domingo, 30 de setembro de 2007

Pegadinha da Folha: ministro Walfrido
ficou R$ 23 milhões mais rico em 2 meses

O ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia (PTB), está envolvido no escândalo do mensalão tucano e emprestou R$ 500 mil ao senador Eduardo Azeredo (PSDB), de quem não cobrou e nem vai cobrar a dívida. São fatos conhecidos e que provavelmente farão parte da denúncia do Procurador-Geral da República. Nada disto, porém, justifica o tratamento dispensado ao ministro em uma "reportagem" da Folha de S. Paulo deste domingo. Com o título "Walfrido agrega a seus bens R$ 23,5 mi nos últimos 2 meses", o jornal conta na matéria que ao abrir o capital da empresa de educação da qual é sócio – a rede Pitágoras –, o ministro conseguiu levar esta bolada para casa.

Ora, não há ilícito algum na operação e se a Folha julga que o fato é relevante do ponto de vista jornalístico, deveria ter publicado no caderno Dinheiro e não no noticiário político. Mas é interessante notar que o diário da Barão de Limeira não tem publicado reportagens sobre o valor "agregado" por sócios de empresas que abriram o capital recentemente. Via de regra o que se publica é o resultado deste tipo de operação do ponto de vista da empresa e não dos sócios ou proprietários. Assim, fica evidente a intenção de insinuar, especialmente no título, que o ministro Walfrido está envolvido em mais alguma falcatrua. Quem não for até o fim do texto da reportagem certamente vai pensar desta forma. A seguir, a "reportagem" da Folha:


Walfrido agrega a seus bens R$ 23,5 mi nos últimos 2 meses

Crescimento veio com abertura de capital da holding que gerencia rede de educação que tem o ministro como sócio

Já empresário do ramo do ensino, o ministro ingressou na política como secretário de Planejamento de Belo Horizonte, no ano de 1982

PAULO PEIXOTO

DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELO HORIZONTE

Investigado pela Polícia Federal por suspeita de participação no valerioduto mineiro, o ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais) construiu carreira no setor de educação, em Minas Gerais, antes mesmo de ingressar na política. Fundou o grupo Pitágoras, em 1966, até hoje conhecido como o "colégio do Walfrido".
Nos últimos dois meses, Walfrido agregou R$ 23,5 milhões ao patrimônio com a abertura do capital da Kroton Educacional, que administra a rede de educação Pitágoras, uma das três maiores do país.

Segundo Júlio Cabizuca, sócio e amigo de adolescência de Walfrido, o ministro "sempre teve um dom especial para lidar com finanças". "Isso é muito mais fácil com ele", disse o amigo, referindo-se a como o ministro tratava pais de alunos nos anos 80, quando a inflação impunha planilhas para negociar mensalidades escolares.

Walfrido é um dos políticos mineiros sob investigação por ter sido apontado como participante do suposto esquema financeiro ilegal montado para a campanha à reeleição do então governador de Minas Eduardo Azeredo (PSDB), hoje senador. O ministro, vice de Azeredo em seu primeiro mandato (1995-1998), nega participação nas finanças da campanha.

O esquema operado por Marcos Valério, segundo a PF, ocultou origem e destino de ao menos R$ 28,5 milhões em recursos ilícitos que financiaram a campanha de Azeredo.


Professor de cursinho
De seu tempo de professor de cursinho pré-vestibular em uma sala para 35 alunos emprestada por um frade franciscano até a entrada na política como secretário de Planejamento de Belo Horizonte, em 1982, foram 16 anos.
A expansão do grupo tem três momentos. Em 1972, surgiu o primeiro colégio. Em 1979 e em 1980, a convite da construtora Mendes Júnior, foram montados três colégios no Iraque para filhos de brasileiros.

Nos anos 90, nasceu a rede Pitágoras. Hoje são 595 colégios no país que usam tecnologia e método de ensino da rede. Há mais seis colégios no Japão e dois próprios em Belo Horizonte. São cerca de 184 mil alunos. Os anos 2000 assinalam a entrada do Pitágoras no ensino superior -são nove faculdades e 14 mil estudantes.


Abertura de capital

Em 23 de julho, o Pitágoras abriu suas ações ao mercado. Os sócios-fundadores -Walfrido, Cabizuca e Evandro Neiva- tiveram as participações reduzidas, mas detêm o controle do grupo, com 51,6% das ações. Ampliaram o patrimônio pessoal, e o capital social da holding Kroton saltou de R$ 58,7 milhões para R$ 455 milhões.

O patrimônio de Walfrido está registrado na Samos Participações, empresa usada por ele para obter empréstimo de R$ 511 mil no Banco Rural para pagar dívida do caixa dois da campanha de Azeredo em 1998.

O valor do patrimônio do ministro não é revelado por sua assessoria, que só informa que a declaração de bens dele à Justiça Eleitoral em 1998 -quando foi eleito deputado federal pelo PTB- é pública. Naquele ano, registrou R$ 3.580.340,62.

A Samos, segundo sua assessoria, foi criada em 2002 por causa da venda da Biobrás, produtora de insulina sintética, para a empresa dinamarquesa Novo Nordisk. O negócio, de R$ 55 milhões, foi aprovado com restrições pelo governo, porque a venda concentrou 75% do mercado de insulina do Brasil.

A Biobrás foi criada com incentivos fiscais da extinta Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste). Dela participaram Walfrido, seu cunhado Guilherme Emrich e seu irmão Marcos, médico que morreu logo depois.
Marcos foi também fundador do Pitágoras. Tinha a mesma profissão do pai, José Maria dos Mares Guia, servidor que gostava de política, embora não fosse militante partidário.

O ingresso de Walfrido na política gerou desconfiança entre os empresários do setor, que temiam favorecimentos ao Pitágoras, afirma Roberto Dornas, presidente da Confenen (Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino). "Sempre cria uma desconfiança de que, tendo uma posição política, algum tipo de beneficiamento pode acontecer."

sábado, 29 de setembro de 2007

Até o ombudsman reclama do
favorecimento da Folha a Serra

As notinhas abaixo estão na crítica interna do Ombudsman da Folha de S. Paulo, Mário Magalhães, e são auto-explicativas. Na verdade, funcionam como um complemento ao post "Como manipular uma notícia", publicado neste blog na sexta-feira e que pode ser lido mais abaixo. Eis as notas de Mário Magalhães:

Serra sem gafe

Em discurso na posse do presidente da Fapesp, o governador José Serra trocou ontem a sigla da fundação e pronunciou "Sabesp".
Para a Folha ("Serra pede ênfase na pesquisa básica", pág. A32), foi um "lapso".
Tudo bem, pode ser. Mas por que outros políticos, com enganos semelhantes, cometem "gafes", nas descrições do jornal?
Ou se padroniza ou vão imperar dois pesos e duas medidas.


Notícia pela metade

A Folha dedicou uma retranca inteira a um atraso de ontem do governador ("Serra atrasa 2 h e deixa crianças esperando", pág. C4).
O jornal conta o que ocorreu, dá detalhes. Fez bem.
Por que não perguntou ou apurou o motivo do atraso? Não era um direito de Serra responder e do leitor de saber?


A continuar desta maneira, este blog sugere que a Folha inclua em seu respeitado Manual de Redação os itens abaixo, retirados do famoso Decálogo do Chefe (na verdade, são 15 leis...) e adaptados para o governador e candidato do jornal à presidência da República em 2010. Pelo menos fica mais fácil para os repórteres iniciantes da editoria de política entenderem o espírito da coisa...

1. O Serra tem razão.
2. O Serra tem sempre razão.
3. O Serra não erra, se engana.
4. Ante a improvável hipótese de que ele não tenha razão, entra imediatamente em vigência os artigos 1 e 2.
5. O Serra não dorme, repousa.
6. O Serra não come, se nutre.
7 O Serra não bebe, degusta.
8 . O Serra nunca chega tarde, algo o atrasou.
9. O Serra nunca abandona o trabalho, é requerida sua presença em outro lugar.
10. O Serra nunca lê jornal no gabinete, se informa.
11. O Serra não se familiariza com a secretária... apenas a educa.
12. Quem entrar no gabinete do Serra com idéias próprias, deve ajustá-las às dele.
13. O Serra pensa por todos.
14. Quanto mais se pensa como Serra, mais se sobe na Folha.
15. Qualquer dúvida, vale o artigo 2.

Recordar é viver: há 15 anos, Fernando
Collor deixava a presidência do Brasil

Neste sábado faz 15 anos que Fernando Collor sofreu impeachment. Um vídeo no You Tube relembra o momento histórico, retratado pela imprensa oficial do Brasil, a Rede Globo de Televisão. Vale a pena espiar.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Até o senador do PSOL aprova a
renovação da concessão da TV Globo

Um resumo da matéria abaixo será publicado na edição do DCI de segunda-feira. O repórter Eduardo Bresciani correu atrás dos senadores considerados de "esquerda" e conferiu a posição de cada um sobre a renovação da concessão da TV Globo, que vence dia 5 de outubro. Pelo levantamento de Bresciani, não há a mais remota hipótese de a TV Globo vir a perder a sua concessão. Leia a seguir a reportagem na íntegra:

Esquerda apóia renovação de concessões da Rede Globo

Se na Venezuela o processo de renovação da concessão da principal emissora de televisão do País foi traumático, no Brasil o assunto está totalmente à parte dos grandes debates. No dia 5 deste mês vencem as concessões das emissoras da Rede Globo em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Recife. No Senado, não se ouvem vozes contrárias à renovação, que é um processo quase automático e totalmente político.

No passado, a principal rede de televisão do País foi alvo de protestos de setores da esquerda. O PT chegou a criar em seu programa eleitoral da campanha de Lula em 1989 a Rede Povo como uma provocação à emissora líder de audiência. Mesmo hoje, são comuns os discursos de representantes da sigla contra a chamada "grande imprensa", grupo do qual a Rede Globo não pode ser excluída.

Mas os tempos são outros e diferente do que aconteceu na Venezuela no início desse ano não existem contestações dentro do governo sobre a renovação. O vice-presidente do Senado, Tião Viana (PT-AC), não vê nenhuma relação entre as situações dos dois Países e defende a Rede Globo. "Não vejo a Rede Globo como inimiga do Estado, como a esquerda via antigamente. Não tem paralelo com a situação da Venezuela, vejo o governo muito sereno nisso".

