sábado, 30 de agosto de 2008

Datafolha confirma Ibope

Os dados da pesquisa Datafolha praticamente confirmam o que o Ibope apontou. A única diferença entre os dois institutos é que no Datafolha, Geraldo Alckmin (PSDB) parou de cair, mas o percentual do tucano é praticamente o mesmo nos dois institutos. Abaixo, os números das duas pesquisas, com o primeiro número do Ibope e o segundo do Datafolha:

Marta - 39%; 39%
Alckmin - 22%; 24%
Kassab - 12%; 16%
Maluf - 9%; 7%
Soninha - 3%; 3%

Evidentemente, os novos números são bons para Kassab, que a cada semana reduz a diferença para Alckmin. O ex-governador ganhou um alento ao não cair tanto, mas certamente terá que se deparar com o noticiário negativo da aproximação de Kassab nos próximos dias. Faltam quatro semanas para a eleição e talvez o tempo acabe favorecendo o tucano. Resta saber em que condições ele chegará para a disputa do segundo turno, se chegar...

Ibope: Marta lidera, Alckmin cai

Saiu o resultado da pesquisa Ibope encomendada pela Rede Globo e Estadão:

Marta - 39%
Alckmin - 22%
Kassab - 12%
Maluf - 9%
Soninha - 3%
Os demais ficaram abaixo de 1%

Marta oscilou negativamente 2 pontos, dentro da margem de erro. Alckmin caiu 4, acima da margem de 3 pontos. E Kassab subiu 4, também acima da margem. Maluf permanece com o mesmo percentual. Neste sábado deve sair o resultado do Datafolha, que pode confirmar (ou não) as tendências verificadas pelo Ibope. Alckmin está derretendo, mas mais lentamente do que desejam os kassabistas. O prefeito está crescendo, resta saber se em velocidade suficiente para chegar em segundo lugar. Faltam exatos 36 dias para a eleição...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Pesquisas de amanhã e o palpite do blog

Os leitores mais assíduos do blog já sabem que o Entrelinhas não consulta videntes e nem tem o dom de prever o futuro, mas quando arrisca um palpite sobre pesquisa eleitoral, em geral acerta. É com base na voz rouca das ruas, como diria um ex-presidente de triste memória, que o blog consegue o bom índice de acerto. As ruas, no caso, são as paulistanas, onde vive o blogueiro. Portanto, segue o palpite para as pesquisas que serão divulgadas amanhã (Ibope) e sábado (Datafolha), ressalvando que costuma haver diferença de um ou dois pontos nos resultados dos dois institutos, em função da diferença de metodologia.

Marta Suplicy - 42%
Geraldo Alckmin - 20%
Gilberto Kassab - 16%
Paulo Maluf - 8%
Soninha Francine - 2%
Os demais candidatos ficam abaixo de 1%

Ou seja, já teremos uma situação de empate técnico entre Alckmin e Kassab, com Marta estável ou oscilando ligeiramente, dentro da margem de erro. Quem viver verá.

PS: O Entrelinhas recebe apostas sobre as pesquisas até às 18h de amanhã. Quem conseguir acertar o resultado pode passar na tesouraria do blog para receber um DVD com os melhores momentos do horário eleitoral gratuito dos vereadores da capital. Afinal, se o leitor entende tanto de política, vai gostar do presente!

Cadê a crise que estava aqui?

A realidade parece estar mais uma vez conspirando contra os economistas catastrofistas. Como se pode ler abaixo, na versão da Folha Online, os números do crescimento do PIB americano no último trimestre foram bem diferentes do que previam os que já tocavam as trombetas do Apocalipse. Sim, a economia americana cresceu robustos 3,3% no último trimestre - para um país que "deveria estar" em recessão, como dizem nove entre dez analistas, o dado é um tanto desapontador. E também é desapontador para a oposição aqui no Brasil, que sonha acordada com uma crise de proporções monumentais para derrubar a popularidade do presidente Lula. Bem, pode até ser que o Apocalipse de fato aconteça, mas não vai ser na data prevista pelos sábios que palpitam sobre o comportamento da economia com a mesma desenvoltura que todo brasileiro critica o técnico Dunga...

A seguir, a matéria da Folha Online. Mais sobre o mesmo assunto, aqui e aqui - comentários de ontem e anteontem.

PIB dos EUA registra crescimento de 3,3% no segundo trimestre

A economia americana registrou um crescimento de 3,3% no segundo trimestre deste ano, após revisão do dado preliminar divulgado no mês passado --que havia mostrado uma expansão de 1,9%. Os dados foram divulgados nesta quinta-feira pelo Departamento do Comércio.

O resultado também superou as projeções dos economistas, que previam um reajuste para 2,7%. O crescimento de 3,3% se segue a um trimestre de desempenho econômico fraco, com expansão de apenas 0,9%; foi também o maior crescimento desde o terceiro trimestre do ano passado, quando houve uma expansão de 4,8%.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Candidatos à beira de um ataque de nervos

O site do TRE de São Paulo informa: o fim de semana vai ser agitado para os candidatos à prefeitura de São Paulo. Como se pode ver abaixo pelos registros oficiais das novas pesquisas, Datafolha e Ibope já estão em campo realizando os seus levantamentos, que deverão ser fechados na sexta, dia 29. Ou seja, garantia de emoção no Jornal Nacional de sexta...

Número da Pesquisa: 02100108-SPPE
Data do registro: 25/08/2008
Contratante: Empresa Folha da Manhã S/A
Contratada: Banco de Dados São Paulo Ltda. (Instituto de Pesquisas Datafolha)
Valor: R$ 59.000,00 (cinqüenta e nove mil reais)
Cargo: Prefeito de São Paulo
Período de realização: 29 de agosto de 2008

Número da Pesquisa: 02000108-SPPE
Data do registro: 25/08/2008
Contratante: GLOBO COMUNICAÇÃO E PARTICIPAÇÕES S/A e S/A O ESTADO DE SÃO PAULO
Contratada: IBOPE - Inteligência, Pesquisa e Consultoria Ltda.
Valor: R$ 38.250,00(trinta e oito mil, duzentos e cinqüenta reais)
Cargo: Prefeito de São Paulo - Capital
Período de realização: 26 e 29 de agosto de 2008

Nepotismo no DEM confunde a ultra-direita

A nota abaixo é do blog Coturno Noturno, de autoria de um militante ultra-direitista que assina com o pseudônimo de Coronel. Não deixa de ser engraçado ver a turma cobrar dos Democratas, esses verdadeiros paladinos da ética, uma postura um pouco mais coerente quando o assunto é nepotismo. É, nada como um dia após o outro para entender que quem posa de virgem no meio do prostíbulo não pode mesmo ser virgem...

Nepotismo: em vez de demissão, promoção.
Após a proibição do nepotismo pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o prefeito do Rio, Cesar Maia (DEM), e o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), se utilizaram de uma brecha para evitar a demissão de parentes: bastou promovê-los. É que o veto à contratação de integrantes da família para cargos de confiança não vale para funções políticas, como secretarias ou ministérios. Somos um país muito ordinário, não é mesmo, Rodrigo Maia?
Postado por Coronel às 06:55:00

Inflação? Não, deflação...

A reportagem abaixo, da Folha Online, parece confirmar a análise feita ontem neste blog e, de certa forma, também o artigo de Júlio Gomes de Almeida que está reproduzida no post anterior. Sim, ainda é cedo para dizer que o mar virou, mas as tendências são todas nesta direção. Resta saber o que pensam Meirelles e seus companheiros de Copom. Se a inflação está voltando para a meta, então não faz sentido dar outra pancada de 0,75 ponto percentual na Selic, não é mesmo?

Preços recuam em agosto e IGP-M tem primeira deflação desde 2006, diz FGV

O IGP-M (Índice Geral de Preços Mercado) teve deflação de 0,32% em agosto, queda acentuada em relação a julho, quando houve inflação de 1,76%. Foi o menor índice desde abril de 2006, quando houve deflação de 0,42%. No ano o índice acumula alta de 8,35% e nos 12 meses até agosto, a alta acumulada é de 13,63%. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Ainda sobre a crise que teima
em não dar as caras no Brasil

Este blog não concorda com tudo que vai abaixo, mas a análise é boa e o analista, qualificado. É um pouco longo, mas vale a pena ler na íntegra. O texto foi originalmente publicado no Terra Magazine. Para quem não quiser ir até o final, o resumo da ópera é simples: até 2009, é muito difícil que a crise iniciada nos Estados Unidos tenha alguma consequência mais grave aqui no Brasil. É ler para crer.


O contexto da crise e o Brasil

Julio Gomes de Almeida

A economia mundial vem tendo fortes oscilações nos últimos tempos, correspondendo a alterações também muito rápidas nas avaliações dos agentes econômicos e dos investidores internacionais a respeito da situação da crise global iniciada precisamente há um ano. Para muita gente nesse período a crise global já estaria solucionada e a economia mundial nesse segundo semestre de 2008 estaria acumulando forças para reiniciar o crescimento em 2009.

O quadro agora parece ser outro, sendo predominante a perspectiva de que a forte desaceleração nos EUA será mais duradoura do que se supunha e que na Europa e no Japão teremos retração da atividade podendo chegar à recessão. Não por acaso o Presidente do FED, Bem Bernanke, declarou na semana passada que "a tempestade financeira ainda não diminuiu, e seus efeitos para o conjunto da economia aparecem na forma de uma desaceleração da atividade econômica e a alta do desemprego". Atualmente é também maior a probabilidade de que países emergentes, liderados pelos BRICs, venham a sofrer mais intensamente uma redução de sua taxa de crescimento econômico.

Esses fatores, aliados ao fato de que as políticas monetária, fiscal e de intervenções dos bancos centrais nos mercados financeiros parecem ter chegado a um limite de utilização para fins de reativação da economia e controle da crise financeira, foram responsáveis por fortes quedas nos dois principais mercados de valores que ainda alimentavam ganhos para os mega investidores internacionais.

