sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Uma história de Natal atrasada e os
votos de feliz 2007 a todos os leitores

A história que vai abaixo é verídica, com os nomes das personagens devidamente trocados.

Joana é uma menina feliz: estuda em um dos colégios da elite paulistana, tem um quarto repleto de brinquedos, é sócia de um belo clube e passa as férias entre a fazenda da família da mãe e a casa de praia da família do pai.

Neste fim de ano, com o início das férias escolares, Joana recebeu a visita de Luiza, a filha empregada que trabalha em sua casa. Como provavelmente não tinha com quem deixar a filhota, Dalva, a empregada, passou a trazê-la, dia sim, dia não, para a casa da patroa. Na antevéspera do Natal, já bem tarde, o pai de Joana atende o telefone. É Dalva, um pouco aflita, que lhe pede um favor. Nada demais, apenas que guardasse o brinquedo que Luiza havia esquecido, para que na manhã seguinte Joana e seu irmão Teodoro não o quebrassem. Dalva temia que os dois não soubessem muito bem como ligar o laptop da Xuxa de sua filha Luiza.

O pai, meio perplexo, assentiu e foi guardar o brinquedo. Joana tem muita coisa, mas de fato ainda não ganhou o tal computadorzinho. Nas boas lojas do ramo, custa R$ 250 à vista e os pais de Joana até tinham pensado em comprá-lo, mas acharam o preço salgado.

Dalva provavelmente comprou o laptop em muitas prestações, quem sabe em 48 ou 36, pois ganha R$ 500 por mês e certamente não usaria metade do salário para dar o presente à filha. Pagando em tantas prestações, o brinquedo certamente saiu pelo menos o dobro do que custaria à vista. Desta forma, porém, a prestação ficou entre R$ 10 e R$ 13 e coube no apertado orçamento de Dalva. Pode parecer pouco, mas, como diz a propaganda do esperto cartão de crédito, para Luiza, ter levado à casa onde sua mãe trabalha um brinquedo que a filha da patroa não possui simplesmente não tem preço.

Tucanos de bico longo torcem o nariz para essas coisas. Diriam que os pobres estão sendo explorados ao pagar por um brinquedo o dobro do que pagariam os ricos. Como diriam os americanos: bullshit. Na verdade, a elite se incomoda com o acesso dos pobres a bens e serviços que ela julgava exclusivos da sua própria classe. A cantilena não muda nunca: o povaréu pode sim ter acesso a tais "luxos", mas é preciso fazer o bolo crescer antes de dividi-lo.

De fato, o argumento não se sustenta e o presidente Lula percebeu o anseio do povão – basicamente, por bens de consumo. O governo atual vem trabalhando para aumentar as possibilidade de acesso a esses bens, seja via expansão do crédito, seja via recuperação do salário mínimo ou programas sociais, como o Bolsa Família. Lula se reelegeu em grande medida por causa disto. Foi gente como Dalva, com a auto-estima em alta, que deu um voto de confiança no presidente. Pragmáticos, as milhares de Dalvas e Luizas não esperam um "governo de esquerda", mas apenas novas chances de ter, ainda nesta encarnação e não na que os tucanos gostam de prometer, alguns dos confortos que a burguesia já conhece faz muito tempo.

O pessoal do PSOL também não gosta muito de ver as coisas desta maneira. Acham tudo isto uma grande armadilha, engendrada talvez nos gabinetes de Washington com o intuito de perpetuar o capitalismo no Brasil. Certamente estão com a razão, mas o problema é que para a menina Luiza o socialismo pode chegar tarde demais. Já o laptop da Xuxa, que a filha da patroa de sua mãe não tem, esse já está garantido. Talvez tenha por isto que Geraldo Alckmin e Heloísa Helena ficaram falando sozinhos e o presidente acabou se reelegendo...

Por hoje é tudo, se não fosse pouco! Bom ano novo a todos os que tiveram a paciência de acompanhar essas Entrelinhas em 2006. O blog faz uma breve pausa e volta a atualizar dia 2. Até 2007, portanto.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Sonhando acordado


Charge do Agê que estará na edição de quinta-feira do DCI

Ouça um bom conselho...

O sempre bem informado jornalista Elio Gaspari resolveu oferecer os seus serviços de consultor político para o PSDB. E, o que é melhor para os tucanos, de graça, talvez movido por compaixão, já que o partido vai virar o ano devendo R$ 16 milhões em função da campanha de 2006.

Brincadeiras à parte, este blog recomenda vivamente a leitura do artigo de Gaspari publicado nesta quarta-feira nos jornais que reproduzem a sua coluna (entre os quais a Folha e O Globo) e no qual estão as recomendações aos tucanos. É uma reflexão que complementa as notas publicadas aqui sobre o salário mínimo e revela, mais uma vez , como a elite brasileira não consegue perceber nada do que se passa no "andar de baixo". Com a palavra, mestre Gaspari:

As liquidações dos "formiguinhas"

Se os tucanos tivessem juízo, mandariam seus sábios visitar os grandes entrepostos de materiais de construção

COMEÇA HOJE a temporada de liquidações em quase todas as grandes revendedoras de materiais de construção. Se o PSDB tivesse juízo, mandaria seus sábios visitar os grandes galpões dessas empresas. Entenderia por que perdeu a eleição e por que perderá as próximas. Um bom pedaço dos clientes dessas liquidações vem do andar de baixo.
Gente que compra uma caixa d'água de 500 litros e um novo piso para a cozinha esperando gastar R$ 200 em dez prestações, sem juros. Chama-se a esse consumidor de "formiguinha".
Abastece-se no crédito consignado e, nesse mercado, um aumento do salário mínimo de R$ 30 mensais dá para pagar o novo piso e ainda sobram uns R$ 10 para cobrir o aumento das tarifas tucano-pefelês dos ônibus do Rio e de São Paulo.
A repórter Cibele Gandolpho revelou que quatro grandes entrepostos planejam oferecer descontos de até 70%.
Com sorte, juntando-se o aumento de dois salários mínimos e mercadoria barata (talvez de uma ponta de estoque), consegue-se um novo banheiro.
Esse pedaço do Brasil é olhado com desconfiança pelo andar de cima. Quando Lula baixou os impostos sobre os materiais de construção, viu-se na providência um estímulo à favelização.
Se o problema habitacional brasileiro pudesse ser resolvido pela elevação do preço do saco de cimento, as coisas seriam muito mais fáceis. Pior: o medo descende do pavor oitocentista dos escravos livres, desorganizando os bulevares e embebedando-se pelas ruas.
Uma pesquisa patrocinada pelo sindicato da indústria, com números de 2002, ensina que as famílias com renda de até três salários mínimos consomem apenas 8% da produção nacional de cimento.
Um saco consumido numa casa situada nessa faixa de renda é parte de uma obra que muda a vida da família. A conjunção do salário mínimo com o acesso ao crédito e o interesse do comércio em vender para as faixas de menor renda estão provocando mudanças na maneira de viver (e de votar) do brasileiro.
Assim como há no andar de baixo muita gente que precisa tomar banho de loja, há no de cima quem precise de banho de entreposto. O PSDB tem uma certa incapacidade neurológica para absorver avanços sociais produzidos pelo PT.
Um bom exemplo dessa demofobia está na incapacidade dos tucanos de reconhecer a revolução ocorrida nos transportes públicos de São Paulo durante a gestão de Marta Suplicy. Outro é a confusão do "puxadinho" com a favelização.
São atitudes irracionais, pois enquanto houver sufrágio universal, a política de satanização do andar de baixo produzirá apenas demagogia e triunfos eleitorais de demagogos.
É nesse sentido que faria bem ao cardinalato tucano passar uma tarde num entreposto de materiais de construção.
Descobrirão o que pensam e como agem os trabalhadores que planejam ampliar sua casas com algumas centenas de reais, a boa vontade dos vizinhos e a ajuda dos parentes.
Vivem naquele pedaço do Brasil onde os ônibus atrasam, são inseguros e maltratam os passageiros, mas ninguém quer ouvir falar disso. Em 2008, eles vão votar de novo.

Os leitores já estão reparando...

A Folha de S. Paulo publicou a carta abaixo, cujo conteúdo é muito semelhante aos comentários deste blog sobre o salário mínimo. Pode perfeitamente ser uma coincidência, pois o movimento da Folha está cada dia mais evidente. A novidade é que os leitores não só estão reparando que o jornal não é mais o mesmo como também resolveram escrever para reclamar.

Mínimo irracional
"A inflexão à direita da Folha tem sido amplamente notada e comentada nos últimos tempos. Mas o editorial da última sexta-feira, dia 22/12 ("Mínimo irracional'), é de assustar até os moderados. Num país que ostenta a vergonhosa posição de vice-campeão de desigualdade social do planeta e campeão absoluto na transferência de renda aos mais abastados via taxa de juros, classificar de "irracional" um vergonhoso salário mínimo de R$ 380 só seria compreensível se se tratasse de uma crítica ao seu valor insuficiente. Mas bradar, como fez a Folha, contra o incremento de R$ 5 em seu valor, tachando-o de "gastos estéreis", além de assustar pela insensibilidade social, reflete o país em que vivemos. Trata-se de um editorial histórico. Talvez, dentro de cem anos, ajude a compreender o tipo de sociedade mesquinha e gananciosa que existia neste Brasil no limiar do século 21 e o papel da mídia em sua perpetuação."
JORGE LUÍS BREDER (Campinas, SP)


fda

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Está chegando a hora da posse parlamentar...


Charge do Agê que estará na edição de quarta-feira do DCI

Lula e o futuro: mais do mesmo ou reviravolta?

Faltando cinco dias para o final do ano, a pergunta que não quer calar é até óbvia: como será o ano de 2007 e o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva? Já há muita especulação na praça e tem gente achando que daqui para frente Lula vai adotar uma postura mais esquerdista e arrojada, até para que a história registre o seu governo como o de alguém ligado às causas populares e à esquerda de modo geral.

Este blog não consulta videntes, mas aposta que o 2° mandato de Lula será muito semelhante ao 1° e, a menos que ocorra uma crise econômica internacional, terminará com uma década de crescimento morno mas constante da economia.

Pode ser desapontador para o leitor, mas é o que indicam os fatos que importam para uma análise prospectiva. Lula não vestirá o figurino chavista, até porque já deu diversas declarações explicando os motivos de seu afastamento da extrema-esquerda – na última vez, foi até incompreendido ao brincar que se tratava de um fenômeno relacionado à idade: quanto mais idoso, mas conservador...

A verdade é que o segundo mandato de Lula não deve fugir muito do que foi feito durante a primeira gestão porque não existe, hoje, referencial teórico para mudança nos rumos da política econômica. O que está em debate atualmente é a dose do remédio, mas não a medicina que está sendo administrada. Até aqui, o paciente-Brasil vem reagindo bem, mas há muitas reclamações sobre a demora na melhora. PSOL e PSTU à parte, porém, ninguém questiona a receita adotada pelo presidente Lula.

