segunda-feira, 30 de abril de 2007

Para italianos, Lula faz "revolução prudente"

É sempre interessante analisar como os estrangeiros estão observando a política brasileira, porque muitas vezes o olhar externo, distante das pequenas questões locais, consegue enxergar a essência dos movimentos em curso. Na época do mensalão, por exemplo, aqui no Brasil não se falava em outra coisa, mas o assunto nem sequer era comentado no exterior, ao passo que a recuperação econômica do Brasil era notícia. Lendo os jornais de fora era mais fácil entender que Lula tinha, sim, boas chances de se reeleger.

Na reportagem abaixo, da BBC Brasil, reproduzida pela Folha Online, está a visão do jornal La Repubblica, um dos mais importantes da Itália. Vale a pena ler o texto e refletir sobre o conteúdo. "Revolução prudente" e "Brasil-potência" não são palavras ao vento.


"Revolução prudente" de Lula cria Brasil-potência, diz jornal
da BBC Brasil

Uma "revolução prudente" liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva está fazendo nascer uma "potência econômica" do Brasil, afirma matéria publicada nesta segunda-feira no jornal italiano "La Repubblica".

"Aquele líder barbudo que por muitos anos foi o espantalho do grande capital acabou se tornando o presidente do Brasil que agrada o mundo das finanças e da indústria", diz o texto.

"As empresas crescem, o mercado interno se desenvolve e também os capitalistas."

Em tom positivo, o artigo nota que "o Brasil mantém sua posição de guia do continente, maior exportador regional, e economia mais industrializada capaz de produzir fenômenos empreendedores notáveis".

"Famílias novas e tradicionais consolidam seus poderes e se expandem para o exterior", diz o "Repubblica", citando empresários como Roger Agnelli, que encabeça a Companhia Vale do Rio Doce, os banqueiros Joseph e Moise Safra, o governador do Mato Grosso e plantador de soja, Blairo Maggi, e os irmãos Constantino, da Gol.

No entanto, a matéria ressalva que "a transição para uma economia capitalista moderna permanece incompleta", porque ainda falta resolver "o problema da forte desigualdade".

"O país mantém as contradições de sempre, com um desenvolvimento econômico que não reduz as desigualdades e a incapacidade, nos últimos vinte anos, de criar um novo modelo de industrialização."

Competitividade

O diário argentino "La Nación" traz uma matéria em que descreve o debate, no Brasil, para "reverter a perda de competitividade".

"O Brasil perdeu posições em conhecimento e competitividade em relação à Argentina e outros países da América Latina", diz o texto.

O problema foi debatido em um encontro promovido pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), em que, segundo o jornal, os empresários "pediram políticas ativas" do governo: taxas de juros mais baixas, investimentos em inovação tecnológica e um marco regulatório mais simplificado.

De acordo com o diário argentino, empresários no encontro disseram que o país não pode pensar apenas em um plano nacional, e deve investir na regionalização econômica para garantir um desenvolvimento sustentável.

Efeito à distância

Preços de sucos de laranja já estão aumentando no Japão em decorrência da expansão das áreas de plantação de cana-de-açúcar para fabricação de biocombustível, afirma matéria do diário japonês "Yomiuri Shimbun".

Segundo o jornal, grande parte do efeito inflacionário se explica pela transformação de áreas de cultivo no Brasil, produtor de 60% de toda a laranja mundial. A menor oferta de laranja eleva o seu preço.

A matéria diz ainda que o aumento dos sucos de laranja já ameaça criar um "efeito dominó" sobre o preço de outros sucos de fruta industrializados.

domingo, 29 de abril de 2007

Lula lamenta morte do dono da Folha











O presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou na noite deste domingo uma nota lamentando a morte do empresário e dono do jornal Folha de S. Paulo, Octavio Frias de Oliveira, aos 94 anos. A nota, reproduzida abaixo, é sincera: Lula gostava bastante do "seu Frias", como o empresário era conhecido. Quem de fato não tinha e nem tem a menor simpatia pelo presidente é o filho e herdeiro Otavio Frias Filho, o Otavinho. Durante a campanha eleitoral de 2002, Lula foi almoçar na Folha e viveu um episódio constrangedor em função do comportamento agressivo de Frias Filho. Irritado, o então candidato à presidência decidiu ir embora antes do repasto terminar, não sem antes se desculpar com seu Frias, ele mesmo um tanto aborrecido com o comportamento do próprio filho.

No ano passado, Lula fez uma visita de caráter pessoal à casa de Octavio Frias de Oliveira. Como se pode observar na foto acima, reproduzida do encarte de imagens do livro de Engel Paschoal (A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira), o presidente Lula e o dono da Folha aparecem conversando bastante à vontade, ao lado de uma garrafa de Johnnie Walker Red Label, naquele que acabou sendo o último encontro dos dois. Lula gostava de Frias porque admirava a capacidade de trabalho e a sagacidade do homem que tornou a Folha um dos maiores e mais importantes grupo de mídia no País. Leia a seguir a nota oficial de pesar do presidente da República sobre a morte de Frias de Oliveira.

"Com a morte de Octavio Frias de Oliveira, o Brasil perde um dos seus mais lúcidos e destacados homens de imprensa. Responsável pela modernização do jornal Folha de S. Paulo e pela sua transformação num dos mais importantes órgãos de comunicação do país, o dr. Frias tinha uma personalidade marcante e cativante, que unia simplicidade, dinamismo, inteligência e confiança no Brasil.

Conheci-o nos anos difíceis em que lutávamos para superar o autoritarismo e reconquistar a democracia. Desde aquela época, ficamos amigos. Tinha por ele grande respeito e carinho. São esses sentimentos que, nesse momento, em meu nome e no do povo brasileiro, quero transmitir à sua família e aos colaboradores e leitores do grupo Folha.

Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República"

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Ainda sobre a briga Jabor vs. Chinaglia

Vale a pena ler o texto abaixo, do jornalista Luiz Weis, na íntegra. Originalmente publicado no blog Verbo Solto, o comentário do experiente jornalista avança em relação a alguns argumentos utilizados pelo autor destas Entrelinhas, em nota anterior, sobre a polêmica provocada pelo processo que o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), promete abrir contra o jornalista-cineasta Arnaldo Jabor . Weis é extremamente feliz em qualificar o trabalho de Jabor, e Diogo Mainardi, entre outros, como "jornalismo de insulto". É exatamente disto que se trata e os insultados estão corretíssimos em recorrer ao judiciário em busca da reparação, ainda que a crítica faça sentido ou seja meritória, como é o caso da indignação de Jabor com o desperdício de recursos públicos no legislativo federal. Em outras palavras, a crítica pode até ser justa, mas a forma imprópria transforma o que Jabor e Mainardi devem qualificar de "contundência" em um verdadeiro tiro no pé, como brilhantemente aponta Weis. A seguir, o texto do jornalista:

O nefasto jornalismo de insulto
Postado por Luiz Weis em 27/4/2007 às 10:18:58 AM

“No momento em que o Conselho de Ética anistiava deputados mensaleiros que foram reeleitos, dirigentes da Câmara e líderes partidários decidiram adotar duas medidas para se defenderem de críticas e cobranças: a votação de uma proposta de emenda constitucional (PEC) criando uma espécie de Advocacia Geral do Legislativo; e a abertura de um processo contra o comentarista Arnaldo Jabor, por críticas que fez à impunidade parlamentar.”

A informação é da repórter Maria Lima, do Globo. Nada s respeito, estranhamente, nem na Folha, nem no Estado.

Começando pelo fim. Em comentário na rádio CBN, Jabor disse:

“Todos sabemos que os nosso queridos deputados têm direito de receber de volta o dinheiro gasto com gasolina, seja indo para seus redutos eleitorais ou indo para o hotel com suas amantes ou seus amantes. A Câmara, ou melhor, você e eu, pagamos o custo, desde que eles levem notas fiscais para comprovar os gastos da gasosa. Será que o senhor Arlindo Chinaglia não vê isso ou só continua pensando no bem do PT? Quando é que vão prender esses canalhas? Ah, esqueci, eles têm imunidade, têm foro privilegiado, é isso aí amigos otários, otários como eu.”

O Brasil é um país livre. Jabor é livre para dizer o que pensa. O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, é livre para processá-lo por ofensa à honra. E eu sou livre para dizer que o processo vem em boa hora, assim como o que o agora ministro da Comunicação do governo, Franklin Martins, moveu contra o colunista Diego Mainardi, da Veja.

O que está em jogo, no caso do processo contra Jabor, não é o mérito de suas críticas ao mais do que reprovável comportamento dos deputados, a lambança que eles fazem com o meu, o seu, o nosso dinheiro. É a brutalidade mainardiana, ou reinaldo-azevediana, do protesto.

Situações de impunidade parlamentar estão na imprensa dia sim, o outro também. Nem por isso deveria ficar fora do alcance da Justiça a transgressão dos padrões elementares de civilidade, contida, no caso, na expressão “esses canalhas”.

Indignação e palavrão rimam, mas não são sinônimos. E deve existir, sim, nas sociedades que se pretendam decentes, uma coisa chamada decoro jornalístico.

Democracia e liberdade de expressão servem para a denúncia substantiva dos malfeitos dos poderosos, onde quer que estejam, sejam eles quais forem. A razão de ser da denúncia é informar a sociedade e os órgãos de proteção dos interesses difusos, quando couber.

Já a baixaria do insulto de porta de botequim e o exercício do ódio podem fazer bem ao ego dos seus autores, mas degradam a liberdade de que todos devemos usufruir. Não melhoram a democracia - e, de quebra, não ajudam em nada a mudar o muito que precisa mudar no comportamento dos donos do poder protegidos por seus privilégios.

De resto, assediados, o que fazem suas excelências, os parlamentares federais? Resolvem usar dinheiro público para criar uma advocacia própria para ele, já não bastasse o maior escritório do gênero no país que também os atende, a Advocacia-Geral da União.

O projeto de emenda constitucional para isso não é novo. Foi aprovado no Senado em 2003. O que se decidiu ontem na Câmara, informa o Globo, foi acelerar a sua tramitação.

Mas não custa registrar, primeiro, que a iniciativa partiu do então senador Ney Suassuna, acusado no ano passado de fazer parte da máfia dos sanguessugas. [Ele não se reelegeu].

E, segundo, que a decisão da Câmara coincidiu não só com a anistia do Conselho de Ética a três protagonistas de escândalos na legislatura passada – como apontou a repórter Maria Lima – mas ainda com a apresentação dos projetos de decretos legislativos que aumentam os salários dos legisladores, ministros e presidente da República em 29,81% e instituem um gatilho salarial automático, vinculado aos aumentos do funcionalismo federal.

Sim, dá vontade de cobri-los todos de impropérios. Mas, quando se é jornalista, ou, não sendo, quando se tem acesso à mídia para informar e formar a opinião pública, esse tipo de reação é nefasto: um tiro no pé.