De fato, pela primeira vez nesse ano os mercados de ações e de commodities sofreram perdas muito significativas, de modo que no momento atual pode-se dizer que há uma desvalorização generalizada da riqueza a nível global, combinando perdas acentuadas nos mercados imobiliários, acionários e de commodities.

Em seu presente estágio, a situação acima descrita pode estar beneficiando mais do que prejudicando algumas economias dentre elas a economia brasileira porque reduz o perigo de inflação. No entanto o benefício de hoje ameaça se transformar em grave problema mais à frente. Pela primeira vez nesse ano as chamadas commodities (petróleo, soja, trigo, etc) tiveram seus preços reduzidos nos mercados internacionais. A depreciação de valores foi de magnitude apreciável e se prolonga por dois meses ou mais dependendo do caso, não configurando, assim, um simples movimento ocasional.

Esses menores preços resultam de avaliações que agora mais do que no passado recente se revelam mais pessimistas sobre o quadro de crescimento da economia mundial e da situação financeira de grandes empresas e bancos, especialmente dos EUA. A dúvida fez reverter a última das "bolhas" especulativas que tiveram lugar no último ciclo econômico.

A "bolha de commodities" vinha se formando nos últimos anos movida pelo intenso crescimento da demanda provocado pelo dinamismo da economia mundial, em particular da China. Porém, ganharia um enorme impulso em função da redução da taxa de juros nos EUA e da conseqüente valorização do dólar, daí as pressões inflacionárias que ocorreriam no Brasil e, de forma ainda mais grave, em vários outros países.

No cenário que se apresenta atualmente como mais provável, há uma trégua em curso na inflação de commodities, o que abre uma perspectiva muito favorável para que a recente redução do ritmo da inflação brasileira seja renovada e permita índices mais baixos de aumento de preços nesse e no próximo ano.

Como se sabe, em julho o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, que mede oficialmente a inflação no Brasil) foi menor (0,53%) do que em junho (0,74%), em função de menores elevações dos preços de alimentos. Mais importante, os índices parciais para inflação em agosto mostram que o recuo segue firme.

O índice de preços ao consumidor da FIPE-USP aumentou 0,38% na primeira quadrissemana de agosto e 0,34% na segunda quadrissemana, novamente em função de um ritmo mais brando para o item alimentação. Já o IGP-M, um índice calculado pela Fundação Getúlio Vargas, que em sua primeira prévia do mês de agosto registrara variação praticamente nula (0,01%), na segunda prévia anotou deflação de 0,12%.

Cabe notar que na segunda prévia de julho o índice havia sido de 1,79%, o que mostra a forte reversão recente do quadro inflacionário. Finalmente, a inflação pelo IPCA na primeira metade de agosto registrou uma intensa desaceleração. Foi de 0,35% no mês, contra 0,63% no mesmo período de julho, mais uma vez, devido a uma abrupta desaceleração dos preços dos alimentos.

É claro que diante da continuidade da trajetória acima fica muito melhor o horizonte projetado para economia brasileira em 2009 já que a elevação de juros poderá ser abreviada, com menores impactos sobre as contas públicas, o custo do crédito e as decisões de investir. Dois comentários adicionais se fazem necessários.

O primeiro é que o rendimento médio das pessoas ocupadas nas principais regiões urbanas do país, segundo divulgou na semana passada o IBGE, acusou significativo aumento real no mês de julho (3,0%) com relação ao mesmo mês do ano passado, o maior índice de crescimento desde janeiro. A pesquisa mostrou também que a massa real de rendimentos cresceu 7,2% nesse mês. Como cabe notar, a massa de rendimentos constitui a base do mercado interno consumidor.

Isso mostra que se daqui para frente a inflação de fato ceder, o rendimento real das pessoas e o poder de compra global da população brasileira sairão relativamente preservados da onda de majorações de preços que teve lugar no primeiro semestre do ano. Sofrerá pouco, em outras palavras, o poder de consumo da população.

O outro ponto é que não se deve subjugar os efeitos negativos que essa mesma conjuntura internacional pode gerar para a economia brasileira. Sendo aprofundado, o recuo dos preços das commodities irá ampliar os déficits no setor externo brasileiro que já sofre com um menor saldo comercial e com as altas remessas de lucros para o exterior. O Brasil também vem aceitando muito passivamente o rótulo de ser uma economia eminentemente produtora de commodities, o que pode lhe ser prejudicial por afastar investidores e gerar expectativas adversas sobre o seu crescimento.

Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Inflação cai: cadê a crise que estava aqui?

O jornalista Paulo Henrique Amorim gosta de dizer que a grande imprensa brasileira, ou "PIG (Partido da Imprensa Golpista)", como ele qualifica os jornalões e revistonas, criam uma crise por mês para "derrubar o presidente Lula". Este blog não concorda completamente com a tese de Amorim porque acha que Lula serve bem aos interesses dos poderosos, inclusive aos interesses dos barões da mídia.

Apesar disto, é forçoso reconhecer que os oligopólios de mídia e seus sempre mui bem pagos colunistas têm errado muito ao fazer previsões sobre o comportamento da economia brasileira. E têm errado sempre contra o governo, jamais a favor... O caso da inflação ilustra bem o comportamento da imprensa nacional. Dois ou três meses atrás, o que se lia nos jornais sobre a alta dos preços, especialmente dos alimentos, era assustador. O dragão estava voltando com força total e a impressão que se tinha ao ler ou ouvir certos colunistas econômicos era a de que o Brasil caminhava celeremente para um destino semelhante ao do Zimbabwe, onde a taxa supera 11.000.000% (sim, onze milhões) ao ano.

Bem, desta vez durou menos do que a "crise aérea" (por que será que a mídia parou de contar os minutos de atraso dos aviões?). Os preços já começaram a cair e os colunistas dos jornalões estão meio ressabiados, procurando uma desculpa qualquer para o erro nas previsões ("o preço das commodities no mercado internacional começou a cair mais cedo do que o previsto" é um dos mantras que se lê e ouve por aí).

É claro que existe uma grave crise no exterior e que mais dia, menos dia, o Brasil vai ser afetado. O problema todo é que o debate, pelo menos na imprensa, é carregado de wishful thinking dos barões da mídia e seus empregados, que apesar de já não verem em Lula o perigo que viam no passado, gostariam mesmo é de ter "um dos seus" no comando do país. Assim, vale a máxima do "quanto pior, melhor". O problema é que o Brasil, este mesmo país que "só cresceu mais do que o Haiti", como dizia Alckmin na campanha de 2006, insiste em continuar crescendo, apesar de toda a baderna lá fora. O mercado interno está mais dinâmico, em parte graças ao crédito farto, mas também ao aumento da massa salarial, e a economia nacional vai resistindo de maneira mais firme do que os opositores de Lula imaginariam ou desejariam.

A verdade é que o Brasil está hoje muito melhor preparado para enfrentar um momento de crise externa do que jamais esteve. Pode até ser que sofra um pouco mais adiante e também há muito para ser feito com o objetivo de minimizar os problemas. Tudo isto é certo. O que os brasileiros já perceberam é que dificilmente o país passará o sufoco que passou a partir de 1999, quando Fernando Henrique Cardoso deixou o barco correr, a sua própria reeleição passar, para só então tomar providências e evitar o colapso completo do sistema financeiro nacional. Os mais jovens podem não se lembrar, mas entre 1999 e 2002, o Brasil quebrou, ajoelhou no milho do Fundo Monetário Internacional e por meia década (inclusive no primeiro ano do primeiro mandato de Lula) teve a sua política econômica e monetária concebida a partir de Washington. Este cenário, o próximo presidente seguramente não vai enfrentar...

PS: Alguns colunistas já estão falando na "crise do subprime" brasileiro, que envolveria o maior endividamento da população, especialmente na compra de automóveis a prazo e no uso desenfreado de cartões de crédito. Bem, infelizmente, parece que também não é o caso, a julgar pelos números divulgados hoje pela Itaucard, conforme o leitor pode ver abaixo, na versão do portal Terra. É, pelo visto o pessoal vai ter que arrumar uma "crise" em outro setor qualquer para poder aporrinhar o presidente Lula...


Pesquisa: inadimplência com cartões de crédito cai para 4,6%

Um estudo, divulgado nesta terça-feira pela administradora de cartões do Itaú - Itaucard -, apontou que a inadimplência no setor de cartões de crédito no Brasil caiu de 7,6% para 4,6% no período compreendido entre junho de 2006 e junho de 2008. Segundo o levantamento, o consumo no varejo com o meio de pagamento cresceu 38% durante o mesmo intervalo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

As pesquisas e o cenário eleitoral

As rodadas de pesquisas do Datafolha e Ibope sobre as perspectivas dos candidatos em várias capitais de estado já são suficientes para uma análise sobre as tendências que estão se delineando nas eleições municipais deste ano. É claro que toda generalização é temerária, mas alguns fatos podem ser destacados, tendo como ponto de partida a realidade constatada pelos institutos de pesquisa neste momento, faltando pouco mais de um mês para o pleito. Vamos a eles:

Parece bastante claro que os candidatos governistas estão em alta neste momento, especialmente os que procuraram "colar" a imagem ao presidente Lula. É o caso, entre outros, de Marta Suplicy, em São Paulo, Márcio Lacerda, em Belo Horizonte, João da Costa, no Recife, Luizianne Lins, em Fortaleza, e Walter Pinheiro, em Salvador. Nem todos estão liderando as pesquisas, mas todos apresentaram um crescimento bastante rápido e expressivo após o início da campanha, período em que fizeram questão de demonstrar que apóiam o atual governo. No Rio de Janeiro, a situação é bastante curiosa: os três primeiros colocados – o bispo Crivella, a comunista Jandira e o peemedebista Eduardo Paes – se dizem aliados do presidente, que supostamente apóia o postulante de seu partido, o bom moço Alessandro Molon, até agora um autêntico sem-votos.