Sem referencial para iniciar uma mudança mais radical, e sem o soluço que uma crise externa poderia provocar, o mais provável é que o Brasil siga crescendo a taxas de 2% a 3% do PIB ao ano nos próximos 4 anos, mesmo que o governo lance os seus pacotinhos de desoneração fiscal e incentivos para ajudar alguns setores.

É pouca coisa? Sim, o crescimento é pífio perto das necessidades dos mais pobres, mas ninguém inventou uma mágica para acelerar certos processos que estão em curso no Judiciário e no Congresso e sem os quais não há muito jeito para “destravar” o País. Este blog torce para estar errado, para que os próximos anos sejam de crescimento intenso, mas, sinceramente, não acredita em nada disto. De toda maneira, se as previsões feitas aqui estiverem corretas, terão sido 8 anos de crescimento contínuo, o que não ocorria desde o milagre econômico do regime militar. Também não é pouca coisa e pode até levar Lula a uma nova reeleição. Mas isto já é assunto para uma próxima reflexão.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Mercadante: há males que vem para o bem

O caso do dossiê Vedoin pode acabar realmente mal para o senador Aloizio Mercadante (PT-SP). Aliás, a verdade é que antes mesmo de ser condenado pela Justiça, o senador já está pagando caro pelas besteiras dos "aloprados": antes do episódio, quando ainda era candidato ao governo paulista e tinha poucas chances de vitória, Mercadante dizia a quem quisesse ouvir que, se derrotado fosse, teria um cargo forte no governo federal. De fato, especulava-se até na nomeação do senador para o ministério da Fazenda Hoje, ninguém em sã consciência imagina o presidente Lula nomeando o rapaz para cargo algum.

O velho ditado diz que Deus escreve certo por linhas tortas. Os "aloprados" acabaram prestando dois bons serviços ao País: levaram a eleição para o segundo turno, fazendo com que a vitória de Lula fosse inquestionável pela oposição; e afastaram de vez a hipótese de Mercadante comandar a economia nacional. O Brasil agradece...

De volta ao batente...

Poucas novidades nesses últimos dias, como seria de se esperar. Na política, a única notícia relevante é o movimento de tucanos de bico longo para colocar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na presidência do PSDB. Este blog duvida que ele aceite, mas de fato talvez seja esta a melhor maneira para debelar a crise do partido. Se FHC não aceitar a missão, o PSDB corre sério risco de implodir ou se transformar em um mini-PMDB, rachado e dividido entre caciques regionais, cada qual preocupado com o seu próprio futuro político.

sábado, 23 de dezembro de 2006

Feliz Natal!

O Entrelinhas deseja a todos um feliz Natal, repleto de felicidade e esperança em um futuro melhor para todos nós. Neste sábado e domingo, não haverá atualização. Na segunda, dia de Natal, voltamos ao batente.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

O Natal do presidente


Charge do Agê que estará no DCI da próxima terça-feira

Pancadaria contra o mínimo já começou

Nem demorou tanto. Conforme este blog antecipou, já foi aberta a temporada de críticas ao aumento do salário mínimo. Na Folha de S. Paulo de hoje, além das matérias a respeito do assunto, editadas de forma a levar os leitores a acreditar na "irresponsabilidade fiscal" do presidente Lula, há um editorial e um artigo do economista tucano Luiz Carlos Mendonça de Barros, ambos reproduzidos abaixo.

A leitura dos dois textos ajuda a entender a cabeça da elite que felizmente não governa mais o país: para eles, os R$ 5 a mais na conta dos pobres representam um verdadeiro acinte. A chave para entender a argumentação da Folha e dos tucanos está no trecho a seguir, do editorial do jornal: "com gastos estéreis, 12% das escassas verbas que deveriam estimular a economia com obras de infra-estrutura, recuperação da capacidade gerencial do Estado e fomento à geração de tecnologia". Não importa que o governo vá procurar cortar em outras áreas para buscar a devida compensação para o aumento e nem importa que o acordo com as centrais tenha a inédita vigência de 4 anos: para a Folha e para os tucanos, o aumento do mínimo não passa de "gasto estéril". Na conta do lápis, os R$ 30 a mais que o presidente Lula está concedendo aos mais pobres representam R$ 390 a mais por ano, considerando os 13 salários anuais. Para um Frias ou um Mendonção, é provavelmente menos do que se gasta em um bom jantar a dois. Talvez resida aí a a incapacidade dessa gente em compreender o significado deste dinheiro para quem vive na corda bamba.


Editorial - Mínimo irracional

O ASPECTO menos importante da decisão de elevar o salário mínimo a R$ 380 tende a comandar máxima atenção numa cena política viciada em falsas questões: se a chamada equipe econômica foi ou não desautorizada pelo presidente da República.
Passa despercebido, assim, o sintoma mais visível no aumento do mínimo -uma renovada deterioração da racionalidade no segundo governo Lula, antes mesmo de inaugurado. A majoração em si nem remotamente se afigura como obstáculo central na economia, mas sinaliza a reiteração de opções preocupantes.
O recém-reeleito presidente chancelou acordo que seu ministro do Trabalho celebrara com antigos companheiros de militância. Em lugar dos R$ 367 defendidos na Fazenda e no Planejamento, ou dos R$ 375 dados como certos, abraçou os R$ 380 e os aplausos fáceis.
Ninguém nega a necessidade e a urgência de redistribuir renda no Brasil. Daí não decorre que um governante esteja obrigado a pautar cada uma de suas decisões apenas e tão-somente por tal critério, sem ponderar a miríade de efeitos não-pretendidos que a máquina complexa da macroeconomia pode desencadear. Uma nesga de visão estratégica lhe permitiria enxergar que novos e sólidos avanços distributivos dependerão de recompor a capacidade de investimento do país, não da perpetuação de donativos sem lastro orçamentário.
A política de recuperação do salário mínimo vem de longe. De abril de 1995 a abril deste ano, registrou aumento real de 44%. O valor nominal progrediu de R$ 100 para R$ 350 nesse período. Paralelamente à elevação dessa e de outras despesas, veio definhando o investimento do setor público, uma das poucas variáveis passíveis de compressão.
Os R$ 13 ora acrescidos pela prodigalidade lulista geram uma despesa de mais de R$ 2 bilhões, em conseqüência da indexação ao mínimo de aposentadorias rurais e urbanas, de benefícios por deficiência ou invalidez, ou ainda de dispêndios com seguro-desemprego e abonos do PIS. Pode parecer pouco, num orçamento nominal de R$ 1,5 trilhão (no qual se embute, contudo, toda a dívida federal). Longe disso: ralos R$ 18 bilhões estão previstos para investimento em 2007, sem garantia de que venham a ser executados.
Em outras cifras, trata-se de comprometer antecipadamente, com gastos estéreis, 12% das escassas verbas que deveriam estimular a economia com obras de infra-estrutura, recuperação da capacidade gerencial do Estado e fomento à geração de tecnologia.
Ilude-se quem acreditar que os dispêndios com o aumento do mínimo poderão ser compensados com reduções na taxa de juros. São contas estanques, e novas despesas sempre terminarão por erodir a ínfima parcela orçamentária reservada para investimentos, uma vez que não se vislumbram condições de extorquir mais tributos da população.
Lula quer ver o país crescer 5% anuais, a qualquer custo, mas persiste no vício de solapar diuturnamente os planos que nem mesmo consegue pôr de pé.


LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS: O reajuste do salário mínimo

A dura realidade de um populismo irracional tomou conta dos que esperavam um Lula reformista no 2º mandato

MINHA CARREIRA profissional levou-me a desenvolver, por necessidade e não por gosto, uma metodologia própria para entender a complexa interação entre o político e o econômico em nosso país macunaímico. A presença do governo na economia brasileira, seja ela direta nos mercados via estatais ou por meio de decisões administrativas, é desproporcional à de outros países. Com isso, sua influência na dinâmica dos negócios é ainda determinante.
Como sobrevivi por mais de três décadas nesse competitivo universo das finanças, acredito nos princípios que fui construindo ao longo desse período. Um dos mais importantes deles é o de não acreditar em Papai Noel. É preciso perder tempo na construção de uma análise fundamentalista dos valores e da forma de agir das lideranças no governo de plantão. Ao longo de cada ciclo de poder, são esses princípios que vão forjar a política econômica oficial e definir seus efeitos nos mercados.
As promessas desconectadas desses fundamentos não devem ser levadas a sério. Por isso, durante os últimos quatro anos, com meu irmão José Roberto, organizamos um grupo que se reúne semanalmente para entender esse complexo e contraditório governo Lula. Hoje, temos uma leitura clara de sua dinâmica administrativa e de seus valores políticos. Lula pode enganar muitos de meus colegas de profissão com seu discurso vazio e cheio de contradições, mas não a esse grupo de analistas ao qual pertenço.
Gostaria de dividir com meu leitor algumas de nossas conclusões. A primeira e a principal é que temos em Brasília um governo populista do modelo clássico. E o que isso representa para nosso processo de análise? A identificação de pelo menos dois princípios básicos: Lula governa para satisfazer os desejos de curto prazo daqueles que o apóiam e não tem nenhum compromisso com o futuro da nossa sociedade como um todo.
Por isso, não acredito no Lula reformista do capitalismo brasileiro, pois sabemos que a grande maioria das reformas necessárias para colocar nossa economia em rota de crescimento sustentado provoca o que chamamos de curva J, isto é, no, início, geram perdas em certos segmentos da sociedade, para apenas depois de certo tempo trazer benefícios generalizados. Tomemos o exemplo da Previdência Social e seus déficits crescentes.
Os gastos do governo com aposentados, medidos em relação ao nosso PIB, são desproporcionais em relação a outras sociedades com situações demográficas muito piores que a nossa. Já estamos longe de qualquer parâmetro internacional, e o déficit da Previdência continua a crescer algo como 0,30% do PIB anualmente. Para financiar esse desequilíbrio, o governo retira parcela crescente da renda da sociedade. Isso significa punir os que são produtivos por meio de seu trabalho ou investimento e canalizar tais recursos para aqueles que já terminaram sua vida econômica útil. Os idosos passaram a ser arrimos de família, principalmente em regiões mais pobres, o que demonstra cabalmente o estado desesperador em que nos encontramos. Basta analisar os dados para ver que a renda do trabalho cresce menos -e cai em algumas faixas salariais- do que as aposentadorias. O resultado desse processo é uma redução crescente da eficiência de nossa economia e da sua capacidade de gerar empregos e riquezas no futuro.
Mas o governo continua a não enfrentar o problema por medo do desgaste político e da perda de apoio de milhões de brasileiros que dependem de aposentadoria e pensões. Pior ainda, tem tomado decisões que amplificam esse problema para o futuro. É o que vai acontecer com o aumento do salário mínimo decidido de forma isolada pelo presidente Lula e seu ministro do Trabalho. Os impactos negativos na Previdência virão não só do reajuste decidido para 2007 mas, também, da definição de uma regra de longo prazo que garante ao salário mínimo um aumento igual ao crescimento do PIB nominal.
Ora, uma das formas para corrigir o desequilíbrio já existente seria o de reduzir o peso das aposentadorias por meio do crescimento da renda dos brasileiros que realmente, por meio de seu trabalho produtivo, contribuem para a expansão econômica. Com essa decisão, o peso das aposentadorias no PIB estará consolidado no curto prazo e aumentará com a entrada de novos beneficiários no sistema da Previdência. Essa decisão trouxe à dura realidade vários analistas que esperavam um Lula reformista e racional do ponto de vista econômico no seu segundo mandato. Mas o Papai Noel esperado neste final de ano sumiu, e a dura realidade de um populismo irracional tomou conta desses entusiastas de um presidente que não existe.
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 64, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

O mínimo de R$ 380: críticas já começaram

A definição de um reajuste para o salário mínimo superior ao que estava sendo aventado na imprensa ajuda a compreender como funcionam as coisas em Pindorama. Foi só o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, anunciar oficialmente que o salário vai subir para R$ 380 e que haverá correção de 4,5% na tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física para as críticas, ainda tímidas, começarem. Nos próximos dias, os leitores podem apostar, essas críticas aumentarão de frequência e intensidade. Não é preciso ser nenhum gênio para prever o que dirão os Carlos Sarndenbergs e as Míriam Leitoas na imprensa: o governo está sendo irresponsável por dar um aumento de espetaculares 8% para o mínimo enquanto a economia cresce apenas 2,8% ao ano.