Como lembra, mais do que oportunamente a matéria do Globo, “ano passado, o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) perdeu o emprego por causa de um texto em que chamava a CPI dos Correios de picadeiro e seus integrantes de bestas-feras.”

Notícias do serpentário

Está muito interessante o relato da jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, sobre a reação do maestro John Neschling, pela primeira vez em público, contra as tentativas do governador tucano José Serra de apeá-lo do cargo de regente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Não está no relato de Mônica, mas no blog de James Akel a informação de que a primeira-dama do Estado, Mônica Serra, passou grande constrangimento na quarta-feira, durante o concerto: o público aplaudiu calorosamente o anúncio das presenças de Fernando Henrique e Ruth Cardoso e também de dona Lila Covas. Quando foi anunciada a presença da primeira-dama, silêncio completo. O PSDB é mesmo um ninho de cobras criadas. A seguir, na íntegra, a matéria de Bergamo:


Neschling desabafa: "Por que eu tenho que sair?"

Aos gritos, o maestro John Neschling desabafava, no camarim da Sala São Paulo, na noite de quarta-feira: "Por que eu tenho que sair? Me diga? Por quê? Por quê?".

Neschling acabara de reger a orquestra num concerto em homenagem a Mario Covas (1930-2001) e em comemoração dos dez anos de construção da sala e de reestruturação da Osesp. Na platéia, uma cadeira vazia gritava: a de José Serra. O governador nunca escondeu que gostaria de ver Neschling longe da condução da orquestra, mas foi vencido na queda de braço com Fernando Henrique Cardoso, que preside a Fundação Osesp e fincou o pé na defesa do maestro.

"O que ele [Serra] quer fazer com a orquestra? Ele não diz. Quem ele quer colocar no meu lugar? Ele não diz. Ele não tem [quem colocar]. Ele tem poder para me tirar? Que tire! Ele não tem esse poder? Então para que essa briga toda? É muio difícil para mim, é muito difícil. O Serra não veio [à apresentação em homenagem a Covas], o [João] Sayad [secretário de Cultura] não veio. E no entanto o Fernando Henrique Cardoso veio, o José Ermírio, o Horácio Lafer Piva. Eu tenho o apoio do conselho da orquestra. Ela está maravilhosa, esplendidamente administrada, de forma transparente. Ele [Serra] quer me tirar? Então convença o conselho. Ou espere o meu contrato terminar." O contrato de Neschling vai até 2010.

O desabafo foi feito a José Henrique Reis Lobo, secretário de Relações Institucionais de Serra, e à produtora cultural tucana Lulu Librandi, os únicos que conseguiram entrar no camarim do maestro depois da apresentação.

A coluna também tentou entrar no camarim, mas foi barrada por Neschling. Seus gritos, no entanto, eram claramente ouvidos do lado de fora. Assessores do maestro que estavam na porta também testemunharam a gritaria.

Neschling revelou que sua relação com João Sayad é boa -ele até o convidou para seu casamento com Patrícia Melo, no dia 6 de maio. Mas o maestro diz que se recusa a receber assessores de Sayad com quem está brigado. Referindo-se a uma das assessoras, disse: "Essa não entra aqui!".

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Chinaglia vs. Jabor: quem tem razão?

A matéria reproduzida ao final desta nota, em versão da Agência Estado, retrata uma situação em que os dois lados têm razão. O jornalista Arnaldo Jabor se mostrou indignado com os suntuosos gastos dos parlamentares em Brasília. Ele tem razão, o gasto é de fato uma imoralidade. O presidente da Câmara, por outro lado, classificou com inadmissível o fato de Jabor ter qualificado os parlamentares de "canalhas" e anunciou que vai processar o colunista.

Chinaglia também está com a razão: Jabor se excedeu na crítica e expressou sua indignação de forma bastante imprópria, de forma que cabe, sim, um processo por calúnia e difamação. Na Justiça, o jornalista terá que provar que os 513 deputados federais são "canalhas" ou buscar um acordo, uma retratação. Tudo isto faz parte da democracia, não há nada de autoritário no ato de Chinaglia. Em uma conversa de botequim, qualquer brasileiro pode falar o que bem entende sobre a atuação dos parlamentares e de suas progenitoras, mas o mesmo não se aplica aos profissionais da imprensa. Acusou, tem de provar o que diz.

O lendário jornalista Paulo Francis morreu em consequência do stress causado por um milionário processo movido pela Petrobrás, nos Estados Unidos, depois de ter dito na televisão, direto de Nova York, que a direção da empresa roubava o erário. Francis sabia que seria condenado porque não tinha como provar a afirmação feita. Sabia também que a pena seria dura e viria rápida, porque Justiça norte-americana é célere e justa. Enfartou antes da condenação chegar.

Chinaglia pode lamentar que Arnaldo Jabor tenha dito o que disse em solo brasileiro e não no mesmo programa Manhattan Connection em que substituiu Francis, inclusive falando muitas vezes de Nova York. Hoje, aliás, a vaga que já foi de Francis e Jabor é do indefectível Diogo Mainardi, outro que corre sério risco de enfrentar um processo mais complicado, tamanhas as barbaridades que diz ou escreve em sua coluna na revista Veja. Jabor vai escapar desta, seus advogados provavelmente conseguirão um acordo para livrar a cara do ex-cineasta. É provável que ele continue expressando sua indignação de forma pouco apropriada, da mesma forma que Paulo Francis nunca parou, até a morte. No fundo, é uma pena, porque Jabor é talentoso e tem desperdiçado seu precioso tempo com bobagens udenistas e um anti-lulismo que beira a paranóia. Quem sabe voltar a fazer cinema não lhe fizesse bem...


Chinaglia diz que irá processar Jabor por ataque a deputados


Comentarista chamou deputados de ´canalhas´ ao falar sobre matéria do Estado que apontou gasto com gasolina de parlamentares em dois meses: R$ 11,2 milhões


Denise Madueño



BRASÍLIA - O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT), anunciou nesta quinta-feira, que vai processar o comentarista Arnaldo Jabor pelas críticas feitas aos deputados, na terça-feira passada, na Rádio CBN, ao comentar reportagem publicada na véspera pelo Estado. A matéria informava que os deputados gastaram, só nos dois primeiros meses deste ano, R$ 11,2 milhões com gasolina.

Jabor chamou os deputados de "canalhas" e disse: "Todos sabemos que os nossos queridos deputados têm direito de receber de volta o dinheiro gasto com gasolina, seja indo para os seus redutos eleitorais, ou indo para o hotel com suas amantes, ou seus amantes."

Chinaglia se referiu diretamente ao comentário de Jabor e foi aplaudido pelos deputados ao anunciar, no plenário da Casa: "Chegou ao nível do inadmissível. E, como é inadmissível, vamos, em nome da Casa, processar o jornalista Arnaldo Jabor." O presidente da Câmara anunciou que a iniciativa de mover o processo tem o objetivo de "defender a democracia e o povo brasileiro", e acrescentou: "A desqualificação da política não é um ato ingênuo, é retirar da mão popular e da sociedade o único instrumento para dirimir conflitos ou defender legítimos interesses."

Chinaglia anunciou também que pretende pôr em votação, em breve, a proposta de emenda constitucional (PEC), já em tramitação, que cria uma advocacia para a Câmara, a exemplo da Advocacia Geral da União.

Segundo a reportagem do Estado, os deputados gastaram, só em janeiro e fevereiro, 1 milhão de litros de gasolina, combustível suficiente para se dar a volta ao mundo 250 vezes - num percurso de 11 milhões de quilômetros.

"Todos sabemos", disse Jabor, "que os nossos queridos deputados têm direito de receber de volta o dinheiro gasto com gasolina (...). A Câmara, ou, melhor, você e eu, pagamos o custo, desde que eles levem notas fiscais para comprovar o gasto da gasosa". E concluiu: "Quando é que vão prender esses canalhas? Ah, eu esqueci. Eles têm imunidade, têm foro privilegiado. É isso, aí, amigos otários como eu."

Chinaglia foi aplaudido também ao afirmar que está defendendo a instituição, que todos ali têm representação popular. "Não pretendemos passar a idéia para a sociedade de que somos obscuros. Aqui estão os que têm a legitimidade de representar o povo brasileiro. Partimos do pressuposto de que são homens e mulheres honrados, assim como são os brasileiros que os elegem", disse o presidente da Câmara. Ele afirmou que todas as instituições cometem erros, mas que, "na Câmara, não há compromisso com qualquer o erro."

Jornais escondem os bons
números sobre emprego

Os principais jornais brasileiros não deram muita bola para os excelentes números da evolução do emprego no País, divulgados ontem em duas pesquisas distintas. Os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados) reveleram que em março foram criados 146 mil novos empregos com carteira assinada, resultado foi 91,15% superior ao verificado no mesmo mês de 2006 e recorde histórico desde 1992, quando a pesquisa começou a ser feita. Também a pesquisa do Seade/Dieese, que apontou um aumento no desemprego nas regiões metropolitantas em março é positiva, porque trata-se da menor taxa de desemprego para o mês de março em 10 anos. O desemprego normalmente aumenta nos três primeiros meses do ano porque é a época em que muita gente entra no mercado de trabalho para procurar emprego, provocando um efeito estatístico nas taxas. O correto, portanto, é comparar o nível com o de anos passados, e não com os meses anteriores.

Na Folha de S. Paulo, o assunto sequer rendeu chamada na primeira página e ficou escondido no meio do caderno Dinheiro. A chamada para a pesquisa do Dieese é um primor de manipulação: "Desemprego em S. Paulo tem taxa recorde no mês". Quem não atentar para o texto da nota ("A taxa de desemprego na região metropolitana de São Paulo subiu para 15,9% em março, mas o patamar é o menor para o mês em dez anos, divulgaram ontem a Fundação Seade e o Dieese.") vai achar que o recorde é negativo - o maior desemprego para mês de março...

No Estadão, o assunto rendeu chamada de capa, mas a retranca sobre os dados da Fundação Seade simplesmente não explicam que o índice foi o mais baixo em dez anos nem que o aumento em março se deve à sazonalidade. O Globo deu uma matéria honesta, em abre de página, mas também preferiu não dar o assunto na primeira página.

Os jornais podem se preparar: segundo o professor Cláudio De Decca revelou ao DCI, o atual aumento no emprego está se dando com uma taxa de crescimento do PIB de algo em torno de 3,3% a 3,5% ao ano. Ao longo de 2007, esta taxa anualizada deve subir até chegar aos 4% ou 4,5% previstos para o ano todo e o mercado de trabalho deverá refletir o crescimento. Mais recordes serão quebrados em breve. Lula, portanto, terá o que comemorar. Resta saber se os jornais terão coragem de dar o merecido destaque à recuperação do emprego no País.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Soninha e o PT, tudo a ver?