Não se pode, porém, dizer que tudo se deve ao presidente Lula. Nos casos de Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Salvador, por exemplo, os candidatos que cresceram também são apoiados pelos governadores de seus estados. Tem mais: Luizianne é candidata a reeleição, Lacerda e João da Costa têm o apoio dos prefeitos de BH e Recife. Em Porto Alegre, o líder é o prefeito José Fogaça (PMDB), também candidato à reeleição, que não se posiciona propriamente como um opositor de Lula, pelo contrário. Na segunda colocação na capital gaúcha estão as candidatas do PT e PCdoB, cada qual se dizendo mais próxima do presidente.

No fundo, só em três capitais de estados importantes há a presença de candidatos, com chances reais de vencer o pleito, que se colocam como oposição ao lulo-petismo: São Paulo (com Kassab e Alckmin disputando o espaço do eleitorado conservador), Fortaleza (o democrata Moroni Torgan está em segundo lugar) e Salvador, onde ACM Neto (DEM) luta para manter o espólio político do seu avô e para recuperar a força do "carlismo" na Bahia. No Rio, a oposição, à esquerda e à direita, está em frangalhos; em BH, simplesmente não se pode dizer que há oposição; em Porto Alegre, a direita não conseguiu encontrar uma candidatura que a represente e acaba despejando o voto útil em Fogaça...

Ao que as pesquisas indicam, são tempos difíceis para a oposição. Não é mesmo coisa fácil fazer campanha contra candidatos de um governo que obtém taxas altíssimas de aprovação popular. Dizer que as coisas estão bem, mas vão ficar mal por conta da ação do atual presidente, por exemplo, é quase um tiro no pé, pois ninguém quer ouvir que o futuro será pior que o presente... No fundo, ainda não dá para dizer que a eleição de 2008 será consagradora para o governo, mas ao que parece o resultado não será nem de longe a tragédia que previam alguns analistas no início do ano. Muita gente apostava que as consequências da crise americana já estariam presentes neste momento e seriam suficientes para mudar o humor dos brasileiros com Lula e seu governo. Não é o que está acontecendo, pelo menos até agora.

Folha ignora o fato político do Datafolha

Antes de analisar os dados da série de pesquisas do Datatafolha sobre o cenário eleitoral em várias capitais, cabe aqui um reparo à manchete da Folha de S. Paulo deste domingo, que ignorou a principal notícia da pesquisa referente à capital paulista. "Diferença Alckmin/Kassab cai à metade", foi o título escolhido. Ora, o fato mais importante da pesquisa não foi este, mas o crescimento da candidata petista Marta Suplicy, que agora está a 3 ou 4 pontos de fechar a eleição no primeiro turno. Como bem lembrou o professor Wagner Iglecias, a Folha deveria ter manchetado algo como "Kassab mantém dianteira sobre Maluf". Pelo menos ficaria mais claro para os leitores quem é o candidato preferido do jornal...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Iglecias: notas sobre o horário eleitoral

Em mais uma colaboração para o blog, professor Wagner Iglecias analisa o início da propaganda eleitoral em São Paulo. Abaixo, a íntegra do artigo.

Este missivista teve ontem a oportunidade de assistir, pela primeira vez, ao horário eleitoral gratuito, na televisão, com os candidatos ao legislativo da maior e mais importante cidade do país, São Paulo.

Tirante os candidatos do PT, falando pausadamente em frente a um bonito e moderno cenário, sobre suas propostas individuais e sobre as realizações da ex-prefeita e atual candidata Marta Suplicy, os candidatos do PSDB, sempre pautados pela sobriedade fria do candidato Geraldo Alckmin e os candidatos do PPS, que aparecem no vídeo com expressão natural e descontraída, como sua candidata Soninha, em meio a uma trilha sonora envolvente, o que se vê na propaganda política destinada aos candidatos a vereador, feita uma exceçãozinha individual aqui e ali, é mais do mesmo, mais do que já vimos em tantas outras eleições passadas.

Sucedem-se freneticamente na telinha, para torpor do telespectador, médicos e advogados, invariavelmente auto-intitulando-se doutores, além de pastores, líderes comunitários, empresários, ex-esportistas, artistas caídos no ostracismo e velhíssimas figuras da política tradicional, aquelas feitas nas relações clientelistas que marcam homens públicos e população, especialmente ao nível dos unicípios.

É verdade que os poucos segundos destinados a cada candidato impedem a apresentação de plataformas de trabalho mais detalhadas, mas batendo o olho na grande maioria tem-se a impressão de que eventuais segundos a mais poderiam ser vexatórios, dada a provável falta do que propor em termos concretos para a melhoria das políticas públicas disponibilizadas aos habitantes desta cidade. De fato, o que não falta na propaganda eleitoral para candidatos a vereador são as palavras “saúde e educação”, nesta ordem, saindo da boca das mais variadas figuras, pertencentes às mais distintas colorações partidárias. Já virou clichê, de tão repetido.

Isto é quebrado quando alguém que milita em alguma área específica de vez em quando aparece na tela, chamando a atenção para a necessidade de se ter um representante daquela demanda ou daquele setor na Câmara. Fora isso, a repetição ad nauseam de que o candidato a vereador tal está com o candidato a prefeito tal. E a jogadinha capiciosa de que “meu número é fácil”, com o candidato tentando chamar a atenção de um eleitor que ele supõe infantilizado para o fato de que o número de sua candidatura dá pra decorar com tranqüilidade, especialmente nos casos em que o prefixo de seu partido é sucedido por alguma coisa como 1,2,3 ou 4, 5,6.

Para embaralhar um pouco a cabeça do telespectador, em meio à apresentação dos candidatos dos partidos políticos que contam, efetivamente, com representatividade nos mais diversos segmentos da sociedade, aparecem aqueles caciques políticos que ninguém sabe de onde vieram, e para onde foram depois da última eleição, mas que controlam pequenas legendas.

Provavelmente são o que mais atrai a atenção das crianças e adolescentes que eventualmente assistem ao horário eleitoral, posto que são verdadeiras personagens, as quais vão e voltam, a cada dois anos, com seus paletós apertados e suas cabeleiras invariavelmente tingidas.

Não faltam também os candidatos que são filhos de políticos antigos, chamando a atenção para o sobrenome conhecido pelo eleitor desde eleições onde a urna eletrônica nem era utilizada. Provavelmente se imaginam com capacidade de herdar o butim eleitoral de seus pais.

Salta aos olhos ainda a quantidade de ex-deputados estaduais e mesmo ex-deputados federais que concorrem hoje à Câmara Municipal. Por que isto estaria ocorrendo? Estamos vivendo de fato uma derrocada dos antigos currais eleitorais e uma renovação nos legislativos, especialmente no estado e em Brasília, dai tanta gente que já teve dezenas de milhares de votos hoje aparecer choramingando uma chance na vereança municipal?

Agora, pra finalizar, apenas uma sugestão, deste modesto espectador e preocupado eleitor, à Justiça Eleitoral: o que tem de candidato lendo teleprompter no horário eleitoral não tá escrito! Tem muita gente muito ruim de dicção, sem expressão facial, com os olhos que, se o telespectador reparar bem, não olham para o centro da câmera, ou seja, ao fim e ao cabo, não se dirigem para o eleitor. Será que conseguir dizer meia-dúzia de palavras sinceras aos cidadãos esse pessoal consegue?

Afinal de contas, ninguém consegue acreditar em quem fala sem olhar pros olhos da gente. Não daria para, na próxima, limitar o uso deste recurso tecnológico e botar nossos ilustres candidatos a vereador para dizer o que realmente têm a oferecer à cidade?

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Datafolha está em campo

Se o prefeito Gilberto Kassab (DEM) ainda não sabe, este blog avisa que o instituto Datafolha está em campo neste momento, realizando levantamento sobre o cenário eleitoral na capital paulista. Como se sabe, na última pesquisa do Datafolha o prefeito enviou e-mail para todos os subprefeitos aconselhando-os a "agir" nos pontos em que o instituto fazia a pesquisa. Será que desta vez Kassab deu uma ligadinha para o pessoal?

Confira abaixo o registro oficial da pesquisa, publicado no site do TRE-SP.

Pesquisas Eleitorais Registradas - 1ª Zona Eleitoral
(responsável pelo registro de pesquisa do Município de São Paulo)
Número da Pesquisa: 01900108-SPPE
Data do registro: 18/08/2008
Nome do Instituto:Instituto de Pesquisa Data Folha
Contratante: Empresa Folha da Manhã S.A. e Globo Comunicação e Participações S.A.
Valor: R$59.000,00 por levantamento
Cargo: Prefeito de São Paulo
Período de Realização: 21 e 22 de agosto de 2008.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Levanta a mão, Kassab!

Engraçadinha a história abaixo, muito bem pescada pelo blog Leituras Favre. Talvez tenha sido um aviso da Folha para Alckmin...


De hospício: erguei as mãos
LAURA MATTOS
da Folha de S.Paulo

A agenda de Geraldo Alckmin de hoje diz que ele participa, com a sua mulher, Lu, da missa de Marcelo Rossi no Santuário do Terço Bizantino, que costuma reunir até 10 mil fiéis — e muitos eleitores.

Na quinta-feira passada, o padre-astro recebeu em seu altar Gilberto Kassab, que ganhou até bolo de aniversário e “parabéns” puxado pelo religioso.

Ao final, eis o que se deu no sermão:

“Quem tem alguma dor física levanta a mão!”, conclama Rossi.

Kassab não levanta.

“Quem é pego por maus pensamentos?”

Kassab não levanta.

