sábado, 31 de março de 2007

A visão tucana sobre o roubo do rabino

Está na Folha de S. Paulo a declaração que vai abaixo, sobre a prisão do rabino Henry I. Sobel nos Estados Unidos, por furto de gravatas. O senhor José Gregori foi ministro da Justiça no governo Fernando Henrique e é um dos "quadros" de relevo do PSDB.

"Na opinião do presidente da Comissão dos Direitos Humanos de SP, José Gregori, Sobel é 'o estrangeiro que mais colaborou para a integração da comunidade judaica no Brasil'. 'O que me deixa aterrado é a polícia americana ter chegado a esse grau de boçalidade. Você, como delegado, tem de saber quem prende', afirma. "

Gregori não faz por mal. O que ele afirmou é de fato um despautério, mas está dentro dos limites mentais e da boçalidade da elite brasileira.

Não, caro ex-ministro, a polícia americana não agiu com boçalidade, mas de forma republicana. Não interessa se o ladrão é rabino, banqueiro, artista ou mesmo político do PSDB ou do PT: roubou, vai para a cadeia e de lá só sai pagando fiança. É o que determina a lei e vale para todo mundo. O delegado, portanto, "não tem de saber quem prende" – frase típica de quem utiliza o velho bordão "você sabe com quem está falando?": seu dever é aplicar a lei independentemente da posição da pessoa na sociedade. Evidentemente, isto não corrige todas as distorções de um regime desigual, como se viu no caso do rabino – Sobel tinha os US$ 3 mil exigidos de fiança e ao contrário de muita gente pôde deixar a prisão rapidamente. Se não corrige todas as distorções, pelo menos dá ao cidadão a tranquilidade de saber que a lei é uma só e vale para todos.


O que a direita pensa da crise aérea

Vale a pena ler, no blog do Reinaldo Azevedo, a nota do jornalista de Veja sobre a greve dos controladores aéreos. Vale também olhar os comentários. Está tudo lá para quem quiser entender a visão da direita sobre os fatos políticos do País. Tudo mesmo, em estado bruto, sem nenhuma censura, uma verdadeira apologia de um golpe de Estado.

Reinaldo vive dizendo que preza a democracia, mas acaba se traindo em certas situações. O conjunto da obra – a nota mais os comentários – revela uma verdade cristalina: o que ele e seus amigos realmente gostariam é de uma nova ditadura militar no Brasil, que apeasse o presidente Lula da presidência e "colocasse ordem na casa".

Para a tristeza do Reinaldo e para o bem do País, não há uma única liderança disposta a esta aventura nas Forças Armadas. Ademais, a análise dos direitistas sobre a greve dos controladores de vôo é tão simplista que dá preguiça de comentar. Em resumo, acham que foi uma insubordinação e que Lula errou ao negociar. Então tá: talvez o chefe de Reinaldo, o insone governador José Serra, tivesse resolvido a questão em minutos, mandando abrir fogo sobre os controladores...

Nesta terça-feira não haverá mais atrasos nos vôos. Na quinta, a imprensa já começa a correr atrás de outro assunto. Nada como um dia após o outro, uma eleição após a outra, para colocar as coisas no devido lugar. De Azevedo e sua turma, já sabemos o que esperar: um neo-lacerdismo que, felizmente, tem cada vez menos adeptos.

PS às 16h44 de sábado: Talvez as coias voltem ao normal mais rápido do que o previsto. É o que indica a notícia abaixo, do G1:

Movimento no Tom Jobim começa a voltar ao normal na tarde de sábado
Por volta das 14h, a fila para o check-in estava normalizada.

Dos 36 vôos programados, 22 partiram com atraso e sete foram cancelados.
Por volta das 14h deste sábado (31), o movimento de passageiros no Aeroporto Internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, voltou ao normal. Mesmo com os vôos saindo com atraso, não havia mais filas nos setores de embarque nos terminais 1 e 2.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Waldir Pires precisa deixar a Defesa

Não dá mais para o presidente Lula esperar. O que está ocorrendo nesta sexta-feira nos aeroportos do Brasil só pode ter uma explicação: falta de comando. Ou Lula demite o ministro da Defesa, Waldir Pires, nas próximas horas, ou o caos aéreo pode acabar sim respingando no presidente. Não pela histeria dos passageiros prejudicados por eventuais atrasos e cancelamentos – esses são eleitores do PSDB e PFL desde sempre –, mas pelo colapso que pode haver no transportes de cargas, aí sim, um problema real para a economia nacional.

O que não se compreende, nessas alturas dos acontecimentos, é a teimosia de um homem honrado, digno e com um passado louvável em permanecer no cargo a despeito de todas as evidências de que não há o menor fôlego para tal permanência. Parafraseando Roberto Jefferson, só há uma coisa a dizer: sai, Waldir, sai daí rapidinho.

Mico do ano

A notícia abaixo dispensa comentários... A versão é da Folha Online.


Senador propõe audiência com diretores de empresa que é parte de jogo virtual

MALU DELGADO

A ficção pregou uma peça na política. Discutiu-se na tribuna do Senado, na terça-feira, a polêmica ação da empresa Arkhos Biotech, identificada como "uma das maiores fabricantes do mundo de ativos vegetais para a indústria cosmética e farmacêutica". A empresa defende, na internet, (www.arkhosbiotech.com) a internacionalização da Amazônia.

A postura institucional da Arkhos deixou o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) furioso. "Tem notícia da maior gravidade que devo trazer ao conhecimento da Casa. Ela está no site da Agência Amazônia, sob o título "Laboratório americano propõe privatizar a Amazônia'", alertou.

"Estou convidando essa empresa a se fazer representar em uma reunião da Subcomissão da Amazônia, que funciona na Comissão de Relações Exteriores (...), porque a notícia pareceu-me extremamente grave", disse ele.

O fato é que a audiência não acontecerá. A não ser que sejam definidos dia e hora no mundo virtual. A Arkhos é uma empresa fictícia criada em jogo virtual --"Alternate Reality Games" (ARGs)--, no site www.zonaincerta.com.

O jogo é patrocinado pelo Guaraná Antarctica, feito em parceria com a Editora Abril. A brincadeira tem como eixo uma misteriosa história envolvendo o biólogo Miro Bittencourt, que teria descoberto segredos da fabricação do guaraná. A Arkhos é a vilã que quer a Amazônia sob controle privado.

E tem, ainda, um grupo ambientalista, o Efeito Paralaxe. A "entidade" fez protestos --reais-- no dia da visita de George W.Bush ao Brasil.

Procurada pela Folha, a patrocinadora do jogo esclareceu: "O Guaraná Antarctica aderiu a uma ferramenta de marketing inovadora e diferenciada, o ainda pouco explorado "alternate reality games" (ARGs), jogo que convida os consumidores da marca a desvendar um mistério. A ação gira em torno da fórmula secreta do Guaraná Antarctica".

Ao ser informado pela Folha sobre a real situação da empresa, o senador reagiu com bom humor: "É um mico danado, hein! Mas vou continuar vigilante a meu Estado, ainda que tenha que pagar outros micos. Neste caso foi brincadeira, mas tem gente que de fato pensa isso da Amazônia. Só não vou mais chamar o pessoal para depor".

quinta-feira, 29 de março de 2007

O canal do presidente


Charge do Agê que estará na edição do DCI de sexta-feira

Qual é a bandeira dos partidos de oposição?

O Partido da Frente Liberal trocou de nome nesta semana e passou a se chamar Democratas, adotando a estranha sigla DEM e prometendo seguir na oposição ferrenha ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Durante a Convenção que sacramentou a mudança de nome e marcou a troca de comando no partido, o novo presidente, Rodrigo Maia, filho do prefeito do Rio, Cesar Maia, lembrou um pouco o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) ao dizer que a agremiação agora vai trabalhar mais as bases e buscar uma maior aproximação do eleitorado. Na verdade, a motivação para a mudança de nome parece ter sido de caráter mais simbólico do que propriamente político. Não se trata de uma “refundação” no estilo da empreendida pelos partidos de esquerda da Itália, por exemplo, que modificaram seus programas em busca de um modelo alternativo de socialismo após a queda do muro de Berlim. No caso brasileiro, o DEM não reviu seu conteúdo programático, operou uma mudança formal, expurgando a palavra liberal, certamente para enfrentar os novos tempos em que toda América Latina parece rejeitar o neoliberalismo.

Tal mudança de nome, porém, revela a falta de rumo não só do DEM, mas dos demais partidos que fazem oposição ao governo Lula. No caso dos Democratas, a única bandeira política desde o início do segundo mandato é a crise aérea, que nem é uma questão política, mas gerencial. Ademais, para o povão, especialmente o dos grandes centros urbanos, que sempre enfrentou atraso em seus trens e ônibus, essa crise aérea é motivo de chacota e de uma certa vingança secreta – ver ricos e famosos irritados com os atrasos nos vôos, como diria a propaganda do cartão de crédito, não tem preço...

As demais legendas da oposição também estão sem rumo: o PPS, que já foi comunista, se transformou em um verdadeiro zumbi, se esforçando para ser um satélite do governador paulista José Serra, sem nenhuma luz própria. E o PSDB, que vive em crise interna permanente com a luta surda de suas principais lideranças pelo comando do partido, nem sequer teve tempo para pensar em bandeiras para este novo período da vida política nacional. Enquanto Serra, Aécio e Alckmin brigam, não há um tucano pensando seriamente em que tipo de proposta o partido vai levar para a eleição de 2010. Em 2006, é bom lembrar, Alckmin se limitou a dizer que aplicaria um choque de gestão e acabaria com toda a corrupção do mundo – projeto alternativo mesmo, não havia nenhum. Do jeito que a coisa vai, em 2010 não será muito diferente.