A vereadora paulistana Soninha (PT), que muito nos honra com a audiência, escreve para esclarecer uma nota antiga deste blog, sobre a sua eventual saída do PT. Diz ela:

Luiz Antonio, nunca foi verdade a "notícia" de que eu estava negociando minha ida para o PPS. As "cinco fontes" da Renata Lo Prete mentiram - ou ela entendeu muito mal... Eu não aproveitei a oportunidade para contestar a Folha; era a única coisa que eu podia fazer, depois de o Painel escrever algo que não era verdade. PS: O TSE não "decide" sobre perda de mandato; ele emitiu um parecer, que pode ou não ter ser confirmado pelo STJ. Abs, Soninha.

O esclarecimento é cristalino, mas cabem aqui duas considerações: não foi apenas a jornalista Renata Lo Prete que escreveu sobre uma eventual saída da vereadora do PT, o assunto circulou e quem acompanha os bastidores da Câmara garante que existiu uma aproximação de Soninha com o governador José Serra (PSDB). Neste blog jamais foi dito que o TSE "decide" sobre perda de mandatos, mas apenas que a interpretação mais dura sobre a fidelidade partidária poderia ter levado a vereadora a optar pela permanência no PT. De toda maneira, com os esclarecimentos de Soninha fica claro que esta versão, embora crível naquele contexto, não resulta verdadeira.

Para entender a popularidade de Lula (2)

Mais uma notícia, desta vez na versão da Folha Online, que ajuda a entender a popularidade nas alturas do presidente Lula. Lembrando a máxima do marqueteiro James Carville, que reelegeu Bill Clinton nos Estados Unidos, "é, sim, a economia, estúpido..."


Vendas de supermercados crescem 9,81% em março

KAREN CAMACHO, da Folha Online

Os supermercados recuperam-se das perdas registradas em 2006 e março deste ano tiveram alta real (já descontada a inflação) de 9,81% em relação ao mesmo mês de 2006, segundo a Abras (Associação Brasileira de Supermercados).

Na comparação com fevereiro, o crescimento real foi de 11,28%. No trimestre, as vendas acumulam aumento real de 7,35%, sobre os primeiros três meses do ano passado.

Segundo o presidente da Abras, Sussumu Honda, os números demonstram uma recuperação "consistente". Honda afirma que alta de março em relação a 2006 foi provocada dois fatores principais: o aumento do nível de consumo e o aumento dos preços dos alimentos, que foi de 0,98%, segundo o IBGE.

O aumento no volume de vendas ainda não foi calculado pela entidade. No entanto, ele estima que o crescimento esteja em torno de 5%, mesmo patamar de crescimento verificado em 2006.

O incremento das vendas de março sobre fevereiro pode ser explicado pela influência do maior número de dias (31 contra 28) e o fato do mês anterior ser período de Carnaval, quando aumenta a freqüência de refeições fora de casa.

A cesta AbrasMercado, composta por 35 produtos de largo consumo, incluindo alimentos, higiene e limpeza, registrou aumento real de 2,46% em março, em relação ao mesmo mês de 2006. O valor da cesta saltou de R$ 192,14 para R$ 202,70 em março deste ano.

Para entender a popularidade de Lula

A notícia abaixo explica o motivo pelo qual Lula tem a taxa de aprovação em mais de 60%. Só não vê quem não quer.

Geração de emprego formal no País cresce 91% em março

No acumulado do ano, alta no número de novas vagas formais é de 17,64%

Isabel Sobral


BRASÍLIA - O Cadastro Geral de Empregados (Caged) registrou em março a criação de 146.141 novos empregos com carteira assinada. O resultado foi 91,15% superior ao verificado no mesmo mês de 2006, quando foram gerados 76.455 postos de trabalho.

No primeiro trimestre do ano, o Caged acumula um saldo positivo de 399.628 novos empregos, contra 339.703 registrados em igual período do ano passado. Ou seja, no acumulado do ano, houve um crescimento de 17,64% no número de novas vagas de trabalho formais.

terça-feira, 24 de abril de 2007

O Judiciário é uma festa


Charge do Agê que estará no DCI desta quarta-feira

A malandragem da Folha e os gastos de Lula

A manchete da Folha de S. Paulo desta terça-feira é bem malandrinha, para dizer o mínimo: "Lula é recordista em publicidade". Quando o pobre leitor, já horrorizado com o presidente perdulário, que teria gasto mais de R$ 1 bilhão para a sua própria promoção no ano passado, lê a reportagem (e não é todo mundo que passa da leitura dos títulos), obtém algumas informações esclarecedoras: 75% dos gastos de publicidade em 2006 não são propriamente do governo federal, mas das empresas estatais, que entre outras coisas, têm de concorrer no mercado (Banco do Brasil, Petrobrás, Caixa Econômica Federal e tantas outras empresas). O bravo matutino da Barão de Limeira poderia ter informado, apenas para dar uma boa base de comparação, quanto gastam Bradesco e Itaú com publicidade por ano. É com eles, por exemplo, que o Banco do Brasil tem de competir...

A primeira constatação, portanto, é a de que Lula não gastou R$ 1 bilhão em publicidade, mas apenas 25% deste total. Seria muito mais interessante comparar as gestões FHC e Lula tomando como base os gastos apenas do governo federal propriamente dito (administração direta), excluindo as estatais. A razão é simples: sob Lula, as estatais foram responsáveis por um percentual maior da publicidade total do que sob Fernando Henrique Cardoso. Em outras palavras, o tucano Cardoso gastava muito mais em "auto-promoção" do que Lula. Mas isto, que pena, a Folha não explica.

Levando em consideração, portanto, o aumento da parcela das estatais no bolo total, o jornal não estaria errado se levasse para a sua manchete o título: "Gasto com publicidade do governo cai na gestão Lula". Em termos proporcionais, é exatamente isto que ocorreu, basta usar uma calculadora e os dados divulgados pela própria Folha:

*** sob FHC, o governo federal, excluindo estatais, gastou R$ 354 milhões em 98; R$ 251 mi em 1999; R$ 328 mi em 2000; R$ 339 mi em 2001; e R$ 281 mi em 2002.

*** Lula assumiu e os gastos caíram para R$ 172 mi em 2003, subindo para R$ 260 mi em 2004; para R$ 272 mi em 2005 e caindo para R$ 240 mi em 2006!

De duas, uma: ou o pessoal da Folha não sabe fazer conta, ou está de má vontade com o presidente Lula: você decide.

É a CPMF, estúpido...

O que está nos jornais nesta terça-feira corrobora a análise feita neste blog a respeito das conversas do presidente Lula com a oposição: a negociação está girando principalmente em torno da prorrogação da CPMF, matéria que demanda quórum qualificado de dois terços em cada uma das casas do Congresso Nacional. Na Câmara, o governo até teria uma situação tranquila, mas conseguir os dois terços do Senado não é tarefa assim tão fácil: DEM e PSDB juntos somam 32 dos 81 senadores da República, número suficiente para impedir a maioria de dois terços. Ao fim e ao cabo, é provável que a negociação acabe bem para o governo porque o presidente já acenou com o repasse de parte dos recursos da CPMF para estados e municípios e os oposicionistas não estão em condições de recusar dinheiro para os prefeitos e governadores da sua tropa. De toda maneira, será preciso conversar e é a isto que o presidente vai se dedicar nas próximas semana.

Rodini: a Justiça não pode virar Papai Noel

Em mais uma colaboração para o Entrelinhas, o diretor do instituto Engrácia Garcia, Jorge Rodini, escreve sobre a crise no Poder Judiciário. A seguir, o comentário de Rodini:

Desde criança, o menino ouve o pai dizer que a justiça tarda, mas não falha. A menina escuta a mãe afirmar que a Justiça é cega, que não privilegia quem quer que seja.

Quando vai crecendo, o guri ou guria começa a perceber que não é bem assim. Lê no jornal de credibilidade que uma mãe brasileira foi presa por furtar um pote de manteiga, que um pai de família foi detido por engano, mas que os deputados pegos com a mão na botija de um tal "mensalão" sequer perderam seus mandatos.

O correto passa a não ser justo... O justo jamais vai ser correto.Pensa o adolescente: que Justiça maluca é esta que meu pai me fez acreditar, a confiar piamente?

No fundo, todos nós estamos acordando para uma realidade. No Brasil, o crime não é organizado, já está faz muito tempo. Se não podemos mais confiar num Magistrado, iremos acreditar em quem? E as decisões penais, fiscais e trabalhistas envolvendo grandes corporações/interesses será que foram corretas e justas?

Muitos podem ter sido prejudicados por decisões destes magistrados averiguados. Muitos sem poder de fogo, de dinheiro, de pressão... Muitos brasileiros que não sabiam que eram ou que podem ter sido manipulados por membros da Justiça, escalados para defendê-los.

Enfim, é preciso que todos os envolvidos nesta teia sejam afastados e que todos os processos por eles julgados sejam auditados.Não pode pairar uma sombra de dúvida neste episódio de republiqueta, sob pena da Justiça virar Papai Noel ou Coelhinho de Páscoa, nos quais nós só acreditamos enquanto crianças. O duro é que muito adulto aposta e acredita no bingo.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

As conversas de Lula com a oposição

Primeiro foi o senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), depois os tucanos José Serra e Tasso Jereissati, este último na condição de presidente nacional do PSDB. E nesta segunda-feira, o presidente Lula recebeu no Palácio do Planalto o senador Romeu Tuma (DEM-SP). O que de fato representam as conversas do presidente com ilustres figuras da oposição?

Há quem diga que Lula quer governar sem oposição neste segundo mandato, daí a boa vontade com tantos de seus ferozes adversários. Não é bem assim. O presidente não é ingênuo e conhece bastante bem o jogo da disputa pelo poder. Aparentemente, Lula está realizando dois movimentos simultâneos: por um lado, estabeleceu uma ponte para dialogar com os governadores oposicionistas de São Paulo e Minas Gerais, ambos tucanos e desde já pré-candidatos à presidência em 2010. A intenção das conversas parece ser sobretudo iniciar uma negociação séria em torno de assuntos de interesse comum (aprovação dos projetos do PAC, prorrogação da CPMF e da DRU, rolagem da dívida dos estados e melhora nas políticas de segurança pública são alguns dos temas em debate). Lula tem muito poder e sua coalizão no governo é ampla, mas para algumas votações, precisará dos votos tucanos, até para aplacar a sanha de alguns aliados por cargos no segundo escalão.

O outro movimento político do presidente, de caráter bem distinto, se dá em relação aos neo-Democratas e antigos pefelistas. Lula opera com essa turma do jeito que sempre operou: semeando a discórdia para colher, na confusão, uma oposição mais fraca. Magalhães e Tuma não são propriamente figuras com voz de comando na atual configuração do partido. Pelo contrário: Magalhães está em franca decadência após a derrota para Jaques Wagner (PT) na Bahia e Tuma praticamente anunciou a sua saída da legenda, aguardando apenas o julgamento de mérito, no STF, da representação do DEM sobre a fidelidade partidária.

