quarta-feira, 30 de abril de 2008

Brasil de Lula já é grau de investimento

Foi antes do que se esperava: a agência Standard & Poor´s elevou na tarde desta quarta-feira o Brasil à categoria de grau de investimento. Isto significa que o país terá mais facilidade para atrair o capital estrangeiro tanto no setor privado como nas parcerias com o setor público, nas obras de infra-estruturas tão necessárias para alavancar o desenvolvimento do Brasil.

No fundo, o presidente Lula é mesmo um rapaz de sorte. Quando a volta inflação ameaçava virar o assunto econômico do ano e ele tinha de decidir sobre o aumento da gasolina, eis que chega o tão sonhado "investment grade". Pé quente como Lula, vai ser difícil achar outro.

Standard & Poor`s eleva Brasil a categoria de grau de investimento

SÃO PAULO - A agência de classificação de risco Standard & Poor`s elevou há pouco a nota de crédito (rating) da dívida externa e de longo prazo do Brasil de BB+ para BBB-. Com a elevação, o país entra para o grupo de países considerados de baixo risco, chamado de grau de investimento, ou investment grade.

Aguardada há alguns anos pelo governo e por agentes do mercado financeiro, a notícia foi vista com surpresa pelo mercado, já que não era esperada ainda neste primeiro semestre.

O principal benefício de o país se tornar investment grade é atrair grandes investidores institucionais de países desenvolvidos que, por regras dos seus estatutos, só podem investir em ativos considerados de baixo risco.

Quércia quer o PMDB contra Lula

Vale a pena ler a íntegra da entrevista reproduzida abaixo, publicada originalmente na Folha de S. Paulo desta quarta-feira. O ex-governador Orestes Quércia é um político à antiga, daqueles que não dá ponto sem nó. O apoio às pretensões presidenciais do governador José Serra é uma resposta bem direta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que prometeu mundos e fundos ao PMDB paulista e não entregou coisa alguma. Em 2002, Quércia foi um dos primeiros peemedebistas, ao lado de Roberto Requião, a abandonar a candidatura patrocinada pelo então presidente Fernando Henrique, qual seja a do mesmo Serra que hoje ele apóia, para dar suporte ao então oposicionista Lula. Naquela época, os argumentos de Quércia eram praticamente os mesmos de hoje: ele batia na falta de arrojo do governo federal em promover o crescimento do país. Agora, o ex-governador reclama da tibieza da gestão Lula e diz que Serra sempre foi crítico tanto da política econômica de FHC como da de Lula. A seguir, a íntegra da entrevista.

"Candidatura de Serra é a única opção para derrotar governo Lula"

MÔNICA BERGAMO

De patinho feio da política, no início dos anos 90, o ex-governador Orestes Quércia (PMDB-SP) se transformou, este ano, no cisne mais vistoso da eleição municipal em São Paulo. Disputado pelos principais candidatos e partidos, graças principalmente aos quatro minutos que o PMDB dispõe para os programas de TV da campanha eleitoral, Quércia acabou fechando com o prefeito Gilberto Kassab (DEM-SP).
E diz claramente que fez isso para fortalecer a candidatura de José Serra (PSDB-SP) à Presidência da República em 2010. "É preciso mudar o governo. E a única possibilidade que eu vejo hoje é de o Serra ganhar a eleição." Abaixo, os principais trechos da conversa que ele teve com a Folha, na segunda-feira, em seu escritório:

FOLHA - Por que Gilberto Kassab?
ORESTES QUÉRCIA - Basicamente, nós decidimos não apoiar o PT. As pessoas falam: "Ah, mas você é candidato a senador", e o Kassab me ofereceu [a vaga ao Senado numa chapa DEM-PMDB em 2010]. E o DEM, por sua vez, tinha interesse nos quatro minutos de televisão do PMDB na eleição. Tem essas questões. Mas sobretudo eu acho que o país precisa mudar o governo do PT. E hoje só existe uma alternativa para derrotar o governo do Lula, que é a candidatura do José Serra [a presidente da República em 2010].
Como a eleição municipal tem esse objetivo, de fortalecer uma candidatura [a presidente], eu decidi tomar uma posição que beneficiasse os democratas e a aliança deles com o Serra. É claro, eu sou favorável a que o PMDB tenha candidato à Presidência. Meu candidato é o Roberto Requião [governador do Paraná]. Mas ele tem muitas dúvidas.

FOLHA - Não é uma candidatura colocada de verdade.
QUÉRCIA - Não é. Por isso eu fico numa situação difícil. Eu acho que é preciso mudar o governo. E a única possibilidade que eu vejo hoje é de o Serra ganhar a eleição em 2010.

FOLHA - Mas para a candidatura do Serra é melhor a vitória do Kassab do que a de Geraldo Alckmin (PSDB-SP), que é do partido dele?
QUÉRCIA - O Kassab é do DEM, mas a administração dele é tucana. É mais lógico que ele seja candidato a prefeito.

FOLHA - O senhor acha que a vitória do Alckmin ajudaria o projeto presidencial do governador Aécio Neves (PSDB-MG) contra Serra?
QUÉRCIA - Como existe essa dúvida, e até por causa dela, o ideal seria que o Alckmin apoiasse a eleição do Kassab a prefeito e depois se candidatasse ao governo de São Paulo em 2010, numa chapa com Serra candidato à Presidência. Agora, se o Alckmin definir ser candidato, o ideal é não brigar com o Kassab. Nem com o Quércia. Li hoje no jornal que [partidários de Alckmin] vão brigar comigo por causa de desavenças antigas que tive com o Mario Covas.
Não tem nenhum cabimento isso. Eu sempre fui amigo do Covas. Eu cometi um erro: fui agressivo com ele [na campanha ao governo de SP, em 1990, Quércia chamou Covas de "bundão"]. Fui grosseiro. Infelizmente aconteceu. Me arrependo. Ele não merecia. Eu teria me desculpado se tivesse tido chance. O que vai fazer, né? Mas, até a semana passada, eles [alckmistas] queriam que eu apoiasse o Alckmin para prefeito. Como é que, de repente... As uvas estão verdes? Aliás, o primeiro que me ofereceu vaga para me candidatar ao Senado foi o Alckmin.

FOLHA - Como foram as conversas com o ex-governador?
QUÉRCIA - Foram em dezembro. E, há um mês, eu estive com o José Aníbal [deputado federal ligado a Alckmin], que é meu amigo. E falamos sobre a hipótese de apoio ao Alckmin.

FOLHA - O senhor conversou com Serra sobre o acordo com Kassab?
QUÉRCIA - Não, não. Eu só conversei com o Serra numa festa que a esposa dele deu e convidou a minha mulher. E conversei aqui, na porta do prédio [onde Quércia tem escritório]. O Serra de vez em quando usa o heliponto daqui.

FOLHA - Falaram sobre o quê?
QUÉRCIA - Nada que eu me lembre (risos). Foi uma conversa rápida.

FOLHA - O Aloysio Nunes Ferreira [secretário da Casa Civil de Serra] foi à sua casa.
QUÉRCIA - É. Isso aí eu não estou me lembrando também não (risos).

FOLHA - Por que esconder um diálogo com o Serra?
QUÉRCIA - Eu tive diálogo com o Kassab. E o Kassab não fala três palavras sem citar o Serra. Então, o acordo que nós fizemos com ele tem ligações com o Serra. Eu sei que tem.

FOLHA - E por que não apoiar uma alternativa tucana como Alckmin e Aécio Neves?
QUÉRCIA - Aécio, não. Aí, não. Como faz cinqüenta anos que Minas não tem presidente, e cem que São Paulo não tem, fico com São Paulo. Eu era amigo do Tancredo Neves, avô dele. Conheço o Aécio daquela época, respeito muito, é muito inteligente. Mas ele tem tempo ainda para ser presidente, né? A alternativa Serra é melhor.

FOLHA - E se o Aécio entrar no PMDB?
QUÉRCIA - Eu não acredito nisso. O PMDB é um partido muito dividido. Para ele, seria um risco muito grande.

FOLHA - De entrar no partido e não ser candidato?
QUÉRCIA - É. Ele jamais entraria, eu acho.

FOLHA - Mas, caso ele entre, o senhor o apoiaria para ser candidato à Presidência?
QUÉRCIA - Hoje, não.

FOLHA - O senhor diz que sua decisão de apoiar Kassab foi, basicamente, para derrotar o PT. Mas o senhor conversou com o partido sobre a candidatura de Marta Suplicy (PT-SP).
QUÉRCIA - Eu não podia dizer que eu não conversaria com eles. Eu tinha que conversar. A Marta esteve comigo aqui. Foi uma conversa boa. Mas sempre disse que era difícil, explicando essa questão a nível nacional.

FOLHA - As pessoas creditam sua decisão a uma mágoa antiga com o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), que lançou um candidato ao Senado em 2006 contrariando um acordo e atrapalhado sua candidatura.
QUÉRCIA - Se disser que não levo isso em conta... Eu tenho que levar, uai! Até cheguei a fazer locação de dois imóveis para montar o comitê Lula/Quércia.
Que nunca foi montado. Tudo bem. Mas eu não tomaria uma decisão por causa disso. Eu tomei uma decisão política. O ideal é que o PT não ganhe a eleição em 2010. O governo tem que mudar porque eles não têm competência para governar. E é preocupante o PT ter essa hegemonia no país.

