segunda-feira, 31 de março de 2008

Ombusman: um dossiê e muitas incertezas

Uma boa reflexão sobre o tal "dossiê" com gastos com cartões corporativos do tempo, de tão triste memória, em que FHC e dona Ruth moravam no Alvorada está hoje na crítica interna do Ombudsman da Folha de S. Paulo, o sempre excelente Mário Magalhães. Vale a pena ler até o fim o trecho reproduzido abaixo, em que ele comenta a cobertura do seu jornal sobre o assunto .

Um dossiê (ou relatório ou "fragmentos da base de dados", como prefere a Casa Civil) sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sua mulher, Ruth, e antigos ministros foi produzido no Palácio do Planalto e vazado de forma ilegal.

Tão escancaradamente ilegal que foi constituída pelo governo uma "comissão de sindicância para apurar o episódio". Oficialmente, busca-se culpado(s).

A origem das informações, processadas na Casa Civil, é inequívoca, reconhecida inclusive pelo governo.

A essa altura, mais ninguém questiona a autenticidade das informações sobre gastos contidas nas 13 páginas. No domingo, a Folha demonstrou que "o relatório mostra a seleção de informações bastante diferentes do padrão de dados lançados no Suprim ['sistema de controle de suprimento de fundos da Presidência'] e estranhas a um trabalho definido como um 'instrumento de gestão', sem viés político".

Hoje os jornais reafirmam que, ao contrário do que afirma Dilma, não houve pedido do TCU para produzir o levantamento sobre FHC ou algo que desse base à investigação.

A existência do dossiê/relatório de 13 páginas foi revelada pela revista Veja no fim de semana retrasado.

Na sexta passada, a Folha manchetou "Braço direito de Dilma montou dossiê".

O jornal não apresentou provas contra Erenice Alves Guerra, principal assessora da ministra Dilma Rousseff.

Não que a informação, necessariamente, esteja errada. Quem leu a reportagem, contudo, não teve acesso a evidência de que esteja correta a versão do jornal.

A Folha descreveu uma reunião com membros da administração para criar "uma força-tarefa encarregada de desarquivar documentos referentes aos gastos do governo anterior a partir da rubrica suprimento de fundos, que incluiu cartões corporativos e contas 'tipo B'".

Nota oficial da Casa Civil afirma que tal reunião, "para organizar uma força-tarefa para produzir o chamado dossiê", nunca ocorreu.

A Folha também não comprovou a realização da reunião.

O jornal não afirmou que o dossiê foi utilizado para chantagear membros da oposição na CPI dos Cartões Corporativos. Fez bem. Um dos aspectos intrigantes do caso é que o dossiê é incapaz de constranger FHC. Chefe de um governo em que se acumularam escândalos de grande monta, em especial nas privatizações, o ex-presidente não se sai mal das 13 páginas. Se tudo o que os governistas têm contra ele for aquilo...

Ou seja: como fazer chantagem contra alguém e seus aliados com informações que não causam dano ao chantageado?

Alguém foi vítima de chantagem? Quem? Se foi, é informação que o jornalismo deve.

Seria diferente, por exemplo, em uma nação fictícia, situação e oposição promoverem chantagem pesada com informações sobre filhos do atual e do ex-presidente, se os rebentos tivessem amealhado riqueza durante ou em seguida aos mandatos dos pais. Aí, sim: ameaças capazes de fragilizar o mais valente dos investigadores de comissão de inquérito do país da imaginação.

Quem tinha muito a perder, por rigorosamente nada em troca, seria a ministra da Casa Civil. Mais por eventual dolo, menos por incapacidade de gerir com segurança um sistema de dados ou manter aloprados em sua equipe, mas sempre perdendo.

Essa peça, decisiva, não se encaixa no quebra-cabeça. Até agora, pelo menos.

Esta segunda-feira não foi um bom dia para a Folha. O jornal não destaca a defesa de ninguém do governo. E titula na primeira página: "Dossiê é 'covardia institucional', diz ministro do STF". Só no texto se descobre que Gilmar Mendes se refere a dossiês em geral, e não ao dossiê agora revelado.

O "Estado" deu entrevista com o chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho. O "Globo" saiu com declarações do ministro José Múcio. Não sei se o que eles dizem é verdadeiro ou falso, mas é direito dos leitores conhecer pontos de vista divergentes.

Hoje a coluna "Perguntar não ofende" (pág. A2) se refere ao "documento de 13 páginas que vazou para a imprensa, cuja autoria o próprio Palácio do Planalto assumiu".

Talvez, em meio a tantas informações, tenha me passado despercebido. Não me lembro, contudo, de ter lido que o Planalto assumiu a confecção das 13 páginas.

Na edição de sábado, a Folha divulgou declaração de Dilma: "Não acho que a Folha e a Veja montaram isso [dossiê]. Outros fizeram este trabalho e vocês [da imprensa] estão divulgando".

Ou seja, a ministra negou a produção das 13 páginas.

Minha impressão é que a Folha produz uma cobertura em tom unilateral que menospreza as incertezas que cercam o caso.

É possível que as coisas tenham ocorrido como o jornal sugere?

Sim. Poder tudo pode.

Mas é possível que haja outros elementos.

Ao contrário do dossiê Cayman/Caribe, as informações são verdadeiras. Ao contrário de outros dossiês, entretanto, elas não intimidam ninguém (a não ser que sugiram o conhecimento de outras despesas, cabeludas).

O vazamento das 13 páginas pode ter sido obra de petistas, aloprados ou não? Pode. Em 2006, com a reeleição de Lula nas mãos, a ambição de ganhar também o pleito paulista produziu o escândalo que contribuiu para empurrar a eleição presidencial ao segundo turno.

As 13 páginas também podem ter sido obra de quem queria desgastar o governo e reanimar a CPI dos Cartões. Ou, mais especificamente, ferir a ministra Dilma, que está longe de ser a candidata preferida do PT e de setores do Planalto para 2010.

Um incômodo da cobertura é que, evidentemente, a Folha sabe mais do que conta aos leitores. Uma coisa é o jornal ter recebido o relatório de alguma fonte do PT. Outra, do PSDB. Outra, ainda, de um funcionário, mais que petista, fiel à ministra.

O jornal deveria pisar no freio e ser mais cético. Um dossiê incapaz de constranger alguém não teria eficiência como instrumento de chantagem. A impressão é que, ao contrário do que a Folha e o jornalismo em geral dão a entender, a verdade sobre o episódio ainda está distante, seja ela qual for.

Por último: o episódio em curso ressalta a tragédia à democracia que é a ausência de transparência sobre o poder público no Brasil. Gastos dessa natureza, seja no governo FHC ou no de Lula, não deveriam estar protegidos por sigilo, e sim ser de conhecimento dos cidadãos.

Wagner Iglecias: Marta contra a rapa

Em mais uma colaboração para o blog, o professor Wagner Iglecias escreve sobre o cenário pré-eleitoral em São Paulo. A íntegra do artigo segue abaixo:

Houve um tempo, não faz tantos anos assim, em que a cidade de São Paulo tinha terrenos baldios. Era a época em que os automóveis não tinham monopolizado o espaço, os meninos jogavam futebol na rua e as ruas não eram lugar associado ao perigo. Quando aparecia na rua da gente algum garoto muito bom de bola em geral ele se gabava em cima da molecada com uma frase do tipo “o time sou eu e fulano contra a rapa”. Ou seja, contra os outros meninos, não tão habilidosos assim com a bola nos pés.

A pesquisa Datafolha publicada neste domingo vai mais ou menos neste sentido. Marta Suplicy, do PT, do “relaxa e goza” mas também das altas taxas de aprovação popular a sua gestão na prefeitura, está em ascensão junto ao eleitorado e aparece pela primeira vez liderando a corrida pelo Palácio do Anhangabaú. Passou Geraldo Alckmin, ainda que dentro da margem de erro, e tem mais do que o dobro de intenções de voto destinadas ao atual prefeito, o democrata Gilberto Kassab.

Com a provável ausência de Luiza Erundina na disputa pela prefeitura Marta vai para a eleição enfrentando três candidatos situados bem à direita de sua posição política: Alckmin, Kassab e Maluf. Correrá provavelmente sozinha na faixa progressista do eleitorado. A qual não é nada desprezível. Será Marta contra a rapa.

Se no campo petista a candidatura da ex-prefeita parece irreversível, a divulgação da pesquisa provavelmente só vai fazer acirrar os ânimos no campo conservador, dividido entre as aparentemente inconciliáveis candidaturas daquele que substituiu Serra na prefeitura porque este foi substituir Alckmin no governo do estado. Ou seja, entre Kassab e Alckmin. Tucanos e democrata deverão continuar batendo cabeça, pelo menos por hora, como a gente batia cabeça quando enfrentava o garoto bom de bola que comandava o outro time.

Parece difícil que Alckmin, que está na chuva desde que deixou o governo do estado para disputar com Lula a última eleição presidencial, abra mão de sua candidatura em nome de Kassab. Afinal ele tem considerável experiência administrativa e conta com respeitáveis 28% das intenções de voto, com viés de crescimento.

Kassab, por sua vez, dificilmente abrirá mão de tentar reeleger-se para o cargo que já ocupa, embora se veja às voltas com problemas gravíssimos que São Paulo enfrenta, como o apagão do trânsito, e tenha apenas 13% das intenções de voto.

Pelo andar da carruagem se a eleição fosse hoje teríamos um animado segundo turno do qual o atual prefeito estaria excluído. Não se sabe se Alckmin receberia o apoio real, neste caso, dos democrata e dos tucanos serristas, dadas as tantas divergências que se avolumam no consórcio PSDB-DEM, mas provavelmente herdaria a grande maioria dos eleitores de Kassab. Marta Suplicy, por sua vez, provavelmente contaria, uma vez mais, com um apoio entre envergonhado e esquisito de Paulo Maluf para o embate final.

O resultado, apesar do favoritismo parecer estar mudando de lado, seria imprevisível. Como nas velhas peladas de rua jogadas pelos meninos da periferia da São Paulo dos anos 70 e 80. Muitas vezes perdíamos feio pro garoto bom de bola que chegava botando banca. Mas as vezes ele voltava para casa amargando a derrota.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Enquete nova no ar

Já está no ar a nova enquete do DataEntrelinhas, com o tema mais palpitante do momento: o futuro da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Na pesquisa anterior, o resultado mostrou que os leitores do blog concordam com a tese de que em Minas Gerais, os caciques se acertam antes e chamam o povo depois para homologar o combinado. E já que o assunto é pesquisa, este blog continua apelando para que o público dê aquela forcinha para que o Entrelinhas ultrapasse o blog do Noblat e o dos Democratas no concurso do iBest. Para votar, basta clicar aqui.

domingo, 30 de março de 2008

Lula nas alturas e a encrenca de Dilma

O que vai abaixo é o artigo da semana para o Correio da Cidadania, em primeira mão para os leitores do blog.

Mais uma pesquisa sobre a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi divulgada na semana passada, mostrando aumento na aprovação ao modo de Lula governar (65% em dezembro para 73%) e na avaliação positiva do governo (51% para 58%). São números que falam por si e Lula só não pode dizer que "nunca antes neste país" houve um presidente tão popular porque ele próprio conseguiu, em janeiro de 2003, 75% de aprovação.