O que separa Serra de Alckmin

Geraldo Alckmin está de volta, mas por pouco tempo. Já avisou que retorna para os Estados Unidos neste domingo, a fim de finalizar o seu "período sabático". Disse também que apenas no segundo semestre retomará as atividades profissionais no Brasil. Será professor em uma universidade na baixada santista e provavelmente disputará a presidência do PSDB.

Tudo que o governador José Serra não deseja é ver Alckmin mandando no seu partido. Até lá, muita água vai rolar debaixo da ponte e quem conhece os bastidores do PSDB diz que o governador paulista não vai deixar barato o comando partidário para Alckmin.

A verdade é que, apesar de correligionários, muita coisa separa Serra e Alckmin. Em menos de três meses, o atual governador mudou tanta coisa na administração estadual que um observador externo jamais diria que se trata de uma gestão de "continuidade", tocada por alguém do mesmo partido que o governante anterior. A lista não é pequena, vamos a ela:

1. Alckmin introduziou a progressão continuada na Educação; Serra já reduziu de 4 para 2 anos o período que os alunos "passam" automaticamente e promete acabar com o sistema.

2. Na gestão Alckmin, acabaram as avaliações dos alunos; Serra mandou retomar o sistema de "provas".

3. Alckmin passou a campanha presidencial prometendo vender o "Aerolula"; Serra mandou recomprar o avião que seu antecessor tinha vendido.

4. Alckmin fez de seu "choque de gestão" o mote da campanha presidencial; Serra está realizando um recadastramento do funcionalismo público para averiguar quantos "esqueletos" seu antecessor deixou para a nova administração.

5. Alckmin afirmou, em público, que tinha "exterminado" o PCC; Serra trocou toda a cúpula da Segurança Pública e adotou uma nova orientação no combate à violência.

6. Durante seus dois mandatos, Alckmin governou com a Febem praticamente conflagrada – era raro o mês que não ocorressem rebeliões; até agora, Serra não enfrentou uma única rebelião até aqui.

Esses são apenas alguns pontos que separam Serra e Alckmin. O mais importante deles, porém, é outro, sobre o qual nenhum dos tucanos jamais falará: a eleição presidencial de 2010, em que os dois poderão, de novo, estar concorrendo pela vaga do partido ou até, em legendas diferentes, se enfrentarem nas urnas. Embora possa parecer, Alckmin de bobo não tem nada e se já conseguiu colocar Serra nas cordas uma vez, nada impede que repita a manobra. Há muita água para rolar debaixo da ponte e as eleições de 2008 devem ser um marco na correnteza.

Soninha nega saída do PT

A vereadora Soninha Francine escreveu para a Folha de S. Paulo para negar a informação publicada no Painel dando conta da sua saída do PT. Ontem, este blog comentou a notícia e aventou a possibilidade de Soninha ser a primeira "vítima" da interpretação do TSE sobre a fidelidade partidária. Pode ser que Soninha realmente ainda não tenha "desistido do PT", conforme ela mesmo escreveu, desmentindo as 5 fontes da jornalista Renata Lo Prete, editora do Painel. Também pode ser que a situação criada pelo TSE tenha feito a vereadora mudar de idéia e aproveitar a oportunidade para contestar a Folha.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Ainda sobre a fidelidade partidária

A resposta do TSE à consulta do ex-PFL e a partir de hoje DEM (Democratas) sobre a questão dos mandatos dos deputados federais, estaduais e vereadores provocou um verdadeiro terremoto em Brasília. Com o tempo, no entanto, as coisas já começaram a se assentar. Em primeiro lugar, claro está que no que diz respeito aos parlamentares que mudaram de partido nesta legislatura, a briga vai se dar no Supremo Tribunal Federal, até porque o Tribunal Superior Eleitoral só responde pelo que acontece até a diplomação dos parlamentares. Uma vez diplomados, a questão já não é mais eleitoral e, portanto, do ponto de vista estritamente jurídico, o problema é do STF.

Posto isto e deixando as nuances jurídicas dos processos (cada caso será um caso) para os advogados, vamos tentar analisar a questão do ponto de vista político. Quem está perdendo o jogo é a oposição, que pretende criar constrangimentos para o aumento da base governista que apóia o presidente Lula. Aparentemente sem argumentos para seduzir uma parte de seus próprios parlamentares, o então PFL resolveu multar os que deixavam a legenda em R$ 50 mil. Não é pouca coisa para ninguém, mas o fato é que 8 parlamentares acharam que o preço compensava e caíram fora da agremiação. São lulistas desde criancinhas e não querem saber mais dessa nada mole vida de oposicionistas... Inconformada, a cúpula dos neo-Democratas foi à Justiça para questionar o troca-troca e conseguiu uma primeira vitória. Este blog aposta, porém, que os deputados que se mudaram – hoje mesmo houve mais uma troca – permanecerão com seus mandatos e não voltarão aos partidos de origem. Ainda assim, politicamente a oposição ganhou pontos ao se manifestar contra a pornográfica movimentção partidária desses parlamentares que trocam de partido como se trocassem de cueca.

Até aqui, a bem da verdade, estão todos jogando para a torcida – magistrados, oposição e governo. O que resolveria mesmo a questão seria uma reforma política que colocasse mais racionalidade no jogo político. A oposição advoga que o mandato é do partido? Que defenda então o voto em listas, onde o real detentor do mandato é de fato o partido político. Não dá para querer que o eleitor vote em pessoas acreditando estar sufragando uma legenda. Quem vota no deputado Clodovil, por exemplo, o faz pela figura controversa do deputado e nem deve saber a legenda a qual ele pertence. Este eleitor está fechado com Clodovil e certamente não se importará se ele mudar de partido. O voto, nitidamente, foi no personagem e não na legenda.

Com o voto em lista, gente como Clodovil, Soninha Francine, Frank Aguiar, entre tantos outros, dependeriam da boa vontade das direções partidárias para entrar na lista. O voto, portanto seria despersonalizado, o que é bom para a democracia nacional, embora possa tirar um pouco da graça do jogo político. É bom os Democratas do antigo PFL começaram a se posicionar sobre essas questões, do contrário passarão também eles uma imagem de oportunistas. Se o debate é sério, é preciso ter posições claras. A reforma política está quicando na área, alguém precisa dar o primeiro chute...

O que todo mundo no tucanato quer saber:

Quem, afinal, é o candidato de José Serra ao comando da Fundação Padre Anchieta, controladora da TV Cultura?
A data da eleição, aliás, essa ninguém sabe.

Soninha pode ser a 1ª vítima do Tribunal

A vereadora Soninha Francine, do PT da capital paulista, estava querendo abandonar a agremiação e ingressar no PPS. Depois da decisão de ontem, ela pode até realizar o movimento, mas a sua vaga na Câmara Municipal ficará com o Partido dos Trabalhadores.

Nos bastidores da Câmara Municipal, dizem que Soninha foi seduzida pelo canto de sereia do governador José Serra (PSDB). Permanecendo no PT, ela será uma espécie de "quinta-coluna" no partido e poderá até acabar expulsa da legenda.

Fica a questão: os eleitores votaram na Soninha "serrista" ou na Soninha "petista"? Ou votaram simplesemente na Soninha, confiando no faro político da então debutante na política?

Jorge Bornhausen acha que o voto é sempre no partido. O caso de Soninha mostra que as coisas não são bem assim...

Interpretação do TSE vai "pegar"?

Já foi comentado aqui uma particularidade da legislação brasileira: há regras que "não pegam" e passam a ser simplesmente ignoradas de fato, como se nunca tivessem existido. Há muita gente levantando problemas sobre a interpretação do Tribunal Superior Eleitoral acerca da fidelidade partidária, aprovada ontem por 6 votos a 1. Na prática, os mandatos de deputado federal, estadual e vereador passam a pertencer aos partidos políticos e não mais aos parlamentares eleitos. Com isto, se um deputado mudar de partido, poderá perder o mandato, caso o partido prejudicado questione a mudança na justiça.

Há de fato problemas de implementação, como bem assinalou o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB:

A polêmica decisão do TSE, por ser geral demais, está suscitando muitas perguntas que ainda não tem resposta. Uma de suma importância é quem pode pedir a cassação do parlamentar: partido ou suplente? Será a legenda ou coligação? De quem é o direito de ação? Se a legenda não quiser suas cadeiras de volta, o suplente poderá passar por cima desta decisão partidária para requerer seu cargo? E se o partido provocar o TSE para reaver suas cadeiras, estas serão ocupadas por deputados de outros partidos da coligação? Ainda falta muito para esclarecer.

Jefferson é favorável à fidelidade partidária por ser inimigo fidagal do deputado do PR paulista Valdemar da Costa Neto, a quem acusa de ter arregimentado parlamentares a custa de um suposto novo esquema de pagamento de "mensalão". Ele mesmo reconhece, porém, que talvez seja necessário aprovar uma nova lei ou até mudar a Constituição para que a decisão do TSE possa, na prática, ser aplicada. Ainda há muita confusão pela frente e, o leitor pode ter certeza, muita gente vai reclamar do Tribunal.

terça-feira, 27 de março de 2007

TSE impõe a fidelidade partidária

Por 6 votos a 1, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu que os mandatos de deputado federal, deputado estadual e vereador pertence aos partidos e não aos políticos eleitos. Assim, todos os deputados federais que mudaram de legenda depois da eleição – já há 35 casos assim na Câmara Federal – correm o risco de perderem seus mandatos se não retornarem à legenda pela qual foram eleitos. Evidentemente, vai chover recurso ao Supremo Tribunal Federal e a questão ainda não pode ser considerada resolvida juridicamente. Na teoria, a decisão do TSE é boa para a democracia porque consolida a fidelidade partidária, mas cabe perguntar se não se trata de um ato legislador do poder judiciário. O TSE, é bom lembrar, já foi bastante criticado no ano passado exatamente por ter interpretado a regra da verticalização de forma tão draconiana que depois foi obrigado e votar de novo a mesma questão e rever a decisão. Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, de forma que o melhor a fazer agora é acompanhar os próximos capítulos desta novela...

