sexta-feira, 30 de junho de 2006

Ainda sobre as pesquisas eleitorais

O jornalista Fernando Rodrigues fez as contas e publicou em seu blog uma boa análise sobre os números divulgados nesta sexta-feira pelo instituto Datafolha. A melhor observação de Rodrigues está no final do artigo, quando ele soma as votações de todos os adversários do presidente Lula. Hoje, Lula tem 46% e os demais candidatos, 38%. Há um mês, a soma de todos os adversários era de 37% contra 45% de Lula. Nos dois casos, a mesma diferença: 8 pontos percentuais. Isto revela, segundo o raciocínio de Rodrigues, que Alckmin conseguiu atrair praticamente todo o eleitorado dos candidatos que desistiriam (Roberto Freire e Enéas Carneiro). É um grande feito, sem dúvida, mas não modifica em quase nada o problema central, isto é, não agrega votos o suficiente para garantir um segundo turno.

As próximas pesquisas, especialmente as do final de julho, serão mais importantes para os estrategistas das duas campanhas do que as que foram divulgadas nesta sexta. Primeiro, porque mostrarão se realmente existe a tendência de subida da candidatura de Alckmin; segundo, porque com o final da Copa do Mundo, o assunto da vez será realmente a eleição; e, terceiro, porque já refletirão algumas das bondades que o presidente Lula assinou nos últimos dias, como o aumento para o funcionalismo público.

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Alckmin ganha sobrevida com pesquisas

A candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) deve ganhar fôlego com a subida do candidato em duas pesquisas que serão divulgadas nesta sexta-feira, realizadas pelos institutos Vox Populi e Datafolha. Os números ainda não são oficiais, mas já circulam nas redações. A pesquisa Vox Populi é mais favorável ao tucano, pois mostra uma melhora na popularidade do ex-governador e, ao mesmo tempo, queda nas intenções de voto em Lula. Alckmin teria hoje 32% ante 23% do levantamento anterior. Lula teria caído de 49% para 45%. No Datafolha, Lula subiu de 45% para 46% e Alckmin, de 23% para 29%.

Somando as duas pesquisas e fazendo uma média, o resultado é praticamente o mesmo: Lula hoje teria cerca de 45% dos votos, o suficiente para garantir a vitória no primeiro turno, porque na conta de votos válidos (excluindo brancos e nulos), ele beira os 60%. E Alckmin está na faixa dos 30%.

É evidente que a melhora nas pesquisas vem em excelente momento para Geraldo Alckmin. Sua candidatura estava carente de boas notícias e a todo momento o candidato tinha que responder por que motivo seu desempenho continuava pífio nas enquetes. Mais ainda: Alckmin está hoje melhor posicionado do que José Serra estava em julho de 2002, quando patinava pouco acima dos 20%.

Um serrista atento vai lembrar que são situações distintas, porque Alckmin não tem em seus calcanhares nenhum Anthony Garotinho ou Ciro Gomes. De fato, esta preocupação – ficar de olho nos oponentes que estão trás –, Alckmin dificilmente terá, já que nem Heloísa Helena (PSOL) tampouco Cristóvam Buarque (PDT) conseguirão ameaçar o tucano, até pelo tempo escasso que os tois terão na propaganda de rádio e televisão. Desta forma, o ex-governador poderá focar a campanha no embate com Lula e o PT. Paradoxalmente, no entanto, Alckmin terá que torcer para que Helena e Buarque, mais os quatro nanicos que entraram na disputa, consigam amealhar o maior número possível de votos. É que se os pequenos fracassarem totalmente, as chances de ocorrer um segundo turno diminuem e isto é tudo que Alckmin não deseja, pois avalia que sua grande chance está em um enfrentamento com Lula no segundo turno, com a criação de uma grande frente anti-petista.

A eleição deste ano, portanto, é bem diferente da de 2002, quando o segundo turno era uma realidade muito mais presente e Serra, Ciro e Garotinho disputavam a vaga para concorrer com Lula. Agora, só há um para concorrer com Lula e é natural que Alckmin encarne o anti-Lula, especialmente porque não há no campo conservador mais ninguém concorrendo. Heloísa e Buarque estão à esquerda de Alckmin e os nanicos no fundo não representam outra coisa senão uma egotrip política sem maiores consequências.

Assim, tudo caminha para que a eleição se transforme em um plebiscito sobre o governo Lula, como aliás devem ser as eleições de candidatos à reeleição. O presidente ainda está confortável em seus 45% e joga suas fichas na economia: concedeu aumentos para o funcionalismo público, ampliou o bolsa família, alocou R$ 10 bilhões para a agricultura familiar e conta ainda com mais uma redução de juros para gerar mais crescimento econômico. Vai forçar a comparação com o mandato de Fernando Henrique e tentará colar a figura de Alckmin ao ex-presidente. Ninguém ganha eleição de véspera e até aqui estava tudo bom demais para Lula. E, afinal, a campanha de verdade só começa quando terminar o último jogo do Brasil na Copa. Até lá, todo mundo vota no Kaká, Ronaldo e Ronaldinho...

Fifa não quer o Brasil campeão?

O jornalista Juca Kfouri divulgou uma interessante “teoria da conspiração” para provar que o Brasil não será campeão do mundo neste ano. Segundo ele, a arbitragem vai começar a prejudicar a seleção brasileira a partir do jogo contra a França e dificultará bastante o trabalho dos jogadores comandados por Carlos Alberto Parreira nos gramados da Alemanha.

O raciocínio de Kfouri é coerente, talvez coerente demais para ser verdadeiro: segundo o jornalista, a história toda começa porque a Fifa não quer o hexa: “Não quer para não fortalecer Ricardo Teixeira que aspira o posto de Josep Blatter nas eleições de 2007”, escreveu Juca e seu blog na internet. “Blatter se sente traído pelo cartola brasileiro e por isso até já começou a falar que há outros candidatos para sediar a Copa de 2014 - Copa que era dada como favas contadas de que seria no Brasil”, continua a teoria conspiratória.

“A Fifa teme que o hexa se converta em octa, caso a Copa seja mesmo no Brasil, pois não passa pela cabeça de ninguém que se perca outra Copa em casa. O hepta viria na África do Sul, porque o Brasil ganhou suas 5 Copas anteriores em países que não tinham tradição no futebol - Suécia, que até tinha um pouco, em 1958; Chile, em 1962; México, em 1970; Estados Unidos, em 1994 e Japão/Coréia do Sul, em 2002. E o octacampeonato seria ruim para o negócio das Copas, que perigam ficar monótonas”, escreve o jornalista.

Segundo Kfouri, o maior perigo para o Brasil começa no jogo de amanhã, contra a França. A seleção ainda não foi “roubada”, explica ele, porque também não interessava à Fifa que um campeão do mundo saísse da competição antes das quartas-de-final. “Diferentemente do que tem sido tradicional, desta vez, daqui para frente, em dúvida, os árbitros apitarão contra o Brasil”, adverte o jornalista.

Se non è vero, è bene trovato

Dá para acreditar nesta teoria conspiratória? Parece delírio, mas Kfouri é um jornalista sério e não colocaria a sua credibilidade em jogo se não tivesse informações seguras para escrever o que escreveu. É possível, no entanto, que a seleção comece a jogar o futebol que sabe e vença não apenas seus adversários, mas também a arbitragem. O melhor mesmo é torcer duplamente a partir de amanhã – contra a França e contra o juiz.

Cesar Maia chuta. Bem longe do gol?

O prefeito Cesar Maia, observador da imprensa bissexto, tentou na edição desta quinta-feira de seu "ex-blog" criar mais um factóide contra seus adversários políticos. Insinuou que o jornal gratuito que será lançado em São Paulo estará a serviço do presidente Lula. Pode ser que Maia tenha informações que este blog não dispõe, mas a versão do prefeito é estranha. O Destak, como se chamará o novo jornal, será dirigido por Fábio Santos, que trabalhava com Reinaldo Azevedo na revista e site Primeira Leitura, recém-fechados. Se o diretor do novo jornal mantiver a linha do veículo em que trabalhava antes, quem terá que se preocupar com a concorrência é a revista Veja, guardiã do anti-lulismo no País.

Abaixo, a nota que saiu no ex-blog do prefeito do Rio de Janeiro.

JORNAL TIPO METRÔ! OU MANIPULAÇÃO DE LULA?

Bem, essa era uma tendência natural. Os donos do Correio da Manhã de Lisboa são os sócios estrangeiros. O que assusta é o nome Trevisan. Será que Lula-PT não está gostando da independência da imprensa de SP e lança jornal grátis para concorrer com ela? Serão 200 mil exemplares. E começa a circular logo depois da proibição de propaganda do governo federal!

São Paulo terá tablóide gratuito

Publicação com tiragem de 200 mil exemplares começará a circular no dia 6 de julho

O empresário polonês naturalizado brasileiro André Jordan - que tem vários negócios no ramo imobiliário em Portugal - associou-se ao grupo lusitano Cofina e a mais três investidores financeiros daquele país para lançar um jornal gratuito de formato tablóide, na cidade de São Paulo, chamado Destak.

Jordan tem 70% do empreendimento, ao passo que os sócios estrangeiros dividem os 30% restantes, como limita a legislação vigente. A tiragem da publicação será de 200 mil exemplares - auditada pela BDO Trevisan - e circulará de segunda a sexta-feiras, a partir de 6 de julho, principalmente nas zonas Sul, Oeste e Central da capital paulista, em estações do Metrô, nas imediações de shopping centers e nos cruzamentos de ruas de grande afluxo de público.

Segundo Cláudio Zorzett, diretor do Destak, o investimento no título durante seu primeiro ano de existência será de 3,5 milhões de euros (R$ 10 milhões). A redação, que será comandada pelo jornalista Fábio Santos, terá 20 profissionais fixos e se abastecerá também de serviços de agências noticiosas e de repórteres autônomos.

O Cofina é um dos principais conglomerados lusitanos de mídia impressa, com faturamento anual de 400 milhões de euros (R$ 1,125 bilhão). Suas principais publicações são o Correio da Manhã, o diário esportivo Record e o Jornal de Negócios.

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Foto de Helena irrita integrantes do PSOL e PSTU

A fotografia publicada hoje na Folha de S. Paulo da senadora Heloísa Helena, candidata do PSOL à Presidência da República, comemorando um dos gols da seleção brasileira ao lado dos colegas Eduardo Suplicy (PT), Tasso Jereissati (PSDB) e Patrícia Saboya (PPS) causou indignação em integrantes do PSTU, que apóia a candidatura da senadora, e do próprio PSOL. O que mais irritou a militância foi o fato de a senadora ter aceitado assistir o jogo na casa de Saboya, ao lado de Tasso e Suplicy, simbolizando que também ela faz parte da "confraria" que, no poder ou na oposição, convive harmoniosamente nos salões e palácios da República. "Jogo do Brasil a gente assiste na companhia de amigos", diz, inconformado, um ex-petista que ajudou a construir o PSOL e está cada vez mais desiludido com os rumos da candidatura.