Não é apenas o PT que "perdoou" a Globo. Único representante do PCdoB no Senado, Inácio Arruda não vê dificuldades para a renovação. Ele pede, no entanto, a criação de uma legislação obrigando às emissoras à apresentar projetos no ato da concessão, que poderiam ser questionados em futuras renovações. "Não há como negar a renovação de nenhuma concessão hoje porque não existem regras e o Estado não tem critérios para avaliar", observa o comunista.

Mais radical, o novato PSOL também não argumenta contra a renovação da emissora que já foi vista como "vilã". Único senador do partido, José Nery (PSOL-PA), também defende mudanças na legislação. "Precisamos de uma lei para acabar com a interferência política no processo e a adoção de mecanismos para defender o interesse da sociedade. Enquanto isso não acontece precisamos fazer o que a lei manda e dar a renovação".

A criação de um marco regulatório para as concessões de rádio e televisão está em discussão no Senado. A subcomissão de Regulação dos Marcos Regulatórios da Casa recebe hoje o presidente da Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra), João Carlos Saad, o conselheiro da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) Evandro Guimarães e o superintendente da Anatel, Ara Apkar Minassi, entre outros.

A pauta é justamente a possibilidade de adoção de critérios para as concessões do setor. O senador Inácio Arruda não está no debate em Brasília, mas tem suas sugestões. Ele defende que o Estado apresente os princípios gerais da concessão e que as empresas apresente um planejamento dentro desses princípios, o que seria avalia de bebidas alcoólicas em transmissões esportivas", exemplifica.

Viana também tem propostas. Para ele, a sociedade civil precisa participar do processo para reduzir a interferência política. Ele critica a falta de evolução da legislação. "Acho que a política de comunicação do Brasil tem de ser discutida com a sociedade. Nossa legislação é praticamente do século XIX", exagera Tião, pois a televisão só foi inventada no século passado.

Ele destaca a inovação tecnológica e defende uma discussão sobre a regulamentação da comunicação nas novas mídias. "Hoje você pode fazer vídeos no celular e enviar, isso também é comunicação e precisa ter regras".
Se a disposição para o debate existe, as discussões ficam em segundo plano e a renovação das concessões da maior rede do País, assim como da Bandeirantes, Record e Cultura, todas de São Paulo e com vencimento em outubro, serão renovadas sem maiores exigências.

Como manipular uma notícia

A reportagem que se segue está na Folha de S. Paulo desta sexta-feira, acompanhada de uma foto enorme do presidente Lula e o Bispo Edir Macedo apertando o botão para o início das transmissões do Record News, semelhante à foto também reproduzida abaixo, que é da Agência Estado.

Trata-se tipicamente de uma matéria destinada a enganar o leitor, vender gato por lebre, com a intenção de prejudicar Lula.

Foram três os recursos usados para manipular a notícia.

O primeiro é a foto de Lula e Edir, que tem o objetivo de mostrar que os dois são aliados.

Os dois outros recursos estão no texto. Primeiro, a Folha mente ao dizer que quando Lula e Edir apertaram o botão, "Serra e Kassab" estavam na platéia. Não é verdade: o governador e o prefeito estavam no palco e participavam do evento no mesmo plano do presidente da República.
Um pouco mais abaixo, a reportagem informa que uma comitiva de ministros participou da cerimônica e "não se sentiu constrangida" com a fala de Edir sobre a Globo. Ora, também estavam presentes secretários e colaboradores do governo Serra. Por que a Folha não registrou o fato ou repercutiu com os tucanos a fala do Bispo?

Resposta simples: porque o objetivo do jornal não é jogar cascas de bananas para Serra, candidato da Folha à presidência em 2010, mas para a turma do presidente Lula. O repórter que cobriu o evento estava devidamente pautado e sabia a quem deveria dirigir as perguntas. É mesmo simples assim, e basta ler o diário da Barão de Limeira com atenção para perceber que José Serra é o maior beneficário da cobertura política do jornal.

A seguir, a "reportagem" da Folha:


Bispo da Universal lança TV e ataca "monopólio da notícia"

















DA REPORTAGEM LOCAL

O proprietário da Rede Record e líder da Igreja Universal do Reino de Deus, bispo Edir Macedo, aproveitou ontem o lançamento do canal Record News, o primeiro com 24 horas de jornalismo em TV aberta do país, para se dizer "injustiçado" por um grupo que detém o "monopólio da notícia".

Sem fazer alusão à Rede Globo, disse que "fomos injustiçados por muitos anos nas mãos de um grupo de comunicação que mantinha e mantém, por enquanto, o monopólio da notícia do Brasil. Daí surgiu o nosso desejo de levar ao fim esse monopólio, de dar às pessoas o direito de se informar por outro canal de notícias, de formar opinião por si mesmos. Daí surgiu nosso desejo em democratizar a informação".


O discurso foi feito por Macedo minutos antes de acionar, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o botão que simbolicamente ativou o canal.

Estavam na platéia o governador José Serra (PSDB) e o prefeito Gilberto Kassab (DEM).


Procurada, a Rede Globo informou que não vai comentar as declarações de Macedo.

Em suas falas, Lula e Serra exaltaram a estréia como um instrumento de pluralidade. "Um novo veículo de notícias amplia muito a diversidade de opiniões e a multiplicidade de enfoque", elogiou Serra.

"A estréia do canal Record News representa um grande momento para a história da televisão brasileira e contribui para que os cidadãos exerçam aquele que é um dos mais sagrados direitos democráticos: o acesso à informação", disse Lula, encerrando o discurso com "Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós", trecho do hino da Proclamação da República.

Comitiva

Os ministros Franklin Martins (Comunicação), Marta Suplicy (Turismo) e Orlando Silva (Esportes) participaram da solenidade.

Os integrantes da comitiva presidencial não se mostraram constrangidos com as declarações de Macedo, embora evitaram comentá-las.
"É sempre bom quando nasce uma TV. Assim há mais pluralidade", disse Franklin, enquanto o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), enaltecia a pluralidade.

A cantora Fafá de Belém -musa do movimento pelas Diretas- interpretou o Hino Nacional. De lá, os convidados foram para um coquetel.
A Record News exigiu um investimento de US$ 7 milhões. Macedo, que foi preso em 1992 sob acusação de charlatanismo, curandeirismo e estelionato, começou a erguer o império de comunicação da Universal no final dos anos 80, quando comprou as três emissoras de TV da Record de São Paulo. Até 94, a Record tinha seis geradoras próprias de TV. Em 95, foram mais oito.

Ainda nos anos 90, a Universal investiu em duas novas redes de TV -Rede Mulher e Rede Família. Neste ano, foram compradas a TV e rádios Guaíba.
Colaborou a Folha Online

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Confirmado: Soninha sai do PT
e vai disputar a prefeitura pelo PPS

A notícia abaixo é da Agência Estado e confirma a candidatura de Soninha à prefeitura de São Paulo. Este blog desde já aposta que ela é, sim, competitiva. Vai encantar uma parcela dos desiludidos com a política e com o PT, ávidos por uma candidata "ética". Também deve conquistar votos dos paulistanos ligados em defesa do meio ambiente e em uma agenda, digamos assim, politicamente corretos. Voltaremos ao assunto logo mais.

Soninha vai concorrer à Prefeitura pelo PPS

Vereadora confirma saída do PT e garantiu que não vai sair "atirando

Lucas Pretti, do estadao.com.br

SÃO PAULO - A vereadora Soninha Francine confirmou ao estadao.com.br na tarde desta quinta-feira, 27, a transferência para o PPS e o projeto de se candidatar à Prefeitura de São Paulo nas eleições municipais de 2008. Ela prepara carta de desfiliação ao PT, que deve ser entregue ainda nesta quinta, e uma nota oficial que publicará em seu site
.

O namoro entre o PPS e Soninha começou há duas semanas, quando o presidente da sigla, Roberto Freire, convidou a vereadora para uma reunião. Ele fez um convite formal de filiação e abriu a possibilidade da disputa municipal. "Eu avisei. Se eles foram loucos de me convidar, eu posso ser louca de aceitar", afirmou a apresentadora do canal ESPN-Brasil na quarta-feira.

Apesar de ter sido eleita para a Câmara Municipal pelo PT, Soninha diz ter se desiludido com o partido após as primeiras crises do governo Lula. Mas garantiu que não vai sair "atirando". "Nunca fui fanática defensora, não serei fanática detratora."

Ela avaliou seu momento político como "uma fase Triângulo das Bermudas", por não saber a que bancada se reportar, por exemplo, para retirar um projeto de lei da pauta do dia.

Segundo pesquisa Datafolha divulgada no início de agosto, a corrida para prefeito em 2008 é liderada pelo ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), seguido da ministra Marta Suplicy (PT). O prefeito Gilberto Kassab (DEM) aparece tecnicamente empatado com Paulo Maluf (PP) e Luiza Erundina (PSB) em terceiro.

"Praticamente não tenho chances", admitiu Soninha na quarta. "Mas a disputa municipal tem importância independentemente de vencer ou não." Segundo ela, nenhuma sondagem eleitoral foi encomendada pelo PPS antes do convite.

Se for eleita, Soninha será a terceira prefeita mulher da história de São Paulo, depois de Luiza Erundina (entre 1989 e 1992) e Marta Suplicy (2001 a 2004).

PMDB rebelado: solução é o governo
entregar logo o que andou prometendo

É mais fácil do que se imagina a solução da tal rebelião dos senadores peemedebistas, que ontem deram um susto no governo e ajudaram a derrubar a MP que criou a secretaria comandada pelo filósofo Mangabeira Unger: basta que o governo federal comece a entregar os cargos que prometeu à bancada do PMDB no Senado. Ocorre apenas que Lula sabe muito bem que o momento da negociação é agora, na votação da CPMF. Ele não vai dar cargo algum de mão beijada, antes dos senadores aprovarem a prorrogação do tributo. O jogo de pressão termina tão logo a emenda que prorroga a CPMF seja aprovada pelo Senado. É simples assim, mas até lá é de se prever alguma turbulência na relação entre o govenro e sua base aliada, e não apenas no PMDB.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Tuma está quase no PMDB

O senador Romeu Tuma (DEM-SP) já está com os dois pés na canoa peemedebista, pelo que se diz nos batidores brasilienses. Aqui em São Paulo, já tem tucano imaginando se não seria imbátivel uma chapa formada por Alckmin e Tuma para a disputa eleitoral na capital em 2008. Já no DEM, o clima parece ser mesmo de "o último a sair, apague a luz"...

Serra já tem plano B para a prefeitura

A se confirmar hoje a ida de Soninha para o PPS, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB) poderá ter dois cavalos na eleição para a prefeitura da capital no ano que vem – Gilberto Kassab pelo DEM e Soninha pelo PPS.

