sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Sobre a queda de Renan

Nove entre dez analistas políticos que acompanham o cenário brasiliense apostam que o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) não voltará ao cargo de presidente do Senado da República. É um pouco cedo para tal vaticínio, mas de fato é o mais provável no momento.

Muito já foi escrito e falado sobre o episódio envolvendo o presidente do Senado. Sua ex-namorada virou capa da Playboy e desfila por aí em programas de televisão promovendo as vendas da revista, até para ganhar mais uns trocados, uma vez que receberá um percentual do preço de capa da publicação. Pois Renan caiu exatamente dois dias após Mônica Veloso aparecer como veio ao mundo – leitoras do blog já reclamaram que "não foi bem assim" e que houve intervenção da "mão divina" do Photoshop, mas isto realmente não vem ao caso para o raciocínio em curso. É evidente que a licença de Renan não se deve à nudez de Mônica, mas não deixa de ser uma ironia que as coisas tenham acontecido desta forma.

Não deixa de ser uma ironia porque Calheiros de fato se afastou sem que haja uma única prova concreta da acusação original que o levou ao Conselho de Ética pela primeira vez e, depois, à absolvição no Plenário do Senado. Para quem não lembra mais, a acusação era de que ele, Renan, utilizava os serviços (e recursos) de um lobista da Mendes Jr. para pagar a pensão de sua filha com Mônica Veloso. Ora, Renan reconheceu desde o início que era Cláudio Gontijo quem fazia os pagamentos, mas alega que este arranjo existia em função de ele manter o caso extraconjugal em segredo.

Como diriam os italianos, "se non è vero, è bene trovato". Em bom português, faz sentido, sim, que ele não fizesse o pagamento da pensão com transferências de sua conta bancária para a de Mônica, como se isto fosse a coisa mais natural do mundo, uma conta de luz ou telefone a mais... A acusação ao presidente do Senado, portanto, era de que ele teria quebrado o decoro parlamentar porque aceitou que um lobista e/ou a empresa que Gontijo representava pagassem suas contas pessoais. Como não restou provado que Gontijo e/ou a Mendes Júnior tivessem algo a ver com a coisa além da intermediação dos pagamentos, os senadores preferiram absolver Renan no mês passado.

Tudo caminhava para o desfecho do caso – as outras representações contra Calheiros eram todas mais fracas do que a original – quando surgiram fatos novos. Por um lado, o senador Democrata Demóstentes Torres (GO) acusou um assessor da presidência do Senado de articular uma operação de espionagem contra ele próprio e seu colega goiano Marconi Perillo (PSDB); e praticamente ao mesmo tempo foi anunciada a decisão da bancada do PMDB no Senado de afastar Jarbas Vasconcelos (PE) e Pedro Simon (RS) das vagas do partido na Comissão de Constituição e Justiça. Senadores de oposição e até da base aliada acusaram Calheiros de estar por trás dos dois movimentos, o que o senador alagoano negou com veemência.

Ainda que Renan nada tenha a ver com os dois acontecimentos – Chiquinho Escórcio, o assessor envolvido na "espionagem" é sabidamente muito mais ligado ao senador José Sarney (PMDB-AP); e Valdir Raupp (PMDB-RO) pode ter afastado Jarbas e Simon até mesmo a pedido do Planalto –, o fato é que os dois acontecimentos foram decisivos para a queda de Renan: não era o momento para nada disto acontecer, ainda mais com a tramitação da prorrogação da CPMF e da DRU chegando ao Senado, com perspectiva de difícil negociação. No fundo, juntou-se a fome oposicionista de derrubar Renan com a vontade de comer governista para aprovar logo o imposto do chque. Sobrou para Renan, que foi quem pagou o pato.

Tudo somado, é preciso lembrar que poucos analistas políticos andam fazendo a pergunta que realmente importa no episódio: cui prodest? Em português claro: a quem aproveita a saída de Renan Calheiros da presidência do Senado? O que está por trás de tamanha avalanche de denúncias contra um político hábil e que sempre teve excelentes relações com todos os partidos políticos e serviu ou teve cargos importante nos governos Sarney, Collor, FHC e Lula?

Ainda é cedo para saber o que vai nos bastidores da tão falada derrocada de Calheiros. É cedo até para afirmar que houve tal derrocada. Alguns analistas escrevem como se a carreira do senador alagoano já estivesse encerrada. Talvez sejam os mesmos que vaticinaram, em meados de 2005, que a reeleição do presidente Lula seria uma tarefa humanamente impossível...

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