Collor bem na fita na Agência Senado

A Agência Senado faz um belíssimo trabalho no acompanhamento das atividades legislativas do Senado, é fonte obrigatória para qualquer jornalista que trabalhe com a cobertura política. É bem verdade que algumas vezes, o pessoal exagera um pouco nas matérias sobre o presidente da Casa, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), mas a regra é uma cobertura bem técnica e até imparcial. Assim, chama bastante atenção o destaque que a agência vem dando, na edição das fotografias, para o ex-presidente Fernando Collor, hoje senador pelo PTB de Alagoas. O leitor habitual já deve ter reparado: dia sim, dia não, Collor está lá, bem na fita, sempre de cara boa nas fotos que vão para a página principal da Agência Senado. Pode ser uma coincidência, mas também pode não ser...

A miopia da esquerda radical

A notícia abaixo está na Agência Carta Maior e pode ser lida, na íntegra, aqui.

O problema todo da esquerda parece ser uma certa miopia em relação ao governo do presidente Lula. Ora, se PSTU e PSOL acreditam que vale a pena jogar as fichas em um movimento contra as "reformas", estarão lutando contra o vento, porque o presidente Lula não deseja fazer reforma alguma em seu segundo mandato, nem trabalhista, muito menos previdenciária...

Sobre a "retirada dos direitos", o PSOL e o PSTU deveriam se posicionar em relação à Emenda 3 ao projeto que criou a Super Receita: afinal, são a favor do veto de Lula ou contrários? No momento, quem breca a "retirada de direitos" é o presidente e não a pressão da ultra-esquerda...


Seis mil se articulam em São Paulo contra reformas

Encontro convocado por movimentos sindicais e populares ligados ao PSTU e PSOL reúne milhares no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e propõe luta unificada contra possível flexibilização de direitos adquiridos. Iniciativa poderá revitalizar movimento sindical de base, aposta corrente ligada ao PSOL.


PFL faz besteira ao mudar de nome

O Partido da Frente Liberal vai mudar de nome amanhã. A legenda passa a se chamar Democratas, com a sigla DEM. Evidentemente, os ainda hoje liberais devem ter pago caro por pesquisas de opinião que fornecessem subsídios para a mudança. Pois esta é mais uma prova de que nem sempre as pesquisas de opinião acertam. A nova sigla é ruim e o nome do partido não agrega, digamos assim, a "marca" do PFL, que o eleitorado identifica como a legenda de contraponto ao PT de Lula. Este blog aposta, inclusive, que a nova sigla terá vida curta e mais adiante, talvez depois do primeiro fracasso nas urnas, os líderes partidários mudarão de novo o nome da agremiação.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Aécio e Globo, tudo a ver?

O blog do ex-governador Anthony Garotinho (PMDB) está fazendo grande estardalhaço em torno da denúncia, publicada inicialmente pelo mineiro Novo Jornal, de que o governador Aécio Neves (PSDB) teria pago, com o patrimônio de Minas Gerais, US$ 269 milhões de dívidas da Rede Globo de Televisão. Os detalhes desta inusitada operação – já contestada pela Globo – o leitor pode ler clicando aqui. Se há algum fundo de verdade nos fatos relatados, o futuro vai dizer. Mas a verdade é que Aécio não é bobo e está se movimentando para viabilizar a candidatura à presidência em 2010. Claro que é muito cedo para tal avaliação, mas o fato é que com 71% de aprovação, conforme o Datafolha divulgado nesta segunda, Aécio sai de Minas com um apoio considerável. Se contar com, digamos assim, uma mãozinha da TV Globo, pode se tornar até no favorito para a disputa.

Ainda sobre as pesquisas do Datafolha

A Folha de S. Paulo parece não dar bola aos jornalistas que mais entendem de pesquisa na sua própria redação. O colunista Fernando Rodrigues, por exemplo, é um especialista no assunto - seu blog contém a provavelmente mais respeitável base de dados de pesquisas eleitorais e de desempenho de governos brasileiros que existe na internet.

Pois bem, Fernando Rodrigues fez o seguinte comentário ao analisar o resultado do levantamento do Datafolha sobre a popularidade do presidente Lula:

Lula nas alturas – o petista bate seu próprio recorde e atinge 48% de aprovação ao seu governo depois de 3 meses no cargo neste segundo mandato (Datafolha). Em 2003, nesta mesma época, tinha 43%. Todos os outros presidentes pós-ditadura militar (1964-1985) tiveram marcas piores do que as de Lula neste período do mandato.

O leitor da Folha, porém, não ficou sabendo de nada disto. O jornal simplesmente escondeu a informação da aprovação a Lula - preferiu destacar que a taxa caiu 4 pontos desde o final do ano passado, em plena euforia da reeleição... Claro, o jornal não mentiu, apenas fez a leitura que considerou mais apropriada dos fatos. Pesquisas, como se vê neste exemplo, são matéria prima para toda a sorte de manipulação do noticiário.

Aprovado por 39% ou reprovado por 61%?

O jornal Folha de S. Paulo deu manchete para a pesquisa do seu instituto, o Datafolha: "Governo de Serra tem aprovação de 39%". O enunciado, além de incorreto, é francamente favorável ao governador de São Paulo, José Serra (PSDB). Por que o jornal não levou para o título o dado inverso – "Governo de Serra é desparovado por 61%"? A resposta é simples: a partir dos dados colhidos pelo jornal, está errado dizer que a aprovação é de 39% ou a desprovação é de 61%. Os entrevistados foram instados a avaliar o governo e o fizeram dando "notas" (ótimo, bom, regular, ruim e péssimo). Do total, 39% consideram o governo bom ou ótimo, 37% acham a gestão regular e 14%, ruim ou péssima. Para avaliar a aprovação e desaprovação, é preciso fazer uma questão específica, como se faz nas pesquisas sobre o desempenho do presidente Lula.

É possível e até provável que a aprovação do governo Serra seja superior a 39%, uma vez que parte dos que a classificaram como regular tende a dizer que aprova o novo governo. Ainda assim, a manchete da Folha é favorável ao governador, pois ele não foi o único avaliado pela rodada de pesquisas do instituto. Também foi objeto da enquete do Datafolha o desempenho dos governadores Aécio Neves (PSDB), de Minas, e de Sérgio Cabral Filho (PMDB), do Rio de Janeiro. Pois bem, Serra é o pior avaliado entre os três. Aécio é quase uma unanimidade em Minas – sua aprovação é de 71% –, e Cabral obteve 48% de "ótimo e bom". Assim, o jornal poderia levar para a manchete um fato objetivo: Serra é o governador pior avaliado na primeira rodada do Datafolha...

domingo, 25 de março de 2007

E a denúncia de Carta Capital?

O Brasil é um país engraçado: há coisas que "pegam" e outras que simples passam batido, ninguém dá a menor bola. É assim até com as leis do País e também com certas denúncias bombásticas que aparecem na mídia sem provocar a menor repercussão. Pode ser o caso da matéria reproduzida abaixo, que está na revista Carta Capital desta semana. Até agora, final da tarde de domingo, nenhum grande veículo repercutiu a denúncia e os envolvidos também não se manifestaram sobre o teor do que foi publicado. Em alguns blogs, há gente comentando o assunto, mas o fato concreto, como diria o presidente Lula, é que a história está passando batida. Não deixa de ser engraçado lembrar que um episódio muito semelhante ao denunciado na revista derrubou, em 1999, o economista Francisco Lopes do cargo que hoje é de Henrique Meirelles. A diferença talvez esteja na oposição: naquela época, o PT não hesitava em partir para a jugular do presidente do Banco Central, sem dó nem piedade. Hoje, PSDB e PFL se revezam no Congresso para defender o "bom senso" de Meirelles e só lhe fazem críticas de mentirinha, quando querem jogar para a torcida. PSOL e PSTU à parte, ninguém no país parece querer a substituição de Meirelles. Portanto, o que Carta Capital denuncia - e a íntegra da matéria está abaixo – simplesmente "não vai pegar".


A República distante

por Márcia Pinheiro e Sergio Lirio

O Banco Central recusa-se a acatar os princípios de transparência e promove encontros secretos com o mercado

Quinta-feira 15 e sexta 16. Dois diretores do Banco Central encontraram-se, sigilosamente, com executivos de instituições financeiras para discutir economia. Foram três reuniões em São Paulo (escalonadas de duas em duas horas, a partir das 11 da manhã) e uma no Rio, nas sedes regionais do BC, prédios públicos. Estavam presentes 20 participantes, em cada encontro, aproximadamente, o que em um cálculo rápido daria 80 privilegiados, que foram se atualizar sobre as planilhas dos representantes do BC: o diretor de Política Econômica e Estudos Especiais, Mario Mesquita (ex-ABN Amro e ING), e o diretor de Política Monetária, Rodrigo Azevedo (ex-Credit Suisse First Boston e Garantia). O presidente do BC, Henrique Meirelles, compareceu somente ao evento no Rio, mas não falou.

Cento e dezoito anos depois do gesto do marechal Deodoro da Fonseca, proclamando a República, eternizado em quadro do pintor Benedito Calixto, uma série de instituições brasileiras recusa-se a entrar na era da República. Falar em valores republicanos, nos dias de hoje, causa urticária em meia dúzia de aclamados pensadores e escribas da vida cotidiana, como se o conceito tivesse perdido o sentido.

Seria bom que os críticos do debate sobre o republicanismo no Brasil e os que acham moderno grafar estado com letra minúscula consultassem os ideólogos que moldaram a civilização ocidental. Encontrariam, por exemplo, um ensinamento de Montesquieu, na obra O Espírito das Leis, de 1745: "Quando, numa república, o povo como um todo possui o poder soberano, trata-se de uma Democracia. Quando o poder soberano está nas mãos de uma parte, trata-se de uma Aristocracia".