FOLHA - Por quê?
QUÉRCIA - É mensalão, problemas políticos, falta de cumprimento de compromissos.

FOLHA - O PT diz que o mensalão era caixa dois. O senhor também já admitiu que fez caixa dois.
QUÉRCIA - Uma coisa era, antigamente, fazer a campanha eleitoral. Era assim. Mas pagar mensalidade para deputado? Isso é um absurdo, isso eu nunca vi. Para você ver a cabeça do PT, o perigo que isso significa, né? Agora eles aprenderam que isso daí é um absurdo. Espero que não volte a acontecer. Mas as coisas vão mal no Brasil com o PT. O governo vai bem porque o mundo inteiro vai bem.
Então ele vai surfando numa onda. Mas o governo não consegue nem gastar o orçamento que tem para obras, infra-estrutura. E não consegue porque não há competência de administrar. O PAC é o orçamento normal que eles já tinham, e juntaram. Aliás, isso eles aprenderam com o Collor, que fazia um lançamento de coisas que já estavam programadas. E a aliança que o PT fez com o PMDB não está funcionando em nível nacional.

FOLHA - Por quê?
QUÉRCIA - O presidente Lula, quando ganhou a eleição em 2006, falou em fazer uma coalizão com o partido. Até aquele momento, ele só negociava com o José Sarney e com o Renan Calheiros. Participei até de uma conversa com ele em que estavam também o [deputado] Michel Temer (PMDB-SP) e o Moreira Franco (PMDB-RJ). E a coalizão não existiu. O que aconteceu? O PMDB não participa do processo da economia, do governo. Nada. Ficou correndo atrás de cargos, virou o partido que só pensa em cargo.
Até o Geddel [Veira Lima, ministro da Integração Nacional], que é do PMDB, foi indicado pelo governador da Bahia [Jaques Wagner, do PT]. O ministro José Gomes Temporão, da Saúde, foi indicado pelo Lula.

FOLHA - Não foi pelo governador do Rio, Sérgio Cabral, do PMDB?
QUÉRCIA - Ele indicou a pedido. O Lula disse: "Oh, indica aí que é bom". E ele indicou.

FOLHA - O senhor sempre criticou o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, apoiado pelo PFL, hoje DEM, de "neoliberal". O senhor mudou? Ou eles mudaram?
QUÉRCIA - Eles fizeram o Plano Real e a coisa funcionou. Mas o Fernando Henrique deixou de fazer muito investimento porque ele não tinha aquele desprendimento. Como o Lula. Não é por acaso que o Serra sempre foi um crítico da economia do governo do qual ele participava. Ele achava que o país precisava ter um processo de crescimento. Ele tem uma postura de acordo com o que eu sempre defendi.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Amizade colorida

Está na Agência Brasil: Lula afirma que diversificar parceiros não significa abandonar os antigos.

Este blog espera que se trate apenas de um conselho do presidente da República ao craque Ronaldo Fenômeno. Do contrário, dona Marisa que se cuide...

Como se manipula uma notícia

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o Observatório da Imprensa. Na íntegra para os leitores do blog.

LEITURAS DO ESTADÃO
A fome e a vontade de comer

A posse do ministro Gilmar Mendes na presidência do Supremo Tribunal Federal, na semana passada (23/4), em Brasília, foi um evento bastante concorrido, que contou com ampla cobertura da imprensa brasileira. Os jornalões destacaram as fotos do encontro de três de ex-presidentes (Fernando Henrique, Fernando Collor e José Sarney) com o atual titular do cargo, Luiz Inácio Lula da Silva. De fato, as fotos ficaram boas, especialmente a publicada na Folha de S.Paulo com a legenda "Cada cabeça uma sentença", em que os três ex-presidentes aparecem lado a lado, curvados e olhando para baixo.

Evidentemente, além de render os habituais mexericos para as colunas sociais e de notinhas políticas, a posse de Gilmar Mendes rendeu também pelo discurso do novo presidente do Supremo Tribunal Federal. O jornal O Estado de S.Paulo, por exemplo, deu um bom destaque para o assunto na edição de quinta-feira (24/4), em matéria assinada por Ruy Nogueira e reproduzida abaixo (os grifos são meus).

Democracia ganhou autonomia

Em discurso, ministro repele ações do MST

"A democracia brasileira adquiriu autonomia funcional", mas "a agressão aos direitos de terceiros e da comunidade em geral deve ser repelida imediatamente com os instrumentos fornecidos pelo Estado de Direito, sem embaraços, sem tergiversações, sem leniências". O diagnóstico do estado da democracia brasileira e o remédio para casos como as invasões dos sem-terra são do novo presidente do STF, ministro Gilmar Mendes.

Na opinião do ministro, o País, da Constituição de 88 para cá, já estabeleceu a "crença" de que "as vias democráticas de conciliação têm-se mostrado mais lucrativas que o conflito e a ruptura". Essa avaliação da vida política nacional abriu o discurso de posse de Mendes no comando do Poder Judiciário. Na platéia, os ex-presidentes José Sarney (1985-1990), Fernando Collor de Mello (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), os três antecessores do atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que estava sentado ao lado do ministro Mendes.

O presidente do STF lembrou que os últimos 20 anos são o "mais longo período democrático" vivido pelo Brasil republicano. Com Collor e Sarney a poucos metros dele, o ministro acrescentou que a Constituição funcionou porque esse período foi vivido com tranqüilidade institucional, "não obstante a inflação descontrolada (no governo Sarney) e os desvarios da desordem econômica por ela causada, e os sérios casos de corrupção no estamento político (governos Collor - impeachment - e Lula - mensalão)".

Para o ministro, "as forças políticas não colocam em xeque as linhas básicas do Estado de Direito, ainda que alguns movimentos sociais de caráter fortemente reivindicatório atuem, às vezes, na fronteira da legalidade", disse. "Nesses casos, é preciso que haja firmeza por parte das autoridades constituídas, (mas) os direitos de reunião e de liberdade de opinião devem ser respeitados e assegurados", acrescentou.

O novo presidente do STF disse que a "independência do Judiciário", a "capacidade regulatória da Constituição" e "o exercício simultâneo e harmonioso do poder por diversos agentes políticos" explicam o atual "equilíbrio institucional" do País.


Não fossem os trechos em vermelho, a matéria estaria correta. E não é preciso ser especialista para entender o que aconteceu, pois o restante da reportagem revela que Gilmar Mendes falou muita coisa, mas sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não disse palavra. Quando chegou mais perto disto, Mendes citou "movimentos sociais de caráter fortemente reivindicatórios". Ora, ou Ruy Nogueira, além de competente repórter, agora é também um craque na telepatia e conseguiu captar especificamente a quem o ministro se referia, ou o texto do jornalista foi devidamente editado na redação, em São Paulo.

De fato, é até provável que o novo presidente do Supremo, nomeado para o tribunal por Fernando Henrique Cardoso, realmente reprove a ação e o caráter do MST, em particular, e dos movimentos sociais, de forma geral, no que teria a total concordância da direção do Estadão. Reza o bom jornalismo, porém, que se retrate os fatos e não suposições ou os desejos da direção do jornal. Está incorreto o texto do lide da matéria e ainda mais errado está o subtítulo, que traz a referência explícita ao MST. No fundo, se o Estadão tivesse suprimido as duas referências aos sem-terra a matéria estaria correta e o pensamento de Mendes seria entendido praticamente da mesma maneira.

Ao forçar a mão, quem editou a matéria acabou sendo mais realista que o Rei. Sandro Vaia, ex-diretor de Redação do jornal, escreveu uma vez que o maior problema do Estadão era o "Mesquita que está dentro de cada um de nós". Deve ter sido este o caso na edição da matéria sobre a posse de Gilmar Mendes.

Ronaldo Fenômeno: o Brasil já tem
um Maradona para chamar de seu?

As fotos dos, digamos assim, profissionais contratados pelo craque Ronaldo Fenômeno na madrugada de segunda-feira são a maior prova do poder do álcool e/ou das drogas para alterar a percepção das pessoas. Como se sabe, Ronaldo disse que se confundiu a respeito do sexo dos profissionais, mas, a julgar pelas imagens, nem o Mr. Magoo no escuro teria dúvidas sobre o assunto.

Falando sério, a verdade é que dá pena ver um ídolo como o Fenômeno se espatifar desta maneira. A melhor hipótese para o jogador, sua versão sobre uma suposta extorsão, já é bem complicada e pressupõe um comportamento no mínimo imprudente de Ronaldo. Na pior hipótese – a ser verdadeiro o relato sobre consumo de cocaína durante o "programa" –, a carreira (sem trocadilho) do pentacampeão está encerrada e o Brasil ganha um Maradona para chamar de seu. Melancólico.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A tentação do terceiro mandato

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do blog.

A pesquisa CNT-Sensus divulgada na segunda-feira apresentou uma única grande novidade: mais da metade dos brasileiros são favoráveis a uma mudança constitucional para permitir ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a disputa por mais um mandato. Como era de se esperar, a enquete já começou a provocar calafrios na oposição e chiliques nos colunistas conservadores.

O assunto é interessante e merece ser analisado fora do calor das paixões políticas. Infelizmente, a pergunta do instituto Sensus não foi bem formulada e não há como saber se os entrevistados opinaram em relação a apenas mais uma reeleição, para Lula especificamente, ou se seriam favoráveis ao fim da regra que limita o número de vezes que um político pode concorrer ao mesmo cargo executivo. Este detalhe é importante e deveria ser objeto de análise na próxima enquete.