Lula sabe que a oposição mais radical ao seu governo está justamente no Democratas e faz o que manda a cartilha: tenta enfraquecer o adversário. Não dá para entender o movimento do presidente como uma estratégia de "cooptação", até porque nem Romeu Tuma e muito menos ACM aceitariam passar para a base governista – o eleitorado de ambos não permitiria. Desta forma, o que de fato está em curso é uma tática bastante sagaz de Lula, com o objetivo de dividir o inimigo e permitir assim a ampliação o espaço de atuação do seu próprio time. Cabe ao DEM mostra o grau de coesão da mais nova sigla da política brasileira.

Deputado José Eduardo Cardozo,
mas pode chamar de Mister Magoo

Se a notinha abaixo, divulgada pelo jornalista Ricardo Noblat em seu blog, for mesmo verdadeira, o petista José Eduardo Cardozo precisa urgentemente consultar um oftalmologista. A menos que tenha se tratado de uma retaliação tardia à famosa frase "Eu tenho medo", proferida pela atriz em questão na campanha eleitoral de 2002. Nos dois casos, convenhamos, Cardozo pisou na bola...

Duas historinhas sobre a mais recente edição do Fórum Empresarial de João Dória Associados realizado no último fim de semana em Comandatuba, na Bahia, e que costuma atrair nove de cada 10 estrelas do mundo político e empresarial:
* Feliz da vida por circular entre tantas celebridades, o deputado José Eduardo Cardoso (PT-SP) estancou diante de uma delas e a cumprimentou com um sorriso: "Sou seu fã, Vera Fischer".
Regina Duarte retribuiu o cumprimento com um sorriso.

*A VarigLog costuma mandar uma caixa enorme para o apartamento dos convidados do Fórum Empresarial de João Dória Associados . É para que eles a carreguem com os brindes que receberem das empresas que patrocinam o evento. A VarigLog faz a cortesia de despachar tudo sem cobrar um tostão.
- Tem uma caixa enorme e vazia lá no meu apartamento - comentou o deputado Albano Franco (PSDB-SE) com o senador Heráclito Fortes (DEM-PI). "O que faço com ela?"
- Não sei. Na caixa que recebi tem uma tv de plasma de 42 polegadas - respondeu Heráclito.
Cuidadoso, Albano tentou conferir a veracidade da informação. Não conseguiu.
No dia seguinte, apareceu outra caixa vazia da VarigLog no apartamento dele. Dessa vez, foi Heráclito que mandou.

Só para constar: Serra já desmentiu Marchi

O governador José Serra já desmentiu no blog do jornalista Reinaldo Azevedo o teor da reportagem de Carlos Marchi, publicada domingo no Estadão e comentada na nota anterior. Reinaldão, que é um serrista roxo, tem uma avaliação semelhante a deste blog sobre as chances de uma aliança entre o PT e o PSDB com vistas às eleições de 2008 e 2010: não há o menor perigo de que isto de fato aconteça. Pelo teor da resposta de Serra a Reinaldo, as fontes da matéria de Marchi são tucanos, mas do grupo que não está querendo muito dar mole para Serra - só não dá para saber se seriam os "alquimistas" ou os apoiadores do mineiro Aécio Neves. De toda maneira, a matéria de Carlos Marchi serve para mostrar que, definitivamente, o PSDB é um grande ninho de cobras. Muita água vai rolar debaixo de ponte até a definição do nome do candidato tucano a prefeito de São Paulo e este será o primeiro round de uma guerra que promete fortes emoções até a definição do futuro presidenciável do PSDB.

domingo, 22 de abril de 2007

Serra apoiado por Lula:
reportagem ou delírio?

A matéria reproduzida no final deste comentário, publicada neste domingo no jornal O Estado de São Paulo, não foi redigida por um foca afoito, mas por um dos bons repórteres de política do país, o experiente Carlos Marchi. A tese apresentada por Marchi soa estapafúrdia: o governador José Serra (PSDB) estaria tentando se aproximar do presidente Lula e do PT para ser ele próprio o candidato apoiado pelo atual governo nas eleições presidenciais de 2010. Em troca, a negociação "incluiria" a cessão para o PT da prefeitura de São Paulo, em 2008, e do governo paulista, em 2010, que poderia acabar no colo do próprio presidente Lula.

Marchi não é bobo e se publicou esta tese, é porque alguém soprou a história para ele, redondinha. O repórter não revela as fontes da informação que obteve, o que dificulta um pouco a avaliação da versão relatada. Este blog, no entanto, avalia que muita coisa no mundo real conspira contra a versão de Marchi e acha que a matéria em questão ou serve a interesses de algum dos grupos que disputa o comando do PSDB ou é pura "cascata", como se diz no jargão da profissão. Senão vejamos:

Serra não pode prometer a prefeitura de São Paulo para Marta Suplicy ou outro petista qualquer pelo simples motivo que não tem efetivo controle da máquina partidária tucana em São Paulo. Hoje, Geraldo Alckmin só não seria candidato do PSDB à sucessão de Gilberto Kassab (DEM) se realmente não quisesse. Ademais, seria um risco enorme para Serra entregar de mão beijada a prefeitura de São Paulo ao PT e confiar no tal acordo – petistas não são muito de cumprir acordos. A rigor, Serra poderia estar justamente dando vitamina para uma candidatura petista, qual seja a do prefeito (a) eleito (a) de São Paulo, que pela lógica das atuais circunstâncias seria a ex-prefeita Marta Suplicy.

Marchi não explica o que Serra ofereceria ao seu valoroso companheiro Geraldo Alckmin neste estranho acordo que só benefica os petistas. Nem a prefeitura nem o governo paulista ficam com o PSDB, tudo em nome da chegada de Serra à presidência. Pelo quadro delineado, é lícito supor que Alckmin no mínimo estaria fora do PSDB, provavelmente brigando pela mesma presidência no DEM ou outro partido que lhe oferecesse a legenda.

Há outro problema sério na matéria de Marchi: só quem não conhece bem o PT pode imaginar que o presidente Lula conseguiria impor que o seu partido deixasse de concorrer à presidência da República em 2010. Esta história já circulou quando Lula esteve reunido com os caciques do PMDB, que cobraram "apoio do presidente" à candidatura própria peemedebista em 2010. Lula pode falar o que quiser, mas este blog aposta que o PT terá, sim, candidato a presidente em 2010. E não será um nome para constar, mas para disputar o poder: Jaques Wagner ou Marta Suplicy são as opções mais óbvias, mas podem surgir outras. Imaginar que o PT vai aceitar uma candidatura "de consenso" do governador José Serra é o mesmo que, para usar uma analogia bem ao gosto do presidente Lula, acreditar que os corintianos algum dia entregariam o jogo para dar um título de campeonato ao Palmeiras. Inimaginável.

A matéria de Marchi, no entanto, pode até estar correta em sua apuração: é possível que esta conversa esteja correndo no tucanato e também entre petistas. Resta saber se a versão é sincera, o que este blog duvida, ou mera intriga de alguém bem posicionado entre os grãos-tucanos que estão de olho na cadeira de Lula, a saber os governadores José Serra, Aécio Neves e o ex-governador Geraldo Alckmin. Se pudesse apostar, o blog diria que a história foi contada a Marchi por um aliado de Alckmin.


Serra quer apoio de Lula para disputar Presidência

Carlos Marchi

Agora é oficial: o PSDB inteiro já sabe - e parte aprova, parte está desconfiada - que o governador José Serra cumpre uma estratégia ao se aproximar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. Serra constrói pontes de aproximação sonhando em ser o candidato do PSDB à Presidência com o apoio de Lula e, para tanto, está disposto a aceitar um acordo para ceder a Prefeitura de São Paulo aos antigos adversários, disse ao Estado um seu fiel aliado.

As primeiras conversas revelaram que o PT quer mais: para dar a Serra a Presidência de mão beijada, os petistas querem a Prefeitura de São Paulo e o próprio governo paulista em 2010, sendo que este último poderia, se necessário, acomodar o próprio Lula, enquanto espera por 2014 ou 2015. Esse cenário, além de revolucionar as perspectivas políticas para a sucessão presidencial, pode dar a Serra a condição excepcional de ser um candidato de consenso em 2010.

Em janeiro, quando tomaram posse o presidente e os novos governadores, ninguém apostaria que apenas quatro meses depois Serra se situaria como um interlocutor privilegiado de Lula e do governo. Até então, o governador Aécio Neves (MG) era tido como o melhor amigo do presidente no PSDB. Cenários traçados até então sugeriam que Aécio poderia deixar o PSDB para ser candidato em 2010 com o possível apoio de Lula.

Nesses quatro meses, Serra se dedicou a construir pontes com Lula e o PT. Primeiro, mandou os aliados apoiarem o petista Arlindo Chinaglia (SP) na eleição para presidente da Câmara. Serra tem como interlocutores no plano federal a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) - os dois têm trocado constantes elogios -, Chinaglia e o deputado Cândido Vaccarezza (SP), ligado à ministra Marta Suplicy (Turismo).

Estando próximo do PT, Serra impede que Aécio evolua no antigo projeto de ter, em 2010, o apoio de Lula. Em Minas, Aécio tem acompanhado em absoluto silêncio os movimentos de Serra e orientou seus aliados a não se manifestarem. Como principal alegação, tem dito que é muito cedo para decidir a eleição de 2010.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Sobre o que Lula e Tasso conversaram?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou ontem o presidente do PSDB, Tasso Jereissati, para uma conversa no Palácio do Planalto. Já há algumas versões da conversa nos sites e até mesmo nos jornais desta sexta-feira, quase todas baseadas nas declarações do próprio Tasso após o encontro. É óbvio que Jereissati não vai contar tudo para os repórteres e talvez só revele o que discutiu com Lula para poucas lideranças de seu partido. Uma parte da pauta é de conhecimento público – negociações em torno da prorrogação da CPMF e da DRU, projetos do PAC, as tais Zonas Especiais de Exportação (ZPEs). Sobre tudo isto, há pouco o que comentar – faz parte do jogo político o entendimento entre governo e oposição em torno dos assuntos de interesse de ambos os lados.

O mais interessante do encontro, porém, é o fato de ele ter ocorrido menos de 24 horas após o presidente Lula ter recebido, também no Palácio do Planalto, o governador paulista José Serra, também tucano. Serra teria aberto uma interlocução com Planalto por meio da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Segundo informação do jornalista Bob Fernandes, no site Terra Magazine, Dilma e Serra tem conversado bastante e inclusive já cearam juntos no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

A aproximação do governo com os tucanos pode significar uma trégua política, pelo menos até a eleição de 2008. Não interessa nem a Serra nem a Aécio Neves, outro presidenciável do PSDB, um clima de belicosidade neste momento. Serra e Aécio querem paz para tocarem os seus projetos em São Paulo e Minas Gerais e para isto também precisam de tranquilidade nas assembléias estaduais, coisa que Lula pode ordenar ao PT que lhes garantam. Mais importante, os dois precisam de recursos do governo federal e para isto a boa vontade do presidente é fundamental.

A verdade é que há cheiro de um acordão no ar. Os Democratas já sentiram o novo clima e reclamam da postura tucana. Estão cada vez mais isolados na oposição.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

A política econômica está mudando?