A quem serve o poder soberano do BC brasileiro, cuja autonomia de fato não parece suficiente aos donos do dinheiro? As reuniões com agentes do mercado financeiro falam por si. Mais do que negar os preceitos de um Estado participativo e forte, comprometido com o interesse público, os convescotes revelam o quanto, no Brasil, o público e o privado confundem-se a ponto de não se poder enxergar a linha divisória entre ambos.

Oficialmente, as reuniões nem existem. Não constam da agenda do BC. Tampouco os resultados são revelados à imprensa. Trata-se de uma festa para poucos, em que as práticas de democratização da informação passam ao largo. Segundo o assessor de imprensa do BC, Jocimar Nastari, a não divulgação das agendas é um procedimento que visa coibir a especulação do mercado financeiro. Um comunicado prévio, argumenta, daria margem a ruídos nos negócios. "No caso, não é preciso transparência. Ela se dá por meio dos (breves) comunicados após a reunião do Copom, da Ata do encontro e dos relatórios trimestrais de inflação. "É o arcabouço legal do regime de metas de inflação", afirma.

Não é de hoje que tais encontros acontecem. Os eventos são trimestrais. Em 2006, por exemplo, ocorreram em 20 de fevereiro, 8 de junho, 21 de agosto e 22 de novembro. Como o mercado financeiro não é exatamente composto por ingênuos, fica a dúvida. Por que os saraus restritos a economistas e gestores de instituições financeiras?

A alegação, ainda oficial, é que, das reuniões, saem dados concretos para que o BC redija o relatório trimestral de inflação. Mas e o setor produtivo? E os economistas das universidades? Ou seriam os últimos incapazes de prover o BC de análises consistentes? É relevante lembrar que a autoridade monetária já dispõe de um canal de comunicação com o mercado, por meio da Gerência Executiva de Relações com Investidores (Gerin), cuja função é compilar, semanalmente, entre economistas de bancos, expectativas sobre os mais diferentes preços da economia.

Pois as reuniões ocorridas em São Paulo e no Rio foram ricas em percepções e informações. Pena que ninguém, a não ser o mercado, teve acesso às discussões. A mídia sistematicamente ignora tais eventos, exceção feita às agências de notícias on-line, cujos clientes são os próprios bancos e corretoras. CartaCapital ouviu alguns dos presentes nos encontros, que não quiseram ser identificados.

Nas exposições iniciais, os diretores do BC Mesquita e Azevedo disseram estar o País menos vulnerável, com reservas internacionais sólidas (acima de 100 bilhões de dólares), mas insuficientes para ter tranqüilidade. Recado dado e assimilado: o BC vai manter a política agressiva de compra de dólares no mercado. Ou seja, a moeda não cairá abaixo de 2 reais. Afirmaram ainda que a alta recente da inflação foi pontual, mas cabe à autoridade monetária "não deixar o repique se espalhar para os demais preços da economia". Leia-se: quem apostava em queda de meio ponto porcentual da taxa Selic na próxima reunião do Copom saiu convicto de que ela cairá não mais que 0,25 ponto.

A seguir, cada representante de banco foi convidado a fazer uma avaliação da economia. Grande parte mostrou preocupação com o cenário de médio prazo. Acham, os economistas, que a demanda continuará forte, com aumento do crédito e do consumo, e que os investimentos serão insuficientes para garantir um crescimento de bom tamanho, sem que a inflação repique. Voltou à cena o famoso PIB potencial, ou quanto um país pode crescer sem pressão sobre os preços. E consideram estar havendo "um fechamento do hiato do produto". Recado para o BC: é preciso continuar com a política de juro alto, para conter um suposto ímpeto consumista da população.

Em uma das reuniões, em São Paulo, um economista ousou discordar. Traçou projeções otimistas sobre a capacidade de produção do Brasil, mas foi logo desautorizado por Mesquita: "Vamos parar de falar de cenários róseos. Vamos discutir os riscos". Curioso. Não combina com os discursos otimistas do chefe dele. Em público, Henrique Meirelles não se cansa de dizer que o Brasil está mais sólido como nunca antes na história. Que está imune a tempestades financeiras. A quatro paredes, não é bem assim. Leitura: para as massas, circo e otimismo. Para os privilegiados, informações e impressões que viram dinheiro.

As ligações estreitas entre o BC e o mercado, no Brasil, não têm paralelo no mundo. Nos Estados Unidos, reino do capitalismo financeiro, o presidente e os governadores do Federal Reserve (Fed) estão submetidos a duras regras. Além de um código de conduta rigoroso, explicitado nos sites de todas as regionais do Fed, duas vezes por ano, o presidente da autoridade monetária (Ben Bernanke) é obrigado por lei a dirigir-se ao Congresso para explicar os objetivos e os resultados da política monetária, com ênfase nos efeitos sobre o crescimento e o desemprego.

Aliás, entre as responsabilidades do Fed está "conduzir a política monetária, por meio de controle da oferta de dinheiro e do crédito na economia, perseguindo o pleno emprego e a estabilidade dos preços". Também está no site da instituição (www.federalreserve.gov).

O quê? Um BC preocupado com o emprego? Certamente é coisa de país atrasado e economistas subdesenvolvidos.

Perante os congressistas, Bernanke, como foram Alan Greenspan e todos os antecessores dele, é submetido a uma sabatina. Nada passa em brancas nuvens. São ocasiões aguardadas por todo o mercado, mas abertas ao público, registradas e televisionadas. Todos têm direito à mesma informação em tempo real.

Consultada por CartaCapital sobre a existência de encontros secretos entre os membros do Fed e o mercado, a porta-voz para a imprensa da regional de Nova York do banco, Linda Ricci, até se surpreendeu, em princípio, com a pergunta. Negou que houvesse qualquer coisa do gênero.

Linda disse que as únicas conversas não reveladas para a imprensa são as trocas de idéias diárias do Fed com os chamados primary dealers, prática comum em todos os BCs mundiais, inclusive o brasileiro. Os primary são instituições financeiras cuja função é indicar ao BC as condições do mercado no dia, dar liquidez aos negócios e participar ativamente dos leilões de títulos públicos. "O teor das conversas não é publicado, mas o fato de elas existirem é público", tratou de esclarecer Linda.

A história dos encontros a portas fechadas entre o BC e o mercado é apenas uma dentre as relações pouco republicanas da autoridade monetária. Há outras. Uma delas, exemplar. Em 14 de março de 2005, segundo noticiou o jornal Valor Econômico, o BC pediu à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) que organizasse um seminário a portas fechadas, com o objetivo de discutir mudanças nas regras cambiais. Na ocasião houve, ao menos, entrevistas coletivas após o encontro. De todo modo, economistas de universidades mostraram-se descontentes com o rumo das discussões, por não terem sido consultados.

Em uma sessão da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, em 27 de setembro de 2005, foram convidados João Sicsú, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Alexandre Schwartsman (hoje, ABN Amro), então diretor da Área Internacional do BC. O diretor não compareceu e enviou, para representá-lo, Alexandre Geraldo Magela Siqueira, gerente-executivo de Normatização de Câmbio e Capitais Estrangeiros do BC. O propósito era discutir a ampliação do prazo, de 180 para 210 dias, para os exportadores trazerem os dólares obtidos com as vendas externas para o Brasil.

Provocado por Sicsú sobre a reunião na Fiesp, Magela afirmou desconhecer que teria sido uma iniciativa do BC. Ficou o dito pelo não dito, mas se era uma inverdade, perguntou Sicsú, por que ninguém do BC havia protestado contra o texto do Valor Econômico? Não obteve resposta. Na ocasião, Magela negou que a ampliação da chamada cobertura cambial estaria no escopo de um projeto mais abrangente de liberalização desse segmento do mercado. Os fatos posteriores provam que estava. O áudio da sessão está disponível para consulta pública.

A procuradora da República do Distrito Federal, Valquíria Quixadá, encaminhou uma recomendação, em 2005, à Procuradoria-Geral para que solicitasse a Meirelles e ao então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, uma justificativa do motivo de se ampliar o prazo para a repatriação dos recursos por meio de resoluções do Conselho Monetário Nacional e não pelo Congresso Nacional. Como resposta, ambos disseram entender que a Lei 4.595, de 1964, assegurava a constitucionalidade das iniciativas.

Valquíria tem outra visão. Segundo ela, as resoluções são inconstitucionais, pois afrontam a Lei 4.131/62, que "disciplina a aplicação do capital estrangeiro e as remessas de valores para o exterior". Da forma como foi feito, diz, "o Conselho Monetário Nacional e o BC usurpam uma competência do Legislativo".

Os fatos: os prazos foram ampliados e, por Medida Provisória, em agosto de 2006, o processo culminou com a permissão para os exportadores deixarem no exterior parte dos recursos das vendas externas. Cabe ao CMN fixar os limites; por ora, 30% podem ficar depositados lá fora. Os restantes 70% têm 360 dias para ingressar no País. O projeto foi aprovado pelo Senado em novembro do ano passado. Não foi um assunto amplamente debatido na sociedade. Não houve consulta pública. Mas o projeto obteve o apoio dos industriais, por causa do câmbio supervalorizado.

Toda a questão, resume João Sicsú, transcende resoluções ou normas pontuais. "Devemos refletir sobre o que é melhor para o País. Devemos refletir sobre a República." Segundo ele, foram conferidos superpoderes ao BC, após a adoção do regime de metas de inflação, pelo Decreto 3.088, de 21 de junho de 1999. Segundo o artigo 1º, as metas devem ser fixadas pelo CMN. Mas o artigo 2º dá total liberdade ao BC de persegui-las da forma que julgar conveniente.