A jovem democracia brasileira tem dado sucessivas demonstrações de que está amadurecendo rapidamente. De 1989, quando a população reconquistou o direito de votar para presidente da República, para cá, os avanços são evidentes. É bom lembrar que logo o primeiro presidente eleito pelo voto direto – Fernando Collor de Mello – foi afastado do cargo sem trauma ou sugestões golpistas. Apesar das muitas críticas, a urna eletrônica tem se mostrado um instrumento eficiente para inibir e impedir fraudes mais grosseiras que ocorriam especialmente no interior do país.

É evidente que ainda há muitas distorções na legislação, especialmente em relação ao financiamento das campanhas, que torna as candidaturas desiguais e permite uma influência nefasta do poder econômico. A tese do financiamento público das campanhas vem ganhando força e pode ser aprovada em breve no Congresso, o que deverá colaborar para a depuração do sistema, embora seja correto reconhecer que a medida não tem força suficiente para acabar de vez com as variadas formas de "caixa 2" e corrupção.

Outro problema da democracia brasileira é na verdade um paradoxo. Por jovem, a cada eleição novas regras são introduzidas, muitas delas com o objetivo de deputar o sistema eleitoral, outras puramente casuísticas. Alguns exemplos ajudam a entender a questão, que no fundo é complexa: em 1989, era permitido às emissoras de televisão editar livremente os debates entre os candidatos, procedimento hoje impensável. E foi justamente o comportamento desleal e manipulador da TV Globo no debate entre Collor e Lula que provocou nos departamentos jurídicos dos partidos políticos a exigência de regras claras, em geral assinadas por todos os envolvidos, de modo a coibir a manipulação das imagens.

Outro caso: até a eleição de 1994, o governante em cargo executivo não podia concorrer à reeleição. Como Fernando Henrique Cardoso havia conseguido conciliar as elites em torno do projeto neoliberal, de execução complicada, e gozava de boa popularidade em função da estabilidade da economia no período pré-desvalorização cambial, casuisticamente o Congresso aprovou o instituto da reeleição, que seria permitida para um mandato apenas. Na eleição de 1998, FHC se reelegeu com facilidade, no primeiro turno, e meses depois o sonho da moeda forte e preços baixos foi sepultado pelas sucessivas crises externas.

Ainda mais interessante foi o que ocorreu com a regra da verticalização das alianças eleitorais. Em 2002, supunha-se que este modelo poderia favorecer o então candidato do PSDB, José Serra, e enfraquecer o hoje presidente Lula. O tiro saiu pela culatra e Serra sofreu um desgaste enorme, sendo inclusive acusado de patrocinar um casuísmo, de tentar vencer "no tapetão", como se diz na gíria futebolística. Quatro anos depois, em 2006, nove entre dez analistas apostavam que a regra poderia favorecer a reeleição de Lula. Pois não é que o Supremo Tribunal Federal derrubou e reformou a regra, favorecendo portanto as chances do opositor de Lula, ex-governador Geraldo Alckmin?

Em tese, é desejável que a legislação eleitoral não mude de eleição para eleição, de modo que os partidos políticos possam se preparar adequadamente para os confrontos e os eleitores se acostumem com as regras do jogo. Em alguns casos, porém, não custa ouvir o que o maior interessado em toda essa história – o povão, que elege e paga os impostos que sustentam a nossa democracia – tem a dizer. Foi assim no plebiscito para definir o regime de governo do Brasil – venceu a república presidencialista, derrotando os partidários da monarquia e do parlamentarismo. Poderia ser assim também no caso do instituto da reeleição. Por que não permitir aos detentores de cargos executivos que concorram a mais de dois mandatos, como aliás já ocorre no legislativo? Qual o argumento real e racional contra esta possibilidade? Por que não deixar para a sabedoria do povo a escolha de seus governantes?

Hoje, infelizmente, a questão está mal colocada porque gira em torno da figura do presidente Lula, isto é, da hipótese de permitir ou não a ele que continue governando o Brasil. O debate da tese da reeleição ilimitada, que é bastante relevante, acaba ficando em segundo plano. Países como Alemanha, França, Itália, Portugal, Eslováquia, Chipre, Estônia, Eslovênia, Grécia e Letônia adotam a reeleição ilimitada e nunca se ouviu alguém dizer que seus presidentes são ditadores ou que o regime político em vigor seja autoritário. Ao contrário, o que se assiste é a alternância dos partidos no poder, sempre com base no voto popular, na sabedoria dos povos. O argumento de que o Brasil é diferente por ser mais pobre, com um povo menos escolarizado não pára em pé: segundo esta visão, os analfabetos, por exemplo, não deveriam ter direito ao voto. Ora, ou se acredita no sufrágio universal ou então o melhor a fazer é voltar no tempo e reintroduzir as eleições indiretas, deixar para os "sábios" a decisão de escolher os governantes.

O presidente Lula é no fundo um homem bastante conservador na política, um negociador nato. Dificilmente ele vai levantar a bandeira da reeleição ilimitada ou patrocinar a idéia de se mudar a Constituição para permitir apenas mais um mandato a ele próprio, ainda mais depois dos péssimos resultados obtidos por Hugo Chávez na Venezuela na campanha que tinha este mesmo objetivo. Ao contrário, no momento quem trabalha na surdina para mudar a legislação eleitoral e acabar com o instituto da reeleição são os tucanos José Serra e Aécio Neves, para os quais o mandato de cinco anos, sem direito do titular se reeleger é positivo por "organizar a fila" das candidaturas presidenciais – como se pode perceber, a visão tucana da política sempre acaba privilegiando a tal fila dos "eleitos" e não os direitos dos eleitores.

PSDB à parte e voltando a Lula, o mais provável é que o presidente tente maximizar a sua força política mantendo no ar a possibilidade do tal terceiro mandato, sem porém se comprometar com a bandeira. É uma jogada inteligente e legítima, até para consolidar um potencial de transferência de voto em 2010. Na política, como de resto ocorre em tudo na vida, existem fatores imponderáveis. Neste caso, o imponderável é o povo. Segundo a CNT/Sensus, 50% dos eleitores querem Lula mais quatro anos já a partir de 2010, contra 70% que aprovam o seu governo. O que fazer se a taxa pró-reeleição começar a se aproximar da taxa de aprovação do presidente? A tentação vai ser grande, talvez maior do que o PT possa suportar.

Vice de Marta deve ser do PDT

Pelo que circula nos bastidores petistas, o presidente Lula teria sondado, na última quinta-feira, o deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (PDT), sobre a possibilidade do partido indicar um nome para compor a chapa na eleição paulistana. Paulinho teria gostado do convite e de lá para cá as conversas evoluíram. O próprio Paulinho poderia ser o vice de Marta, embora as recentes denúncias envolvendo o deputado-sindicalista em um trambique junto ao BNDES possam acabar atrapalhando as suas pretensões.

De qualquer forma, o PT está trabalhando duro para tentar evitar que o prefeito Gilberto Kassab consiga construir em São Paulo algo semelhante ao que Aécio Neves está costurando em Minas Gerais. Além do PDT, os petistas tentarão obter o apoio do PCdoB e PSB. Os socialistas, porém, também estão sendo assediados por Geraldo Alckmin (PSDB).

CNT Sensus: um passeio de Lula

O resultado da pesquisa CNT/Sensus sobre a popularidade presidencial e simulações para as eleições de 2010 revela que os brasileiros continuam totalmente confiantes no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e até gostariam que ele ficasse mais alguns anos no comando do País. Pela primeira vez, a maioria dos entrevistados (50,4%) responderam que são favoráveis a uma mudança na Constituição para que Lula possa concorrer ao terceiro mandato.

Na pesquisa espontânea sobre a eleição de 2010, o presidente consegue espantosos 29% das intenções de voto, um percentual típico de pesquisas estimuladas. Para se ter uma idéia sobre a força de Lula, o segundo colocado na espontânea, o governador paulista José Serra (PSDB), consegue apenas 5% das citações. Ou seja, Lula hoje é seis vezes mais forte do que Serra.

A popularidade do presidente também subiu, atingindo a marca de 69% de aprovação, ao passo que o governo é avaliado como ótimo ou bom por 57% dos brasileiros.

Desnecessário dizer, por óbvio, que é o bom desempenho da economia que sustenta o presidente Lula nas alturas. Não é à toa que nem José Serra e muito menos seu concorrente na disputa tucana, o governador de Minas, Aécio Neves, se atrevem a criticar o presidente. Ao contrário, fazem questão de mostrar que são "velhos amigos" de Lula.

Nos próximos meses algumas más notícias na economia devem ocorrer - aumento na gasolina, alguma inflação nos alimentos, contenção da atividade econômica e subida na taxa de juros. Será o grande teste do presidente Lula: se as taxas de popularidade se mantiverem neste patamar, restará provado que o povo não apenas aprova o presidente na hora da bonança, mas também confia nele na condução de uma eventual crise. Se isto ocorrer, vai ser muito, mas muito difícil mesmo o PT não embarcar na campanha pelo terceiro mandato. Evidentemente, ninguém é imbatível nas urnas e ainda faltam 2 anos para 2010, mas a verdade é que com Lula no páreo, todos os outros cavalos se transformam imediatamente em azarões.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Geraldo Alckmin é osso duro de roer

Pelo que este blog apurou, vai ser muito difícil convencer Geraldo Alckmin (PSDB) a deixar a disputa pela prefeitura de São Paulo. Os aliados do ex-governador no PSDB sentiram o golpe da aliança entre DEM e PMDB, mas estão confiantes no bom desempenho de Alckmin na eleição de outubro.

