Iraque, e reformaremos nosso Orçamento da defesa para que não paguemos por um sistema de armas da era da Guerra Fria que não usamos mais", afirmou Obama, em seu primeiro discurso diante do Congresso.

Segundo o diário americano "The New York Times" ("NYT"), os gastos com sistemas de mísseis e os gastos com modernização de equipamentos do Exército serão reduzidos. A expectativa do especialista em defesa James McAleese, segundo o "NYT", é de um corte de US$ 2 bilhões nos US$ 9 bilhões previstos para os programas de mísseis de defesa.

Saúde

Para o sistema de saúde, representantes do governo sugerem que sejam levantados recursos com o encerramento da política de excluir o valor dos planos de saúde oferecidos pelos empregadores das declarações de imposto de renda. A ideia, no entanto, é fortemente combatida por representantes sindicais e membros do Congresso --além de contradizer propostas de campanha do próprio Obama.

O governo também deve exigir das empresas farmacêuticas maiores descontos para o programa Medicaid, voltado para a população de baixa renda.

Atualmente, as empresas farmacêuticas têm de oferecer ao governo no programa Medicaid ao menos 15,1% de desconto para um produto de marca. A proposta agora é de exigir um desconto de ao menos 22,1%. O setor farmacêutico tem resistido a essa proposta.

A Folha recuou?

O diário da Barão de Limeira publicou hoje, no Painel do Leitor, as duas cartas abaixo. Sem resposta malcriada, desta vez. Será que a direção do jornal percebeu que essa história de "ditabranda" não caiu bem e resolveu recuar? É cedo para saber, mas é o que indica a ausência de resposta aos professores. Menos mal, só que ainda falta um bom "mea culpa" sobre o trocadilho infame.

Ditadura
"Em resposta aos insultos a mim dirigidos na Nota da Redação de 20 de fevereiro próximo passado ("cínico e mentiroso'), reitero meu protesto contra o editorial, que considerou brando o regime militar brasileiro, cujos agentes mataram mais de 400 pessoas e torturaram milhares de presos políticos." FÁBIO KONDER COMPARATO , professor titular da Faculdade de Direito da USP (São Paulo, SP)

"As injúrias da Redação da Folha não me intimidam. Continuarei denunciando os crimes da ditadura, seus responsáveis civis e militares, bem como seus aliados -ontem e hoje." MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora titular da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)

Ainda sobre a "ditabranda"

O que vai abaixo é o comentário do jornalista Luciano Martins Costa para o programa de rádio do Observatório da Imprensa.

Folha reescreve a história

Passados quase dez dias, a Folha de S.Paulo segue provocando debates por causa da revisão histórica que seus editorialistas resolveram oferecer à Nação. Segundo o jornal que se apresenta como "o maior do país", o regime de exceção imposto ao Brasil entre 1964 e 1985 não foi uma ditadura. No trocadilho infeliz escolhido pelo redator que expõe as opiniões do diretor responsável do jornal, o Brasil passou por uma "ditabranda".

Os argumentos já alinhavados pela internet, alguns deles publicados na seção de cartas da Folha, bastariam para qualificar tal afirmação como mera e desrespeitosa aleivosia. Mas preocupa os observadores da imprensa que um jornal alinhado entre os mais influentes do país venha a propor semelhante jogo de palavras sobre tema a respeito do qual não há como tergiversar.

Reação tardia

A Folha tem há algum tempo a mania dos "rankings" e das tabelas classificatórias, mas não há como fazer uma lista classificatórias de horrores. Comparar a ditadura brasileira com a chilena ou a argentina seria o mesmo que comparar o terror nazista com os horrores do stalinismo, dizendo que este ou aquele pode ser mais aceitável.

A Folha foi o jornal brasileiro que mais se entusiasmou com as idéias do economista americano Francis Fukuyama, que no fim dos anos 1980 anunciou o "fim da História". Também foi o jornal que abrigou sem reservas as teses de que existe uma tal pós-modernidade.

Mas não há como fugir da História. Não é com a negação que a Folha vai escapar da verdade segundo a qual foi um dos jornais que mais colaboraram com a ditadura militar, inclusive contratando policiais para trabalhar como jornalistas na década de 1970.

Ao desrespeitar os mortos do regime de exceção, o jornal faz lembrar seu próprio comportamento durante os anos de chumbo. A reação, tardia, e a luta pela redemocratização, foi liderada por repórteres e alguns editores, inicialmente à revelia da direção do jornal.

Quem se aventura a reescrever a História se arrisca a ser julgado por ela.

O ano vai começar

Acabou a grande festa brasileira, o Carnaval (pelo menos terminou na maior parte do país, na Bahia dizem que só acaba na Páscoa, mas deve ser maldade de carioca). Também dizem que só a partir de hoje (ou de segunda-feira, porque muita gente enforca o feriado), o ano começa de verdade. Bem, neste 2009 de crise financeira global, as coisas parecem ter começado mais cedo, mas também é fato que os brasileiros se planejam para pegar mais pesado depois do Carnaval, com as águas de março fechando o verão.

Se na esfera privada a vida não para e as empresas já estão trabalhando (ou revendo planos e demitindo) a todo vapor, de fato no meio político é bastante razoável dizer que o ano só começa agora, com o fim do reinado de Momo. O Congresso Nacional, por exemplo, nada fez em janeiro e fevereiro além de eleger seus novos comandantes. A pauta legislativa só começa a ser negociada realmente a partir da próxima semana, com a volta dos parlamentares a Brasília e o término do troca-troca nas comissões permanentes do Senado e Câmara.

Tudo leva a crer que 2009 será mesmo um ano bem diferente. Todos os olhos estão voltados para os Estados Unidos, coração da crise mundial. Por aqui, a crise vai se agravando, as demissões se avolumam, mas ainda se trata de um aperitivo perto da dose recessiva servida nos países ricos. Há duas pautas que de fato importam em Pindorama neste ano de 2009 e que precisam ser acompanhadas de perto: as ações do governo e do Congresso para minimizar os efeitos da crise e o debate sucessório.

No fundo, as duas coisas estão inter-relacionadas. Do sucesso da primeira depende a candidatura de Dilma Rousseff; no segundo caso vale a pena prestar atenção nas trapalhadas tucanas. O PSDB vem jogando muito mal nas últimas eleições e nada indica que a situação vá melhorar daqui para frente, ao contrário, os sinais não são nada alentadores. Voltaremos ao assunto.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Drummond: uma tese sobre mídia e crise

O artigo abaixo está no sempre instigante Terra Magazine. Alguém precisa estudar também a influência da mídia no período posterior ao início da crise. Como se sabe, boa parte do comportamento dos agentes econômicos ocorre em função das expectativas sobre o futuro. E com o alcance da imprensa, muito maior hoje do que em qualquer período anterior, há um efeito bastante grande na formação das expectativas. Mas isto é tarefa para o futuro, porque a crise financeira global não terminou – alguns dizem que está só começando... A seguir, na íntegra, o texto do professor Carlos Drummond para os leitores do Entrelinhas.