Na avaliação do economista, o BC opera com duas variáveis-chave da economia, juro e câmbio. E nunca dá explicações exatas e técnicas sobre suas atitudes. Exemplo: Meirelles vive a repetir que só mira a meta de inflação, mas é incontestável que a atual política de compras agressivas de dólares no mercado tenta evitar um tombo maior do câmbio, como ficou evidente nas reuniões com os economistas. Questiona Sicsú: "Qual é a política do BC para o câmbio? Mesmo para a taxa de inflação: por que o juro é tão elevado se a inflação passada e a projeção para o futuro são de números abaixo da meta?"

A transparência está em xeque. E não é pouco. A independência formal do BC, como advogam os porta-vozes do mercado, precisaria ter como contrapartida o mais absoluto disclosure (abertura), para usar um termo tão em voga.

É parte da história recente a acusação de favorecimento financeiro que o BC concedeu aos bancos Marka e FonteCindam em 1999, durante o ataque especulativo ao real, que gerou uma brutal desvalorização cambial. Foi 1,6 bilhão de reais, a valores da época. No meio da corrida especulativa, o BC comprara câmbio dos bancos abaixo do preço do mercado para evitar, como justificou a posteriori, a ocorrência de uma crise sistêmica. Os bancos quebraram. Houve condenação judicial dos envolvidos, inclusive de alguns diretores do BC. Todos estão soltos. O banqueiro Salvatore Cacciola fugiu para a Itália. Discutir amplamente questões de política econômica, portanto, não é teoria conspiratória. Está no escopo de quem sonha construir um País mais democrático e republicano.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Os três ministros jornalistas

Dizem que o presidente Lula não gosta de jornalistas, que sempre que pode foge de entrevistas coletivas. Pode até ser verdade, mas o fato concreto, como diria o próprio Lula, é que já são três os ministros jornalistas: Miguel Jorge, Franklin Martins e Hélio Costa...

Beraba: Folha deu mal a indicação de Jorge

O ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, concorda com este blog: o jornal desdenhou a nomeação de Miguel Jorge para o ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Em sua crítica interna, disponível para os leitores no site do Ombudsman, Beraba escreveu o seguinte:

Ministério
É compreensível que o jornal não tenha feito uma repercussão da nomeação do jornalista Franklin Martins para a pasta de Comunicação do ministério Lula. Sua confirmação saiu tarde. Mas o nome de Miguel Jorge estava confirmado desde cedo e ocupará um ministério importante para os projetos econômicos do governo. Como o seu nome foi recebido por empresários e pelos vários segmentos da economia?


A cobrança de Beraba é justa e ele poderia ter especulado sobre as razões do jornal. Certamente não terá sido apenas porque Miguel Jorge foi diretor de redação do Estadão por 10 anos e até hoje integra o Conselho do maior rival da Folha...

Folha desdenha Miguel Jorge

A Folha de S. Paulo não ficou muito animada com a nomeação do jornalista Miguel Jorge, ex-diretor de redação do rival O Estado de S. Paulo, para a vaga de Luiz Fernando Furlan no ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Na edição desta sexta-feira, o jornal publica a notícia com o mesmo peso que dá para a nomeação do deputado Reinhold Stephanes (PMDB-PR), que já vinha sendo cogitada há dias, para a Agricultura. Miguel Jorge não mereceu nem sequer um perfil mais alentado na Folha - evidentemente, há um no Estadão. Inveja mata

quinta-feira, 22 de março de 2007

Franklin comandará a Comunicação Social

O jornalista Franklin Martins aceitou o convite do presidente Lula e vai comandar a Comunicação Social do governo. A secretaria tem status de ministério e sofrerá mudanças em seu organograma com a chegada do novo titular, que substitui André Singer. É quase certo que Franklin Martins venha a comandar a implementação da nova emissora de TV Pública e tenha sob a sua guarda praticamente toda a publicidade do governo federal. Não é pouca coisa.

Com o sim de Franklin a Lula, o parajornalista Diogo Mainardi deverá voltar a abrir a sua "pastinha" e bater forte no novo ministro. Mainardi está sendo processado por Franklin, a quem acusa de "lulista", como fez com tantos outros colegas de profissão. O pequeno McCarthy de Veja não vai deixar barato a chance de "provar" que tinha razão.

Leia abaixo a versão da Agência Estado para a nomeação do novo ministro.


Franklin Martins aceita ser ministro da Comunicação Social

Jornalista assumirá uma nova estrutura de comunicação do Planalto, que reunirá algumas áreas e será definida na próxima semana, quando tomará posse

Ricardo Amaral, Reuters
BRASÍLIA - O jornalista Franklin Martins aceitou nesta quinta-feira, 22, o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ser o ministro encarregado da área de comunicação social do governo.

O formato da nova estrutura de comunicação do Planalto - que reunirá algumas áreas - será definido até a próxima semana, quando Franklin tomará posse. O jornalista vai cuidar de relações com a imprensa, publicidade e também do projeto de uma rede nacional pública de TV.

O jornalista não quis dar detalhes sobre a função, mas confirmou ter sido recebido em audiência no Planalto no final da tarde. "Tive hoje uma segunda conversa com o presidente e aceitei o convite", disse Franklin à Reuters. O convite ao jornalista foi feito pela primeira vez numa conversa com Lula na primeira quinzena do mês.

Parte da nova estrutura virá da atual Subsecretaria de Comunicação Institucional (Secom), vinculada à Secretaria-Geral da Presidência da República. A Secretaria de Imprensa e Porta-Voz (SIP), que cuida das relações coma imprensa, será totalmente incorporada. O projeto de criação de uma rede nacional de televisão pública vem sendo discutido na Secretaria-Geral e no Ministério da Cultura.

O Ministério das Comunicações elaborou um estudo de viabilidade que estima em 250 milhões de reais as necessidades de investimento para implantar a rede, ainda no sistema analógico. A conversa com Franklin Martins não constava da agenda oficial do presidente Lula nesta quinta.

Dirigentes do PMDB que estiveram no Planalto à tarde encontraram-se com Martins e com o jornalista João Santana, responsável pela campanha da reeleição de Lula. "Acho que vocês terão mais um colega ministro hoje", disse a jornalistas o presidente do PMDB, Michel Temer, insinuando que Martins teria aceitado o convite.

Outro jornalista, o executivo Miguel Jorge, do grupo Santander Banespa, já havia sido convidado por Lula, na quarta, para ser o novo ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio.

Ex-guerrilheiro

Franklin Martins foi comentarista político do Jornal Nacional e do Jornal da Globo até maio de 2006, quando seu contrato com a Rede Globo não foi renovado. Atualmente, trabalha na Rede Bandeirantes, que terá de deixar se for confirmada sua ida para Brasília.

O jornalista foi líder estudantil e depois guerrilheiro. Ex-militante do grupo comunista MR-8, participou do seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick. A ação forçou o governo a libertar 15 presos políticos. Entre eles, José Dirceu.

Recentemente, Martins travou polêmica com o colunista Diogo Mainardi, da revista Veja, que o acusou de ter influenciado na nomeação de parentes a cargos públicos. Martins negou as acusações.

Sem dar o braço a torcer

Comentário do Ombudsman da Folha, Marcelo Beraba, em sua crítica interna desta quinta-feira: "'O 'Estado', em sua última edição, encolheu a manchete para acomodar a informação aparentemente exclusiva de que "Miguel Jorge [do Santander e ex-editor-chefe do "Estado"] substitui Furlan no ministério [do Desenvolvimento]", colchetes meus. Retribui, assim, o furo de ontem da Folha, que antecipou a nomeação de d. Odilo Scherer para a arquidiocese de São Paulo."

Folha barrigou ou está de má-vontade?

Não há uma única linha na Folha de S. Paulo desta quinta-feira sobre a noemação de Miguel Jorge para a pasta do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. A informação estava disponível pouco antes da meia noite em vários sites e o blog do jornalista Fernando Rodrigues, colunista da Folha, comentava a indicação de Lula às 0h32. De duas, uma: ou o pessoal que estava fechando o jornal na noite de ontem comeu bola – é triste, mas acontece –, ou o jornal está de má-vontade com a nomeação de um integrante do Conselho Editorial do Estadão, o maior rival da Folha em São Paulo. O resultado para o leitor, porém, é o mesmo: acordou sem a informação mais importante do dia na política nacional, que acabou na manchete do Estadão. Ou a Folha devolve o dinheiro da edição de hoje ou os leitores têm todo o direito de reclamar no Procon...

Perguntar não ofende

Como será a cobertura do jornal O Estado de S. Paulo do trabalho do novo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, ex-diretor de redação do Estadão?

É cedo para dizer, mas este blog tem um palpite: Lula matou vários coelhos com a nomeação de Jorge, que agrada o setor financeiro (o jornalista era vice-presidente do banco Santander) e acalma a fúria oposicionista de parte da mídia (vai ficar estranho para o Estadão dizer que Lula opera uma "guinada chavista" nomeando um membro do Conselho do jornal para cargo tão importante). Ademais, Jorge tem um perfil de negociador experimentado, que vem dos tempos em que comandou a Autolatina e participava das mesas de negociação com os metalúrgicos do ABC. O presidente Lula pode ser muita coisa, mas bobo, realmente não é: conseguiu manter o nome de Jorge fora das especulações e nomeou um executivo de expressão para um cargo-chave na administração federal.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Alckmin já sabe que a vingança
é um prato que se come frio

Está nos grandes jornais desta quarta-feira a repercussão de um furo do Diário de S. Paulo, na edição de terça, sobre os contratos fechados na gestão Geraldo Alckmin (PSDB), sem licitação e no valor de R$ 77 milhões, por fundações e órgãos estaduais com o Instituto Uniemp. Não há comprovação de irregularidade nesses contratos, apenas indícios, o que levou o Ministério Público a abrir uma investigação para apurar as suspeitas.

