quarta-feira, 11 de abril de 2007

Orelhas ardendo

O novo Ombudsman da Folha já mostrou que não está a fim de brincadeira e vai dar trabalho à redação do jornal. A Crítica Interna de terça-feira, referente à edição do dia anterior, equivale a uma semana de reparos do ex-ombudsman Marcelo Beraba. Isto porque as edições de segunda são magrinhas e parcialmente fechadas com material frio, na sexta-feira, diminuindo assim a ocorrência de erros. Veja a seguir os puxões de orelha de Mário Magalhães:

O Apagão Aéreo foi o principal assunto da Folha e do jornalismo brasileiro nos últimos dez dias.
Com inteira razão.
Os leitores do jornal, que em parcela expressiva são usuários da aviação, têm interesse em saber como foi o movimento ontem nos aeroportos do país, quais são as previsões para hoje, os próximos dias e semanas. O caos reforça nas pessoas a necessidade de se programar com esmero.
Também há interesse público e jornalístico em saber como a crise evolui; como ficou a desmilitarização da aviação civil; que passos foram dados (se é que foram) na Justiça Militar para julgar sargentos e, eventualmente, oficiais; o que o governo faz (se faz) para evitar um novo apagão; como os passageiros estão sendo tratados pelas empresas no esforço para fazer valer os seus direitos, inclusive o de ressarcimento do dinheiro pago por viagens que não foram realizadas; como os centros de controle estão operando; se há segurança para os vôos; quais são as ações do comando da Aeronáutica; como os sargentos se organizam (no caso de se organizarem) para os próximos passos em seu movimento; as conseqüências para os passageiros de toda a refrega política.
Os leitores da Folha não souberam nada disso hoje.
Com enorme surpresa _aqui, no mau sentido_, não encontraram (na edição SP) nem sequer um título para o Apagão Aéreo. A única notícia está escondida na segunda parte de uma pequena matéria no pé da pág. C3 a respeito de caso judicial sobre overbooking da TAM. No meio do texto, se lê declaração do presidente Lula, a porcentagem de atrasos no aeroporto de Curitiba e um parágrafo sobre como os controladores receberam as afirmações do presidente.
É frustrante para o leitor, que busca no seu jornal informações sobre temas que lhe afetam diretamente, encontrar pouco mais que nada.
A Folha não errou ao dar o destaque que deu à crise aérea. É por isso que surpreende o silêncio de hoje.

Infraero
A Folha deu chamada no pé da primeira página sobre o afastamento de quatro funcionários da Infraero. Reservou a manchete _acertadamente, na minha opinião_ para os números da economia ("Risco-país e Bolsa batem recorde; dólar recua mais").
O "Estado" manchetou: "Governo demite na Infraero para esvaziar CPI do Apagão".
As coberturas dos jornais têm uma diferença gritante: o "Estado" identifica nos afastamentos na Infraero, decididos pelo conselho de administração, uma tentativa do governo de enfraquecer a articulação para a criação de CPI sobre a crise aérea.
A Folha não faz nenhuma associação entre a medida administrativa e o embate no parlamento.
Um fato, ao menos, faltou na cobertura da Folha. As declarações do senador Arthur Virgílio, citadas pelo "Estado" ("Estão querendo entregar quatro bois para deixar passar uma boiada", disse o tucano).

Os pés de Edmundo
A primeira página publicou no alto foto dos pés de Edmundo, calçando chinelos. Posso estar enganado, mas não haveria relevância jornalística nem na imagem nem no fato de calçar chinelos.
Primeiro, porque a chamada dá a entender que havia treino do time ("Edmundo vai de chinelos ao treino do Palmeiras para se recuperar"). Não havia. Os jogadores que atuaram no domingo, como Edmundo, não treinaram na segunda. Fizeram apenas exercícios.
Segundo, porque a expressão "para se recuperar" induz o leitor a imaginar algum problema físico mais grave. Dentro, descobre-se que o atleta estava com uma unha encravada.
Em Esporte (pág. D1), o título é mais problemático ("Calçando chinelos, Edmundo faz seu retorno ao futebol").
Não é relevante Edmundo estar de chinelos. Jogadores de futebol também usam chinelos. E, se Edmundo estava com a unha encravada, não iria usar tênis ou sapatos.
O indecifrável é o "retorno ao futebol". No domingo, Edmundo disse que pensava em parar. Mas não anunciou que deixava a carreira. Por isso, não "retornou".
A linha-fina dá a entender que havia treino ("Ídolo aparece no treino do Palmeiras, mas permanece no departamento médico, para tratamento de unha encravada"). O texto esclarece que quem jogou na véspera fez "trabalho de recuperação na academia". O treino parece ter sido dos reservas, não dos titulares.
A matéria diz que, devido à perda recente de pênalti, Edmundo "abalou-se mais que o normal". O que seria o abalo "normal" ?
A Folha informa que dirigentes palmeirenses desconfiam que inexista a proposta para Edmundo jogar nos EUA. Além de publicar essa informação, o jornal faria um gol se descobrisse se a proposta existe de fato ou não.
Impressiona que a unha encravada de Edmundo tenha rendido o material de hoje.
Impressiona mais que a célebre matéria sobre uma unha de Ronaldo na Copa de 2006.
O jornalismo esportivo ganha quando, nos textos em que o recurso cabe, põe o pitoresco, molho, sabor, pimenta em sua produção. A Folha costuma fazer isso com talento.
Não é, infelizmente, o que ocorreu hoje na cobertura da crise profissional e existencial de Edmundo.