A explicação para tamanha aprovação é tão óbvia que os jornais nem mais publicam as matérias com cientistas políticos, porque eles nada têm a acrescentar: sim, é a economia, e não poderia mesmo ser outra coisa. Na semana passada, alguns dos dados divulgados estão na raiz da explicação: o emprego formal só faz crescer (ainda que o desemprego tenha subido, o que não é contraditório, porque o desemprego sempre cresce no início do ano e a variação observada em 2008 foi a menor da série histórica, ou seja, o desemprego é o menor para esta época do ano desde a década de 90), o consumo continua bombando, conforme foi possível verificar com o balanço das vendas de supermercado em 2007 (crescimento de 9%) e ocorre uma pequena, mas importante, distribuição da renda, com aumento da classe C, diminuição da D e E, acompanhada de ligeira diminuição da A e B.

Em suma, a equação é simples: o povão está vivendo melhor - comendo mais e comprando bens que facilitam a sua vida (máquinas de lavar roupas, geladeiras, fogões e computadores, especialmente) – e atribui as melhorias ao governo Lula, ainda que apenas em parte o presidente tenha sido responsável pelo que vem ocorrendo. Na avaliação dos eleitores, o que vale é a percepção real das suas condições de vida, a partir de respostas a questões bem pragmáticas. Por exemplo: está mais fácil arrumar trabalho agora do que no tempo de Fernando Henrique? Sim, portanto, ponto para Lula. É mais simples arrumar crédito para comprar aquele bem que fazia falta em casa? Sim, mais um ponto para Lula. E por aí vai. Não há um único quesito que o povão enxergue um melhor desempenho dos governantes anteriores, o que fica claro na pesquisa Ibope sobre as expectativas da população sobre temas econômicos como renda e emprego. Basta olhar a série histórica para perceber que os brasileiros estão muito satisfeitos com o atual governo e bastante otimistas com o futuro, apesar de todo o terrorismo da mídia sobre a possibilidade de contaminação da crise americana nos países emergentes.

Em meio a este cenário tão favorável ao presidente Lula, uma nova "denúncia" contra o governo surgiu, atingindo diretamente a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. A história toda ainda está nebulosa, mas em linhas gerais o que se tem é uma acusação contra uma assessora graduada da ministra de montagem de um "dossiê" com os gastos em cartões corporativos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e de sua mulher, a ex-primeira dama Ruth Cardoso.

Dossiê ou "levantamento de dados", como quer Dilma, pouco importa neste momento. O fato é que a oposição conseguiu um tema para bater o seu bumbo histérico e, convenhamos, um tanto desafinado contra o governo Lula. Sem projeto alternativo para o país, sem poder comparar a gestão passada com a atual e cada vez mais dividida internamente, restam aos opositores do governo petista três alternativas: 1. torcer para que a crise americana seja realmente séria e provoque uma recessão mundial, afetando diretamente o Brasil – é o velho mote "quanto pior, melhor; 2. continuar fazendo uma crítica udenista da gestão Lula, torcendo para que apareça algum escândalo que implique o presidente, pessoalmente; e 3. resignar-se com o sucesso do governo e lançar uma candidatura mais "light" em 2010, com perfil ao agrado do eleitorado de esquerda que não terá Lula como referência nas próximas eleições.

A primeira hipótese tem a cara do governador paulista José Serra (PSDB), que se apresentaria então como um líder experimentado e conhecedor dos meandros da economia, apto a resgatar o país da crise. Serra até deve estar torcendo para que a crise tenha alguma conseqüência no Brasil, mas evidentemente não pode fazer de sua torcida uma estratégia política, como aliás ninguém em sã consciência faria. A segunda alternativa é hoje o "modus operandi" dos Democratas, que tentam sobreviver batendo cada vez mais forte em Lula para aparecer em 2010 como os únicos que realmente fizeram oposição ao PT. A terceira alternativa tem nome e sobrenome: Aécio Neves. Pelo PSDB ou pelo PMDB, ele já se lançou como o candidato "pós-Lula", ou seja, que não será o "anti-Lula".

Do ponto de vista do governo, a encrenca com Dilma é coisa simples. Se os fatos mostrarem que a ministra teve alguma culpa no cartório, Lula não terá a menor dificuldade de mandar a mãe do PAC para casa, a fim de que ele prove sua inocência. É o que tem feito este governo desde o primeiro "escândalo" e já foram afastados ministros bem mais poderosos politicamente do que Dilma Rousseff. Se a ministra conseguir se defender a contento nesta semana, ela permanece no primeiro escalão, mas deve tomar chá de sumiço por uns tempos.

Nos dois casos, parece claro que o PT terá que pensar em outro nome para a presidência em 2010 – o que de certa forma pode até ser positivo eleitoralmente, visto que Dilma sairia da casa de 2% das intenções de voto. Aliás, pouca gente no PT fala do assunto em público, mas a verdade é que se Marta Suplicy vencer a eleição na capital paulista, e esta hipótese não é nem de longe desprezível, a atual titular da pasta do Turismo se torna uma pré-candidata fortíssima, saindo de um patamar bem mais elevado do que Dilma. Mas muita água ainda vai correr por debaixo da ponte até 2010 e Lula sabe disto mais do que ningúem.

sexta-feira, 28 de março de 2008

A arrogância de um e a petulância do outro

Em mais uma colaboração para o blog, o professor Wagner Iglecias mata três coelhos com uma cajadada só e analisa no texto a seguir a pesquisa CNI/Ibope e as recentes declarações do presidente Lula e do ex-presidente FHC.

No mesmo dia em que foi divulgada a pesquisa CNI/Ibope, mostrando que estão nas alturas os índices de aprovação a Lula e a seu governo, o presidente-operário nos presenteou com mais uma declaração no mínimo polêmica. Daquelas pra entrar para a sua já vasta coleção. A de que teria dito a George Bush que "resolvesse a sua crise", conselho arrematado com um mais do que intimo "meu filho". "Resolve a tua crise, meu filho".

Tudo bem que Lula é mestre, dos mais brilhantes que este país já viu, na arte da retórica. Mas daí a mandar uma dessas pra cima do homem mais poderoso do planeta já é um pouco demais. A crise norte-americana é das mais complexas, vem sendo prevista há anos por economistas e cientistas sociais de esquerda, dada a vertiginosa financeirização da economia mundial, e suas conseqüências, de alcance imprevisível, ainda estão por ser conhecidas. Se fosse simples assim de
resolver Bush já o teria feito. Ou não?

Mas se arrematar é o verbo em questão, para arrematar de vez aquilo que Stanislaw Ponte Preta, se vivo fosse, chamaria de festival de besteiras que assola o país, o tal Febeapá, então não há como não lembrar da frase, dita também nesta quinta-feira, pelo ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso. Questionado sobre a mesma pesquisa CNI / Ibope, que traz números realmente espantosos, dando conta de que Lula é hoje, decorridos seis anos de seu governo, tão bem avaliado quanto no comecinho de 2003, quando acabara de assumir a presidência, FHC saiu-se assim: "Não vi a avaliação, mas não fico surpreso com mais nada no Brasil".

O que o veterano líder tucano quis dizer com a enigmática frase? Qual teria sido sua intenção? Ironizar e diminuir o sucesso do rival? Duvidar da inteligência dos entrevistados pela pesquisa e, por extensão, da população nela representada? Ou, talvez uma vez mais, deixar escapar seu desapontamento, para dizer o mínimo, com o país?

Pisaram na bola, no mesmo dia, Lula e FHC. Um pelo simplismo e mesmo arrogância com os quais se referiu a um problema gravíssimo que, se não sanado a tempo, pode levar de roldão diversas economias do mundo nos próximos anos. O outro pela mal disfarçada pontinha de inveja para com o caso de amor que o rival tem com o chamado povão. E também pela frase arrogante em relação ao país, ao mesmo tempo tão complexo que pode ser
sophistiqué e elitizado, bem ao gosto do baronato tucano, quanto despachado e popular, bem ao jeito do sapo barbudo e de seu exército de milhões de josés e marias.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Paranóia paulistana 2

O leitor do Entrelinhas pode até não se informar sobre tudo neste blog, mas de algumas coisas fica sabendo antes por aqui, aliás bem antes: em 19 de março foi publicada a nota abaixo:

Paranóia paulistana - O "talking of the town" tucano-democrata (essa gente que apóia a dupla Serra-Kassab é chique e cosmopolita, não diz "conversa do momento", mas "talking of the town") é o trânsito na cidade de São Paulo. Para os amigos do governador que também são amigos do prefeito, está ocorrendo sabotagem petista no trânsito paulistano. "Quatro ou cinco carros em locais estratégicos podem parar a cidade", tem dito a quem quiser ouvir um poderoso secretário municipal. Pelo visto a paranóia do chefão Serra é contagiosa. Se o PT tem alguma culpa no cartório, é pelo sucesso do governo Lula em promover o desenvolvimento econômico no país, que está de fato colocando mais carros nas ruas todos os dias: nos tempos em que o excelso Fernando Henrique governou Pindorama, eram 100 caros a mais por dia; hoje são mil. Uma bela diferença.

Hoje, 27 de março, está na Agência Estado:

Para Kassab, existem pessoas sabotando trânsito - O prefeito Gilberto Kassab (DEM-SP) disse nesta quinta-feira, 27, que existem pessoas querendo prejudicar o trânsito da capital durante a inauguração do projeto Prainha do Parque Guarapiranga, na região da represa do Guarapiranga, na zona sul de São Paulo. Em entrevista à rádio CBN, Kassab comentou que foi encontrado um rapaz tentando cortar o pneu de um ônibus com uma faca, o que complicaria a situação no corredor exclusivo para os coletivos. O prefeito disse que essa foi a primeira vez que um caso desse tipo foi registrado. Kassab classificou a atitude como "criminosa" e disse que a prefeitura está atenta a esse tipo de atitude.

Popularidade de Lula: se melhorar, piora

Foi divulgado hoje o resultado de mais uma pesquisa CNI/Ibope sobre a popularidade do governo federal e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O resultado, conforme este blog previa, foi de aumento vigoroso na aprovação ao governo e ao presidente Lula: no primeiro caso, a avaliação positiva (ótimo e bom) saltou de 51% em dezembro de 2007 para 58% e hoje apenas 11% dos entrevistados avaliam o governo como ruim ou péssimo; no segundo, que chama ainda mais atenção, o Ibope aferiu que a aprovação ao modo do presidente governar saltou de 65% para 73%. A taxa de desaprovação foi de apenas 22%. Isto significa, em termos práticos, que Lula supera em mais de 10 pontos percentuais a consagradora votação que recebeu nas urnas em 2006. No meio do segundo mandato, quando o natural seria haver algum desgaste, o resultado é mesmo espantoso.

É improvável que Lula consiga crescer além deste patamar – sua melhor performance, em março de 2003, logo após a posse, foi de 75% –, mas a verdade é que se a crise da economia americana não piorar muito e o Brasil conseguir passar ao largo dos problemas que já começam a afetar alguns países mais frágeis, o presidente será bem mais pressionado a tentar um terceiro mandato do que se imagina hoje. No fundo, o único problema de uma avaliação tão alta é que deste patamar praticamente só se pode cair...