Reservadamente, os alckimistas dizem que Marta Suplicy (PT) está garantida no segundo turno. A outra vaga seria disputada entre Alckmin e Gilberto Kassab (DEM). O ex-governador larga na frente, mas a concorrência deve se acirrar, ainda mais quando se imagina que Kassab contará com apoio das máquinas municipal e estadual.

Se Alckmin for para o segundo turno, ele certamente terá boas chances de vencer a parada, em função da alta rejeição de Marta Suplicy. É preciso levar em conta, porém, que Marta não é boba e sabe que seu ponto fraco é a rejeição. Desta forma, é provável que ela passe o primeiro turno realizando uma campanha na televisão para diminuir a rejeição enquanto seus adversários estarão lutando entre si para ver quem consegue conquistar o voto conservador na cidade. Uma boa campanha na TV e o desgaste do outro lado pode dar à Marta uma chance única de voltar ao Palácio do Anhangabaú, apesar do famoso "relaxa e goza" e de outras bobagens que atrapalham a ex-prefeita.

Geraldo Alckmin é conhecido pela sua tenacidade. Mostrou que é bom de voto em 2006, quando obteve 40 milhões no primeiro turno. Serra isolou praticamente toda a ala alckmista do governo e agora pode colher o aumento da persistência do ex-governador. Quando batizou a aliança do PMDB com o DEM, Serra fez uma opção consciente pelo conflito interno no PSDB. Se Kassab vencer a eleição, o governador de São Paulo terá obtido uma importante vitória e Alckmin não poderá almejar outra coisa que não legenda para deputado federal. Se, no entanto, o vitorioso for Geraldo Alckmin, aí Serra estará realmente com uma encrenca grande para administrar. A vingança, como se sabe, é um prato que se come frio...

Jorge Rodini comenta o caso Isabella

Em mais uma colaboração para o Entrelinhas, Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia de pesquisas, escreve sobre o episódio que chocou e ainda mobiliza o país: a morte da menina Isabella Nardoni. A seguir, a íntegra do comentário:

O caso Isabella chocou o País todo. Sua apuração é acompanhada, via mídia, por adultos e crianças, pais e avós, tios e tias e, principalmente, educadores.

Como algum ser humano pode concretizar tamanha barbárie? A imagem do pai e madrasta empurrando calmamente o carrinho do supermercado com Isabella e seus irmãos dá a esperança de que tudo não passou de um pesadelo ou que pelo menos uma terceira pessoa é que tenha carregado e jogado nossa pequena.

Pequena Isabella dos brasileiros, especialmente pais e avós, como eu.

O mundo cruel não pode ser também covarde. A inocência infantil não pode ser atacada. Nós não temos o direito de nos calar.

Sendo culpados os pais, a culpa também vai recair sobre nós. Às vezes faltamos com estes pequenos entes, achamos que são grandes o suficiente para entender o inexplicável.

Torço para que os pais não sejam os responsáveis por esta tragédia familiar, apesar dos indícios em contrário. As nossas crianças estão estupefatas com o acontecido. O Brasil respira Isabella. O Brasil se emociona com Isabella.

Isabella, cujo significado é "consagrada a Deus" , está com Ele. E nós todos sempre estaremos com ela, Isa Bela.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Aliança entre DEM e PMDB em São
Paulo altera o cenário político nacional

O autor destas Entrelinhas esteve com excesso de trabalho nos últimos dias e só agora pode dar uns pitacos sobre o fato político da semana – a aliança selada nesta quinta-feira entre os Democratas e o PMDB de São Paulo em torno da candidatura do prefeito Gilberto Kassab (DEM) à reeleição na capital do Estado.

Um exercício honesto de análise política deve levar em conta alguns pressupostos fundamentais para o entendimento do que está em curso. Vamos a eles:

1. Os governadores Aécio Neves (MG) e José Serra (SP) disputam desde a posse do presidente Lula para o seu segundo mandato a indicação do PSDB para disputar a sucessão presidencial em 2010. Pouca gente acredita, mas o ex-governador Geraldo Alckmin (SP) também está neste jogo, cacifado pelos 40 milhões de votos que obteve em 2006, que sem dúvida conferem um enorme efeito "recall", como os marqueteiros gostam de dizer. É claro que Alckmin larga em desvantagem por não estar ocupando no momento nenhum cargo público relevante, mas é bom lembrar que Lula também não ocupava cargo algum quando concorreu em 1989, 1994, 1998 e 2002...

2. O campo governista não tem até agora, faltando pouco mais de dois anos para as eleições de 2010, nenhum " candidato natural" à sucessão do presidente da República. O nome mais forte que se apresenta é mesmo o do próprio Lula, que pela atual legislação está impedido de concorrer.

Posto isto, vamos ao que de fato importa.

Até o estabelecimento da aliança entre DEM e PMDB em São Paulo, o governador José Serra estava em uma posição bastante complicada para levar adiante a sua pretensão - alguns dizem que se trata de idéia fixa - de se tornar presidente do Brasil. Realizando um governo medíocre em São Paulo, Serra só aparecia no noticiário quando alguma tragédia ocorria no Estado. Primeiro foi o desastre no Metrô, depois veio a ocupação da USP, e logo em seguida, o acidente com o avião da TAM em Congonhas (em que o governador, antes de prestar solidariedade às famílias das vítimas, correu para culpar o governo federal pela tragédia). Na soma, só notícias ruins, nem umazinha positiva. Estava difícil.

Ao mesmo tempo, o rival Aécio Neves desfilava fazendo charme ao PMDB, dando palpites na eleição municipal de São Paulo, avalizando a candidatura do ex-governador Alckmin, e costurando uma aliança ecumênica em Belo Horizonte, que deveria unir praticamente todos os partidos políticos, à exceção do DEM e alguns nanicos sem expressão em Minas Gerais. E ainda por cima namorando a miss Brasil Natálida Guimarães, segundo os bem informados. Como diria o filósofo Romário, Aécio era "o cara".

No meio disto tudo e para piorar a situação de Serra, Geraldo Alckmin começou a colocar as manguinhas de fora e a desafiar o governador com a sua pré-candidatura a prefeito de São Paulo. Serra desde sempre se colocou a favor de uma aliança para reeleger o seu vice e hoje prefeito Gilberto Kassab. Alckmin, porém, que até agora está bem à frente de Kassab nas pesquisas de intenção de voto, fazia questão de esquecer da eleição de 2006, quando Serra liderava nas pesquisas e acabou abrindo mão da disputa presidencial para o então governador de São Paulo, que aparecia bem atrás. Dia desses, o ex-governador chegou a afirmar que "nunca viu" o primeiro colocado abrir mão da candidatura para o terceiro. Bem, foi praticamente o que aconteceu em 2006.

Como se diz por aí, o mundo gira e a Lusitana roda. Serra parece ter agido como a formiga da fábula e trabalhou em silêncio. Quando muitos já davam como certa a aliança entre PMDB e PT na capital paulista, eis que o ex-governador Orestes Quércia anuncia publicamente o seu apoio à reeleição de Kassab. Se isto não fosse suficiente, o comandante do PMDB paulista disse também que Serra é um bom nome para a sucessão de Lula e prometeu apoiar Alckmin para o governo do Estado em 2010, se ele abandonar a disputa pela prefeitura, evidentemente.

Para dizer o mínimo, foi um gol de placa de Serra. Sim, de José Serra, e não de Kassab, pois pelo que este blog apurou, quem deu o aval à negociação com Quércia foi ele, Serra. O governador foi quem garantiu a vaga de senador para Orestes Quércia em 2010 – Kassab nem teria autonomia para tanto. Foi Serra quem negociou os espaços que serão reservados ao PMDB paulista na administração do Estado e da capital (caso a chapa seja bem sucedida e vença as eleições). E foi Serra quem bancou, no parte do PSDB que ele comanda, que a aliança com um ex-adversário político não fosse detonada pela base.

O movimento de Serra de aproximação com o PMDB paulista tem dois objetivos distintos. Por um lado, o de isolar Alckmin e Aécio, que flertavam justamente com o PMDB para conseguir, cada qual com seus próprios objetivos, força política para bater Serra no PSDB. Em segundo lugar, e o que é mais importante, Serra conseguiu sinalizar para o presidente Lula e o PT que está mais forte do que se imagina para a eleição de 2010. Sim, é verdade que ninguém em sã consciência concebe imaginar que alguém diga que conquistou apoio do PMDB, tantas são as divisões do partido, mas também é verdade que a seção paulista do partido é bem forte, e pode agregar consigo o Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Sul e alguns outros diretórios estaduais relevantes.

De toda maneira, Serra reequilibrou o jogo com a aliança que patrocionou entre DEM e PMDB. Falta apenas um detalhe, que em grande medida foge ao controle do governador: a candidatura de Alckmim. Toda a pressão agora é para que o ex-governador desista da disputa, mas na noite desta quinta-feira ele teria avisado o prefeito Kassab que permanece candidato. Alckmin segue muito bem nas pesquisas e hoje disputaria o segundo turno com Marta Suplicy com amplas chances de vitória. É tudo que Serra não quer.