Mídia acrítica contribuiu com agravamento da crise

Carlos Drummond, de Campinas (SP)

A imprensa americana, com poucas exceções, contribuiu para que a crise atual atingisse grandes proporções. Ao divulgar sem crítica previsões otimistas sobre o mercado de títulos subprime, enaltecer o brilhantismo do maestro Alan Greenspan, ex-presidente do Fed e fazer a apologia dos investidores audaciosos de Wall Street, a mídia reforçou a ficção de que a prosperidade continuaria indefinidamente. As falcatruas no mercado de hipotecas aumentavam mês a mês, mas recebiam pouca atenção por parte dos veículos de comunicação.

Poucos jornalistas alertaram a tempo para o que de fato estava acontecendo no mercado de hipotecas. Carol Lloyd, do San Francisco Chronicle, é uma dessas exceções. Ela escreveu em 2006 um detalhado artigo sobre o caráter envolvente das operações fraudulentas e ruinosas, nas quais, com frequência, a vítima é não só cúmplice como coautora.

No intrincado e multifacetado mundo das fraudes com hipotecas, algumas vezes é difícil separar a vítima do criminoso e o crime de um negócio legal e corriqueiro, observava a jornalista. A explicação é que nos anos de valorização e de taxas de juros baixas o imóvel tornou-se uma obsessão nacional, que conduziu a práticas insanas como estas:

. Avaliadores concordavam em inflar os valores das propriedades (conforme mencionado acima) na expectativa de que o mercado em alta os validasse no mês seguinte.
. Agentes faziam ofertas de imóveis brindando o comprador com quantidades crescentes de dinheiro vivo, a título de estímulo.
. Corretores de hipotecas praticamente empurravam empréstimos para pessoas de baixa renda que, de outro modo, nunca conseguiriam comprar as suas casas.

A advogada Rachel Dollar, representante de clientes em casos de fraude com hipotecas e criadora de um blog sobre fraudes com hipotecas muito visitado, afirma haver um espectro amplo de pessoas envolvidas nesses crimes, desde proprietários ignorantes até criminosos organizados.

Há diferentes níveis de criminalidade, declarou a advogada. Algumas pessoas alegam não saberem ser ilegal o que estavam fazendo. Outras já foram condenadas por fraudes com ações e outros ativos e são profissionais.

Rachel Dollar classifica as fraudes conforme a intenção, de obter a propriedade de um imóvel ou de obter lucro. No primeiro caso, tomadores mentem ao preencher o cadastro para obter um empréstimo ao qual, de outro modo, não teriam acesso. Inflacionando a sua renda, por exemplo, podem obter financiamento para comprar uma casa mais cara do que os seus proventos e o seu patrimônio comportariam. Usando o retorno em dinheiro vivo entregue pelo corretor como entrada, podem parecer compradores merecedores de taxas de juros mais baixas. Nessa situação, são típicos tomadores subprime, mas não planejam o não pagamento da sua dívida. Como investidores ou proprietários, a sua intenção não é fugir com o dinheiro, mas conseguir um teto.

Esse tipo de comprador com frequência não sabe que está violando leis federais ou fraudando emprestadores. Em alguns casos, agentes ou corretores de hipotecas os induziam a solicitar o financiamento não de acordo com a sua realidade patrimonial e de renda, mas conforme o que os bancos queriam.

Já a fraude que visa lucro costuma ser mais complicada e mais explicitamente criminosa. Tipicamente, envolve um número maior de profissionais que conspiram para inflacionar o preço de uma residência. A gangue pode envolver um avaliador desonesto, um corretor de hipotecas, um investidor e um comprador "laranja", isto é, alguém que vende a sua identidade e boa ficha de crédito para a realização de uma transação que o beneficie. Do mesmo modo que no Brasil, há nos Estados Unidos os "laranjas" involuntários, pessoas cujas identidades são roubadas para a aplicação de um golpe. Algumas quadrilhas incluem notários, corretores de imóveis, informantes infiltrados nas empresas e até nas instituições financeiras.

Um aspecto chocante é que muitas dessas práticas eram ensinadas em seminários para pessoas interessadas em enriquecer rapidamente, às quais se ensinava como encontrar "laranjas", por exemplo. Alguns sites da internet procuravam publicamente por "laranjas". Enquanto o mercado estava em alta, todos estavam ganhando dinheiro. As investigações e as punições só começaram a aumentar quando o mercado afundou.

Carlos Drummond é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp.

Beija-Flor derrotada: culpa do Lula?

Um leitor do blog avisa: amanhã os jornalões vão atribuir ao presidente Lula o segundo lugar da Beija-Flor, escola favorita do presidente, no carnaval carioca deste ano. Na versão da Folha de S. Paulo, a história seria resumida assim: "Lula não consegue transferir popularidade, Beija-Flor perde e Serra sai fortalecido para 2010"...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Não foi desta vez

Mesmo com a torcida (e campanha) da mídia pela vaia, o presidente Lula saiu incólume da Marquês de Sapucaí: a vaia não veio. Agora os portais dos jornalões tentam justificar: "presidente não teve o nome anunciado no sistema de som", "entrou no sambódromo depois que a Império Serrano já desfilava" e outros quetais. Bem, Lula não estava disfarçado e sua figura já é razoavelmente conhecida do público, de maneira que se ele não foi vaiado é porque o povo não estava mesmo querendo vaiá-lo. O resto é conversa para boi dormir...

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Na Sapucaí














José Serra (PSDB) ainda não deu as caras, mas não é engraçado ver Eduardo Paes (PMDB), prefeito do Rio, todo-todo ao lado do presidente Lula? O mesmo Lula que Paes achava que era o "chefe da quadrilha" lá na época do mensalão. Mais um pouco Serra chega para animar o convescote e aconselhar Paes a tirar o chapéu. Ou alguém pode pensar que ele está querendo ser confundido com o presidente...

A cara do Brasil

Daqui a pouco tem Lula, Dilma, Serra e Sérgio Cabral na Marquês de Sapucaí. Não na avenida, claro, mas no camarote do governador. Sim, é Carnaval, mas este blog aposta que a ultradireita não vai gostar muito da presença do governador de São Paulo ao lado de sua provável rival em 2010 e, principalmente, do presidente da República. Podem não gostar, mas este é o nosso país, só não entende quem não leu Sérgio Buarque de Holanda, o pai do Chico. Como diz uma velha letra do Premê, "aqui não tem terremoto, aqui não tem revolução, é um país abençoado, onde todo mundo põea mão". Aliás, como hoje é Carnaval, segue a letra completa. Se alguém achar um link para ouvir o sambão, coisa que este blogueiro não conseguiu, por favor informe para imediata disponibilização aos leitores. Porque realmente vale a pena...