“E pessimismo? Quem conhece alguém que fala coisas pessimistas?”

Kassab não levanta.

“Quem já sofreu a dor da traição?”

Kassab não levanta.

“Quem tem carências?”

Kassab não levanta.

“Para quem não levantou agora, nós temos um hospício aqui do lado.”

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Matando a cobra e mostrando o pau: projeto
de Azeredo é a menina dos olhos dos bancos

Juliano Spyer é um craque, sabe tudo e mais um pouco sobre o que vai pela rede mundial de computadores, a internet. A nota abaixo está no blog Não Zero e merece ser lida na íntegra. Juliano literamente mata a cobra e mostra o pau. O senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), além de pai do mensalão, é um sujeito muito bem articulado, como se pode ver abaixo. Com amigos assim, é difícil o tucanão mineiro se dar mal...

Bancos, saiam do armário e assumam a Lei Azeredo

Caro Sérgio Amadeu, me diga se estou deixando alguma coisa de fora neste raciocínio. (Os dados deste post vêm desta reportagem da Folha.)

1) Todos os anos os bancos pagam R$ 500 milhões às vítimas de fraudes na rede, clonagem de cartões e golpes em caixas automáticos. (O código de defesa do consumidor determina que é responsabilidade do banco, e nao do cliente, investigar a denúncia.)

2) A campanha de Eduardo Azeredo ao Senado em 2002 recebeu uma doação de R$ 150 mil da empresa Scopus, que pertence ao Bradesco e cuida da área de internet banking dessa instituição.

3) Se a chamada Lei Azeredo for aprovada na Câmara, os provedores de acesso deverão armazenar os registros de acesso dos usuários por três anos ou pagar multa de até R$ 100 mil. (Ou seja, os bancos terão como informação para fazer investigações e possivelmente os provedores se tornem co-responsáveis pelos crimes, tendo que assumir o pagamento da indenização.)

Faz sentido: os bancos querem instalar "câmeras de dados" na Web para funcionar como as câmeras internas em estabelecimentos comerciais e inibir a prática de crimes online. E ajudar a eleger o Azeredo e patrocinar a campanha de convencimento para que essa lei passe deve ficar mais barato do que pagar R$ 500 milhões ao ano.

Acho que os bancos têm o direito de defender os interesses deles. Nada contra, sou cliente de três e uso constantemente caixas automáticos e internet banking. São uma mão na roda.

A única conta que não fecha nesse quadro é o senador negar qualquer favorecimento aos bancos na nova lei quando inclusive técnicos da federação que representa os bancos (Febraban) reconhecem informalmente isso.

E pior: que a Lei Azeredo seja promovida como se fosse combater crimes como a pornografia infantil na internet.

Ao se falar em pornografia infantil a sociedade - especialmente quem não entende os detalhes técnicos e jurídicos da lei - naturalmente tende a ser receptiva. Não seria tão simples dizer que os bancos querem que os indivíduos abram mão de sua privacidade na rede para que eles, bancos, gastem menos.

Esse, na minha opinião, é o problema desta lei. É sabido que a Febraban foi a instituição mais ativa nas discussões no Congresso e no entanto a lei é vendida como se fosse motivada por sentimentos cristãos visando a defesa da moral e dos bons costumes dos cidadãos honrados e honestos do país.

Se os bancos consideram que estão sendo lesados, OK, tomem as providências legais inclusive para se protegerem, mas não por meio da desinformação.

Procura-se o "anti-Marta"

Uma boa maneira de entender o resultado da última pesquisa do Ibope sobre a eleição em São Paulo é olhando para trás. Sim, conhecer o passado ajuda a entender o presente e permite até que o analista faça previsões com algum grau de segurança.

Bem, então vamos lá. Primeiro, vale a pena lembrar como foram as eleições na capital paulista. Desde a redemocratização, tivemos cinco. A primeira foi em 1985, que consagrou o conservador Jânio Quadros (PTB). Contra ele concorreram Fernando Henrique Cardoso (PMDB) e Eduardo Suplicy (PT). Cardoso tinha tudo para ser o "anti-Jânio", mas fez muita bobagem na campanha e acabou perdendo para a sua própria arrogância. Sim, é verdade que Suplicy teve ali uma certa "culpa" porque sua candidatura dividiu o campo da esquerda, mas seria inimaginável para um partido em formação, como era o PT à época, deixar de disputar a eleição com um cabeça de chapa.

A eleição seguinte, em 1988, foi disputada por Paulo Maluf (PDS), que aglutinava o eleitorado conservador e na prática era o candidato do prefeito Jânio, José Serra (PSDB), João Leiva (PMDB) e Luiza Erundina (PT). Os três disputavam o voto dos setores progressistas e só na reta final Erundina se firmou como o "anti-Maluf", vencendo o pleito de forma surpreendente.

Quatro anos depois, em 1992, o PT lançou Eduardo Suplicy e a situação se inverteu. Paulo Maluf (PDS) logo se tornou o "anti-PT" - Aloysio Nunes Ferreira (PMDB) e Fábio Feldman (PSDB) ficaram à margem da eleição - e a campanha se tornou uma disputa entre Suplicy e o candidato do PDS, que acabou vencendo o pleito.

Em 1996, pela primeira vez foi eleito um candidato que representava a situação. Bem avaliado, o prefeito Paulo Maluf conseguiu eleger seu secretário de Finanças, Celso Pitta, pelo PPB, novo nome do PDS. A divisão do campo progressista entre Luiza Erundina (PT), José Serra (PSDB) e Francisco Rossi (PDT) também ajudou Pitta, pois o eleitorado não conseguiu escolher nenhum dos três como o "anti-Maluf". Ou melhor, até escolheu – Erundina passou para o segundo turno com 27% contra 14% de Serra e 7% de Rossi –, mas a candidata não conseguiu trazer para o seu lado o eleitorado tucano, que já começava a se distanciar do campo progressista e a pender para a direita.

A eleição seguinte foi uma das mais disputadas da história da capital. O governo de Celso Pitta foi um desastre tão grande que obrigou o seu padrinho Maluf a disputar o pleito para tentar reverter a péssima imagem deixada pelo seu sucessor. Nunca é demais lembrar que durante a campanha de 1996, Maluf havia recomendado o voto em Pitta de uma maneira bem arrojada: "Vote no Pitta. Se ele não for um bom prefeito, nunca mais vote em mim", dizia Maluf. Apesar da tragédia que foi a gestão Pitta, Maluf ainda tinha um eleitorado cativo - na verdade, ainda tem, mas muito menor hoje do que àquela época - e liderava as pesquisas. O PT lançou Marta Suplicy, que vinha de uma campanha para o governo do Estado muito bem sucedida, em que terminou em terceiro lugar por uma ínfima percentagem em relação ao tucano Mário Covas, que acabou batendo o mesmo Maluf e se elegendo governador. O PSDB apostou suas fichas no então vice-governador Geraldo Alckmin. Romeu Tuma (PFL) e Luiza Erundina (PSB) correram por fora. Marta passou para o segundo turno em primeiro lugar e por uma pequena margem Alckmin não superou Paulo Maluf. O tucano ficou na terceira colocação, mas desta vez o sentimento anti-malufista era bem maior do que em 1996 e o apoio do governador Covas a Marta acabou convencendo o pessoal do PSDB a votar na petista, que venceu a eleição como a representante do tal sentimento anti-malufista.

Na eleição de 2004, que ainda está fresca na memória dos paulistanos, a polarização entre as candidaturas da então prefeita Marta Suplicy (PT) e de José Serra, recém derrotado por Lula na eleição presidencial de 2002, se impôs com naturalidade. Foi uma eleição muito disputada: Serra jogou nos erros da adversária e conseguiu vencer, deixando em seguida a prefeitura para disputar o governo de São Paulo.

Tudo isto posto, é possível dizer que o eleitorado da capital se divide em dois grupos bastante distintos: o que procura uma alternativa progressista e o que se alinha ao representante conservador. Evidentemente, há os que se juntam ora a um lado, ora ao outro, dependendo do candidato e da conjuntura. Sempre que um dos lados apresenta uma candidatura forte, o eleitorado rapidamente identifica e se coloca ao longo da campanha em posição de apoio à tal candidatura. Se o outro pólo não tem um nome natural para o embate, o que o eleitorado faz é ir observando o comportamento dos candidatos até "encontrar" a alternativa - o que estamos chamando aqui de "anti-candidato". Algumas vezes, como ocorreu em 1996, a divisão acaba prejudicando um dos lados e sendo decisiva para o resultado da eleição.

Pois bem, hoje parece claro que o campo progressista escolheu Marta Suplicy como a sua representante. É muito difícil imaginar que Soninha ou Ivan Valente consigam crescer nesta conjuntura. A esquerda é de Marta e dela ninguém vai conseguir tirar este eleitor. No campo conservador, são três as candidaturas colocadas: a de Geraldo Alckmin (PSDB), Gilberto Kassab (DEM) e Paulo Maluf (PP). Muita gente acha que na verdade apenas Alckmin e Kassab estão na disputa, mas este blog não descarta a hipótese de uma guerra fratricida levar o eleitorado conservador a optar por Maluf, deixando os dois de fora de um eventual segundo turno. Claro que é uma hipótese ainda improvável, neste momento. Os paulistanos que gostariam de ver um conservador no Palácio do Anhangabaú estão tateando no escuro, procurando referências. Em 15 ou 20 dias, o cenário ficará mais claro. Se Alckmin cair mais um pouco, tudo pode acontecer. Se o ex-governador recuperar terreno, será ele o "anti-Marta". Só a partir daí será possível analisar melhor as perspectivas da própria Marta e do candidato da direita.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

DEM arrisca com slogan "lulista"

"Deixa quem sabe trabalhar". Pelo menos no programa televisivo dos vereadores do DEM, este foi o mote apresentado para exaltar a candidatura à reeleição do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Claro que é uma imitação do "deixe o homem trabalhar" da campanha do presidente Lula em 2006. O grande risco é o slogan acabar remetendo o eleitor a Lula e o PT. Neste caso, ao invés de funcionar a favor de Kassab, pode virar propaganda subliminar de Marta Suplicy. Aliás, bastaria o marqueteiro petista enviar um "deixa a Marta trabalhar" para embaralhar ainda mais a estratégia dos democratas...