O artigo abaixo, do autor destas Entrelinhas, é a coluna semanal para o Shopping News, encarte que circula com o DCI às sextas-feira.

A indicação do economista Luciano Coutinho para a presidência do Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e as recentes mudanças de diretores do Banco Central podem ser os primeiros sinais de modificações, ainda tênues, na política econômica do Governo Federal para este segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ninguém imagina que o governo vá realizar mudanças radicais, abandonando a política de metas de inflação, mandando às favas o alto superávit primário ou reduzindo muito a carga tributária. Não é disto que se trata. Lula tem muito claro que a correlação de forças políticas do Brasil de hoje não permite a ele realizar um governo autenticamente petista. Assim, ele executa um programa intermediário, repleto de concessões ao capital financeiro, acordos com a elite industrial e do agronegócio nacional.

No primeiro mandato, o presidente foi levado a executar um programa bastante ortodoxo, a fim de convencer o distinto público sobre a adesão de seus comandados à responsabilidade fiscal, respeito aos contratos, enfim, à chamada “economia de mercado”. O ex-ministro Antônio Palocci, comandante da economia nesta fase, foi de tal maneira identificado à ortodoxia que muita gente se referia ao “paloccismo” quando queria falar do excesso de zelo da política econômica de Lula.

Agora, o presidente quer fazer o Brasil crescer mais rápido e a taxas mais elevadas. Lula sabe que não adianta nada provocar uma taxa de desenvolvimento muito alta sem promover as condições de infra-estrutura para que o País suporte as chamadas “dores do crescimento”, daí a ênfase do Plano de Aceleração do Crescimento neste setor. Além das medidas do PAC, o presidente indicou, com a nomeação de Coutinho, que o setor financeiro não será “dono” do BNDES, como tanto desejava o ministro Miguel Jorge. E a se confirmar uma queda maior dos juros, o resultado deve ser mesmo mais crescimento, com geração de emprego e renda acima do que ocorreu no 1° mandato. Talvez Lula queira passar para a história como o presidente dos 8 anos de crescimento ininterruptos. Ou talvez seja esta a plataforma eleitoral para 2014 (ou 2010).

Fogo amigo ou mudanças à vista?

A informação abaixo é do blog do jornalista Lauro Jardim, da revista Veja. Confirmada a nomeação, trata-se de mais um soldado, dentro do governo Lula, a lutar contra a ortodoxia da política econômica do próprio governo. José Carlos Assis não é apensa assessor do vice José Alencar e amigo de Luciano Coutinho. É um dos economistas mais críticos ao chamado paloccismo, muito mais, por exemplo, do que Júlio Gomes de Almeida, que foi recentemente defenestrado da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda justamente por discordar da política monetária de Henrique Meirelles. Dito isto, ou o presidente Lula está semeando tempestade para colher fogo amigo, ou vai mesmo realizar algumas mudanças no rumo da política econômica neste segundo mandato.

BNDES
Os desenvolvimentistas estão chegando...
É dada como certa a nomeação do jornalista e economista José Carlos Assis para a diretoria Social do BNDES. Algumas de suas credenciais pessoais: é o assessor econômico do vice José Alencar (que há tempos quer vê-lo no governo) e amigo de Luciano Coutinho.

E se o juro cair 0,5 na próxima reunião?

O Banco Central de Henrique Meirelles é o grande saco de pancadas do governo. Dos industriais da Fiesp aos sindicalistas da Força Sindical, todo mundo adora falar mal do conservadorismo do Copom, que tem mantido a taxa de juros básica da economia em níveis altos. O esporte nacional do chamado "setor produtivo" é espancamento de Meirelles. Para a esquerda petista e partidos de esquerda aliados do governo, o presidente do Banco Central é uma espécie de "desculpa permanente" para qualquer tipo de problema da gestão Lula. Funciona mais ou menos assim: não tem reforma agrária? O Meirelles é que não deixa. O crescimento ficou aquém do esperado? Culpa do Meirelles. A lista é longa, mas o fato concreto, como diria o presidente Lula, é que a taxa de juros do Brasil vai convergindo para a dos demais países emergentes.

Ademais, na reunião de ontem, a votação no Copom foi apertada: 4 a 3 pela redução de 0,25. Os três votos contrários foram de diretores que queriam reduzir a taxa em meio ponto percentual. Como o conservador Rodrigo Azevedo está de saída do BC, é lícito supor que na próxima reunião já deve haver uma queda maior da Selic. Se a taxa realmente cair em 0,5, a turma da Fiesp e da Força terá coragem de aplaudir a medida ou continuará reclamando do Judas de plantão, Henrique Meirelles?

Selic cai para 12,5%

A taxa de juros brasileira é alta? Sim, muito alta. É a maior do mundo? Pode até ser, mas isto não é certo: as pesquisas comparativas em geral levam em conta no máximo 50 países. Nenhum economista brasileiro sabe a taxa da Guiana Francesa (14% em 2004, segundo o Google), por exemplo... De toda maneira, entre os países pesquisadas, a taxa do Brasil é, sim, a maior. Está tudo muito certo, mas há algo que não dá para esconder: com a queda da Selic para 12,5%, o Brasil tem hoje a menor taxa nominal da história. É chato para os Democratas (com maísucula, porque são os ex-pefelistas – não confundir com os democratas, com minúscula, que são os cidadãos que professam a crença na democracia) e tucanos, mas o fato aconteceu no governo Lula. Aliás, daqui para frente vai ser recorde atrás de recorde: juros, risco-país, exportações, mercado de capitais e tantos outros indicadores econômicos. Tudo sob Lula, para a tristeza de Fernando Henrique Cardoso, que achava que tinha dado "o melhor de si". Como diz o velho ditado, é fácil falar, difícil é fazer.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Nomeação de Luciano Coutinho para o
BNDES é vitória da ala esquerda do governo

Os militantes da esquerda do PT adoram dizer que o governo Lula "está em disputa", o que na verdade é uma forma de justificar os vários acordos feitos pelo presidente com forças de centro e até de direita no espectro político. Os petistas mais radicais não engolem, por exemplo, os ministros Reinhold Stephanes (Agricultura), Márcio Fortes (Cidades) e muito menos o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Se disputa há, pelo menos no que diz respeito à política econômica a esquerda tem perdido todas. Nesta quarta-feira, porém, o presidente Lula decidiu manter o BNDES nas mãos das alas mais críticas à política econômica e nomeou o economista Luciano Coutinho (foto) para a presidência do banco. Não é pouca coisa: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social é o principal instrumento de financiamento do governo federal e a alternativa a Luciano era um ex-vice-presidente do banco Santander, indicado pelo ministro Miguel Jorge. Entre o Santander e a Unicamp, Lula escolheu ficou com a segunda opção e o nome agradou até mesmo gente da extrema esquerda não-petista.

As tantas voltas que o mundo dá...

Se a informação abaixo, da jornalista Renata Lo Prete, editora do Painel da Folha de S. Paulo, estiver correta, o presidente Lula terá conseguido mais uma proeza na ampliação de seu arco de alianças: Mangabeira Unger, no auge da crise do mensalão, apoiou a solução de impeachment de Lula e chegou a escrever um artigo para a Folha intitulado "Deve o presidente ser impedido?", também reproduzido abaixo, datado de 16 de agosto de 2005. Agora, não só Mangabeira tem elogiado o "estadista" Lula, como participará do governo...

Ministro novo
Em encontro amanhã no Palácio do Planalto, Lula convidará Roberto Mangabeira Unger, professor titular de direito na Universidade Harvard, a assumir a Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo, órgão com status de ministério a ser criado pelo presidente. Fundador e vice-presidente do PRB, partido de José Alencar, Mangabeira coordenou o programa de governo de Ciro Gomes na campanha de 2002.Ficarão sob o guarda-chuva da nova secretaria o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), hoje vinculado ao Ministério do Planejamento, e o NAE (Núcleo de Assuntos Estratégicos), órgão criado em 2004 e que já foi chefiado pelo petista Luiz Gushiken.


ROBERTO MANGABEIRA UNGER, 16/08/05

Deve o presidente ser impedido?

Há dois preconceitos a afastar. O primeiro preconceito é que impedimento equivale a golpe. No presidencialismo, a perspectiva de derrotar o presidente em eleição subseqüente não basta para responsabilizá-lo. A faculdade de impedi-lo serve de contrapeso ao perigo que de ele abuse da oportunidade para favorecer os amigos, desfavorecer os adversários e confundir negócio com governo. Sem esse contrapeso, cai o regime em sorvedouro de negocismo e de intimidação. Inevitável que a oposição clame mais forte pelo uso do contrapeso. Impedimento presidencial, porém, não é plebiscito informal; é escudo da integridade do regime.

O segundo preconceito é que basta comprovar crime de responsabilidade do presidente para justificar seu impedimento. Não basta: o juízo também tem de ser de conveniência, mas num sentido que subordine as pequenas conveniências e que pense grande pelo país.Ainda não são suficientes os elementos para concluir que o presidente haja incorrido em crimes de responsabilidade contra "o livre exercício do Poder Legislativo", "o exercício dos direitos políticos" (especialmente o direito de voto), "a probidade na administração" e "o cumprimento das leis".

Falta pouco, porém, para que sejam suficientes. Há indícios fragmentários de que ele se envolveu, diretamente ou por meio de agentes, em tratativas com grandes interesses privados em troca de financiamentos políticos ilegais. E que radicalizou em entendimento bruto das regras do jogo, justamente quando a nação, nisso estimulada por sua pregação, começava a cobrar maior rigor ético de seus mandatários.

Por isso, não vale a desculpa de que outros também fizeram.Numa democracia mais enraizada do que a nossa, haveria razões para não reivindicar o impedimento, a começar pela proximidade das eleições de 2006. Entre nós, contudo, tais razões abrem espaço para o estadismo maroto que vê na manutenção do presidente o mal menor: por não se confiar no sucessor, ou por não se querer incomodar os "mercados", aliados, no incômodo, aos movimentos sociais aparelhados.

No Brasil de agora, duas conveniências republicanas sobrepõem-se a todas as conveniências politiqueiras: responsabilizar os políticos, afirmando o primado inflexível da lei (não conquistamos ainda o direito à flexibilidade confiável). E evitar que a sucessão presidencial degenere em luta sobre o passado, em vez de tornar-se luta sobre o futuro.Confirmados os indícios de que o presidente haja cometido crimes de responsabilidade, deve o Congresso acelerar seu impedimento.

Se o presidente e o vice-presidente forem impedidos juntos, deve o Congresso, expurgado dos que se alugaram ao governo, eleger novo presidente da República para completar o mandato, como manda a Constituição. O Congresso demonstrará sabedoria e grandeza se eleger, nesse caso, um cidadão fora de seus quadros: um jurista sereno, com autoridade moral e afinado com os compromissos em nome dos quais se elegera o presidente impedido -como o dr. Fábio Konder Comparato-, que presidirá, como magistrado, as eleições de 2006.

