terça-feira, 17 de abril de 2007

Uma chacina americana, por Alberto Dines

Está muito interessante o artigo do diretor do Observatório da Imprensa sobre os trágicos acontecimentos em Virgínia, nos Estados Unidos. Vale a pena ler na íntegra, abaixo:


BLACKSBURG, VIRGÍNIA, 16/4/2007
Loucuras de abril: Columbine, Unabomber, Oklahoma...


A chacina da escola em Columbine ocorreu em 20/4/1999.

O Unabomber, Theodore Kaczynsky, matemático anarquista que desde 1978 enviou 16 cartas explosivas a professores, cientistas e astronautas, finalmente assumiu a responsabilidade pelos atentados numa carta enviada ao New York Times. Data: 24/4/1995.

Uma picape carregada com duas toneladas de explosivos explodiu em frente a uma repartição federal em Oklahoma dias antes: 168 mortos, muitos negros e hispânicos. Data: 19/4/1995.

Nasce em Braunau, Áustria, aquele que entrará para a história da humanidade como o maior e mais frio genocida: Adolf Hitler. Data: 20/4/1889

Coincidências.

O nazismo não inventou o terrorismo moderno, nem o desprezo pela vida humana, nem o sacrifício de inocentes, nem a eliminação sistemática e científica de milhões de homens, mulheres e crianças.

A culpa é dos chimpanzés.

No site G1, na noite de segunda-feira (16/4), logo abaixo do relato sobre a matança em Blacksburg apareceu uma "curiosidade" cientifica: os chimpanzés evoluíram mais do que o seu parente humano, o número de suas proteínas é 50% maior. Explicação: os símios enfrentaram mais desafios para sobreviver e, no processo para preservar os mais aptos, desenvolveram-se mais do que seus primos altamente civilizados.

Choque das civilizações

Primatas, mesmo ferozes como gorilas ou orangotangos, só matam para comer ou se defender. Não dominam a Natureza – ao contrário, são dominados por ela. Empregam todas as suas energias e instintos para sobreviver. Desconhecem o ato de matar por prazer ou para satisfazer outros impulsos insaciáveis.

Chimpanzés não estudam a violência, nem produzem leis contra os crimes hediondos. Não têm magistrados, nem parlamentos, jamais pensaram cem CPIs. Deixaram essa parafernália para as raças superiores. Tampouco se inscreveriam no Partido Nacional Socialista de Hitler.

O ser humano domina o universo, compete com os deuses, considera-se dono do seu destino, desenvolveu requintadas teorias e sublimes crenças para justificar todos os seus atos. Chacinas num campus universitário, massacres num mercado no Iraque ou a eliminação total de uma raça "inferior" já não o espantam. Banalidades, chatice. Telenovelas, pelo menos, são mais trepidantes.

Mentes racionais e organicamente sadias vem sendo treinadas há milênios para conviver com a idéia de aniquilar os semelhantes considerados indignos de viver. O choque das civilizações existe, sim. Entre homens e chimpanzés. E estes, a persistir sua evolução, podem ganhar de goleada.

Matriz da apatia

Os tiros em Blacksburg, Virginia, nada têm a ver com a mídia. Mas no Jornal Nacional de segunda-feira (16/4), em seguida à impressionante reportagem produzida pelos seus repórteres nos EUA, apareceu um longo comercial da cerveja Skol para promover um dos seus festivais de alegria.

Ode a violência disfarçada pelo "misticismo" do Kung Fu, às 21 horas, horário dito familiar, destinado a proteger crianças e adolescentes de influências viciosas, pouco edificantes e perturbadoras. Nada a ver com o aniversário de Hitler – os geniais integrantes do departamento de marketing não têm saco para estudar a história contemporânea.

Os tiros em Blacksburg, Virginia não têm relação com a mídia. A mídia não pode ser bode expiatório de todos os males. Mas três dias antes, sexta-feira (13/4), o New York Times publicou um extenso relatório produzido pela Federal Trade Comission mostrando o preocupante aumento nas vendas de games e filmes violentos para jovens [ver "Report Says the Young Buy Violent Games and Movies", em inglês].

O assassino de Blacksburg não deve ser consumidor de games, está num estágio superior, foi preparado numa academia de serial-killers tão sofisticados que sequer pretendem a fama. O novo monstro, segundo os despachos da madrugada de terça, preferiu esfacelar o rosto com um tiro para não se reconhecido. Modéstia.

Ninguém é culpado pelo que acontece no mundo. Esta é a mais dolorosa verdade produzida pela modernidade, matriz da apatia, paradigma da leniência que permitiu aos chimpanzés parecer mais evoluídos do que os homens.

***

Adendo: uma banda sueca deu o nome de "Kaczynski", o Unabomber, a uma de suas músicas. Outra banda, esta italiana, tem o "Kaczynski Code" no repertório. Também a Sleepytime Gorilla. A mídia nada tem a ver com isso.

Um comentário:

  1. Tudo bem o Dines fazer várias referências à Hittler (cansa, mas é perfeitamente compreensível). Só preferiria que ele também tivesse lembrado outra atrocidade cometida em abril. Para que nunca mais aconteça: 1 de abril de 1964, o golpe militar, também denominado por muitos veículos da mídia de "a redentora". O regime mais sanguinário de todos os tempos do Brasil.

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