Abaixo, a matéria da Folha Online com mais detalhes sobre a pesquisa. Aliás, este blog aposta que a notícia não vai ser manchete em nenhum dos jornalões brasileiros.

Avaliação positiva do governo Lula atinge maior nível desde 2003, diz CNI/Ibope

GABRIELA GUERREIRO, da Folha Online, em Brasília

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva registrou avaliação positiva de 58% em março deste ano, segundo pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quinta-feira. O índice é o mais alto desde março de 2003, primeiro ano de Lula na Presidência da República. Somente 11% dos entrevistados avaliaram o governo federal como ruim ou péssimo, enquanto 30% consideraram a condução do governo como "regular".

Em dezembro de 2007, na última edição da pesquisa CNI/Ibope, a avaliação do governo foi de 51%. Em março de 2003, o índice de aprovação ao governo federal também foi de 51% --o que foi considerado pela CNI/Ibope como um crescimento considerável para a avaliação do governo federal.

Já a aprovação ao presidente Lula também cresceu em março deste ano. No total, 73% dos entrevistados aprovam a maneira do presidente governar o país. O índice também foi o segundo melhor registrado pela pesquisa.

Somente em março de 2003, a avaliação pessoal do presidente obteve índice maior, de 75%. Em março do ano passado, a avaliação de Lula foi aprovada por 55% dos entrevistados.

Confiança

No mesmo índice de crescimento, a confiança no presidente registrou índice de 68%, enquanto apenas 28% dos entrevistados afirmaram que não confiam em Lula.

Em dezembro do ano passado, o índice de confiança no presidente foi de 60%. Já em abril de 2006, o índice registrou 62%.

Segundo a CNI/Ibope, o movimento expressivo das avaliações positivas também repercutiu na expectativa em relação ao segundo mandato de Lula. Dos entrevistados, 42% afirmaram que o atual mandato de Lula está sendo melhor que primeiro. O percentual dos que consideram o segundo mandato pior que o primeiro caiu de 21% em dezembro para 16%.

A pesquisa ouviu 2.002 pessoas entre os dias 19 e 23 de março, em 141 municípios. A margem de erro é dois pontos percentuais para mais ou para menos.

quarta-feira, 26 de março de 2008

12 milhões melhoraram de vida em 2007

A matéria abaixo, da Folha Online, é um retrato do que vai pela economia brasileira hoje. Enquanto este movimento estiver em curso, é realmente muito difícil que a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva caia. Amanhã, o Ibope divulga mais uma rodada da pesquisa que mede a aprovação do presidente e de seu governo. Este blog não consulta videntes, mas aposta no mínimo na estabilidade dos índices anteriores. E não se surpreenderá se as taxas tiverem subindo ainda mais.

Quase 12 milhões de brasileiros deixam classes D/E em um ano

KAREN CAMACHO,
Editora-assistente de Dinheiro da Folha Online

As classes mais baixas da população, D e E, deixaram de ser maioria no Brasil. Em 2007, segundo estudo da financeira Cetelem em parceria com a Ipsos, o número de brasileiros nas classes mais baixas era de 72,9 milhões, cerca de 39% da população. Isso significa que 11,9 milhões de brasileiros passaram para classes mais altas em um ano, já que, em 2006, eram 84,8 milhões de brasileiros na base.

De acordo com o estudo, a classe C recebeu, tanto das mais baixas (D e E) como da mais alta (A e B), quase 10 milhões de integrantes, passando de 66,7 milhões em 2006 para 86,2 milhões em 2007, o que significa 46% da população.

O grupo que está nas classes A/B, por sua vez, reduziu de 32,8 milhões de pessoas em 2006 para 28 milhões em 2007, o que representa 15% da população.

Segundo a Cetelem, a pesquisa demonstra que houve diminuição na desigualdade de renda, com uma ligeira queda da renda média das classes A/B, ascensão de um grande contingente para a classe C e um pequeno aumento da renda média das classes D/E.

Em 2005, a renda média familiar das classes A/B era R$ 2.484. Ela caiu sucessivamente para R$ 2.325 e atingiu R$ 2.217 em 2007 --o que corresponde a uma redução de cerca de 11%. Nas classes D/E, a renda média familiar subiu de R$ 545 em 2005, para R$ 571 em 2006 e depois a R$ 580 em 2007, um crescimento de pouco mais de 6%.

Já a renda média da classe C permaneceu no mesmo patamar nesses três anos: algo em torno de R$ 1.100. A pesquisa ressalta ainda que o número de pessoas que passou de D/E para C teve um aumento de sua renda média mensal de R$ 580, para os atuais R$ 1.100.

Outro destaque da pesquisa foi a melhoria da renda disponível das classes C e D/E, aquela que sobra após o pagamento de contas e obrigações financeiras. A renda disponível das classes D/E foi negativa, em 2005, em R$ 17, terminando o ano no vermelho. No entanto, em 2006, a renda disponível ficou em pouco mais de R$ 2, subindo a R$ 22 no ano passado.

A classe C também registrou aumento nesse item. Ela era R$ 122 em 2005, passou para R$ 191 em 2006 e caiu para R$ 147 em 2007. Apesar da queda de 23,04% no último ano, quando se toma todo o período, o crescimento foi de 20%. Apenas as classes A/B viram diminuir sua renda disponível, caindo de R$ 632 em 2005 para R$ 506 em 2007, uma redução de 20%.

Geraldo, de novo, pode atropelar rivais

Que ninguém se engane com a cara de bom moço do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Ele sabe fazer contas e já entendeu que a eleição de 2008 é a melhor chance para tentar chegar à presidência da República em 2010. Sim, tucano nenhum fala no assunto, mas se Alckmin vencer a eleição para a prefeitura – hipótese hoje bastante provável –, por que razão ele iria esperar o longínquo ano de 2020 para tentar se tornar presidente do Brasil? A conta é simples: Alckmin e a torcida do flamengo já perceberam que a eleição de 2010 é uma oportunidade de ocasião porque o presidente Lula estará fora da disputa, o que faz toda a diferença. Em 2015 – todo mundo no meio político já dá como favas contadas o fim da reeleição e o mandato de 5 anos para cargos executivos – Lula estará de novo na parada, possivelmente como candidato de oposição, mas sempre a favor do Brasil. Claro que é difícil fazer previsões em um prazo tão longo, mas é pouco provável que a estupenda popularidade do presidente caia tanto até lá, de forma que ele no mínimo deve ser visto como um forte candidato.

Tudo somado, se Alckmin não sair candidato em 2010, vai precisar esperar até 2020, mas dez anos é realmente muito tempo e seu guru Gabriel Chalita não pode esperar tanto para iniciar a verdadeira revolução na educação nacional. Portanto, Serra e Aécio que se cuidem, Geraldinho sabe comer pelas beiradas, gosta de "amassar barro" e bater perna e com este jeito de sonso ainda vai dar muita dor de cabeça para os grão-tucanos.

Uma boa jogada de FHC

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pode ser muita coisa, mas burro, definitivamente, não é. O anúncio de que permitiria a abertura do sigilo de seus gastos com cartões corporativos é uma evidente jogada para a torcida, uma vez que ele sabe que isto não vai acontecer, mas não deixa de ser uma jogada inteligente, pois deixa o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em situação de constrangimento, uma vez que Cardoso "recomendou" ao seu sucessor que também ele abrisse mão dos sigilos.

A questão dos gastos dos presidentes é pura picuinha e em nada acrescenta para o debate público no Brasil, sobre as questões que de fato interessam ao povo. O problema é que qualquer que seja o montante gasto, será sempre muito mais do que o cidadão comum poderia dispender, pelo simples fato que o cargo de presidente da República não é "comum". Que Lula e Fernando Henrique tenham usufruido das facilidades que o cargo possibilita é perfeitamente legal e compreensível, pouca diferença faz se o primeiro gosta de uísque 12 anos e o segundo, de vinhos Romane Conti (segundo a versão tucana, apreendidos pela Receita Federal). O que importaria investigar, se denúncia sobre isto houvesse, é se alguns dos dois presidentes ou seus familiares roubou dinheiro público ou se valeu de expedientes ilícitos durante o governo em benefício próprio ou dos seus. Como a hipocrisia é grande e o udenismo-lacerdista cresce à vista grossa no país, o melhor que pode acontecer é os atores políticos terem o bom senso de deixarem a questão dos gastos presidenciais para lá e tratarem do que de fato importa, como a reforma tributária, medidas de prevenção contra a crise externa, enfim, assuntos que ralmente tragam alguma compensação para o povo brasileiro.

Do ponto de vista político, porém, não há como não ressaltar que FHC "mandou bem", como dizem os jovens. O governo trucou, ele gritou 6 e deixou Lula sem voz. No nível a que esta discussão desceu, Lula ficou engessado, não pode gritar 9 e mandar investigar Paulo Henrique Cardoso, por exemplo, porque soaria estranho, alguém poderia dizer que seria "perseguição política". A sorte do presidente é que o assunto, de tão pequeno e irrelevante, deverá ser em breve esquecido e retirado da pauta para que um novo escândalo sacie a fome dos neolacerdistas.

terça-feira, 25 de março de 2008

Privatização de Serra fracassa

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), bem que tentou, mas a sua própria ganância acabou impedindo que a Cesp (Companhia Energética de São Paulo) acabou cancelado por falta de interessados. O tucano agora tenta tirar uma casquinha dizendo que não venderia a Cesp "na bacia das almas", mas a verdade é que ele deve estar bem irritado e à procura de outra forma de arrumar uns trocados para a campanha eleitoral de 2010. É dura a vida de um presidenciável...

Abaixo, a íntegra da matéria do portal G1, da Globo, sobre o cancelamento do leilão:

Sem interessados, leilão da Cesp é cancelado

Nenhum dos participantes inscritos respeitou o prazo para depósito de garantias financeiras. Empresas inscritas eram CPFL, Neo Energia, EDP Energia do Brasil, Tractebel e Alcoa.

O leilão da Companhia Energética de São Paulo (Cesp), que aconteceria nesta quarta-feira (26), na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), foi cancelado.
Nenhum dos participantes inscritos respeitou o prazo para depósito de garantias financeiras, de R$ 1,74 bilhão. As empresas inscritas eram CPFL, Neoenergia, EDP Energia do Brasil, Tractebel e Alcoa, segundo a Bovespa.

O prazo para entrega de documento e pré-identificação terminou no dia 10 deste mês. O de identificação - que determina os participantes - foi atendido, com as cinco empresas inscritas.
Para participar do leilão, as companhias tinham até as 12h de hoje para apresentar suas garantias na Câmara Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC). Esta seria a terceira tentativa de venda da empresa.

"Bacia das almas"

O governador de São Paulo, José Serra, confirmou no início da tarde desta terça (25) o cancelamento do leilão da Cesp porque os interessados não apresentaram garantias mínimas. O preço ficou abaixo do que o governo esperava.
Em entrevista no Palácio dos Bandeirantes, Serra disse que as empresas queriam um valor menor para a Cesp. "O pessoal queria um valor menor, mas nós não vendemos na bacia das almas", afirmou. Serra argumentou que o governo "não cedeu às empresas e não diminuiu o preço da companhia". E destacou: "Mantivemos o patrimônio da Cesp".