Na pior das hipóteses, se Geraldo Alckmin impuser ao governador a sua candidatura, Serra poderá perfeitamente trabalhar nos bastidores apenas por Soninha.

Pode parecer estranho para o eleitorado petista da vereadora, mas a verdade é que há muito tempo ela namora com o governo Serra, apesar de suas negativas, conforme se pode verificar na matéria da Folha reproduzida na nota anterior. Do ponto de vista do governador, a candidatura de Soninha serviria também para tirar votos de qualquer dos nomes cotados para a disputa no campo da esquerda. Dividindo o lado de lá, digamos assim, fica mais fácil garantir uma vitória de Kassab apenas com os votos dos paulistanos mais conservadores, até mesmo em uma eleição com a presença do ex-governador Geraldo Alckmin.

Como se vê, a candidata Soninha pode ter mil e uma utilidades...

Recordar é viver: Soninha dá adeus ao PT

Este blog publicou, no dia 25 de abril deste ano, a nota abaixo, em que a vereadora Soninha negou que estivesse negociando para trocar o PT pelo PPS. Apesar da negativa, o leitor destas Entrelinhas foi corretamente informado: nesta quarta-feira, os jornais noticiam que Soninha poderá disputar a prefeitura de São Paulo em 2008 pelo... PPS! Confira abaixo as notas publicadas aqui e a reportagem da Folha de S. Paulo:

Soninha e o PT, tudo a ver?

A vereadora paulistana Soninha (PT), que muito nos honra com a audiência, escreve para esclarecer uma nota antiga deste blog, sobre a sua eventual saída do PT. Diz ela:

Luiz Antonio, nunca foi verdade a "notícia" de que eu estava negociando minha ida para o PPS. As "cinco fontes" da Renata Lo Prete mentiram - ou ela entendeu muito mal... Eu não aproveitei a oportunidade para contestar a Folha; era a única coisa que eu podia fazer, depois de o Painel escrever algo que não era verdade. PS: O TSE não "decide" sobre perda de mandato; ele emitiu um parecer, que pode ou não ter ser confirmado pelo STJ. Abs, Soninha.

O esclarecimento é cristalino, mas cabem aqui duas considerações: não foi apenas a jornalista Renata Lo Prete que escreveu sobre uma eventual saída da vereadora do PT, o assunto circulou e quem acompanha os bastidores da Câmara garante que existiu uma aproximação de Soninha com o governador José Serra (PSDB). Neste blog jamais foi dito que o TSE "decide" sobre perda de mandatos, mas apenas que a interpretação mais dura sobre a fidelidade partidária poderia ter levado a vereadora a optar pela permanência no PT. De toda maneira, com os esclarecimentos de Soninha fica claro que esta versão, embora crível naquele contexto, não resulta verdadeira.

A nota original, publicada dia 29 de março, dizia:

Soninha nega saída do PT

A vereadora Soninha Francine escreveu para a Folha de S. Paulo para negar a informação publicada no Painel dando conta da sua saída do PT. Ontem, este blog comentou a notícia e aventou a possibilidade de Soninha ser a primeira "vítima" da interpretação do TSE sobre a fidelidade partidária. Pode ser que Soninha realmente ainda não tenha "desistido do PT", conforme ela mesmo escreveu, desmentindo as 5 fontes da jornalista Renata Lo Prete, editora do Painel. Também pode ser que a situação criada pelo TSE tenha feito a vereadora mudar de idéia e aproveitar a oportunidade para contestar a Folha.

E o que diz a matéria da Folha de hoje:

Soninha deve sair do PT e disputar prefeitura pelo PPS

CATIA SEABRA, DA REPORTAGEM LOCAL

Decidida a não concorrer à reeleição, a vereadora Soninha Francine deverá deixar o PT para disputar a prefeitura de São Paulo pelo PPS. Após uma rodada de reuniões com o comando do PPS, Soninha dará sua resposta amanhã ao presidente nacional do partido, Roberto Freire, mas não esconde o entusiasmo com a idéia. Para ela, é uma "hipótese fascinante".

"Se for uma hipótese para eles, acho sensacional. É um pouco maluco, extravagante. Mas é o tipo de coisa capaz de me animar", afirmou ela, comparando a possibilidade ao sonho de dirigir um filme. "Passei a vida colecionando idéias de roteiro. Passei vários anos, especialmente os últimos, pensando o que eu faria se fosse prefeita."
Semana passada, Soninha avisou ao PPS que não quer concorrer à Câmara Municipal. Daí a proposta de disputar a prefeitura.

"Ela está na ante-sala da filiação", disse Freire.

Para integrantes do PPS, a candidatura de Soninha pode debilitar a do PT. Amiga do governador José Serra, ela se diz "desiludida" com o PT, "no sentido exato de não ter muita ilusão".

Azeredo e o óbvio na política

Quem leu neste blog o comentário sobre a difícil situação do senador Eduardo Azeredo entre os seus colegas tucanos já sabia que não restava muita coisa a ele senão ao menos ameaçar contar o que sabe dos anos em que Fernando Henrique Cardoso reinava absoluto no país. A matéria publicada hoje na Folha de S. Paulo e reproduzida abaixo revela que este blog estava absolutamente certo. Este é o momento do senador tentar subir o preço de sua condenação e/ou cobrar "solidariedade" de seus correligionários. A política brasileira é mesmo bem previsível...


Azeredo afirma que ajudou na campanha de FHC em 98

Segundo senador, dinheiro arrecadado foi usado por comitês do ex-presidente

Sobre Walfrido, o tucano diz que o ministro não tinha o papel de coordenador, mas que "participou da campanha ativamente"

ANDREZA MATAIS
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Pivô do escândalo que colocou o PSDB sob suspeita de ter se beneficiado do valerioduto, o senador Eduardo Azeredo (MG) afirmou que prestações de contas de campanhas políticas, no passado, eram mera "formalidade", que não "existia rigor". Azeredo disse que teve "problemas" ao prestar contas, mas que a campanha envolvia outros cargos e partidos.

Disse que contou na eleição para o governo de Minas, em 1998, com o apoio do ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais), inclusive na captação de recursos. Segundo o senador, Walfrido não tinha o papel de coordenador, mas participava de tudo.

Azeredo afirmou ainda que o dinheiro arrecadado para sua campanha -oficialmente foram gastos R$ 8,5 milhões- foi usado para campanhas de deputados e senadores da sua coligação e, até mesmo, do então candidato à Presidência Fernando Henrique. "Ele não foi a Minas, mas tinha comitês bancados pela minha campanha."

FOLHA - A Polícia Federal diz que houve caixa dois na sua campanha...
EDUARDO AZEREDO - Tivemos problemas na prestação de contas da campanha, que não era minha só, mas de partidos coligados, que envolvia outros cargos, até mesmo de presidente da República.

FOLHA - Que "problemas"?
AZEREDO - Essas prestações de contas no passado eram mais uma formalidade, é hipocrisia negar isso, não existia rigor. O que se conclui é que no caso de Minas, a minha [prestação] foi a mais alta naquele ano, foi ela que se aproximou mais da realidade. E se concluiu que houve recursos a mais que não chegaram a ser formalizados.

FOLHA - O sr. acha que sua campanha custou quanto na verdade?
AZEREDO - Os R$ 8,5 milhões que informamos e alguma coisa a mais que teve do empréstimo que eu não autorizei. Mas nunca perto dos R$ 100 milhões que estão falando.

FOLHA - Qual foi a participação do Walfrido na campanha do sr.?
AZEREDO - Ele não foi coordenador [da campanha], o coordenador foi o ex-deputado Carlos Eloy, mas é evidente que o Walfrido participou da campanha ao meu lado ativamente.

FOLHA - De que forma? Na parte política ou na captação de recursos?
AZEREDO - Participou da campanha como um todo.

FOLHA - A PF achou papéis em que o ministro fez anotações de valores arrecadados. Ele tem conhecimento dos valores não contabilizados?
AZEREDO - Acho que ele é quem deve explicar. Cabe a mim dizer que ele participou da campanha, mas não era coordenador.

FOLHA - Mas o senhor disse que ele participou de toda a campanha, o que me faz concluir que também da parte de arrecadação de dinheiro.
AZEREDO - É evidente que ele tinha relações com pessoas que podiam apoiar a campanha.

FOLHA - Com relação ao empréstimo que o ministro Walfrido disse que pagou em seu nome por dívidas de campanha. O sr. pediu para ele?
AZEREDO - Como não tinha e não tenho até hoje posses que me garantam tirar empréstimo bancário maior, o Walfrido é que tirou o empréstimo, com meu aval para quitar a dívida.

FOLHA - O sr. vai pagar o ministro?
AZEREDO - Não. É uma dívida que foi quitada porque ele é meu amigo, continua sendo e tem condições de poder arcar com uma dívida dessas.

FOLHA - Com relação ao PSDB, o governador José Serra não quis comentar sobre o senhor.
AZEREDO - Sempre tive apoio do partido e tenho total confiança de que terei o apoio necessário no momento necessário. Serra me deu não só solidariedade, mas apoio também.

FOLHA - O dinheiro da sua campanha financiou a de FHC em Minas?
AZEREDO - Sim, parte dos custos foram bancados pela minha campanha. Fernando Henrique não foi a Minas na campanha por causa do Itamar Franco, que era meu adversário, mas tinha comitês bancados pela minha campanha.

FOLHA - Por que o senhor acha que esse assunto voltou à tona agora?
AZEREDO - O PT colocou esse assunto no seu congresso porque não está satisfeito com a presença de um ministro [Walfrido] que não seja do seu partido e como compensação para o desgaste que o partido sofreu pela aceitação do STF de abertura do processo do mensalão.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Dia D para mudanças é 5 de outubro

Quem quiser disputar as eleições municipais em 2008 deve estar filiado a um partido político exatamente um ano antes do pleito. Como o primeiro turno das eleições será no dia 5 de outubro, a data limite para filiação e mudanças de partido é a próxima sexta-feira, dia 5. Até lá, muita conversa (e argumento) vai correr pelos bastidores para convencer algumas cabeças coroadas a trocar de agremiação com vistas à disputa eleitoral que vem por aí. Alguns lances poderão surpreender os mais desavisados...

É nóis na fita

Não é pouca coisa: o novo correspondente do The New York Times no Brasil, Alexei Barrionuevo, deve andar lendo as coisas que Jorge Rodini, colaborador destas Entrelinhas e diretor do instituto Engrácia Garcia, escreve. Dia 20 de novembro, saiu neste espaço uma junção de dois textos enviados por Rodini. O segundo deles, que originalmente tinha o título "Lula, o resiliente", apresentava um conceito pouco utilizado para falar do presidente da República.