Os esquerdistas da frente que apóia Helena, porém, não viram tudo. A foto ao lado, em que a senadora ajuda seu colega Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), não foi devidamente divulgada. É da Agência Estado e com certeza causará ainda mais engulhos na militância do PSOL e PSTU...

terça-feira, 27 de junho de 2006

Alckmin quer comparar melancia com banana

O ex-governador Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à presidência da República, adora dizer que "eleição é comparação" e que quando os eleitores puderem "comparar", vendo os programas dos partidos na televisão, rejeitarão Lula e o elegerão presidente do Brasil.

Nesta terça-feira de vitória da seleção na Copa, os repórteres de todos os veículos importantes da imprensa brasileira foram perguntar a Alckmin o que ele havia achado do discurso de Lula em que o presidente comparou a gestão petista no governo federal com a gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso. Alckmin qualificou a estratégia de Lula como "atrasada" e recusou-se a falar sobre os números do governo FHC. Depois, disse que iria comparar a sua própria gestão no governo de São Paulo com "o que não foi feito" no plano federal.

Com tudo isso, Geraldo Alckmin atentou contra a lógica formal e cometeu dois equivocos: em primeiro lugar, assim como não é possível comparar banana com melancia, não dá para colocar a gestão de um governo de Estado ao lado de uma gestão de governo federal e tentar dizer qual foi melhor.

É possível, sim, usar um mínimo de racionalidade e comparar os números da gestão Lula com os dos dois mandatos de Fernando Henrique – aí estamos comparando melancia com melancia. Da mesma forma que algumas estatísticas não favorecem o governo petista, é errado os tucanos dizerem que tudo de bom que aconteceu nos últimos quatro anos decorre exclusivamente do que foi feito nos oito anos anteriores.

O segundo equivoco cometido por Alckmin foi tentar fugir da pergunta. Todo mundo no meio político sabe que o ex-governador quer "descolar" a sua imagem do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ocorre que FHC decidiu nos últimos dias ocupar espaço político para responder, ele mesmo, ao presidente Lula. Assim, Alckmin tem duas alternativas: alinhar-se com seu correligionário ou deixar claro ao público que o governo Cardoso é passado e que o PSDB tem novas propostas para o Brasil.

Como Alckmin não faz nem uma coisa nem outra, passa a impressão de que não só não quer discutir o que os tucanos fizeram durante 8 anos no comando da República como também não está aí para contar o que o PSDDB pretende fazer se retomar o poder. Em "alquimês", essa estratégia pode ser traduzida em algo como "vamos amassar o barro; comigo é trabalho, trabalho, trabalho"...

Coincidência ou prudência?

No domingo passado, o jornal Folha de São Paulo deu a seguinte manchete: "Lula distribui concessões de TV a políticos". Um título forte, que foi inclusive comentado neste blog. Pois não é que uma semana depois, no Diário Oficial de segunda-feira, 26 de junho, nas páginas de despachos da Presidência da República, aparece uma mensagem (de número 474, na página 6 do DOU, para quem quiser conferir) solicitando ao Congresso Nacional a retirada de tramitação dos processos de radiodifusão "abaixo relacionados". A relação "abaixo relacionada" tem 3 páginas e meia. No total, são exatamente 225 processos de concessão e/ou renovação que o presidente mandou retirar.

Coincidências ocorrem, mas neste caso é melhor lembrar o ditado: prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém...

Empresária deve disputar a presidência

O PRP deve confirmar nesta quinta-feira mais um nome na eleição para a presidência da República. A empresária paulista Ana Maria Rangel será a segunda mulher na disputa – a senadora Heloísa Helena (PSOL) é a outra – e o partido negocia uma coligação com PSL, PTdoB, PTN e PHS. Se concretizada a aliança, Rangel pode ficar com praticamente o mesmo tempo de Helena na propaganda no rádio e televisão. A assessoria do PRP informou que Ana Maria Rangel é dona de uma empresa de ônibus em Houston, Estados Unidos, onde está radicada. Ela teria aceitado voltar para o Brasil para concorrer à presidência do País.

Parreira se aborreceu, mas a Globo fez o que devia

A TV Globo exagerou ao pedir desculpas ao técnico Carlos Alberto Parreira após ter revelado, por meio de leitura labial, no programa Fantástico, algumas frases ditas por ele a outros integrantes da comissão técnica da seleção brasileira durante o jogo contra o Japão, na semana passada.

Ao contrário de Luiz Felipe Scolari, técnico de Portugal, Parreira faz o tipo "gentleman" – dá entrevistas em inglês, trata a todos com cortesia e dificilmente perde a paciência com as cobranças dos jornalistas – e tem razão de estar aborrecido com a divulgação das frases em que aparece dizendo palavrões. A Globo, porém, não precisava se aborrecer, muito menos pedir desculpas. Tudo que um homem público diz é notícia.

A história de Parreira lembra outra, que aconteceu com o então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2002, durante a campanha, Lula resolveu fuma brincadeira com seu correligionário Fernando Marroni, à época prefeito de Pelotas, e disse: "Pelotas é um pólo exportador". Marroni assentiu e o candidato completou: "Exportador de veados". A conversa estava sendo gravada, a gravação foi parar nas mãos de adversários políticos e divulgada para todo o Brasil (apesar da fita, ou por causa dela, Lula venceu o pleito em Pelotas).

Conforme escreveu em seu blog o jornalista Juca Kfouri, Parreira teria razão em reclamar se a Globo tivesse gravado a preleção aos seus jogadores, no vestiário, sem o seu consentimento, como ocorreu certa vez justamente com Luiz Felipe Scolari. De fato, o que o técnico diz em campo é público, qualquer um pode ouvir, se estiver bem posicionado, e reportar. Juca Kfouri tem razão e o que vale para Parreira vale para o presidente Lula – quem errou em Pelotas foi ele, e não o "companheiro" que passou a gravação para seus adversários.

Se Parreira quer privacidade em campo, pode vestir uma daquelas máscaras cirúrgicas para ninguém ler os seus lábios. Talvez os jogadores também não entendam muito bem as ordens do técnico, o que em certos casos pode até ser uma vantagem para o escrete nacional.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Se todo o resto falhar...


Charge do Agê, que estará no jornal
DCI na edição desta terça-feira.

Datafolha vai a campo na quarta e quinta-feira

O instituto Datafolha vai pesquisar a intenção de votos para eleição presidencial nesta quarta e quinta-feira. Serão quase três mil entrevistas para verificar a evolução da popularidade dos candidatos. É provável que o resultado da enquete seja divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo na sexta-feira ou no domingo. Será a primeira pesquisa nacional realizada após as inserções dos programas de propaganda do PFL e PSDB no rádio e televisão. O Ibope já realizou um levantamento depois dos ataques da oposição ao presidente Lula, mas as entrevistas ficaram restritas ao Rio Grande do Sul. Os resultados do Ibope estão comentados em nota lobo abaixo e não foram nada bons para o tucano Geraldo Alckmin.

A expectativa em torno da pesquisa Datafolha no PSDB é enorme: se Geraldo, como o candidato passou a ser chamado, não se mexer, a "cristianização" será inevitável e as lideranças regionais passarão a cuidar de suas eleições, deixando o presidenciável a ver navios.

Historiador Eric Hobsbawm fala sobre a Copa

O assunto do momento é a Copa do Mundo. No Brasil, quase ninguém fala em outra coisa senão no confronto com o time de Gana e na contusão do jogador Robinho. Sem fugir de seu foco de site voltado para os movimentos sociais, política e economia, a Agência Carta Maior publicou uma interessante entrevista com um dos mais importantes historiadores da atualidade, Eric Hobsbawm, justamente sobre a Copa do Mundo. Confira abaixo o que ele diz sobre a relação entre política e futebol. E clique aqui para ler a íntegra da entrevista.

"O senhor acredita que a Copa do Mundo tem algum caráter político, bom ou ruim?

Hobsbawm – A Copa, em si, provavelmente não tem nenhum fundo político em particular, mas, assim como as Olimpíadas, é quase certo que esteja vulnerável às pressões e às promessas diplomáticas ou de outra natureza dos países mais poderosos. Infelizmente, vencer a Copa deve certamente beneficiar o regime do país, como aconteceu na Argentina durante a ditadura militar, independente, inclusive, das posições políticas de seus jogadores. A gente só pode esperar que os campeões da Copa do Mundo tenham regimes aceitáveis. Também existe a possibilidade de que, em países pequenos e periféricos, jogadores de destaque tornem-se também importantes figuras públicas; como no caso da Libéria, onde um jogador foi candidato a presidente da República."

Resultado da pesquisa Ibope no Rio Grande do Sul é mais uma dor de cabeça para Geraldo Alckmin

A pesquisa realizada pelo Ibope entre os dias 19 e 22 deste mês, apenas no Rio Grande do Sul, traz mais uma má notícia para Geraldo Alckmin (PSDB): mesmo após as inserções dos programas do PSDB e PFL, o presidente Lula segue na frente, com 39% das intençõs de voto contra 26% de Alckmin. Os tucanos estão trabalhando com afinco para que a votação nas regiões sul e sudeste compense a enorme diferença a favor de Lula que existe no norte e nordeste, e os números de Alckmin no Rio Grande são desanimadores. É certo que no Sul Lula está bem abaixo da sua média nacional, de 48%, mas o problema é que Alckmin não consegue superar muito a casa dos 25%. Do ponto de vista tucano, para compensar o estrago que o bolsa família faz entre os eleitores do norte e nordeste, Alckmin teria que abrir uma boa diferença a seu favor no Sul – o ideal seria que o placar divulgado pelo Ibope estivesse invertido.

Não é possível comparar o número da pesquisa Ibope com as anteriores, já que o instituto realizou a sua primeira enquete exclusiva com os gaúchos. Porém, na última pesquisa do instituto, realizada entre os dias 5 e 7 de junho, Lula aparecia com 36% da região Sul e Alckmin, com 15%. O problema é que no Rio Grande do Sul, em particular, o PSDB está jogando muito mal: lançou a Yeda Crusius para o governo do Estado, deixando desconfortável o governador Germano Rigotto (PMDB), candidato à reeleição e ideologicamente próximo aos tucanos. Rigotto esteve com o presidente Lula na semana passada e teria selado um pacto de não-agressão com o petista Olívio Dutra. Lula pode até ter dois palanques no Estado, se o PT gaúcho aceitar um apelo do presidenciável.

Leia abaixo matéria da Agência Estado com os dados da pesquisa realizada pelo Ibope.


Ibope mostra Lula à frente de Alckmin no RS

Lula tem 39% das intenções de voto na modalidade estimulada e 25% na espontânea. Alckmin aparece com 26% dos votos na estimulada e 11% na espontânea

Elder Ogliari


PORTO ALEGRE - Pesquisa do Ibope mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva liderando a disputa pelo preferência dos eleitores gaúchos, com 39% das intenções de voto na modalidade estimulada e 25% na espontânea. O candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, aparece em segundo lugar, com 26% dos votos na estimulada e 11% na espontânea. Mas alcança um empate técnico na projeção para o segundo turno, para a qual tem 39% das intenções de voto contra 42% de Lula. A margem de erro é de três pontos porcentuais para mais ou para menos.

Lula lidera também na rejeição. Dos 1.008 eleitores ouvidos pelo instituto em 61 municípios do Rio Grande do Sul entre os dias 19 e 22 de julho, 37% declararam que não votariam no atual presidente em hipótese alguma. O segundo maior índice de rejeição, de 31%, é para Enéas Carneiro (Prona), que desistiu de concorrer depois das entrevistas feitas pelo Ibope. A rejeição a Alckmin é de 12%.