Gente ligada ao ex-governador Alckmin acredita que se trata de mais uma operação com as digitais de José Serra ou de aliados muito próximos do governador. Segundo este raciocínio, o "furo" do Diário seria resultado de uma bela "dica" de um ex-diretor de Redação do jornal que atualmente bate ponto na Imprensa Oficial do Estado. Como diriam os italianos, "se non è vero, è bene trovato". Ademais, Alckmin vai começar a sentir na pele aquele outro ditado, da vingança como prato que se come frio. No que depender de Serra, a dieta vai até pelo menos meados de 2008, quando será escolhido o candidato a prefeito de São Paulo.

Aldo hesita aceitar pasta da Defesa porque
já trabalha na candidatura à prefeitura de SP

O repórter Eduardo Bresciani, que acompanha os bastidores de Brasília pelo DCI, informa que a hesitação do deputado Aldo Rebelo (PCdoB) em aceitar o convite para assumir o ministério da Defesa tem uma razão bastante simples: Aldo estaria empenhadíssimo na montagem da sua candidatura a prefeito de São Paulo, em uma aliança que envolveria os partido do bloco de esquerda da Câmara – PSB e PDT. Essas legendas, aliás, têm bons nomes para completar a chapa, como a ex-prefeita socialista Luiza Erundina ou o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, da Força Sindical. A articulação da candidatura, portanto, pode inviabilizar a inédita posse de um comunista para o comando das Forças Armadas do Brasil.

terça-feira, 20 de março de 2007

Ainda sobre a "TV do Lula"

Vale a pena ler na íntegra o artigo do Luiz Carlos Azenha, repórter da TV Globo, polemizando com o Nelson Motta, colunista da Folha de S. Paulo.

Este blog concorda com Azenha em praticamente tudo que vai reproduzido abaixo. De fato, há pouco a acrescentar, apenas torcer para que desta vez o presidente Lula não ceda às pressões dos defensores do Deus Mercado e engavete o projeto. A pressão, aliás, não será pequena. A revista Veja, por exemplo, já entrou na briga detonando a idéia e nesta terça-feira um de seus rotweillers de plantão, o Reinaldo Azevedo, em seu blog, também bateu forte, mas bem mais em Azenha do que na proposta de TV Pública do governo, a qual também ataca, de maneira um tanto confusa, sem oferecer argumentos racionais aos seus leitores. Algo na linha do "a idéia é do PT, soy contra", se é do Lula, deve cheirar a Mao, Stálin e Fidel. Evidentemente, Reinaldo cala sobre a ofensiva de seu chefe José Serra na TV Cultura - deve achar que é direito do governador fazer o próximo presidente da emissora... Afinal, Serra é um tucano, democrata e homem de bem, nada tem de autoritário e nem de longe pretende controlar o jornalismo – público, é bom frisar – da Cultura.

A seguir, a íntegra do texto de Azenha.

Nelson Motta detona TV que usou para promover livro; e diz que o povo não é bobo

Nelson Motta foi entrevistado do Maurício Melo Júnior, no programa Leituras, da TV Senado.

Foi até lá promover seu segundo livro, "Mocinhas e bandidos".

Na entrevista, nem uma palavrinha sequer contra as tevês públicas, inclusive aquela que o 'produtor cultural' usou para promover o próprio livro.

Na sexta-feira, dia 16 de março de 2007, Nelson Motta decidiu falar sobre televisão.

Escreveu Fora do ar, na Folha de S. Paulo.

Basicamente, ele diz que investir em emissoras públicas é bobagem, uma vez que elas custam caro e dão pouca audiência.

O Nelson Motta quer fechar a TV Cultura de São Paulo?

Eu pergunto: e o custo para a prefeitura que abriu as calçadas para a instalação dos cabos que levam as emissoras privadas até a casa dele?

Ele sabe se isso custou aos cofres públicos ou foi bancado pelas empresas privadas?

Nelson Motta diz que, se for criada a Rede Pública de Tevê, serão abertas "centenas de novos empregos públicos para amigos e correligionários que não conseguem trabalho em emissoras melhores".

Quais são as emissoras melhores, Nelson Motta?

Aquelas que te entrevistam?

Você quer dizer que o excelente Paulo Markun está pendurado num cabide?

"A maioria absoluta dos programas desses canais poderia dispensar as antenas e ser apresentada em circuito fechado aos seus escassos telespectadores, num bar ou num ônibus. Sairia mais barato do que colocar no ar", diz o Nelson Motta.

Ou seja, baixou nele, repentinamente, uma tremenda preocupação com o audiência.

Pois eu gosto do Roda Vida.

E dos shows gravados pela TV Cultura de São Paulo.

De uma só vez, o Nelson Motta ofende os profissionais que trabalham na TV Cultura e todos aqueles que preferem a emissora aos canais comerciais - embora a distinção esteja ficando cada vez menor.

Mas o Nelson Motta está preocupado com o IBOPE.

"Quase todos [os canais públicos] são cabides de emprego, com programação pífia e audiências que somadas não chegam a um ponto de share", diz o Nelson Motta.

Eu vou ligar para o Heródoto Barbeiro, que é da CBN, para saber se ele concorda que a TV Cultura é um cabide de emprego.

Quem arrumou o emprego do Heródoto?

Qual foi o padrinho dele?

Ah, o Nelson Motta descobriu o share.

Vai ver que ele tem em casa um medidor de audiência e fica acompanhando o share da TV pública.

E quem é que diz que a audiência deve ser o único objetivo de uma emissora?

Eu não sei se o Nelson Motta sabe disso, mas as emissoras comerciais do Brasil são concessões públicas e elas também custam ao contribuinte, porque toda uma infraestrutura foi criada para permitir que elas existam.

Quantos terrenos em que estão implantadas antenas repetidoras no país foram comprados pelas emissoras comerciais?

O Nelson Motta sabe?

Repito: as tevês a cabo custam ao contribuinte brasileiro, mesmo àqueles que não tem dinheiro para assinar.

Quem é que pagou pela abertura das calçadas para a instalação dos cabos, as calçadas por onde passeiam os integrantes da República do Leblon?

Eu gostaria que o Nelson Motta pesquisasse e nos desse a resposta.

"Quando o governo, qualquer governo, fala em rede pública de tevê, a idéia é sempre "oferecer opções" (as deles) ao público", diz o artigo.

Sim, Nelson Motta, porque eu não quero ter as mesmas opções que você.

Eu quero outras.

Ou não posso escolher?

Se você pode pagar a conta da tevê a cabo e tem acesso a 100 canais, parabéns.

Se você pode pagar e tem uma coleção de DVDs, parabéns.

Mas eu acho que uma tevê pública vale a pena, sim, justamente porque poderá - se tiver dinheiro para tanto - oferecer aos moradores de Belém do Pará, ou pelo menos àqueles que não tem TV a cabo, uma cobertura mais abrangente do círio de Nazaré.

Você, que pode pagar, assista ao Manhattan Connection.

Com uma rede pública de tevê, quem sabe a gente vai assistir à transmissão do festa do Boi de Parintins, no Amazonas.

A transmissão do Boi não vende cotas no Sul Maravilha, não é Nelson Motta?

Além de ofender a todos os jornalistas e profissionais que trabalham em emissoras públicas, que produzem muitos programas de alta qualidade, o Nelson Motta agora quer dar uma de censor e nos manter "fora do ar".

Quando você passear pela calçadas do Leblon ou de Ipanema, caro coleguinha, não se esqueça de se perguntar: quem pagou a conta para enterrar os cabos que levam 100 canais até o meu apartamento?

A República do Leblon quer o Brasil dela para todos, às custas do dinheiro público.

Os integrantes dela amam a BBC, a ZDF e a NHK - todas redes públicas/estatais.

Mas não viram e não gostaram da emissora que nem entrou no ar.

Por quê?

A quem não interessa uma rede pública bem feita?

É curioso: essa turma assume a defesa da tevê golpista RCTV, da Venezuela, alegando que o fechamento dela vai implicar em perda de empregos.

Mas na hora de acabar com as tevês públicas brasileiras, tudo bem.

Lixem-se os jornalistas, repórteres cinematográficos e profissionais que trabalham nelas.

Eles produzem muitos programas bons, que valem a pena.

Confiram abaixo:

http://www.tvcultura.com.br/

http://www.tvebrasil.com.br/

Em seu artigo, Nelson Motta escreveu:

"É ótimo para a democracia que se possam acompanhar as sessões da Câmara e do Senado. Mas ninguém precisa das "programações culturais", ou pior, "jornalísticas", desses canais que só vêem quando pega fogo o circo das CPIs".

Ok, coleguinha. Então por quê você foi promover seu livro na "programação cultural" da TV Senado?

Você usou uma empresa pública para promover uma iniciativa privada.

No caso, a SUA iniciativa privada com o NOSSO dinheiro público.

Leitores que não acham o texto do Nelson Motta pedem que eu transcreva.

FORA DO AR

Rio de Janeiro - O controle remoto está cheio de canais de televisão municipais, estaduais, federais, judiciários, legislativos, educativos e culturais espalhados pelo Brasil, a um custo fabuloso. Quase todos são cabides de emprego, com programação pífia e audiências que somadas não chegam a um ponto de share. Dividindo as despesas pelo número de beneficiários, deve ser um dos custos per capita mais altos do mundo. Com os gastos para chegar a tão poucos espectadores, daria para lhes dar comida e computadores em vez de programas chatos.

A maioria absoluta dos programas desses canais poderia dispensar as antenas e ser apresentada em circuito fechado aos seus escassos espectadores, num bar ou num ônibus. Sairia mais barato do que colocar no ar.

É ótimo para a democracia que se possam acompanhar as sessões da Câmara e do Senado. Mas ninguém precisa das "programações culturais", ou pior, "jornalísticas", desses canais que só se vêem quando pega fogo o circo das CPIs.

Quando o governo, qualquer governo, desde os militares, fala em rede pública de TV, a idéia é sempre "oferecer opções" (as deles) ao público, dominado pelos pelos interesses das TVs privadas, que só pensam em ganhar dinheiro.