O governador paulista acredita que uma das razões para as cinco empresas que participariam do leilão não terem oferecido um preço adequado foi a dificuldade de obtenção de financiamento junto às instituições de crédito internacionais, em razão da crise dos Estados Unidos.


Com o cancelamento do leilão, o governo de São Paulo vai estudar alternativas para a questão.
As ações da Cesp despencavam após o anúncio. Às 13h, as ações ON perdiam 12,5%, R$ 28, com volume financeiro tímido. Os papéis PNB, os mais líquidos, caíam 16,4%, para R$ 32,40.

EUA, sexo e política, por Alberto Dines

O editor chefe do Observatório da Imprensa está inspirado nesta semana. O artigo abaixo, publicado no OI, é uma pérola bastante divertida, mas que traz também um lado sério, pois revela quanta besteira é capaz de produzir uma cabeça colonizada (ou várias delas, a bem da verdade, pois o desastre não é culpa exclusiva do repórter). Vale a pena ler na íntegra:


SEXO E HISTÓRIA
O New Journalism precisa de Viagra

"Gay Talese está resfriado." O lead da "Entrevista da 2ª", na Folha de S.Paulo (24/3, pág. A-14), é digno de uma das melhores peças do jornalismo literário, do qual Talese foi um dos expoentes [ver aqui].

O resto é desastroso. O repórter-entrevistador fez o que pôde, o repórter-entrevistado estava com um resfriado cerebral, neurônios congestionados, prostração moral.

Graças a isso, armou uma das doutrinas mais esdrúxulas, mais simplistas, mais amorais e mais cínicas produzidas por uma celebridade lítero-jornalística: nos EUA, os piores presidentes não tiveram amantes.

De olho na cama, o grande Talese articulou um resumo da história contemporânea dos EUA: Richard Nixon e George W. Bush foram funestos porque tiveram que contentar-se com as respectivas. Os demais, inclusive o facínora Lyndon Johnson, saiu-se muito bem porque colocou Lady Bird na gaiola e saiu ciscando por aí.

E como fica Ronald Reagan, o garanhão dos filmes de faroeste – valem as namoradas do celulóide? E Bush Senior, pai do primata que ocupa a Casa Branca?

Local de trabalho

Se a matéria da Folha fosse traduzida para o inglês, Talese nunca mais conseguiria um frila. Aqui, suas sandices encheram uma página inteira e mereceram chamada na capa do primeiro caderno.

Em algum momento, o veterano jornalista deve ter percebido a bobajada que despejava pela boca e se confundia com o muco que botava pelo nariz. Esboçou, então, algumas elucubrações que resultaram tão idiotas quanto o Coeficiente Talese para Aferir Competência Presidencial:

** "Se você está no negócio de publicar jornais, tem que publicar o que é considerado notícia" (o lema do New York Times é precisamente este – "All the news that fit to print").

** "Hoje em dia tudo é notícia, o que não acontecia 30 anos atrás" (evidente: há 30 anos, quando Gay Talese ficava resfriado, metia-se na cama, tomava um suadouro e lia uma novela de Horace MacCoy).

** "A mentalidade da mídia está toda voltada para os escândalos sexuais. A mídia conduz a história" (Karl Marx acaba de ser desbancado).

** "Sexo não é complicado. Política é complicado" [sic]. Talese acaba produzir um paradigma capaz de agitar a campanha eleitoral americana.

Se Hillary, Obama ou McCain desejam entrar para a história como benfeitores da pátria, devem colocar uma cama no Salão Oval e mandar brasa.

Morre Sérgio de Souza, da Caros Amigos

O bom jornalismo brasileiro perdeu Sérgio de Souza, 73, na madrugada desta terça-feira. Editor da revista Caros Amigos e com uma folha de excelentes serviços prestados à democracia e ao país, ele será cremado nesta tarde em São Paulo. Leia abaixo a nota da Caros Amigos sobre o falecimento de Sérgio de Souza.

Foi-se Sérgio de Souza, o nosso Serjão

"Morreu em São Paulo aos 73 anos o jornalista Sérgio de Souza, o Serjão. Operado dia 10 de março de 2008 em razão de uma perfuração no duodeno, morreu em decorrência de complicações na madrugada de hoje, terça-feira, 25 de março, no Hospital Osvaldo Cruz.

Sérgio deixa viúva a jornalista Lana Nowikow, com quem teve três de seus sete filhos.

Nascido em 1934 no Bom Retiro, bairro tradicional no centro da capital paulista, Serjão era um autodidata. Não chegou ao curso “superior”, mas fez-se na rua e nas redações “doutor” em jornalismo. Bancário, recém-casado, viu uma notícia na Folha de S. Paulo no fim da década de 1950, do tipo “você quer ser jornalista?”, e para lá se dirigiu. Fez um teste e, aprovado, entrou para a reportagem do jornal da Barão de Limeira, onde nos conhecemos.

Quatro anos depois, a convite de Paulo Patarra, transferiu-se para Quatro Rodas, da Editora Abril. Ali, em 1966, faria parte da equipe que fundou e lançou Realidade, cujo forte era a reportagem, revista “cult” daquela editora e maior sucesso jornalístico do gênero neste país.

Avesso a entrevistas, até tímido diante de uma câmera, microfone ou mesmo um colega de caneta e papel na mão, Serjão não deixou muitas pistas sobre sua vida particular, onde estudou, que preferências tinha em matéria de literatura, cinema, e outras trivialidades que costumam compor um necrológio. Certo é que Sérgio de Souza é o último monstro sagrado vivo que se vai de uma geração que fez, além de Realidade: a revista quinzenal de contracultura O Bondinho; o jornal mensal de política, reportagem e histórias em quadrinhos Ex-; o programa de televisão 90 Minutos na Bandeirantes – entre dúzias de trabalhos.

Há onze anos, em abril de 1997, Sérgio lançou, com amigos e associados, a revista Caros Amigos, que vinha dirigindo até duas semanas atrás.

A importância de Serjão para o jornalismo pátrio é discreto como sua figura e incomensurável como seu tamanho – pois se dá justo naquele trabalho quase anônimo do editor, do editor de texto, da palavra seca, cortante, exata, da melhor linha humano-política na orientação ao repórter, ao subeditor, ao chefe de arte, ao departamento comercial, advinda de um caráter íntegro e de um senso jornalístico próprio dos gênios.

Dedicou 50 anos à profissão, na qual não fez fortuna, ao contrário: deixa dívidas. Aliás, uma de suas últimas criações foi o “Anticurso Caros Amigos – Como não enriquecer na profissão”.

Aos que o sucedem em Caros Amigos, fica a desmedida tarefa de homenagear sua memória fazendo das vísceras coragem e coração para tocar o barco em frente.

Mylton Severiano, editor-executivo de Caros Amigos"

segunda-feira, 24 de março de 2008

Nova enquete no ar

Já está disponível na coluna ao lado a nova pesquisa do DataEntrelinhas, desta vez sobre a política mineira.

Na enquete anterior, a vitória de Arthur Virgílio é de certa forma surpreendente. Talvez os leitores tenham votado no amazonense para candidato do PSDB à presidência da República em 2010 com o objetivo de facilitar a vida de Dilma Rousseff. De fato, Virgílio é a versão eleitoral daquele personagem do Casseta e Planeta que "não pegava ninguém", encarnado, salvo engano, pelo saudoso Bussunda: no caso, o bravo Arthurzinho não ganha de ninguém... Lula só teria a agradecer aos tucanos por tão inusitada indicação.

Sobre o "dossiê" de Veja

Vale a pena ler o comentário do sempre lúcido mestre Alberto Dines para o programa de rádio do Observatório da Imprensa: "Enquanto os estudiosos examinam com atenção o relatório sobre o Estado de Mídia dilvugado na semana passada, a nossa mídia continua oferecendo um espetáculo lamentável, lamentável e perverso. A Veja do último fim de semana acusa o governo de estar preparando um dossiê sobre os gastos da presidência da República no período 1998 a 2001, isto é, no fim do segundo mandato de FHC. Este dossiê, segundo o semanário, visa a intimidar a oposição na CPI dos Cartões Corporativos. Ora, se a revista acusa o governo de estar preparando uma chantagem, por que razão publicou dados sigilosos e aparentemente falsos, conforme declarou a ministra Dilma Rousseff? Na corrida sensacionalista, inverteram-se os papéis: ao divulgar os dados, Veja inocenta automaticamente o governo e converte-se, ela própria, em agente e beneficiária da chantagem." Não é mesmo preciso dizer mais nada...

Adivinha de quem ele está falando?

Está bem interessante o artigo de Fernando de Barros e Silva publicado na Folha de São Paulo de hoje. Este blog não concorda com tudo que diz o editor de Brasil da FSP, mas recomenda vivamente a leitura do texto. A resposta à questão do título deste post é tão óbvia que a resposta estará no blog do dito cujo tão logo ele acorde. Aguardem.

A direita e o lulismo

SÃO PAULO - A chegada de Lula ao poder seguida da ruína moral do petismo serviu de trampolim para impulsionar uma nova direita no país. É um fenômeno de expressão midiática, mais do que propriamente político. Está disseminado em jornais, sites, blogs, na revista. E deve sua difusão aos falcões do colunismo que se orgulha de parecer assim, estupidamente reacionário.
Mesmo que a autopropaganda seja enganosa e oculte que até ontem o conservador empedernido de hoje comia no prato da esquerda, que é só um "parvenu", um espertalhão adaptado aos tempos -ainda assim, temos aqui uma novidade.
Essa direita emergente já formou patota. Citam uns aos outros, promovem entrevistas entre si, trocam elogios despudorados. Praticam o mais desabrido compadrio, mas proclamam a meritocracia e as virtudes da impessoalidade; são boçais, mas adoram arrotar cultura.
É uma direita ruidosa e cínica, festiva e catastrofista. Serve para entreter e consolar uma elite que se diz "classe média" e vê o país como estorvo à realização de seu infinito potencial. Seus privilégios estão sempre sob ameaça e agora a clientela de Lula veio azedar de vez suas fantasias de exclusivismo social.
Invertemos a fórmula de Umberto Eco: enquanto a direita anuncia o apocalipse, os integrados, sob as asas do lulismo, são testemunhas vivas do fiasco do pensamento de esquerda neste país. Não me lembro de ter visto antes a mídia estampar com tanta clareza os passos da regressão social de que participa.
Do lado oficial, há um ambiente paragetulista de cooptação e intimidação difusas, se não avesso, certamente hostil às liberdades de expressão e de informação.
Na outra ponta, um articulismo de oposição francamente antinordestino e preconceituoso, coalhado de racismo e misoginia, que faz do insulto seu método e tem na truculência verbal sua marca. Deve-se a ele o retorno da cultura da sarjeta e do lixo retórico, vício da imprensa nativa que remonta ao Império, mas que havia caído em desuso.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Volatilidade provoca vexame nos colunistas

Um dia a bolsa despenca, no outro fecha em forte alta. A volatilidade dos mercados financeiros é uma grande armadilha para os colunistas econômicos, especialmente os da mídia escrita. O risco é o sujeito escrever que vai tudo muito mal e o público estranhar, no dia seguinte, a leitura "pessimista" em meio a uma eventual euforia dos mercados. É preciso ter sangue frio e fazer a análise levando em conta fatores de curto, médio e longo prazo. Do contrário, a coluna será sempre desmentida pelos fatos do momento, seja ela otimista ou pessimista...

quarta-feira, 19 de março de 2008

Paranóia paulistana

O "talking of the town" tucano-democrata (essa gente que apóia a dupla Serra-Kassab é chique e cosmopolita, não diz "conversa do momento", mas "talking of the town") é o trânsito na cidade de São Paulo. Para os amigos do governador que também são amigos do prefeito, está ocorrendo sabotagem petista no trânsito paulistano. "Quatro ou cinco carros em locais estratégicos podem parar a cidade", tem dito a quem quiser ouvir um poderoso secretário municipal. Pelo visto a paranóia do chefão Serra é contagiosa. Se o PT tem alguma culpa no cartório, é pelo sucesso do governo Lula em promover o desenvolvimento econômico no país, que está de fato colocando mais carros nas ruas todos os dias: nos tempos em que o excelso Fernando Henrique governou Pindorama, eram 100 caros a mais por dia; hoje são mil. Uma bela diferença.