Na estimulada, Heloísa Helena (PSOL) tem 8%, Enéas tem 6% e Cristovam Buarque (PDT) e José Maria Eymael (PSDC) têm 1%. Na espontânea, Heloísa Helena tem 2%. Enéas e José Serra (PSDB) têm 1%. A rejeição é de 12% para Heloísa Helena, de 11% para Cristovam e de 10% para Eymael.

A pesquisa, divulgada pelo jornal Zero Hora e RBS TV, foi encomendada pela Televisão Gaúcha S.A. e registrada no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) sob o número 044386/2006.

Senado

A mesma sondagem identificou as intenções de voto para a vaga ao Senado destinada ao Rio Grande do Sul neste ano. Pedro Simon (PMDB), que busca a reeleição, tem 42% na estimulada e 8% na espontânea. Miguel Rossetto (PT) aparece em segundo lugar, com 7% na estimulada e 1% na espontânea.

MR-8 não poupa José Serra

Está impagável a capa do jornal Hora do Povo desta semana.
Para ler as matérias, é preciso acessar o site da publicação, que é vinculada ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro, mas conhecido por MR-8.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Ombudsman critica a cobertura realizada pela Folha de S. Paulo sobre a campanha eleitoral

O ombudsman da Folha de S. Paulo, jornalista Marcelo Beraba, continua desgostoso com a cobertura que o jornal está realizando sobre as eleições deste ano. Na sua crítica interna de quinta-feira, disponível na internet (clique aqui para ler a íntegra do comentário do ombudsman), Beraba diz que "falta análise, interpretação e bastidores" aos textos que o jornal vem publicando. E reprova a divulgação dos ataques entre candidatos e correligionários. Abaixo, a nota da Crítica Interna em que Marcelo Beraba comenta a cobertura eleitoral da Folha. Foi a segunda vez em duas semanas que o ombudsman puxou a orelha da redação por este motivo.

Eleições 2006

A cobertura eleitoral da Folha continua centrada nos ataques entre candidatos e correligionários. Não é que não considere importante reproduzir os discursos da convenção do PFL. Mas acho que a confirmação oficial do acordo não deveria se restringir aos ataques. Falta análise, interpretação, bastidores, um texto que informe o que significa o acordo, que consolide as informações pingadas que o jornal vem publicando sobre a campanha cheia de problemas de tucanos e pefelistas, que fale sobre a estratégia da aliança, que situe melhor o leitor além das aspas.

O "Estado" traz reportagem sobre o encontro que reuniu em Brasília, durante três dias, 1.500 coordenadores dos Centros de Referência de Assistência Social que trabalham nos 1.600 municípios atendidos pelo programa Bolsa-Família. Não era um encontro importante para a Folha ter acompanhado? Não era um bom momento para o jornal tentar entender melhor o que está ocorrendo na eleição presidencial fora de Brasília e dos partidos?

Um pouco de sociologia de botequim

O Brasil sempre vive um período de comoção geral durante as Copas do Mundo, mas a sensação que se tem neste ano é que não há outro assunto que não as partidas do escrete canarinho. Como diria o presidente Lula, “nunca antes neste país” se discutiu tanto futebol quanto agora.

É evidente que a mídia tem um papel importante para criar este clima e a cobertura da Copa na TV, rádio, internet e jornais é a mais intensa que já se viu. Ironicamente, só a Rede Globo detém os direitos de transmissão do evento, mas isto não tem impedido que as outras emissoras aproveitem o assunto em mesas-redondas, debates e nos programas noticiosos. Para não falar da hiper-exposição da Copa nos intervalos comerciais, onde praticamente só se assiste a peças de propaganda com algum “gancho” futebolístico.

A cobertura intensa da mídia (e dos patrocinadores), no entanto, não explica totalmente o clima de comoção criado neste ano. Pode parecer sociologia de botequim, e deve ser mesmo, mas a verdade é que esta seleção – os 22 jogadores, mais treinador e comissão técnica – conseguiu uma empatia enorme com os brasileiros, talvez ainda maior do que a dos escretes de 1970 e 1982, que marcaram época. Em tese, isto não deveria acontecer, uma vez que os 11 titulares jogam fora do Brasil, distantes, portanto, do dia a dia dos torneios que os brasileiros acompanham de perto (é bom lembrar que só os assinantes de TV paga conseguem assistir aos jogos dos campeonatos italiano e espanhol, onde desfilam a maior parte dos craques da seleção), mas o efeito disto parece ter sido inverso: aumentou a empatia do povão com os jogadores.

O técnico Carlos Alberto Parreira também foge totalmente do figurino clássico latino-americano: é um teórico do futebol, tem diploma universitário, fala línguas estrangeiras e jamais foi jogador profissional. O oposto, por exemplo, do carismático Luiz Felipe Scolari, que trouxe o caneco para o Brasil em 2002 e agora luta para levar o selecionado português adiante na competição. Parreira, aliás, já foi uma unanimidade às avessas quando conquistou, em 1994, a Copa do Mundo comandando uma equipe que jogava feio e que acabou vencendo o torneio na disputa de pênalties. De lá para cá, Parreira passou até pelo Corinthians e, pasmem, foi bem recebido pelos fanáticos da Gaviões da Fiel. Hoje, se não é propriamente uma unanimidade nacional, já não conta com a má vontade dos torcedores do passado.

Por que, então, tamanha empatia com um selecionado formado por gringos e treinado por um burocrata da bola? Uma hipótese a se considerar é que a explicação esteja no momento pelo qual passa o País, em que os valores reconhecidos como positivos pela maioria do povo estão ligados ao sucesso pessoal, às conquistas individuais. Assim, os 11 “gringos” que jogam no selecionado nacional são a cara de um Brasil que “dá certo”, tão certo que faz sucesso lá fora. Alguns com talento, outros com perseverança. Todos, porém, provaram que é possível ir além mesmo com todas as dificuldades de formação que o Brasil proporciona. Isto vale para um fora-de-série como Ronaldinho Gaúcho ou um esforçado como o lateral Gilberto, autor de um dos gols contra o Japão. Vale também fora dos gramados, para o presidente Lula, cuja trajetória de vida é hoje ainda mais admirada pelo povão do que no tempo em que ele era o eterno candidato à presidência. Uma vez presidente, Lula se transformou em mais um símbolo do brasileiro que não desiste nunca, que vai até o fim, aos trancos e barrancos, mas que chega lá.

Se o Brasil ganhar a Copa e Lula for reeleito, é provável que este momento do País se estenda por mais tempo. Aliás, é interessante notar que o tucano Geraldo Alckmin tenta passar para o público a idéia de que é também ele um “self-made-man”, de origem pobre e do interior. Até agora, a lorota não colou (de humilde, Alckmin não tem nada: sua família já forneceu vários quadros para o alto escalão do judiciário brasileiro), mas o tucano vai insistir, a julgar por suas últimas inserções publicitárias na televisão. De toda maneira, é bastante provável que as utopias coletivas continuem nos próximos anos em segundo plano e que a crença no sucesso individual siga norteando a vida nacional.

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Gente que sofre



Charge do Agê, que estará
na edição desta sexta no DCI

Quércia vai disputar o governo do Estado

Batido o martelo: o ex-governador Orestes Quércia será o candidato do PMDB ao governo de São Paulo. Os nomes dos candidatos a vice e senador estão em aberto e serão conhecidos na convenção estadual do partido, no sábado, ou mesmo depois dela, se os convencionais decidirem esticar o prazo para as negociações com outros partidos.

Durante a divulgação da candidatura, no início da tarde desta quinta-feira, o candidato petista Aloizio Mercadante e o prefeito da capital, Gilberto Kassab, telefonaram para o ex-governador. Kassab deixou um recado: tinha "ótimas notícias" para Quércia.

Se os tucanos insistirem na chapa "puro-sangue", não é impossível que o PFL acabe apoiando a candidatura de Quércia, o que daria a ele o maior tempo de propaganda na televisão entre todos os candidatos.

A regra é clara, Marco Aurélio?

Nenhum dos grandes jornais brasileiros conseguiu explicar direito o que está valendo em relação aos reajustes salariais para o funcionalismo público após a decisão tomada na noite de terça-feira pelo Tribunal Superior Eleitoral. Mais uma vez, o ministro Marcou Aurélio Mello está no centro da confusão: algumas semanas atrás, também numa noite de terça-feira, ele conseguiu a proeza de bagunçar toda a sucessão presidencial ao interpretar de forma dura a regra da verticalização das alianças eleitorais. Dois dias depois da primeira decisão, voltou atrás, em um vexame que vai ficar para os anais do Poder Judiciário brasileiro.

Ontem, Marco Aurélio voltou a jogar pó de mico no salão. Sua interpretação da proibição de reajustes salariais 180 dias antes da eleição foi mais ampla do que a legislação vigente, como é possível entender na reportagem da Folha de S. Paulo: "Ao anunciar a decisão, anteontem, ele (Marco Aurélio) disse que estavam proibidos todos os aumentos salariais que excedessem a reposição da inflação, ainda que concedido a apenas algumas categorias. A legislação, porém, só veda a "revisão geral" acima da inflação. Marco Aurélio chegou a dizer que o governante que tivesse autorizado aumento real de salário após 4 de abril estaria sujeito à cassação da candidatura ou do mandato, se eleito."

Os jornais ouviram muita gente, mas não conseguiram revelar se a interpretação está realmente valendo nem quais são os próximos capítulos desta novela. Algumas perguntas que não foram respondidas:

Os reajustes concedidos após 4 de abril estão valendo ou terão que ser revistos? Neste caso, os funcionários que já receberam o aumento terão que devolver a diferença?

Se a interpretação de Mello está valendo, o PSDB e o PFL entrarão com pedido para tornar o presidente Lula inelegível?

O Supremo Tribunal Federal poderá ser consultado a respeito desta interpretação? Há alguma possibilidade do próprio TSE rever o tema, como ocorreu na regra da verticalização?

A melhor matéria sobre o barraco armado por Marco Aurélio está reproduzida abaixo e saiu no jornal O Globo, que teve coragem, na primeira página, de chamar a coisa toda pelo nome que merece: "TSE agora cria confusão com reajuste salarial".


Um novo impasse pré-eleitoral
Demétrio Weber e Isabel Braga

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Marco Aurélio de Mello, abriu ontem nova polêmica no meio jurídico e no Executivo ao dar uma interpretação da lei eleitoral que levanta suspeitas de ilegalidade nos reajustes salariais concedidos pelo governo a servidores. Marco Aurélio disse que a lei proíbe reajustes acima da inflação a menos de 180 dias da eleição, mesmo que o aumento seja específico para uma categoria ou decorra da reestruturação de carreiras. As declarações fizeram o governo suspender a edição de uma medida provisória, que seria assinada ontem, dando aumento para servidores.

Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrar tranqüilidade quanto à interpretação, o Planalto suspendeu temporariamente a edição de outras cinco medidas provisórias que pretendem concluir o plano de carreira de mais de 1,3 milhão de funcionários. A que seria assinada ontem beneficia 256 mil servidores de INSS, Inmetro, Fiocruz e IBGE. As outras atendem militares, Polícia Federal e Receita, entre outras carreiras.