Começou o espetáculo

Alguns acham que é um show de horrores. Outros, que se trata do melhor programa cômico em cartaz. Todo mundo diz que não gosta, mas a maioria dá pelo menos uma espiadinha, para rir, chorar ou até para tentar se informar. Sim, já está no ar o programa eleitoral gratuito, que começou nesta terça-feira com a apresentação dos candidatos às vagas nas câmaras municipais. E a verdade é que embora o modelo possa ser bastante aperfeiçoado, ainda é melhor do que o de outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, só candidatos que pagam pelo horário têm acesso à propaganda na televisão, o que estabelece uma barreira de entrada bastante importante na política.

É claro que o horário eleitoral obrigatório, assim como o voto obrigatório, é uma ferramenta importante para a conscientização da população, com todos os problemas e distorções que possa haver no sistema. É o momento em que o cidadão se depara com pessoas que pretendem representá-lo, seja no Legislativo ou no Executivo.

Em grande medida, a escolha que cada um faz é baseada na comparação entre os que se apresentam, e nada mais justo que eles possam se apresentar nos meios de comunicação. Talvez o ideal fosse a realização, no horário da propaganda eleitoral, de debates sobre os temas relevantes, escolhidos pelos próprios cidadãos. Nada de marqueteiro, nada de efeitos especiais. Apenas os candidatos, discutindo o futuro das cidades (ou do país).

Evidentemente, este não é o sonho de consumo dos políticos, que adoram marqueteiros porque eles utilizam, a torto e a direito, o velho e bom "método Ricúpero" (o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde).

O Brasil ainda está mais antenado nas Olimpíadas e menos na política (quem sabe agora algum maluco junte as duas coisas e tenha a brilhante idéia de fazer uma campanha pelo "impeachment" de Dunga). Na próxima semana, porém, os jogos terminam e a vida volta ao normal. Antes na novela em que pontifica a bela esposa de Ciro Gomes, agora no papel de malvada, os brasileiros terão alguns minutos para espiar o que estão a dizer os políticos. A partir deste momento, serão praticamente 30 dias de exposição. Em uma campanha curta, é preciso ser bem direto e aproveitar a exposição diária, ou quase, no rádio e televisão. Quem dormir no ponto vai ter que esperar por 2012...

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Campanha na TV vai começar com
José Serra no outro lado do mundo

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), arrumou uma viagem para o Japão justamente na primeira semana do horário eleitoral gratuito, quando seu candidato de coração, Gilberto Kassab (DEM), deverá fazer uso extensivo das imagens que gravou ao lado do governador, com objetivo de demonstrar ao povão que ele é o homem de Serra nesta eleição, e não o tucano Geraldo Alckmin. Bobo, Serra não é e só um mentecapto acredita que a "viagem estava programada há muito tempo e nada tem a ver com as eleições municipais", como gosta de dizer a assessoria do governador. Não, Serra nunca se move por motivação política, é sempre pelo bem estar da população... Ok, tem gente que acredita em mula sem cabeça, duende, papai Noel...

Antes de partir, porém, Serra mostrou que não foge da raia. No último minuto do segundo tempo, mandou entregar uma fita contendo um minuto de depoimento em apoio ao correligionário Alckmin. É óbvio que foi uma manobra para não deixar explícito a falta de apoio de Serra ao seu antecessor no cargo. Pensando bem, lembrou aquela famosa trovinha sobre a postura lusitana na segunda guerra mundial: "Portugal não foi a guerra, mas também não acovardou-se, botou pano preto em cima, escreveu em letras brancas: Portugal mudou-se."

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Marta abre 15 pontos sobre Alckmin

Faltando 3 dias para o início do horário eleitoral, Marta Suplicy (PT) abriu 15 pontos percentuais sobre o segundo colocado, o ex-governador Geraldo Alckmin, informa pesquisa Ibope divulgada agora pouco na TV Globo. Marta subiu 7 pontos e Alckmin caiu 5. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) caiu dois pontos e agora está em quarto lugar, atrás de Paulo Maluf (PP). O ex-prefeito tem 9% e Kassab, 8%.

Se subir mais 3 pontos percentuais, Marta supera a soma dos adversários e leva a eleição no primeiro turno. Neste caso, Dilma Rousseff que se cuide...

Abaixo, a íntegra da matéria do G1 sobre a pesquisa.

Marta sobe para 41% e Alckmin cai para 26%, aponta Ibope

Gilberto Kassab (DEM) oscilou negativamente de 10% para 8%.
A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais.

Do G1, em São Paulo - Pesquisa Ibope divulgada nesta sexta-feira (15) mostra que a candidata Marta Suplicy (PT) subiu sete pontos percentuais em relação à pesquisa anterior e soma 41% das intenções de voto na disputa pela Prefeitura de São Paulo.

Geraldo Alckmin (PSDB) caiu cinco pontos percentuais, passando de 31% para 26%.

Paulo Maluf (PP) permanece com o mesmo percentual do levantamento anterior (9%).

Já o atual prefeito e candidato à reeleição, Gilberto Kassab (DEM), oscilou negativamente de 10% para 8%.

O Ibope ouviu 805 eleitores na cidade de São Paulo entre estas terça (12) e quinta (14). A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. A pesquisa contratada pela TV Globo e pelo jornal “O Estado de S.Paulo” está registrada na 1ª Zona Eleitoral de São Paulo sob o número 01700108-SPPE.

Demais candidatos

Entre os demais candidatos, a vereadora Soninha (PPS) permanece com 2% das intenções de voto, enquanto Ivan Valente (PSOL) tem 1%. Anaí Caproni (PCO), Ciro Moura (PTC), Edmilson Costa (PCB), Levy Fidelix (PRTB) não atingiram 1% das intenções de voto.

O nome do candidato Renato Reichmann (PMN) constava no disco apresentado aos entrevistados, mas ele não foi citado por nenhum deles. Brancos ou nulos somaram 7%, enquanto 5% não sabem em quem votar ou não responderam.

Pesquisa Espontânea
Na pesquisa espontânea, na qual não são apresentados ao entrevistado os nomes dos candidatos, Marta Suplicy (PT) aparece com 29% das intenções de voto, contra 14% de Geraldo Alckmin (PSDB), 6% de Gilberto Kassab (DEM) e 5% de Paulo Maluf (PP). Soninha (PPS) apareceu com 1%. Os brancos ou nulos somaram 11%, enquanto 33% não responderam.

Segundo turno

O Ibope simulou três cenários diferentes para o segundo turno. Entre Marta e Kassab, a petista teria 55% e o democrata, 30%. Os brancos ou nulos somariam 12%, enquanto 2% não sabem. Já 1% não respondeu.

Entre Marta e Alckmin, o Ibope aponta empate técnico. A candidata do PT somaria 47%, contra 42% do candidato do PSDB. Os brancos ou nulos somariam 8%, enquanto 2% não sabem. Já 1% não respondeu.

Entre Alckmin e Kassab, o tucano teria 57%, contra 20% do candidato do DEM. Os brancos ou nulos somariam 18%, enquanto 4% não sabem. Já 1% não respondeu.

O estilo Serra de governar

A notícia reproduzida abaixo, originalmente publicada no blog do jornalista Lauro Jardim, da revista Veja, revela com perfeição o "estilo Serra" de governar. O tal bônus que será pago aos professores parece humilhante? Sim, é mesmo humilhante. O governador José Serra (PSDB) e sua secretária da Educação, oriunda do time montado por Paulo Renato quando ministro na gestão de Fernando Henrique, realmente acreditam que estão fazendo um bem danado ao professorado paulista. Na verdade, estão colocando uma cenoura para o burro andar e acham que é assim que se melhora o sistema educacional do Estado.

Ora, basta pensar um segundo e fazer algumas perguntas básicas para perceber que a coisa não pode funcionar desta maneira. Ora, se não há um programa de requalificação dos professores, se não estão sendo anunciadas modificações na estrutura do sistema educacional, então como é que vai haver melhoria no ensino? Volutarismo existe, mas tem limite. Se o governador José Serra destinasse os R$ 500 milhões que reservou para tamanha estultice aleatoriamente a, digamos, 500 escolas estaduais, provavelmente os resultados seriam melhores e o professorado não se sentiria humilhado por uma competição mesquinha para obter a melhoria salarial.

Sim, os neoliberais chamam este sistema implantado por Serra de "meritocracia". Este blog avalia que está mais perto dos brilhantes esquemas engendrados pelo apresentador Silvio Santos para premiar a sua audiência. Mais um pouco o governador Serra vai aparecer nas escolas gritando: "Quem quer dinheeirrooo???"


SÃO PAULO
Os bônus de Serra

José Serra lança hoje à tarde uma das pedras de toque de seu governo na área da Educação: o pagamento por desempenho aos funcionários da secretaria, que possui a maior rede de servidores do governo paulista. São 300 000 funcionários. E Serra tem reservado 500 milhões de reais para esses bônus.

As regras que Serra anunciará funcionam assim: cada escola deve atingir metas de aprendizagem anuais. Se a meta for ultrapassada, toda a equipe da escola receberá três salários a mais. Estão incluídos aí dos faxineiros aos professores, passando pelos diretores.

Se a meta for igualada, os servidores botam no bolso 2,4 salários a mais. E se 30% da meta for atingida, os servidores recebem 30% de bônus.