Alckmin está perdendo tempo

Muita gente que conhece de perto a arte de disputar uma eleição adverte que o ex-governador Geraldo Alckmin está cometendo um erro enorme ao não formalizar logo a sua candidatura à prefeitura de São Paulo pelo PSDB. Favorito na disputa, ele está deixando a corda esticar para definir se de fato concorre e já abriu o flanco para os tucanos próximos ao governador José Serra bombardearem o seu pleito. Se Alckmin for esperto, cria logo um fato consumado e sai em campanha pela cidade. Evidentemente, os serristas não estarão ao seu lado, mas pelo menos não poderão, ao menos em público, criticar o candidato do próprio partido. Enquanto ele não for candidato, os serristas estarão apenas combatendo uma tese – a de que o ex-governador é a melhor opção para a eleição deste ano.

Mino deixa o iG em solidariedade a PHA

Está no blog do jornalista Mino Carta, ainda no ar:

O último post

Meu blog no iG acaba com este post. Solidarizo-me com Paulo Henrique Amorim por razões que transcendem a nossa amizade de 41 anos. O abrupto rompimento do contrato que ligava o jornalista ao portal ecoa situações inaceitáveis que tanto Paulo Henrique quanto eu conhecemos de sobejo, de sorte a lhes entender os motivos em um piscar de olhos. Não me permitirei conjecturas em relação ao poder mais alto que se alevanta e exige o afastamento. O leque das possibilidades não é, porém, muito amplo. Basta averiguar quais foram os alvos das críticas negativas de Paulo Henrique neste tempo de Conversa Afiada.

terça-feira, 18 de março de 2008

Os motivos do rompimento

Não, desta vez não foi pressão de José Serra (PSDB). É raro, mas no caso da "demissão" de Paulo Henrique Amorim do iG, Serra está inocente. Ao que este blog conseguiu apurar - e não foi muita coisa ainda - a motivação do rompimento do contrato foi a postura firme de Paulo Henrique contra a fusão da Brasil Telecom com a Oi (a tal "Broi" de que ele tanto fala). Como a Brasil Telecom é controladora do iG, a versão faz sentido. E, a ser verdadeira esta versão, a recisão é, do ponto de vista do iG, compreensível. O que não cola é a desculpa dada pelo provedor de que o site não tinha audiência e não atraia anunciantes. Amanhã, no novo site do jornalista, será possível saber com detalhes o que ocorreu. De qualquer maneira, de positivo resta o fato de que a internet continua sendo o mais democrático dos meios de comunicação: a temporada fora de Paulo Henrique Amorim fora do ar será curta, para a decepção dos blogs direitosos, em festa hoje com a decisão do iG.

iG rompe contrato com Paulo Henrique

O que vai abaixo está no blog do jornalista Ricardo Noblat. É um pequeno exemplo do que poderá acontecer em escala nacional no dia em que José Serra (PSDB) se tornar presidente do Brasil. Uma pena.

IG dispensa Paulo Henrique Amorim

O blog "Conversa Afiada", do jornalista Paulo Henrique Amorim, não será mais veiculado pelo portal do IG. A informação oficial é a seguinte: o IG vem há algum tempo revendo seus produtos. Como modelo de negócio, o blog de Paulo Henrique não atendeu às expectativas de audiência do portal. Nem atraiu anúncios suficientes. Como chegara a hora de renovar ou não o contrato com o jornalista, o IG preferiu não fazê-lo.

Mercados maníaco-depressivos

É bom ninguém se entusiasmar muito com a alta das bolsas de valores, aqui e lá fora, nesta terça-feira. É claro que o corte na taxa de juros básica dos Estados Unidos, de 0,75 ponto percentual, ajuda a animar o mercado e minimizar os riscos de uma catástrofe econômica no coração do império, mas a verdade é que ninguém sabe ainda o tamanho da encrenca e embora não seja o cenário mais provável, é perfeitamente possível que a crise de fato tenha proporções muito maiores do que é possível visualizar neste momento. No fundo, só é possível saber a dimensão de uma crise quando ela acaba. Qualquer palpite neste momento é mero chute.

segunda-feira, 17 de março de 2008

PT e PMDB perto de fechar aliança em SP

Pode até ser que o acordo acabe não se concretizando, mas hoje, 17 de março, tudo caminha para uma aliança entre PT e PMDB na capital paulista, com Marta Suplicy na cabeça da chapa. Com esta coligação, a ex-prefeita será dona do maior tempo na televisão, praticamente o dobro do que Geraldo Alckmin (PSDB), supondo que os tucanos fechem mesmo uma aliança com o PTB.

Enquete nova no ar

A última pesquisa do DataEntrelinhas terminou com a vitória do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. À pergunta "como o governo brasileiro deve agir na crise entre Equador, Colômbia e Venezuela?", a maioria absoluta dos leitores (56%) optou pela terceira alternativa, a de mandar FHC como medidador do conflito, a fim de que ele tenha algo para fazer e pare de aporrinhar o presidente Lula.

A nova enquete é sobre a candidatura tucana à presidência da República e já está disponível na coluna ao lado. Que vai ganhar a disputa interna, Aécio, Serra ou Virgílio, o homem que sai de expressivos 3% em seu próprio estado, o Amazonas? Você, leitor, vai decidir. Este blog adianta que prefere a candidatura do senador amazonense pelo singelo motivo de que a campanha ficaria bem mais animada. E que ninguém despreze as chances de Virgílio, afinal, se ele é o que tem a menor taxa de intenções de voto neste momento, é também o postulante com maior potencial de crescimento. Não foi com este argumento que Geraldo Alckmin ganhou a parada de Serra em 2006?

Não caiu bem

Os mercados financeiros já começaram a operar e, pelo andar da carruagem, as medidas anunciadas ontem pelo Fed não agradaram. Boa parte das bolsas de valores do planeta opera em forte baixa neste momento – o Ibovespa chegou a cair 4% e agora está em baixa de 2,3%, por exemplo. O banco central norte-americano está agindo rapidamente, mas parece que cada nova medida anunciada é ao mesmo tempo entendida como sinal de agravamento da crise. De qualquer forma, não é todo dia que o quinto maior banco de investimentos dos EUA é vendido a toque de caixa com o intuito de evitar sua falência. A vida de fato não anda nada fácil no coração do império. É bom o pessoal começar a ler Keynes de novo...

domingo, 16 de março de 2008

Mais um capítulo da crise americana

Esta segunda-feira, dia 17 de março, será uma data chave na crise que se abateu o mercado financeiro norte-americano. A depender da reação dos atores econômicos ao "pacote" anunciado na noite de domingo pelo Federal Reserve (o banco central dos EUA) e que inclui corte 0,25 ponto percentual na taxa de redesconto, além de mais uma ajuda de US$ 30 bilhões para ajudar a resgatar instituições financeiras em risco de quebrar, será possível saber se a crise vai se agravar ou se o Fed conseguiu acalmar um pouco os ânimos. É evidente que a crise é grave e suas consequências não vão simplesmente cessar de uma hora para outra, mas o fato é que o pessoal do Federal Reserve está trabalhando com afinco para evitar uma nova Crise de 29 ou algo semelhante. Muita gente já reparou, inclusive, que a ação do Fed e do governo americano de um modo geral está fugindo do script dos ideais do liberalismo econômico tradicional, tão arraigado na cultura americana. A rigor, na hora que a coisa apertou, é a mão pesada do Estado que foi usada para tentar socorrer as maluquices feitas na esfera da iniciativa privada. No passado, isto se chamava "socialização dos prejuízos", mas o termo certamente já saiu de moda...

A hipótese mais crível ainda é a de que o Fed consiga evitar o agravamento dos problemas, tamanho o seu poder de intervenção. Porém, em breve alguém vai pagar a conta dos prejuízos, até aqui calculados em alguma coisa entre R$ 200 bilhões e R$ 600 bilhões. Não é pouca coisa. Como escreveu Paul Krugman em seu último artigo no The New York Times, se até pouco tempo atrás a idéia dominante entre os analistas políticos dos EUA era a de que os principais problemas do próximo presidente americano seriam a guerra no Iraque e o sistema de saúde local, hoje esses dois temas poderão ser questões menores para quem vier ocupar a Casa Branca após as eleições de novembro...

PHA: boa definição de José Serra

Está divertida a notinha abaixo, do site Conversa Afiada. O jornalista Paulo Henrique Amorim sempre se refere ao governador José Serra como "presidente eleito" pelo fato de o tucano ser o preferido da grande imprensa, que, portanto, já o elegeu antecipadamente.

EÇA: SERRA É O PACHECO

Máximas e Mínimas 1023

. Um amigo leitor, que há anos acompanha a fulgurante carreira do presidente eleito José Serra, me recomendou uma leitura dominical.

. "A Correspondência de Fradique Mendes", de Eça de Queiroz.

Trata-se de carta ao Sr. E. Mollinet, diretor da Revista de Biografia e de História.

Diz o Eça:

"Meu caro Sr. Mollinet. – Encontrei ontem à noite, ao voltar de Fontainebleau, a carta em que o douto amigo ... me pergunta quem é este meu compatriota Pacheco (José Joaquim Alves Pacheco)... E deseja ainda o meu amigo saber que obras ou que fundações, ou que livros, ou que idéias, ou que acréscimo na civilização portuguesa deixou esse Pacheco ...

Eu casualmente conheci o Pacheco. Tenho presente, como num resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma idéia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento. Todavia, meu caro Sr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente aclamara, nunca deu, da sua força, uma manifestação expressa, visível ! O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco !"

sexta-feira, 14 de março de 2008

Jorge Rodini: o herói pactual

Em mais uma colaboração para o blog, o santista Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia de pesquisas, escreve sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua altíssima popularidade. A seguir, a íntegra do comentário:

Lula, nosso presidente, desfila uma aprovação popular de fazer a rainha da Inglaterra ter inveja.