Os sábios acham que o povo é bobo é só vê Globo, Record, SBT e Band porque não tem nada melhor. Mas, quando essas mentes iluminadas se metem a dar "algo melhor à massa, a audiência é traço. Mas a conta é alta, paga por todos nós.

O custo previsto da RPTV, que certamente se multiplicará ao longo dos anos, é de R$ 250 milhões de nossos impostos, abrindo centenas de novos empregos públicos para amigos e correligionários que não conseguem trabalho em emissoras melhores.

Mas para que serve mais uma TV que não se vê".

Dizer o que?

Eu concordo com uma frase do Nelson Motta, aquela em que ele diz que o povo não é bobo.

Agora sim, começou o governo Serra

Pelo menos é o que se pode concluir da chamada de capa no portal UOL desta terça-feira: "Dengue hemorrágica provoca primeira morte do ano em SP".
Não demora e o estado de São Paulo estará repleto dos heróicos mata-mosquitos, resta saber se protestando contra José Serra ou ajudando a combater o mal que persegue o governador paulista há tanto tempo...

PS: da Agência Estado, às 21h14 - Com 283 casos, Ubatuba decreta epidemia de dengue. É, a gestão Serra já trabalha a pleno vapor...

Lula ainda pode mudar a Defesa

O esperto repórter Eduardo Bresciani garante que o deputado Aldo Rebelo (PCdoB) receberá, nos próximos dias, um convite para assumir o ministério da Defesa. Bresciani também garante que o bravo comunista recusará educadamente, como é seu feitio, a oferta. Desta forma, ficará aberta uma porta para a acomodação do PSB, único partido que perdeu espaço na atual reforma ministerial – tinha a Integração Nacional e a pasta da Ciência e Tecnologia e, até agora, manteve apenas a segunda. Outro nome sobre o qual se fala nos bastidores brasilienses, para a mesma pasta, é o do senador José Sarney. Neste caso, porém, o PMDB chegaria a 6 vagas na nova equipe de Lula, o que talvez seja excessivo para o equilíbrio das forças que compõem a coalizão governista.

Um pouco além do "toma lá dá cá"

A reforma ministerial do presidente Lula está quase completa – faltam apenas a confirmação de Reinhold Stephanes (PMDB-PR) na Agricultura e a indicação dos nomes dos substitutos de Luiz
Fernando Furlan na Indústria e, eventualmente, Waldir Pires na Defesa.

A esta altura do campeonato, já é possível perceber o sentido geral das mudanças realizadas pelo presidente para o segundo mandato. Em primeiro lugar, Lula ampliou consideravelmente a participação do PMDB em seu governo – um movimento que lhe havia sido recomendado pelo então ministro José Dirceu em 2003, antes da crise do mensalão. Boa parte dos colunistas políticos adora dizer que o PMDB é um partido dividido e que governante algum consegue obter o apoio integral da legenda. De fato, o PMDB realmente é um grande condomínio, o maior da política nacional, mas o raciocínio de que toda negociação com os peemedebistas acaba mal não leva em consideração a única alternativa possível: deixar o partido de fora da coalizão governista. Ora, neste caso governo algum consegue tranquilidade para aprovar as matérias de seu interesse no Congresso e acaba tendo de tocar a administração do país com minoria parlamentar. Isto é possível? Pode até ser – era a tese de Heloísa Helena e do pessoal do PSTU –, mas nunca foi tentado no Brasil pós-redemocratização...

Assim, as concessões feitas ao PMDB, com toda a confusão em torno do ministro da Agricultura que foi sem nunca ter sido, é o preço que Lula paga não por seus próprios pecados, mas pelo dos aliados que incorporou ao seu governo. Logo nas próximas votações no Congresso já haverá colunistas apontando as "traições" peemedebistas, o que é outra rematada bobagem: Lula e qualquer pessoa de bom senso que analisa a cena política sabe que não dá para esperar unanimidade no PMDB, dada a heterogeneidade do partido. Assim, o que o presidente tentou foi trazer para a sua base a maior parte dos parlamentares peemedebistas, e não a totalidade – uma tarefa que Jesus Cristo teria dificuldade em realizar.

PMDB à parte, o presidente decidiu também manter em postos de expressão o PP (Cidades) e o PR (Transportes), incorporando o PDT (Previdência) e diminuindo ligeiramente o espaço do PT (até agora, os petistas ficaram 14 das 35 pastas, mas cainda orrem o risco de perder a Defesa). Mudança significativa também foi o deslocamento do ministro Walfrido dos Mares Guia (PTB) para a secretaria das Relações Institucionais, que tem status de ministério e cujo titular é responsável por toda a articulação política do governo federal. Com este movimento, Lula sinaliza que pretende tentar desanuviar o ambiente e conversar mais, inclusive com a oposição – nos bastidores há quem garanta que essas conversas já estão ocorrendo.

O sonho do presidente é uma "trégua" até pelo menos 2008, facilitando assim os trabalhos no Congresso. Aliás, a confirmação de Reinhold Stephanes, um político egresso da Arena, com passagem no PDS e PFL, ex-ministro da ditadura militar e do governo Fernando Henrique Cardos, não deixa de ser também uma demonstração do presidente de que o rumo de seu governo é o centro, e não a esquerda, como temem alguns paranóicos colunistas e gritam certas manchetes dos grandes jornais brasileiros. Se há "chavismo" em Lula, deve estar guardado a sete chaves, porque nesta reforma não há o menor sinal de esquerdismo, salvo talvez a nomeação de um ministro radicalmente contrário à reforma previdenciária justamente para a pasta da Previdência.

Tudo somado, a verdade é que o presidente Lula é um negociador e está apostando as suas fichas na conciliação de interesses no segundo mandato. Pode funcionar, porque no consórcio tucano-pefelista, bastante rachado no momento, existe a expectativa de retomada do poder em 2010, caso Lula realmente não possa tentar mais um mandato. Desta forma, não interessa aos governadores tucanos José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), por exemplo, uma crise institucional ou econômica nos próximos anos, uma vez que isto poderia alterar a atual correlação de forças que, imaginam, lhes pode ser favorável e acabar abrindo espaço para uma solução mais populista no próximo pleito. Tudo que Serra e Aécio não querem, em suma, é marola.

Do ponto de vista do PT e de Lula, a equação está aberta e há dois cenários possíveis: o atual, em que Lula não pode concorrer à reeleição, e o de um grande sucesso na política governamental de acelerar o crescimento econômico, que poderia abrir caminho para a mudança constitucional que permita a Lula o terceiro mandato. Para que a segunda hipótese se concretize, o ideal é mesmo haver um grande acordo político que permita, nos próximos dois anos, a aceleração dos trabalhos parlamentares e também do Executivo. É nisto que Lula trabalha, embora ninguém saiba ao certo se ele realmente deseja concorrer mais uma vez em 2010. Se nada mudar, porém, algumas cartas já foram colocadas na mesa: a ministra Marta Suplicy e o governador Jaques Wagner são no momento as apostas mais fortes do PT. Ainda é cedo, mas o jogo começou ontem.

segunda-feira, 19 de março de 2007

Uma ministra candidatíssima

Marta Suplicy (PT-SP) nem titubeou e aceitou o ministério do Turismo mesmo sem o controle da Infraero, cujo controle poderia passar da pasta da Defesa para as mãos da ex-prefeita, conforme especulou a imprensa nos últimos dias. Não é certamente o ministério mais vistoso e nem há muito dinheiro para gastar, mas tudo que Marta precisava era de uma janela para manter seu nome na mídia e conseguir "recall" para a sua próxima jogada eleitoral, provavelmente já em 2008, rumo ao Palácio do Anhangabaú, na capital paulista. Se o jogo estiver muito embaralhado, a ex-prefeita poderá perfeitamente permanecer no ministério e aguardar 2010, quando poderia disputar o governo paulista ou até mesmo a presidência da República.

Candidatíssima, Marta tem à disposição alguns bons nomes, como o de Eduardo Sanovic, que já dirigiu o Anhembi, para fazer uma gestão competente no ministério do Turismo. Na verdade, basta continuar o trabalho do ministro Walfrido dos Mares Guia, uma grata surpresa do primeiro mandato de Lula, e desviar das cascas de banana que os adversários certamente jogarão, para consolidar uma candidatura viável a qualquer dos três cargos mencionados. Se Marta vai virar prefeita, governadora ou presidente, só o futuro vai dizer. O fato é que ela está no jogo.

Sobre a "televisão do Lula"

Se o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tivesse (PSDB), durante o seu período na Presidência da República, cogitado fazer uma emissora de televisão de caráter público, é certo que a imprensa brasileira teria aplaudido a iniciativa e parabenizado o "estadista" tucano pela criação de uma "BBC brasileira", em referência à emissora inglesa que é paradigma de TV Pública no planeta. Cardoso, porém, "não precisava" de uma emissora de televisão porque durante praticamente todo o tempo que esteve no poder contou com o apoio entusiasmado da maior emissora brasileira, a TV Globo. Ademais, não constava do programa de governo tucano a idéia de democratizar os meios de comunicação de massa.

Desde que o ministro Hélio Costa (Comunicações) apresentou um projeto de uma nova emissora pública de televisão, na semana retrasada, os jornalões, especialmente O Estado de S. Paulo, têm bombardeado a iniciativa do governo federal. Para os barões da imprensa, Lula quer criar um "aparelho de propaganda", com objetivos político-eleitorais. O debate está começando a melhorar um pouco com a publicação, no Estado e na Folha, de entrevistas com quem entende do assunto, mas o tom de "campanha" dos jornais contra a "TV do Lula" continua nítido e foi reconhecido pelo Ombudsman da Folha, Marcelo Beraba, na coluna de domingo.