A nova confusão suscitada pelo presidente do TSE teve origem em decisão tomada anteontem à noite pelo tribunal. Ao responder a consulta do deputado Átila Lins (PMDB-MA), o plenário do TSE entendeu que nenhum governo pode dar aos servidores aumento de salários acima da inflação nos 180 dias antes da eleição e até a posse dos eleitos. A dúvida era se o prazo seria de 180 ou 90 dias.

Segundo colegas de Marco Aurélio ouvidos pelo GLOBO, a consulta tratava especificamente do prazo de revisões gerais, deixando de fora aumentos para categorias específicas ou decorrentes de reestruturações de carreira. Para Marco Aurélio, porém, a regra vale para todo reajuste:

— Mais importante que o aspecto formal é o conteúdo. O que a lei veda é a possibilidade de se cooptarem eleitores mediante bondades. E essas bondades só são lembradas em época de eleições — afirmou o ministro, antes da posse da nova ministra do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia Antunes Rocha.

Ministros discordam da interpretação

Para um ministro do TSE que pediu para não ser identificado, a decisão tratava exclusivamente do prazo para reajustes gerais e reafirmava que aumentos para categorias específicas ou mediante alteração no plano de cargos são proibidos apenas 90 dias antes da eleição (30 de junho).

O ministro José Gerardo Grossi, do TSE, teve o mesmo entendimento. Informado sobre o teor das declarações de Marco Aurélio, Grossi afirmou:

— Não é o que está escrito na lei.

É com base nessa resolução que o governo e o PT sustentam a legalidade da medida provisória de 31 de maio. O advogado do PT no TSE, Márcio Silva, alegou que a resolução 21.054, de abril de 2002, que diferencia os dois tipos de aumento, garante a ação do governo.

O ex-ministro do TSE José Eduardo Alckmin destaca que, na decisão de anteontem, o tribunal tratou apenas de datas.

— Não houve manifestação dos ministros sobre o significado do que seja a revisão geral das remuneração. Já há decisão antiga do TSE de que é possível conceder aumentos para uma categoria específica, de passivos que não foram pagos, por exemplo (no período eleitoral) — disse Alckmin.

Os advogados do PFL estão analisando se a concessão dos aumentos setoriais pode ser, na verdade, uma maneira que o governo encontrou de burlar a legislação eleitoral.

Fazer para uma carreira específica é uma coisa, mas o governo está dando aumento a várias categorias — disse o advogado do PFL, Admar Gonzaga.

No PSDB, os advogados também apontam a possibilidade de entrar com representação jurídica contra o aumento, mas alguns temem um efeito político negativo na campanha.


quarta-feira, 21 de junho de 2006

Dia D para José Serra e Orestes Quércia

O ex-governador paulista Orestes Quércia (PMDB) disputará pela segunda vez a eleição para o governo do Estado de São Paulo. Isto só não deve acontecer se o candidato do PSDB ao Palácio dos Bandeirantes, ex-prefeito José Serra, convencer o seu partido a aceitar o nome de Quércia para a vice da chapa. Quércia jamais cogitou aceitar a oferta tucana da vaga para o Senado – um presente de grego, na verdade, uma vez que Eduardo Suplicy (PT) dificilmente deixará de se reeleger – e depois de relutar bastante, aceitou a indicação de seu partido para representar o PMDB em uma eventual aliança com o PSDB.

No final da tarde de terça-feira, Serra foi ao escritório de Quércia e conversou por mais de uma hora com o ex-governador. Ficou de telefonar no dia seguinte, para prosseguir a negociação. Serra ligou, mas a conversa não foi conclusiva, e o ex-prefeito pediu um novo encontro, para falar pessoalmente. Quércia avaliou que o PSDB não está realmente disposto a fechar aliança alguma e, em entrevista a uma rádio de São Paulo, afirmou na quarta-feira que a tendência é cada vez mais pela candidatura própria e admitiu que seu nome é o mais viável no PMDB.

Nesta quinta-feira de jogo do Brasil com o Japão, portanto, Serra tem a última chance de evitar a candidatura de Quércia. O tucano gostaria muito de não precisar enfrentar um segundo turno na eleição deste ano, especialmente porque imagina a dificuldade de enfrentar o candidato apoiado por um presidente Lula já reeleito – cenário hoje bastante provável. Com Quércia no jogo, a chance de a eleição paulista se definir no primeiro turno é muito menor do que sem ele na parada, conforme apontam as pesquisas. Serra não quer dar sopa para o azar, mas seu partido tem enorme resistência ao nome de Quércia. Hoje é o dia D para esta negociação.

Este blog aposta em uma nova candidatura de Quércia ao governo paulista. Nunca é demais lembrar queem 1986 ele saiu como azarão e bateu nas urnas o favorito Antonio Ermírio de Moraes em uma eleição que tinha ainda os competitivos Paulo Maluf e Eduardo Suplicy.

Muy amigos...

De um deputado do PFL, ao deixar a convenção do partido no momento em que o ex-governador Geraldo Alckmin começava a sua saudação aos aliados: “O discurso é igual toda a vez. Ele é uma vitrolinha.” O prefeito Cesar Maia vai morrer de inveja. Ou colocar a frase em seu "ex-blog".

A hora dos samurais


Charge do Agê que estará na edição
desta quinta-feira do jornal DCI

Gaspari destrói principal bandeira dos tucanos

O jornalista Elio Gaspari está longe de ser petista. Em artigo publicado nesta quarta-feira na Folha de S. Paulo, O Globo e demais jornais que reproduzem seus textos, Gaspari destruiu o principal argumento dos tucanos para tentar eleger Geraldo Alckmin presidente da República. Dizem os economistas do PSDB – e o candidato do partido não se cansa de repetir – que o governo Lula gasta muito e mal. Dizem também que a gestão petista estaria inchando a máquina pública. Assim, tudo que o Brasil precisaria é de um bom gerente – Geraldo, naturalmente – para dar um "choque de gestão" no governo federal, cortando os tais gastos mal planejados. Pois Gaspari prova, com números e baseado em um estudo de três economistas renomados, que os tucanos estão tentando vender um peixe que não existe. Vale a pena ler o artigo todo, reproduzido abaixo.

O inchaço da máquina do Estado é lorota

Por Elio Gaspari

Lula inchou a máquina do Estado e torrou o dinheiro dos impostos no funcionalismo. Um bom "choque de gestão" permitiria que esse dinheiro custeasse as obras de infra-estrutura necessárias para tirar a economia brasileira do atoleiro. Quem quiser acredite, mas essa crença é uma lorota.
Três economistas (Samuel Pessoa, Mansueto Almeida e Fábio Giambiagi) produziram um estudo que informa: "A percepção de que houve inchamento dos gastos com funcionalismo ao longo dos últimos dez anos, em particular, está errada. (...) Julgar que seja possível implementar um ajuste fiscal duradouro, que permita o crescimento do investimento público e a redução da carga tributária com base apenas em um maior controle dos gastos mais diretamente ligados ao funcionamento da máquina pública é, a nosso ver, um equívoco".
Aos números:
Entre 2003 e 2005 os gastos com servidores ativos ficou onde estava (2,3% do PIB). O rombo poderia vir das aposentadorias. Ao contrário: corresponderam a 2,5% do PIB em 2002 e fecharam em 2,2% em 2005.
Se os vilões não foram os servidores, por certo teria sido a gastança com a máquina do Estado. Falso. Essas despesas baixaram de 2,3% do PIB em 2002 para 2% em 2005.
Tudo bem, mas entre 2001 e 2005 os gastos não-financeiros do governo federal pularam de 16,1 % do PIB para 17,7% e a carga tributária está em 37% da produção. Se a máquina do Estado não bebeu o ervanário, quem o bebeu?
Resposta: ele foi comido pelos programas sociais, custeando uma política iniciada no segundo governo FFHH. As transferências de renda dobraram, de 0,7% para 1,4% do PIB. As despesas com programas sociais passaram de 2% do PIB em 2002 para 2,7% no ano passado. Um aumento de 20% ao ano, numa economia que cresce à taxa média de 2,5%.
A boa notícia é que esse investimento encheu a geladeira do andar de baixo, diminuiu as desigualdades sociais e ampliou o mercado consumidor. A má notícia: nesse mesmo período o investimento caiu de 0,9% do PIB para 0,6%. Como é o investimento que gera produção, chega-se ao dilema do bolo que não deve ser comido enquanto cresce.
Nos anos 70, quando essa metáfora entrou em circulação, o andar de cima comeu o melhor bocado. Agora, segundo os três economistas, trata-se de dizer ao andar de baixo que ele precisa parar de comer ou contentar-se com o que tem no prato, sem querer mais.
O trio sugere que se pise no freio, para que "o crescimento dos gastos sociais e da previdência (gastos do INSS) aumente a um ritmo menor do que o crescimento do PIB nominal. (....) É importante que a sociedade se conscientize de que esse padrão de gasto público está intrinsecamente associado a um crescimento modesto. Na perspectiva de que a população discuta os rumos do país nos próximos anos, no contexto do debate eleitoral de outubro, é importante que esses dilemas sejam expostos claramente aos eleitores".
É o segundo lance da dúvida de Garrincha. Querem que o técnico Vicente Feola convença Gavril Kachalin do brilho de sua armação. Em 1958, Kachalin era o técnico da seleção russa. Tinha um futebol científico e perdeu por 2x0, gols de Vavá.

***

Sob o título "Gastos sociais deveriam crescer a ritmo menor do que o PIB" , o trabalho está anunciado no sítio do Ipea, o Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada.

terça-feira, 20 de junho de 2006

As voltas que o mundo dá


Charge do Agê que estará na edição desta
quarta-feira, 22/06, do jornal DCI

A pergunta que não quer calar

Alguém precisa questionar ao candidato do PSDB à presidência, ex-governador Geraldo Alckmin, se ele é assinante do "ex-blog" do prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia (PFL).

O nome – ex-blog – é esquisito, mas trata-se de um comentário diário, enviado por e-mail a todos que se inscreveram no antigo blog que o prefeito manteve. Desde o dia em que Alckmin bateu o ex-prefeito José Serra e se tornou o candidato tucano à Presidência, Maia não faz outra coisa senão enviar recados e disparar críticas à cúpula da campanha do ex-governador paulista. Abaixo, o recadinho que o prefeito enviou hoje aos seus amigos tucanos. Em tempo: Maia defendia o nome de José Serra para a disputa presidencial deste ano.
SALTO ALTO, REUNIÃO OPERACIONAL, ( argh!!!!), e MOTIVAÇÃO !

Parece que o PSDB não leu direito o resultado da eleição de 2004. Retirando SP, ou seja nos 78% restantes do eleitorado, ganhou o PMDB, com alguma folga, em segundo, empatados, PFL e PT, e em quarto lugar, lá atrás, o PSDB. O PFL sempre elege uma bancada federal maior que a do PSDB,pois tem muito mais capilaridade. Mas o PSDB acha que sabe tudo. E não sabe. Elegeu o presidente em 1994 a custa da desistência de Antônio Brito -escolhido pelo presidente Itamar- e do plano real. Em 1998 o populismo cambial -pós-crise asiática- custou à eleição, 60 bilhões de dólares.

