segunda-feira, 5 de junho de 2006

Orestes Quércia vai processar a revista Veja

O presidente do PMDB de São Paulo, ex-governador Orestes Quércia, decidiu processar a revista Veja em função de reportagem intitulada "O que o PT e o PSDB mais querem", assinada por Otávio Cabral e publicada pela revista na edição desta semana. Nesta terça-feira, o ex-governador vai publicar nos principais jornais do país, em forma de anúncio, o texto abaixo, explicando as razões que o levaram a ir à Justiça em busca de reparação.

"QUÉRCIA PROCESSA VEJA
A revista Veja, da Editora Abril, deu mais um exemplo de mau jornalismo. Ao noticiar meu encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Palácio do Planalto, no dia 31/05, a revista optou por seguir na contramão de toda a imprensa, que se ateve à verdade factual: Veja requentou matéria de 14 anos atrás, sem acrescentar nada de novo, nenhuma denúncia, nenhum indício e, pior, sobre tema já julgado e encerrado pela Justiça brasileira. Para me atacar e ludibriar seus leitores, Veja usou a velha técnica de misturar verdade e mentira para tentar dar verossimilhança à sua falácia e fantasia.
Desde muito jovem sempre fui um empresário com espírito empreendedor. Minhas empresas geram hoje milhares de empregos, recolhem impostos, cumprem seu papel social. Paralelamente, me tornei um político com responsabilidade nacional e como governador de São Paulo (1987/1990) , fiz um governo que marcou a história de São Paulo. Meu passado político é irretocável na luta pela democracia, pelo desenvolvimento de São Paulo e do Brasil e pela justiça social. Por isso, sou respeitado até pelos meus adversários. As denúncias que Veja requentou foram julgadas e esclarecidas há anos. Fui absolvido na Justiça de todas as acusações mentirosas feitas pelos meus opositores políticos.
Sendo assim, em defesa de minha honra e a bem da verdade estou encaminhando processo judicial pelas calúnias e difamações das quais, mais uma vez, fui vítima. Recorri a esse expediente legal para responsabilizar Veja e a Editora Abril. Liberdade de imprensa é um dos mais caros componentes da democracia, mas não se pode aceitar que o mau jornalismo iluda a população e ofenda qualquer cidadão.
Orestes Quércia
"

Leia abaixo a matéria de Veja que originou o processo:

"O que o PT e o PSDB mais querem?

Otávio Cabral

Únicos partidos com chances reais de vencer a eleição presidencial, o PT e o PSDB são rivais mas nutrem um gosto por reafirmar suas semelhanças de vez em quando. Afinal, ambos nasceram em São Paulo, reúnem líderes que combateram a ditadura militar, criaram raízes na classe média urbana e defendem um certo tipo de social-democracia. Recentemente, dando vazão a essa identidade, o ministro Tarso Genro, das Relações Institucionais, afirmou que petistas e tucanos podem estar unidos num futuro próximo, seja quem for o novo presidente, para debater as reformas de que o país precisa. Por sua vez, o senador Tasso Jereissati, presidente nacional do PSDB, disse estar "disposto" a procurar o PT para conversar sobre a governabilidade no próximo mandato, seja quem for o eleito. Bem, tucanos e petistas podem até falar de suas semelhanças uma vez ou outra, mas o único dado concreto que os une mesmo, pelo menos até agora, é o assédio a Orestes Quércia, o líder do PMDB que, há mais de uma década, praticamente deixou a política ao tornar-se um símbolo vivo da corrupção.

O movimento mais ousado ocorreu na quarta-feira passada, quando o presidente Lula, que garante não ter-se decidido se será candidato à reeleição, recebeu Orestes Quércia para uma audiência abertamente eleitoral em seu gabinete, no Palácio do Planalto. Na conversa, que contou com a participação do ministro Tarso Genro e do senador Aloizio Mercadante, candidato petista ao governo de São Paulo, Lula derramou-se em afagos ao velho cacique do PMDB. Primeiro, ofereceu-lhe a vaga de vice-presidente em sua chapa, deixando claro que, caso o partido aceitasse, gostaria de vê-la preenchida pelo gaúcho Nelson Jobim, que abandonou a carreira de magistrado no Supremo Tribunal Federal para voltar à política. Como é mais fácil o ex-astronauta Marcos Pontes viajar para a Lua do que o PMDB aceitar a oferta, Lula também prometeu participação quercista no próximo e até mesmo no atual governo, com direito a ocupar postos relevantes, como o Ministério da Saúde. Em troca da oferta, Lula sentiu-se à vontade para pedir a ajuda de Quércia em São Paulo. Aloizio Mercadante, aproveitando a deixa, convidou Quércia a candidatar-se ao governo paulista, para impedir que o tucano José Serra, com folgada vantagem nas pesquisas, vença a disputa logo no primeiro turno.