Resiliência, para quem não sabe, tem as seguintes definições no dicionário Houaiss:
1 Rubrica: física. - propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica
2 Derivação: sentido figurado - capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças

Foi no segundo sentido que Rodini usou o termo, inovando na análise sobre a reeleição de Lula, conforme pode ser observado mais abaixo. Nove meses depois, não é que Barrionuevo resolve colocar o mesmíssimo conceito já no título da matéria (reproduzida abaixo) com a entrevista do presidente Lula ao jornal? Pode ser coincidência, mas, convenhamos, não é lá muito provável, ainda mais considerando que o artigo de Rodini foi publicado com o título original em outro blog.

Abaixo, o início da matéria do NYT e o artigo de Rodini.

A Resilient Leader Trumpets Brazil’s Potential in Agriculture and Biofuels

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By ALEXEI BARRIONUEVO
Published: September 23, 2007

BRASÍLIA, Sept. 21 — In recent months the political climate in Brazil has been a boiling caldron for Luiz Inácio Lula da Silva, the country’s president.

Now serving his second term, President Luiz Inácio Lula da Silva of Brazil said, “What I want is to govern my country well.”

The second deadly airplane crash in 10 months set off a crisis in Brazil’s aviation industry in July, with many critics saying government inaction was at the root of the problem.

Last month, the country’s Supreme Court ordered 40 members of the president’s political party to stand trial on corruption charges in a scandal that has netted some of his closest advisers, including his former chief of staff.

But as Mr. da Silva, now in his second term, sat down for a 75-minute interview here in the presidential palace, those worries hardly seemed to faze him. He was nothing but upbeat, and with good reason.



As razões da vitória de Lula

Jorge Rodini

Com o final da campanha eleitoral e reeleição do Presidente Lula, podemos intuir os motivos da sua vitória incontesti. São cinco características de Lula que, a meu ver, foram absorvidas pelo povo brasileiro.


Lula é carismático A empatia do ex-torneiro mecânico com a população mais carente é quase fenomenal.

Lula é experimentado em eleições. Esta foi a quinta eleição presidencial que disputou.

Lula empolgou a militância. Apesar de todos os problemas que o PT teve, o presidente teve um exército a ajudá-lo.

Lula é o "Messias". Poucas figuras humanas no Brasil foram distinguidas com respeito e consideração dos mais pobres. De Messias Nordestino Lula foi alçado a condição de " Pai dos pobres".

Lula é resiliente. Por mais que sofra crises, ele consegue superá-las. Este conceito em Psicologia mostra como um pessoa pode ser quase imune às crises. Que, aliás, não foram poucas. Esta característica, porém, é diferente de invulnerabilidade ou invencibilidade

O Presidente sabe que tem vulnerabilidades.Tem que ter pressa para desatar o nó das contas públicas, das expectativas de reajustes elevados do salário-mínimo, das contas da previdência e da queda dos juros.
A economia do dia dia e o Bolsa-Família vão passar a ser o calcanhar de Aquiles deste novo mandato. Vai ser muito difícil segurar o preço dos produtos básicos e manter os programas sociais. O Brasil precisa crescer e o governo sabe disso.

Síntese: Lula ganhou porque teve respaldo popular, porque a oposição não conseguiu colar nele todas as trapalhadas de alguns membros do PT. Alckmin fez o que poderia ser feito, mas enfrentou um semi-Deus. Lula só não pode mais errar na questão ética nem impedir o crescimento mais vigoroso do Brasil. Até porque ele é resiliente, mas não invencível.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A hora e a vez de Eduardo Azeredo

O caso das denúncias contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), já começa a esfriar na mídia e deve acabar sendo deixado de lado em breve, tão logo o Procurador-Geral da República apresente a sua denúncia sobre o mensalão tucano, esquema que teria como chefe o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG).

O maior problema do mensalão tucano é que as primeiras alegações dos próceres do PSDB já começaram a fazer água. Quando estourou o esquema petista e o empresário Marcos Valério foi apresentado ao distinto público, a denúncia sobre o caixa dois da campanha de Azeredo também ganhou as páginas dos jornais, mas acabou ficando em segundo plano em função da grande repercussão das falcatruas envolvendo o PT, algo que pelo critério jornalístico era "mais notícia", uma vez que falcatruas tucanas eram então consideradas corriqueiras... De todo modo, o que disseram os líderes do PSDB à época foi que o caso de Azeredo não se configurava como mensalão porque não havia dinheiro público envolvido.

Pelo que se sabe agora, o Procurador-Geral vai demonstrar que houve, sim, desvio de recursos públicos no mensalão tucano, desmoralizando a argumentação inicial. Teve dinheiro da Cemig, do governo de Minas e outras autarquias. Azeredo, é claro, nega tudo e reafirma que as peças publicitárias fictícias (e que foram usadas para justificar o desvio) existiram.

Este blog já analisou um aspecto da questão, lembrando que Eduardo Azeredo é um homem de sorte porque o ministro Walfrido dos Mares Guia (Articulação Política) está também ele envolvido no tal mensalão tucano.

De fato, até agora a base governista vem ignorando solenemente o caso, justamente para não deixar respingar em Walfrido. PSDB e DEM, até agora, continuam dando sustentação ao mensaleiro, mas já há vozes nos dois partidos defendendo, sempre com muita discrição, que Azeredo seja "queimado" para permitir que os dois partidos continuem em sua pregação contra o "governo mais corrupto da história". Sim, porque parece cada vez mais evidente que há uma contradição em defender a tese de que os mensaleiros petistas são bandidos e, ao mesmo tempo, preservar o "chefe da quadrilha" do mensalão tucano.

A situação de Eduardo Azeredo pode se complicar em seu próprio partido, mas é claro que ele não é nenhum néscio e vai jogar o mesmíssimo jogo que o presidente do Senado soube jogar tão bem: o tucano mineiro conhece algumas histórias cabeludas sobre os seus correligionários e aliados democratas. Pode perfeitamente mandar vazar algumas, só para dar um pouco de frio na barriga nos amigos. Não é certo que vá fazer isto, mas pode ameaçar este movimento. Não é uma escolha fácil para o PSDB entregar a cabeça de Azeredo para a opinião pública. Mas também não parece haver alternativa razoável. A julgar pelo passado tucano, em algum momento os fatos vão atropelar o processo decisório do partido, sempre excessivamente cauteloso e moroso.

No momento, porém, a verdade é que a bola ainda está com o Procurador-Geral: todos aguardam o conteúdo da denúncia. Uma vez tornado público este material, o jogo começa de verdade...

Para entender o crescimento brasileiro

Tem gente que acha que o Brasil está crescendo apenas porque o resto do mundo vive a mesma situação. A explicação é apenas parcialmente verdadeira. O país cresce, sim, porque o resto do mundo vive um bom período, mas boa parte do desenvolvimento interno se deve à política econômica do governo Lula. A ação do Banco Central em abaixar a taxa básica de juros, aliado a medidas como o crédito consignado, tiveram como efeito uma consistente baixa nos juros cobrados do consumidor, que já são os menores desde 1994 para pessoas físicas, conforme reporta o G1 na matéria abaixo. Juros mais baixos estimulam o consumo das famílias, por um lado, e a atividade produtiva, por outro, uma vez que fica mais interessante para o empresário tirar o dinheiro aplicado no mercado financeiro e utilizá-lo para obter uma taxa de retorno mais alta na produção.

BC: juros bancários das pessoas físicas são os mais baixos desde 1994

Segundo BC, juros médios cobrados para pessoas físicas caíram para 46,6% ao ano.

Spread bancário volta a recuar no mês de agosto, para 24,7 pontos percentuais.
Alexandro Martello Do G1, em Brasília entre em contato

A taxa média de juros cobrada pelos bancos em suas operações com as pessoas físicas voltou a recuar em agosto deste ano, atingindo o patamar de 46,6% ao ano, informou nesta segunda-feira (24) o Banco Central (BC). Essa é a taxa mais baixa desde 1994, quando tem início a série histórica do BC. Em julho, a taxa estava em 47% ao ano e, no final de 2006, em 52,1% ao ano.

No caso das pessoas jurídicas, porém, a taxa apresentou crescimento de 0,1 ponto percentual em agosto deste ano, para 23,1% ao ano. Em julho, estava em 23% ao ano. "Essa variação [elevação] foi determinada, principalmente, pelo incremento das taxas médias de juros das operações contratadas com encargos flutuantes e com encargos prefixados, que subiram 0,7 ponto percentual e 0,2 ponto percentual, respectivamente", informou o BC.

No caso da taxa geral cobrada pelas instituições financeiras em suas operações de crédito, ou seja, que engloba as operações das pessoas físicas e jurídicas, foi observado novo recuo em agosto deste ano. No mês passado, os juros médios caíram para 35,7% ao ano, os mais baixos desde o ano 2000 - quando o BC começou a apurar este indicador. Em julho, os juros médios estavam em 35,9% ao ano.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, avaliou que, apesar de as taxas de juros cobradas pelos bancos nas operações com pessoas físicas já serem as mais baixas da história, ainda há espaço para novas reduções no futuro. "O spread destas operações [com pessoas físicas] ainda é bastante elevado [35,3 pontos percentuais em agosto]. É possível queda da taxa pela redução do spread", explicou Lopes.

Spread bancário
O spread bancário, por sua vez, que é a diferença entre a taxa de captação dos bancos e aquela cobrada dos seus clientes, caiu de 25,1 pontos percentuais em julho para 24,7 pontos percentuais em agosto deste ano. O spread é formado pela taxa de inadimplência, pelo lucro dos bancos, pelos tributos, e pelos depósitos compulsórios, entre outros.

Nas operações com pessoas físicas, o spread caiu de 36,3 pontos percentuais em julho para 35,3 pontos percentuais em agosto. Nas operações com as empresas, porém, houve elevação do spread bancário, que subiu para 12,4 pontos percentuais em agosto, contra 12,1 pontos percentuais em julho.