Se Geraldo Alckmin disputar a eleição e perder, o governador ficará muito satisfeito, pois não terá nem o que conversar com o seu correligionário. Problemão para Serra é a hipótese de Geraldo vencer a parada e se tornar prefeito de São Paulo. Neste caso, ele mesmo, Alckmin, e Aécio Neves, sairiam fortalecidos. Geraldo ganharia um cacife enorme e poderia tanto pleitear o governo de São Paulo quanto a presidência, se Aécio preferir ficar de fora da disputa. Serra, neste caso, teria de fazer concessões grandes aos inimigos íntimos ou se resignar com uma reeleição em São Paulo, a depender do que Alckmin e Aécio decidam articular.

Mais uma vez, como se vê, Alckmin se coloca como uma pedra no sapato de Serra. Antes que algum tucano questione, o ex-governador está absolutamente no direito de permanecer na disputa – é da democracia que assim seja. Serra, dizem as más línguas, vota em Marta Suplicy se Alckmin passar para o segundo turno contra a petista, o que também é da democracia...

Na verdade, é evidente que o cenário político brasileiro caminha mais uma vez para um clima de acirramento, com as tensões que isto acarreta. Em São Paulo, Serra deve estar de dedos cruzados para que mais nada de ruim lhe aconteça daqui para a frente. Não é pouca coisa.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Jorge Machado: uma caixa
preta que precisa ser aberta

O Entrelinhas tem o prazer e a honra de receber um novo colaborador. Jorge Machado é professor-doutor do curso de Gestão de Políticas Públicas, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo, campus da Zona Leste, a chamada USP-Leste. Machado foi também professor da departamento de Ciência Política do IFCH da Unicamp e é autor de livros e artigos sobre temas relacionados com sociedade do conhecimento, globalização e políticas públicas. Em sua primeira colaboração para o blog, o professor escreve sobre um assunto espinhoso para o governo federal – o modo como são aplicados os recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Vale a pena ler na íntegra:

O BNDES, como todos sabem, utiliza recursos para seus financiamentos oriundos de fundos públicos, tal como o FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). Tendo sido criado para ser um banco de fomento ao desenvolvimento econômico e social, sua finalidade deveria também ser compatível com a origem dos recursos.

No entanto, chama a atenção que no governo Lula o BNDES tem sido usado continuamente para apoiar grandes grupos econômicos, alguns destes que ajudaram na campanha do partido e com enorme poder de lobby. Chama ainda mais a atenção o fato de que o BNDES passou a fazer empréstimos a empresas altamente capitalizadas, como as telefônicas, e em condições de sigilo absoluto. O BNDES divulga apenas a política de algumas linhas de empréstimos. São para os tomadores menores. Para os bilionários empréstimos feito às teles, só se sabe o montante emprestado. Os números são impressionantes: a Telefônica recebeu R$ 2 bilhões, a Brasil Telecom R$ 2,1 bilhões, a Telemar R$ 2,4 bilhões, a Vivo R$ 1,5 bilhão e agora, para a a compra da BrT pela Oi foram outro R$ 1,5 bilhão.

O contribuinte atento deve estar se perguntando: qual é a taxa de juro cobrada nesses empréstimos? Qual é o período de carência? Qual é o prazo para pagamento? Enfim, quais são as condições gerais do negócio? E o que levaria uma empresa estrangeira como a Telefónica, que pode conseguir empréstimos facilmente a juros mais baixos na Europa, preferir usar o dinheiro do BNDES? Algum leitor, sabe qual é a política de empréstimo para tais empresas? Duvido. O autor dessas letras tenta a quase um ano descobrir isto, mas essa instituição “pública” nega veementemente a divulgar quaisquer informações.

O BNDES alega não poder fornecer tais informações devido a proteção legal de sigilo bancário de seus clientes. Ou seja, o argumento sigilo bancário, que se aplica ao cliente e não ao banco, é utilizado para que o mesmo deixe de fornecer informações sobre as políticas e linhas de financiamento que estão sendo utilizadas. Tais informações deveriam ser públicas, pois não afetam diretamente o sigilo do cliente. Para os tomadores menores, não necesariamente amigos do governo e com poder de barganha muito menor do que esses grandes grupos, sabe-se as condições. Estão lá no site.

O princípio da publicidade é um princípio republicano elementar no trato com as coisa pública. Como se trata de recursos públicos, não se pode esconder esses dados. O art. 5º, inciso LX da Constituição, afirma que "a lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social exigirem". A Carta Magna deixa claro que "todos os atos deverão ser públicos", ao mesmo tempo que restringe severamente quaisquer exceções.

Se o BNDES não faz nada ilegal ou imoral, qual é o problema em divulgar suas políticas de empréstimos? Afinal, qual é o atrativo se usar o dinheiro do BNDES? Será que é um negócio tão bom para o interese público o tanto quanto é para essas empresas? Por que os executivos do BNDES não tem coragem de divulgar esses dados?

A publicidade é fundamental em todas as funções e órgãos da república e o BNDES não pode ser uma ilha imune a leis e normas que regem a administração pública. O BNDES não é um banco privado e nem pode aspirar a funcionar como tal, simplesmente porque seus recursos são resultado do trabalho e suor de milhões de contribuintes.

O sigilo excessivo que marca essas operações não apenas lança dúvidas sobre a idoneidade de uma das instituições mais importantes do país, como ajuda a obscurecer ainda mais a nossa já combalida democracia. Esse é um exemplo que compromete ainda mais a credibilidade das instituições públicas, num país onde a falta de transparência cria terreno fértil para a surgimento da corrupção.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Terremoto de 5,2°? Nunca antes neste país...

Do jeito que o presidente Lula tem sorte, é capaz do tal tremor desta terça-feira, cujo epicentro ocorreu a 270 quilômetros da costa de São Vicente, em São Paulo, ter ocorrido bem no tal campo de petróleo de Tupi ou no Carioca, recém-descobertos. Uma chacoalhadinha à toa na tal camada pré-sal, só para fazer jorrar mais fácil o ouro negro que está lá embaixo... Para quem não acredita em bruxas, vale a pena lembrar: a jazida Carioca está situada a 273 km da costa de São Paulo, em profundidade de 2.140m.

Mas a verdade pode ser outra. Há certas coisas que são tão difíceis de acontecer que a elas se sucede outra ainda mais rara. É o caso da vitória do Palmeiras sobre o tricolor do Morumbi, naquela várzea chamada Parque Antártica, com a passagem do escrete alvi-verde para a final do campeonato. Era tão difícil de acontecer que dois dias depois o Estado de São Paulo quase vira epicentro de um terremoto!

Enquete nova no ar

O DataEntrelinhas da semana passada terminou com um inusitado empate - 40 votos pela tese de que Lula tem direito a um terceiro mandato, 40 contrários. Já está no ar a enquete da semana, desta vez sobre as promessas de Fernando Lugo de renegociar o preço da energia de Itaipu. Para votar, basta clicar na coluna ao lado.

Lugo eleito: agora só falta a Colômbia

Só não vê quem não quer: depois do retumbante fracasso do neoliberalismo na América Latina, os povos do continente foram mandando para casa, um a um, os governantes que realizaram, entre as décadas de 80 e a virada do século, as tais reformas neoliberais. No lugar de Cardoso, Menem, Fujimori e tantos outros menos votados, foram sendo substituídos por políticos à esquerda de seus antecessores. Sim, há os mais moderados, como no Chile e Brasil, e os mais radicais (Venezuela, Bolívia e Equador), mas o fato é que praticamente todo o continente foi varrido pela onda vermelha (ou rosa...) porque a população reprovou o que viu e viveu no final do século 20. Com a vitória do bispo Fernando Lugo no Paraguai, dos países importantes da América Latina, apenas a Colômbia ainda é governada por forças de direita (e, segundo as pesquisas, vai continuar sendo por mais um mandato, salvo surpresas).

No caso de Lugo, ainda não está claro se ele é do time dos radicais ou se a promessa de renegociar a energia de Itaipu era só bravata de campanha. No Brasil, os jornais conservadores já estão tratando o novo presidente paraguaio como uma versão piorada do "índio" Evo Morales, presidente da Bolívia. O preconceito contra os governantes mais radicais da América Latina (e contra o próprio PT, no Brasil) é antes de tudo um preconceito anti-povo: as tradicionais famílias controladoras dos grandes conglomerados de mídia do Brasil simplesmente não conseguem conceber um regime em que a massa ignara não se oriente pelas sábias palavras que seus jornalões publicam ou que seus telejornais martelam. O chato deste negócio de democracia é que com o tempo, a coisa funciona e o povão começa a levar a sério a idéia de ser dono dos seus próprios rumos. Para desespero da aristocracia midiática, aqui e no resto da América Latina também...

sábado, 19 de abril de 2008

Raposa do Sol, juros e Isabella Nardoni

O que vai abaixo é o artigo semanal do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do blog.

O presidente Lula é mesmo um homem de sorte. Não fosse o caso Isabella Nardoni, que comoveu e mobiliza o país, dois assuntos estariam tomando muito mais a atenção dos brasileiros, ambos bastante negativos para o governo federal: o conflito entre os "arrozeiros" e indígenas da reserva de Raposa do Sol, que quase descambou no final da semana passada para uma crise militar; e o aumento da taxa básica de juros, a Selic, em meio ponto percentual.