E o mais grave: sem interação não há motivação. Sem motivação não há participação. Sem participação não há mobilização e multiplicação.

Azevedo explica o fim do Primeira Leitura

Os jornalistas Reinaldo Azevedo e Rui Nogueira anunciaram na segunda-feira (19/06), o encerramento do site e da revista Primeira Leitura. Segundo a informação divulgada em uma nota que permanecerá no site por algum tempo (clique aqui para ler o texto de Azevedo e Nogueira sobre o assunto), O Primeira Leitura fecha as portas por falta de suporte financeiro para a sua operação.

A revista Primeira Leitura nasceu no ano 2000, capitaneada pelo economista e ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros. Até a posse de Lula na presidência da República, revista e site faziam críticas ácidas ao que qualificavam de “malanismo” – a política econômica que prevaleceu sem contestações internas no final do governo Fernando Henrique Cardoso, ao qual Mendonça de Barros servira como ministro. Durante a campanha eleitoral de 2002, Primeira Leitura assumiu a preferência pela candidatura do ex-prefeito José Serra à Presidência, mas apresentou discordância com parte da estratégia adotada na campanha. Desde a posse de Lula, site e revista vinham se dedicando a criticar, sempre com eloqüência, o mandato do presidente petista. A violência da crítica, porém, se limitava ao campo das idéias: não foram poucas as vezes que os jornalistas do Primeira Leitura “advertiram” sobre a inteligência de Lula e a precariedade das idéias de muitos dos “quadros” envolvidos na campanha do tucano Geraldo Alckmin.

Em 2004, Mendonça de Barros decidiu deixar o projeto e Primeira Leitura passou para o comando dos jornalistas Rui Nogueira e Reinaldo Azevedo. Há quem tenha visto nesta mudança o marco de uma guinada do site e revista à direita, com o aprofundamento das críticas ao governo Lula, ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e à esquerda em geral.

O jornalista Reinaldo Azevedo esteve desde o início do Primeira Leitura e era a alma do projeto. Católico, conservador e independente, Azevedo chegou a expor publicamente as divergências com o então acionista Mendonça de Barros. Seus textos opinativos, publicados com freqüência quase diária na seção Entenda do site, eram um bom guia não apenas para os conservadores, mas também para esquerdistas curiosos para saber em detalhes os argumentos de seus adversários. Também não faltou “fogo amigo” contra Geraldo Alckmin: Azevedo se posicionou favoravelmente à candidatura de José Serra à presidência por julgá-lo mais apto a bater o presidente Lula nas urnas. Na entrevista abaixo, Azevedo explica por que o Primeira Leitura não conseguiu conquistar, com sua leitura conservadora da realidade, corações e mentes (e o dinheiro, naturalmente) de pelo menos uma parcela das elites econômicas que em tese compartilham das idéias exposts nos textos do site e revista. Reinaldo também fala, com a franqueza que lhe é peculiar, de jornalismo e política. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

***

Em outubro de 2004, o Primeira Leitura anunciou a saída do economista Luiz Carlos Mendonça de Barros do projeto. Desde então, a revista e o site foram comandados por jornalistas -- você e o Rui Nogueira. Menos de dois anos após a saída do sócio-capitalista, vocês anunciaram o fim do site e da revista. O que não deu certo? O Mendonça de Barros anteviu os problemas, chegou a advertiu vocês sobre as dificuldades de viabilizar o projeto?


Reinaldo Azevedo: Não teve antevisão nenhuma. O Luiz Carlos iria se dedicar a outras atividades que achou incompatíveis com a manutenção de um site e de uma revista. Nem sabíamos exatamente da viabilidade comercial dos produtos porque, por conta de sua origem - ter participado do governo -, ele preferia não apelas a agências de publicidade e afins. Já imaginou se uma das empresas de telefonia anunciasse em Primeira Leitura quando ele dono? Ou alguma outra que tivesse feito negócios com o BNDES? Afinal, o PT já não gostava da revista e do site. E todos sabemos que essa gente, os petistas, é muito correta, muito moralista. Diante da simples suspeita de que alguém possa estar fazendo algo errado, esses caras reagem porque o seu senso de dever e de amor à causa pública é de tal sorte exacerbado, que todos temos de ter muito cuidado. Para assuntos como estes, o meu moralista predileto é José Genoino, aquele que disse que “uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”. Não sei se estou conseguindo me fazer entender.

Os números apresentados na nota de despedida que está no site sobre a audiência do Primeira Leitura e sobre tiragem da revista podem ser considerados bastante competitivos. Não ocorreu a vocês algum tipo de reestruturação do projeto para que site e revista não fechassem? Ou fechar apenas a revista e preservar o site?


RA: Os números são aqueles e podem ser verificados. O que sempre me deixou emparedado em A Escolha de Sofia, de Styron, é que escolher, mesmo naquela situação-limite, era um gesto imoral, embora pudesse corresponder à ética do mal menor. Não existe ética do mal menor que possa me levar a uma escolha que atinja a minha moral. Primeira Leitura não foi emagrecendo, desaparecendo, dependendo da boa vontade de estranhos, da compreensão do leitor com as nossas dificuldades. Site e revista chegam ao fim inteiros. Foram o que conseguiram ser até o último dia.

Também na nota de despedida, vocês citam a confusão que muita gente faz a respeito do Primeira Leitura ser um veículo tucano e “provam”, com o fechamento, que de fato não havia financiamento partidário no projeto. O Primeira Leitura, no entanto, vocaliza o pensamento de uma parcela significativa do próprio PSDB e de outros partidos conservadores. É lícito supor que este pensamento seja ainda hoje majoritário no meio empresarial. Na sua opinião, por que os empresários não se interessam por financiar um veículo que expresse pontos de vista que eles provavelmente gostariam de ver defendidos? Preferem o “estilo Veja”?


RA: A sua pergunta traz uma afirmação de que discordo. O PSDB não é um partido conservador. Se fosse, estaria combatendo a agenda estabelecida pelo petismo, como nós, no Primeira Leitura, combatemos. O PSDB pensa alguma coisa sobre cotas? O PT pensa. É favorável. Eu penso: sou contrário. E os tucanos? O PSDB pensa sobre a política econômica exatamente o quê? Talvez, nesse caso, fôssemos um tantinho mais progressistas do que a média do partido. O PSDB pensa o que sobre a Bolsa-Miséria de Lula? Nós pensamos. Quanto aos empresários, não sei o que pensam, se é que têm um pensamento unificado, o que não me parece. Uma parte está satisfeitíssima com a política econômica de Lula. E apóia as revistas que cantam as glórias do petismo. O grande empresário no Brasil chama-se Estado. E alguns preferem não brigar com o gerente: o governo. No último número de Primeira Leitura há um belíssimo texto de Hugo Estenssoro sobre a trilogia do profeta, de Isaac Deutscher. Talvez o empresariado não se interesse por isso. Ou prefira não comprar a briga que nós compramos sobre o remendo de reforma sindical que o governo Lula quer promover. Uma coisa é certa: havia sinais claros que o poder não gostava da gente. Mas atenção: não veja nisso nada de heróico. Não somos heróis de porcaria nenhuma. Só tínhamos um ponto de vista que não interessava. Há muitos “neste país”, como diria o outro, que não se importam de ser chamados de ladrões porque acham que todo mundo é. Mas não suportam ser chamados de totalitários. Aí eles se ofendem. Não entendo exatamente o que você quer dizer com “estilo Veja”. Eu gosto muito da Veja. Se fizesse uma revista semanal, gostaria que ela fosse como a Veja.

Você não acha o jornalismo de Veja simplificador, para dizer o mínimo? Mas voltando à questão inicial e perguntando de outra forma: você acredita que uma publicação mais sofisticada como era a revista Primeira Leitura não tem espaço no mercado editorial brasileiro?


RA: Não acho, não. Não como regra. Talvez já tenham simplificado uma coisa ou outra. Em Primeira Leitura, já saíram matérias ou comentários que achei “simplificados” ou simplistas. Eu poderia lhe dizer que acho “simplificar” a questão dizer que a Veja faz jornalismo simplificador... E isso me remete, sem jamais abandonar a primeira parte da pergunta, à segunda: revistas têm seu público. Você acha mesmo que, se eu fosse o diretor de Redação da Veja, daria três páginas para uma reedição do Triologia do Profeta, sobre a vida de Trotsky? Muito provavelmente, não. Quantos dos, sei lá, quase 5 milhões de leitores de Veja se interessam pelo assunto? Talvez aqueles pouco mais de 30 mil que liam Primeira Leitura. Estamos falando, atenção, de 0,6% do leitorado de Veja. Então, é natural que a receita de uma revista semanal e a atenção a certos temas sejam diferentes dos de uma pequena revista mensal voltada para política, teoria política e macroeconomia. Ora, se eu vendia, numa tiragem de 25 mil exemplares, 18 mil revistas, isso me faz supor que havia e que há público para revistas mais “sofisticadas”, como você diz. Se um site que não falava uma linguagem exatamente muito fácil tinha mais de 2 milhões de page views, isso me faz supor que exista o público. Mas não basta isso, não é? É preciso também que essa revista e que esse site possam se financiar no mercado. Não serei eu a pedir a “Embrarevistas” ou a “Revistabras” para que os pobres financiem as minhas tiradas inteligentes... Deixo isso para a Petrobras fazer com os cineastas, que não sabem se amam mais o povo ou os patrocínios.

Há espaço e público para revistas diferenciadas? Acho que sim. Mas é óbvio que ninguém anuncia numa revista de 25 mil exemplares para vender mais carros, mais relógios ou conquistar mais clientes para o seu banco. O máximo a que se pode aspirar é associar a marca a um produto com reputação de ser inteligente, sofisticado etc. Ocorre que a patrulha de esquerda fez o seu trabalho direitinho: pespegou a pecha de “direitista” na revista. Em tempos politicamente corretos, isso gera receio. Afinal, todo mundo no Brasil é progressista, não é mesmo? O sujeito pode estar mamando nas tetas do governo ou lucrando na ciranda financeira, mas é claro que é muito melhor gastar dinheiro com uma ONG que faz cafetinagem de pobre a anunciar numa revista que chama as coisas pelo nome.

Só um registro: pode ser também que os publicitários achassem a revista uma merda. Pronto! A chance de que boa parte deles não entendesse o que lia não é pequena. E pode ser, finalmente, que a revista fosse, de fato, uma merda, cultuada por alguns leitores que não eram assim intelectualmente tão exigentes quanto os de publicações de esquerda que vivem recheados de anúncios de estatal e de gigantes da empresa privada. É uma pena eu não acreditar em reencarnação: gostaria de voltar, numa próxima vida, esquerdista, bom, bacana e generoso. Com essas qualidades, obviamente, eu me tornaria, em breve, também muito rico. Dedicaria minha vida a fazer caridade com adjetivos subsidiados pelas estatais.