A taxa de inadimplência, considerados os atrasos superiores a noventa dias, manteve-se estável no mês passado, informou o BC, representando 4,7% do total da carteira de crédito referencial. Por segmento, os atrasos relativos às pessoas jurídicas se mantiveram no patamar de 2,4%, enquanto que a inadimplência para pessoas físicas apresentou elevação de 0,1 ponto percentual, alcançando 7,2%.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Estadão usou nota sobre o filho
de Lula para demitir Cesar Giobbi

Corre nos bastidores a versão de que a direção do jornal O Estado de S. Paulo teria usado como argumento para demitir o colunista social Cesar Giobbi uma nota publicada na coluna Persona informando a compra, por parte de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de uma casa em Iporanga, no Guarujá. Os diretores do Estadão teriam se irritado com a falta de fundamentos da notícia, que ainda não foi de fato comprovada. Outra versão corrente é de que Giobbi foi demitido a pedidos, em função de sua vinculação com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Pior: a pressão teria partido de correligionários do ex-governador. Tudo somado, é possível até que as duas versões sejam corretas, por complementares...

Tucano Azeredo tem sorte

O Procurardor-Geral da República já avisou que vai indiciar o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) como o "cabeça" do esquema do mensalão tucano, que supostamente foi copiado pelos petistas a partir de 2003. A informação está no jornal O Estado de S. Paulo desta sexta-feira.

Eduardo Azeredo provavelmente tem muita culpa no cartório, mas é um homem de sorte. A denúncia do Procurador também alcança o ministro Walfrido dos Mares Guia, hoje peça-chave do consórcio governista. Se Walfrido não estivesse enrolado com os problemas do mensalão mineiro, o PT sozinho conseguiria trucidar Azeredo em pouco tempo. Com Walfrido envolvido na suposta falcatrua do PSDB mineiro, que a rigor pode ser considerada mãe de todos os mensalões e mensalinhos, o PT deve agir com muita calma neste caso. Azeredo tem boa chance de escapar ileso do tiroteio que virá pela frente...

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Rodini: pouca preocupação para Lula?

Em mais um comentário para o Entrelinhas, Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia, comenta a pesquisa CNI/Ibope, divulgada quinta-feira, sobre a popularidade do presidente Lula e seu governo. Para Rodini, a pesquisa tem alguns sinais preocupantes para Lula, embora o patamar de aprovação seja ainda muito alto. A seguir, a íntegra do comentário:

A pesquisa CNI/IBOPE revela que a insatisfação com Lula começa a ser manifestada em alguns segmentos da sociedade brasileira.

O saldo da avaliação do governo teve uma queda, dentro da margem de erro, de 4 pontos percentuais. Porém, houve uma piora acentuada, em relação a junho deste ano, junto aos homens, na Região Sudeste, na faixa de 40 a 49 anos, na faixa de renda de até 1 SM e nos pequenos municípios do Interior.

Quando consultados sobre a aprovação à maneira de Lula governar, os eleitores responderam com saldo de aceitação de 30 pontos percentuais, 6 pontos a menos que em junho. Mesmo em patamar elevado, representa o menor saldo de aprovação medido neste ano
.

A queda na aprovação de Lula foi mais acentuada entre os homens, entre os jovens, na região Sudeste, nas pequenas cidades (até 20 mil eleitores), na periferia e Interior e nos extremos das faixas de renda (até um SM e mais de 10 SM).

A pesquisa revela um comportamento mais crítico dos brasileiros em relação a Saúde e Educação e o combate à fome e à pobreza. Em setembro, 46% dos entrevistados desaprovaram as ações de saúde e educação contra 41% em junho. Na região Nordeste, a aprovação à atuação do governos nestas área era de 70%, agora é 55%, o que comprova que as greves de médico e paralisações nos hospitais nesta região tiveram um impacto muito negativo. No combate à pobreza e à fome, aprovação recuou de 58% para 54%.

Em relação às questões econômicas, a atuação no combate à inflação, o desemprego, a política de juros e impostos são desaprovados pela população. Com a percepção do aumento do desemprego, o desencanto é maior entre os homens num primeiro instante: é bom termos em mente que os eleitores do sexo masculino sempres apoiaram o Presidente em maior escala que as mulheres.

O episódio Renan é lembrado, de modo espontâneo, por 34% dos brasileiros, quando inquiridos sobre as notícias mais lembradas sobre o governo do Presidente Lula. 51% dos eleitores com nível superior citaram o caso do Presidente do Senado como mais relevante. A crise nos aeroportos foi mencionada por 9% dos eleitores, as viagens de Lula por 6% e a discussão da CPMF por 4%.

Esta oscilação negativa das avaliações é, em boa parte, causada pelos itens da cesta econômica. Aumenta a preocupação dos brasileiros com a elevação da inflação e do desemprego, o que avaliação do governo nessas áreas caia. A expectiva de aumento de preços é, hoje, o calcanhar de Aquiles do Governo.

Como já disse em artigo anterior, "demanda atendida, nova demanda". Não adianta chorar sobre a Bolsa Família distribuída. Esta pesquisa escancara para quem quer enxergar:a população passa a exigir melhorias na Saúde, na Educação e na implementação de soluções duradouras no combate à fome e à pobreza.

O governo Lula já está sendo reprovado por quem ganha mais de 10 SM e quem tem nível superior. É muito pouco para Lula se preocupar. É?

Recordar é viver

A nota abaixo, publicada aqui mesmo no dia 8 de julho, continua totalmente válida para analisar a pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quinta-feira e que mostra uma oscilação negativa na popularidade do presidente Lula. Sim, a aprovação caiu: ele tinha 61% de aprovação em julho e agora tem apenas 60%. Já a popularidade do governo despencou: foi de 50% para 48%. O leitor destas Entrelinhas já está avisado: amanhã, colunistas e primeiras páginas dos jornalões vão bater o bumbo sobre a "queda" na popularidade presidencial. Cesar Maia dirá que é o início de um "turning point" sem volta. Este blog comenta a pesquisa logo mais.

Lula é o Batfino da política brasileira

"Suas balas não me atingem, minhas asas são como uma couraça de aço", não se cansava de repetir o simpático Batfino, super-herói que animou as crianças na década de 70 ao lado de seu ajudante Karatê, um japonês grandalhão e bem pouco sagaz, digamos assim. O presidente Lula parece ser o Batfino da política nacional. Não tem escândalo que o derrube, não tem artimanha oposicionista capaz de convencer o povão que o ex-metalúrgico faz um governo desastroso, como está dia sim e outro também nos grandes meios de comunicação.

Este blog sugere a João Santana (ou Duda Mendonça) que compre os direitos autorais e use Batfino como novo símbolo da gestão Lula! Olhando bem, o ratinho lembra um pouco o presidente. Karatê talvez pudesse ser o ministro Nelson Jobim, que também é grandalhão e um pouco atrapalhado, embora bem mais sagaz do que o ajudante de Batfino. E os bandidos, bem, os bandidos todo mundo sabe quem são...

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Um exemplo do choque de gestão tucano

O ex-governador Geraldo Alckmin gostava de dizer que daria um "choque de gestão" semelhante ao que realizou no Estado de São Paulo se virasse presidente da República. A julgar pelo exemplode choque aplicado pelo PSDB paulista, revelado na notícia abaixo, da Folha Online, os brasileiros devem suspirar aliviados pela reeleição de Lula....

Erro no metrô causa desencontro de túneis

Reportagem publicada na edição desta quarta-feira da Folha de S.Paulo (íntegra só para assinantes da Folha ou do UOL) revela que um erro nas obras da linha 4-amarela do metrô de São Paulo provocou um desencontro de túneis que são escavados a partir de duas frentes de trabalho. A falha obrigará as empreiteiras a fazer correções que podem durar um mês.

De acordo com o texto, no último dia 10, os túneis Caxingui/Três Poderes, na zona oeste, deveriam ter se encontrado. Porém, há um desalinhamento lateral de 80 cm entre elas.

O Consórcio Via Amarela (Odebrecht, OAS, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez) diz não haver gravidade e que "a correção geométrica ocorrerá na seqüência dos trabalhos". Especialistas ouvidos pela Folha, porém, afirmam que parâmetros aceitáveis seriam, no máximo, de 10 cm --para alguns, ainda menos.

O Metrô diz que não haverá "conseqüência ou repercussão em termos de prazo, segurança ou custos para a população e para a companhia" -sem esclarecer se haverá prejuízos às construtoras, que vão receber do Estado um total próximo de R$ 2 bilhões pela linha 4.

Técnicos avaliam que a falha foi provavelmente topográfica, motivada por fatores humanos, de máquinas ou de projeto.

Acompanhe as notícias da Folha Online em seu celular: digite wap.folha.com.br.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Jorge Rodini: Bernanke quer Lula de novo

Em mais uma colaboração para o Entrelinhas, Jorge Rodini, diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia, comenta o levantamento relizado pelo Ipsos para O Estado de São Paulo sobre o governo Lula e sobre a qual versa o editorial do vestuto jornal, publica em post anterior. E é com base nesta pesquisa que se baseia o comentário do prefeito Cesar Maia, também reproduzido abaixo. Para Rodini, a pesquisa é bastante positiva para o presidente Lula e a economia continua determinante para a definição do cenário pré-eleitoral de 2010. Leia a seguir a íntegra do texto.


A Pesquisa Estadão/Ipsos divulgada em 16/09/2007 revela que o eleitor brasileiro percebe que o Governo Lula realizou três ações do bem: o Bolsa-Família (43%), a estabilidade econômica (20%) e a ajuda aos pobres (8%). Em contrapartida, a atual administração esbarra em três coisas do mal: a corrupção ( 23%), o apagão aéreo (11%) e a pouca atenção à saúde (10%). Apenas 8% do eleitorado do Brasil disse qua a maior obra do Governo Lula é "nada".

Para 67% dos entrevistados , Lula é o principal responsável pela conquista da estabilidade econômica. Apenas 7% deram este crédito a FHC, que implementou o Plano Real. Palocci, segundo a visão de 2% dos brasileiros que votam, é o idealizador desta estabilidade
.

Esta pesquisa mostra o quanto o inferno astral está próximo do céu de brigadeiro. O governo priorizou as ações que afetam as populações menos assistidas, enquanto as más notícias sacrificaram a classe média.

Sintetizando, o governo estaria com o povo e a oposição flertaria com as "elites". A nova classe média emergente das políticas sociais governistas, no entanto, pode ter o mesmo nível de exigência da atual e, no futuro, passar a cobrar de Lula a reformulação das políticas de distribuição que a favoreceu inicialmente
.

O governo Lula é Lula, não há ministros fortes, não há nomes carismáticos. Gil foi considerado melhor ministro de Lula por apenas 4 % dos entrevistados. E olha que Gil é um senhor cantor. José Serra é, dentre os prováveis candidatos à sucessão de Lula, o que tem maior intenção de voto, 34% contra 12% de Ciro, 10% de Aécio e meros 8% de Marta.