É possível até que os dois temas voltem à baila quando o caso Nardoni esfriar, o que pelo visto não vai acontecer tão cedo, tamanha a cobertura que a bárbara morte da garota vem recebendo na mídia, mas até lá é provável que tanto o conflito em Roraima quanto o debate em torno da decisão do Copom também tenham esfriado.

No episódio de Raposa do Sol, talvez pior para o governo do que o conflito em si e polêmica em torno da operação da Polícia Federal para retirar nos não-indígenas da reserva tenha sido a reação do general Augusto Heleno, comandante-geral da Amazônia, que criticou abertamente a política de Lula para os índios. Inabilmente, o presidente tentou dar um cala-boca no militar, e recebeu de volta uma ameaça velada do Clube da Aeronáutica: "Que o presidente não se atreva a tentar negar-lhe [ao general Heleno] o sagrado dever de defender a soberania e a integridade do Estado brasileiro", diz uma nota divulgada na sexta-feira. O princípio de crise em um setor tão sensível do governo foi debelado com o recuo do presidente na advertência formal ao general, que deveria ser feita pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim. A decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade da demarcação da reserva de Raposa do Sol, que deve ocorrer em breve, pode tanto encerrar a crise (se o STF decidir pela inconstitucionalidade, dando razão aos militares - neste caso o governo terá fazer uma nova demarcação, descontínua e preservando a fronteira, como defende o general Heleno) ou ganhar um novo capítulo, se os ministros decidirem pela legalidade da demarcação contínua – neste caso, caberá à Polícia Federal realizar a retirada dos arrozeiros, que não parece uma tarefa das mais tranqüilas.

Já o episódio do aumento da taxa de juros certamente voltará à tona na próxima reunião do Copom, mas até lá muitas das vozes hoje críticas acabarão se rendendo ao pragmatismo de Henrique Meirelles. Ademais, este é um tema que os economistas gostam de debater, mas que desperta pouco interesse do povão. No fundo, e Lula sabe disto, a grande maioria da população se importa mesmo é com o controle dos preços, especialmente dos alimentos. A estabilidade reelegeu Fernando Henrique e ajudou Lula em 2006 e não vai ser um aumento pontual na taxa de juros que vai alterar a popularidade do presidente. No meio acadêmico, porém, a estratégia de Meirelles é vista como ineficaz por muitos analistas, para os quais simplesmente não existem no Brasil as condições de pressão sobre a demanda que o Banco Central está enxergando.

Lula, porém, realmente tem sorte mais sorte do que o resto dos mortais: nos dois casos ocorridos na semana passada, ele teve a inusitada ajuda da oposição. Sim, tanto no episódio da alta dos juros como no de Raposa do Sol, o presidente foi socorrido não pelos seus companheiros da base aliada, muitos dos quais criticaram duramente o aumento dos juros, mas pelos adversários do PSDB e DEM. Os senadores Arthur Virgílio (PSDB-AM) e Agripino Maia (DEM-RN) declararam em alto e bom som que a alta da Selic foi uma decisão acertadíssima, que se fazia necessária, e hipotecaram solidariedade a Henrique Meirelles. Já na crise com os militares, o mesmo Virgílio fez um discurso inflamado desqualificando o general Heleno e censurando os termos em que o comandante havia se pronunciado - segundo o tucano, um militar da ativa não pode realizar pronunciamentos de caráter político. Como se vê, Lula tem tanta sorte que quando lhe faltam companheiros para a defesa em temas espinhosos, a oposição não se faz de rogada e dá uma mãozinha ao presidente. Realmente, Fernando Henrique tem mesmo que invejar Lula...

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Agripino e Virgílio defendem Meirelles

O jornalista Reinaldo Azevedo, crítico contumaz do governo Lula, não gostou nada das entrevistas de José Agripino Maia (DEM-RN) e Arthur Virgílio (PSDB-AM) ao Jornal da Globo de ontem, em que ambos defenderam o aumento na taxa básica de juros do país. Azevedo escreve em seu blog um divertido e ao mesom tempo instigante artigo em que constata que o PT e o presidente Lula conseguem, graças à atuação desastrada da oposição, os benefícios políticos dos pontos positivos da política econômica (estabilidade, crescimento etc.) ao mesmo tempo em que se distanciam dos aspectos negativos ou dos sacríficios impostos à população, como é o caso do aumento da taxa de juros. Nesta hora, diz Reinaldo, é a oposição quem aparece como fiadora da "responsabilidade fiscal" ou coisas do gênero.

É claro que o jornalista condena a atuação "pragmática" dos oposicionistas, que ele classifica de "ingênua". O que Reinaldo não diz, porém, é que por trás desta estratégia dos tucanos e democratas está um fato simples e que explica inclusive a reeleição do presidente Lula: a oposição não tem projeto, não tem programa de governo e não sabe o que dizer aos eleitores. Não é um problema de forma (erro na comunicação), mas de conteúdo: Lula e o PT estão realizando uma gestão social-democrata, e de forma melhor, como mais resultados para o povão, do que o consórcio tucano-pefelista logrou empreender entre 1995 e 2003. Assim, a questão é simples para os eleitores: Lula governa melhor, a oposição não tem propostas alternativas e só faz agredi-lo para tentar voltar ao poder. Neste cenário, por que arriscar um retorno aos tempos tão difíceis de FHC? É simples assim, só vê quem não quer...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Lembrando Maquiavel

Ao aumentar a taxa básica de juros em meio ponto percentual, acima da expectativa do mercado, que era de 0,25 ponto percentual, o Banco Central aplicou a máxima de Nicoló Machiavelli no clássico Il Principe: o mal se faz de uma vez e o bem, aos poucos. Pelo menos é o que os brasileiros esperam que Meirelles e sua turma tenham feito. Porque se vier outra paulada dessas em junho, aí as críticas vão aumentar consideravelmente...

FHC ainda manda?

Na última segunda-feira, a cúpula do PSDB e DEM se reuniu em São Paulo para discutir a conjuntura política e os rumos que os dois partidos devem tomar em um cenário que não anda nada bom para as duas legendas. Os jornalões estavam de olho nas eleições de outubro e poucos perceberam que esta não era exatamente a pauta do econtro. Afinal, como discutir alianças municipais na presença de ACM Neto, pré-candidato do DEM à prefeitura de Salvador, um dia depois que o governador José Serra (PSDB) esteve na capital da Bahia para apoiar o tucano Antonio Imbassahy a prefeito de... Salvador? Seria simplesmente constrangedor, para não falar da disputa paulistana, que opõe democratas e tucanos e pode acabar abrindo caminho para a eleição de Marta Suplicy (PT).

Na verdade, o que se discutiu ali, segundo a versão dos jornalistas mais atentos aos detalhes do que foi dito na saída do encontro, foi uma estratégia global de ação dos dois partidos em Brasília, no Congresso Nacional. A principal resolução é uma idéia que sempre foi cara ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: tucanos e democratas devem, neste momento, lutar contra todas as tentativas de mudar as regras das próximas eleições. Além de não aceitar um plebiscito para perguntar ao povo se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia concorrer a mais um mandato e muito menos uma emenda constitucional liberando o número de reeleições possíveis, DEM e PSDB decidiram aceitar a ponderação de FHC de que também a emenda que acaba com a reeleição e estabelece o mandato de 5 anos para os cargos executivos poderia beneficar Lula, já que caberia a interpretação de que o "jogo foi zerado". O fim da reeleição é um desejo dos dois principais presidenciáveis do partido – José Serra e Aécio Neves –, pois organiza a "fila" no partido e dá vez aos novos quadros ocuparem novos espaços.

Cardoso, porém, entende que a oposição deve evitar a todo custo qualquer brecha para uma nova candidatura do presidente Lula e, ao que parece, convenceu seus pares. De tudo isto presume-se que a leitura de FHC do atual momento político é simples: Lula se reelegeria com facilidade em 2010, apesar da campanha que seu governo vem sofrendo na mídia. Este blog reconhece: desta vez, Fernando Henrique Cardoso está coberto de razão. O que chama atenção, no entanto, não é Cardoso fazer uma correta análise do cenário político, mas Serra e Aécio aceitarem as ponderações do ex-presidente. É preciso, no entanto, aguardar os fatos e ver como se comportam as bancadas controladas pelos dois governadores. Se não seguirem a orientação decidida nesta semana, restará provado que a concordância dos dois não passou de um agrado ao velho comandante....

terça-feira, 15 de abril de 2008

Diário de S. Paulo estava errado

A se confirmar a versão da Polícia Civil de São Paulo sobre o que aconteceu no edifício London na noite de 29 de março, estava mesmo errada a manchete do Diário de S. Paulo de 1° de abril, cuja capa esta reproduzida ao lado. Segundo matéria da Folha Online, a polícia acredita que a madrasta de Isabella Nardoni foi quem espancou e asfixiou a menina no apartamento do pai dela. Isabella, portanto, não poderia ter dito o que o Diário precipitadamente escolheu para a manchete porque não era o pai quem batia na garota. Faz sentido, portanto, o depoimento de várias testemunhas dando conta de que Isabella gritava pela ajuda de Alexandre Nardoni: "Pára, pára, pára! Papai, papai!" seria a versão correta das últimas palavras da menina.