Quércia deixou o Palácio do Planalto encantado com os gestos de sedução dos petistas. "A proposta do PT é atraente, oferece ao PMDB a vice em uma chapa com grande chance de vitória", comentou. "O PSDB não tem mais a vice para oferecer e está mal nas pesquisas. Vou levar a proposta ao partido." Ainda que tenham menos a oferecer, os tucanos também estão empenhadíssimos em conquistar a simpatia de Quércia, que já chegou a ser um dos maiores desafetos do tucanato. Na semana passada, numa tentativa de neutralizar o assédio do PT, Serra mandou dizer que quer se encontrar com Quércia nos próximos dias. Não será a primeira vez. No dia 9 de abril, domingo, Serra esteve discretamente no apartamento de Quércia, no bairro dos Jardins. Chegou por volta das 9 da manhã e, à mesa de um farto café-da-manhã, tendo por testemunha apenas a mulher de Quércia, Alaíde, ofereceu ao peemedebista a vaga de candidato ao Senado em sua chapa. Quércia adorou a corte de Serra, mas não gostou da proposta. Acha que vencer Eduardo Suplicy, o petista com o qual disputaria a cadeira de senador, seria uma parada arriscada demais.

O empenho de petistas e tucanos para obter o apoio de Quércia, o principal líder do PMDB em São Paulo, é uma decorrência da lógica eleitoral. Afinal, o PMDB é uma legenda gigante, com bancadas poderosas no Congresso Nacional e diretórios espalhados por todos os rincões do país. É um partido sem unidade nem projeto, mas tem um apetitoso balaio de votos - seja em São Paulo, o maior colégio eleitoral, seja em qualquer outra região do país. O que chama atenção é a sem-cerimônia com que petistas e tucanos renunciam às imensas reservas éticas que diziam ter em relação a Quércia. Durante sua gestão no governo paulista (1987-1991), a empreiteira Andrade Gutierrez tornou-se a rainha das obras em São Paulo - e as denúncias de obras e compras superfaturadas, como a inesquecível aquisição de equipamentos de informática de Israel, viraram uma constante. Em 1992, VEJA publicou reportagem de capa mostrando que Quércia era dono de uma fortuna estimada em 52 milhões de dólares, composta de terrenos, apartamentos, conjuntos comerciais, chácaras, cabeças de gado, emissoras de TV, estações de rádio e jornais. Quércia tem origem humilde, filho de uma lavradora e um balconista de mercearia, e conseguiu erguer um império sem deixar de fazer política - razão pela qual se tornou símbolo dos políticos que enriquecem com a própria política.

Em 1988, por causa da notoriedade dos métodos de Quércia, alguns peemedebistas ilustres - como Fernando Henrique Cardoso e José Serra - deixaram o PMDB e, pregando uma atuação ética na política, fundaram um novo partido, o PSDB. Agora, com o assédio tucano por seu apoio, Quércia dá-se ao direito de divulgar outra versão para a dissidência de quase vinte anos atrás. "Eles não me atacavam por corrupção, mas porque eu dominava a política de São Paulo e não dava espaço para mais ninguém", diz ele. As divergências com o PT, partido que Quércia já classificou de "fascista", também chegam ao campo da ética. Um diálogo exemplar foi travado entre Quércia e Lula na eleição de 1994. "Lula nunca dirigiu nem um carrinho de pipoca", acusou Quércia. "É verdade que eu nunca dirigi um carrinho de pipoca, mas também nunca roubei a pipoca", retrucou Lula. Agora, o presidente Lula está encantado com o ladrão de pipoca."

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