A persistir o desempenho da Economia, Lula passa a ser o crupiê deste jogo eleitoral, pelo menos para os candidatos oficiais. Ele vai distribuir as cartas, vai monitorar o cacife de cada caçador de voto e vai determinar o momento da decisão de entrar e sair do jogo

Serra lidera em todas as regiões, com vantagem acentuada no Sul, muito crítico em relação a Lula. No Sudeste, Aécio (17%) melhora, assim como Marta (11%). Ciro tem 18% no Nordeste contra 37% de Serra, mostrando que o eleitor fiel a Lula está predisposto a votar no governador paulista

Quem Lula vai ungir? Quem vai receber o beijo da aranha? Quem vai substituir o antes candidatíssimo Palocci? Quem vai ser o candidato para o povo do Bolsa-Família? Só o Cacique Lula pode responder.

Ao final destes oito anos de gerência lulista, será que o Bolsa-Família ainda terá toda essa força eleitoral? Afinal, demanda atendida, nova demanda ... Mas parece que Lula carrega com ele a sorte dos líderes populares. Afinal, com a redução da taxa de juros americana em 0,50% nesta terça-feira, fica a impressão que até o FED está querendo um terceiro mandato.

Editorial do Estadão reconhece que o
governo Lula é melhor do que o de FHC

Os leitores podem achar que o autor destas Entrelinhas andou bebendo ou está sendo irônico ao afirmar que O Estado de S. Paulo fez o que está no título acima. Pois fez, sim, é o caso de matar a cobra e mostrar o pau: abaixo, a íntegra do editorial em questão, publicado na edição desta terça-feira.

Uma pesquisa explica a outra

Em política, dizia o ditador português Antonio de Oliveira Salazar, o que parece é. E a percepção da esmagadora maioria dos brasileiros, com o seu indissociável séquito de conseqüências políticas, é que o pai da estabilidade econômica nacional se chama Luiz Inácio Lula da Silva. O papel do “homem do real”, como os encantados eleitores saudavam na campanha presidencial de 1994 o então ex-ministro da Fazenda Fernando Henrique, com quem tudo começou, está reduzido a pouco mais do que um vestígio na memória coletiva. Dois em cada três entrevistados na pesquisa inaugural do Estado com o instituto Ipsos Public Affairs, publicada domingo, consideram Lula “o maior responsável” pelo controle da inflação, ante irrisórios 7% que apontaram o seu antecessor.

Não há dúvida de que a deliberada desconstrução da verdade histórica a que ainda agora se dedica o atual presidente contribuiu para aquele monumental equívoco, ao obliterar o fato inconteste de que a maior responsabilidade de Lula consiste, isso sim, em ter mantido e aprofundado o “malanismo”, a política econômica do segundo mandato de Fernando Henrique. Não obstante, Lula não hesitou em cunhar a desonesta expressão “herança maldita”, para designar o legado que iria consolidar e de que iria usufruir em formidável escala. Ao contrário do seu ex-ministro Antonio Palocci, que teve a honestidade de sempre abençoar essa herança.

Mas, para mal dos pecados de Fernando Henrique e da oposição, em geral, quanto mais auspiciosos se revelam os resultados dessa política, maior se torna a hegemonia política do presidente Lula da Silva.

E esses resultados só tendem a melhorar, como mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), cuja versão relativa a 2006 o IBGE divulgou três dias antes de virem a público os números da sondagem do Ipsos para este jornal. O nexo entre os dois conjuntos de resultados é claro como o dia. O deslumbramento com um presidente que para 27% dos entrevistados não fez nada de ruim - ante 8% para os quais ele não fez nada de bom - é inseparável do aumento de 7,2%, o maior em uma década, do poder aquisitivo dos trabalhadores. Adicionando-se aos dados de 2006 os do ano precedente, o ganho acumulado alcança 12,1%. Em 2005, além disso, o desemprego estava em 9,3%. No período seguinte, caiu para 8,4%, com a vantagem de que 60% dos novos postos de trabalho davam direito a carteira assinada.

O IBGE revela ainda que, para a metade mais pobre dos assalariados, o ano passado foi de longe o melhor desde o lançamento do Plano Real. Isso apenas reforçou a tendência, que data de 1993, de lenta e gradual diminuição da desigualdade de renda no País. Naquele ano, o Índice de Gini, que varia de zero (igualdade absoluta) a 1 (desigualdade absoluta), estava em 0,600, considerando apenas os rendimentos do trabalho. Está em 0,541. Parcela ponderável dessa evolução se deve aos aumentos reais do salário mínimo - 20,6% no segundo governo Fernando Henrique e 25,3% no primeiro governo Lula. Os ganhos de qualidade de vida dos brasileiros nos últimos cinco anos não derivam só da posse de bens familiares (geladeiras, máquinas de lavar, aparelhos de TV, computadores). Também se expandiram os bens públicos (serviços de água, saneamento, coleta de lixo, luz e telefonia).

Vá-se dizer aos milhões que passaram a viver menos mal - apesar dos descalabros da saúde e do ensino - que o mundo atravessa o mais duradouro período de expansão econômica já registrado, e que o desempenho da economia brasileira, nesse contexto, é o pior entre os Brics, de que o Brasil faz parte, e é inferior à média dos desempenhos dos países em desenvolvimento. Para eles, herdeiros de uma das piores tradições de injustiça social vigentes em países de nível de desenvolvimento do Brasil, a percepção do ganho obtido, em termos absolutos, é o que conta. O mais é abstração - e o real, que abriu caminho para a doma dos preços, é história antiga. Daí Lula golear Fernando Henrique por 80 a 9, como o presidente que apoiou os mais pobres, e por 73 a 16 como o que mais elevou o poder de compra do povo, nos porcentuais da pesquisa Estado-Ipsos. Contra os 27% que acham que o governo Lula não fez nada de ruim, só 23% acharam ruim a corrupção; 11%, o apagão aéreo; e 10%, os serviços de saúde.

Não é à toa que a oposição está desarvorada.

Cesar Maia: sem crise, Lula seria reeleito

O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia (DEM), fala muita bobagem, mas às vezes é capaz de apresentar boas análises políticas, ainda que com um viés partidário. É o caso do texto abaixo, que saiu nesta terça no "ex-blog" do prefeito. Vale a pena ler o que escreve Maia sobre as recentes pesquisas divulgadas na semana passada sobre o quadro sucessório para 2010. A julgar pelo que escreve o prefeito, se a crise americana não cair no colo de Lula nos próximos dois anos, o presidente conseguiria, com muita facilidade, mais um mandato.


PESQUISAS, AVALIAÇÃO E SUCESSÃO DE LULA!

1. O Instituto IPSOS publicou no ESP de domingo, pesquisa de opinião nacional com mil entrevistas. Pesquisas exigem sempre cuidado na análise. O eleitor médio não tem o nível de atenção, racionalidade e informação dos analistas ou dos interessados em política. Hoje, menos ainda pelos escândalos divulgados. Os estudos de maior profundidade que este Ex-Blog tem tido acesso mostram que o quadro não é tão linear como a razão jornalística exige.

2. O bolsa-família é o programa do governo Lula que mais consenso produz, cruzando as respostas por quaisquer perfis do eleitor. A resposta à pergunta ("o que Lula fez de bom no governo?") que dá ao bolsa-família 43%, a estabilidade econômica 20%, a ajuda aos pobres (que poderia ser somada ao bolsa-família), 10%... mostra exatamente isso. Mas isso não quer dizer que seja a principal razão de voto.

3. Estudos econométricos de causalidade mostram que a razão hipotética de se votar em Lula hoje é a questão econômica, estabilidade e crescimento. Por isso não há qualquer contradição do eleitor quando responde sobre o presidente responsável pela estabilidade econômica quando Lula tem 67% e FHC 7%. Essa resposta apenas ratifica o que as razões de causalidade demonstram. O ponto não é a bolsa-família, mas a economia. A boa economia de FHC terminou há 10 anos atrás, na crise de setembro de 1997.

4. Este Ex-Blog publicou uns meses atrás, resumo de um artigo do historiador e politólogo argentino, Natalio Botana, onde mostrava o paradoxal na América Latina entre economia e democracia. Ou seja, aqui, quanto melhor a economia mais autoritários ficam os governos. É o que vemos hoje pela AL afora. Com Lula e PT é exatamente assim: o executivo manda e o legislativo se submete. O caso Renan é exemplo disso. E é isso o que o executivo quer, aqui e alhures. Um quadro econômico inverso, certamente produziria não só a queda da avaliação de Lula, como a fragilização do executivo em relação ao legislativo e aos políticos.

5. Por outro lado, a fragilização do legislativo leva o eleitor a estar cada vez mais desligado da representação política dos partidos e mais ligado aos personagens. Por isso (e por sorte para eles) não existe PT, mas Lula. O problema é que o desenho do personagem Lula, não é clonável entre os políticos destacados hoje. Nenhum deles do PT, ou fora dele é da família Lula. Ao contrário, Serra, Aécio e Alckmin, são da família FHC.

6. Desta forma a eleição presidencial de 2010, parte de duas situações: a) não há personagem sucessor; b) depende da dinâmica econômica daqui para frente. Quando surge no horizonte um crescimento de 5%, o governo vai ao orgasmo, pois sabe que é esse seu pilar de sustentação e de transferência de votos. Mas quando a crise "hipotecária" sinaliza nuvens carregadas para a economia e os índices de preços pululam, todo este quadro se desfaz.

7. E se for assim, teremos uma eleição lotérica de partida na medida que a memória econômica negativa passará a ser de FHC e Lula e não só de FHC -segundo governo. Esta característica estimulará o lançamento de muitas candidaturas, e um quadro eleitoral imprevisível, onde os perdedores no primeiro turno poderão ser decisivos no segundo.

8. Desta forma, a pesquisa que se tem que ficar atento é a projeção de cenários para o futuro. É mais trabalhoso e sofisticado do que pesquisas sobre o que se pensa hoje. Os bons economistas sem partidos sabem como fazer. E a metodologia -que alguns chamam de quali-quantis- está a disposição de todos os interessados de forma a combinar projeção de cenários com os fatores de peso.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Direita aplica teoria conspiratória a Cacciola

A prisão em Monte Carlo do ex-banqueiro Salvatore Cacciola já provoca indignação nos blogs direitosos. Segundo o raciocínio de seus autores, o pobre Cacciola é vítima de uma maquiavélica articulação do governo Lula para tirar dos holofotes da mídia o episódio da absolvição de Renan Calheiros (PMDB-AL) no Senado. Assim, Lula teria "ordenado" que a Interpol prendesse o ex-banqueiro amigo dos tucanos para mostrar que o seu governo prende corruptos.

