quinta-feira, 24 de abril de 2008

Aliança entre DEM e PMDB em São
Paulo altera o cenário político nacional

O autor destas Entrelinhas esteve com excesso de trabalho nos últimos dias e só agora pode dar uns pitacos sobre o fato político da semana – a aliança selada nesta quinta-feira entre os Democratas e o PMDB de São Paulo em torno da candidatura do prefeito Gilberto Kassab (DEM) à reeleição na capital do Estado.

Um exercício honesto de análise política deve levar em conta alguns pressupostos fundamentais para o entendimento do que está em curso. Vamos a eles:

1. Os governadores Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) disputam desde a posse do presidente Lula para o seu segundo mandato a indicação do PSDB para disputar a sucessão presidencial em 2010. Pouca gente acredita, mas o ex-governador Geraldo Alckmin (SP) também está neste jogo, cacifado pelos 40 milhões de votos que obteve em 2006, que sem dúvida conferem um enorme efeito "recall", como os marqueteiros gostam de dizer. É claro que Alckmin larga em desvantagem por não estar ocupando no momento nenhum cargo público relevante, mas é bom lembrar que Lula também não ocupava cargo algum quando concorreu em 1989, 1994, 1998 e 2002...

2. O campo governista não tem até agora, faltando pouco mais de dois anos para as eleições de 2010, nenhum " candidato natural" à sucessão do presidente da República. O nome mais forte que se apresenta é mesmo o do próprio Lula, que pela atual legislação está impedido de concorrer.

Posto isto, vamos ao que de fato importa.

Até o estabelecimento da aliança entre DEM e PMDB em São Paulo, o governador José Serra estava em uma posição bastante complicada para levar adiante a sua pretensão - alguns dizem que se trata de idéia fixa - de se tornar presidente do Brasil. Realizando um governo medíocre em São Paulo, Serra só aparecia no noticiário quando alguma tragédia ocorria no Estado. Primeiro foi o desastre no Metrô, depois veio a ocupação da USP, e logo em seguida, o acidente com o avião da TAM em Congonhas (em que o governador, antes de prestar solidariedade às famílias das vítimas, correu para culpar o governo federal pela tragédia). Na soma, só notícias ruins, nem umazinha positiva. Estava difícil.

Ao mesmo tempo, o rival Aécio Neves desfilava fazendo charme ao PMDB, dando palpites na eleição municipal de São Paulo, avalizando a candidatura do ex-governador Alckmin, e costurando uma aliança ecumênica em Belo Horizonte, que deveria unir praticamente todos os partidos políticos, à exceção do DEM e alguns nanicos sem expressão em Minas Gerais. E ainda por cima namorando a miss Brasil Natálida Guimarães, segundo os bem informados. Como diria o filósofo Romário, Aécio era "o cara".

No meio disto tudo e para piorar a situação de Serra, Geraldo Alckmin começou a colocar as manguinhas de fora e a desafiar o governador com a sua pré-candidatura a prefeito de São Paulo. Serra desde sempre se colocou a favor de uma aliança para reeleger o seu vice e hoje prefeito Gilberto Kassab. Alckmin, porém, que até agora está bem à frente de Kassab nas pesquisas de intenção de voto, fazia questão de esquecer da eleição de 2006, quando Serra liderava nas pesquisas e acabou abrindo mão da disputa presidencial para o então governador de São Paulo, que aparecia bem atrás. Dia desses, o ex-governador chegou a afirmar que "nunca viu" o primeiro colocado abrir mão da candidatura para o terceiro. Bem, foi praticamente o que aconteceu em 2006.

Como se diz por aí, o mundo gira e a Lusitana roda. Serra parece ter agido como a formiga da fábula e trabalhou em silêncio. Quando muitos já davam como certa a aliança entre PMDB e PT na capital paulista, eis que o ex-governador Orestes Quércia anuncia publicamente o seu apoio à reeleição de Kassab. Se isto não fosse suficiente, o comandante do PMDB paulista disse também que Serra é um bom nome para a sucessão de Lula e prometeu apoiar Alckmin para o governo do Estado em 2010, se ele abandonar a disputa pela prefeitura, evidentemente.

Para dizer o mínimo, foi um gol de placa de Serra. Sim, de José Serra, e não de Kassab, pois pelo que este blog apurou, quem deu o aval à negociação com Quércia foi ele, Serra. O governador foi quem garantiu a vaga de senador para Orestes Quércia em 2010 – Kassab nem teria autonomia para tanto. Foi Serra quem negociou os espaços que serão reservados ao PMDB paulista na administração do Estado e da capital (caso a chapa seja bem sucedida e vença as eleições). E foi Serra quem bancou, no parte do PSDB que ele comanda, que a aliança com um ex-adversário político não fosse detonada pela base.

O movimento de Serra de aproximação com o PMDB paulista tem dois objetivos distintos. Por um lado, o de isolar Alckmin e Aécio, que flertavam justamente com o PMDB para conseguir, cada qual com seus próprios objetivos, força política para bater Serra no PSDB. Em segundo lugar, e o que é mais importante, Serra conseguiu sinalizar para o presidente Lula e o PT que está mais forte do que se imagina para a eleição de 2010. Sim, é verdade que ninguém em sã consciência concebe imaginar que alguém diga que conquistou apoio do PMDB, tantas são as divisões do partido, mas também é verdade que a seção paulista do partido é bem forte, e pode agregar consigo o Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul e alguns outros diretórios estaduais relevantes.

De toda maneira, Serra reequilibrou o jogo com a aliança que patrocionou entre DEM e PMDB. Falta apenas um detalhe, que em grande medida foge ao controle do governador: a candidatura de Alckmim. Toda a pressão agora é para que o ex-governador desista da disputa, mas na noite desta quinta-feira ele teria avisado o prefeito Kassab que permanece candidato. Alckmin segue muito bem nas pesquisas e hoje disputaria o segundo turno com Marta Suplicy com amplas chances de vitória. É tudo que Serra não quer.

Se Geraldo Alckmin disputar a eleição e perder, o governador ficará muito satisfeito, pois não terá nem o que conversar com o seu correligionário. Problemão para Serra é a hipótese de Geraldo vencer a parada e se tornar prefeito de São Paulo. Neste caso, ele mesmo, Alckmin, e Aécio Neves, sairiam fortalecidos. Geraldo ganharia um cacife enorme e poderia tanto pleitear o governo de São Paulo quanto a presidência, se Aécio preferir ficar de fora da disputa. Serra, neste caso, teria de fazer concessões grandes aos inimigos íntimos ou se resignar com uma reeleição em São Paulo, a depender do que Alckmin e Aécio decidam articular.

Mais uma vez, como se vê, Alckmin se coloca como uma pedra no sapato de Serra. Antes que algum tucano questione, o ex-governador está absolutamente no direito de permanecer na disputa – é da democracia que assim seja. Serra, dizem as más línguas, vota em Marta Suplicy se Alckmin passar para o segundo turno contra a petista, o que também é da democracia...

Na verdade, é evidente que o cenário político brasileiro caminha mais uma vez para um clima de acirramento, com as tensões que isto acarreta. Em São Paulo, Serra deve estar de dedos cruzados para que mais nada de ruim lhe aconteça daqui para a frente. Não é pouca coisa.

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