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Novo Lupin enfrenta racismo e xenofobia

Em 1905, Maurice Leblanc (1864-1941), então um contista freelance, tentando a sorte em periódicos franceses, seguiu o conselho de um editor para criar um personagem que tivesse o mesmo tipo de apelo popular do detetive Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle (1859-1930). Nascia aí Arsène Lupin, ladrão cheio de astúcia, mestre dos disfarces e “gentleman” por excelência. Uma espécie de Robin Hood da belle époque. O sucesso foi instantâneo e deu origem a uma longa franquia: 17 romances e 39 novelas até a morte do autor, em 1941, escreve Luciano Buarque de Holanda em resenha sobre a série Lupin, da Netflix, para o Valor, publicada dia 19/2. Continua a seguir. 


Naturalmente, Lupin migrou das páginas às telas. Foram dezenas de adaptações para o cinema e TV, dentre as mais notáveis “The Adventures of Arsène Lupin” (1957), “Arsène Lupin: O Ladrão Mais Charmoso do Mundo” (2004), coestrelado por Kristin Scott-Thomas e Eva Green, e a série homônima francesa exibida de 1971 a 1974.

De 1955, “Ladrão de Casaca” (no original, “To Catch a Thief”), de Alfred Hitchcock (1899-1980), compartilha apenas vagos elementos com o personagem de Leblanc, a despeito da tradução do título, emprestada da coletânea de histórias mais famosa de Lupin.

Mas, afinal, como manter o interesse em torno de um personagem tão velho de guerra? O mundo precisa mesmo de um Lupin repaginado como herói de ação, a exemplo do Sherlock Holmes de Robert Downey Jr. e Guy Ritchie?

Felizmente, os criadores da série, George Kay e François Uzan, encontraram a solução perfeita. Aqui, o protagonista é um afrodescendente inserido num contexto de racismo e xenofobia na França. Mesmo quando “Lupin” esbarra em falas com clichês e fórmulas herdadas de “La Casa de Papel”, o carisma do ator Omar Sy (“Intocáveis”) faz tudo valer a pena.

Na trama, Sy vive Assane Diop, filho de um imigrante senegalês que trabalhou por muitos anos como motorista de uma família rica, até os patrões o acusarem do roubo de um colar de valor inestimável - supostamente a joia pertencera à rainha Maria Antonieta (1755-1793).

Condenado injustamente, ele morre na prisão e deixa para Assane uma cópia de “Ladrão de Casaca” cheia de mensagens codificadas. Ele cresce e elabora um plano intrincado de vingança a partir do livro, ao mesmo tempo em que assume a “persona” de Arsène Lupin.

Seu primeiro ato sob o personagem: roubar o colar que arruinou o pai, agora em exposição no Museu do Louvre, em Paris. Num plano paralelo, há o drama pessoal do protagonista, que vem de um casamento desfeito e tenta se redimir diante do filho.

Nos livros, Lupin foi gradualmente se afastando de atividades ilícitas para virar colaborador da polícia, transição que parece natural para o personagem de Omar Sy em futuras temporadas.

A “Parte 2” já foi filmada e deve estrear ainda neste ano. O elenco inclui Ludivine Sagnier (de “Swimming Pool” e “The Young Pope”), Vincent Londez (“Noite Adentro”) e Clotilde Hesme (“Les Revenants”).

“Lupin” (Parte 1)

França, 2021. Criadores: George Kay, François Uzan. Onde: Netflix / BBB

AAA Excepcional / AA+ Alta qualidade / BBB Acima da média / BB+ Moderado / CCC Baixa qualidade / C Alto risco



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