E arremato com Veja: discordo de muitas opções que eles fazem. Mas já discordei também de Eça de Queiroz, Machado de Assis, Bento 16 e de Tati Quebra Barraco. E concordo com muita coisa. O inegável é que a revista assumiu uma posição corajosa no que diz respeito a estes tempos. E foi bastante ousada, sem temer seu leitorado. É o caso da posição assumida no plebiscito sobre a proibição da venda de armas legais. Eu também defendi o “Não” em Primeira Leitura. Mas é preciso ter muito mais peito e coragem para defender o “Não” em Veja, especialmente porque, à época, as pesquisas de opinião indicavam ampla vantagem do “Sim”. Especialmente porque, à época, todos os bacanas que gostavam de Chico Buarque, comida japonesa, Feng Shui e eram a favor da paz votavam “Sim”.

Sendo Estado e o governo o que são, é certo que, como negócio, a revista mais perdeu dinheiro do que ganhou assumindo a postura que assumiu em relação ao governo Lula. Que não foi, não, de oposição sistemática. A partir da quebra do sigilo do caseiro, acho que a revista decidiu que havia o suportável e o insuportável numa democracia. Não é um fato desprezível o principal veículo do país estabelecer uma linha e dizer: “não vamos transigir com isso”. É uma grande revista, e isso não é um pedido de emprego. Quando e se precisar, pedirei pessoalmente.

O Primeira Leitura existia desde 2000 - metade deste tempo foi durante o segundo mandato de Fernando Henrique e a outra metade sob Lula. Houve alguma diferença entre os dois governos do ponto de vista de anúncios estatais para a revista e/ou site? E em relação aos governos estaduais, como foi a relação comercial com a PL?


RA: Não corremos atrás de anúncio nos anos FHC pelos motivos já expostos. Nos anos Lula, as estatais muito raramente anunciaram, contam-se nos dedos. Tivemos anúncios do governo de Minas, do PSDB; de Pernambuco, do PMDB, do GDF, também do PMDB. E da Nossa Caixa. Todos eles conquistados em agência. Estes últimos geraram polêmica. Como se um site com 2 milhões de page views e uma revista com 25 mil exemplares não pudessem comportá-los. A própria agência, a Full Jazz, já veio a público para dizer que fomos uma indicação dela, agência, para o cliente.

Esta questão da Nossa Caixa provocou uma polêmica grande, com direito à reportagem na Folha de São Paulo, um jornal em que você já trabalhou. Tendo em vista a sua experiência nesses últimos seis anos em um veículo “alternativo”, que avaliação você faz do jornalismo praticado pela chamada grande imprensa hoje no Brasil?


RA: Na verdade, faz 10 anos que estou em veículos que não pertencem às grandes empresas de comunicação: desde 1996, quando pedi demissão da Sucursal de Brasília da Folha para integrar, em São Paulo, a equipe que fez a revista República e, no ano seguinte, a BRAVO! - hoje na Abril -, ambas da editora D'Avila. São dez anos, não seis. Eu rejeito o “alternativo” para o que eu fazia. O termo está excessivamente ligado à imprensa de esquerda, que eu nunca fiz. Eu adoraria ser de esquerda porque é muito mais bacana, e isso logo lhe confere uma espécie de distinção moral. Mas eu não sou... E os “alternativos” costumam achar que viram o periquito verde da verdade. Eu não vi. Em muitos aspectos, o jornalismo que eu fazia seria establishment se Dona Zelite existisse. Mas Dona Zelite, coitada, ou deve para o Banco do Brasil ou está mendigando dinheirinho subsidiado no BNDES e faz tudo o que Lula mandar.

Acho o jornalismo praticado pela chamada grande imprensa, na média, bom. Excessivamente petista, é verdade. Ou, mais genérico do que petista: ele é, no geral, esquerdista. Um esquerdismo soft, meio burraldo, desinformado, sem leitura, meio cretino ideologicamente. Mas há uma saudável cultura comprometida com o princípio de publicar o que se tem. Trabalhei na Folha em duas oportunidades: entre 1992 e 1996, com uma interrupção de sete meses entre os extremos. Na editoria de Política. Jamais, nem de forma velada ou oblíqua, houve qualquer interferência da Direção de Redação ou da Secretaria para mudar o viés dessa ou daquela reportagem. No tempo em que fiquei ali, nunca um repórter com uma boa história deixou de publicar o que tinha apurado. Se tivesse acontecido, saberia. Era editor adjunto de Política e depois fui coordenador de Política da Sucursal de Brasília.

A esquerda sempre fantasiou essa história de manipulação. E isso continua a ser dito nas escolas de jornalismo para os coitadinhos que estão lá estudando. Geralmente sai da boca de gente que jamais pisou numa redação e que seria incapaz de fazer um lead ou um texto no tempo em que a indústria exige. Isso não lhe tira autoridade acadêmica, é claro. Mas não pode pontificar sobre como é uma redação. É óbvio que existem chefes idiotas em todos os lugares. Mas também existem subordinados idiotas. O mal da grande imprensa está menos no eventual adernamento ideológico dos chefes (ou dos donos dos jornais e revistas) do que no dos jornalistas.
Dou um exemplo para estimular a polêmica: bastaria fazer um levantamento e se constataria que a maioria dos coleguinhas defende distribuição de seringas gratuitas e esterilizadas para viciados, dentro da política de redução de danos (nome politicamente correto), mas acha um absurdo que alguém do Opus Dei, ou qualquer outra corrente religiosa, possa usar, por vontade própria, o cilício. Acho, por exemplo, absurdo que se possa ser a favor da pena de morte, mas contra o aborto. Sou contrário a ambos. A larga maioria das pessoas contrárias à pena de morte, não obstante, chama o abordo de “direito”. Não deixo de invejá-las. Também eu queria ter a certeza que elas têm sobre quando começa a vida. Há uma cultura da militância burra por aí. Há uma espécie de lista do que é e do que não é permitido pensar. Huuummm, pensando bem, acho que a gente era mesmo um tanto alternativo, não? Uma das poucas alternativas à vulgaridade.

Em alguns artigos você criticava bastante a mídia e os colunistas que considera chapa-branca. O ex-presidente Fernando Henrique sempre teve boa relação com os barões da imprensa brasileira, ao passo que Lula é pessoalmente brigado com um deles e desprezado pela maioria dos demais. Você acha que a imprensa brasileira trata Lula melhor do que tratava FHC?



RA: A questão nem é de achar. Os barões da imprensa brasileira não escrevem nos seus veículos. Os colunistas, sim. Assim como acredito que você não é um pau mandado, acho que os outros também não são. Não sei se empreguei, alguma vez, “jornalismo chapa-branca”. Se o fiz, acho a expressão imprecisa para designar o que aconteceu. Sim, existe o chapa-branca, o governista por opção, definição e escolha, que será sempre governista, mas é residual. No caso do PT, a questão é mais complexa: é de alinhamento com o partido. Basta ler o noticiário pré-mensalão ou pré-Waldomiro. A crítica havia sumido ou, claro, era feita pelo viés da esquerda: havia a turma que queria Lula “cumprindo” suas promessas. Ainda bem que não cumpriu. Antes um bravateiro do que um maluco. O PT já havia proposto coisas gravíssimas, como considerar sessões do finado Conselhão como se fossem sessões do Congresso, para impor um rito sumário às reformas. E houve quem apoiasse. Afinal, diziam, era a modernidade. A nossa abordagem, como sabe, sempre foi outra. O principal conteúdo do PT está, de fato, na forma como ele entende a política. Não é uma doutrina, um conjunto de valores. Trata-se de um projeto de poder que institui o presente eterno e elimina a memória e a história, a sua e a dos outros.

Vamos a FHC. No começo, houve certo deslumbramento por seu aporte intelectual, seu charme pessoal, por causa do controle da inflação etc. Mas acabou bem cedo a adesão, e ele ficou entregue a essa sanha politicamente correta. O fato de ser intelectual passou, de ativo político, a defeito. Começaram a tachá-lo de cínico. Depois veio aquele misto de bobagem e mentira do “esqueçam o que escrevi”. Quem sustenta que ele disse aquilo já leu o que ele escreveu? É claro que não. Esquecer por quê? Sua atuação foi absolutamente coerente com a sua versão, dentre outras, da teoria da dependência. Basta ler Dependência e Desenvolvimento na América Latina. Claro, já se passaram 40 anos, muita coisa mudou. Se FHC tivesse escrito O Colapso do Populismo, do Octavio Ianni, aí, sim, era o caso de ele pedir que esquecessem. Mas não. Ambos foram coerentes. FHC foi presidente do Brasil e inseriu o país no capitalismo contemporâneo, fato de que Lula se beneficia, e Ianni morreu chamando de “revolucionário” o terrorismo islâmico.

Já derivei. Volto: FHC começou a ser tratado com ressentimento porque era um intelectual. Acusava-se a sua vaidade. Bem, nunca o vi ser rude com um subordinado ou um colega. Quem poderia dizer o mesmo de Lula? Será que até a lhaneza no trato e o bom humor de FHC devem ser postos na conta de sua suposta arrogância? Imagino como ele não teria sido tratado se um caso como este do mensalão tivesse explodido em seu governo. Apanhou mais do que Lula por conta do Caso Eduardo Jorge, que nunca existiu. Foi uma invenção de um celerado. Sim, a mídia foi, comparativamente, muito mais dura com FHC do que é com Lula. E a razão é ideológica e psicológica. Ideológica porque se julgava que FHC tinha ido para a “direita” por opção - já Lula, coitadinho, foi forçado... E é psicológica também porque se imagina, de forma preconceituosa, que Lula é mais mixuruca do que o antecessor. E os jornalistas, você sabe, são seres para os quais a Justiça vem em primeiro lugar, nem que seja aquela que eles fazem no teclado. É um traço nosso: adoramos torcer para aqueles que julgamos mais fracos até em Copa do Mundo. Se os EUA jogarem contra o time de qualquer ditadura africana, é claro que a maioria vai torcer para a ditadura africana...

O e-Agora, site mantido por quadros do PSDB ou ligados ao partido, vive hoje um processo de “desidratação” e foi praticamente abandonado por seus idealizadores. Você acha que a pouca competitividade da candidatura de Geraldo Alckmin até aqui pode ter provocado um desânimo e/ou resignação não apenas na militância anti-lulista, mas também no empresariado que poderia se interessar por financiar veículos críticos da gestão petista?


RA: O que acho é que a pergunta cria, no contexto, uma vinculação entre o que você chama de “desidratação” do e-agora e o fim de Primeira Leitura. Não há. Não sei os problemas que eles enfrentam. Parece-me que nascem de divergências políticas, intelectuais, com corte talvez até ideológico. Ora, tudo indica que o PSDB vai governar ao menos Minas e São Paulo. É um PIB e tanto, não? Acho que a perspectiva de poder, se estivéssemos dispostos a ser porta-vozes, talvez nos fosse favorável. Mas nada nos foi oferecido nem nós pedimos nada. Acho que mais o PSDB se incomoda em ser associado ao Primeira Leitura do que o contrário: nós nunca demos a menor bola para isso. Se fosse levar a sério todas as vezes em que fui chamado de tucano, direitista, reacionário ou sei lá o quê, não faria outra coisa a não ser responder. Agora eu me importo, sim, se me chamarem de ladrão. Mas há quem, “neste país”, ache isso tudo normal. Ainda sobre o PSDB, o teste é muito fácil: se alguém chamar um tucano de direitista, ele reage, bravo. E tentará provar que não é. Se alguém me chamar de direitista, acho que pode ser o princípio de uma boa conversa se o sujeito não for um botocudo. E não tentarei provar que não sou porque não dependo da boa vontade de ninguém para pensar o que penso.