Carismático, nordestino, retirante, metalúrgico, sindicalista e mentor do maior partido brasileiro, Lula demonstra, sem equação alguma, a simplicidade no fazer política. Soube, mesmo que solitário, fazer-se acompanhado de uma multidão.

Lula é único. Reformas, para que?

Se os ventos positivos do mundo asiático o favorecem, para que brincar com a sorte? Se o valor das commodities está na estratosfera e isto empurra as exportações brasileiras para níveis jamais imaginados, mérito de Lula.

Ora, Lula fez pacto com todo mundo. Com a base aliada, com São Pedro, com os corinthianos, com a Dilma . Até com o PAC. E será que conversou com o Demo?

Voltemos ao mérito de Lula. O herói Macunaíma tentou ser presidente várias vezes, sem sucesso. Pois não é que quando conseguiu, o mundo resolveu ajudá-lo? Mérito, sorte, acaso, loteria?

Lula é o cara. De cara ou de resto para a lua. Os mais ricos cada vez mais ricos, os mais pobres cada vez menos pobres. Banqueiros satisfeitos, a base aliada feliz, a classe D virando C. Esta é a equação. O resto é pacto.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Aécio Neves amplia arco de apoios,
isola Serra e se reforça para 2010

O que vai abaixo é uma matéria do autor destas Entrelinhas para a edição de sexta-feira do DCI. Em primeira mão para os leitores do blog.

As articulações políticas realizadas por Aécio Neves (PSDB) para se viabilizar como candidato à Presidência da República em 2010 não apenas têm sido eficientes para promover a posição do governador mineiro como estão colocando nas cordas o principal rival dele no ninho tucano, o também governador José Serra, de São Paulo. É o que pensa o professor de Ciência Política Carlos Melo, do Ibmec de São Paulo. E é também o que pensam, mas ainda não dizem publicamente, algumas importantes lideranças do PMDB, partido que já ofereceu guarida para a candidatura presidencial do neto de Tancredo Neves, caso Serra vença a guerra que começa a ser travada no PSDB.

Na semana passada, o presidente do PMDB, deputado federal Michel Temer (SP), esteve reunido com Aécio para reafirmar a disposição do PMDB de ter o governador mineiro como candidato à sucessão do presidente Lula em 2010. Nos bastidores peemedebistas, porém, várias lideranças cogitam a hipótese de Aécio levar a melhor contra Serra e, na condição de candidato do PSDB, formalizar uma aliança abrindo a vaga de vice-presidente para o PMDB.

Três planos em jogo

Para o professor Carlos Melo, este cenário seria hoje o mais provável, pois Aécio tem conseguido ampliar seu espaço no tucanato, ao passo que o governador de São Paulo está ficando isolado. “A derrota do deputado Arnaldo Madeira para a liderança na Câmara foi a última grande demonstração de fragilidade do Serra”, observa Melo, lembrando que o vencedor naquela disputa – o deputado José Aníbal (SP) – tinha o apoio de Aécio.

Melo explica que a derrota em Brasília é simbólica, mas os problemas de Serra são reais. Na capital paulista, o governador não conseguiu negociar a contento com o seu antecessor e agora vê, a contragosto, Geraldo Alckmin se afirmar como candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo contra o prefeito Gilberto Kassab (DEM), vice de Serra e aliado de primeira hora do governador. “Se a proposta de primárias do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) vingar, não vejo como o Serra conseguiria sustentar o debate interno”, diz o especialista, que vê colado no ex-ministro da Saúde os estigmas de “excessivamente paulista” e “autoritário”.

Ao contrário de Serra, que tem uma aliança sólida com o DEM em São Paulo, Aécio tem se esforçado para ampliar as negociações em torno de uma eventual candidatura à presidência aos partidos de centro-esquerda, como o próprio PMDB e o PSB de Ciro Gomes. E, para espanto de muitos tucanos, Aécio patrocina uma articulação em Belo Horizonte que pode fazer com que o estado de Minas marche unido em 2010: a aliança PSDB-PT na eleição municipal da capital mineira deste ano teria como consequência o apoio dos tucanos ao nome que o PT indicar para o governo do estado, em uma coligação que nem o clima beligerante de Brasília parece estar atrapalhando.

Lideranças do PMDB que têm participado das conversas no partido sobre a candidatura de Aécio dizem que o grupo político que o apóia tem hoje três planos distintos, todos eles viáveis e aguardando a definição do cenário político com a aproximação da eleição. No primeiro plano, Aécio concorreria pelo PSDB, com um vice do PMDB – o nome do governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, é bastante citado; o plano B consistiria na candidatura de Aécio pelo PMDB, com um vice de uma legenda à esquerda (PSB, PCdoB ou mesmo PV). A terceira hipótese ou “Plano C” ocorreria se o cenário político fosse de tal forma favorável ao presidente Lula que a Constituição fosse modificada para permitir que ele concorresse a um terceiro mandato. Neste caso, Aécio poderia ser o vice, pelo PMDB, com o qual Lula sempre sonhou.

Afagos para a esquerda
Especulações à parte, Aécio tem trabalhado com afinco para ampliar a sua base de apoio. Nesta semana, por exemplo, a intervenção do governador de Minas foi determinante para que a manutenção da contribuição sindical fosse aprovada na Câmara – os tucanos pretendiam obstruir a votação, mas Aécio convenceu o líder José Aníbal a votar a matéria, em um claro afago ao deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (PDT-SP).

Ainda na semana passada, Aécio também abençoou a candidatura do deputado Fernando Gabeira (PV) à prefeitura do Rio de Janeiro, em uma aliança com o PSDB e o PPS, e aproveitou para mandar um recado claro para a ala do tucanato que prefere ver o partido em oposição mais dura ao governo federal: se for candidato à Presidência, Aécio quer ser o “pós-Lula” e não o “antiLula”.

Copom: uma ata do outro mundo

O conservadorismo dos homens que comandam a política monetária do Brasil é mesmo impressionante. A ata da última reunião do Copom (Conselho de Política Monetária), colegiado do Banco Central responsável entre outras coisas por estabelecer a taxa de juros básica do país (Selic), foi divulgada na manhã desta quinta-feira com uma advertência surreal: se a inflação fugir da meta, a taxa de juros no Brasil poderá ser elevada. A hipótese da inflação fugir do controle é hoje remota, mas o simples fato do Copom cogitar um aumento na taxa de juros impressiona, porque o centro do debate macroeconômico atualmente gira muito mais em torno de medidas para evitar que o "derretimento" do dólar frente o real não prejudique as exportações brasileiras e a balança comercial. Ora, a melhor medida para evitar a valorização excessiva do real neste momento é justamente abaixar a taxa de juros, e não aumentá-la, uma vez que a tendência é uma nova redução nos juros norte-americanos na próxima semana, elevando assim, automaticamente, o diferencial que tanto atrai os investidores estrangeiros para o Brasil (a conta é simplíssima: hoje a Selic está em 11,25% e a taxa americana, em 3%, logo a diferença é de 8,25 pontos percentuais; como o Fed deve reduzir em mais meio ponto os juros nos EUA, esta diferença vai passar a 8,75 pontos, atraindo mais dólares interessados na maior rentabilidade para o Brasil).

O Copom deve, sim, perseguir a meta de inflação e não deve se descuidar deste aspecto, mas não é possível que seus integrantes não levem em consideração o fato de o mundo estar passando por uma crise sem precedentes e que inclusive pode abrir uma bela janela de oportunidades para o Brasil, se o país souber aproveitá-la. O dólar está tão barato hoje que acaba exercendo uma pressão deflacionária (via importação mais barata, por exemplo), de modo que o BC poderia perfeitamente afrouxar a política monetária, tolerar uma eventual inflação acima da meta por alguns meses e baixar a Selic, estimulando assim o consumo interno e a produção. Por tabela, juros menores também diminuiram a atratividade para os investidores estrangeiros, ajudando a manter o dólar um pouco menos derretido.

Resta saber, ao fim e ao cabo, por quanto tempo o presidente Lula vai tolerar tamanho conservadorismo dos responsáveis pela política monetária de seu governo. É sabido que Lula não admite a volta da inflação, mas se o preço para isto for, mais uma vez, frear o consumo interno, trata-se de um verdadeiro tiro no pé de um governo que parece fadado ao sucesso na área econômica.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Davi contra Golias

O prêmio iBest continua aceitando votos e este blog está em vias de ultrapassar o megablogueiro Ricardo Noblat. Ajude o pequeno Davi a derrotar os vários Golias do concurso: clique aqui para votar no Entrelinhas. Com mais alguns votinhos, o blog supera também o dos Democratas, o que já seria uma vitória e tanto. Antecipadamente, agradecemos aos votos dos nossos fiéis leitores.

Ainda sobre o PIB: a análise da Indústria

O que vai abaixo é o texto divulgado pelo Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), espécie de think tank dos industriais brasileiros, sobre o crescimento do PIB brasileiro. Choramingos à parte, é uma boa análise.

O crescimento de 5,4% do PIB brasileiro em 2007 deve ser comemorado como um índice significativamente superior à média dos quatro anos anteriores, 3,5%. O crescimento econômico do ano passado se acerca mais do que pode ser considerado como a taxa objetivo para um país com a força e a diversidade econômica que o Brasil dispõe. Essa taxa é de 7% ao ano. Na indústria deve ser destacada a grande reativação do setor que é o coração do complexo industrial, ou seja, a indústria de transformação. Seu dinamismo muito baixo em 2006 (+2%) cedeu lugar a um crescimento de 5,1%. Foi essa variação o fator individual mais destacado para que o PIB global do país transitasse da taxa de 3,8% em 2006, para o já observado crescimento de 5,4% no ano seguinte.

Na proporção do crescimento do PIB e do investimento certamente reside a característica mais relevante a sugerir continuidade do crescimento econômico. A variação real do investimento, em 13,4%, correspondente a duas vezes e meia a variação do produto, é a melhor política antiinflacionária que o país pode ter, pois dinamicamente vai resolvendo o problema do abastecimento sem pressões sobre os preços. A taxa de investimento (relação entre formação bruta de capital fixo e PIB) em 2007 foi de 17,7%, com significativa expansão com relação ao ano anterior (15,9%). No entanto permanece muito baixa, sinal que é possível, e altamente desejável, que o aumento do investimento de 2007 se repita em 2008 e anos subseqüentes. Políticas mais amplas e maiores incentivos tributários e financeiros às inversões e para a área de infra-estrutura podem colaborar para esse objetivo.