Bem Brasil (Premeditando o Breque)

E en tal maneira hé graciosa
Que querendo a aproveitar darse a neela tudo
per bem das ágoas que tem
Paro o mjlhor fruito que neela se pode fazer
Me pareçe que será salvar esta jemte
E esta deve ser a principal semente que Vosa Alteza
Em ela deve lamçar

Pero Vaz de Caminha

Há 500 anos sobre a terra
Vivendo com o nome de Brasil
Terra muito larga e muito extensa
Com a forma aproximada de um funil

Aquarela feita de água benta
onde o preto e o branco vem mamar
O amarelo almoça até polenta
E um resto de vermelho a desbotar

Sofá onde todo mundo senta
onde a gente sempre põe mais um
Oh! berço esplendido agüenta
Toda essa galera em jejum

Apesar de Deus ser brasileiro
outros deuses aqui tem lugar
Thor, Exu, Tupã, Alá, Oxossi
leus, Roberto, Buda e Oxalá

Aqui não tem terremoto
Aqui não tem revolução
É um país abençoado
Onde todo mundo põe a mão

Brasil, potência de neutrons
35 watts de explosão
Ilha de paz e prosperidade
Num mundo conturbado
E sem razão

A mulher mais linda do planeta
Já disse o poeta altaneiro
Que o seu rebolado é poesia
Salve o povão brasileiro

Mais do que um piano é um cavaquinho
Mais do que um bailinho é o carnaval
Mais do que um país é um continente
Mais que um continente é um quintal

Aqui não tem terremoto
Aqui não tem revolução
É um país abençoado
Onde todo mundo mete a mão

Brasil, potência de neutrons
35 watts de explosão
Ilha de paz e prosperidade
Num mundo conturbado e sem razão

"Ditabranda" da FSP: Nota da Redação
revela guinada do jornal à direita

Mais um artigo do autor destas Entrelinhas para o Observatório da Imprensa. Em primeira mão para os leitores do blog.

Há males que vêm para o bem, diz o dito popular. No último dia 17 de fevereiro, em Editorial contra o presidente venezuelano Hugo Chávez, a Folha de S. Paulo qualificou, assim como quem não quer nada, en passant, de "ditabranda" o regime militar que vigorou no Brasil entre 1964 a 1985.

Para que não reste nenhuma dúvida sobre o que foi escrito na Folha, vai a seguir a transcrição do trecho que vem provocando tanta polêmica:

"Mas, se as chamadas 'ditabrandas' -caso do Brasil entre 1964 e 1985- partiam de uma ruptura institucional e depois preservavam ou instituíam formas controladas de disputa política e acesso à Justiça-, o novo autoritarismo latino-americano, inaugurado por Alberto Fujimori no Peru, faz o caminho inverso."

Para começo de conversa, causa espécie que o jornal escreva "as chamadas 'ditabrandas'" quando não há notícia de que alguém tivesse, antes da Folha, a idéia de jerico de qualificar o regime militar de tal forma. Este observador fez uma busca no Google e constatou que a pesquisa retorna apenas as referências à polêmica iniciada pela Folha. Ninguém antes qualificou a ditadura brasileira de "ditabranda".

Aliás, a busca no Google já vem carregada de ironia, pois antes da primeira indicação de link, o buscador pergunta: "você quis dizer dieta branda?" Como bem sabem os iniciados, toda vez que alguém erra a digitação da palavra, o Google cuida de corrigir ou sugerir o nome correto. Ditabranda, portanto, é coisa lá da rua Barão de Limeira mesmo. Dieta branda teria sido mais feliz.

Mas até aqui, é justo dizer, a direção da Folha e seus editorialistas têm todo o direito de achar que os militares pegaram leve. É uma questão de gosto e escolha, provavelmente o assinante do Estadão jamais leria tamanho despautério, ainda que o jornal se posicione de maneira muito mais conservadora do que a Folha em várias questões. A razão para isto é simples: O Estado de S. Paulo sofreu bem mais com a censura e sabe o quão duro foi o dito governo. De toda maneira, o diário da família Frias não precisa se envergonhar em qualificar de Ditabranda o regime em questão, da mesma maneira que a turma da Abril não só pensa que pegaram leve como anda saudosa de um novo período semelhante, especialmente para tirar essa gente barbuda e mal educada que insiste em permanecer altamente popular em meio à maior crise do capitalismo.

Não foi no editorial, portanto, que a Folha perdeu a mão. Nos dias que se seguiram à publicação daquela jóia do pensamento que emerge no nono andar do belo prédio do jornal, os leitores naturalmente reclamaram, enviando cartas indignadas à redação. O Painel do Leitor publicou algumas nos dias 18 e 19, mas foi no dia 20 de fevereiro que o jornal mostrou a sua verdadeira cara. Depois de uma sequência de cartas de leitores, apareceram duas de "figurões", seguidas por uma inacreditável resposta da Redação, como segue abaixo.

"Mas o que é isso? Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de "ditabranda'? Quando se trata de violação de direitos humanos, a medida é uma só: a dignidade de cada um e de todos, sem comparar "importâncias" e estatísticas. Pelo mesmo critério do editorial da Folha, poderíamos dizer que a escravidão no Brasil foi "doce" se comparada com a de outros países, porque aqui a casa-grande estabelecia laços íntimos com a senzala -que horror!"
MARIA VICTORIA DE MESQUITA BENEVIDES , professora da Faculdade de Educação da USP (São Paulo, SP)

"O leitor Sérgio Pinheiro Lopes tem carradas de razão. O autor do vergonhoso editorial de 17 de fevereiro, bem como o diretor que o aprovou, deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada. Podemos brincar com tudo, menos com o respeito devido à pessoa humana."
FÁBIO KONDER COMPARATO , professor universitário aposentado e advogado (São Paulo, SP)

Nota da Redação - A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua "indignação" é obviamente cínica e mentirosa.


É preciso ler com calma a tal "Nota da Redação". Que a Folha respeite a opinião dos leitores é o mínimo que se pode esperar. Imagine o grau de arrogância, que já não é baixo, se não respeitasse... Mas o que realmente choca é a Redação classificar de "obviamente cínica e mentirosa" a indignação de Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, como se para que os dois se indignassem com a barbeiragem do jornal fosse necessária a indignação prévia com Fidel Castro.

Este observador aprendeu com seu avô, pioneiro do ensino de Filosofia na Universidade de São Paulo, que o c.. nada tem a ver com as calças. Ou, como diria outro filósofo, este da esfera futebolística, "uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". Comparato e Benevides não têm "autorização" da Folha para se indignarem, precisam antes bradar que não gostam de Fidel e seus amigos e, principalmente, que Cuba é uma DI-TA-DU-RA. Ou será que se os eméritos professores também qualificarem o regime cubano de "ditabranda" a Folha já deixaria de considerar "cínica e mentirosa" a indignação deles?

O pior de tudo realmente não foi o editorial, bem lamentável, mas a Nota da Redação de 20/2. Pior, sim, porque todo foca que passou uma semana em qualquer redação do país sabe que uma nota dessas não é publicada sem a anuência da direção do jornal. Por mais que o editor do Painel do Leitor vista a camisa do jornal, ele não tem autonomia para chamar Fábio Konder Comparato de cínico e Maria Victoria Benevides de mentirosa. A nota veio de cima, o que só reforça a a ideia de que também o editorial foi cuidadosamente pensado para que o jornal emitisse o juízo de valor que tem, hoje, sobre a ditadura brasileira.