Os ouvintes e leitores receberão um verdadeiro bombardeio midiático sobre a inconveniência desses R$ 30 adicionais que passarão a valer a partir de abril do próximo ano: a Previdência vai quebrar, as prefeituras não terão como pagar o montante, as pequenas empresas terão dificuldades. Em inglês, há uma palavra perfeita para definir este tipo de argumentação: bullshit.
O leitor deste blog pode dormir tranquilo: nem a Previdência, prefeituras ou pequenas empresas quebrarão no próximo ano, nem o governo Lula está entrando em uma fase "chavista". Basta ler o teor do acordo celebrado entre governo e as centrais sindicais para perceber que os aumentos estão perfeitamente dentro do que é possível conceder no contexto da bastante ortodoxa política econômica vigente, prevendo, inclusive, os aumentos para os próximos 10 anos. Em outras palavras, tanto o reajuste do mínimo como a correção da tabela do Imposto de Renda da Pessoa Física estão enquadrados no ajuste fiscal que o governo vem realizando desde 2003. Nada disto, porém, será suficiente para conter a sanha dos pitbulls do mercado financeiro, que clamarão por aumentos menores e se prestarão ao serviço (bem remunerados?) de cavaleiros do apocalipse.

Na verdade, a política de Lula para o salário mínimo é das boas coisas de seu governo, melhor até do que o Bolsa Família, porque de fato distribui renda (pouco, é verdade, mas seus antecessores nem isto faziam...). Este blog acredita até que Lula deveria deixar de lado a correção da tabela do IR e se concentrar apenas no salário mínimo, até pelo maior alcance da medida. Ou seja, ao invés de aliviar em 4,5% a classe média, melhor seria aumentar alguns reais a mais no mínimo, o quanto fosse possível com a economia da não-correção da tabela.

Se na mídia as críticas vão aparecer rapidamente, no mundo político talvez as oposições adotem uma postura mais comedida. Afinal, depois de perderem as eleições em boa parte pelas críticas feitas aos programas sociais do presidente, talvez os tucanos e liberais tenham aprendido que criticar aumentos de benefícios para os pobres não é examente o melhor jeito de tentar recuperar o espaço perdido para voltar ao poder...

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Renan, o revisor

Nada como uma boa confusão para as pessoas se revelarem "por inteiro", como diria o deputado eleito Clodovil Hernandez. Hoje, na hora que o bicho pegou e os parlamentares teriam que decidir, depois de toda a polêmica, o valor do reajuste para os seus salários, eis que o presidente do Senado, o brioso Renan Calheiros (PMDB-AL), achou por bem deixar a bucha para a Câmara Federal. O Senado, explicou Renan, terá o papel de "Casa revisora" e apreciará a posteriori a decisão tomada pelos deputados. A atitude de Renan, popularmente conhecida por "tirar da reta", faz lembrar uma cancioneta portuguesa sobre a postura dos corajosos lusitanos na 2ª Guerra Mundial, que dizia, se não falha a memória, algo assim: "Portugal não foi à guerra /mas também não acovardou-se / botou pano preto em cima / escreveu em letras brancas: Portugal mudou-se".

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

O aumento caiu. E agora, o que vem pela frente?

O Supremo Tribunal Federal mostrou que a Justiça pode ser rápida e derrubou o aumento de 91% auto-concedido pelos parlamentares. Na verdade, pela decisão do STF o aumento terá que ser votado no plenário do Congresso para que os deputados e senadores confirmem (ou não) o percentual. Está aberta a bolsa de apostas: de quanto você acha que será o reajuste que os parlamentares votarão nos próximos dias? O bode saiu da sala, mas qualquer coisa acima da inflação também é um acinte, ainda mais no momento em que o Congresso discute o aumento do salário mínimo nesses termos.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Ainda sobre o diploma de jornalismo (2)

Quem acompanha essas Entrelinhas sabe o que pensa o autor do blog sobre o diploma de jornalismo. Ainda mais brilhante do que um inteligente comentário de Carlinhos Brickman, reproduzido aqui, sobre o fim da exigência do canudo para o exercício da profissão é o texto do experiente jornalista Paulo Sotero, publicado sábado no Estadão e reproduzido abaixo, na íntegra. Aliás, o pessoal da Fenaj devia olhar em volta e tentar achar algum grande jornalista que defenda o deproma ubrigatório. Do jeito que as coisas andam, vai ser difícil...


Pelo bom senso e a democracia

Paulo Sotero

Equivocam-se os sindicatos e associações de jornalistas em sua campanha para reverter a decisão preliminar do Supremo Tribunal Federal que declarou inconstitucional a exigência do diploma de curso superior de jornalismo para o exercício da profissão. As transformações que as inovações tecnológicas produzem nos meios de comunicação e o interesse inerente dessas organizações no aprimoramento da imprensa e na preservação e ampliação da liberdade de expressão deveriam conduzi-las à conclusão oposta. Arquivar a legislação que regulamentou a atividade jornalística no Brasil é, em primeiro lugar, imposição do bom senso. O advento da internet e a explosão dos meios eletrônicos habilita hoje qualquer cidadão ou cidadã com acesso a um computador ligado à rede a produzir e divulgar notícias e opiniões. E não há nada que se possa ou se deva fazer para limitar ou disciplinar a explosão de informação.

No caso brasileiro, impugnar a que lei criou o ‘brevê’ de jornalista é também tarefa democrática. Gestada no apagão cívico do regime militar, a regulamentação da profissão nasceu com o mesmo ranço da outorga de privilégios que uma outra ditadura, a de Getúlio Vargas, concedera à imprensa um quarto de século antes, com o claro objetivo de amansar os jornalistas. No caso de Getúlio, a generosidade foi mais óbvia e incluiu a isenção do Imposto de Renda e a meia passagem aérea para os profissionais da imprensa. Por sua origem, a lei que deu ao governo o poder de estabelecer regras para o exercício do jornalismo deveria ter sido repudiada tão logo os militares retornaram aos quartéis, em 1985. Democracias avançadas como os Estados Unidos e a França não exigem diploma para o exercício do jornalismo.

Passados 21 anos, não tem nenhum cabimento continuar a condicionar o acesso a uma atividade central à vida democrática ao cumprimento de um requisito legal que nasceu podre, foi mantido apenas por força de interesses corporativos e, como se poderia prever, nada de bom produziu.

Pode-se mesmo argumentar o contrário. A lei que tornou obrigatório o diploma de jornalista foi um presente de grego. Por um lado, ela banalizou a profissão ao equiparar as atividades típicas do jornalista às de assessoria de imprensa. Nada contra os assessores de imprensa, entre os quais tenho vários amigos. Mas é preciso ter claro que, em sua missão de massagear a notícia, os assessores de imprensa cumprem função essencialmente oposta à dos jornalistas, cujo dever é apurar e apresentar uma versão da realidade que mais se aproxime dos fatos.

Outro efeito nocivo da obrigatoriedade do diploma foi ter privado as redações de gerações de jovens talentosos com formação em variadas disciplinas e vocação de jornalista, mas nenhum apetite para investir quatro anos em cursos de jornalismo de qualidade geralmente sofrível. Nesse sentido, a exigência do diploma empobreceu o jornalismo brasileiro e piorou a imprensa. A necessidade dos grandes órgãos da nossa imprensa de criar seus próprios cursos de jornalismo para preparar os estudantes mais aplicados das faculdades de comunicação para a vida profissional atesta a insuficiência dessas escolas e seu descolamento da realidade do mercado de trabalho a que, supostamente, deveriam servir.

Esse distanciamento é ilustrado também pela proliferação dos cursos superiores de jornalismo que a exigência do canudo estimulou. Eles são cerca de 120 e produzem, a cada ano, nada menos que 5 mil diplomados teoricamente qualificados a receber o carimbo oficial na Carteira de Trabalho que os habilita a trabalhar como jornalistas. Onde essa legião de jovens formados encontra trabalho de jornalista é um mistério que está há tempos a merecer uma boa reportagem.

Uma das conseqüências prováveis do arquivamento definitivo da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para os novos jornalistas será o fechamento de dezenas de faculdades de comunicação. As boas escolas sobreviverão e continuarão a formar profissionais habilitados ao exercício da profissão. O fim da reserva de mercado para os diplomados será, para essas escolas, incentivo adicional para oferecer cursos e programas que realmente os preparem para o mercado de trabalho, seja na imprensa tradicional, seja na vida acadêmica, seja nos novos meios eletrônicos que estão transformando a produção, a distribuição e o consumo de informação e opinião.
Um dos argumentos invocados em favor da exigência do diploma é a necessidade de educar os aspirantes a jornalista sobre a teoria e as técnicas de comunicação. As técnicas de comunicação não são física quântica e podem perfeitamente continuar a ser ensinadas e aprendidas nas redações, que é onde 99,9% dos jornalistas realmente as aprendem, independentemente do treinamento formal que possam ter recebido nas escolas de jornalismo.

Falo por experiência. Comecei na imprensa em 1968 como revisor de provas da revista Veja, atividade para a qual fui preparado pelos excelentes professores de Português que tive na escola secundária. Estudei História e, já cinquentão, fiz um mestrado em Jornalismo e Políticas Públicas. Nada tenho contra o ensino de jornalismo e de teoria da comunicação, que é matéria importante das ciências políticas e sociais e da filosofia. Mas, como todo repórter, redator e editor sabe, na hora da definição da pauta, da apuração dos fatos e da redação do texto, a teoria da comunicação de pouco vale na ausência do hábito da boa leitura, do preparo adequado em literatura e línguas, a começar por aquela em que se escreve, e de conhecimentos básicos de História, Geografia, Ciências e das demais disciplinas que ajudam a desenvolver os atributos essenciais do bom jornalista: a capacidade de entender o mundo em sua complexidade e a disposição de tratar os fatos com espírito público.