Dois sérios problemas revelados pelos resultados do PIB devem merecer estudos e atenção: 1) A contribuição negativa do comércio exterior de bens e serviços para o crescimento, que em 2007 chegou a 1,5 pontos percentuais. A valorização cambial, é claro, está na base de explicação desse resultado. Analistas não atribuem problema a esse resultado negativo de curto prazo, alegando que o mercado interno serve de compensação. Isso de fato ocorreu em 2007, podendo se repetir em 2008, mas leva a uma sobreutilização do mercado interno, requerendo um crescimento do consumo e do crédito tão acentuados que pode esbarrar em limites. Em uma hipótese ainda não vislumbrada, mas sempre possível, de menor dinamismo do mercado interno, o Brasil sentirá falta de políticas voltadas para assegurar um balanceamento maior entre fonte externa e interna de crescimento. 2) Em outra conseqüência do câmbio valorizado, pode estar ocorrendo um empobrecendo das cadeias industriais de produção em um silencioso processo que a alta performance do crescimento da produção mormente na indústria parece não confirmar. Para pensar e aprofundar: segundo a pesquisa de produção industrial, a indústria de transformação acusou aumento real de 6% em 2007, mas, segundo os dados do PIB, foi menor o crescimento real do valor adicionado da indústria, 4,9%. Cresce a produção, porém com menor agregação de valor.

Em si, o crescimento de 5,4% do PIB brasileiro em 2007 deve ser comemorado como um índice significativamente superior à média dos quatro anos anteriores, vale dizer de 2002 a 2006, equivalente ao primeiro período do atual governo, quando em média a variação foi de 3,5%. O crescimento econômico do ano passado se acerca mais do que pode ser considerado como a taxa objetivo para um país com a força e a diversidade econômica que o Brasil dispõe. Essa taxa é de 7% ao ano.

Mas, além da magnitude da evolução quantitativa, talvez ainda mais importante seja sublinhar as características da qualidade desse crescimento, as quais, de uma forma geral, são positivas, mas que, em pelo menos dois aspectos, causam grande preocupação. Uma apreciável uniformidade das taxas de evolução dos macro-setores no ano passado constitui um primeiro traço distintivo a ser considerado. A agropecuária teve o maior aumento, 5,3%, mas o desempenho da indústria, 4,9%, e serviços, 4,7%, ficaram muito próximos. Crescimento mais equilibrado entre os setores é sinal de uma expansão mais espalhada pela economia e, sendo assim, com maior capacidade de se reproduzir.

Na indústria alguns temas devem ser abordados. Primeiro, a grande reativação do setor que é o coração do complexo industrial, ou seja, a indústria de transformação. Seu dinamismo muito baixo em 2006 (variação de apenas 2%) cedeu lugar a um crescimento de 5,1%. Foi essa variação o fator individual mais destacado para que o PIB global do país transitasse da taxa de 3,8% em 2006, para o já observado crescimento de 5,4% no ano seguinte. Embora o crescimento da indústria automobilística, dos setores de bens de consumo duráveis de uma forma mais geral e do segmento de bens de capital terem liderado amplamente o desempenho da indústria de transformação, ao longo de 2007 foram sendo incorporados muito outros setores ao processo, de forma que, com algumas raras exceções em geral associadas ao impacto negativo do câmbio valorizado, o ano se encerrou com o setor industrial apresentando crescimento generalizado.

Oposição dodói decide votar o Orçamento

Apesar de muito magoados com o governo, os bravos oposicionistas decidiram não obstruir a votação do Orçamento de 2008 no Congresso Nacional. Ou seja, parece que a tal manobra que culminou na aprovação da MP da TV Pública não foi tão grave assim... Tucanos e democratas, porém, reafirmaram a virilidade e prometeram não votar mais nenhuma Medida Provisória. É ver para crer...

A oposição ficou dodói

Os senadores Arthur Virgílio (PSDB) e José Agripino Maia (DEM) prometem infernizar a vida do governo na votação do Orçamento, nesta tarde, um dia depois de terem fechado um acordo para aprovar a peça orçamentária de 2008. O motivo da reviravolta foi a manobra governista para aprovar, na madrugada desta quarta-feira, a MP que criou a TV Brasil. A oposição ficou toda cheia de nhém-nhém-nhém, como diria um ex-presidente de triste memória, porque o líder do governo, senador Romero Jucá, encaminhou voto contrário a uma outra MP, que trancava a pauta do Senado e impedida a votação da Medida Provisória da TV Brasil. Com a derrubada da MP 397, o caminho ficou aberto para a aprovação da MP da TV Brasil, o que em muito irritou os oposicionistas. Ora, tudo foi feito dentro do que manda o regimento e o governo não fez nenhum golpe baixo ou coisa do tipo. Que Virgílio e Agripino estejam irritados com o bom crescimento do PIB brasileiro no governo Lula é algo que se pode entender, o que não dá para aceitar é que façam birra de criança e paralisem as atividades no legislativo.

Sobre o PIB de 5,4%

No fundo, não há muito o que dizer sobre o crescimento da economia brasileira. A cada dia que passa resta mais evidente que é esta a verdadeira razão do sucesso do governo e da altíssima popularidade de Lula. De certa forma, o presidente tem contado com um pouco de sorte, pois surfou em uma maré boa no plano internacional e, quando as coisas começam a piorar lá fora, o mercado interno dá sinais de força e pode sustentar o crescimento e/ou minimizar o os efeitos da crise econômica mundial. Mas não é só de sorte que vive o presidente Lula: seu governo soube calibrar bem a dose de medidas para estimular o desenvolvimento com aquelas destinadas a colocar o pé no breque, evitando assim um crescimento mais vigoroso e que poderia desorganizar a economia nacional, com ocorrência de apagão energético, a exemplo do que vem ocorrendo na Argentina. Assim, quem acha 5,4% de crescimento anual pouco expressivo deve pensar também neste fator: a infra-estrutura do país não sustenta um crescimento muito maior do que o que vem sendo verificado. E é por isto que fundamentais são as obras e investimentos em infra-estrutura, sobretudo em energia.

terça-feira, 11 de março de 2008

A reforma tributária é para valer?

Desde que o governo enviou ao Congresso a sua proposta de reforma tributária, a polêmica em torno do texto só tem feito aumentar. Hoje, os jornais informam que os governadores do PMDB também estão vendo problemas no texto, o que estaria "preocupando" o ministro Guido Mantega (Fazenda). Ora, o noticiário sobre a reforma anda até um pouco ingênuo, pois a pergunta que não quer calar é que está no título deste comentário: afinal, o governo realmente quer aprovar a proposta neste ano, ou ainda, neste mandato?

Todo mundo sabe que uma agenda reformista é coisa de início de governo, quando o presidente está com força política para fazer e desfazer. Foi assim que Lula aprovou a reforma da Previdência e o arremedo de reforma tributária em 2003. É bem verdade que Lula continua popular e forte, mas o momento é outro, bem diferente. Agora, a classe política está com os olhos voltados para as eleições de 2008, que é uma prévia de 2010, e, é óbvio, para a sucessão de Lula. Tudo que não for consenso será muito difícil de passar no Congresso, pois a oposição agora joga com objetivo único de desgastar o governo.

No fundo, a reforma tributária em debate no legislativo só tem chances reais de prosperar se for do agrado também dos governadores José Serra e Aécio Neves, presidenciáveis do PSDB e no momento favoritos na corrida sucessória de 2010. Até porque, do ponto de vista do presidente Lula, não faz muito sentido mexer no sistema tributária agora, em uma articulação que só teria algum impacto em meados do próximo ano, quando todos os olhos já estariam focados na eleição do ano seguinte. Do ponto de vista do governo, daqui para frente não há muito o que fazer senão monitorar a crise norte-americana, tomando as medidas paliativas que um eventual agravamento na situação e tocar as obras programadas no Plano de Aceleração do Crescimento. Se tudo correr bem, Lula entrega o governo ao sucessor com uma das maiores aprovações da história do país – isto só não vai acontecer se a situação econômica internacional se agravar sobremaneira, o que, de fato, não depende do governo federal.

Assim, a reforma tributária que está em debate não deixa de ser uma proposta "para inglês ver" e distrair um pouco o ambiente enquanto as forças de oposição se trucidam e o PT procura desesperadamente alguém para ser o herdeiro da alta popularidade do presidente Lula.

segunda-feira, 10 de março de 2008

É o salário mínimo, estúpido

O que vai abaixo é o artigo semanal do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do blog.

O colunista Waldemar Rossi, sempre lúcido em suas análises sobre o mundo do trabalho, cometeu um tremendo erro de avaliação no artigo sobre o novo valor do salário mínimo. Rossi desdenha o aumento de 9% concedido ao salário mínimo e se vale da longa série histórica para dizer que o benefício deveria estar valendo exatos R$ 1.924,59 para se equiparar ao "que manda a lei que o criou, em 1º de Maio de 1940", segundo estudos do Dieese.

Não se trata aqui de questionar os cálculos do Dieese e muito menos a justiça do valor desejado por Waldemar Rossi, que é obviamente justo e correto. O problema todo, e Rossi conhece a realidade dos trabalhadores de perto para saber o que vai pelo chão de fábrica, é analisar a intenção do governante e o tipo de política adotada em determinadas frentes. Ora, até economistas do PSOL reconhecem que uma das armas do presidente Lula para manter sua alta popularidade, ao menos em seu primeiro mandato, foi, ao lado do Bolsa Família, a política de aumento do salário mínimo acima da inflação do período. Para usar uma comparação
menos favorável ao governo do que a de comparar o valor do benefício em dólar (o real se valorizou bastante frente à moeda norte-americana no período), o salário mínimo do último ano de Fernando Henrique era suficiente para o trabalhador comprar 0,8 cestas básicas. Com o novo valor, já é suficiente para a compra de 1,92 cestas básicas – mais do que o dobro de cinco anos atrás.

O grande equívoco no raciocínio de Waldemar Rossi é simples: trabalhador algum jamais recebeu o que o Dieese acha justo, mas o que os vários governos estabeleceram como o salário possível de ser pago. Ora, a política de recuperação do valor do salário mínimo do governo Lula pode até ser criticada pela timidez, mas é bem mais forte do que a do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), por exemplo – se Lula der um aumento de 5% no próximo ano, já terá superado percentualmente toda a valorização do salário mínimo nos oitos anos do governo tucano. Assim, quando os trabalhadores brasileiros comparam os aumentos concedidos pelos últimos governos, percebem logo que a gestão petista foi bem mais generosa do que as anteriores.

No início do segundo mandato do presidente Lula, alguns economistas começaram a duvidar que o governo pudesse continuar com a política de valorização real do salário mínimo e o lobby empresarial de fato tentou deter este movimento por meio de uma fórmula que limitasse o aumento à reposição da inflação, mais o percentual do crescimento do PIB do país. O governo até enviou ao Congresso um projeto de lei com esta fórmula, mas não fez nenhum esforço maior pela sua aprovação, de maneira que o novo salário mínimo foi estabelecido por meio de Medida Provisória e com um percentual superior ao do cálculo em questão.

No fundo, é fácil saber quando o governo Lula acerta a mão para o lado dos trabalhadores: em geral, as entidades empresariais ou os veículos de comunicação que representam o Capital logo aparecem para criticar as medidas. É o caso da política de valorização do salário mínimo, tão criticada pela Fiesp, CNI, revista Veja e editorais do Estadão. Que a esquerda também toque este mesmo bumbo, não deixa de causar um certo espanto.