Claro que a versão é fantasiosa: Lula é muito poderoso, mas até onde este blog tenha conhecimento, ainda não manda da Interpol; e a tentativa de prender Cacciola começou há quase 10 anos, tendo o Ministério Público Federal como protagonista. Os direitosos gostam de dizer que o MP é "republicano" quando denuncia petista suspeito de corrupção, mas acham que os procuradores são "petistas" ou" radicais do PSOL " quando conseguem prender corruptos ligados ao PSDB...

Aliás, falando em ação republicana, vale lembrar que a Polícia Federal está investigando de perto o caso MSI/Corinthians, clube de coração do presidente e no qual ele é conselheiro vitalício. Mal comparando, seria o mesmo que a PF investigasse, no mandato de Fernando Henrique Cardoso, as eventuais lambanças feitas pelos conselheiros do clube Harmonia de São Paulo.... Nunca é demais lembrar que no tempo de FCH, o procurador-geral era conhecido pela alcunha de "engavetador-geral" e a PF estava desaparelhada e com o pessoal ganhando pessimamente.

Tudo somado, em uma coisa os blogs de direita estão certos: essa hstória do Cacciola ainda vai dar muita dor de cabeça para o tucanato. Quem viver, verá....

E agora, Geraldo?

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), diz que cabe ao governador José Serra (PSDB) a escolha do candidato da aliança tucano-democrata à prefeitura de São Paulo em 2008. A pauta é até óbvia: o que Geraldo Alckmin pensa a respeito desta ingerência do demo Kassab no partido tucano? Este blog continua apostando que a eleição de 2008 terá dois gês na urna eletrônica: Geraldo e Gilberto. É bom lembrar que Jilmar Tatto é com jota, até para que nenhum gaiato venha dizer depois que o blog fez um "hedge" nesta aposta...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

PNAD mostra um novo país em formação

Os dados do PNAD divulgados nesta sexta-feira ajudam a explicar porque o povão tem o presidente Lula em tão alta conta. Basta ler a reportagem abaixo, na versão do Globo Online, para entender um pouco melhor a popularidade presidencial. Sim, é chato repetir, mas é a economia, estúpido...

RIO - O brasileiro está com um trabalho melhor, botando mais dinheiro no bolso e comprando mais celulares. Também ampliou os estudos, tem cada vez menos filhos e vive mais. É o que mostra um dos mais completos retratos do Brasil, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE.

As tendências já vêm de outros anos, mas o que surpreende na Pnad referente a 2006 é o conjunto dos dados. Os principais indicadores apresentaram avanços e alguns dos resultados mais significativos vieram de itens fundamentais para o país: trabalho, renda e educação.

A desigualdade continua caindo. A redução foi pequena, mas mostra consistência na lenta melhora das diferenças de renda da população. O índice de Gini (indicador internacional de desigualdade que vai de 0 a 1) vem caindo desde 1993 e em 2006 recuou mais 0,003 para 0,541.

O Brasil menos desigual em 2006 foi influenciado pelo aumento de 13,3% no salário mínimo. A renda média real da população teve a maior recuperação desde 1995 (7,2%) e beneficiou principalmente a metade da população com rendimentos menores.

A taxa de escolarização foi recorde: quase 96,7% das crianças entre 7 e 14 anos estavam na escola. E uma mudança da lei, que passou a obrigar crianças entrarem na escola um ano mais cedo, elevou em 3% o número de estudantes entre 5 e 6 anos nas salas de aula. A alta foi significativa e a expectativa é que o número continue crescendo nos próximos anos, pois o prazo para implementar a obrigatoriedade é 2010.

A vida moderna também está refletida na pesquisa. O número de residências com um só morador subiu de 10,8% em 2005 para 11,1% em 2006. Além disso, a população está tendo menos filhos: a média caiu de 2,1 filhos por mulher em 2005 para 2 em 2006. E o IBGE diz que o ritmo de queda está muito mais acelerado no Brasil do que aquele observado na Europa, onde a baixa taxa de natalidade da população já é um problema há tempos.

Mas o estudo também mostra que falta avançar. A taxa de analfabetismo caiu, mas ainda é gigantesca. Quase 15 milhões de pessoas não conseguem ler um bilhete. E mesmo com o aumento da formalização a carteira assinada é um privilégio de apenas um terço da população ocupada.

Wagner Iglécias: Viva a oposição!

Em mais uma colaboração para o blog, o professor Wagner Iglecias analisa a atual conjuntura política pós-absolvição do presidente do Senado, Renan Calheiros. Está muito interessante o artigo, vale a pena ler na íntegra. Tão interessante que fez o autor destas Entrelinhas lembrar de um canto que os sãopaulinos têm entoado no Morumbi, em tom jocoso, sobre o arqui-rival Sport Club Corinthians Paulista, a saber: "Corinthians... Corinthians sem estádio, Corinthians sem história, freguês do tricolor". Basta ler o texto de Iglécias para perceber que a oposição está para o presidente Lula assim como o Corinthians está para o tricampeão mundial...

O episódio da não-cassação do mandato do senador Renan Calheiros é mais um round no embate que oposição e governo travam desde, pelo menos, meados de 2005. Foi naquela época que surgiram as primeiras denúncias sobre o suposto esquema do mensalão e também ali que tucanos e demistas (então pefelistas) vislubraram com mais clareza a possibilidade de voltar a ocupar o Palácio do Planalto.

A história das coroadas cabeças
petistas que rolaram, dos depoimentos trôpegos nas tantas CPIs que se seguiram e das vacilações oposicionistas diante do sentimento das ruas em relação a Lula já são amplamente conhecidas. Veio a eleição de 2006 e Lula foi reconduzido à presidência da república com ampla maioria dos votos.

A guerra entre oposição e governo, apesar da enormidade de votos que Lula obteve em novembro do ano passado, não acabou, como era de se esperar. Há pouco a oposição capitalizou como vitória a aceitação, pelo Supremo Tribunal Federal, da denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra quarenta pessoas acusadas de envolvimento com o mensalão.

Duas semanas depois PSDB e DEM saem derrotados com o desfecho
do caso Renan. Afinal, a cassação do presidente do Congresso, um dos fiadores da aliança entre PT e PMDB, sustentáculo da base de apoio do governo no Legislativo, causaria grandes dores de cabeça para o Planalto. Independentemente dos sucessos e revezes que governo e oposição têm colhido nesta luta renhida outros episódios deverão surgir no futuro e outros rounds serão travados até que se chegue a 2010, quando o país irá às urnas escolher o sucessor de Lula.

E aí a pergunta
que surge é a seguinte: PSDB e DEM chegarão a 2010 com um projeto alternativo de governo, capaz de conquistar a maioria da sociedade e derrotar o candidato situacionista? Ou daqui até lá apostarão mais na estratégia de provocar desgastes aqui e ali em Lula e nos seus, como tem ocorrido desde que veio a tona o escândalo do mensalão?

O regime democrático tem muitos pressupostos. Um deles, óbvio, é a alternância de poder. Outro é a existência de uma oposição forte, que não apenas tenha capacidade de fiscalizar as ações de quem está no governo e de cobrar suas promessas, mas também de ter um projeto alternativo de gestão da coisa pública a apresentar para a sociedade.

Neste momento turbulento da política brasileira não parece muito claro o que a oposição teria a oferecer como alternativa ao que aí está. Goste-se ou não de Lula, é fato que ele surfa em altas ondas de popularidade, vitaminado pelos bons números da economia e por uma política social que de fato tem melhorado a vida dos mais pobres.

Posto
isto, cabe questionar se a estratégia tucano-demista para retomar o Palácio do Planalto continuará resumida, daqui até 2010, ao discurso moralizante contra as denúncias de corrupção envolvendo o governo que são publicadas na imprensa. Será que a sociedade realmente se sensibiliza com isto? Ou será que o eleitorado não associa denúncias de mau uso do dinheiro público a todo o espectro político, oposição ai incluida?

Continua a não ser claro, como já não era claro no pleito de
2006, o projeto de governo que PSDB e DEM poderiam oferecer ao país. O que manteriam e o que fariam diferente de Lula se estivessem no poder? Insistiriam na atual política econômica ou promoveriam alterações, sobretudo nas áreas monetária e cambial? Patrocinariam um choque fiscal na máquina pública e buscariam aprovar uma reforma tributária digna deste nome? Retomariam o programa de privatizações interrompido desde que Lula tornou-se presidente? Manteriam as atuais políticas assistenciais? Ampliariam o número de beneficiários do Bolsa Familia? Apostariam num alinhamento mais estreito com os EUA no plano externo, ou manteriam a atual política de diversificação de parceiros comerciais levada a cabo por Lula?

Ninguém sabe muito bem. O petismo, nos muitos
anos em que foi oposição, ao menos bradava o discurso da ética na política e de um socialismo meio difuso com o qual prometia resgatar nossa abissal e secular dívida social. Discurso que mostrou-se bastante frágil quando o partido foi ao poder, diga-se de passagem. Mas era um discurso. Tucanos e democratas nem isto têm hoje. Terão em 2010?


Wagner Iglecias é doutor em sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Manifesto dos Sem Mídia

A pedidos, segue abaixo o início de um manifesto de Eduardo Guimarães que será lido amanhã, na frente do prédio da Folha de S. Paulo. Para ler a íntegra, na versão do Observatório da Imprensa, clique aqui. O autor destas Entrelinhas não concorda com tudo que Eduardoescreveu, mas avalia que iniciativas deste tipo são meritórias.

Vivemos um tempo em que a informação se tornou tão vital para o homem que passou a integrar o arcabouço de seus direitos fundamentais. Defender a boa qualidade da informação, pois, é defender um dos mais importantes direitos fundamentais do homem. É por isso que estamos aqui hoje.

No transcurso do século 20, novas tecnologias geraram o que se convencionou chamar de mídia, isto é, o conjunto de meios de comunicação em suas variadas manifestações, tais como a secular imprensa escrita, o rádio, o cinema, a televisão e, mais recentemente, a internet. Essa mídia, por suas características intrínsecas e por suas ações extrínsecas, tornou-se componente fundamental da estrutura social, formada que é por meios de comunicação de massa.