*Paulo Sotero, jornalista, é diretor do Brazil Institute, Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington

Wagner Iglecias: Lula e a voz rouca das ruas

Em mais uma colaboração para este blog, o professor Wagner Iglecias analisa as recentes pesquisas de opinião que mostram a alta popularidade do presidente Lula e faz também alguns prognósticos sobre o segundo mandato. Vale a pena ler o texto na íntegra, abaixo:

O ano de 2006 está acabando e com ele vai se encerrando o primeiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Parece coisa à toa falar disso agora que a eleição já passou e o presidente-operário foi reconduzido para mais quatro anos a frente do Palácio do Planalto. Citar seu segundo mandato parece o fato mais normal do mundo. Mas quem de nós, em sã consciência, se arriscaria em apostar nisso em meados de 2005, durante o auge da crise política? Quem seria capaz de acreditar numa recuperação tão impressionante da imagem e da força política de Lula, após a enxurrada de problemas que abateu-se sobre seu governo, especialmente nos dois últimos anos?

O fato é que alguma coisa um tanto insondável ocorreu entre o dia em que vieram a tona as primeiras denúncias sobre o mensalão e estes dias quentes a abafados que antecedem o final do ano de 2006. Tarefa que talvez apenas os historiadores do futuro consigam decifrar. Ou talvez nem eles. O fato é que boa parte da sociedade brasileira, especialmente os mais pobres, deu um drible desconcertante em todos nós, intelectuais, jornalistas, homens de negócios, políticos, formadores de opinião etc. Drible da vaca, como se diz em bom futebolês, daqueles que entortam a coluna do adversário. Não bastassem as urnas, que apontaram uma expressiva vitória do petista, agora nos dias que fecham o ano surgem pesquisas de opinião que mostram que existe uma considerável distância entre o que a maioria dos brasileiros acham do governo e de Lula e aquilo que alguns setores formadores de opinião imaginam (ou queiram) que eles achem.

No último domingo o Datafolha divulgou sondagem segundo a qual Lula foi avaliado como o melhor presidente da História do país. Ainda segundo o instituto 52% dos entrevistados consideram seu governo como ótimo ou bom. A pesquisa CNI/Ibope, divulgada nesta segunda-feira, por sua vez, informa que Lula está encerrando seu segundo mandato com avaliação positiva recorde. Consideram sua gestão ótima ou boa 57% dos brasileiros. Confiam que ele fará boa gestão a partir de 2007 68% da população. Outros 57% acham que Lula terá condições de fazer um segundo mandato melhor do que o primeiro.

Lula não é mais uma novidade, é certo. É natural, desta maneira, que a esperança em relação a seu segundo mandato, embora bastante alta, seja menor do que aquela que havia quatro anos atrás. Os números do Datafolha atestam isso. Se hoje 59% dos brasileiros esperam um governo ótimo ou bom neste segundo mandato, em dezembro de 2002 aquele índice era de 76%. É provável que Lula tenha perdido parcelas importantes de seu eleitorado histórico, que devem ter se decepcionado com os problemas relacionados à corrupção ocorridos no primeiro mandato e mesmo com a postura relativamente moderada de seu governo em termos de política e economia em relação às velhas bandeiras do petismo. Mas ao mesmo tempo Lula ganhou para si o apoio maciço das classes populares, inclusive de setores anteriormente refratários ao discurso petista e há décadas encapsulados por correntes à direita do espectro político.

O que pouco deve ter mudado no cesto eleitoral do presidente e no rol de expectativas positivas em relação a seu governo seja o tamanho da parcela do eleitorado desde sempre inimiga do discurso petista. Uma parcela em grande medida urbana, de classe média, atuante no setor privado. De fato, parecem residir ali os únicos segmentos realmente sensibilizáveis por certos canais de formação de opinião que vêem Lula como um mal a ser combatido incessantemente. O intuito parece ser manter esta gente permanentemente mobilizada em relação ao governo, e se possível, contra ele. Será que dá resultado? Em 2006 não deu. Independentemente disso, cabe a Lula realizar um segundo mandato que não apenas amplie e consolide políticas públicas destinadas a melhorar as condições de vida dos mais pobres, como de fato ocorreu nos quatro primeiros anos, como promover ações que promovam melhoria de vida também para os segmentos médios que lhe são pouco afeitos. Até porque a voz rouca das ruas é implacável com os homens públicos, e muito provavelmente Lula irá querer sustentar ainda por muito tempo, não apenas nas pesquisas de opinião, mas também nos livros de História, a marca de melhor presidente que este país já teve.

Wagner Iglecias é doutor em sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Aumento dos parlamentares pode cair

A julgar pela reação dos últimos dias, o aumento que os deputados e senadores se auto-concederam na semana passada está, sim, correndo sério risco de não se concretizar. Já há deputados se mobilizando para derrubar o aumento de quase 100% no benefício. Desde a decisão pelo reajuste este blog apostou que a mobilização da imprensa e da população poderia ser capaz de fazer o Congresso rever o aumento, coisa que muitos especialistas afirmavam ser impossível. Ainda nesta semana deve haver uma decisão final sobre o assunto e o blog aceita apostas: o Congresso vai rever o aumento ou manterá o super salário de R$ 24,5 mil mensais?

domingo, 17 de dezembro de 2006

A manchete da Folha e a pesquisa sobre Lula

Não teve jeito: o levantamento do Datafolha, instituto de pesquisa da Folha de S. Paulo, revelou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o mais bem avaliado da história do Brasil. Sim, "nunca antes neste país", como diria o próprio Lula, o povo gostou tanto de seu presidente como gosta do atual.

Evidentemente, um fato deste quilate merece manchete e foi onde a Folha, corretamente, editou a notícia. Só que para não dar o braço a torcer, o jornal deu o título com má vontade e uma ressalva de criança birrenta, que não quer admitir que os pais estejam com a razão: "Lula é o presidente mais bem avaliado, mas esperança cai". Sem olhar os números, a impressão que se tem é de que os brasileiros estão descrentes no segundo mandato de Lula, pessimistas e desiludidos com o presidente. Pois não é que o subtítulo informa que hoje "apenas" 59% dos brasileiros esperam que o presidente faça um bom mandato? Sim, é menos dos que os 76% de 2002, quando Lula e o PT chegaram ao poder e, portanto, não possuíam o natural desgaste dos que já governaram o país.

Não dá para comparar as duas taxas e os editores da primeira página da Folha sabem perfeitamente bem disto. Na verdade, o que dá para comparar é a popularidade do presidente. E causa espanto que continue tão alta no final do mandato, apesar da campanha aberta de parte da imprensa contra o seu governo. Espanto, aliás, que só não é maior do que a má vontade da Folha em dar a notícia que seu instituto descobriu.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Serra quer dobrar salário dos secretários

O governador eleito de São Paulo é um homem de sorte. Há alguns dias, antes que o Congresso decidisse dobrar os salários dos parlamentares, José Serra manifestou a intenção de dobrar o salário dos secretários de Estado que assumirão o cargo em janeiro. Segundo ele, o salário de R$ 6 mil é "pouco" para a qualificação dos secretários. A proposta de Serra já ia causar polêmica quando o Congresso atravessou o samba e todas as atenções se voltaram para os R$ 24,5 mil dos deputados e senadores. Ninguém mais fala da "merreca" de R$ 12 mil que Serra quer pagar ao seu secretariado e é bem possível que a Assembléia aprove o aumento e o assunto acabe noticiado como "box" da polêmica do reajuste dos parlamentares.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Reação popular pode brecar super salário

Como era de se esperar, não pegou nada bem para os congressistas o aumento de quase 100% acertado para os seus próprios salários. A indignação é grande e vários deputados e senadores já contestam o acordo ou dizem que não aceitarão o aumento, se ele realmente vier a ser concedido.

Ainda é cedo para garantir que os R$ 24,5 mil mensais dos deputados e senadores já estão se tornando sonho de uma noite de verão, mas a julguar pela péssima repercussão da medida na mídia, os parlamentares talvez sejam obrigados a recuar e contar com um aumento mais modesto, que levaria o salário dos deputados e senadores para a faixa de R$ 16 mil.

Talvez o mais correto seja adotar no Brasil a regra que vigora nos Estados Unidos, onde os salários dos congressistas são reajustados anualmente pelo índice da inflação menos 0,5%. Assim, o parlamentar recebe um aumento sempre inferior ao que a maior parte dos trabalhadores conquista em suas negociações com a iniciativa privada ou setor público.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

O exemplo vem de cima


Charge do Agê que estará no DCI desta sexta-feira

Sobre o aumento dos parlamentares

Fim de ano é hora de confraternização, festa e alegria. Na política, porém, o clima é um pouco diferente. Nos últimos dias do ano, especialmente entre o Natal e o Ano Novo, os governantes dos três poderes aproveitam a distração da população com as festividades e costumam decretar ou aprovar medidas impopulares – os famosos “sacos de maldades”. Quando a vida volta ao ritmo normal, no começo de janeiro, a opinião pública até manifesta a irritação, mas aí Inês é morta e as novas leis já estão vigorando.

Neste ano, as maldades começaram cedo. Os deputados e senadores decidiram hoje reajustar seus próprios salários e entenderam que a reposição da inflação, índice que em geral é concedido para a maior parte dos brasileiros, não seria suficiente. Em nome do equilíbrio dos poderes, os parlamentares resolveram equiparar os seus salários aos vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal Federal, de R$ 24.500. Na prática, o salário dos deputados quase dobrou (é hoje de R$ 12,847,20).

A medida é um acinte. Primeiro, porque deve representar um gasto extra anual de cerca de R$ 1,66 bilhão aos cofres públicos em função do “efeito cascata” do aumento, já que Estados e municípios acabam seguindo o aumento federal. Em um país com tantas carências e no qual muitos brasileiros se sacrificam para pagar seus impostos, R$ 1,6 bi não é pouca coisa, embora represente uma fração pequena do Produto Interno Bruto.

Mas a medida não é um acinte apenas pelo gasto que vai representar. O Brasil saiu das eleições com os dois principais candidatos à presidência reconhecendo a necessidade de algum corte nos gastos públicos para permitir que o Estado recupere a sua capacidade de investir e possa realizar obras que permitam desafogar os gargalos na infra-estrutura e alavancar o crescimento do País. Ora, os parlamentares deveriam ser os primeiros a dar o exemplo. A justificativa de que os poderes estão “desequilibrados” é ridícula e não passa de uma desculpa esfarrapada de quem não tem argumentos. Ainda é cedo, o Natal nem chegou e a população poderia, desta vez, se manifestar com a veemência necessária para abortar este despautério.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Lula no centro: brincadeira e realidade

A declaração do presidente Lula sobre o seu próprio posicionamento no cenário político – ele reconhece estar cada vez mais ao centro – já causou grande celeuma entre intelectuais e políticos de esquerda. O ex-deputado Plínio Sampaio foi quem melhor resumiu a questão: para ele, a novidade não foi Lula se declarar centrista, mas ter colocado a discussão em termos médicos – o presidente relacionou a "guinada à direita" com a maturidade de seus 60 anos.