Quantos jornalistas trabalhavam no Primeira Leitura nesta fase final? Qual foi a reação deles ao saber da decisão pelo fechamento?



RA: Não houve fase final. Jornalistas, incluindo eu e Rui Nogueira, éramos 13 pessoas, fora os colaboradores e correspondentes no exterior. E havia mais 9 pessoas entre área técnica do site e da revista e administrativa.

Na carta de despedida, ficou prometido para breve a sua estréia na chamada blogosfera. Quando é que o blog entra na rede? E qual é a sua expectativa para esta nova mídia? Você terá algum suporte técnico e equipe ou vai “blogar” sozinho mesmo?



RA: Ainda não sei. Preciso ver direito o que quero fazer e como. Estou colaborando com artigos para O Globo e o Estadão. Vamos ver que cara dou ao blog. Certamente falarei especialmente de política, mas também sobre outros assuntos, literatura, cinema, cultura, áreas sobre os quais escrevia com certa regularidade. Em princípio, será coisa minha mesmo. Blogs pessoais valem pelo enfoque e pelo texto, quero crer. Se você quer saber o que está acontecendo, minuto a minuto, já conta com muitos serviços. Afinal, não dá para concorrer nessa área com Estadão, Folha, Globo. Há excelentes serviços de sites de jornais estrangeiros gratuitos. Ou o Blog tem uma personalidade e exercita um estilo, traz um aporte novo para o leitor, derivado da formação intelectual do blogueiro, ou não serve para nada. É o que todos fazíamos em Primeira Leitura. É o que continuarei a fazer no blog.

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Cony e Nassif propõem reflexão sobre Lula

Dois colunistas renomados – Luís Nassif e Carlos Heitor Cony – publicaram artigos sobre o mesmo tema no último domingo. Os dois analisam, cada qual à sua maneira, a resistência do presidente Lula às críticas que vem recebendo na imprensa já há um ano. As reflexões abaixo, copiadas da Folha de S. Paulo, foram publicadas também nos diversos jornais que reproduzem as colunas dos jornalistas. Nassif e Cony estão longe de ser petistas, o que torna os artigos ainda mais instigantes.

Carlos Heitor Cony - A mídia derrotada

"A pesquisa mais recente, divulgada na última semana, tem sido interpretada de diversos modos e intenções. O crescimento da popularidade de Lula e da aceitação de seu governo não deixa de provocar um exame de consciência nos profissionais da mídia, alguns deles acreditando que a imprensa, em geral, é o quarto poder.

Um poder que nada pode além de fazer muita marola, que nem sempre chega a molhar os rochedos da corrupção e da bagunça administrativa a que infelizmente estamos habituados. Por meses -quase um ano, não tenho certeza-, a mídia escancarou as mazelas do governo em diferentes setores, todos elas revelando que, de alguma forma ou de todas as formas, o presidente sabia dos esquemas em que seus auxiliares e amigos mais chegados chafurdavam.

E dele não partiu outra atitude se não a de aceitar a carta de demissão que os envolvidos lhe mandavam e que tinham como resposta uma declaração de afeto e confiança. Um deles, depois de tudo o que houve, foi chamado de irmão.

Na realidade, Lula deitou e rolou para as CPIs que foram instauradas e em que foi acusado de cumplicidade com a corrupção. Na hora H, seu nome foi poupado dos relatórios finais, mas não da cobertura que a mídia lhe dedicou. E, se não deu bola para CPIs, muito menos bola deu para editoriais, articulistas, cronistas, colunistas e todos os que ocuparam os vários veículos de comunicação do país e do exterior.

Seria o caso, repito, de um exame de consciência, de uma reavaliação dos meios e da própria função do tal quarto poder, poder que não atinge o povo. A alegação de que o povo não lê jornais nem revistas não procede. O povão vê televisão, ouve rádio. E continua acreditando em Lula e abençoando-o com seu voto."

Luís Nassif - A mídia e o fator Lula

"NO INÍCIO dos anos 90, a inacreditável entrevista de Pedro Collor para a revista 'Veja' inaugurou a era de maior poder da mídia, desde o início dos anos 50. Descobriu-se a notícia-espetáculo, os fatos inverossímeis baseados em fontes suspeitas, mas que atendiam à sede de show.

Denúncias graves não foram apuradas, denúncias vazias viraram manchete, forçou-se a barra, mas o presidente caiu. Ainda que à custa de um pequeno Fiat Elba.

Seguiu-se um longo período de denúncias inverossímeis, ou interessadas. Criou-se até essa obra-prima do jornalismo ficcional, o 'roteiro Frankestein', que consiste em juntar pedaços de notícias verdadeiras, porém irrelevantes, e compor um roteiro com denúncias graves, porém falsas.

Ao longo dos anos 90, esse tipo de jornalismo gerou peças de ficção famosas, como a capa de 'Veja' sobre Chico Lopes -segundo a qual o lobista amigo de Lopes, ele e o banco que pagava as informações se comunicavam por meio de três celulares, e o banqueiro Salvatore Cacciolla obtinha as informações por meio do 'grampo' dos aparelhos; no dia da mudança de câmbio, o 'grampo' falhou, por isso Cacciolla quebrou.

Agora, está-se em plena era da globalização e da internet, com dois fenômenos concomitantes, com implicações relevantes para o futuro das democracias. O primeiro, os amplos fluxos migratórios para os países centrais, gerando um novo tipo de cidadão-eleitor, as minorias étnicas, cada vez mais atuantes.

O segundo, a internet trazendo, em um primeiro momento, enorme balbúrdia de informações e, principalmente, de opiniões, catarses, espetáculo. Agora, quando esse tipo de recurso freqüenta intermitentemente a internet, as caixas de e-mails, os blogs, os comentários nos blogs, quando o exercício vazio da indignação pode se expressar de várias maneiras, o papel fundamental da grande mídia é o de estabelecer parâmetros.

É esse o diferencial: o aval à informação. Muito mais do que em qualquer outra época, há a necessidade do rigor da apuração, justamente porque existe uma overdose de notícias, boatos e opiniões exigindo o avalista.

Pergunto: estamos preparados para isso? A cobertura dos escândalos do mensalão e pós-mensalão deixa uma enorme dúvida no ar. Havia uma betoneira de denúncias a serem apuradas. Em vez disso, quando esgotou a fase inicial das denúncias, recorreu-se a uma overdose de denúncias sem comprovação, somada a uma incapacidade ampla de ir atrás de pistas consistentes, de entender a complexidade dos grandes golpes, de separar o escândalo de episódios triviais. Em alguns órgãos, juntou-se uma dose de agressividade, desrespeito e preconceito sem paralelo até na campanha do impeachment.

Chega-se ao final de um ciclo, que começou com a campanha do impeachment, que derrubou um presidente, e termina com a do mensalão, que não foi capaz de abalar a popularidade de outro presidente.

O exercício do jornalismo precisa ser urgentemente repensado. E não se trata de um problema de forma. É de fundo, de conteúdo."

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Buarque é boa notícia para Alckmin. Será?

O PDT confirmou nesta segunda-feira que terá candidato à presidência da República. Será o ex-ministro da Educação Cristóvam Buarque. Em tese, trata-se de uma boa notícia para Geraldo Alckmin, já que neste momento o mais importante para o candidato do PSDB é forçar a realização do segundo turno nas eleições de outubro.

Com Buarque na parada, raciocinam os tucanos, os eleitores descontentes com Lula têm outra opção e votos que seriam brancos ou nulos entrariam no jogo, dificultando um pouco a tarefa do presidente Lula de obter mais votos que a soma do sufrágio em seus adversários – está é a regra para vencer a eleição no primeiro turno.

As pesquisas eleitorais mais recentes mostram que Buarque teria hoje algo entre 1% e 2% contra 5% a 6% da senadora Heloísa Helena (PSOL). O candidato trabalhista, no entanto, conta com um partido muito mais organizado e também com mais tempo de propaganda na televisão. Se Buarque conseguir rapidamente inverter de posição com Helena, não é impossível que comece também a roubar votos também dos tucanos desencantados com a falta de rumo da campanha de Geraldo Alckmin. E tudo que Alckmin não pode, neste momento, é cair da faixa de 20% que se encontra desde que se lançou candidato, porque neste caso, será definitivamente cristianizado pelas lideranças estaduais.

Assim, Buarque é o candidato dos sonhos para o PSDB desde que permaneça onde está e não roube votos no ninho tucano. Caso contrário, pode se tornar um verdadeiro pesadelo.

O ombudsman da Folha adverte

A cobertura do jornal paulista sobre os recentes ataques do vice de Geraldo Alckmin ao presidente Lula extrapolou. O comentário abaixo está na crítica interna desta segunda-feira.
O jornal deu manchetes na sexta-feira e no sábado para a troca de baixarias e ofensas entre a oposição e o governo Lula. Acho até que este tiroteio merece registro por ser um indicador do momento e do nível da campanha eleitoral. Mas daí virar a manchete do jornal, e sem qualquer contraponto crítico, me pareceu um equívoco.
Quem quiser, pode conferir na íntegra o texto do ombudsman Marcelo Beraba clicando aqui.


domingo, 18 de junho de 2006

Matéria da Folha confunde mais do que explica

Manchete da edição de domingo do jornal Folha de S. Paulo: Lula distribui concessões de TV a políticos.

Uma chamada forte, suficiente para deixar os leitores irritados com mais um escândalo envolvendo o presidente e o seu partido, que, segundo a imprensa, desde que chegaram ao poder não fizeram outra coisa senão "aparelhar" o Estado brasileiro e empregar companheiros a torto e a direito. Só que no caso das concessões de rádio e televisão, a coisa não é bem assim. Em primeiro lugar, a reportagem mostra que políticos do PT não são beneficiários de nenhuma concessão. O que a apuração da Folha descobriu no tocante a políticos foi que 8 políticos do PMDB, 2 do PTB, 2 do PSDB (incluindo o senador Leonel Pavan, de Santa Catarina), 2 do PL, um do PSB e um do PP receberam concessões de emissoras ou rádios educativas. Para o PT, nenhuma concessão. Estranho?

Sim, soa estranho. Mas o jornal também sonegou algumas informações essenciais para que os leitores pudessem formar opinião sobre o caso. Segundo a Folha, "
as concessões de TV são dadas por decreto do presidente, enquanto as de rádio são aprovadas pelo ministro, por portaria". O jornal ignorou o artigo 223 da Constituição Federal. Desde 1988, as outorgas e renovações para o funcionamento de emissoras de rádio e televisão precisam ser aprovadas pelo Congresso Nacional. Aliás, é bom lembrar que o Projor, entidade mantenedora do Observatório da Imprensa, entregou ao Ministério Público Federal , em outubro do ano passado, uma petição questionando o fato de parlamentares titulares das comissões responsáveis, na Câmara e Senado, pela análise das concessões, serem eles mesmos proprietários de emissoras de rádio e/ou televisão (clique aqui para ler o material do OI sobre este assunto).