Painel do Leitor
Duas cartas de hoje no Painel do Leitor inspiram pautas interessantes: um balanço da Osesp, ajudando o conjunto dos leitores, e não apenas os melômanos, a entender o que está em jogo na manutenção ou não do maestro Neschling; o jornal ainda não fez, que eu tenha lido (posso estar enganado), uma contagem profunda e independente sobre quantos gols Romário marcou _seria um bom serviço aos leitores.

Nossa Caixa
A principal matéria de Brasil (pág. A4), sobre a CPI da Nossa Caixa, tem o mérito de mostrar como, na Assembléia de São Paulo, o PSDB atua como o PT no Congresso em Brasília, e vice-versa.
Há uma omissão: o leitor fica sem saber qual o movimento do governador Serra. Ele joga para preservar sua base e Alckmin ou prefere o desgaste do ex-governador?
A sub sobre a queda das ações da Nossa Caixa tem uma insuficiência: não explica por que isso ocorreu.
Ao jornal diário não basta noticiar. Tem que explicar.

Renascer
Há passagens incompreensíveis no texto sobre a acusação do Ministério Público Federal contra os fundadores da Igreja Renascer (pág. A7).
Diz que "a produtora omitiu declaração de depósitos bancários de origem não comprovada e reduziu o valor de tributos a pagar do Imposto de Renda, do PIS e das contribuições sociais".
Que produtora? O texto não diz.
No pé, um advogado fala de uma empresa.

Que empresa?

O leitor também não é informado.

Padronização
Em textos de Brasil e Cotidiano, o jornal trata os antigos políticos pefelistas às vezes como pertencentes ao "DEM",
às vezes ao "DEM, ex-PFL".
Seria bom padronizar.

Iraque
A abertura da retranca "Carismático, Al Sadr destaca-se entre xiitas" (pág. A9) permite que o leitor imagine que o falecido ditador Saddam Hussein era xiita.
Ele era sunita. O jornal poderia informar.

Timor
Em vez de noticiar como foi ontem o pleito em Timor Leste, a Folha preferiu publicar uma entrevista (interessante) com uma professora da UNB. Entrevistas como essa enriquecem o jornal.
Mas o dia era para contar como estava a apuração, os resultados, como transcorreu a votação.
O leitor ficou sem saber.
As poucas informações ficaram perdidas na introdução da entrevista.

Argentina
O texto de alto de página "Morte de professor mobiliza milhares", sobre manifestações na Argentina, não cita o presidente Kirchner.
O que ele diz sobre os protestos? Quais são suas atitudes? Se as centrais sindicais pedem reajustes salariais, como ele reage?
A Folha deixa o leitor sem saber.
"O Globo" e o "Estado" trazem informações sobre o presidente.

Dono de restaurante
Em legenda de foto e no texto-legenda encorpado, um dono de restaurante é chamado de "restauranteur" na pág. B2. O correto é "restaurateur".

Custo subestimado
A nota "Estádio poderá ter nome estrangeiro" (pág. D1), sobre o estádio olímpico de Pequim-2008, diz que "mais de R$ 129 mi foram gastos em sua construção" Na verdade, o custo do estádio é de várias vezes aquele valor.

Mortes nas estradas
A matéria da capa de Cotidiano tem informações importantes.
O que ela dá a entender, porém, é que inexiste uma estatística nacional sobre mortes nas estradas, pelo menos durante a Semana Santa. Tal cálculo teria que incluir as rodovias federais e todas as estaduais.
É isso mesmo? O(s) governo(s) ignora(m) o número?
Nesse caso, além de informar o fato, a Folha poderia produzir uma estatística independente. Já fez isso com a dengue e a apreensão de drogas.
Dá trabalho, mas se presta um serviço ao leitor.

O drama do menino
A Folha não tem a história mais dramática do dia.
O jornal publica internamente a fotografia feita por Thiago Bernardes, do "Diário de São Paulo", mostrando um menino sendo resgatado do edifício São Vito após repressão policial a invasores.
O menino João Vítor, de dez meses, estava desacordado, com dificuldades respiratórias devido ao emprego de bombas de gás.
Ao leitor, é bom que o seu jornal informe antes. Quando isso não é possível, para o leitor o fundamental é ser informado.
A Folha deveria recuperar a história do bebê e também ouvir a PM sobre os métodos que usou.

Exército nas ruas
Foi muito bem a Folha na cobertura sobre segurança pública no Rio. Faz bem o jornal em exercer o ceticismo ao abordar as propostas do governador Sérgio Cabral.
A retranca "Ação da Força Nacional no Rio inclui apreensão de passarinho e 'fogo amigo'" parece a mais esclarecedora já publicada sobre a equipe de policiais enviada ao Estado do Rio.
Seria interessante o jornal comparar as propostas bombásticas de Cabral com os fatos na área de segurança. Talvez descubra que a principal reação do governador aos crimes de repercussão seja justamente isso: declarações de repercussão. Também caberia indagar ao governo federal por que o Exército pode invadir favelas no Haiti e não no Rio.

Erramos
O Erramos (publicado hoje) sobre a linha-fina da capa de Cotidiano do domingo passado, referente a relatório sobre controle aéreo, trata de sobretítulo. Ocorre que a linha-fina estava abaixo do título. Logo, não seria um sobretítulo.
Como explica acertadamente o Erramos, a linha-fina não poderia dizer que o relatório da Ifatca (Federação Internacional das Associações de Controladores de Tráfego Aéreo) "foi enviado a Lula".
Diz o Erramos: "o que a entidade enviou ao presidente foi uma carta para oferecer assessoria e consultoria".
O que escapa ao representante dos leitores é por que não houve Erramos da manchete dominical ("Entidade alertou lula de falhas no controle aéreo").
Se o relatório não foi enviado a Lula, o presidente não foi alertado pela Ifatca, que mandou apenas uma carta com a proposta de consultoria.

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