Lula é um político esperto e uma pessoa com grande senso de humor, embora também se irrite com facilidade, especialmente quando contrariado. A declaração sobre o "adeus à esquerda" era uma gozação das mais escrachadas, que lembrou a resposta do próprio Lula quando questionado se era comunista: "Não", disse ele, "sou torneiro mecânico". Vários bons jornalistas, no entanto, levaram a sério a brincadeira e até escreveram artigos profundos sobre a nova polêmica. Tudo não passa de uma grande bobagem e um bom jeito que o presidente arruma para criar fatos políticos e desviar a atenção para o impasse sobre as medidas que serão tomadas para alavancar o crescimento econômico.

Ora, é óbvio que Lula e o PT têm caminhado para o centro, a julgar pelo que já defenderam no passado. E não é de hoje, isto vem desde 1994 e se acentuou à medida que os petistas foram conquistando prefeituras e governos estaduais. A brincadeira do presidente foi com a turma dos que já passaram dos sessenta, que vai do entusiasmado Plínio ao quase centenário Oscar Niemeyer, mas também é óbvio que Lula quis passar um recadinho. Ninguém da esquerda deve esperar um segundo mandato tão mais "esquerdista" do que o primeiro, porque ele não está disposto ou julga que não tem força política suficiente para executar um programa com este caráter nos próximos quatro anos. Portanto, o que vem pela frente deve ser mais do mesmo, com talvez algum desafogo no superávit primário, um pouco mais de crescimento e distribuição de renda. Mas nada excepcional, como sempre sonharam tantos petistas e militantes da esquerda brasileira.

Do ponto de vista da esquerda radical, é fácil criticar a opção de Lula. Alguns, como Heloísa Helena, centram a crítica na questão moral: ele não fez e não fará um governo de esquerda porque é um corrupto e está cercado de corruptos. Outros quadros do próprio PSOL da senadora discordam e preferem argumentar que Lula não faz porque lhe falta coragem e envergadura moral para enfrentar o desafio da ruptura com a burguesia nacional. É uma hipótese melhor, mas ainda insuficiente.

Este blog, porém, discorda dos radicais e acredita que Lula não faz um governo de esquerda porque a correlação de forças que levou por duas vezes o PT ao poder é muito mais desfavorável do que julgam esses analistas. Ao contrário da Venezuela, onde o povão empurra Chávez para a esquerda, no Brasil o carisma do presidente é que levou o povão a manter sua popularidade em alta nos períodos mais agudos da crise política do ano passado. Foi também a "guinada à direita" do PT e de Lula que permitiu a aceitação, por uma parte das classes médias e altas, da chegada dos petistas ao poder. Outra parcela dessas mesmas classes, como bem sabe que lê a revista Veja, não aceita nada disto e gostaria mesmo de ver Lula e os barbudinhos sindicalistas que tomaram conta de Brasília no chão da fábrica, de macacão.

Assim, se o presidente realmente radicalizasse, este blog tem o palpite de que não completaria uma primavera no poder. O que Lula faz no governo é o que de certa forma sempre se propôs a fazer quando sindicalista: conciliar capital e trabalho, tentando obter vantagens para o lado mais fraco. É pouco? Para o pessoal do PSOL, é pouco, mas para quem não tinha bolsa família, não comia três vezes por dia, apanhava da polícia nos assentamentos de beira de estrada, talvez também não seja suficiente, mas pelo menos permite sonhar e viver um mundo bem menos difícil do que se vivia com os tucanos e pefelês no poder.

São Paulo segura a partir de janeiro


Charge do Agê que está no DCI desta quarta-feira

Delfim Netto e os preconceitos tucanos

O pessoal do PSDB está adorando a possibilidade de Lula nomear o economista Delfim Netto para algum cargo no governo federal. Desde a campanha, dizem que o PT agora "anda com o Delfim", "virou amigo do Gordo" e coisas deste tipo, lembrando sempre o passado do economista e sua vinculação com o regime militar. Por um lado é estranha a crítica tucana, afinal, foram eles, políticos do PSDB, que inauguraram a aproximação dos "puros" com a turma dos que pularam do barco e criaram a Frente Liberal, mas sempre esteviveram lá, servindo os generais de plantão? Ou Antonio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, Marco Maciel são diferentes de Delfim?

Por outro lado, como bem ressaltou o senador Eduardo Suplicy, a experiência de Delfim poderia, sim, ser muito útil ao governo. Conforme bem observou o senador, que de bobo não tem nada, o economista seria excelente solução, por exemplo, para o comando do Banco Central: a verdade dos fatos é que ele está bem à esquerda do ex-tucano Henrique Meirelles, um darling dos banqueiros e atualmente "imexível" no posto que ocupa, para usar a expressão do nada saudoso ex-ministro Rogério Magri.

Delfim era interlocutor frequente de Antonio Palocci e agora parece ter virado um conselheiro do presidente Lula para assuntos econômicos. O que se diz nos bastidores é que, além do programa do déficit nominal zero, rejeitado pelo presidente, Delfim tem proposto idéias para alavancar o crescimento e foi um crítico da política monetária adotada por Meirelles. A vinculação com os militares será sempre um problema para Delfim – dentro do PT também há muito preconceito contra o economista –, mas o exame de suas idéias não há de configurar um pecado. Ao contrário: Delfim Netto é inteligente, experiente e tem o que dizer sobre a economia brasileira. Os tucanos sabem disto.

Ainda Tasso: confusão aumenta no PSDB

Notas em blogs e sites noticiosos informam que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o governador eleito José Serra ficaram especialmente irritados com a declaração de apoio de Tasso Jereissati a uma eventual candidatura de Ciro Gomes a presidente em 2010.

Realmente, a vida não está fácil para os tucanos. Nesta terça à noite, Geraldo Alckmin resolveu dar uma de engraçadinho e afirmou que o país vive uma crise "em terra, mar e ar". Não demorou, veio a resposta do presidente do PT, o professor Marco Aurélio Garcia: "Alckmin ainda está um pouco no ar depois da sova eleitoral que levou. Ele ainda não aterrissou..." Com a polêmica em torno do governo Lula, Alckmin deixou de esclarecer o que fazia em Brasília um dia depois da gafe de Jereissati. Turismo, certamente não era...

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Tucano Tasso desagrada correligionários

Já está circulando nos blogs ligados ao tucanato muita reclamação sobre a performance do presidente nacional do PSDB, Tasso Jereissati, no programa Roda Viva exibido na noite de ontem. O motivo aparente da decepção seria a confissão de Tasso de que poderá apoiar Ciro Gomes, hoje no PSB, para a presidência da República em 2010.

Na verdade, Tasso até foi coerente – em 2002, apoiou Ciro e não José Serra para a presidência. A grita no partido nada mais é do que um mote para a turma que anda descontente com a condução política de Tasso deflagrar a guerra interna para a sua sucessão. Nesta semana mesmo, o governador eleito Serra já deixou claro que apóia o líder tucano na Câmara Federal, Juthay Jr., no embate com Jereissati – os dois brigaram feio e bateram boca na última reunião da Excecutiva do partido. Serra não engole Jereissati e quer colocar alguém de sua confiança na presidência do PSDB. Aécio Neves, por sua vez, diz apoiar o nome de Geraldo Alckmin para o comando tucano – o que não quer dizer, necessariamente, que Aécio vá realmente trabalhar pela indicação. Fernando Henrique mandou avisar que deseja ser incluído fora desta, o que, em tucanês, pode significar que ele pretende, sim, disputar a presidência do partido. Muita água ainda vai rolar debaixo da ponte até 2010 e este blog avalia que as chances de uma implosão no PSDB são altas, muito altas.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Tem vaga no Pinel?

A Folha de S. Paulo de domingo trouxe, no caderno de Economia, matérias sobre os problemas da classe média no primeiro mandato do presidente Lula. O jornal procura mostrar que esta camada pagou o custo, em impostos, da melhoria da qualidade de vida dos mais pobres e não foi beneficiada pela política econômica como foram os mais ricos. No meio das matérias, eis que um título grita, no pé da página: "Especialista defende pausa na distribuição de renda". Sim, não está errado, é isto mesmo que pensa o economista Sergei Soares, apresentado pelo jornal como "especialista em desigualdade social do Ipea". Pinel à parte, a verdade é que Sergei expressa idéias sobre as quais muita gente do PSDB e PFL concorda em gênero, número e grau. Só que os tucanos e liberais não são loucos de dizer tudo o que pensam...

Revista Veja dá capa para Hugo Chávez e
ensina como editorializar uma reportagem

A revista Veja consegue se superar a cada edição. A capa desta semana foi para a eleição do venezuelano Hugo Chávez, reeleito para mais um mandato de 6 anos. O lide da "matéria" segue abaixo e poderia ser utilizado nas escolas de comunicação como exemplo do que jornalistas não devem fazer. Senão vejamos:

Com o cubano Fidel Castro no leito de morte, o coronel Hugo Chávez, ditador eleito da Venezuela, está se apresentando como o novo farol da esquerda revolucionária na América Latina. "Ninguém vai me impedir agora de construir o socialismo", disse Chávez, na semana passada, depois de reeleito para mais seis anos no poder. Ninguém impediu Fidel. Deu no que deu. Cuba tornou-se hoje uma nação pária no mundo, com uma população faminta, despreparada para os rigores da economia globalizada e, mesmo que alfabetizada no jargão marxista, iletrada nas questões que determinam a riqueza das nações. Aparentemente, ninguém vai impedir Chávez de continuar sua tarefa de construção do socialismo na Venezuela. Tanto em Cuba quanto na Venezuela – e de resto em todos os outros lugares onde a experiência foi testada – a construção do socialismo coincide sempre com a destruição dos países nos quais o sistema é implantado. Cubanos e venezuelanos são hoje povos com horizonte menor do que tinham antes de ser submetidos a ditaduras socialistas.


Em primeiro lugar, Veja qualifica o presidente venezuelano de "ditador eleito", o que não chega a ser uma contradição em si, pois de fato há ditadores que forjam eleições (além dos eleitos indiretamente, como os generais-presidentes brasileiros). O problema é que Chávez venceu uma eleição acompanhada de perto por mais de 400 observadores internacionais, que atestaram a letigimidade do pleito. Chávez, portanto, não pode ser qualificado de "ditador eleito". Não bastasse isto, o lide da "reportagem" continua em um tom completamente editorializado, fazendo a condenação do regime socialista de forma tão peremptória que o leitor ou descarta o texto de imediato, se tiver um mínimo de senso crítico, pois o contrabando ideológico é evidente; ou segue em frente, se tiver simpatia pelas idéias expressas pela revista.

A verdade é que Veja optou por se fechar cada vez mais em torno desta fórmula: um anti-comunismo tosco e obsoleto que permeia praticamente todas as reportagens sobre assuntos políticos e até os que nada têm a ver com política. Há um público que gosta, acha válido o "combate" dos cruzados que se encarregam de escrever a revista contra as forças do mal. No futuro, a revista vai ser estudada nas faculdades como um exemplo de panfleto ideológico de extrema direita que conseguiu ser bem sucedido e vender mais de um milhão de exemplares. Porque Veja hoje é exatamente isto: um panfleto e como tal deve ser tratado.