Não será surpresa se a Folha roubar Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainardi da Veja. A esta altura, é bem provável, inclusive, que ambos já tenham sido sondados. E, ironia das ironias, não demora muito para o leitorado paulista de esquerda migrar para o Estadão. O nível de azia na leitura será bem menor...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sarney repete erro de Lula

Mais um artigo do autor deste blog para o Observatório da Imprensa. Em primeira mão para os leitores do Entrelinhas.

MÍDIA & POLÍTICA
Sarney repete erro de Lula ao processar The Economist

A matéria reproduzida ao final deste comentário, publicada originalmente pela Folha Online, revela o primeiro grande equívoco do novo presidente do Senado, José Sarney (AP): processar a revista The Economist por uma matéria que julgou ofensiva ao seu passado (e presente) político.

É até possível que o senador, eleito pelo Amapá, mas líder político no Maranhão, tenha razão em todos os argumentos que expôs na carta enviada à revista The Economist, mas o ato de processar a publicação é, sim, um erro crasso.

No fundo, Sarney repete a bobagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando, em 2003, o governo tentou expulsar do Brasil o correspondente do The New York Times que escreveu um besteirol sobre os hábitos etílicos de Lula. Naquela ocasião, por sinal, o governo brasileiro também informou que processaria o NYT, mas acabou voltando atrás depois de uma “retratação” que de retratação não tinha absolutamente nada.

E por que nos dois casos a via judicial ou a retaliação à imprensa é um erro crasso? Em primeiro lugar, porque os ofendidos acabam magnificando a ofensa. Ora, qualquer cidadão minimamente informado que leu a matéria do NYT sobre Lula percebeu que o que havia ali era mau jornalismo ou uma piada de péssimo gosto. Não dava mesmo para ser outra coisa, pois as fontes do repórter eram o inefável Diogo Mainardi e Leonel Brizola, este último profundamente amuado com o fato de ter sido Lula e não ele, Brizola, o primeiro presidente oriundo da esquerda após Jango...

Se Lula e seus conselheiros tivessem simplesmente ignorado a reportagem, o dano à imagem do presidente, que já foi pequeno, seria mínimo. Ao contrário, quem sofreria o dano maior teria sido o repórter, que até já confessou ter escrito a matéria sob efeito de algumas caipirinhas. Ao partir para cima do jornalista, porém, o governo brasileiro conferiu credibilidade à reportagem e levou o diário norte-americano a proteger seu correspondente, uma atitude típica e absolutamente previsível para quem já pisou em uma redação. O primeiro instinto de um jornal é sempre de proteger o seu profissional (e a sua marca, óbvio), depois se faz o ajuste de contas com a verdade.

Em segundo lugar, processar um veículo de comunicação sério e com credibilidade posta à prova ao longo de tantos anos é uma estupidez porque a experiência mostra que, salvo exceções que só comprovam a regra, a probabilidade do ofendido perder o processo é grande, muito grande. Um jornal como o NYT e uma revista como o The Economist raramente publicam ofensas gratuitas e quando tratam de temas polêmicos ou que envolvem a vida privada de personalidades públicas, consultam seus departamentos jurídicos antes, bem antes, de a edição chegar às bancas.

No caso de Sarney é preciso, no entanto, dar a ele o benefício de uma dúvida importante: talvez faça parte da estratégia política do novo presidente do Senado ocupar espaço no noticiário, mesmo que com matérias de viés negativo. Só isto explicaria tanta vontade de cobrar uma reparação da revista britânica, que nada mais fez além de publicar um arrazoado com informações presentes em qualquer jornal ou revista aqui mesmo em Pindorama, com grande frequência, por sinal. Ou o leitor jamais viu escrito por aí que Sarney é um “dinossauro”, um “senhor feudal” (ou variações sobre o mesmo tema – oligarca, coronel, sinhozinho e tantas outras)? Não leu ou ouviu que a família Sarney domina os meios de comunicação no Maranhão? Outro dia mesmo, em artigo reproduzido neste Observatório, Sebastião Nery escreveu uma preciosidade sobre Sarney e o estado dominado pelo clã:

No Maranhão, para nascer, maternidade Marly Sarney. Para morar, vilas Sarney, Kiola Sarney ou Roseana Sarney. Para estudar, escolas José Sarney, Marly Sarney, Roseana Sarney, Fernando Sarney, Sarney Neto.

Para pesquisar, pegue um táxi no Posto de Saúde Marly Sarney e vá até a Biblioteca José Sarney, que fica na maior Universidade particular do Maranhão, que o povo jura que pertence também a José Sarney.

Para saber noticias, leia ‘O Estado do Maranhão’, ligue a TV Mirante ou as rádios Mirante AM e Mirante FM, todas de José Sarney. Se estiver no interior, ligue uma das 13 repetidoras da TV Mirante ou uma das 35 emissoras de radio, também todas do mesmo José Sarney.

Para saber das contas publicas vá ao Tribunal de Contas Roseana Sarney (recém-batizado com esse nome, apesar da proibição legal, o que no Maranhão não tem valor nenhum).

Para entrar ou sair da cidade, atravesse a ponte José Sarney, pegue a avenida José Sarney ou vá à rodovaria Kiola Sarney. Lá, se quiser, pegue um ônibus caindo aos pedaços, ande algumas horas pelas ‘maravilhosas’ rodovias maranhenses e chegue ao município José Sarney.

Não gostou de nada disso? Quer reclamar? Vá ao Fórum José Sarney, procure a sala de imprensa Marly Sarney ou a sala da Defensoria Publica Kiola Sarney.

Desde Calígula, quem sabe Nero, nunca se viu gente tão abusada.

E Sarney acha pouco. Agora, quer ser o Boi-Bumbá do Senado.

Até onde este observador conseguiu apurar, Sarney não está processando Sebastião Nery. Claro, não dá o mesmo ibope nem gera reportagens como o processo a ser movido contra a The Economist. Mas o que Nery escreveu é muito mais forte do que o que saiu na magazine britânica.

De tudo que vai acima, portanto, é possível dizer que o ex-presidente Sarney cometeu um erro infantil, hipótese mais provável, ou está querendo aparecer, ainda que mal na fita, às custas da prestigiosa Economist. Neste caso, melancia no pescoço pode ser uma boa alternativa: o mico é o mesmo, mas no fim sai mais barato...

***
Renata Giraldi
Sarney questiona ‘The Economist’ por comparar sua vitória com semifeudalismo, copyright Folha Online, 19/02/09

“da Folha Online, em Brasília - O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), enviou uma carta com quatro parágrafos à direção da revista britânica ‘The Economist’ cobrando reparação pela reportagem que comparou sua eleição com uma ‘vitória para o semifeudalismo’ - referindo-se à disputa ocorrida no Senado.

Na carta, Sarney informa que acionou seus advogados e quer a reparação das informações publicadas. O peemedebista rebateu as críticas da publicação britânica, lembrando que há sete anos o Estado do Maranhão está sob o comando de seus adversários políticos e há 20, a capital do Estado é administrada por forças políticas antagônicas a ele.