Fernando Henrique e o 171 do Plano Real

A se confirmar o que diz o ex-presidente Itamar Franco no Jornal do Brasil, Fernando Henrique Cardoso cometeu crime – e não apenas eleitoral – ao assinar as notas de real já fora do cargo de ministro da Fazenda. O nome da coisa é estelionato – mais informações podem ser obtidas no artigo 171 do Código Penal. Não deve ser difícil provar se a falcatrua se consumou ou se é apenas uma bravata de Itamar.

Nova enquete no ar

Já está na coluna ao lado a nova pesquisa do DataEntrelinhas, desta vez sobre a postura que o governo brasileiro deve adotar em relação ao conflito latino-americano envolvendo os vizinhos Equador, Colômbia e Venezuela. O voto do blog é pela primeira opção.

Leitores aprovam atitude da Universal

Os leitores deste blog estão fechados com o bispo Edir Macedo e aprovam a atitude da Igreja Universal do Reino de Deus de processar a Folha de S. Paulo. Segundo a enquete desta semana, 80% dos internautas que votaram acham que a cobertura da Folha é preconceituosa em relação à IURD, dá margem para que os fiéis se sintam ofendidos e, portanto, é passível de reparação na Justiça.

Paulinho vs. Folha: quem tem razão?

Está engraçada a polêmica provocada pelo deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (PDT-SP), que ameaça copiar o pessoal da Igreja Universal do Reino de Deus e abrir uma montanha de processos contra dois jornalões – a Folha de S. Paulo e O Globo. Paulinho está irritado com a série de denúncias envolvendo a Força Sindical e o ministério do Trabalho: segundo ele, os jornais, especialmente a Folha, não têm publicado as explicações que ele tem enviado, por meio de cartas. Na semana passada, Paulinho foi bastante sincero e disse que ia iniciar diversos processos não para ganhar, mas "para dar trabalho". E arrematou: "estão fazendo putaria, vamos responder com putaria".

Coincidência ou não, depois da gritaria de Paulinho, a Folha dedicou duas colunas, de alto abaixo, em uma página nobre do primeiro caderno, para a resposta do sindicalista. Evidentemente, isto não impediu que colunistas do jornal aumentassem o tom nas críticas ao líder da Força, como faz na edição desta segunda-feira o editor de Brasil, Fernando de Barros e Silva.

Analisando bem os fatos, Paulinho tem uma certa razão em suas queixas. Ele não nasceu ontem e conhece perfeitamente bem como funciona o jornalismo brasileiro. A Força Sindical sempre foi muito criticada na mídia, que caracteriza a entidade como adepta do "sindicalismo de resultados", deixando no ar a insinuação de corrupção nas negociações das centrais. Paulinho jamais reclamou deste comportamento da imprensa, quando até poderia, sim, ter se sentido ofendido. No caso dos convênios da Força com o ministério do Trabalho, que o deputado pedetista garante que não existem, o argumento não gira em torno de impressões ou críticas genéricas, mas de fatos. Este blog acha muito difícil o sindicalista ter apresentado mentiras para contraditar o jornalão paulista – se há alguma coisa que Paulinho não é, definitivamente, é ingênuo ou burro.

Tudo somado, é bem possível e até provável que a Folha esteja mesmo, na linguagem clara de Paulinho, com "putaria" contra o ministro do Trabalho, Carlos Lupi – um ex-jornaleiro de origem humilde –, e contra o próprio parlamentar e presidente da Força Sindical. Não seria a primeira nem a última vez que o jornalismo brasileiro recorre a tão nobre expediente.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Ainda sobre as articulações rumo a 2010

O sempre atento leitor Alexandre Porto pergunta: "E como fica Lula nesse primeiro cenário? O PMDB o abandonaria por Aécio no PSDB?"

Ainda é muito cedo para saber se o PMDB abandonaria Lula por Aécio, porque isto depende da avaliação da viabilidade do candidato apoiado por Lula e do tipo de aliança que o presidente vai articular. O fato é que é grande o entusiasmo dos peemedebistas com Aécio. Uma hipótese também vislumbrada pelos caciques do partido, mas que soa a "wishful thinking", como dizem os ingleses, é a chapa Aécio-Dilma ou mesmo Aécio-Gabrielli, com o beneplácito de Lula. Claro que ainda é muito cedo e que o presidente Lula vai trabalhar para viabilizar uma candidatura de sua estrita confiança, mas o que se informou na nota anterior não é "piada", como imagina Sérgio Telles, outro atento leitor do blog. É apenas e tão somente o que se comenta hoje no PMDB .

A sucessão de Lula em 3 cenários

Fontes do PMDB informam que a cúpula do partido trabalha com três cenários diferentes para a eleição de 2010. No primeiro, o governador Aécio Neves consegue derrotar o seu colega José Serra dentro do PSDB – não é tão difícil assim, até Geraldo Alckmin conseguiu – e sai candidato em aliança com o PMDB e outros partidos. O "plano B" seria a candidatura de Aécio pelo PMDB, aí talvez com apoio explícito de Lula (ou pelo menos com a neutralidade do atual presidente). No terceiro cenário, sem dúvida menos provável, a chapa seria composta por Lula na cabeça e Aécio de vice. Para este último, seria necessário modificar a Constituição, de modo que o presidente seja autorizado a disputar mais uma reeleição. Evidentemente, tudo ainda não passa de especulação. Mas como onde há fumaça, há fogo, é bom o governador José Serra se preparar para uma disputa acirrada no PSDB. E põe acirrada nisto...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Aliança entre PT e PSDB:
sonho de uma noite de verão?

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o DCI, a ser publicado na edição desta sexta-feira. Em primeira mão para os leitores do blog.

Não vai ser nada fácil para o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel (PT), convencer os seus correligionários a aprovar uma aliança eleitoral com o PSDB do governador mineiro Aécio Neves em torno da candidatura de Márcio Lacerda (PSB) à prefeitura da capital de Minas Gerais. As negociações em curso são classificadas como “nojentas” pelo secretário de Relações Internacionais do partido, Valter Pomar, que também lidera a Articulação de Esquerda, uma ala minoritária, mas com força e capacidade de influir nos debates internos do PT.

E não é só na esquerda petista que existem resistências ao projeto de Pimentel. Ontem, o PT divulgou uma nota oficial, assinada pelo presidente da agremiação, Ricardo Berzoini, rebatendo a informação, publicada no jornal O Estado de Minas, de que a direção nacional do partido tenha decidido apoiar a aliança entre PT e PSDB na disputa da prefeitura de Belo Horizonte. A nota afirma que todas as decisões sobre alianças com vistas às eleições deste ano serão tomadas dia 24, em reunião da direção petista que será realizada em São Paulo.

O documento divulgado ontem reafirma o conteúdo de uma resolução aprovada em 9 de fevereiro e que qualifica o PSDB e o DEM como partidos de oposição radical ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O PSDB, nacionalmente, em aliança com o DEM, cumpre o papel de organizar a oposição política ao governo federal (...) Para além de organizar a oposição política, o PSDB busca reafirmar o projeto neoliberal que marcou sua passagem pelo governo federal, colocando-se como alternativa programática ao nosso projeto e organizando as forças sociais que a ele se opõem”, finaliza a nota.

Esquerda rejeita acerto
Se Berzoini foi brando na forma, Valter Pomar é um bem mais duro em relação às tratativas do prefeito Pimentel de estabelecer uma aliança explícita com o governador Aécio Neves. “Do ponto de vista nacional, a aproximação com o PSDB é um absurdo e um contra-senso, e do ponto de vista municipal, é um verdadeiro harakiri eleitoral”, afirma Pomar, lembrando que o PT administra Belo Horizonte desde 1993 – entre 1997 e 2001, o socialista Célio de Castro assumiu a prefeitura tendo como vice justamente o atual prefeito, Fernando Pimentel, que assumiu depois que Castro sofreu um derrame cerebral e se afastou da vida pública.

Segundo o dirigente petista, o prefeito de Belo Horizonte não consegue justificar a opção por uma aliança eleitoral com os tucanos. “Ainda se a gestão fosse mal avaliada, vá lá, mas é extremamente popular”, diz Pomar. Ele explica que a lógica de Pimentel é pessoal e visa a conquista do governo de Minas Gerais, em 2010 – o apoio de Pimentel a Márcio Lacerda, secretário de Aécio e homem ligado a Ciro Gomes, na eleição deste ano teria como contrapartida, em 2010, o apoio do governador à candidatura do próprio Fernando Pimentel ao Palácio da Liberdade, reforçando uma velha tradição da política brasileira de que em Minas Gerais não é preciso realizar eleição porque os caciques se acertam antes entre eles. “Este jeito de fazer política só confirma a tese preferida da direita brasileira, a de que todos são iguais”, reclama Valter Pomar.

Para a esquerda petista, não vai ser agora, com o presidente Lula surfando em taxas de aprovação e popularidade altíssimas, que o partido vai estender a mão ao PSDB. Segundo Valter Pomar, a estratégia para as eleições municipais deste ano precisa levar em conta a necessidade de fortalecer o PT e reforçar os quadros partidários com vistas às eleições de 2010. Pomar descarta, para as eleições presidenciais, qualquer tipo de aliança que tire das “esquerdas” o protagonismo político na chapa. A ser assim, dificilmente o PT deixaria de apresentar um candidato próprio para a sucessão de Lula, ainda que o nome não esteja bem cotado nas pesquisas de intenção de voto.
Quem conhece o PT sabe que de fato será muito difícil convencer os dirigentes partidários a abrir mão de uma candidatura presidencial em favor de um nome de outro partido, especialmente fora do campo das esquerdas. Já foi complicado fazer o partido aceitar a companhia de legendas de centro e de direita, como PP, PRB e PR, e isto só ocorreu exatamente porque o protagonismo era do PT. Em outras palavras, se foi duro fazer os petistas aceitarem apoio do centro, muito mais difícil será convencê-los a apoiar um candidato mais à direita.

A grande novidade de 2010 e talvez também de 2008, porém, é que o PT vai ser apenas uma parte da história, porque existe uma coisa nova na política brasileira chamada “lulismo”.

Que o presidente Lula sempre foi eleitoralmente maior do que o PT, todo mundo já sabia. Agora, porém, o presidente pode começar a descolar de seu partido e adotar uma postura diferente ou até contraditória em relação ao comando de seu partido.

Há até quem diga que a movimentação de Fernando Pimentel em Belo Horizonte tem um dedo do presidente, que nutriria alguma simpatia pela hipótese de Aécio Neves sucede-lo, especialmente se o governador trocar o PSDB pelo PMDB. Intriga da oposição, “plantação” do próprio Lula para manter acesa a chama da disputa entre Aécio e o governador de São Paulo, José Serra no PSDB, ou simplesmente a verdade dos fatos? Só o futuro vai dizer.

Até lá, é bastante provável que a falta de uma liderança natural no PT para substituir o presidente Lula seja um motivo de tensão no PT, com acirramento das discussões internas, como já se pode antever no debate sobre a aliança eleitoral em Belo Horizonte. Nunca é demais lembrar que, desde 1989, toda vez que alguém no PT levantou a hipótese de “guardar” Lula para uma eleição futura e permitir a ascensão de outras lideranças, este alguém foi devidamente decapitado politicamente – foi assim com Tarso Genro em 1998. O PT sem Lula é ainda uma história para ser escrita.