Imprensa deixa o Serra trabalhar...

Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciasse as nomeações do ex-ministro Pedro Malan para a pasta da Cultura e de um ex-secretário das gestões de Paulo Maluf e Celso Pitta na prefeitura de São Paulo para, digamos, o ministério das Cidades, não seria difícil imaginar o grau de histeria que tomaria conta da imprensa brasileira, especialmente de certos colunistas. Choveriam "análises" contundentes sobre o fim do segundo mandato do presidente, antes mesmo de seu começo. Afinal, com Lula e o PT, não há segunda chance: a mídia atira primeiro e pergunta depois.

Pois não foi que o governador eleito de São Paulo, o tucano José Serra, completou nesta semana os nomes da sua equipe e anunciou o economista João Sayad, ex-secretário de Finanças da prefeita Marta Suplicy, para a secretaria estadual da Cultura? Outro nome interessante no secretariado de Serra é o de Lair Krahenbuhl, que trabalhou com os prefeitos Maluf e Pitta e foi indicado para a Habitação. Sobre essas nomeações, a imprensa de São Paulo simplesmente calou. Nada contra Sayad e Krahenbuhl – dois excelentes nomes, ambos muito competentes –, mas causa estranheza que jornal algum tenha chamado atenção para o fato de Sayad ter trabalhado com Marta e Lair, com Maluf e Pitta. Aliás, não foi possível ler uma única análise crítica sobre a composição do secretariado de Serra.

A verdade é que após perder para Alckmin a disputa interna pela vaga de candidato à presidência, Serra foi poupado de qualquer tipo de crítica pela imprensa paulista. Ao contrário de 2002, quando o então candidato à presidência recebeu um tratamento duro da mídia, Serra parece ter se tornado um darling dos donos dos grandes veículos. Da Folha de S. Paulo até era de se esperar um tratamento carinhoso ao seu ex-colunista, mas a unanimidade em torno do governador está ficando algo até meio constrangedor. Parodiando o jingle da campanha do presidente Lula, parece que a mídia vai deixar o Serra trabalhar sem incomodá-lo muito pelos próximos quatro anos.

sábado, 9 de dezembro de 2006

Mainardi e Francis: não dá para comparar

Na coluna desta semana na revista Veja, Diogo Mainardi, sempre ele, se compara a Paulo Francis. A justificativa do colunista não é ruim: os dois, Mainardi e Francis, tomaram processos em virtude das bobagens que escreveram ou disseram na televisão. Semelhanças à parte, as diferenças são muito maiores: Francis era divertido, culto e inteligente, características que fazem falta ao parajornalista da Veja. Aliás, se Mainardi olhar ao redor, vai achar alguns colegas que também tentam ser clones de Francis. Deveria, portanto, se comparar a eles, não ao original.

Este blog, por sinal, poderia promover uma enquete para saber dos leitores quem imita melhor o talentoso Francis. Mainardi, naturalmente, e Daniel Piza largam na frente, mas outros poderão atropelá-los na reta final. Ao jornalista (?) que tiver mais votos o blog enviaria o livro "Vida e Obra do plagiário Paulo Francis", de Fernando Jorge. Mande seu voto para luizaccm@dci.com.br ou use o link de comentários para dar a sua opinião.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Estudante não tem jeito...

Bom humor é fundamental. Agora pouco, na Avenida Paulista, coração de São Paulo, estudantes secundaristas e universitários faziam um protesto contra o aumento no preço da passagem de ônibus, determinado mês passado pelo prefeito Gilberto Kassab (PFL). O grito de guerra da galera reunida na Paulista não poderia ser mais elucidativo: "Kassab, mas que vergonha/a passagem tá mais cara que a maconha".

Crise aérea: na próxima eleição,
ninguém mais vai lembrar do assunto

Já há vários analistas afirmando categoricamente que o presidente Lula teria perdido as eleições se a crise aérea tivesse ocorrido em outubro. Pode até ser, mas basta pensar um pouco para perceber o exagero de tal hipótese. Em primeiro lugar, porque a grande maioria dos brasileiros diretamente afetados pela crise provavelmente já votaria mesmo em Geraldo Alckmin. O resultado, desta forma, seria pouco alterado. E em segundo lugar, é preciso levar em consideração o caráter efêmero da crise. Tão logo ela seja debelada – e isto é questão de negociação, uma vez que o que está a se passar é decididamente uma greve branca dos controladores de vôo –, a verdadeira histeria que se vê hoje na imprensa vai sumir em questão de dias. E na próxima eleição, em 2008, é provável que ninguém mais se lembre do tal "apagão aéreo", salvo o pessoal que foi diretamente afetado pelos transtornos decorrentes dos atrasos e cancelamentos dos vôos. Lula sabe de tudo isto e, com sua experiência de líder sindical, parece estar esticando a corda para conseguir um acordo com os controladores que não seja tão desfavorável ao governo. Afinal, de greve – branca, marrom, colorida – o presidente entende bastante, certamente mais do que os críticos da "crise aérea".

PSOL já estuda as candidaturas de Plínio Sampaio e Carlos Giannazi em São Paulo

Animados com a derrubada da cláusula de barreira no Supremo Tribunal Federal, os militantes do PSOL já começam a fazer planos para o futuro. Em São Paulo, o partido estuda lançar o ex-deputado federal Plínio de Arruda Sampaio para vereador, a fim de puxar votos e garantir uma boa bancada na Câmara Municipal. E para a disputa da prefeitura da Capital, o PSOL poderá lançar o vereador e deputado estadual eleito Carlos Giannazi. Plínio representaria a experiência e Giannazi, a renovação. Em comum, os dois têm a militância passada no PT, como, aliás, a quase totalidade dos integrantes do PSOL.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Uns probleminhas nas contas...


Charge do Agê, que estará no DCI de sexta-feira

Nanicos em festa: cai a cláusula de barreira

A política brasileira é engraçada. O Supremo Tribunal Federal acaba de derrubar a cláusula de barreira, o que permitirá aos pequenos partidos os mesmos direitos dos grandes. Os nanicos, obviamente, estão em festa, porque sempre lutaram contra a regra. Em tese, realmente não é má idéia uma legislação para combater os partidos de aluguel, que acabam sobrevivendo "prestando serviços" a determinados candidatos em anos eleitorais, seja pelo "arrendamento" do tempo que dispõem na televisão, seja pela aliança formal com legendas maiores. Por outro lado, a democracia brasileira pode preferir tolerar essas práticas em nome de manter pequenas legendas com história política séria (PCdoB e PCB, por exemplo) funcionando normalmente, sem constrangimentos. É uma opção que cabe à classe política.

Tudo somado, o mais engraçado nessa história toda é que, por causa da cláusula de barreira, o PPS deixou de existir: uma fusão juntou o partido de Roberto Freire com o PHS e PMN. Os três fundaram a Mobilização Democrática (MD). Será que com a queda da cláusula o MD continua? Freire com a palavra...

Uma questão de autoridade

Vale a pena ler a história abaixo, relatada pelo jornalista Sebastião Nery em sua coluna diária que sai em vários jornais do País, inclusive no DCI. É uma história divertida e muito pertinente para esses tempos de descontroladores e descontrolados...

Uma semana depois de Jânio Quadros e João Goulart tomarem posse na Presidência e vice-Presidência da República em 31 de janeiro de 1961, o jornalista Raul Ryff, secretário de imprensa de Jango, ligou para o jornalista José Aparecido de Oliveira, secretário particular de Jânio:
— Aparecido, durante o governo do Juscelino, o Jango, como vice-presidente, sempre teve um avião da FAB à disposição. Agora, no governo do Jânio, o ministro Grun Moss, da Aeronáutica, tirou o avião do vice-presidente.
Acontece que ele está esperando a mãe, que chega ao Rio às 17 horas, e depois não haverá mais nenhum avião de carreira para Brasília. E ele tem uma reunião com as bancadas do PTB, em Brasília, à noite. Você poderia conseguir um avião para levar o vice-presidente a Brasília?
Aparecido falou com o general Pedro Geraldo, chefe da Casa Militar, pediu para ele providenciar o avião e comunicou a providência a Jânio, que aprovou. Às quatro da tarde, Ryff ligou de novo para Aparecido:
— Como é, tchê, e o avião?
— Já está à disposição do vice-presidente aí no Rio.
Não estava. Aparecido foi ao general Pedro Geraldo, que acabava de receber um telex do ministro da Aeronáutica, lamentando não poder atender porque a FAB “não tinha nenhum avião disponível”. Aparecido foi a Jânio.
— Aparecido, foi bom que isso tivesse acontecido logo na primeira semana. Você vai ver que não ficaremos um minuto aqui sem autoridade.
E Jânio mandou chamar o general Pedro Geraldo:
— General, volte a comunicar-se com o senhor ministro da Aeronáutica e lhe transmita a seguinte instrução: faça descer o primeiro avião que sobrevoar o Rio, desembarque os passageiros e ponha-o à disposição do senhor vice-presidente da República. Trata-se de uma ordem do presidente da República.
Em dez minutos, a Aeronáutica pôs um avião à disposição de Jango.

Coalizão de Lula começou com colisões

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem trabalhado duro na tarefa de montar um governo de coalizão para o segundo mandato. O presidente está em vias de incluir formalmente o PMDB, PDT, PCdoB, PSB e PRB, além, é claro, do seu próprio partido, o PT, na tal coalizão. Além dessas agremiações, PTB, PL e PP deverão apoiar o presidente, sem no entanto integrar o Conselho Político do governo de coalizão.

É muito partido, sem dúvida, mas os primeiros embates no Congresso revelam que a coalizão não está nada harmônica. Ontem, houve o primeiro grande teste para a aliança costurada por Lula e os governistas se deram mal. A eleição para a indicação da Câmara Federal a uma vaga de ministro do Tribunal de Contas da União terminou com a vitória do deputado federal Aroldo Cedraz, do PFL da Bahia, ligado ao grupo de Antonio Carlos Magalhães. Cedraz derrotou o petista mineiro Paulo Delgado por 172 votos a 148. Gonzaga Mota (PSDB-CE) obteve 50 votos e o deputado Ademir Camilo (PDT-MG) recebeu 20 votos. Foram 6 votos brancos e 3 nulos, com 399 votantes.

O que circula nos bastidores de Brasília é que Cedraz recebeu apoios inclusive na base aliada e até do presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que estaria de olho nos votos do PFL para a sua própria reeleição. Claro que Aldo negará a versão, caso seja questionado a respeito de tão delicado assunto, mas como dizem os italianos, “si non è vero, è bene trovato”. E a verdade é que sem apoio na base aliada, Cedraz não venceria.