O peemedebista se disse um homem cujo papel será reconhecido como o de ‘presidente da transição democrática’ que possibilitou que um operário fosse eleito o presidente da República - numa referência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

‘A história julgará meu papel, mas sou reconhecido como o presidente da transição democrática, da convocação da assembleia constituinte e que priorizou o desenvolvimento social, o que permitiu o surgimento de uma sociedade verdadeiramente democrática e levou um operário a ser eleito presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva’, disse o senador.

A ‘Economist’ diz que não é incomum que apenas um homem ou uma família domine Estados no Nordeste, mas que isso estaria mudando. Mas o controle da família Sarney no Maranhão é reforçado pelo fato de ela ser proprietária de uma estação de TV que passa programas da Rede Globo e que, no meio das novelas, ‘costuma exibir reportagens favoráveis ao clã’.

‘Nos últimos sete anos um grupo político rival controla o governo estadual do Maranhão [o governador Jackson Lago, do PDT]’, afirmou ele.’Concordo plenamente que o estado de conservação da cidade de São Luís [MA] é lamentável, mas é um absurdo debitar-me este fato, uma vez que meus adversários políticos administram a capital há 20 anos’, disse.

No último dia 6, Sarney disse, por meio de assessores, que a reportagem da revista era ‘imprecisa e leviana’. Também criticou a suposta irresponsabilidade da publicação.

A reportagem, intitulada ‘Onde dinossauros ainda vagam’ faz referências ao passado político de Sarney e ao número de vezes em que foi eleito para cargos públicos, afirmando que talvez fosse ‘hora de [Sarney] se aposentar’.
‘A revista pergunta se seria hora de eu me aposentar da vida pública, mas não é da tradição brasileira nem britânica limitar a atuação na vida pública devido à idade’, afirmou Sarney, que está com 79 anos.”

Desemprego cresce mais em SP

Outra notícia ruim para o governador José Serra (PSDB). É óbvio que ele, como o presidente Lula, não tem a menor culpa na crise financeira global. Mas também é óbvio que Serra preferiria que o grosso do desemprego estivesse no Rio de Janeiro, no Paraná, em qualquer outro estado. Pensando melhor, preferia que estivesse mesmo é em Minas Gerais...

SP responde por quase 40% dos postos de trabalho eliminados

LORENNA RODRIGUES
da Folha Online, em Brasília

O Estado de São Paulo foi o que fechou mais vagas de empregos formais em janeiro deste ano, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Foram eliminados 38.676 postos, 38,01% do total de vagas fechadas no mês, 101.748.

Em dezembro, São Paulo também fora um dos Estados com maior número de demissões. Apenas na Grande São Paulo foram eliminadas 63 mil vagas,

Será que Serra já visitou Zé Alencar?

A notícia abaixo levanta uma dúvida singela: o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), visitou José Alencar durante o período de convalescência do vice-presidente no Hospital Sírio Libanês, na capital paulista? Um pouco de gentileza não faz mal a ninguém, principalmente se este alguém pretende se candidatar à presidência da República. E mais uma vez Aécio Neves sai na frente, porque se Serra visistou Alencar, ninguém sabe, ninguém viu. Já Aécio avisa a imprensa antes e aparece todo faceiro, bem na foto, ao lado de um dos políticos "incriticáveis", como diria o Rogério Magri, deste país: Alencar, da mesma maneira que Mário Covas depois de ficar doente, virou unanimidade nacional, todo mundo se comove com a luta do guerreiro e aprova o jeitão bronco com que ele reclama dos juros altos. Como diriam as mais jovens, Alencar "é tudo de bom" e só Serra não percebe a deselegância de faltar com o vice neste momento difícil...

Aécio Neves vem a SP para visitar José Alencar


da Folha Online - O governador de Minas, Aécio Neves (PSDB) está hoje em São Paulo. De acordo com sua assessoria, Aécio viajou para São Paulo para visitar o vice-presidente José Alencar, que se recupera de uma cirurgia para retirada de tumores na região abdominal.

Pausa esportiva 2

Alguns leitores, certamente corintianos, palmeirenses e santistas, se entusiasmaram com o empate, ontem, do tricolor com o escrete colombiano Independiente de Medellín na primeira partida do São Paulo na Libertadores. Bem, quem assistiu o jogo percebeu que o score poderia ser 16 a 1 para o time paulista, tantas foram as chances de gol desperdiçadas. O goleiro colombiano estava em um desses dias abençoados pelos deuses do futebol, fechou a meta da equipe e deu sorte nos lances em que não conseguiu pegar. Tudo isto é fato, mas a ralé já está achando que o São Paulo não é mais o mesmo, que vai deixar escapar a vaga da Libertadores e outras bobagens. Este blogueiro apenas lembra que o tricolor é time de chegada e quando chega, são os adversários que tremem nas bases.

O mundo está mudando

Banco suíço confessando ter ajudado estrangeiros a sonegar impostos? Nem quando Paulo Maluf foi preso o autor destas Entrelinhas ficou tão surpreso. De fato, no caso do Maluf havia uma réstia de esperança de que pudesse acontecer, mas a notícia do UBS este blogueiro achou que não ia viver para ler...

UBS pagará US$ 780 milhões aos EUA por ajudar clientes a sonegar

da Folha Online

O banco suíço UBS fechou um acordo para pagar US$ 780 milhões à Justiça dos Estados Unidos após ser acusado de ajudar milionários americanos a sonegar impostos. Além disso, o banco também se comprometeu a divulgar as identidades dos envolvidos.

O departamento de Justiça havia aberto investigação sobre o UBS após obter provas de que diretores do banco ofereciam a americanos ricos a possibilidade de abrir contas no exterior que lhes permitiam omitir lucros milionários e sonegar impostos.

No acordo, o UBS admite "ter ajudado contribuintes americanos a esconder contas bancárias" da Receita federal, destaca o departamento de Justiça. De acordo com estimativas da Justiça, cerca de 20 mil pessoas podem ter escondidos suas contas do IRS (a Receita Federal do país).

Um bom artigo sobre o Caso Paula

De Luiz Weis, no blog Verbo Solto:

Pularam a página do verbete "checar"

Retrospectivamente, é fácil – quase tão fácil, é o caso de dizer, como abrir uma conta numerada num desses paraísos fiscais – condenar a imprensa brasileira por ter comprado pelo valor de face a versão do assessor parlamentar Paulo Oliveira sobre o que sucedeu a sua filha Paula, na noite de domingo, 8, numa estação de trem de um subúrbio de Zurique, na Suiça.

Claro que o manual foi ignorado. Na blogosfera, na TV, nas rádios e nos jornais, todos pularam a página onde está o verbete “checar”.

Pularam também, o que é pior, a página onde estão os advérbios “alegadamente” e “supostamente”.

Ainda assim, devagar. Primeiro, a versão paterna – com as fotos que ele tratou de distribuir da filha radiante, exibindo o que parece ser a sua gravidez – foi corroborada pelo seu namorado suiço, que por sua vez mandou as fotos das partes do corpo de Paula (barriga, coxas e pernas) marcadas, a estilete, com a sigla do partido suiço de extrema-direita SVP.