Sim, este caso é um show de horrores, e se restar provado que foi o pai quem atirou a filha pela janela, os editores do Diário não vão sentir muito remorso por terem publicado a tal manchete na capa do jornal. Este blog, porém, reafirma o que disse já no dia 2: a edição daquela primeira página foi sensacionalista e precipitada, levando a população a acreditar desde o início na culpa do casal Alexandre e Anna Carolina.

Para a polícia, os dois estão envolvidos e logo serão apresentados os relatórios com as descobertas investigadores. Daí para frente, é com o Ministério Público e a Justiça, que possui uma série ritos e procedimentos que visam garantir o amplo direito que todos devem ter à defesa. Não cabe à imprensa o papel de indiciar, julgar e condenar quem quer que seja, por mais hediondo que tenha sido o crime cometido.

Sobre Isabella e o Aerolula

Vale a pena ler o texto abaixo, do grande Carlinhos Brickmann, na íntegra. A maior parte das notas é sobre o caso Isabella e as duas últimas, sobre os gastos do presidente Lula com chicletes e sorvetes no avião presidencial. À diferença de muitos colegas, Carlinhos sabe fazer contas e pensa sobre o que lê antes de escrever besteiras. O artigo original saiu no Observatório da Imprensa. Este blog só discorda de Carlinhos em um pequeno detalhe: os gastos do AeroSerra jamais serão publicados nos nossos atentos jornalões. Aliás, repórter algum se lembrou de perguntar a Geraldo Alckmin (PSDB) o que ele achou da recompra, por Serra, do avião que ele, Alckmin, tinha vendido... Como a campanha vem aí, fica a sugestão de pergunta para os repórteres que acompanharão o candidato tucano: Geraldo Alckmin, o senhor é contra ou a favor do AeroSerra?

A menina e os abutres da montanha

O filme é de 1951, com Kirk Douglas, direção de Billy Wilder. No Brasil, chamou-se A Montanha dos Sete Abutres. Em inglês, The Big Carnival. É a história de uma tragédia, de um homem que fica preso dentro da montanha. Daria para salvá-lo depressa, mas um repórter esperto vê ali a grande oportunidade de sua vida: acumpliciado com algumas autoridades, arrumou um jeito para que o salvamento demorasse e gerasse muita matéria. A imprensa mergulhou no caso, criando aquilo que hoje se chama "comoção social", ou "clamor público". Em volta da montanha, acamparam curiosos, surgiram camelôs, montou-se um parque de diversões. O filme tem 57 anos – e pouca coisa é tão atual, não é mesmo?

Quem matou a menina Isabella? Não, não é este nosso tema: o que discutimos, na área de comunicação, é que, seja quem for o culpado, a imprensa já escolheu os seus culpados (que podem até ser os mesmos, mas terá sido pura coincidência). E, como no filme, não age sozinha: age com aquela autoridade que grita "assassinos" em vez de trabalhar para provar a autoria do crime. Age com aquela outra autoridade que visivelmente se esforça para manter um olho numa câmera e não perder contato com outra câmera que pode vir a se aproximar. Age com autoridades que garantem que 92,47% do crime estão resolvidos, e não há repórter que lhes peça para elucidar a porcentagem. Num caso de homicídio, apontar o responsável (ou responsáveis) e provar sua culpa representam quantos por cento do caso?

O fato é que a opinião pública, movida em boa parte por nós, da imprensa, escolheu o seu lado. Este colunista já ouviu idiotas dizendo que, se tivessem de encaminhar seu filho num fim de semana ao ex-cônjuge e à sua nova companhia, prefeririam fugir com a criança e enfrentar a Justiça. Há gente – sim, são imbecis, mas nada impede que suas idéias se propaguem – que manifesta preconceitos contra madrastas (só madrastas: padrasto, ao que parece, para essa gente é mais confiável; talvez por que, nos clássicos desenhos de Disney, as madrastas fossem piores).

Imaginemos que os acusados pela tragédia de Isabella sejam o pai e sua segunda esposa. Qual júri será isento o suficiente para julgá-los? E imaginemos que não sejam: quem reconstruirá sua vida destruída? Isso não parece problema para muitos jornalistas: caso os culpados sejam outros, nada melhor do que escrever sobre o Bar Bodega, a Escola Base e botar a culpa nos colegas que não puderam se defender tão rapidamente.

The End

No filme A Montanha dos Sete Abutres, toda a imprensa americana aceita a história falsa, de que o salvamento teria de ser demorado. Quando morre a vítima, o repórter responsável pela armação telefona para seu editor e diz que a tragédia foi, na verdade, um homicídio. É a primeira verdade que o repórter diz. E o editor, irritado, lhe bate o telefone na cara.

O caro colega

Um jornalista muito bom, Guilherme Fiúza (que escrevia um belo blog no portal Nomínimo e escreveu o livro Meu nome não é Johnny, em que se baseou o filme), sabe o que é ser trucidado pela imprensa, porque esteve lá. Seu filho pequeno estava no colo da mãe, na varanda. Ela tropeçou, o garoto caiu . "Em meia hora", lembra Fiúza, "estava preso, com vizinhos dizendo que eu vivia brigando com minha esposa, que tinham ouvido na noite anterior ruídos de porta batendo, de muita gritaria. Coisa que surgiu na cabeça de vizinhos delirantes."

A repórter Luísa de Alcântara e Silva, da Folha de S.Paulo, que fez a bela entrevista, perguntou-lhe o que mais o chocou no caso de Isabella. Responde Fiúza: "Quando eu vi a mãe dela chegando na delegacia e quase sendo derrubada por jornalistas, que são meus colegas. Acho que as pessoas enlouqueceram ao tratar uma mãe que perde uma filha dessa maneira. Falo da combinação perigosa de vizinhos fofoqueiros, delegados precipitados e a imprensa ávida por notícia. Falta respeito. É possível que o Alexandre seja culpado. Agora, a gente não sabe. Pode ser que não seja".

O valor da testemunha

Qual o leitor desta coluna que já não foi incomodado por algum vizinho que imaginou festas em seu apartamento? Este colunista já foi acordado às 2h30 da manhã por uma vizinha que reclamava do barulho do pessoal que andava de salto alto. Naquele momento, o colunista era a única pessoa acordada da casa. E mesmo assim foi difícil convencer a vizinha insone.

Incrível!!!

Investigação é isso aí: apuraram que, a bordo do AeroLula, na viagem da comitiva presidencial para Nova York, foram gastos 80 dólares em chicletes. Mais terrível ainda: havia 104 dólares gastos em sorvetes! Agora vamos fazer a conta (uma conta generosa, com o dólar a dois reais): viagem de umas trinta pessoas a Nova York, ida e volta, umas vinte horas de vôo, e gastaram 160 reais em chicletes? Gastaram duzentinhos em sorvete? Dá uns três reais de sorvete por pessoa, em cada braço da viagem. Dá uns dois reais de chicletes. O problema do AeroLula, pelo jeito, não é o excesso de gastos: é o pão-durismo com os comes. Só faltou a tenebrosa barra de cereal da Gol e aquele horroroso sanduíche congelado da TAM
.

Extraordinário!!!

Come-se mal, muito mal, também nos vôos do governador José Serra. Ele tem mania de contar calorias. E toque sanduíches de pão integral com queijo branco diet e uma folha de alface. Mas, somando tudo, num bom período, deve dar um gasto que parece grande. Já já vão denunciá-lo.

Economia continua bombando

Enquanto a vida lá fora segue sob expectativa e efeitos da crise do "subprime" nos EUA, aqui no Brasil nada parece abalar a confiança dos consumidores, que foram ás compras nos primeiros meses de 2008, conforme revela matéria do portal UOL, reproduzida abaixo. Enquanto as coisas estiverem assim – só notícias boas – o presidente Lula não precisa se preocupar muito com cartões corporativos e outras questiúnculas. Resta saber se a maré vai virar durante o mandato dele ou cairá no colo do próximo presidente. A julgar pela sorte de Lula, a crise americana vai fazer efeito por aqui a partir do dia 1° de janeiro de 2011 e o presidente vai assistir a coisa toda de camarote, em São Bernardo do Campo.

Vendas do comércio sobem 12,2% em fevereiro sobre um ano antes

As vendas do comércio varejista subiram 12,2% em fevereiro no país, na comparação com o mesmo mês do ano passado. A informação é do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

É a maior taxa já registrada para meses de fevereiro desde 2001, quando se iniciou essa série de levantamentos.

Em relação a janeiro, no entanto, houve queda de 1,5%, depois de três meses seguidos de alta. O cálculo tem ajuste sazonal (considera efeitos específicos de determinado período).

"Houve uma acomodação, após as significativas expansões em volume de vendas (2,2%) e receita nominal (2,6%) de janeiro", disse o instituto em nota.

No ano, as vendas acumulam expansão de 12%. Nos últimos 12 meses, de 10,2%.

Setores
Em fevereiro sobre janeiro, apenas três dos dez setores de comércio pesquisados tiveram queda nas vendas: o grupo de "artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos" (recuo de 2,8%); o de "hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo" (redução de 3,9%); e o de "tecidos, vestuário e calçados" (de 4,0%).

Na comparação com fevereiro de 2007, todas as atividades cresceram em vendas, com destaque para o segmento de "hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo", com avanço de 7,2%.

