segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Ainda sobre o português de FHC

Uma boa análise sobre a polêmica envolvendo mais uma desastrada declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está na Folha de S. Paulo desta segunda-feira, escrita pelo jornalista Fernando de Barros e Silva e reproduzida abaixo, na íntegra. Ao que ele escreveu, só cabe adicionar que FHC é tudo que o presidente Lula pediu a Deus. Cada vez que abre a boca, ajuda a sedimentar a impressão de que é realmente muito, mas muito melhor ter um operário do que um intelectual rastaquera na presidência da República.

ABC da miséria nacional

SÃO PAULO - "Sabemos falar muito bem a nossa língua (...). Queremos brasileiros melhor educados (sic), e não brasileiros liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria." O que foi isso? Um acesso de esnobismo? Uma manobra diversionista para desviar o foco do mensalão tucano? Inveja e despeito? Um pouco de tudo, mas antes de mais nada Fernando Henrique Cardoso foi vulgar e mesquinho ao açular nesses termos o velho preconceito de classe que ele um dia já combateu.

Que o professor emérito e de carreira internacional tenha tropeçado no idioma nativo justamente quando zombava do metalúrgico pouco letrado é um detalhe cômico que só torna o episódio mais grotesco. O essencial não está, obviamente, no maltrato da língua, o que nem é novidade. O sociólogo um dia já manobrou muito bem as idéias, mas nunca foi um estilista. Seu texto é sofrível. Também nisso é legítimo representante da elite local.

Os tucanos falam muitas línguas, são gente que trabalha e estuda, que estuda e trabalha, disse o príncipe. Pois os estudiosos deveriam ler as 90 páginas da denúncia do procurador-geral Antonio Fernando Souza sobre o valerioduto do PSDB. Está em português, claro e cristalino.

Ali o esquema de rapinagem dos cofres públicos a serviço de Eduardo Azeredo em 1998 é descrito como "origem e laboratório" do mensalão petista. A diferença entre a farra mineira e a que se deu sob Lula seria de escala. Não é uma gincana muito edificante.

"Estamos aprendendo com a Era Fernandina como de fato ficou brutalmente estúpido ser inteligente", escreveu no caderno Mais!, ainda em 2001, o filósofo Paulo Arantes. O "apagão" da inteligência progressista desde então só avançou. E já ficou claro a essa altura que tal breu está relacionado à falta de perspectiva decente para o país. Ou, como disse João Moreira Salles em entrevista à Folha, "nossas ambições se tornaram mais medíocres". É um moço bem-educado. E ele FHC conhece muito bem.

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