Segundo, a vítima – dos skinheads ou de si mesma, porém vítima sempre, como diria mais tarde o pai – tinha um perfil insuspeito: advogada, trabalhando na Suiça a convite de uma multi dinamarquesa do setor de transportes, com planos de casar e morar no país. E nada, rigorosamente nada, na sua história de vida, pelo que se apurou junto à mãe, à madrasta e aos amigos, que fizesse acender uma luz amarela na cabeça de repórteres e editores.

Terceiro e no mínimo tão importante quanto, a versão era plausível por terem chegado onde chegaram a xenofobia e o neofascismo na Europa de hoje. Dizem os italianos – em cujo país, por sinal, o ódio aos imigrantes o governo de direita de Silvio Berlusconi transformou em leis racistas – que “si non è vero è ben trovato”.

E a Suiça, com os seus chocolates e os seus queijos, as suas montanhas e as suas vaquinhas malhadas, não é nenhum cartão postal em matéria de preconceito contra os estrangeiros que fazem os “trabalhos de negro” que os nativos acham aquém demais deles.

E a sua polícia não é propriamente cavalheiresca como em tempos idos se costumava achar que a sua congênere britânica fosse.

Do Blog do Noblat da segunda-feira, 16:

“No final dos anos 90, o mordomo de Celso Lafer, embaixador do Brasil na Suíça, foi preso por engano. Apanhou. Depois, recebeu uma condecoração e visto permanente para trabalhar na Suíça.” Fonte: Itamaraty.

É fácil, repetindo, desancar a esta altura o Jornal Nacional por ter aberto a edição da quarta passada com a bombástica manchete “Barbárie na Suiça: brasileira é torturada por uma gangue e tem a gravidez de gêmeos interrompida.”

Claro que o certo seria algo como: “Acusação de barbárie na Suiça: brasileira teria sido torturada por uma gangue e teria a gravidez de gêmeos interrompida.”

Mas por que comentaristas do mais alto gabarito soltaram o verbo com base no noticiário agora execrado, sem que lhes passasse um fio de dúvida sobre a sua veracidade?

O melhor exemplo é o de Gilles Lapouge, jornalista e escritor francês de 85 anos soberbamente bem vividos no trato com os fatos, as ideias e as palavras. Em outras circunstâncias, um profissional e pensador com a experiência desse veterano correspondente do jornal Estado de S.Paulo em Paris teria sido o primeiro a se dizer attention: pas si vite antes de escrever:

“A sessão de tortura da qual foi vítima a advogada brasileira Paula Oliveira nas proximidades de Zurique é de arrebentar o coração. Uma noite de horror.”

Para terminar assim:

“Terá ela esbarrado em verdadeiros neonazistas, como sugere o estilo da agressão? Terá sido simples objeto de divertimento de três idiotas que camuflam sua nulidade mórbida sob o disfarce neonazista? Será que algum dia saberemos? A única coisa certa é que as marcas do horror, mesmo que desapareçam da carne da moça, dificilmente se apagarão no profundo de suas noites. Como poderá ela esquecer que esteve cara a cara com o mal?”

No dia em que saiu o seu artigo, sexta-feira, os jornais brasileiros também davam que, na véspera, duas policiais visitaram Paula no hospital onde tinha sido internada em Zurique para se desculpar com ela, em nome da chefatura da cidade, por ter sido destratada pelos dois detetives chamados a ver o que havia acontecido na estação de trem. Um deles a acusou de mentir e ameaçou com processo. [A esta altura, médicos suiços já tinham negado que ela estivesse gravida naquela noite, enquanto um perito dizia que os ferimentos provavelmente eram autoinfligidos.]

Ou seja, as desculpas serviram para a imprensa justificar a sofreguidão com que passou adiante, sem mais nem meio mais, a versão da família de Paula.

O fato é que não há seguro contra erros jornalísticos causados pela doença congênita do ofício: a precipitação [dramaticamente agravada pela concorrência imposta à mídia convencional pelo bloguismo em tempo quase real].

Ainda mais, insista-se, quando todas as peças da notícia – afinal falsa, pelo menos no que diz respeito ao aborto alegadamente causado pela agressão – pareciam encaixar-se às maravilhas.

Então, mesmo que o veredicto final sobre o comportamento da imprensa brasileira no episódio seja a condenação, impossível desconsiderar as chamadas circunstâncias atenuantes. Isso não é leniência, corporativismo ou o que valha.

Bata-se na imprensa – até com força, conforme o caso – mas não se bata nela por ter cometido um erro que, podem apostar, 11 em cada 10 de seus críticos também cometeriam, com toda a probabilidade, se estivessem na pele dos errados.

Agora, o que não tem o menor cabimento é a avalanche de agressões que desceu dos jornais suiços contra a mídia brasileira e o Brasil – apresentado pelo Neue Zürcher Zeitung como um dos campeões mundiais da xenofobia: segundo “pesquisas internacionais” [não identificadas] 72% dos brasileiros não gostam dos estrangeiros.

Este bloqueiro tem aversão pessoal a chauvinismo. Ao dito “certo ou errado, é o meu país”, prefere mil vezes “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, se é essa a escolha. Mas, no caso, quem são os jornalistas suiços para dizer que a imprensa brasileira “regularmente publica notícias de fatos inventados"?

Vamos nos entender: como se comportou a brava imprensa alpina quando a Suiça, teoricamente neutra na segunda guerra mundial, entregava à Alemanha nazista refugiados judeus que tinham entrado legalmente no país? Quanto tempo levaram os destemidos periódicos suiços a abordar a repulsiva história dos bancos locais que se recusavam a transferir aos descendentes de vítimas do Holocausto os valores e bens que elas haviam depositado em seus cofres enquanto isso ainda era possível? [A alegação das vetustas casas bancárias era a de que os reclamantes não tinham prova de que os titulares das contas tinham sido exterminados.] Quantas denúncias saíram nessa imprensa complacente sobre os zilhões do tráfico de drogas e armas aplicados nos lugares certos em Zurique, Genebra e arredores, para o conforto da contabilidade das suas “instituições financeiras”?

Sobre a autoridade moral dos produtores das diatribes furadas como os proverbiais queijos da sua terra contra a imprensa brasileira, nada melhor do que a palavra de um suiço.

Trata-se do sociólogo, ex-deputado, relator especial da ONU sobre o direito à alimentação, Jean Ziegler. O que vale a pena saber sobre o assunto está em dois livros seus traduzidos no Brasil: A Suiça Acima de Qualquer Suspeita e A Suiça Lava Mais Branco.

A pergunta esquecida

Grande – e justificado – alarido com a entrevista do senador e ex-governador pernambucano, Jarbas Vasconcelos, ao repórter Otavio Cabral. Nela, o veterano político diz que “boa parte do PMDB [o seu partido] quer mesmo é corrupção”.

Grande – e justificada – perplexidade com o fato de o entrevistador não pedir ao denunciante que contasse pelo menos um caso, com nomes e sobrenomes, que corroborasse a acusação.