Se for verdade, é uma bomba

A nota abaixo está no site Conversa Afiada, do jornalista Paulo Henrique Amorim. Se esta comunicação realmente aparecer, o governador José Serra (PSDB) está em maus lençóis. Este blog não acredita que PHA esteja mentindo, longe disto. Ao que parece, ele apurou que as comunicações existem, mas não está de posse deste material, do contrário teria publicado para provar o que escreve. Portanto, é preciso aguardar e ver se a coisa toda aparece mesmo. Em se tratando de José Serra, o material pode perfeitamente sumir e nunca mais ser visto nem lembrado por ninguém...


SERRA QUERIA QUE NAHAS E DANTAS VENDESSEM A CESP

Paulo Henrique Amorim

Máximas e Mínimas 1374

. A investigação que levou à Operação Satiagraha recolheu todas as comunicações trocadas entre Daniel Dantas e Naji Nahas com o governador de São Paulo José Serra.

. Assim que fechou as condições para vender a Cesp, a primeira coisa que Serra fez foi entregar a empresa para que Nahas e Dantas se encarregassem da venda.

. Há um diálogo revelador em que Nahas diz a Serra que o valor de R$ 6 bilhões era muito alto.

. Serra dá a instrução: pedir os R$ 6 bilhões na primeira praça, ver a reação, e, se for preciso, baixar o preço.

. Esse é um dos poucos indícios da relação direta de Serra com a quadrilha de Dantas e Nahas.

. O vínculo permanente entre eles se faz da filha de Serra com a irmã de Dantas.

Alckmin & FHC; Serra & Kassab

É uma pena não ter aqui um scanner para reproduzir a página em que a Folha de S. Paulo publica matéria sobre o encontro do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo. Duas fotos ilustram as reportagens do jornal: a primeira, de Alckmin e FHC, sorridentes. Abaixo estão o governador José Serra (PSDB) e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), ainda mais sorridentes. As fotos foram batidas quase na mesma hora, evidentemente em locais bem diferentes. No fundo, é um retrato perfeito da cisão no ninho tucano. Serra não apenas não faz campanha para Alckmin como desafia abertamente o ex-governador, posando ao lado de seu real candidato no momento em que - e Serra sabia muito bem disto - Geraldo recebia um apoio de peso em seu próprio partido. O governador gosta de dizer que não fala de eleição durante eventos oficiais "para não mudar o lide", em uma referência ao início de uma reportagem, no jargão do jornalismo. Pois ontem, ao sentar ao lado de Kassab para o deleite dos fotógrafos, Serra impôs o seu lide. E Alckmin sabe disto.

PS às 12h01: este blog capturou a imagem da Folha no LeiturasFavre. Como se pode ver agora, a vida no tucanato é só sorrisos...

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Momentos emblemáticos de uma campanha

Pérola saída da boca de uma sarada estudante da FAAP, na manhã de hoje, ao final da palestra da candidata do PT à prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy na portentosa entidade educacional: "O problema da Marta é que ela não faz nada pelos ricos". Como diria Ancelmo Góis: é, pode ser...

PS. Tecla SAP para quem não é paulistano: a FAAP, Fundação Armando Álvares Penteado, é uma das mais tradicionais faculdades privadas da capital, com campus no coração de Higienópolis, uns dos bairros bacaninhas de se viver na cidade. A facu, como dizem os jovens, fica a poucas quadras dos apartamentos de Fernando Henrique Cardoso e Jô Soares, por exemplo. Os estudantes da USP acham que a FAAP é um verdadeiro antro de mauricinhos e patricinhas, mas talvez seja injusto generalizar...

Folha: quanto pior, melhor

Na sempre mui patriótica tarefa de mostrar aos brasileiros que o país vai de mal a pior, a Folha de S. Paulo destacou, nesta quarta-feira, em "abre de página", como se diz no jargão do jornalismo, uma reportagem que levava o seguinte título: "Cresce inadimplência em escolas de SP". Parece grave, não?

Passemos então aos subtítulos da "reportagem", que em tese deveriam complementar o teor da manchete principal:

"Média na cidade foi de 9,8% nos primeiros seis meses do ano; em 2007, o índice foi de 9,55%, segundo sindicato de estabelecimentos de ensino"

Bem, um crescimento de 0,25 ponto percentual não é exatamente algo muito significativo, de forma que se o título fosse "Inadimplência nas escolas permanece estável", também estaria correto. Mas o mais interessante aparece no segundo subtítulo.

"Em todo o Estado, a média de mensalidades que não foram pagas no primeiro semestre foi de 7,7%; em 2007, o índice foi de 8,1%"

Bem, aqui a variação também é pequena (0,4 ponto percentual), mas neste caso, como o leitor pode reparar, a média de mensalidades não pagas diminuiu em 2008, ou seja, a situação das escolas melhorou (a diferença se explica porque a indadimplência se refere a contas não pagas no prazo de 90 dias e este outro índice diz respeito às mensalidades que não foram pagas em todo o primeiro semestre). Chato, não? O subtítulo desmente o título...

Bem, na soma, fica patente a manipulação da Folha, que só pode ter uma das duas explicações a seguir: ou o jornal se rendeu docemente ao chororô dos donos de escola ou então gosta de pintar de cinza o céu azul da economia brasileira. Este blog tem a impressão que a segunda hipótese é mais crível.

Põe a mão no bolso, governador Serra!

As notinhas abaixo são do Painel da Folha de S. Paulo, editado por Renata Lo Prete. O governador de São Paulo bem que podia deixar de mesquinharia e ceder o terreno para a entidade que ele mesmo já presidiu. Aliás, parece que não pegou bem na direita babosa a presença do tucano Serra ao lado de Lula para prestar a devida homenagem à União Nacional dos Estudantes, que teve um papel importante na luta contra a ditadura militar. O pessoal da revista Veja, por exemplo, chama pejorativamente a entidade de UNEbras. Como se vê, esta gente não tolera nem o conservador José Serra. Vão acabar mesmo fazendo campanha para o Cabo Anselmo em 2010...

Assim...
Na cerimônia de cessão do terreno da União Nacional dos Estudantes no Rio, o ministro interino do Esporte, Wadson Ribeiro, que assim como José Serra já presidiu a entidade, sugeriu que o governador tomasse medida semelhante à de Lula em relação ao imóvel utilizado pela UNE em São Paulo.

...assado.
O tucano nada respondeu sobre a UNE, que funciona num edifício alugado da Sabesp, mas propôs recuperar o imóvel que no passado serviu de sede à UEE.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Demarco: a imprensa de Dantas

O artigo abaixo, além de um furo do Observatório da Imprensa – é a primeira vez que Demarco fala após a Operação Satiagraha –, ajuda o leitor desavisado a entender a motivação de certos "jornalistas" (ou gente que assim se apresenta, bem entendido). Antes que alguém questione, o blog avisa: Demarco é desafeto do banqueiro Daniel Dantas e trava uma complexa disputa judicial com o banqueiro. Mas conhece bastante bem, talvez melhor do que ninguém, o modus operandi de Dantas e seus comparsas. Vale a pena ler na íntegra.

A imprensa de Dantas

Por Luiz Roberto Demarco

Há quase uma década travo uma disputa jurídica com Daniel Dantas. A iniciativa foi dele, e a vitória foi minha. O modus operandi de Dantas, revelado fartamente pela imprensa brasileira no bojo da Operação Satiagraha, não é novidade para mais de uma dezena de juízes britânicos que, em diversas instâncias, sentenciaram os irmãos Dantas e colaboradores do Opportunity como "mentirosos", "defraudadores", "desacatadores de ordem judicial" etc.

As sentenças são definitivas e inapeláveis. As de última instância estão disponíveis no site do Her Majesty Privy Council (Suprema Corte Britânica) e constituem jurisprudência [ver aqui (item 44) e aqui (item 16)].

Sou proprietário de empresas de tecnologia de software de internet. Comecei do zero, não tive herança, não tenho dívidas e nunca tive qualquer tipo de financiamento público, ajuda de bancos estatais ou de fundos de pensão. Minhas empresas atendem a mais de 400 clientes em 18 países, sendo que 98% desses clientes, com suas receitas respectivas, são provenientes do setor privado. Não tenho ligação com nenhum partido político, não possuo ONG, nem "Lojinha do PT". Uma de minhas empresas é fornecedora de software de comércio eletrônico, utilizado por inúmeros clientes, avaliado em 2002 também pelo PSDB e pelo PFL, e o sistema é hoje modelo-base da disputa eleitoral americana na internet.

A introdução acima se faz necessária, para entender melhor as motivações da imprensa que opera a serviço dos interesses de Daniel Dantas. Entre um punhado de cunhados cúmplices e um exército de advogados milionários, a imprensa se tornou o principal baluarte de Dantas para operar suas estratégias pouco ortodoxas, visando manipular a opinião pública com o intuito de influenciar os poderes institucionais constituídos.

O trio ACM

A imprensa de Dantas é alicerçada no tripé ACM (Attuch, Chaer, Mainardi). Com seus estilos próprios, esses três jornalistas convergem de forma concatenada para atender aos desejos do banqueiro, há anos.

Leonardo Attuch é do inner circle de Dantas. Vai além de escrever centenas de notas e matérias alinhadas 100% com os interesses e as teses pirotécnicas do banqueiro. Tornou-se uma espécie de lobista junto a jornalistas, ligando para as redações ou colocando palavras na boca de seus entrevistados, como denunciou recentemente um italiano ao revelar suas trocas de e-mails com Attuch.

Em março de 2007, a Folha de S.Paulo noticiou que Daniel Dantas comprara 51% da Editora Três, onde trabalha Attuch. Na ocasião da compra os salários estavam atrasados e os jornalistas estavam em greve. Oficialmente a venda não ocorreu, nem para Dantas nem para outro comprador. Mas, ao que se sabe, desde então as contas da Editora Três estão em dia.

