Pular para o conteúdo principal

Ainda sobre a fidelidade partidária

A resposta do TSE à consulta do ex-PFL e a partir de hoje DEM (Democratas) sobre a questão dos mandatos dos deputados federais, estaduais e vereadores provocou um verdadeiro terremoto em Brasília. Com o tempo, no entanto, as coisas já começaram a se assentar. Em primeiro lugar, claro está que no que diz respeito aos parlamentares que mudaram de partido nesta legislatura, a briga vai se dar no Supremo Tribunal Federal, até porque o Tribunal Superior Eleitoral só responde pelo que acontece até a diplomação dos parlamentares. Uma vez diplomados, a questão já não é mais eleitoral e, portanto, do ponto de vista estritamente jurídico, o problema é do STF.

Posto isto e deixando as nuances jurídicas dos processos (cada caso será um caso) para os advogados, vamos tentar analisar a questão do ponto de vista político. Quem está perdendo o jogo é a oposição, que pretende criar constrangimentos para o aumento da base governista que apóia o presidente Lula. Aparentemente sem argumentos para seduzir uma parte de seus próprios parlamentares, o então PFL resolveu multar os que deixavam a legenda em R$ 50 mil. Não é pouca coisa para ninguém, mas o fato é que 8 parlamentares acharam que o preço compensava e caíram fora da agremiação. São lulistas desde criancinhas e não querem saber mais dessa nada mole vida de oposicionistas... Inconformada, a cúpula dos neo-Democratas foi à Justiça para questionar o troca-troca e conseguiu uma primeira vitória. Este blog aposta, porém, que os deputados que se mudaram – hoje mesmo houve mais uma troca – permanecerão com seus mandatos e não voltarão aos partidos de origem. Ainda assim, politicamente a oposição ganhou pontos ao se manifestar contra a pornográfica movimentção partidária desses parlamentares que trocam de partido como se trocassem de cueca.

Até aqui, a bem da verdade, estão todos jogando para a torcida – magistrados, oposição e governo. O que resolveria mesmo a questão seria uma reforma política que colocasse mais racionalidade no jogo político. A oposição advoga que o mandato é do partido? Que defenda então o voto em listas, onde o real detentor do mandato é de fato o partido político. Não dá para querer que o eleitor vote em pessoas acreditando estar sufragando uma legenda. Quem vota no deputado Clodovil, por exemplo, o faz pela figura controversa do deputado e nem deve saber a legenda a qual ele pertence. Este eleitor está fechado com Clodovil e certamente não se importará se ele mudar de partido. O voto, nitidamente, foi no personagem e não na legenda.

Com o voto em lista, gente como Clodovil, Soninha Francine, Frank Aguiar, entre tantos outros, dependeriam da boa vontade das direções partidárias para entrar na lista. O voto, portanto seria despersonalizado, o que é bom para a democracia nacional, embora possa tirar um pouco da graça do jogo político. É bom os Democratas do antigo PFL começaram a se posicionar sobre essas questões, do contrário passarão também eles uma imagem de oportunistas. Se o debate é sério, é preciso ter posições claras. A reforma política está quicando na área, alguém precisa dar o primeiro chute...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Doca Street, assassino de Ângela Diniz, morre aos 86 anos em São Paulo

Não existe verbete na Wikipédia sobre Doca Street. Morto nesta sexta (18) aos 86 anos, talvez agora ele ganhe uma página em seu nome nesta que é a maior enciclopédia colaborativa do mundo, onde só em português constam 1.049.371 artigos. A menção mais relevante no site a Raul Fernando do Amaral Street, o nome completo de Doca, aparece na entrada que fala de Ângela Diniz, socialite mineira assassinada em 1976 com quatro tiros disparados pela arma –e pelas mãos– de Doca, na casa que o casal dividia na Praia dos Ossos, em Búzios (RJ). Nada surpreendente. Afinal, desde que pôs um fim à existência de Ângela, Doca viu sua vida marcada e conectada ao crime que cometeu –ainda que, após seu primeiro julgamento, em 1979, ele tenha saído pela porta da frente do tribunal, ovacionado pelo público de Cabo Frio, também no litoral fluminense, escreve Marcella Franco em artigo publicado na Folha Online na sexta, 18/12, e reproduzido sábado, 19, no jornal. Vale a leitura, continua a seguir. Foi só em 198...

Dica da Semana: Tarso de Castro, 75k de músculos e fúria, livro

Tom Cardoso faz justiça a um grande jornalista  Se vivo estivesse, o gaúcho Tarso de Castro certamente estaria indignado com o que se passa no Brasil e no mundo. Irreverente, gênio, mulherengo, brizolista entusiasmado e sobretudo um libertário, Tarso não suportaria esses tempos de ascensão de valores conservadores. O colunista que assina esta dica decidiu ser jornalista muito cedo, aos 12 anos de idade, justamente pela admiração que nutria por Tarso, então colunista da Folha de S. Paulo. Lia diariamente tudo que ele escrevia, nem sempre entendia algumas tiradas e ironias, mas acompanhou a trajetória até sua morte precoce, em 1991, aos 49 anos, de cirrose hepática, decorrente, claro, do alcoolismo que nunca admitiu tratar. O livro de Tom Cardoso recupera este personagem fundamental na história do jornalismo brasileiro, senão pela obra completa, mas pelo fato de ter fundado, em 1969, o jornal Pasquim, que veio a se transformar no baluarte da resistência à ditadura militar no perío...

Política mundial? Leia o blog do Argemiro

Política internacional jamais foi o forte deste blog, que prefere manter o foco nas análises da mídia e da política brasileira. Para quem gosta de acompanhar o noticiário internacional em português e está cansado de ler o pouco que os nossos jornalões reproduzem por aqui, uma boa dica é o Blog do Argemiro Ferreira , um dos mais experientes correspondentes brasileiros trabalhando nos Estados Unidos. Colunista do jornal Tribuna da Imprensa , Argemiro faz excelente análises e traz informações diferenciadas, especialmente sobre a corrida eleitoral nos EUA. Um bom exemplo é o post abaixo, que começa com futebol e termina em Karl Rove. Quem quiser ler mais é só dar um pulo lá ... A promiscuidade no jornalismo político Certa vez estive envolvido numa discussão interna do Sindicato de Jornalistas do Rio sobre uma coluna iniciada por Pelé no Jornal do Brasil. Discordei da idéia de impedí-lo de escrever a pretexto de não ser jornalista. Mas o próprio craque, interpelado pelo sindicato, acabaria...