A prova omitida

Do “Painel” da Folha de sexta,13:

“Ao repetir, a cada entrevista, que Lula jamais lhe disse palavra sobre a candidatura à sua sucessão, Dilma Rousseff apenas segue um protocolo. O presidente já teve, sim, uma conversa bastante direta com a ministra."

Deve ter tido mesmo – uma ou mais. Só que o leitor merece algo além do que ter de escolher entre a palavra do presidente e a palavra do painelista. Este é que tinha de informar quando e, se possível, em quais circunstâncias, ocorreu a conversa “bastante direta” (sic).

A posição escamoteada

O Globo, na semana passada, foi o primeiro a aproximar o leitor brasileiro do debate corrente na mídia americana sobre a possibilidade de os jornais passarem a cobrar pelo acesso às suas edições online. No domingo, Estado e Folha falaram do assunto – pela voz de alguns dos participantes do debate nos Estados Unidos.

Sobre a posição dos jornais brasileiros em relação às suas próprias edições online, ainda gratuitas, nem a mais remota sombra de uma sugestão.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Pausa esportiva

O tricolor do Morumbi está entrando em campo para sua estréia na Libertadores 2009 e o blog faz uma pequena pausa esportiva. Ontem, o timinho de Palestra Itália já experimentou a sua dose de Libertadores e, como era de se prever, não foi muito feliz. Do São Paulo é possível esperar algo mais, sobretudo pela experiência do clube na competição, coisa que faz falta aos demais escretes brasileiros...

Partido do governador cassado é omitido

Se Cássio Cunha Lima (PB) fosse membro do Partido dos Trabalhadores, o leitor pode imaginar qual seria a chamada na primeira página dos principais jornalões brasileiros? No mínimo "Governador petista é cassado por compra de votos", ou algo ainda mais forte. O paraibano, porém, é do PSDB. Desta forma, tivemos as seguintes chamadas:

O Estado de S. Paulo: TSE confirma cassação de governador e vice da Paraíba
Folha de S. Paulo: TSE ratifica por unanimidade a cassação de Cunha Lima

Como é doce ser tucano...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

PSOL quer os nomes dos bois

Segundo matéria da Agência Estado, abaixo, o PSOL está pressionando Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) para que ele dê o nome aos bois e diga quais são os corruptos de seu partido. Este blog aposta um Gold Label com qualquer leitor que Jarbas jamais dirá o nome de um único "corrupto", nem que seja para provar a sua tese, revelada na entrevista à Veja. A razão é simples: o que o senador pretendia com a conversa nas páginas amarelas era criar um fato político e tentar arrumar um jeito de sair do PMDB sem perder o mandato, para ser vice na chapa de Serra em 2010. Até agora, a jogada não funcionou porque ninguém no PMDB vai dar ao pernambucano o prazer de ser expulso da legenda e cair, todo feliz, no colo do tucanato. Jarbas terá que amargar as boas companhias por mais algum tempo...

PSOL quer que Jarbas dê nomes de 'corruptos do PMDB'

GUSTAVO URIBE - Agencia Estado

SÃO PAULO - Não foram só os membros do PMDB que ficaram insatisfeitos com as declarações do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) contra integrantes do próprio partido. Por outras razões, o PSOL enviou hoje carta ao peemedebista pedindo que o parlamentar torne públicos os nomes dos integrantes da legenda que estariam envolvidos em atos de corrupção. Assinada pelo senador José Nery (PSOL-PA) e pelos deputados Chico Alencar (PSOL-RJ) e Ivan Valente (PSOL-SP), a carta afirma que a divulgação dos nomes é uma "enorme contribuição à moralização da vida pública brasileira".

"Suas denúncias devem vir acompanhadas do detalhamento de situações, nomes e fatos que gerem iniciativas aguardadas por toda a sociedade, em nome do interesse público. Esta seria uma saudável providência para que os fatos por Vossa Excelência relatados não caiam no esquecimento e possam ser devidamente apurados", pedem os parlamentares.

Ainda segundo o PSOL, deveria ser criado um fórum permanente, no Congresso, para discutir a ética na política. Chico Alencar defendeu que o fórum deveria ser criado depois do carnaval. "O PSOL jamais se furtou a exigir apurações, no mais das vezes engavetadas, quanto a casos concretos, como os mensalões petista e tucano, o escândalo Sanguessuga e outros", afirma o partido, no texto.

Em entrevista à revista Veja, Jarbas afirmou que parte do PMDB "quer mesmo é corrupção". Ontem, em entrevista coletiva, ele repetiu todas as acusações. "O PMDB quer cargos para fazer negócios. Alguns buscam o prestígio político, mas a maioria dos peemedebistas se especializou nessas coisas pelas quais os governos são denunciados: manipulação de licitações, contratações dirigidas, corrupção em geral", afirmou.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Chávez e Uribe na imprensa brasileira

O que vai abaixo mais um artigo do autor destas Entrelinhas para o Observatório da Imprensa. Em primeira mão para os leitores do blog.

O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, esteve em São Paulo na segunda-feira (16/2), um dia após a vitória de seu colega venezuelano Hugo Chávez no plebiscito sobre o fim do limite à reeleição para o cargo de presidente naquele país. A imprensa brasileira não tem a menor simpatia por Chávez e trata Uribe com grande deferência, quase sempre ressaltando o papel do líder colombiano no combate às Farcs e ao narcotráfico.

Uribe, para quem não conhece, lembra um pouco o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), guardadas as devidas proporções. Ambos são conservadores, cordatos e parecem menos espertos do que de fato são. Alckmin deu em 2006 um nó político no atual governador José Serra, coisa que muitos julgavam realmente impossível de acontecer, e desta forma conseguiu a vaga de presidenciável do PSDB na eleição daquele ano. Uribe vem se fazendo de morto, mas trabalha ativamente para conseguir um terceiro mandato na presidência da Colômbia, o que por lá também não é permitido pelas regras atuais.

Em dezembro do ano passado, pouco antes do Natal, a Câmara Federal colombiana aprovou um projeto que autoriza a realização de um referendo para que a população decida se Uribe pode concorrer ao terceiro mandato. O projeto ainda não teve aprovação definitiva, tramitará no Senado, mas o fato é que não se viu na imprensa brasileira nada além de pequenos registros sobre a tentativa de Uribe de se manter no poder mais algum tempo.

Evidentemente, não foi este o tipo de cobertura reservada ao processo político venezuelano desde que Hugo Chávez começou a lutar para mudar as regras eleitorais em seu país. No caso de Chávez, a imprensa brasileira desde logo criticou as iniciativas do coronel e acusou o presidente de golpismo, autoritarismo e outros ismos ainda mais fortes. Não foram poucos os jornais que passaram a qualificar Chávez de “ditador” ou usar variações sobre o tema. Até o momento, ninguém na mídia tupiniquim chamou Uribe de golpista ou escreveu sobre o “projeto de perpetuação no poder” do colombiano.