Diogo Mainardi sacrificou sua posição de colunista popular para escrever as teorias de Dantas sobre um inquérito italiano. São inúmeras colunas e podcasts sobre o assunto, enquanto seus próprios leitores o jogavam para o esquecimento na seção de Cartas da Veja. Ele me incluiu entre os seus alvos principais, com uma série de calúnias e difamações baseadas em ilações e insinuações falsas, cujo principal objetivo era ajudar Dantas a tentar se safar do Caso Kroll, do qual sou vítima e assistente da acusação.

Em 28/04/2005, Dantas fez um negócio com a Telecom Itália. Levou 50 milhões de euros a troco de nada. O negócio não saiu e o dinheiro nunca foi devolvido. Nem o principal, nem a comissão milionária paga ao seu amigo Naji Nahas. O assunto atinge em cheio um atual ministro de Estado. Mainardi tenta valer-se politicamente da questão italiana, mas nunca tocou no seu cerne – os 50 milhões de euros pagos a Dantas e sua relação com um ministro do governo que ele ataca.

O trio ACM (Attuch, Chaer, Mainardi) escreve as estórias em sincronismo. No dia 29/7/2008, Márcio Chaer escreveu neste Observatório um artigo ["A imprensa quer culpados"] que pretendia transformar em réus o delegado, o promotor e o juiz que prenderam Daniel Dantas. No mesmo dia, Mainardi ataca uma procuradora do MPF. Ambos usam a palavra "fascismo" nos seus textos. O artigo de Chaer teve 190 comentários, quase todos contrários ao articulista. Ao invés de debater seus pontos de vista, Chaer preferiu fazer o que faz quando monta notícias que interessam a Daniel Dantas. Atribuiu a autoria de comentários negativos sobre ele, como se tivessem sido feitos por mim. Claro que a verdade não o favorece. No passado, Leonardo Attuch forjou, junto com gente do Opportunity, o mesmo tipo de ataque, e a Justiça não lhes deu razão. Coincidentemente, a desqualificação é a principal linha de atuação de Dantas contra tudo e todos que contrariam seus interesses.

Jornalismo dublê

Dentro do trio ACM, sem dúvida aquele que mais se distancia de qualquer juramento do jornalismo é Márcio Chaer. Não se sabe se ele é jornalista, empresário ou assessor de imprensa. Ele mesmo assina ora como uma coisa, ora como outra. É proprietário da Dublê Editorial Ltda., que edita a revista eletrônica Consultor Jurídico. Em seu site a revista se define como "uma publicação independente sobre Direito e Justiça", traz Márcio Chaer como Diretor e membro do Conselho Editorial, e avisa que a redação funciona na Rua Wisard 23, na Vila Madalena, em São Paulo.

No mesmo endereço funciona a assessoria de imprensa de Chaer, a Original123. O site mostra o próprio comandando a assessoria. Ou seja, o mesmo personagem que escreve artigos como jornalista, assessora os que são noticiados nos seus artigos, que lhe pagam como assessor de imprensa.

Em novembro de 2007, o site da Original trazia uma relação de seus clientes. Mais de 80% eram advogados, interessados obviamente na publicação ou omissão das notícias "independentes" do Consultor Jurídico de Márcio Chaer. Vários desses advogados aparecem em uma representação da Brasil Telecom à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por superfaturamento de honorários. Entre eles, conforme noticiado, José Luis Oliveira Lima, advogado de Chaer, que recebeu R$1,05 milhão da BrT para defesa de interesses de Daniel Dantas. Outro cliente, Wald Advogados, recebeu R$18,8 milhões em honorários da Brasil Telecom, por 15 meses de trabalho entre 2004 e 2005. No expediente do ConJur aparece ainda um outro advogado de Dantas – Alberto Zacharias Toron – como "colaborador".

Em 05/08/2003, Chaer enviou proposta a Humberto Braz, braço direito de Daniel Dantas e preso por flagrante de suborno de um delegado da PF. Na proposta, intitulada "Serviço de Imprensa", o jornalista se prontificava a desenvolver trabalho de acompanhamento do contencioso da Brasil Telecom "de forma a trabalhar as informações de interesse da imprensa e que possam influenciar não só o entendimento da Justiça como também desestimular ajuizamento de ações contra a Companhia" e a criar, na internet, um "canal de comunicação com a comunidade jurídica – em especial, com a Magistratura – para oferecer subsídios e argumentos técnicos que possam ser usados em favor da Brasil Telecom no meio judicial, seja em julgamentos, seja para formar o convencimento de juízes".

No site atual da Original a lista de clientes desapareceu. Uma busca detalhada no ConJur, das notícias relacionadas aos advogados clientes da Original e dos clientes desses advogados, revela, na parcialidade e na omissão, onde estão os verdadeiros compromissos de Chaer. Se se juntar isto a uma análise detalhada das origens e destinos dos honorários superfaturados dos advogados de Daniel Dantas, evidencia-se uma boa oportunidade para a manifestação da Fenaj, da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e do Ministério Público Federal (MPF).

Estado de corrupção

Não vivemos em um "Estado Policial" como alguns querem fazer crer. O Brasil vive verdadeiramente um "Estado de Corrupção". O país perde, por ano, 160 bilhões de reais com corrupção e fraude, puxados principalmente pelos crimes de colarinho branco. Isso daria para construir cerca de 2 mil hospitais, 4 mil escolas ou 5 milhões de casas populares. São recursos desviados ilegalmente de brasileiros pobres para criminosos inescrupulosos com dinheiro, formação acadêmica, terno e gravata. A Constituição prevê que todos os brasileiros sejam iguais perante a lei, não importando se eles são banqueiros, advogados, jornalistas ou dublês.

Uribe pode dar 3° mandato a Lula

Imaginem se o PT ousasse fazer o que fez o partido de Álvaro Uribe, conforme a matéria publicada hoje na Folha de S. Paulo, reproduzida abaixo. A oposição certamente já estaria aos berros, acusando o presidente Lula de tentativa de golpe de Estado. A ultra-direita, então, cairia matando, provavelmente enxergando no maléfico Foro de São Paulo o comando estratégico da operação lulo-petista, em mais um grande passo para implantar a velha e boa ditadura do proletariado em toda a América Latina. Como se pode ver na matéria, porém, lá na Colômbia parece que o povão está mesmo querendo mais quatro anos para Uribe, coisa que pelo visto os direitistas terão que engolir ou tentar justificar com algum argumento um pouco mais sofisticado do que "a Colômbia é a Colômbia, o Brasil é o Brasil". Afinal, se é tão essencial assim para a democracia o limite de uma reeleição, então porque o grande vencedor da guerra contra as Farcs poderia concorrer pela terceira vez?

No fundo, talvez seja bom que Uribe consiga o direito de disputar o terceiro mandato, pois abriria caminho para o PT tentar o mesmo. Este blog não acha que terceiro mandato é sinônimo de ditadura. Ao contrário: como diz o ditado, em time que está ganhando não se mexe. Até para a oposição não há mal nenhum em disputar contra Lula mais uma vez. O debate fica mais direto e o presidente pode responder pelos seus acertos e erros. Quem quiser enfrentá-lo, que se habilite. Tudo bem às claras, tipo pão pão, queijo queijo.

Vale a pena, portanto, acompanhar de perto o processo político da Colômbia. De lá podem vir todas as respostas que o Brasil espera em 2010.


Terceiro mandato de Uribe recebe apoio de 5 milhões

Partido governista apresenta abaixo-assinado pró-referendo que permita reeleição

Número de firmas coletadas é muito superior ao mínimo de 1,4 milhão estabelecido por lei colombiana; próxima fase é debate no Congresso

FABIANO MAISONNAVE
DE CARACAS

O Partido Social da Unidade Nacional (Partido de la U), da base de apoio de Álvaro Uribe, entregou ontem às autoridades eleitorais mais de 5 milhões de assinaturas solicitando a convocação de um referendo para autorizar que o presidente colombiano possa concorrer a um terceiro mandato.
O secretário-geral do partido, Luis Guillermo Giraldo, disse a jornalistas em Bogotá que "sonha acordado com uma Colômbia em 2014, quando o presidente Uribe entregar a Presidência com nenhuma guerrilha e nenhum paramilitar".
O total de 5.021.873 assinaturas, distribuídas em 3.000 planilhas e levadas em três caminhões blindados, supera largamente o 1,4 milhão de firmas exigido pela legislação colombiana (5% do eleitorado do país). Agora, o Registro Nacional do Estado Civil (RNEC) tem 30 dias para certificar ou não as assinaturas.
Caso haja a validação, o próximo passo será apresentar o projeto formalmente no Congresso, onde o tema do terceiro mandato não é consenso na base governista, que tem uma confortável maioria.
"Uma vez que as assinaturas sejam reconhecidas, os partidos se reunirão. Já há um anúncio do partido [governista] Cambio Radical em favor, mas até agora o tema é a validação das firmas", disse à Folha o senador do Partido de La U, Carlos García, ao ser questionado sobre a divisão interna.
Caso seja aprovada pelo Congresso, a nova legislação precisará também do crivo da Corte Constitucional. Após isso, o governo tem oito dias para convocar o referendo, que precisa ser realizado em até três meses. O Partido de La U estima que, se tudo ocorrer dentro do previsto, a consulta será em meados do ano que vem.
Em seu primeiro mandato (2002-2006), Uribe conseguiu no Congresso a aprovação de uma emenda constitucional que lhe permitiu concorrer à reeleição, num processo que hoje está sob investigação após a condenação de uma ex-parlamentar que admitiu ter vendido o seu voto.
Em razão de sua política de segurança, que diminuiu os índices de violência nos grandes centros urbanos e impôs várias derrotas às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Uribe mantém um índice de aprovação superior a 80%, segundo pesquisas de opinião. Seu mandato atual vai até 2010.
A oposição e até mesmo setores do uribismo têm criticado a possibilidade de um terceiro mandato. Já Uribe não descarta abertamente a possibilidade. Questionado sobre a posição do presidente, o senador García disse que "isso tem que ser perguntado a ele".

