segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Revista Veja dá capa para Hugo Chávez e
ensina como editorializar uma reportagem

A revista Veja consegue se superar a cada edição. A capa desta semana foi para a eleição do venezuelano Hugo Chávez, reeleito para mais um mandato de 6 anos. O lide da "matéria" segue abaixo e poderia ser utilizado nas escolas de comunicação como exemplo do que jornalistas não devem fazer. Senão vejamos:

Com o cubano Fidel Castro no leito de morte, o coronel Hugo Chávez, ditador eleito da Venezuela, está se apresentando como o novo farol da esquerda revolucionária na América Latina. "Ninguém vai me impedir agora de construir o socialismo", disse Chávez, na semana passada, depois de reeleito para mais seis anos no poder. Ninguém impediu Fidel. Deu no que deu. Cuba tornou-se hoje uma nação pária no mundo, com uma população faminta, despreparada para os rigores da economia globalizada e, mesmo que alfabetizada no jargão marxista, iletrada nas questões que determinam a riqueza das nações. Aparentemente, ninguém vai impedir Chávez de continuar sua tarefa de construção do socialismo na Venezuela. Tanto em Cuba quanto na Venezuela – e de resto em todos os outros lugares onde a experiência foi testada – a construção do socialismo coincide sempre com a destruição dos países nos quais o sistema é implantado. Cubanos e venezuelanos são hoje povos com horizonte menor do que tinham antes de ser submetidos a ditaduras socialistas.


Em primeiro lugar, Veja qualifica o presidente venezuelano de "ditador eleito", o que não chega a ser uma contradição em si, pois de fato há ditadores que forjam eleições (além dos eleitos indiretamente, como os generais-presidentes brasileiros). O problema é que Chávez venceu uma eleição acompanhada de perto por mais de 400 observadores internacionais, que atestaram a letigimidade do pleito. Chávez, portanto, não pode ser qualificado de "ditador eleito". Não bastasse isto, o lide da "reportagem" continua em um tom completamente editorializado, fazendo a condenação do regime socialista de forma tão peremptória que o leitor ou descarta o texto de imediato, se tiver um mínimo de senso crítico, pois o contrabando ideológico é evidente; ou segue em frente, se tiver simpatia pelas idéias expressas pela revista.

A verdade é que Veja optou por se fechar cada vez mais em torno desta fórmula: um anti-comunismo tosco e obsoleto que permeia praticamente todas as reportagens sobre assuntos políticos e até os que nada têm a ver com política. Há um público que gosta, acha válido o "combate" dos cruzados que se encarregam de escrever a revista contra as forças do mal. No futuro, a revista vai ser estudada nas faculdades como um exemplo de panfleto ideológico de extrema direita que conseguiu ser bem sucedido e vender mais de um milhão de exemplares. Porque Veja hoje é exatamente isto: um panfleto e como tal deve ser tratado.

Um comentário:

  1. Colega, o que leva a Veja a fazer isso não é um "anti-comunismo tosco" como vc diz. Em 2002 ocorreu uma tentativa de golpe de estado na Venezuela para derrubar Chávez, que havia seido democraticamente eleito. Esse golpe foi tramado pela embaixada americana em conluio com o maior grupo economico da Venezuela, dono dos principais jornais e revistas de lá, o grupo Cisneros. As reuniões dos golpistas ocorreram nos escritórios desse grupo. A Veja na época chegou a comemorar com uma chamada na capa a "queda do fanfarrão". A população se mobilizou e Chávez voltou ao poder. Adivinha qual é o grupo internacional que desde 1998 detém cerca de 15% do controle acionário da Editora Abril? Isso mesmo, o grupo Cisnero. Eles tentatram nessa última eleição usar a mesma t´patica que quase deu certo na Venezuela. Esses grupos não têm ideologia de esquerda ou direita, e sim do lucro máximo a qualquer custo, se a realidade não está dando lucro, eles inventam outra mais lucrativa.

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