Na verdade, a manchete da Folha de domingo revela que o jornal caiu no canto do denuncismo irresponsável. A repórter que assina as matérias, é bom que se diga, é uma profunda conhecedora do assunto sobre o qual escreve e sua investigação foi impecável. O problema foi a edição do material que a repórter apurou. O jornal forçou a mão para tentar responsabilizar o presidente Lula, torná-lo mais parecido com José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, enfim, envolvê-lo em mais um escândalo.

Neste caso particular, porém, a Folha errou o alvo. Dizer que Lula usou a caneta presidencial para beneficiar peemedebistas e tucanos é chamar o leitor de imbecil. Para começar, a caneta não tem este poder todo no tocante às concessões. Se quisesse beneficiar a CUT com uma rádio em cada município do País, por exemplo, o presidente assistiria à rejeição de seu pleito pelo Congresso. A Folha não explica nada disto, sequer menciona que os decretos e portarias do ministro das Comunicações precisam ser chancelados pelo legislativo federal. A acusação também é fraca porque não faz muito sentido político: afinal, segundo a apuração, Lula simplesmente não ajuda o PT e o PCdoB, seu aliado mais fiel e ainda dá uma rádio a um senador tucano.

A Folha deu pouca atenção (e uma só retranca, como se diz no jargão das redações) à concessão de emissoras de rádio e televisão a entidade religiosas, especialmente católicas e evangélicas. Em vez de procurar pelo em ovo, o jornal poderia ter focado a investigação neste filão. Como se sabe, uma das "pernas" do PT sempre foi a Igreja Católica e suas Comunidades Eclesiais de Base. É certo que hoje os católicos radicais estão mais perto de Heloísa Helena e os conservadores, de Geraldo Alckmin, mas uma boa investigação poderia mostrar a influência de um Frei Betto nas concessões da primeira etapa do governo Lula; ao passo que um estudo detido dos evangélicos abençoados com emissoras de rádio e televisão talvez explique muita coisa na relação de PT, José Alencar, o PL e o recém-criado PRB.

Clique aqui para ler as matérias da Folha sobre as concessões de emissoras de rádio e televisão para políticos.

Podia ter passado sem essa

O humorista Bussunda morreu às 8h30 da manhã de sábado. Na edição de domingo, a Folha de S. Paulo deixou passar, na coluna Outro Canal, assinada por Daniel Castro no caderno Ilustrada, a seguinte notinha:

CARTÃO-POSTAL Os humoristas do "Casseta & Planeta" não agüentam mais ver brasileiros na Alemanha. Em todos os lugares em que eles param para gravar esquetes sobre a Copa do Mundo, são sempre abordados por compatriotas _que querem tirar fotos ao lado de Bussunda e cia.
Parece absurdo, mas tem explicação. Por motivos industriais, a Ilustrada provavelmente já estava com a edição impressa na manhã de sábado. O material sobre a morte de Bussunda, que na edição online do jornal foi editado na Ilustrada, saiu na versão impressa no caderno Cotidiano.

Como dizem por aí...

A fala irresponsável do candidato a vice-presidente na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB), senador José Jorge (PFL), segundo a qual o presidente Lula "só viaja e bebe muito, como dizem por aí", recebeu a condenação da maior parte dos colunistas de jornais. A reprovação ao golpe baixo de José Jorge veio até de gente do PFL – o governador paulista Cláudio Lembo fez questão de dizer que não gostou.

Provavelmente, no entanto, não terá efeito algum a reprovação dos jornalistas e correligionários ao baixo nível da campanha. A estratégia de Alckmin agora é colocar o seu vice para bater forte, partir para a agressão direta ao presidente. O raciocínio por trás desta estratégia é simples: perdido por um, perdido por mil.

Há de fato uma certa lógica neste movimento da campaha tucano-pefelista, mas é preciso ter cuidado com a dosagem do remédio. Se os petistas decidirem responder no mesmo tom e escalarem o ex-ministro Ciro Gomes, por exemplo, para sair por aí contando aos eleitores o que "dizem por aí" sobre a mulher de Geraldo Alckmin (créditos para Paulo Maluf e seu ladrão de casaca), essa campanha não vai acabar nada bem.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Feriado de muita negociação em São Paulo

Apesar do favoritismo do ex-prefeito José Serra (PSDB) na eleição para o governo do Estado, apontado por todas as pesquisas eleitorais recentes, os tucanos não estão querendo dar sopa para o azar e querem porque querem tirar o PMDB do jogo para facilitar uma vitória já no primeiro turno. Nos últimos dias, o presidente do Diretório paulista do PMDB, ex-governador Orestes Quércia, conversou com Aloysio Nunes Ferreira, emissário de Serra para a negociação de uma aliança entre as duas agremiações. O próprio Serra também procurou ampliar o espaço para as conversas ao dizer que não trabalha apenas com a hipótese de uma chapa pura, com vaga de vice para um tucano. O problema todo é que ainda existe muito tucano resistente à aproximação com o PMDB e de olho nas vagas de vice e senador. No PMDB, o clima é de expectativa. A militância aguarda a decisão de Quércia e, no momento, a tendência é de que o partido lance candidato a governador. O nome mais cotado para a disputa é naturalmente o do ex-governador, que aparece bem colocado nas pesquisas. Marcelo Barbieri e Alda Marcantônio também estão no páreo, caso Quércia decida se lançar ao Senado - hipótese pouco provável - ou concorrer a uma vaga na Câmara Federal.

Tudo somado, o fim de semana prolongado que começa com o feriado desta quinta-feira deve ser dos mais agitados nos meios políticos. O tempo para as alianças se acelerou e cada partido precisa fechar os acordos a tempo das convenções partidárias. A Convenção do PMDB de São Paulo, por exemplo, já está marcada para dia 24 de junho, mas é possível que a decisão do partido seja anunciada antes, na terça ou quarta-feira da próxima semana.

Um jogo, uma pesquisa e dois candidatos

Charge do Agê, publicada na edição desta quarta-feira no DCI.

terça-feira, 13 de junho de 2006

O prefeito observador da imprensa

O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia (PFL), é um estudioso das questões de mídia. Gosta do tema, popularizou o conceito de "factóide", cunhado pelo jornalista Alberto Dines, e chegou a iniciar a experiência de ser o primeiro prefeito-blogueiro do Brasil. Abandonou o blog depois que começaram as cobranças sobre a incompatibilidade entre as "funções": afinal, ele estaria postando suas notas em momentos que deveria estar "prefeitando".

Para não deixar vazio o espaço que havia conquistado com a nova atividade, porém, criou uma espécie de newsletter chamada ironicamente de "Ex-blog do Cesar Maia", enviada diariamente, por e-mail, para todos os leitores que se cadastraram no endereço do antigo blog (http://cesarmaia.blogspot.com/, as inscrições permanecem abertas) .

A maior parte das notas versa sobre política e Maia tem utilizado bastante este novo meio que criou para mandar recados à campanha do aliado Geraldo Alckmin e pautar a imprensa. Outros assuntos, no entanto, são tratados pelo prefeito. Pesquisas eleitorais são sempre interpretadas nos e-mails e, vez por outra, Cesar Maia escreve sobre o comportamento da imprensa. Na edição desta terça-feira, o prefeito foi além: resolveu analisar o mercado editorial e destacar o fenômeno da imprensa popular. O que o intriga é o fato de o mercado paulista se manter à parte da nova tendência. Abaixo, a íntegra do comentário do prefeito.


A IMPRENSA POPULAR!

A venda de jornais populares a baixíssimo preço tornou-se um vetor de concorrência da grande imprensa. Sua origem está nos jornais de metrô distribuídos gratuitamente em várias cidades do mundo. A leitura rápida exige formato especial, matérias leves e curtas, fotos atrativas e boxes com os destaques. E muita informação sobre serviços -TV, fofoca de atores, jogadores, cinema, lazer, futebol, emprego, cursos, concursos,...e um escândalo para apimentar. Le-lo é quase como ler o jornal pendurado na banca.

Os jornais com esta característica vão navegando entre o jornalismo e o lazer, cada vez mais se afirmando como jornalismo de lazer. Curiosamente, deixam de justificar a reclamação de tantos, políticos em especial, que dizem que jornal só sabe falar mal. Do ponto de vista econômico ainda não se sabe o resultado, pois não se vê uma publicidade explosiva. Seus custos só não são maiores que as receitas das vendas porque o jornal matriz fornece material e o computador faz o resto. O custo passa a ser, quase só, papel e tinta. A imprensa popular nunca teve a formação de opinião como foco. Agora a própria informação deixa de ser foco também.

Em outubro de 2005 o jornal Super Notícia de MG tinha uma circulação de 30 mil. Em abril de 2006 já tinha 137 mil jornais circulando por dia. No Rio a imprensa popular de lazer caminha para ultrapassar a imprensa popular tradicional. A moda,( febre?), ainda não chegou em SP.


Lula cresce 5 pontos e Alckmin empaca

Foram divulgados há pouco os números do levantamento feito pelo Ibope para a Confederação Nacional da Indústria sobre a sucessão presidencial e aprovação do governo federal.

Lula cresceu 5 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior e Geraldo Alckmin (PSDB) permaneceu estável. Nos dois cenários pesquisados – com PMDB e sem PMDB –, Lula vence a eleição no primeiro turno. No primeiro cenário, Lula tem 48% contra 18% de Alckmin e 5% de Heloísa Helena (PSOL). Pedro Simon, que não será mais candidato, aparecia com 2%. No cenário sem o PMDB, Lula tem 48%; Alckmin, 19%; e Helena, 6% Na simulação de segundo turno, Lula cresceu de 49% para 53% e Alckmin caiu de 31% para 29%.

A aprovação do governo também subiu: 44% dos brasileiros consideram o governo ótimo ou bom contra 38% em março. É o maior percentual de ótimo/bom registrado desde junho de 2003, quando foi aplicada a primeira pesquisa do Ibope a respeito do governo Lula. Somados aos que consideram o governo regular (36% do total), poder-se-ia dizer que o governo Lula consegue espantosos 80% de aprovação contra19% de rejeição – são os que consideram a gestão petista ruim ou péssima. Em março, a soma destes era maior, de 22% do total.

O resultado do levantamento é má notícia para Alckmin porque revela que Lula não foi afetado pela invasão da Câmara pelos militantes do MLST. O crescimento do presidente, porém, deve ser visto com alguma parcimônia, pois ocorre em relação ao levantamento feito em março, e não no mês passado. Na verdade, os números do Ibope estão em linha com os do último levantamento do instituto, realizado por encomenda da TV Globo neste mês. Em relação a esses números, os dois candidatos ficaram estáveis. O Ibope, porém, não compara as pesquisas encomendadas por entidades diferentes porque a metodologia de cada levantamento é distinta.

De toda maneira, ainda considerando a estabilidade do cenário eleitoral, a notícia é ruim para Alckmin porque a cúpula tucana esperava alguma queda nas intenções de voto no presidente. Isto não se verificou e no caso da aprovação do governo Lula, a recuperação da taxa aos níveis de junho de 2003 é um balde de água fria no discurso tucano do "choque de gestão". Por que mudar, raciocinam os eleitores, se para 55% deles este governo é melhor do que o de Fernando Henrique (23% consideram igual e só 18%, pior) ?

Apesar de tudo, Alckmin dirá hoje que está tranquilo e que os números não o preocupam. A continuar assim, vai terminar a eleição tão zen como começou: zen votos.