A falta de união da base só não é tão grave para Lula neste momento por duas razões: em primeiro lugar, a próxima legislatura começará com outra configuração das forças partidárias, talvez um pouco mais favorável ao presidente do que a atual; enquanto não forem decididas as presidências das duas Casas do Congresso e o nome dos novos ministros, o jogo político reflete as incertezas das disputas em andamento. E um dos meios mais eficazes de pressão de quem está neste jogo é “mandar recado” ao Planalto em votações importantes. Até março, portanto, muita água ainda vai rolar por debaixo da ponte.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Serra anuncia secretariado completo

Conforme antecipou este blog, José Serra, governador eleito de São Paulo, anunciou de uma só vez os nomes que faltavam para compor o seu secretariado. Foram criadas três novas pastas, mas ninguém vai falar de "inchaço" ou "aparelhamento do Estado": na grande imprensa, tucano, quando cria cargos ou secretarias, está sempre agindo para racionalizar a máquina pública e com a melhor das intenções. Na nova secretaria de Gestão e Administração, Serra escalou o deputado estadual Sidney Beraldo, do PSDB de São João da Boa Vista e presidente estadual da legenda, ex-presidente da Assembléia Estadual. A secretaria de Ensino Superior ficou com o deputado federal José Aristodemo Pinotti, do PFL. A terceira nova pasta foi a de Relações Institucionais, que estará a cargo do ex-secretário de Serra na prefeitura José Henrique Reis Lobo.

Completam a equipe os seguintes futuros secretários: Lair Krahembuhl (Habitação), Dilma Pena (Energia), Mauro Arce (Transportes), Hubert Alqueres (Comunicação), João Sayad (Cultura), Claury Alves da Silva (Esportes) e o vice-governador Alberto Goldman (Ciência e Tecnologia, que passará a chamar Desenvolvimento).

Serra não quer Alckmin na prefeitura de S. Paulo; trio tucano pode se separar em 2010

A montagem do ministério do presidente Lula está centralizando a cobertura política e as atenções dos analistas, mas há um outro jogo muito interessante sendo disputado neste momento, no campo da oposição, que tem sido pouco comentado na mídia. Até agora, os nomes que foram anunciados para o primeiro escalão do governo de São Paulo, que a partir de 1° de janeiro passa para o comando de José Serra (PSDB), revelam uma guerra surda entre os tucanos. Serra, como seria de se esperar, está escalando o seu time, mas é perceptível a má vontade do futuro governador em aproveitar nomes da gestão de Geraldo Alckmin, também tucano. Ao contrário, o que José Serra vem fazendo é justamente colocar para escanteio a turma que serviu Alckmin.

Vingança, como se sabe, é um prato que se serve frio e é isto que Serra está preparando. Nos bastidores do tucanato, também se fala de outra jogada arrojada do futuro governador: ele estaria tentando atrair o prefeito paulistano Gilberto Kassab, hoje no PFL, para o PSDB. Kassab seria então o candidato natural à reeleição, pelo partido tucano, impedindo assim a candidatura de Alckmin a prefeito da capital. De fato, tudo que Serra não deseja é a volta de Alckmin ao cenário político nacional, o que poderia ocorrer se o ex-governador vencesse a disputa eleitoral em 2008. Neste caso, Alckmin poderia mais uma vez pleitear a indicação para a disputa presidencial em 2010 e melar, pela segunda vez, a candidatura de Serra.

A outra variável na equação tucana rumo a 2010 é Aécio Neves, que desde já está montando o seu cacife e se posicionando na disputa pela vaga de candidato à presidência. Aécio evita o confronto com o presidente Lula e assume a postura de oposicionista responsável, que vai trabalhar pelo Brasil, e não contra o sucesso de Lula.

Um observador esperto da cena política, ligado ao tucanato, já fez uma interessante previsão: Serra, Aécio e Alckmin poderão estar, em 2010, em partidos políticos distintos. Este blog não consulta videntes, mas aposta que a configuração poderia ser a seguinte: Serra no PPS, Aécio no PMDB ou PSB, e Alckmin em um PSDB enfraquecido e desitratado.

A banqueirada do PFL, que não é de rasgar nota de cem, está observando os movimentos. No início de 2006, preferiam Serra, mas acabaram no colo de Alckmin e depois reclamaram da fraqueza do candidato. Em 2010, poderão estar com qualquer um dos três ou até disputar, pela segunda vez na história (a primeira foi com Aureliano Chaves, em 1989) a eleição presidencial. Cesar Maia seria epenas um dos nomes disponíveis, mas há outros, em formação. 2006 nem acabou, mas políticos são assim mesmo, é só a urna fechar e já começam a pensar na próxima campanha...

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

José Serra desiste de anunciar os nomes
dos novos secretários a conta-gotas

O governador eleito de São Paulo não vai mais anunciar nenhum nome para a sua equipe de governo até que o time esteja inteiro fechado. Só então José Serra convocará a imprensa e dirá todos os nomes que faltavam. Serra tomou esta decisão hoje, com o objetivo de evitar que aumente a pressão dos aliados pela indicação dos cargos que iriam sobrando, caso ele continuasse soltando os nomes a conta-gotas. Já o governador Aécio Neves, que é de uma escola política mais refinada – a mineira –, avisou que o seu secretariado sairá na última semana do ano e será divulgado completinho. Com isto, Aécio deixa todo mundo em suspense e dispersa a pressão.

Lula pode contar mais uma vantagem...

O dado é do IBGE, um instituto sério: o número de divórcios e segundos casamentos bateu o recorde histórico no Brasil. Portanto, é mais um assunto sobre o qual o presidente Lula pode dizer, sem medo de errar: "nunca antes neste país..."

Só para constar

Está na Folha Online uma notícia em que o ex-ministro Nelson Jobim confirma a sua candidatura à presidência do PMDB e ainda diz que as articulações estão indo bem. Já o Estadão deu um abre de página da edição desta terça-feira para a tal puxada de tapete que o partido estaria dando em Jobim. O futuro vai dizer quem tem razão, mas este blog continua achando que o deputado Michel Temer é um craque em ver as notícias que planta florescerem nas páginas dos grandes jornais nacionais.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

História mal contada

Alguns sites informativos estão informando que está em curso uma articulação política, envolvendo as várias alas do PMDB, com o objetivo de impedir que o ex-ministro Nelson Jobim se torne o novo presidente nacional do partido. Tem até colunista importante comentando a notícia, mas este blog desconfia seriamente de que a tal "articulação" não passe de uma "plantação" do atual presidente do PMDB, deputado federal Michel Temer. Este, como diriam os jovens de hoje, está "bem a fim" de permanecer no cargo.

Ademais, diz o ditado popular: jabuti não sobe em árvore; se subiu, ou foi enchente ou foi mão de gente. Traduzindo para o politiquês: se começaram a espalhar por aí que o PMDB está todo contra a candidatura de Nelson Jobim, é porque alguém mandou espalhar. E o Jobim é que não foi...

Temporada de chuvas é o grande teste
da popularidade dos prefeitos municipais

São Paulo ficou, nesta primeira segunda-feira de dezembro, literalmente debaixo d'água. Outras capitais e grandes cidades vão passar pelo mesmo desconforto e o problema, recorrente nas metrópoles, é o teste de fogo para os prefeitos. Em alguns casos, a população simplesmente não liga e releva a "culpa" dos alcaides, mas há os que têm seus mandatos marcados pela força das enchentes. A popularidade despenca e o projeto de reeleição vai, literalmente, por água abaixo... Tudo depende da postura do governante e, é claro, do volume de chuvas. Gilberto Kassab, o desconhecido prefeito paulistano, parece estar com azar: em novembro, choveu como não acontecia desde 1978 em São Paulo. E dezembro mal começou...

Folha dá notícia velha na primeira página

Mereceu chamada de primeira página da edição de segunda-feira (3/12) da Folha de S. Paulo a informação de que a propaganda eleitoral "gratuita" deste ano custou, em renúncia fiscal para rádios e televisão, R$ 191 milhões. Sempre animados, os redatores do jornal cunharam a expressão "Bolsa Político" e foram ouvir cientistas políticos para comentar assunto tão relevante. A animação deve ter sido realmente grande, pois malhar políticos é uma das diversões prediletas dos jornalistsa da Folha, mas nada impedia o jornal de contar que a notícia já havia sido publicada no dia 28 de novembro no Observatório da Imprensa, em texto do professor Venício A. de Lima. Do jeito que saiu, parece até que foi um furo do jornal.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Ombudsman reprova manchetes contra
o presidente Lula; Folha não comenta

Na semana passada, este blog comentou duas das três manchetes que o ombudsman da Folha de S. Paulo, Marcelo Beraba, analisa em sua coluna semanal deste domingo (3/12). Beraba condenou o jornal em dois casos e absolveu no terceiro, conforme o leitor poderá ler abaixo, onde está reproduzida a íntegra do artigo.

A manchete sobre a "TV do filho de Lula" mereceu um comentário longo neste blog (clique aqui para ler o texto) e é ponto de concordância do ombudsman com o que foi escrito nessas Entrelinhas. No caso da chamada para as doações dos bancos à campanha do presidente, Beraba absolve a Folha, mas não deixa de relatar o argumento que foi levantado aqui para criticar o jornal: se os valores doados para Lula e Alckmin foram os mesmos, por que razão a Folha mencionou apenas o primeiro? Segundo Beraba, porque Lula venceu e Alckmin perdeu.

Pode ser um critério, mas infelizmente a redação da Folha não se manifestou sobre nenhuma das críticas do ombudsman (a outra foi a "barriga" do domingo passado, em que o jornal "garantiu" que a Polícia Federal acusaria Ricardo Berzoini como mandante no caso do Dossiê Vedoin). É um fato raro e estranho a redação não se manifestar sobre as posições do ombudsman. Em tese, isto significa que não havia muito o que explicar — a redação realmente errou ou agiu de má fé.

A seguir, o texto de Marcelo Beraba.


Manchetes e manchetes

TRÊS MANCHETES publicadas pela Folha ao longo da semana provocaram reações contrárias de leitores. Duas delas, na minha opinião, têm problemas -e vou analisá-los-, e uma está correta.
O dossiê
A manchete de domingo passado trouxe uma informação exclusiva sobre o caso do dossiê que Luiz Antonio Vedoin, acusado de comandar a máfia que atuava no Ministério da Saúde, tentou vender para petistas com acusações contra o PSDB. O título e o texto que o sustentava foram categóricos: "Para PF, Berzoini mandou comprar dossiê -
Após dois meses de investigação, a Polícia Federal e o Ministério Público concluíram [grifo meu] que a decisão de compra do dossiê contra tucanos partiu de Ricardo Berzoini, então presidente do PT e coordenador-geral da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva".
O jornal tentava antecipar, com esta informação, o relatório anunciado pela PF para ser divulgado no início da semana. A reportagem não tinha fonte identificada, o que significa dizer que o jornal estava seguro da informação que publicava, mas não podia revelar a sua origem.
O texto interno não usou o verbo concluir, como na capa, mas uma formulação dúbia: "Após dois meses de investigação, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal firmaram a convicção de que a decisão de compra do dossiê contra tucanos partiu de Ricardo Berzoini, então presidente do PT e coordenador-geral da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva".
Na segunda-feira saiu o tal relatório da PF, mas não citava Berzoini. É um documento parcial, e a polícia pedia mais 30 dias para concluir as investigações. Na terça-feira, o jornal saiu pela tangente ao noticiar o anúncio: "A PF não descartou ontem o possível envolvimento do presidente licenciado do PT, Ricardo Berzoini, na trama do dossiê, mas, segundo o superintendente da PF em MT, a polícia "não trabalha com esta hipótese neste momento'".
Na minha opinião, o jornal se precipitou ao dar a informação, ainda mais como manchete. Concluir significa, num caso como este, ter provas para indiciar; firmar convicção não quer dizer nada. É possível que Berzoini seja citado como mandante no relatório final? É possível. Mas, ao que parece, a PF ainda não tem elementos para isso.
Acho que o jornal foi imprudente neste caso e correu um risco desnecessário. A Redação preferiu não responder aos meus questionamentos.