Com isso, afastará o Congresso a sombra do golpismo e da usurpação. Em seguida, deve voltar-se a nação, sem medo e sem rancor, com o espírito inspirado pela reafirmação do ideário republicano, para a escolha de novo rumo e de novos líderes.

Roberto Mangabeira Unger escreve às terças-feiras nesta coluna.



terça-feira, 17 de abril de 2007

Uma chacina americana, por Alberto Dines

Está muito interessante o artigo do diretor do Observatório da Imprensa sobre os trágicos acontecimentos em Virgínia, nos Estados Unidos. Vale a pena ler na íntegra, abaixo:


BLACKSBURG, VIRGÍNIA, 16/4/2007
Loucuras de abril: Columbine, Unabomber, Oklahoma...


A chacina da escola em Columbine ocorreu em 20/4/1999.

O Unabomber, Theodore Kaczynsky, matemático anarquista que desde 1978 enviou 16 cartas explosivas a professores, cientistas e astronautas, finalmente assumiu a responsabilidade pelos atentados numa carta enviada ao New York Times. Data: 24/4/1995.

Uma picape carregada com duas toneladas de explosivos explodiu em frente a uma repartição federal em Oklahoma dias antes: 168 mortos, muitos negros e hispânicos. Data: 19/4/1995.

Nasce em Braunau, Áustria, aquele que entrará para a história da humanidade como o maior e mais frio genocida: Adolf Hitler. Data: 20/4/1889

Coincidências.

O nazismo não inventou o terrorismo moderno, nem o desprezo pela vida humana, nem o sacrifício de inocentes, nem a eliminação sistemática e científica de milhões de homens, mulheres e crianças.

A culpa é dos chimpanzés.

No site G1, na noite de segunda-feira (16/4), logo abaixo do relato sobre a matança em Blacksburg apareceu uma "curiosidade" cientifica: os chimpanzés evoluíram mais do que o seu parente humano, o número de suas proteínas é 50% maior. Explicação: os símios enfrentaram mais desafios para sobreviver e, no processo para preservar os mais aptos, desenvolveram-se mais do que seus primos altamente civilizados.

Choque das civilizações

Primatas, mesmo ferozes como gorilas ou orangotangos, só matam para comer ou se defender. Não dominam a Natureza – ao contrário, são dominados por ela. Empregam todas as suas energias e instintos para sobreviver. Desconhecem o ato de matar por prazer ou para satisfazer outros impulsos insaciáveis.

Chimpanzés não estudam a violência, nem produzem leis contra os crimes hediondos. Não têm magistrados, nem parlamentos, jamais pensaram cem CPIs. Deixaram essa parafernália para as raças superiores. Tampouco se inscreveriam no Partido Nacional Socialista de Hitler.

O ser humano domina o universo, compete com os deuses, considera-se dono do seu destino, desenvolveu requintadas teorias e sublimes crenças para justificar todos os seus atos. Chacinas num campus universitário, massacres num mercado no Iraque ou a eliminação total de uma raça "inferior" já não o espantam. Banalidades, chatice. Telenovelas, pelo menos, são mais trepidantes.

Mentes racionais e organicamente sadias vem sendo treinadas há milênios para conviver com a idéia de aniquilar os semelhantes considerados indignos de viver. O choque das civilizações existe, sim. Entre homens e chimpanzés. E estes, a persistir sua evolução, podem ganhar de goleada.

Matriz da apatia

Os tiros em Blacksburg, Virginia, nada têm a ver com a mídia. Mas no Jornal Nacional de segunda-feira (16/4), em seguida à impressionante reportagem produzida pelos seus repórteres nos EUA, apareceu um longo comercial da cerveja Skol para promover um dos seus festivais de alegria.

Ode a violência disfarçada pelo "misticismo" do Kung Fu, às 21 horas, horário dito familiar, destinado a proteger crianças e adolescentes de influências viciosas, pouco edificantes e perturbadoras. Nada a ver com o aniversário de Hitler – os geniais integrantes do departamento de marketing não têm saco para estudar a história contemporânea.

Os tiros em Blacksburg, Virginia não têm relação com a mídia. A mídia não pode ser bode expiatório de todos os males. Mas três dias antes, sexta-feira (13/4), o New York Times publicou um extenso relatório produzido pela Federal Trade Comission mostrando o preocupante aumento nas vendas de games e filmes violentos para jovens [ver "Report Says the Young Buy Violent Games and Movies", em inglês].

O assassino de Blacksburg não deve ser consumidor de games, está num estágio superior, foi preparado numa academia de serial-killers tão sofisticados que sequer pretendem a fama. O novo monstro, segundo os despachos da madrugada de terça, preferiu esfacelar o rosto com um tiro para não se reconhecido. Modéstia.

Ninguém é culpado pelo que acontece no mundo. Esta é a mais dolorosa verdade produzida pela modernidade, matriz da apatia, paradigma da leniência que permitiu aos chimpanzés parecer mais evoluídos do que os homens.

***

Adendo: uma banda sueca deu o nome de "Kaczynski", o Unabomber, a uma de suas músicas. Outra banda, esta italiana, tem o "Kaczynski Code" no repertório. Também a Sleepytime Gorilla. A mídia nada tem a ver com isso.

Servindo a dois senhores?

Notinha do colunista social Giba Um:
Convidado especial -
Não será surpresa se José Bonifácio (Boni) de Oliveira Sobrinho, ex-Rede Globo e responsável, depois do período de Walter Clark, pelo padrão Globo de qualidade , venha a participar, como consultor, do projeto de instalação da nova TV pública do Governo Federal. Detalhe: não é uma iniciativa do ministro Franklin Martins. É uma decisão do presidente Lula.

Notinha da colunista Mônica Bergamo:
ORÁCULO - Boni, o ex-manda-chuva da Globo, tem sido um dos interlocutores da equipe do governador José Serra para a reestruturação da TV Cultura.

Ou Boni é muito esperto ou alguém comeu bola na apuração.

Bovespa perto dos 50 mil pontos

O indicadores do mercado financeiro continuam muito favoráveis no Brasil. Nesta semana, a Bolsa de Valores de São Paulo deve bater uma nova marca histórica, rompendo os 50 mil pontos (está em 49 mil e com tendência de alta na manhã desta terça-feira). O risco-país segue em queda e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, faz lobby junto às agências de classificação de risco, nos Estado Unidos, para que o Brasil receba logo o chamado "investment grade". É de fato cada vez mais provável que o país receba em breve esta deferência do mercado financeiro internacional e entre no clube de países considerados seguros para os investidores. Isto vai se traduzir em mais dólares aqui dentro, pressionando o valor da moeda americana para baixo e abrindo ainda mais espaço para uma queda maior na taxa de juros. Se nada mudar no cenário internacional, o segundo mandato de Lula deve se dar com esta perspectiva: inflação sob controle, juros mais baixos, risco país em queda e real apreciado. Se esta equação vai permitir maior ou menor crescimento econômico para o Brasil, só o futuro vai dizer.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

A jóia da coroa do segundo escalão

A reforma ministerial já terminou, mas alguns cargos de segundo escalão estão sendo objeto de disputa tão acirrada quanto foi a das vagas na Esplanada, já devidamente repartidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O mais cobiçado sem dúvida é o comando do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), hoje presidido pelo jovem economisa Demian Fiocca. Pelo que corre nos bastidores, estão no páreo Luciano Coutinho, que seria o preferido do PT e até mesmo do presidente Lula, e Gustavo Murgel, ex-vice presidente do Banco Santander e nome indicado pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge. Obviamente, a escolha é do presidente Lula, o que não quer necessariamente dizer que Coutinho larga na frente. A escolha será o resultado de um delicado processo de negociação com as forças que compõem a aliança governista e já há até quem aposte na permanência de Fiocca no posto. Muito a grosso modo, o significado da disputa é o seguinte: a nomeação de Murgel significará que Miguel Jorge pode começar a ser realmente chamado de superministro, pois nem Luiz Fernando Furlan conseguiu, ao logo do primeiro mandato, emplacar um candidato seu na presidência do Banco. Pode ser que Lula goste da idéia de ter em Jorge uma alternativa para o poder hoje concentrado nas mãos de Dilma Rousseff e Guido Mantega. A entrada de Coutinho no governo seria certamente vista como uma concessão à esquerda, em uma jogada semelhante à nomeação de Carlos Lessa para o comando do banco início do primeiro mandato. O pessoal da ultra-esquerda ficaria um pouco aborrecido com mais esta demonstração de, digamos assim, afastamento do neoliberalismo por parte do presidente da República. E a permanecer Fiocca, sai vitorioso o sempre low profile Guido Mantega. Voltaremos ao assunto tão logo o imbróglio seja resolvido.

Cesar Maia explica a política de São Paulo

A notinha abaixo, do ex-blog do prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia (DEM), ajuda muito a entender a quantas anda a política paulista. O mais interessante é que Maia foi um aliado de primeira hora do então prefeito José Serra (PSDB) na pré-campanha para a Presidência da República, vencida pelo então governdor Geraldo Alckmin, também tucano.

DOMINGO, DIA DE PRAIA NO RIO ! DOIS DEPUTADOS FEDERAIS DO PT DE SP CONVERSAVAM ALEGREMENTE EM TORNO DE DOIS COPOS DE CHOPP E VÁRIAS BOLETAS CIRCULARES QUE MOSTRAVAM O CONSUMO. ASSUNTO: SOBRE A ELEIÇÃO PARA PREFEITO DA CIDADE DE SP, EM 2008:

Deputado A- " Em S. Paulo a situação está difícil para nós. Acho difícil alguém ganhar do Alckmin".

Deputado B- " Tranquilo ! Tranquilo ! O Serra se encarrega disso. ! Vai atropelar o Alckmin para nós".

Deputado A- " Tem certeza ? "

Deputado B- " Certeza e exemplo: foi assim com o nosso Chinaglia e vai ser assim com a nossa Marta".

Deputado A- " Êta amigão. Com o Mercadante seria muito mais difícil".

Questão de lógica

Este blog recebeu uma mensagem de um leitor comentando a nota anterior, sobre a reeleição: "se Fernando Henrique é contra o fim da reeleição, então a medida deve ser boa para o Brasil. É uma questão de lógica", afirma o missivista, que pediu para não ser identificado...

domingo, 15 de abril de 2007

A quem aproveita o fim da reeleição?

Os principais jornais deste final de semana trazem alentadas entrevistas sobre as negociações para o fim da reeleição para presidente, governadores e prefeitos, incluindo aí as reclamações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso contra lideranças do seu próprio partido. Cardoso ficou aborrecido com o pessoal que já trabalha para acabar com um artifício que ele próprio partrocinou em seu primeiro mandato presidencial. O raciocínio do ex-presidente não é de todo ruim - ele acha que o fim da reeleição pode abrir caminho para um terceiro mandato de Lula, porque "zeraria" o jogo e, desta forma, o atual presidente poderia ser, pela primeira vez, candidato à presidência sob as novas regras. Como muito bem notou o jornalista Luiz Weis em seu blog Verbo Solto, porém, Cardoso deve achar que os governadores José Serra e Aécio Neves são dois debilóides para embarcar em uma negociação que só favorecerá o presidente Lula.