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Mainardi: jornalista processa jornalista?

O mundo gira, a Lusitana roda. Nada como um dia após o outro para que as pessoas se revelem por inteiro. É até bonito, isto, a revelação. O colunista da revista Veja e suposto jornalista Diogo Mainardi reagiu com indignação quando o jornalista Franklin Martins, à época comentarista da TV Globo, resolveu processá-lo pelos crimes de injúria, calúnia e difamação. Conforme escreveu em sua coluna na Veja, a atitude de Martins foi "absurda". "Jornalista não processa jornalista", disse o guardião da ultra-direita, argumentando que as rixas entre colegas deveriam ser resolvidas no espaço público de seus veículos de comunicação.

Ao que parece, Mainardi mudou de idéia. A reportagem reproduzida abaixo, originalmente publicada no portal Comunique-se, informa que ele, Diogo Mainardi, está processando o colega Luis Nassif. Ora, pode até ser que Nassif tenha mesmo pesado a mão nas sempre pertinentes críticas que faz à revista Veja e a Diogo, em especial. Bem, mas a idéia não era discutir tudo em público, cada um usando o veículo para o qual trabalha?

Tudo somado, a verdade é que Mainardi não passa mesmo de uma espécie de "kamikaze" a serviço de interesses bem escusos, pronto para ser usado na doce tarefa de destruir reputações. Com total apoio da editora Abril, responsável pela publicação de Veja, diga-se de passagem.

Este blog não conhece os detalhes do processo, mas torce para que Mainardi perca e tenha de pagar pelo menos as custas do processo.

A seguir, a matéria do Comunique-se na íntegra.


Mainardi processa Nassif

Sérgio Matsuura

O colunista Diogo Mainardi, da Veja, sempre afirmou que “questões de imprensa devem ser resolvidas no âmbito da imprensa. É a regra número um do meu código de ética profissional”. Entretanto, ele entrou com um processo por danos morais contra o Ig e o jornalista Luis Nassif.

“Eu não estou processando um jornalista. Estou processando um caluniador a serviço do Governo”, disse Mainardi.

A ação se refere a artigos publicados no blog Luis Nassif Online mantido pelo portal Ig. De acordo com a acusação, as matérias “ofenderam intencionalmente o bom nome e a moral do autor (Mainardi), colocando em xeque o jornalismo por ele desenvolvido”.

Os advogados de Mainardi pedem a retirada das informações do blog, indenização por danos morais e a publicação da eventual sentença condenatória no portal Ig.

O valor da indenização não foi definido, mas, de acordo com Mainardi, “será menos do que o Nassif recebeu do BNDES”.

Nassif conta que está “absolutamente tranqüilo” em relação ao processo e afirma que todas as matérias contestadas pelo colunista de Veja possuem um fundo jornalístico.

Em seu blog, Nassif comenta o processo movido por Mainardi, afirmando que a Veja busca “calar os críticos entupindo-os de injúrias e processos”.

Após a Operação Satiagraha da Polícia Federal, os dois jornalistas trocaram acusações. Em seu blog, Nassif publicou artigos sobre a inclusão do nome de Mainardi no relatório da PF. Por sua vez, Mainardi publicou coluna chamando Nassif de “banana”.

Nassif não é o único jornalista com disputas judiciais com Mainardi. Na última quarta-feira (06/08), o Tribunal de Justiça de São Paulo condenou o colunista da Veja e a editora Abril a pagar R$ 207.500 a Paulo Henrique Amorim.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Tudo depende do império?

A seguir, em primeira mão para os leitores do blog, o artigo do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania.


Muita gente boa gostaria de ter uma bola de cristal para saber o que vai acontecer em 2010, ano em que, pelas regras atuais, os brasileiros pela primeira vez desde a redemocratização escolherão um presidente da República sem que o nome de Luiz Inácio Lula da Silva esteja presente na urna eletrônica. Analisando o cenário com os olhos do presente, qualquer estudante do primeiro ano de um curso de ciência política pode concluir que Lula será um fortíssimo eleitor e que seu candidato, seja ele (ou ela) quem for, deverá polarizar a eleição com a aliança PSDB-DEM, que estará mais uma vez unida, provavelmente em torno do governador de São Paulo, José Serra. No mais, a extrema esquerda deve lançar uma candidatura - Heloísa Helena (PSOL) é o nome mais provável, e mais alguns nanicos animarão a disputa.

Bem, de fato, este é o cenário mais provável hoje. Até outubro 2010, porém, há um espaço de 2 anos e dois meses e muita coisa pode mudar. No fundo, é possível estabelecer duas ou três hipóteses básicas de trabalho. A partir delas, é possível, sim, pintar um cenário para a eleição presidencial. No fundo, muito do que vai acontecer no Brasil tem relação direta com o que se passa na economia mundial, especialmente na economia norte-americana.

A primeira hipótese de trabalho é a de agravamento da crise financeira mundial, deflagrada a partir dos problemas com o mercado imobiliário norte-americano. Se a situação internacional realmente piorar, é inevitável que os países emergentes, Brasil incluso, venha a sofrer alguma consequência, talvez não ainda em 2009, mas certamente em 2010. Neste cenário, o presidente Lula certamente não moveria uma palha para mudar a legislação e disputar um eventual terceiro mandato. Torceria para a sua gestão acabar logo e sem que o povão tivesse a percepção de um fracasso no final do mandato. É muito difícil imaginar uma deterioração tão rápida da economia, de forma que ainda que o país entre em uma curva descendente, o ritmo pode sustentar uma candidatura viável no campo das forças que hoje estão no Poder, neste caso com apoio de Lula. De toda maneira, este é o cenário mais favorável à oposição, especialmente se o candidato for mesmo o governador Serra, que poderia se apresentar como um homem experiente e conhecedor dos mecanismos complexos da economia.

Apenas no caso de um agravamento muito rápido e profundo da economia é que se poderia apostar no crescimento seja de uma candidatura à esquerda do PT (Heloísa Helena, naturalmente) ou no surgimento de um "outsider" à direita da aliança PSDB-DEM (Fernando Collor ou um clone do original).

Um segundo cenário que se poderia vislumbrar é o de agravamento da crise externa com o descolamento desta crise nos países emergentes. Neste caso, o presidente Lula e o PT ganhariam um excelente mote de campanha, qual seja o de conseguir manter o Brasil no rumo do crescimento em um ambiente carregado no resto do planeta. Não custa lembrar que o principal argumento de Geraldo Alckmin (PSDB) em 2006 era o de que desejava ser presidente para fazer o país aproveitar melhor a "janela de oportunidades" que a bonança da economia mundial proporcionava. A principal crítica do tucano a Lula era a de que o Brasil "só crescia mais do que o Haiti". Bem, o argumento era falacioso e Alckmin não tinha um projeto alternativo de governo, como se sabe hoje, mas o importante aqui é ressaltar que aquela estratégia, na hipótese que estamos considerando, nem sequer poderia ser utilizada. Provavelmente, a oposição, ainda considerando Serra como candidato, apostaria neste caso em uma campanha semelhante a do tucano para o governo de São Paulo, em que nada se dizia a respeito de coisa alguma, mantendo foco nas supostas qualidades pessoais do candidato. Neste segundo cenário é também difícil vislumbrar as possibilidades de crescimento de uma candidatura alternativa, à esquerda do PT ou à direita do consórcio tucano-democrata.

Por fim, na terceira hipótese de trabalho vamos pressupor que a crise financeira perca força no próximo ano e a economia mundial comece uma nova onda de crescimento, com consequências benéficas ao Brasil. Bem, este talvez seja o único cenário em que o presidente Lula poderia tentar pagar o preço, bastante salgado, de mudar a Constituição e concorrer a um terceiro mandato. Na atual circunstância, Lula seria imbatível - reservadamente até tucanos e democratas dizem isto. Neste cenário, é possível que o próprio governador Serra desistisse do projeto presidencial e tentasse a reeleição em São Paulo, abrindo caminho para uma candidatura de Aécio Neves ou ainda uma "anti-candidatura" do DEM. É claro que não dá para cantar vitória antes da hora, mas dificilmente o presidente Lula deixaria de ser mais uma vez reeleito, ancorado nos bons números de seu governo e na melhoria da condição de vida da população.

Até 2010, portanto, o melhor que um estudante de ciência política que queira dar um bom palpite sobre a eleição pode fazer é ficar de olho nos indicadores da economia mundial, especialmente da norte-americana. É para lá que também está o olhar do presidente Lula, do governador Serra e de todos os protagonistas da disputa política nacional.

A crise do subprime e o bar do seu Biu

O que vai abaixo é a melhor explicação para a tal crise do subprime nos Estados Unidos. A história circula na blogosfera, mas a autoria é desconhecida. O texto é simplesmente um primor, vale a pena ler até o fim.

Entendendo a complexidade da crise subprime americana

"Entender a crise não é fácil (vide as tentativas de David Leonhardt, em um excelente artigo para o NYT), mas permitam-me oferecer um similar nacional, pesquisado pelo nosso intrépido correspondente Osto Craudiley.

É assim: o seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça "na caderneta" aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobrepreço que os pinguços pagam pelo crédito).

O gerente do banco do seu Biu, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constitui, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento tendo o pindura dos pinguços como garantia.

Uns seis zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.

Esses adicionais instrumentos financeiros alavancam o mercado de capítais e conduzem a que se façam operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Biu ).

Esses derivativos estão sendo negociadas como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

Até que alguém descobre que os bêubo da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu Biu vai à falência. E toda a cadeia sifu.