sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Iglecias: notas sobre o horário eleitoral

Em mais uma colaboração para o blog, professor Wagner Iglecias analisa o início da propaganda eleitoral em São Paulo. Abaixo, a íntegra do artigo.

Este missivista teve ontem a oportunidade de assistir, pela primeira vez, ao horário eleitoral gratuito, na televisão, com os candidatos ao legislativo da maior e mais importante cidade do país, São Paulo.

Tirante os candidatos do PT, falando pausadamente em frente a um bonito e moderno cenário, sobre suas propostas individuais e sobre as realizações da ex-prefeita e atual candidata Marta Suplicy, os candidatos do PSDB, sempre pautados pela sobriedade fria do candidato Geraldo Alckmin e os candidatos do PPS, que aparecem no vídeo com expressão natural e descontraída, como sua candidata Soninha, em meio a uma trilha sonora envolvente, o que se vê na propaganda política destinada aos candidatos a vereador, feita uma exceçãozinha individual aqui e ali, é mais do mesmo, mais do que já vimos em tantas outras eleições passadas.

Sucedem-se freneticamente na telinha, para torpor do telespectador, médicos e advogados, invariavelmente auto-intitulando-se doutores, além de pastores, líderes comunitários, empresários, ex-esportistas, artistas caídos no ostracismo e velhíssimas figuras da política tradicional, aquelas feitas nas relações clientelistas que marcam homens públicos e população, especialmente ao nível dos unicípios.

É verdade que os poucos segundos destinados a cada candidato impedem a apresentação de plataformas de trabalho mais detalhadas, mas batendo o olho na grande maioria tem-se a impressão de que eventuais segundos a mais poderiam ser vexatórios, dada a provável falta do que propor em termos concretos para a melhoria das políticas públicas disponibilizadas aos habitantes desta cidade. De fato, o que não falta na propaganda eleitoral para candidatos a vereador são as palavras “saúde e educação”, nesta ordem, saindo da boca das mais variadas figuras, pertencentes às mais distintas colorações partidárias. Já virou clichê, de tão repetido.

Isto é quebrado quando alguém que milita em alguma área específica de vez em quando aparece na tela, chamando a atenção para a necessidade de se ter um representante daquela demanda ou daquele setor na Câmara. Fora isso, a repetição ad nauseam de que o candidato a vereador tal está com o candidato a prefeito tal. E a jogadinha capiciosa de que “meu número é fácil”, com o candidato tentando chamar a atenção de um eleitor que ele supõe infantilizado para o fato de que o número de sua candidatura dá pra decorar com tranqüilidade, especialmente nos casos em que o prefixo de seu partido é sucedido por alguma coisa como 1,2,3 ou 4, 5,6.

Para embaralhar um pouco a cabeça do telespectador, em meio à apresentação dos candidatos dos partidos políticos que contam, efetivamente, com representatividade nos mais diversos segmentos da sociedade, aparecem aqueles caciques políticos que ninguém sabe de onde vieram, e para onde foram depois da última eleição, mas que controlam pequenas legendas.

Provavelmente são o que mais atrai a atenção das crianças e adolescentes que eventualmente assistem ao horário eleitoral, posto que são verdadeiras personagens, as quais vão e voltam, a cada dois anos, com seus paletós apertados e suas cabeleiras invariavelmente tingidas.

Não faltam também os candidatos que são filhos de políticos antigos, chamando a atenção para o sobrenome conhecido pelo eleitor desde eleições onde a urna eletrônica nem era utilizada. Provavelmente se imaginam com capacidade de herdar o butim eleitoral de seus pais.

Salta aos olhos ainda a quantidade de ex-deputados estaduais e mesmo ex-deputados federais que concorrem hoje à Câmara Municipal. Por que isto estaria ocorrendo? Estamos vivendo de fato uma derrocada dos antigos currais eleitorais e uma renovação nos legislativos, especialmente no estado e em Brasília, dai tanta gente que já teve dezenas de milhares de votos hoje aparecer choramingando uma chance na vereança municipal?

Agora, pra finalizar, apenas uma sugestão, deste modesto espectador e preocupado eleitor, à Justiça Eleitoral: o que tem de candidato lendo teleprompter no horário eleitoral não tá escrito! Tem muita gente muito ruim de dicção, sem expressão facial, com os olhos que, se o telespectador reparar bem, não olham para o centro da câmera, ou seja, ao fim e ao cabo, não se dirigem para o eleitor. Será que conseguir dizer meia-dúzia de palavras sinceras aos cidadãos esse pessoal consegue?

Afinal de contas, ninguém consegue acreditar em quem fala sem olhar pros olhos da gente. Não daria para, na próxima, limitar o uso deste recurso tecnológico e botar nossos ilustres candidatos a vereador para dizer o que realmente têm a oferecer à cidade?

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Um comentário:

  1. Perfeito Wagner,
    Salve algumas excessões de partidos que "limitam" ou barram candidatos tão inexpressivos ou com uma incapacidade tamanha para falar ao seu eleitor, é evidente que o horário eleitoral pode ser denominado de mais do mesmo. O show de comédia se faz novamente presente em nossas telas, a quantidade de DOUTORES (OHHHH QUE MEDOOOO)que estão concorrendo a uma vaga no Legislativo é impressionante, eu não posso acreditar que uma pessoa, a mesma que irá (se Deus quiser não irá) representar a população na Câmara não tem a modesta capacidade de expor suas idéias principais durante 10 ou 15 segundos!!! é lamentável. Mas relaxe meu amigo, pelo que tenho visto ultimamente a tendência é só piorar!!
    Um abraço, muito bom o seu post!!

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