Evidentemente, não pode ser assim. Aécio e Serra querem o fim da reeleição com a condição de que fique explícito que o presidente Lula não poderá disputar a presidência em 2010. É óbvio que não chancelarão um acordo que permita a Lula o terceiro mandato. Para os dois, o fim da reeleição é bom porque facilita um acordo interno no PSDB com vistas a 2010. Em outras palavras, poderia funcionar assim: Serra sai candidato à Presidência, com Aécio de vice (o mineiro pode também optar por uma candidatura ao Senado). Quatro anos depois (ou cinco, a depender do que for determinado no projeto que põe fim à reeleição), Aécio teria a legenda tucana para disputar a presidência. Alternativamente, se Serra achar que o candidato de Lula em 2010 é imbatível, pode deixar a legenda para Aécio e disputar a reeleição em São Paulo (sim, porque o projeto preveria que governadores e prefeitos em primeiro mandato ainda poderiam ter direito a uma reeleição, já que foram eleitos com esta condição em 2006).

Do ponto de vista do presidente Lula, o pior cenário é o atual, em que ele mesmo não pode concorrer a mais um mandato e corre o risco de entregar o governo a alguém que poderia disputar uma reeleição em 2014. Com o fim da reeleição, Lula disputaria a presidência em 2014 (ou 2015), sem enfrentar o presidente em exercício. Uma disputa mais fácil, portanto.

E Fernando Henrique Cardoso? Este blog acha que FHC deseja a manutenção da regra que criou por pura vaidade pessoal. Não quer passar para a história como o criador de um casuismo que só serviu mesmo aos seus próprios desejos políticos de ocasião, tendo inclusive que pagar um alto preço pela obtenção da mudança constitucional. Cardoso também parece não ver muitas chances de êxito no projeto de seu próprio partido e se limita a tentar impedir que o presidente Lula continue a brilhar. Não deixa de ser uma estratégia política.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Muy amigos...


Charge do Agê que está no DCI desta sexta-feira

Projeto que prevê o fim da reeleição pode
abrir caminho para nova reeleição de Lula

O título acima pode parecer paradoxal, mas a negociação para acabar com a reeleição para presidente, governadores e prefeitos, que estaria atualmente em curso, envolvendo governo e oposição, segundo informa nesta sexta-feira a Folha de S. Paulo, poderá abrir uma brecha para mais um mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O raciocínio é simples: se de fato a legislação for modificada para acabar com a reeleição e aumentar os mandatos para 5 anos, é lícito supor que se trata de uma nova etapa da vida política nacional. Com o jogo zerado, todo brasileiro legalmente apto poderia ser candidato a presidente, inclusive Lula, que disputaria o pleito dentro das novas regras, pela primeira vez.

A discussão vem em boa hora e deveria ser ampliada: por que os deputados e senadores podem disputar sucessivas eleições e os prefeitos, senadores e presidente não podem? Há diversas democracias nas quais o mandato presidencial é ilimitado. Duro mesmo é o presidente vencer sucessivas eleições, após o natural desgaste que o tempo no Poder vai proporcionando. Na verdade, a pergunta que não quer calar é simples: por que não deixar o povo decidir se quer ou não um presidente por 8, 12 ou até por um período mais longo? Se a eleição é livre e democrática, não há nada de autoritário nisto...

Um exemplo de excelente jornalismo

A matéria abaixo, da Reuters, é o que se pode chamar de bom jornalismo. Uma excelente repercussão das pesquisas divulgadas na semana. O leitor pode achar que é fácil, mas a verdade é que é muitíssimo difícil arrancar este tipo de declaração de políticos. Em geral, são necessários alguns anos de experiência e muita habilidade para conseguir declarações tão fortes como as que estão abaixo. Político nenhum gosta de elogiar o adversário ou reconhecer seus próprios fracassos. Palmas para Ricardo Amaral e Natuza Nery.

"Estamos aniquilados", dizem tucanos sobre popularidade de Lula

Por Ricardo Amaral e Natuza Nery

BRASÍLIA (Reuters) - Na semana em que duas pesquisas de opinião mostraram o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com cerca de 50% de aprovação, o PSDB, principal partido da oposição, deu sinais de desânimo no Congresso.

"Estamos aniquilados", desabafou o deputado José Aníbal (PSDB-SP).

Mesmo em processo de obstrução às deliberações na Câmara há quase um mês, o PSDB e seus parceiros do DEM (ex-PFL) e PPS não conseguiram derrotar o governo em nenhuma votação este ano.

Enquanto isso, Lula vai consolidando uma coalizão de 11 partidos, que corresponde a 70% da Câmara. Num jantar com as principais lideranças do PMDB no país, na noite passada, o presidente sacramentou uma ampla e inédita aliança com o maior partido da base.

"A Câmara se transformou numa extensão do Executivo. Aqui se vota o que o governo quer", afirmou o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP).

Na terça-feira, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgou sondagem realizada pelo instituto Sensus mostrando que Lula tem aprovação de 49,5% dos entrevistados. Em janeiro de 1999, logo após ser reeleito, o então presidente Fernando Henrique Cardoso obteve somente 32% de avaliação positiva, afetado por uma grave crise cambial.

Nesta quinta-feira, levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que Lula, apesar de ter caído 8 pontos percentuais em relação a dezembro de 2006, mantém aprovação de 49% dos entrevistados.

"As pesquisas refletem uma realidade que não podemos alterar neste momento. O PSDB terá de dialogar com setores da sociedade, manter sua coerência e aguardar que esta situação se modifique com o tempo", argumentou Madeira.

Ex-líderes durante o governo Fernando Henrique, Madeira e Aníbal reconhecem que o ex-presidente também montou maioria esmagadora no Congresso, mas acusam o governo Lula de utilizar sua força para travar mudanças.

"Nós utilizamos nossa maioria para promover reformas. Esse governo tem força mas não tem agenda", disse José Aníbal.

Os tucanos estão desconfortáveis também com o processo de obstrução comandado pelo DEM, para exigir a instalação da CPI do setor aéreo. O PSDB é autor do requerimento da CPI, que depende de decisão judicial para ser criada, mas os deputados avaliam que a imagem do partido está sendo associada, de forma negativa, ao atraso nas votações.

A pesquisa da CNT indicou que a repercussão negativa sobre os transtornos nos aeroportos não atinge Lula na intensidade que a oposição calculava. Segundo a sondagem, 82% dos entrevistados tomaram conhecimento da crise. Desse total, 25,8% responsabilizaram o governo federal pela crise.

Os controladores de vôo apareceram em segundo lugar no "ranking" de responsabilidade, apontados por 15,1%, seguidos das companhia aéreas, com 10,9%; da Aeronáutica, com 9,9%, e da Infraero, com 9,3% das menções.

"Dá até desânimo de fazer oposição", disse o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), uma das novas lideranças do partido.


quinta-feira, 12 de abril de 2007

Lula em céu de brigadeiro

O artigo abaixo foi escrito para o Shopping News, encarte do DCI que circula às sextas-feiras, pelo autor destas Entrelinhas. É uma curta análise sobre as duas pesquisas divulgadas nesta semana.


Apesar da crise, Lula voa em céu de brigadeiro

Duas pesquisas divulgadas nesta semana revelam que a aprovação da população ao trabalho que vem sendo realizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva oscila entre 63% (Instituto Sensus) e 65% (Ibope). Já a aprovação ao Governo Federal é um pouco menor: 49% para o Ibope e 49,5% para o Instituto Sensus.

A oposição evidentemente não gostou dos números que os dois institutos revelaram, até porque acreditavam que a tal crise aérea pudesse ter afetado um pouco a popularidade do presidente, o que não ocorreu. Desde a posse de Lula para o segundo mandato, aliás, tucanos e democratas (os ex-pefelistas) têm insistido em bater forte no governo, cobrando maior velocidade na reforma ministerial e denunciando a suposta falta de consistência do Programa de Aceleração do Crescimento. Nada disso fez efeito e a popularidade de Lula continuou nas estrelas. A pergunta que não quer calar é por que isto ocorre? O que sustenta, apesar de todos os problemas do País, a lua de mel da população com seu presidente?

É a economia, estúpido
Uma primeira hipótese para explicar o fenômeno remete naturalmente ao bom desempenho da economia brasileira nos últimos anos. Com exceção de 2003, todos os anos sob Lula foram de crescimento econômico e embora muitos analistas considerem este desempenho sofrível, especialmente em relação aos demais países emergentes, o fato é que a população não compara a situação do Brasil com a do Haiti ou China. O critério utilizado pelo povão para saber se a economia está andando para frente ou para trás é o seu próprio bolso, seu poder de compra sob os diversos governantes que vão se sucedendo na Presidência. E sob Lula, claramente, a situação está melhor do que no período de Fernando Henrique Cardoso: a ampliação do crédito e as políticas sociais compensatórias permitiram um aumento no consumo das famílias, especialmente as mais pobres. O segundo componente para explicar a alta popularidade é o enorme carisma do presidente e sua sensibilidade para se comunicar com o povo. É simples assim.

Wagner Iglecias: azul e amarelo

Em mais uma colaboração para o Entrelinhas, o professor Wagner Iglecias analisa a última rodada de pesquisas sobre a avaliação do governo Lula. A seguir, a íntegra do texto.

Pesquisas de avaliação de desempenho do governo são cada vez mais comuns no Brasil. Tradição em democracias mais antigas, as pesquisas vão se tornando uma rotina entre nós. Embora a variação dos números relativos ao humor da população brasileira em relação a Lula e a seu governo não seja das maiores nas sondagens recentes, feitas inclusive por empresas diferentes, interpretações sobre elas há para todos os gostos. Como seria natural, quem apóia ou simpatiza com o governo destaca os números mais favoráveis ao presidente e ao Palácio do Planalto, enquanto aqueles que lhe fazem oposição buscam destacar os índices menos vistosos.

O fato é que, independentemente dos olhos que lêem as pesquisas, os números de todas elas vêm atestando, desde pelo menos meados de 2006, uma franca recuperação na popularidade de Lula e a manutenção do apoio a seu governo em níveis elevados. Tentar minimizar os elevados percentuais de aprovação ao governo faz parte do jogo, mas cabe à oposição, no Congresso e entre os meios de comunicação que lhe são próximos, acender o sinal amarelo. Afinal, a economia vai relativamente bem, Lula acaba de fechar um amplíssimo arco de alianças para conferir sustentação política a seu segundo mandato e, de quebra, parece voar em céu azul de brigadeiro, já há um bom tempo, quando se trata de estabelecer uma comunicação direta com o povão.