O que importa nesta altura do campeonato é menos o caráter da nova TV em si e mais o preconceito da mídia com o governo Lula: por que o atual presidente não poderia patrocinar o nascimento de uma "BBC brasileira"? Nos primeiros quatro anos em que governou o Brasil, Lula mandou reestruturar a Radiobrás, uma tarefa que foi brilhantemente executada por Eugênio Bucci. Quem acompanha o noticiário da Agência Brasil na internet sabe que não houve favorecimento algum ao governo nem mesmo durante a crise do mensalão.

A rigor, o governo talvez tenha cometido um equívoco na divulgação da idéia. O melhor teria sido um anúncio de maiores investimentos da própria Radiobrás, a fim de ampliar a agência e o canal de TV NBR, já existente. As resistências seriam menores e o governo provavelmente teria resultado semelhante...

sábado, 17 de março de 2007

Agricultura: Abin não sabia de nada?

A nota abaixo, do jornalista Cláudio Humberto, revela um aspecto da confusão em torno do quase-ministro Balbinotti que pouca gente está comentando. Afinal, não é função da Abin levantar a ficha dos candidatos a assumir cargos no primeiro e segundo escalão? O nome de Balbinotti, como os tantos outros comentados nos últimos dias, não apareceu ontem no noticiário. Será que ninguém na Abin pensou em preparar um pequeno dossiê sobre todos os "ministeriáveis" e deixar o material com o presidente da República. Que Lula não soubesse de nada, diriam os seus oposicionistas, é normal. Mas a Abin precisava saber de tudo, ou não está merecendo o que recebe dos cofres públicos.

Abin deixou Lula na mão
O presidente Lula ficou muito irritado com o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Márcio Buzanelli, por não ter sido avisado sobre as acusações contra o deputado Odílio Balbinotti (PMDB-PR) antes de convidá-lo para o cargo de ministro da Agricultura. Lula ficou sabendo da folha corrida de Balbinotti pelos jornais. Os arapongas alegam que não foram acionados. O episódio jogou Buzanelli na frigideira do Planalto.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Zero Hora dá uma mãozinha para Bush

Vale a pena visitar com freqüência o blog Diário Gauche. Além de comentários inteligentes e bem humorados, o leitor encontrará ali notas contendo uma visão crítica do comportamento da mídia gaúcha. Um exemplo está abaixo – o ZH realmente extrapolou, nem o Reinaldo Azevedo deu bola para a "confissão" de Khalid Sheik Mohammed. Para ler mais notas como esta, basta acessar o blog no link acima.


Release da Casa Branca

Manchete valor Zero


Me dei ao trabalho de verificar, nenhum grande jornal brasileiro explorou o tema em manchete como Zero Hora. É a demonstração do mais puro provincianismo. Qualquer editor de média inteligência sabe que essa informação é cascata. Isso não tem nenhum valor, a não ser para a propaganda dos falcões da Casa Branca, que ainda envolve o Chico Bento 16 para esquentar o assunto e arrebanhar (ingênuos) interessados por notícia usinada. Trata-se de uma confissão extraída sob tortura, em Guantánamo, ainda por cima. Valor: zero vírgula zero! Zero Hora, que ingenuidade! Está mal o jornal da Azenha... agora publicam press-release até da Casa Branca, bicho!

quinta-feira, 15 de março de 2007

Collor: passado e futuro

Fernando Collor de Mello (PTB-AL) realizou nesta quinta-feira, exatamente 17 anos depois de tomar posse na presidência da República, o movimento final na sua longa e delicada operação para voltar ao cenário político brasileiro com alguma relevância e chance de recuperar o poder perdido em 1992. Collor fez o seu primeiro discurso como senador da República e falou sobre o momento mais importante que viveu – o impeachment, primeiro e único na história do País. O que se viu foi um Collor comedido no tom – ele nem de longe lembrou o efusivo orador de 1989 e se limitou a ler as 99 páginas cuidadosamente redigidas – , mas decidido a mostrar a sua indignação com a "farsa" que teria sido o processo de impeachment. Também afirmou que foi vítima de "preconceito" e "abusos ", lembrando que não perdeu um único processo na Justiça.

De fato, Collor foi absolvido no Supremo e muita gente séria na área jurídica considera a votação do impeachment após a renúncia do então presidente um absurdo lógico e uma arbitrariedade dos senadores. A verdade é que a condenação foi política e Collor já pagou a pena a que foi condenado. Há quatro anos, começou a tentativa de voltar para a cena política, mas perdeu a eleição para o governo de Alagoas. No ano passado, conseguiu se eleger senador pelo seu estado e dispõe agora de um excelente palanque em Brasília para tentar voar mais alto.

Collor pode ser muita coisa, mas bobo, não é. No discurso desta quinta-feira, depois de posar de vítima, reconheceu seus erros no relacionamento com o Congresso e terminou citando William Shakespeare: “Hoje, posso virar definitivamente aquelas páginas doídas de minha vida pública e, finalmente, invocar o personagem Marco Antônio, na peça 'Julio César':
“I come to bury Cæsar, not to praise him”. (Vim para enterrar o Cesar, não para exaltá-lo) Como ele, Senhor Presidente, senhoras e senhores Senadores, não vim lastimar o passado. Vim para sepultar de vez essa dolorosa lembrança.”

O ex-presidente sabe que está no início de seu recomeço. Sepultar a dolorosa lembrança é apenas parte deste trabalho. Collor já avisou que vai tentar recuperar a credibilidade perdida em 1992. Para tanto, ele aposta em novas bandeiras: logo nos primeiros dias de atuação no Senado, procurou se inserir nas comissões permanentes que lidam com temas ambientais e sinalizou que pretende entrar para valer neste debate. Um dia antes de seu histórico discurso, por exemplo, Collor coordenou uma audiência pública na Subcomissão Permanente de Acompanhamento do Regime Internacional de Mudanças Climáticas com o físico José Goldemberg, ministro em sua gestão, sobre a necessidade de atualização do Protocolo de Kyoto. Nitidamente, Collor quer repetir a fórmula de Al Gore e se apresentar, mais uma vez, como um político moderno, arrojado e bem intencionado. Pode parecer difícil imaginar uma volta do ex-presidente ao poder, mas é bom não subestimar a capacidade de convencimento de Fernando Collor.

Wagner Iglecias: Oposição em crise?

Em mais uma colaboração para o blog, o cientista político Wagner Iglecias analisa as dificuldades do PFL e PSDB em fazer uma oposição responsável ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A seguir, a íntegra do texto de Iglecias.

Definitivamente, ser de oposição no Brasil não é fácil. O presidencialismo brasileiro, embora não confira maioria automática ao presidente de turno no Congresso Nacional, dá ao Poder Executivo um poder de atração para si sobre as mais diversas correntes políticas, sempre sequiosas em dividir o poder com aquele agraciado pelas urnas para o cargo de primeiro mandatário da nação. Isso tem ocorrido em nossa história recente de forma cíclica, e no caso específico do atual governo, o sistema político parece ter como referência primeira e última a figura do presidente Lula, eleito e reeleito com uma enormidade de votos. Num modelo assim é dificil resistir nas trincheiras da oposição, tal como vemos com alguns partidos que ou vem encolhendo desde o final do ano passado ou que encontram-se numa espécie de crise existencial, buscando novas bandeiras e novos discursos a fim de reconquistar corações e mentes na sociedade.

Tucanos e pefelistas atravessam um momento de crise. Não bastasse a derrota nas urnas em novembro, ambos os partidos passam por período sucessório, sempre sujeito a rusgas e desgaste entre as correntes que disputam o poder. No ninho tucano parece haver grande equilíbrio entre os grupos que lutam pelo comando do partido, enquanto entre os pefelistas uma espécie de sucessão geracional parece estar em marcha, numa engenharia política complexa que dá os cargos de direção do partido a gente jovem, mas que ao mesmo tempo confere aos velhos caciques graus relevantes de poder na definição do futuro da legenda.

Se a disputa interna do PSDB é crucial para a definição do nome que representará o partido na sucessão presidencial de 2010, no PFL a mudança de nome para Partido Democrático (PD) insere-se numa estratégia de reposicionamento de marca, com os herdeiros da antiga Arena tentando mostrar-se ao país como modernos e progressistas, ainda que o PFL seja identificado com interesses dos mais conservadores presentes na sociedade brasileira.

Nada mais acertado, posto que as urnas têm sido duras com os pefelistas nas eleições recentes. E nada tão novo quando nos recordamos, por exemplo, que movimento semelhante, em direção ao centro do espectro político, foi feito pelo PT a partir de 1995, numa clara tentativa de alargar o perfil de eleitores do partido.

Pensando especificamente em nomes, não deixa de ser interessante que Rodrigo Maia passe a ocupar a presidência do PD, ainda que as antigas lideranças continuem sendo peças muito importantes no xadrez pefelista. Resta saber o que vai ser de Gilberto Kassab, outro jovem quadro do partido, empossado prefeito da maior cidade do país sem ter tido um único voto para tanto. Ainda não tendo conseguido conferir uma marca à sua gestão, o futuro político do alcaide paulistano deverá depender da manutenção do consórcio que seu partido mantém com o PSDB em São Paulo.

Entre os tucanos, por outro lado, apresenta-se um cenário ainda difícil de discernir, embora a luta por espaço esteja a todo vapor e venha transbordando, surpreendentemente, para as páginas da grande imprensa paulista. Além disso os variados graus de proximidade dos setores do partido com o governo federal parecem constituir-se numa questão extremamente delicada no ninho tucano. Se o que PFL e PSDB vivem, cada qual a seu modo, não pode ser chamado de crise, no mínimo pode ser chamado de momento de redefinições. Enquanto Lula, de seu modo e a seu tempo, vai compondo sua equipe para o segundo mandato, a oposição vai buscando, na medida do possível, reorganizar-se. Os próximos meses serão cruciais para os movimentos de governo e oposição, com reflexos diretos na eleição municipal do ano que vem e na sucessão presidencial de 2010.

Wagner Iglecias é sociólogo e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.