A televisão
A manchete de terça-feira -"Publicidade oficial ajuda a bancar TV de filho de Lula"- contém um erro. Até prova em contrário, o filho de Lula não tem uma emissora de TV, como dão a entender a manchete e o título interno - "Verbas de estatais ajudam a bancar TV de filho de Lula".
A notícia, como está na Primeira Página, não sustenta a manchete: "A Gamecorp, de Fábio Luiz Lula da Silva, filho do presidente Lula, divide com o Grupo Bandeirantes o faturamento obtido com verbas federais em anúncios na Play TV (ex-Rede 21). É o que prevê o contrato assinado entre a Rede 21, da Bandeirantes, e a Gamecorp, que produz programas transmitidos pela Play TV".
Há uma ação na Justiça do grupo Bandeirantes, proprietária da Play TV, contra a Editora Abril. Entre vários pontos que cabe à Justiça esclarecer está o da acusação, feita pela Abril, de que a emissora teria sido arrendada pela Gamecorp, o que constitui uma ilegalidade. Segundo a Bandeirantes, o que há é uma venda de espaço.
O "Painel do Leitor" publicou, no dia seguinte, duas cartas contestando aspectos da reportagem, uma delas do Grupo Bandeirantes. Um das reclamações dizia respeito à manchete: "Diferentemente do que informa a manchete, o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é sequer acionista da Rede 21". A resposta da Folha foge do questionamento: "... a manchete se referia ao espaço controlado pela Game TV (ex-Gamecorp) na programação da PlayTV (antiga Rede 21). A Game TV tem entre os sócios Fábio Luiz da Silva. Em nenhum momento a reportagem afirmou que ele era acionista da Rede 21". A reportagem, não; mas a manchete, sim.
É importante que o jornal continue interessado em esclarecer este assunto. Envolve uma emissora de TV (concessão pública), uma empresa de telefonia (concessão pública), publicidade oficial (dinheiro público) e uma empresa que tem como sócio o filho do presidente da República. É um assunto de interesse público. Mas há um erro de informação na manchete e o jornal deveria corrigi-lo. Também sobre este assunto a Redação não quis se pronunciar.

As doações
A terceira manchete polêmica -"Bancos lideram doações a Lula"- está correta. A objeção levantada por alguns leitores foi a de que o candidato derrotado, Geraldo Alckmin (PSDB), recebeu igual quantia dos bancos, conforme o próprio jornal noticiou na Primeira Página.
Um leitor sugeriu que o título deveria ter sido algo como "Bancos lideram doações a Lula e Alckmin". Poderia ser. Mas a manchete da Folha não está errada, na minha opinião, e por uma simples razão: Lula ganhou a eleição, e Alckmin perdeu.
O principal foco da imprensa tem de estar em Lula, que terá a responsabilidade de presidir o país por mais quatro anos. As doações revelam os grupos de interesse que cobrarão do próximo governo, e não do candidato derrotado, as doações concedidas durante a campanha eleitoral, no papel a mais cara de todos os tempos. É do presidente que se deverá exigir transparência, impessoalidade e correção nas relações que envolvam os interesses desses doadores.
O jornal divulgou bem, ao longo da semana, as informações fornecidas pelo TSE sobre os financiamentos e custos das campanhas. São informações que, embora de interesse público, eram negadas à população. Mas aponto duas falhas no trabalho da Folha:
1 - O jornal não divulgou como deveria os dados relativos à campanha de Alckmin. A prestação de contas do comitê tucano foi entregue tarde, na terça, bem depois do de Lula, e o jornal só pôde publicar as informações completas sobre as duas campanhas, com infográficos, na Edição SP. Os leitores da Edição Nacional (52%) tomaram conhecimento apenas dos dados detalhados dos doadores de Lula. Era de se esperar, portanto, que o jornal publicasse na quinta-feira os dados de Alckmin na Edição Nacional. Isso não ocorreu, mas ontem o jornal sanou parcialmente a falha ao revelar as empresas que têm contratos com o governo de São Paulo e fizeram doações ao tucano.
2 - O jornal aproveitou bem as informações sobre as empresas que fizeram doações para os eleitos para o Congresso. Esqueceu, porém, de cruzar os dados que dispõe a respeito dos deputados estaduais de São Paulo (sede do jornal) e da bancada federal do Estado. Que grupos econômicos, sindicais, corporativos ajudaram a eleger os deputados estaduais? E os federais? Quais serão as bancadas formadas em torno de interesses específicos que atuarão acima dos partidos? Com que compromissos esses parlamentares chegam ao Legislativo? Essas são informações disponíveis na Justiça Eleitoral ainda em estado bruto e que deveriam ter uma atenção especial do jornal porque constituem uma prestação de serviço aos leitores.
Mesmo a prestação de contas de José Serra (PSDB), o novo governador de São Paulo, foi pouco explorada pelo jornal ("Em SP, custo das principais campanhas aumenta 83%", em 3 de novembro) e deveria ser objeto de novo levantamento para uma análise mais detalhada, como se fez acertadamente com Lula.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Um bom livro que poderia ser mais quente

Blog também é cultura e com o marasmo político da semana, sobra espaço para comentar (e recomendar) a leitura do livro Do golpe ao Planalto - uma vida de repórter, de autoria do jornalista Ricardo Kotscho, que foi secretário de Imprensa do governo Lula até o final de 2004.

De leitura agradável – é perfeitamente possível devorar as 368 páginas de uma sentada –, o livro de Kotscho passeia pela história recente do Brasil e traz muita informação útil principalmente para os estudantes de comunicação ou jornalistas que estão começando na profissão. É bem verdade que Kotscho descreve, na maior parte de suas precoces memórias, um cenário que já não existe mais: foi-se o tempo em que os jornais brasileiros tinham correspondentes fixos em cidades como Berlim – Kotscho conta muitas histórias saborosas da sua vida de jornalista no exterior – ou que podiam se dar ao luxo de despachar repórteres para correr o País sem uma pauta pré-determinada. O próprio autor em alguns momentos revela alguma nostalgia do tempo em que as oportunidades para os jornalistas eram mais amplas, embora talvez as condições de trabalho fossem mais precárias.

O livro de Kotscho vai muito bem até o final, quando ele deixa o leitor com um gosto de "quero mais". De fato, para quem tem uma intimidade tão grande com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva – são quase quarenta anos de convivência –, Kotscho revela muito pouco dos bastidores do governo. Sobre as campanhas presidenciais, por exemplo, ele conta mais histórias, mas ainda assim certamente um milésimo do que o repórter (ou o assessor do candidato) presenciou. Se a maior curiosidade do público for pela história recente, pelos fatos ocorridos durante a primeira gestão de Lula, há um certo risco de frustração ao final da leitura, porque Kotscho realmente preserva o amigo-presidente. Apesar da "proteção", sobre este período também há, é claro, algumas boas histórias, inclusive a revelação de que foi ele, Kotscho, o "responsável" pelo envio ao Congresso do projeto do nefasto Conselho Federal de Jornalismo. O pior é que o secretário de Imprensa sequer havia lido com atenção o texto que acabou chancelado pelo presidente Lula...

Tudo somado, Do golpe ao Planalto poderia ser um pouco mais quente em suas páginas finais, mas não foi esta a temperatura que Kotscho julgou adequada para o momento. Talvez daqui a alguns anos, quando a poeira tiver baixado, ele sacie a curiosidade dos leitores. Afina, não há ninguém mais indicado para escrever a biografia do presidente Lula do que Ricardo Kotscho.

Paulo Henrique analisa o PIB e a mídia

O comentário abaixo está no blog do jornalista Paulo Henrique Amorim, o Conversa Afiada. A análise é tão pertinente que não dá para não reproduzir na íntegra:

Máximas e mínimas 18

. Os jornais da mídia tradicional celebram o crescimento medíocre de economia em 2006:
. Manchete da Folha de S. Paulo, de fora a fora, na primeira página: "Câmbio faz economia crescer só 0,5%".
. (Eis aí uma questão interessante: quem disse que a economia não cresce por causa do câmbio? Raras vezes se vê na imprensa mundial uma manchete que discuta com tanta intensidade um problema dessa complexidade técnica. É possível encontrar 100 economistas de alto valor que concordem com a tese da Folha. E outros cem que discordem. Quer dizer: além de termos um jornalismo opinativo na manchete, temos opinião sobre correntes de pensamento econômico. Parece que estamos no site do FMI ou na primeira página do Financial Times. E tudo isso pelos mesmos R$ 2,50...)
. Manchete do Estadão: "PIB sobe 0,5% e confirma ano de baixo crescimento".
. Manchete do Globo: "PIB indica crescimento abaixo de 3% este ano". E, na seção de economia, uma contribuição, digamos, poética, ao noticiário econômico: "Pais vai devagar, devagarinho", como se diria num pagode.
. Acontece que o medíocre crescimento do Governo Lula, nos primeiros quatro anos, é superior ao de FHC nos primeiros quatro anos, e superior à média dos oito anos de FHC.
. De acordo com a previsão da pesquisa Focus, o crescimento de 2006 deve ser de 2,9%.
. Com isso, o crescimento médio dos quatro primeiros anos de Lula será de 2,65%.
. Nos quatro primeiros anos de FHC, o PIB cresceu 2,57%, na media.
. Nos oito anos de FHC, o PIB cresceu, na media, ainda menos: 2,33%.
. No último ano do primeiro mandato, 1998, o crescimento da economia foi de 0,1%. Não, não é erro de imprensa: foi de ... preste atenção ... 0,1% !
. Quer dizer, FHC foi duas vezes mais medíocre do que Lula.
. E a mídia tradicional tratava da questão com metade do entusiasmo...
. Aliás, na verdade, no Governo FHC, fazer a economia crescer era uma questão secundária.
. Recentemente (28 de novembro), no jornal Valor, Delfim Netto publicou uma tabelinha interessante.
. Delfim enumerou 10 itens: crescimento da economia, taxa de inflação, exportações, saldo comercial, saldo em conta-corrente, divida liquida/ PIB, déficit nominal /PIB, superávit primário/Pib, divida externa/PIB, e reservas internacionais.
. E comparou o ultimo ano do segundo mandato de FHC (2002), com o ultimo ano do primeiro mandato de Lula (2006).
. Em TODOS os dez itens Lula ganha de FHC.
. Como me disse uma vez um jornalista americano sobre a devoção da mídia brasileira a FHC: "vocês parecem muito felizes porque seu presidente fala francês" ...