Tucanos e pefelistas seguem insistindo na estratégia já conhecida de criar CPIs, cujo intuito, como o brasileiro sabe desde os tempos em que o PT era oposição, é quase que unicamente provocar desgaste no governo. A atitude não deu muito certo no ano passado, visto que alguns dos principais nomes do PFL e PSDB que militaram nas diversas CPIs em funcionamento no Congresso entre 2005 e 2006 colheram resultados pífios nas urnas. Enquanto isso Lula toca o seu bilionário PAC e vai se constituindo num importantíssimo cabo eleitoral para as eleições municipais do próximo ano.

Para os partidos da oposição,
uma eventual perda das prefeituras de São Paulo e Rio de Janeiro se constituirá num golpe terrível para as pretensões de tucanos e pefelistas em retomar o Palácio do Planalto no pleito de 2010. Até lá, entretanto, muita água vai rolar por debaixo da ponte e muitas pesquisas de avaliação do governo serão divulgadas. No entanto, se as curvas de aprovação a Lula e ao Planalto não sofrerem uma forte inflexão para baixo nos próximos anos muito provavelmente restará a PSDB e PFL aguardar por 2014.

Wagner Iglecias é sociólogo em professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Ibope confirma números do instituto
Sensus: 65% aprovam o presidente Lula

A pesquisa realizada pelo Ibope para a CNI (Confederação Nacional da Indústria) confirma os números da enquete do instituto Sensus para a CNT (Confederação Nacional dos Transportes): pelo Ibope, a aprovação do governo Lula é de 49% contra 49,5% na Sensus, cujo resultado foi divulgado anteontem. Já a aprovação pessoal do presidente Lula foi de 65% no Ibope contra 63% de aprovação aferido pelo instituto Sensus.

Os números são expressivos, mas há sites destacando a "queda" de Lula no Ibope, conforme pode ser observado na nota reproduzida abaixo, da Folha Online. A diferença na curva das duas pesquisas se deve à data do levantamento anterior de cada instituto. O do Ibope foi feito em dezembro de 2006, logo após as eleições, e constatou a maior aprovação que um presidente brasileiro já teve: espantosos 71%. Já o levantamento anterior do instituto Sensus foi realizado em agosto do ano passado, antes das eleições e no calor da campanha eleitoral. Naquele mês, a aprovação ao presidente foi de "apenas" 59%. Assim, ao destacar a "queda de oito pontos", os editores dos sites apenas tentam arrumar uma notícia negativa para o presidente onde, rigorosamente, ele só tem o que comemorar. A seguir, a versão da Folha para a pesquisa Ibope.


Aprovação ao governo Lula cai 8 pontos, diz CNI/Ibope
da Folha Online

A aprovação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva caiu 8 pontos percentuais de dezembro de 2006 para abril deste ano, segundo pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quinta-feira. Em dezembro, 57% consideravam o governo como ótimo/bom. Em abril, esse percentual recuou para 49%.

A aprovação pessoal ao presidente Lula caiu de 71% em dezembro para 65% em abril, uma queda de seis pontos percentuais. No mesmo período, o percentual de desaprovação subiu de 23% para 29%.

A pesquisa CNI/Ibope foi realizada entre os dias 28 de março e 2 de abril com 2.002 pessoas de 140 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

A parcela da população que considerou o governo Lula ruim/péssimo evoluiu de 13% em dezembro para 16% em abril. No mesmo período, a avaliação regular subiu de 28% para 33%.

Outros levantamentos

De acordo com a pesquisa CNT/Sensus, divulgada na terça-feira, o governo federal foi avaliado de forma positiva por 49,5% da população, o terceiro melhor resultado verificado desde janeiro de 2003, início do primeiro mandato de Lula.

E o desempenho pessoal do presidente Lula foi avaliado como positivo por 63,7% da população. A pesquisa CNT/Sensus foi realizada entre os dias 2 e 6 de abril com 2.300 pessoas de 136 municípios das cinco regiões do país.

Pesquisa Datafolha divulgada no mês passado mostrava uma queda de 52% em dezembro para 48% no percentual de avaliação ótimo/bom do governo Lula. A pesquisa Datafolha foi realizada entre os dias 19 e 20 de março em todo o país e ouviu 5.700 pessoas.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

No céu, no mar, na terra...


Charge do Agê que estará no DCI de quinta-feira

Nova pesquisa sobre Lula sai amanhã

O Ibope vai divulgar amanhã a pesquisa realizada para a CNI sobre a popularidade do presidente Lula. A oposição naturalmente torce para que os números sejam bem diferentes dos revelados pelo instituto Sensus, mas é provável que o presidente ganhe mais um presente pós-pascoalino...

Coincidência ou má vontade?

A Folha de S. Paulo sempre leva para a manchete fatos de alcance nacional ou internacional. Dificilmente o diário paulista dá a chamada principal para assuntos estaduais, muito menos municipais. Pois não é que justamente no dia da divulgação da pesquisa CNT/Sensus favorável ao presidente Lula o jornal decidiu manchetar um ato da Câmara Municipal de São Paulo? Na primeira página, aliás, a Folha nem sequer se dignou a citar a pesquisa, que foi a manchete do rival O Estado de S. Paulo. Alguns dirão que a escolha de um assunto local foi mera coincidência, mas este blog acredita que o diário da Barão de Limeira está com uma enorme má vontade com o presidente Lula e seu governo. No noticiário econômico, o leitor assíduo já deve ter reparado, não há notícia boa que não seja publicada com pelo menos meia dúzia de ressalvas: "o risco país caiu, mas o dólar baixo prejudica os exportadores" é um bom exemplo do tipo de construção frequentemente utilizado no caderno Dinheiro da Folha...

Ainda sobre a pesquisa CNT/Sensus

Não dá para não reproduzir o comentário do jornalista Luiz Carlos Azenha sobre a manipulação da mídia em torno da pesquisa CNT/Sensus. O texto a seguir foi publicado originalmente no site Vi o Mundo, que, por sinal, este blog recomenda.

Pesquisa CNT/Sensus: 88,8% dos brasileiros não confiam na mídia

Quando uma nova pesquisa é divulgada, cada um escolhe os números que quer destacar, de acordo com suas conveniências políticas.

Apesar da aprovação pessoal do presidente Lula ter crescido, assim como a aprovação do governo dele, assistimos hoje a um festival de manchetes NEGATIVAS baseadas nos mesmos números.

O Jornal do Commercio, de Pernambuco, em sua edição online, destacou:

"Governo é responsável pela crise aérea, aponta CNT/Sensus"

Diz o texto:

"BRASÍLIA - O governo federal foi apontado como o principal responsável pela crise aérea no País.

Pesquisa CNT-Sensus mostra essa constatação para 21,2% dos entrevistados.

Tomando por base apenas os entrevistados que tiveram contato com o assunto (acompanham ou ouviram falar), esse número sobe para 25,8%.

Os controladores de vôo e as companhias aéreas foram apontados como os responsáveis pela crise por 12,4% e 9%, respectivamente, do total de entrevistados.

A Aeronáutica e a Infraero aparecem logo depois, com 8,1% e 7,6%, respectivamente.

Entre os entrevistados que tiveram contato com o assunto, os controladores ficaram em segundo com 15,1%. As companhias aéreas aparecem em terceiro, com 10,9%, a Aeronáutica com 9,9% e a Infraero com 9,3%."

O título é enganoso.

Na verdade, do total de entrevistados, só 21,2% culparam o governo Lula.

Ou, levando em conta o total de entrevistados: 78,8% dos brasileiros não atribuem a crise aérea ao governo federal.

Vejam o que destacou o jornal A Tarde, de Salvador, em sua edição online:

CNT/Sensus: novo índice aponta piora nos serviços sociais

Agencia Estado

A pesquisa CNT/Sensus, divulgada hoje, mostrou que, apesar da melhora na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governo, houve uma percepção de piora nos serviços sociais (emprego, renda, educação, saúde e segurança), nos últimos seis meses.

Essa piora, segundo o diretor da Sensus Ricardo Guedes, é medida pelo Índice de Avaliação, um novo indicador criado pela Sensus e divulgado hoje.

A pesquisa mostra que esse índice ficou em 42,48 pontos, em uma escala de 1 (um) a 100 (cem) pontos.

Nessa escala, valores menores do que 50 indicam piora na avaliação, e maiores do que 50 indicam avaliação positiva.

Outro indicador novo divulgado hoje foi o Índice de Expectativa, que ficou em 66,58 pontos, na mesma escala, mostrando uma expectativa favorável em relação aos serviços sociais.

"Os indicadores do cidadão mostram que existe uma avaliação relativamente negativa dos serviços sociais, mas há uma expectativa de melhora por parte da população", explicou Guedes.

A pesquisa CNT/Sensus mostrou também que, para 26,3% da população, a principal preocupação dos brasileiros continua sendo com emprego e renda.

Mas o porcentual caiu significativamente em relação a abril de 2006, quando igual pergunta foi feita, e 36,6% dos entrevistados se declararam preocupados com emprego e renda.

No levantamento divulgado hoje, a saúde pública aparece em segundo lugar, com 25,7%, ante 24,9% no anterior. Segurança pública vem em terceiro lugar, com 18,2%, ante 14,4%.

A educação pública vem em seguida, com 16,7%, ante 15,3% na pesquisa anterior".

Ué, cadê os índices de aprovação de Lula e do governo?

Sumiram!

Quando a pesquisa não dá o que ELES querem, os números simplesmente somem.

A aprovação pessoal de Lula, de 63,7%, é a mais alta desde abril de 2005.

"Metade da população aprova o governo", diz Veja.

A revista também poderia ter destacado: "Aumenta a aprovação a Lula apesar da campanha da mídia contra o presidente".

Ou, se somasse os que avaliam o governo como ótimo, bom ou regular, poderia ter escrito:

"Pesquisa revela que 83,8% acham o governo Lula ótimo, bom ou regular".

Quem sabe: "Só 16,2% acham governo Lula ruim ou péssimo".

O Globo Online disse:

"CNT Sensus: 81,5% apóiam redução da maioridade. Para 90%, violência aumentou".

Também poderia ter dito: "Cai apoio à redução da maioridade penal".

Sim, porque é isso o que revela a pesquisa.

O apoio à redução da maioridade penal CAIU de 88,1% em dezembro de 2003 para 81,5% em abril de 2007.

E isso DEPOIS do brutal assassinato do menino João Hélio.

Mas meu dado preferido da pesquisa foi sobre as instituições em que os brasileiros mais confiam: igreja, 37,2%; Forças Armadas, 16,5%; mídia, 11,2%; Justiça, 9,5%; governo federal, 5%; polícia, 3,4% e Congresso, 1,1%.

Ou seja, dá para extrair daí duas belas manchetes:

"62,8% dos entrevistados não confiam em nenhuma das principais instituições do Brasil".

Ou a minha preferida: "Quase noventa por cento dos brasileiros não confiam na mídia"

Melhor ainda: "Só 11,2% confiam na mídia golpista".

Leia aqui os resultados completos e tire suas próprias conclusões:

http://www.cnt.org.br/