É óbvio que a imprensa brasileira está utilizando dois pesos e duas medidas ao cobrir processos extremamente semelhantes que ocorrem nos dois países vizinhos. Em São Paulo, falando a empresários e investidores brasileiros, Uribe saudou a “vitória da democracia” na Venezuela: “Ao presidente Chávez, nossas congratulações, [e também] ao povo irmão da Venezuela, por praticar a democracia”, afirmou o presidente da Colômbia.

Questionado sobre o processo em andamento em seu país, Uribe foi logo explicando que seu projeto não é “personalista”: “Eu não quero que as pessoas pensem que eu prefiro a perpetuação no poder do que o amor pela pátria”, deixou claro o presidente (clique aqui para assistir o discurso de Álvaro Uribe no encontro do Grupo de Líderes Empresariais).

Nada justifica a falta de espaço do terceiro mandato colombiano na imprensa brasileira, especialmente quando se compara a cobertura do caso com a do processo que terminou domingo na Venezuela. Os dois países são, do ponto de vista do interesse dos leitores e telespectadores brasileiros, bastante similares, de forma que não há explicação editorial plausível para um caso entrar na pauta e o outro sumir.

Este observador poderia arriscar uma explicação bastante simples para o fenômeno: enquanto Chávez vem do exército, tem cara de latino-americano (e, portanto, de ditador de república de bananas), assume uma postura independente dos Estados Unidos e é bastante crítico em relação ao sistema capitalista, Álvaro Uribe é o seu oposto completo. Estudante em Oxford e pós-graduado em Harvard, o colombiano aparenta estirpe para comandar qualquer país europeu, não se confunde com um chicano qualquer, sem falar nas diferenças ideológicas – um oceano separa o pensamento de Uribe e Chávez.

Refletindo melhor, porém, seria tacanho imaginar que a diferença descomunal na cobertura dos dois processos se deva a este tipo de detalhe. Com certeza os jornalões começarão, a partir de agora, a acompanhar de perto os bastidores da tentativa de Uribe de se reeleger mais uma vez e não pouparão o líder colombiano dos mesmos adjetivos que empregam ao presidente Hugo Chávez. O leitor deste Observatório pode começar a prestar atenção e acompanhar, ao longo deste ano, o padrão de cobertura da política latino-americana. Uribe, Chávez mais o “índio” Evo Morales, a “espevitada” Cristina Kirchner e o “caloteiro” Rafael Côrrea são os protagonistas. Não deixa de ser um bom exercício para aprender a nunca mais ler jornal do mesmo jeito.

Jarbas dedica Roberto Carlos ao PMDB

A nota oficial em que a cúpula do PMDB qualificou com "um desabafo" a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) à revista Veja, na qual ele acusa o seu próprio partido de "gostar de corrupção", fez o autor destas Entrelinhas lembrar de uma antiga canção de Roberto Carlos chamada justamente "Desabafo". A letra parece perfeita para o recado que Jarbas passou aos seus colegas. O final da música também é perfeito para caracterizar a postura do senador pernambucano, que, apesar de todas as críticas ao PMDB, tem grande dificuldade para deixar o partido. A seguir, a letra de "Desabafo", na íntegra, contando com a compreensão do Rei pelo uso indébito.

Por que me arrasto aos seus pés
Por que me dou tanto assim
E por que não peço em troca
Nada de volta pra mim?
Por que é que eu fico calado
Enquanto você me diz
Palavras que me machucam
Por coisas que eu nunca fiz?

Por que é que eu rolo na cama
E você finge dormir?
Mas se você quer eu quero
E não consigo fingir

Você é mesmo essa mecha
De branco nos seus cabelos
Você pra mim é uma ponta
A mais nos meus pesadelos

Mas acontece que eu
Não sei viver sem você
Às vezes me desabafo
Me desespero porque

Você é mais que um problema
É uma loucura qualquer
Mas sempre acabo em seus braços
Na hora que você quer

Serra dá "aumento responsável" em SP

Os tucanos e democratas vivem criticando a política do presidente Lula para o salário mínimo. Acham que o governo federal tem concedido aumentos reais maiores do que a economia brasileira suporta. Criticam também a política de reajuste salarial do funcionalismo público. A notícia abaixo, da Folha Online, revela que o governador José Serra (PSDB) concedeu um aumento no salário mínimo paulista de 12,2%, elevando o piso além do estabelecido pelo presidente. Em São Paulo, o mínimo valerá R$ 505.

Palmas para Serra, ele faz bem em imitar o presidente Lula, mais uma vez. O que chama atenção na matéria, porém, é a justificativa do secretário Guilherme Afif Domingos para a medida: trata-se de um "aumento responsável" no salário mínimo local. É realmente divertido ler este tipo de coisa, esta preocupação com a diferenciação no que é indiferenciável. Mas o mais interessante é a falta de senso da imprensa, que não se atreve a fazer uma pergunta básica ao secretário: qual o valor de aumento ele acha "responsável" para o salário mínimo nacional? Menos do que foi concedido por Lula? Muito menos? Ou o presidente está correto ao tentar proteger os mais pobres? Ainda que Afif não respondesse, teria pelo menos ouvido alguma pergunta mais incisiva, incômoda. Mas este não é absolutamente o caso na mídia tupiniquim...

Serra envia projeto com aumento do mínimo de SP maior que o piso nacional

THIAGO FARIA, da Folha Online

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), assinou e encaminhou hoje à Assembleia Legislativa projeto de lei que institui novos valores para os pisos salariais do Estado. Pela proposta, a primeira faixa do piso regional de São Paulo terá um aumento de 12,22% e passará de R$ 450 para R$ 505.

O reajuste proposto por Serra é superior ao último aumento do salário mínimo federal, que passou de R$ 415 para R$ 465, representando um aumento de 11,29%.

Pela proposta de Serra, o piso regional de São Paulo é dividido em três faixas salariais. Na primeira faixa estão trabalhadores domésticos, rurais, serventes, pescadores, motoboys, entre outros.

A segunda faixa, que inclui cabeleireiros, manicures e carteiros, sobe de R$ 475 para R$ 530 --um aumento de 11,57%.

A terceira inclui administradores agropecuários, trabalhadores de serviços de higiene e saúde, chefes de serviços de transporte, entre outros, que passam a ter como piso R$ 545 frente aos atuais R$ 505 --aumento de 7,92%.

"São aumentos responsáveis, que podem ser absorvidos pela economia paulista, defendendo a renda sem causar desempregos", disse Serra.

O secretário estadual de Emprego e Relações do Trabalho, Guilherme Afif Domingos, afirmou que os aumentos foram calculados com base na inflação e no PIB de 2007. Segundo ele, é preciso ter cautela por causa do atual momento da economia. "Tem que tomar cuidado para não gerar desemprego e/ou informalidade", disse o secretário.

O evento foi acompanhado por representantes de quatro centrais sindicais, que, segundo o governador, aprovaram o reajuste.

De acordo com o presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores), Ricardo Patah, o aumento foi superior a qualquer acordo obtido por categoria em 2008.

O projeto agora segue para aprovação na Assembleia Legislativa de São Paulo, e a expectativa de Serra é que seja aprovado em março e passe a vigorar em abril.