Em todas as partes do mundo – mas, sobretudo, em países continentais como o nosso –, quem tem como falar para as massas controla um poder que, vigendo a democracia, equipara-se aos Poderes constituídos da República. E, vez por outra, até os suplanta. Essa realidade pode ser constatada pela simples análise da história de regiões como a América Latina, em que o poder dos meios de comunicação logrou eleger e derrubar governos, aprovar leis ou impedir sua aprovação, bem como moldar costumes e valores das sociedades. Contudo, há fartura de provas de que, freqüentemente, esse descomunal poder não foi usado em benefício da maioria.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Day after: agora é a vez da CPMF

Um dia depois da vitória de Renan Calheiros no Senado, começaram as articulações para o que de fato interessa ao governo federal: a prorrogação da CPMF, o famoso imposto do cheque, até 2011. Atualmente, o projeto que prorroga a CPMF está tramitando na Câmara e os especialistas em Congresso Nacional acreditam que entre os deputados não haverá problemas na aprovação da matéria, pois a base governista é sólida na Casa. O problema mesmo é o Senado, onde o clima já não estava dos melhores.

Desolados com a derrota de ontem, quarta-feira, os oposicionistas decidiram engrossar o jogo e prometeram não votar mais nada enquanto Calheiros for o presidente do Senado. Por um lado, é uma atitude arrogante, típica de maus perdedores, gente que não respeita a democracia. Na verdade, porém, a atitude revela um certo endurecimento na negociação sobre a CPMF, pois ninguém em Brasília acredita que DEM e PSDB "não vão votar mais nada" enquanto Renan for presidente. Na última vez que tentaram manobra semelhante, acabaram tendo que voltar atrás para aprovar uma MP que beneficiava os grandes agricultores – público-alvo, digamos assim, da atuações dos atores oposicionistas. Assim, o que está no horizonte é uma negociação mais complicada para o governo aprovar a prorrogação da contribuição, cuja arrecadação é automática e deve somar quase R$ 40 bilhões em 2008.

No fundo, a prorrogação da CPMF é o projeto mais importante para o governo Lula. Uma vez aprovado e tendo em vista que o presidente não pretende enviar novas reformas ao Congresso, o legislativo passará a ter uma agenda secundária – provavelmente as votações mais importantes serão as de Medidas Provisórias. A verdade é que nem a Câmara e muito menos o Senado têm uma agenda propositiva. Ambos caminham a reboque do Executivo. Muitos parlamentares acham que esta legislatura acaba no dia em que a CPMF for aprovda. Devem ter razão.

Os significados da absolvição de Renan

Dois são os aspectos a se levar em conta para uma primeira análise da absolvição de Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, na sessão de quarta-feira, por 40 votos a 35, com 6 abstenções. Um diz respeito ao rito do processo e o outro, ao jogo político em curso no país. Vamos a eles.

Primeiro, é preciso dizer que, definitivamente, não foi um embate em que os contendores tiveram os mesmos espaços para explicar seus pontos de vista, especialmente na reta final que antecedeu a votação de ontem, quarta-feira, no Senado da República. Muito pelo contrário: o que se viu foi um massacre midiático raramente assistido na política nacional e que talvez só tenha paralelo no episódio do escândalo do mensalão.

Sim, Renan Calheiros, presidente do Senado, foi massacrado na imprensa desde abril deste ano. Pode até ser que Renan seja um picareta e que o lobista da Mendes Jr. tenha pago todas as despesas da ex-namorada do senador, a já célebre Mônica Veloso. O pequeno problema é que ninguém conseguiu provar que o lobista pagou as tais contas. Foi por este motivo que Renan se safou na votação de ontem, e não porque o PT e o governo "operaram" a favor do presidente do Senado (qualquer energúmeno que saiba fazer contas é capaz de perceber que, tendo o PT rachado na votação, o que faltou foi voto da oposição, e não da base aliada...).

Nesta quinta-feira, teremos na mídia as mais variadas análises sobre o que ocorreu. A maior parte dos colunistas vai falar em crise moral, avacalhação do Congresso, fim do mundo e outras coisa ainda mais graves. Calma, caro leitor, o Brasil não acabou porque Renan foi absolvido. Na verdade, ainda que o senador seja culpado e no futuro reste provado que ele de fato recebeu favores de seu amigo lobista, a absolvição tem um aspecto positivo que é o de mostrar que a imprensa não tem força (ainda) para assumir o papel de polícia e Justiça. A mídia quer investigar, julgar e condenar, mas este não é o seu papel. Renan merece ser julgado e, provada a sua culpa, condenado, mas na Justiça ou no Senado, se a alegação for de falta de decoro parlamentar. Ninguém pode nem merece ser julgado e condenado pela mídia e é sempre bom lembrar o Caso Dreyfus nessas horas.

Posto isto, vamos então ao que merece ser assinalado do ponto de vista do processo político em curso no país. A absolvição de Renan mostra que daqui para frente tudo no Brasil tem como perspectiva a eleição de 2010. A oposição queria a cabeça de Renan para enfraquecer Lula, não para derrubar um político que apenas eventualmente é aliado do presidente, como foi de Collor de Mello e Fernando Henrique. Perdeu a batalha, mas não a guerra. Vai continuar tentando, seja na guerrilha contra Calheiros, seja em outras que ainda poderão surgir, sempre com o objetivo de alvejar Lula. É do jogo e o PT nem pode reclamar, porque já jogou este mesmo jogo estando do outro lado do tabuleiro.

Do que se viu ontem, no Senado, a oposição é mais frágil do que se supunha. Apesar do imenso apoio da mídia, não conseguiu amealhar os votos necessário para mandar Renan para as Alagoas, como pretendia. Nada indica que vá conseguir obstruir as votações importantes no Congresso, embora possa atrapalhar e forçar negociações em torno das matérias relevantes da pauta legislativa. Também é do jogo e é assim em qualquer democracia liberal em funcionamento. Se a mídia joga de um lado, Lula já mostrou que resiste e tem ao seu lado a força dos fatos: seu governo está fazendo os brasileiros viverem muito melhor do que as gestões que o antecederam. O povão não parece muito sensibilizado para os deslizes dos aliados do presidente e opina com os olhos no bolso, que parece bem mais cheio do que no passado, daí a alta popularidade presidencial e a fácil reeleição obtida em meio ao tal "maior escândalo de corrupção" da história.

Doravante, o jogo vai ficando mais pesado a cada dia que passa, porque a eleição de 2010, hoje tão remota, a cada diz que passa fica mais presente. Hoje, a oposição não tem candidato, não tem estratégia e está dividida. Não tem nem sequer um discurso alternativo para dizer o que fará de melhor do que Lula fez. Toda a crítica se resume a um neo-udenismo incapaz de derrubar Renan Calheiros com todas as capas de Veja e editoriais dos jornalões de São Paulo e Rio de Janeiro. Convenhamos, é muito pouco.

Mais do que atestar a força do governo, a absolvição de Renan Calheiros revelou ao país a fraqueza das oposições. Para o presidente Lula, esta foi uma boa notícia, ainda que momentaneamente provoque um sentimento belicista da oposição contra o seu governo. Ademais, para Lula não há nada melhor do que um presidente do Senado fraco e devedor dos decisivos votos petistas.

No fundo, o cenário nacional caminha para um "chavismo" não do presidente ou de seu partido, mas da oposição, que cada vez mais se parece com a venezuelana: antipopular, oportunista, golpista, sem discurso e fragilizada. Tem gente que morre de medo dos cansados tucanos e democratas a cada pio que a mídia dá contra Lula. Bobagem: a política é no fundo um combate diário e a medição das forças, ontem, no Senado, mostra que PSDB e DEM pagaram para ver e perderam dinheiro. Renan está rindo à toa, com a ajuda do governo, é certo, mas também em função da enorme incompetência da oposição. Quinze anos anos atrás, Zé Dirceu e sua turma teriam liquidado o presidente do Senado em questão de dias e sem a ajuda da revista Veja. Hoje, Calheiros deve agradecer a Deus pela tibieza de uma oposição que não sabe a que veio nem o que quer. Lula já sabe disto – em 2006 nem mesmo os "aloprados" lhe tiraram a reeleição – e provavelmente espera tirar proveito das bobagens dos adversários em 2010, quando poderá fazer seu sucessor com mais folga do que se supõe hoje. E, para usar uma boa analogia futebolística, deste jeito não vai nem precisar combinar com os russos.

Paulo Henrique Amorim: derrota da imprensa

Vale a pena ler o texto abaixo, do jornalista Paulo Henrique Amorim. O autor destas Entrelinhas não concorda com tudo que diz Amorim, mas recomenda vivamente a leitura do texto.


RENAN: A MAIOR DERROTA DA IMPRENSA


Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil.

. A absolvição de Renan Calheiros é a maior derrota da imprensa brasileira depois da reeleição do Presidente Lula.

. A Veja, a Globo, o Estadão, a Folha e O Globo e seus inúmeros e inúteis colunistas jogaram todas as fichas na cassação.

. Como ensina o professor Wanderley Guilherme dos Santos, a imprensa brasileira se transformou num partido político (clique aqui).

. E jogou tudo contra um político da base de apoio ao Presidente Lula.

. Renan Calheiros cometeu todos os crimes que 99,9% dos políticos brasileiros cometem.

. Renan Calheiros provavelmente pagou a mulher com quem teve uma filha fora do casamento numa operação idêntica à de outro ex-senador de partido da oposição.

. Sobre a operação do ex-senador, a mídia conservadora (e golpista !) se cala até hoje.

. A mídia conservadora (e golpista !) foi atrás de Calheiros também porque ele é nordestino.

. E a elite branca (e no caso da elite de São Paulo, também separatista) não gosta de ninguém da base aliada do Presidente Lula e muito menos se for nordestino.

. Imagine se Renan Calheiros fosse do Piauí...

. Renan Calheiros não é um santo.

. Mas, o Senado mostrou que a mídia conservadora (e golpista !) pode enfiar a faca no pescoço do Supremo, mas não enfia a faca no pescoço do Senado.

. (E de que adiantou o Supremo deixar os deputados assistirem à sessão ? Nada.)

. Se a mídia conservadora (e golpista !) tivesse o poder de enfiar a faca no pescoço do Senado, quantas cabeças ficariam em cima do pescoço ?

. A mídia conservadora (e golpista !) agora vai dizer que Renan Calheiros não tem condições de presidir o Senado.

. É porque para a mídia conservadora (e golpista !) só valem os 35 votos a favor da condenação.

. O Procon tem a obrigação de interpelar a Veja, a Globo, O Globo, a Folha e o Estadão, que transformaram durante um mês e meio Renan Calheiros num cadáver e enganaram seus consumidores.