"Esse desempenho foi motivado pelo aumento do poder de compra da população, decorrente não só do crescimento da massa de salários como da expansão do crédito", segundo o IBGE.

Receita sobe 16,7%
A pesquisa acrescentou que a receita nominal do comércio subiu 16,7% de fevereiro do ano passado para o segundo mês de 2008. Em relação a janeiro, houve queda de 1,4%.

O IBGE informou que agora passar a divulgar todos os dados do comércio com ajuste sazonal. "Com o encerramento de 2007, obteve-se o número mínimo de observações necessárias para se calcular a dessazonalização das atividades até então não contempladas. Dessa forma, em 2008 passa-se a divulgar os resultados com ajuste sazonal para todas as atividades que compõem o varejo e o varejo ampliado", afirma nota divulgada pelo instituto (Com informações da Reuters)

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Nova enquete no ar

Os leitores do Entrelinhas condenaram a imprensa no caso Isabella Nardoni: a imensa maioria (84%) respondeu na pesquisa da semana passada que a cobertura tem, sim, sido sensacionalista – com o que este blog concorda integralmente, apesar de algumas raras exceções.

Já está disponível a enquente do DataEntrelinha desta semana, abordando a hipótese do terceiro mandato de Lula, cuja discussão está deixando a oposição totalmente "panicada", como se diz em Portugal. A formulação da questão é simples e o blog apenas lembra que o tucano Fernando Henrique Cardoso mudou a regra com o jogo já em andamento. Em seu próprio benefício, claro. Para votar, basta clicar na enquete ao lado.

Com aquilo virado para a lua

A se confirmar a informação divulgada nesta segunda-feira de que há um campo de Petróleo no Rio de Janeiro cinco vezes maior do que o de Tupi – seria "apenas" o terceiro maior do mundo –, o presidente Lula poderá dizer com toda a "tranquilidade que nunca antes neste país" houve um governante com tanta sorte como Luiz Inácio. Sim, é verdade que os frutos só serão colhidos lá na frente, mas por que cargas d'água não foi Fernando Henrique, Itamar ou mesmo Collor o portador da boa nova para o povo brasileiro? Não, tinha mesmo que ser no governo Lula... Já há tucanos sugerindo que este mar de petróleo pode ser a solução para equilibrar o jogo eleitoral daqui para frente: bastaria que o presidente Lula se candidatasse à presidência da Opep, deixando vaga a cadeira do Palácio do Planalto. Quem sabe assim alguém do PSDB conseguisse chegar lá de novo. Do contrário, parece que vai demorar...

Os presidenciáveis, por Luis Nassif

O artigo abaixo, publicado no blog do jornalista Luis Nassif, é uma análise interessante sobre o cenário para 2010. Vale a pena ler na íntegra, embora o autor destas Entrelinhas não concorde com tudo que vai abaixo.

Minha visão, à luz das inforomações atuais, sobre o potencial dos presidenciáveis.

Está sendo articulada uma frente de centro-esquerda, tacitamente apoiada por Lula, não necessariamente pelo PT. Os principais nomes são Aécio Neves, Ciro Gomes e Dilma Rousseff. Os movimentos são nítidos. Em Minas, por exemplo, o pacto Aécio-Pimentel reservou para um aliado de Ciro Gomes a candidatura a prefeito de Belo Horizonte.

Neste momento, essa costura é o lance mais relevante da política brasileira com vistas a 2010.

Mas é importante entender o papel de cada ator político.

Com essa história do “dossiê-relatório-banco de dados”, a mídia mais uma vez forçou a barra e deu um grande foco ao atingido: a Ministra Dilma (estou me baseando na avaliação de Jutahy Magalhães, reproduzida na coluna da Eliana Cantanhêde, de que Dilma passou a ter visibilidade nas pesquisas eleitorais).

Mas – na minha opinião – Dilma não é candidata a presidente. Ela é a vice que todo candidato a presidente gostaria de ter, o coringa que garante a canastra.

Em Minas, Aécio mostrou a fórmula imbatível: um baita gestor, Antonio Anastasia, como vice-governador, conferindo-lhe o comando gerencial do Estado; e o governador atuando como agente político, fazendo as costuras. Lula repetiu a fórmula com Dilma, embora se envolva mais no dia-a-dia que Aécio.

Essa, em minha opinião, será a fórmula da candidatura de Lula à presidência: um animal político como candidato a presidente e Dilma como a avalista de gestão.

E aí se entra na questão central. O PT não tem um candidato a presidente. O grande nome do partido, hoje em dia, seria Patrus Ananias. Mas não para presidente. Patrus continua candidato a santo e a gestor da mais importante política do governo Lula: o Bolsa Família. Mas não tem perfil para o jogo pesado da política, a capacidade de endurecer e conceder, montar alianças.

Sem candidato, Lula terá que abrir a candidatura a alguém de fora do PT – é por aí que se entendem as manifestações do partido pelo 3º Mandato.

Nesse quadro, Aécio teria mais dificuldades de emplacar a dobradinha com Dilma, por ser um tucano – ainda que diferenciado do radicalismo tucano de São Paulo.

A figura mais forte passaria a ser Ciro Gomes. Pesa contra ele seu temperamento explosivo. Nas últimas eleições supunha-se que estivesse mais maduro, mas deixou-se levar pela emoção. Em 2010 estará quatro anos mais velho. Se persistir a polarização irracional mídia-governo, será certamente o candidato – e não propriamente para promover a conciliação.

Vejam bem: a Presidência da República, hoje em dia, é um poder fraco em qualquer democracia representativa. Está permanentemente suscetível a movimentos desestabilizadores da mídia com a oposição. No Brasil, ocorreu com Collor, em certa escala com FHC, em grande escala com Lula. Ocorre hoje na Argentina, com Cristina Kirschner. Ocorreu na Venezuela, com o neoliberal Carlos Andrés Peres e quase ocorreu com o nacional-populismo de Hugo Chávez.

FHC não caiu devido à sua habilidade política; Lula devido à habilidade política e ao carisma. O preço da sobrevivência foi a inércia na política econômica.

Ciro é antenado com temas contemporâneos, amadureceu desde os tempos desastrosos como Ministro da Fazenda, passa segurança de que tem estômago forte para agüentar tranco, e começou a enfrentar – como político – o poder mais barra pesada que esse país conheceu nas últimas décadas: o jornalismo difamatório de Veja.

Tem visão crítica sobre a política econômica, assim como José Serra. Mas não está amarrado aos compromissos que, dia a dia, fazem o discurso de Serra se diluir cada vez mais.

Se tivesse que fazer uma aposta, agora, seria em Ciro-Dilma como candidatos do governo; José Serra como candidato da oposição PSDB-DEM; Heloisa Helena, como candidata do protesto.

domingo, 13 de abril de 2008

Cadê o favorito?

Como diria dom Diego Armando Maradona, com gol de mão a vitória é mais saborosa. E pode até ser que o Palmeiras confirme o seu "favoritismo" no jogo de volta, no próximo domingo, mas a verdade é que os cronistas esportivos que passaram a semana dizendo que o tricolor paulista estava em crise e vaticinando uma passagem tranquila do Palmeiras para as finais quebraram a cara, lembrando um pouco os analistas políticos que em 2006 diziam que a última coisa que poderia acontecer no Brasil era a reeleição do presidente Lula. Sim, tanto na política como no futebol surpresas acontecem, mas na maior parte das vezes dá a lógica: assim como dava para perceber que Lula era um candidato competitivo à reeleição, parece claro que o time do São Paulo é bem melhor do que o do Palmeiras. Sim, é possível até que deixe a vaga para a final escapar no dia 20, mas se isto ocorrer será muito mais em função do cansaço do plantel, obrigado a disputar duas competições duríssimas ao mesmo tempo, do que por causa de uma briguinha na concentração, como dizia na semana passada a maioria dos cronistas.

Tudo somado, não deixa de ser bom para o São Paulo que a imprensa trate o Palmeiras como favoritíssimo: mexe com os brios dos jogadores e fortalece a união do elenco... Igualzinho na política, onde tantos colunistas já tratam como sucessor de Lula o palmeirense José Serra, um notório pé frio que só se elegeu governador em 2006 porque o PT colocou na disputa o tucano Aloizio Mercadante, de forma que o povão acabou se resignando a votar no original e não em seu clone. Este blog não consulta videntes, mas aceita apostas: nem o Palmeiras será campeão paulista de 2008 e muito menos Serra leva a eleição de 2010.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Por trás do dossiê sobre FHC, a disputa
entre José Dirceu e Dilma Rousseff

Está interessante a matéria do jornal O Estado de S. Paulo sobre a briga entre "dirceuzistas" e "dilmistas" da Casa Civil para achar um culpado pelo suposto dossiê com gastos de Fernando Henrique Cardoso. É evidente que não há tucano algum infiltrado passando informações para a imprensa (a menos que seja um tucano-lusitano, que ao invés de pegar os dados sigilosos do presidente Lula, preferiu pegar primeiro os de FHC "para se garantir"), o problema é mesmo fogo amigo. Sim, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) também teve acesso aos dados e foi uma das fontes da Veja, mas ele mesmo já contou que recebeu o material das mãos de alguém ligado ao governo, mas pelo que este blog apurou, a fonte principal da revista foi mesmo José Aparecido Nunes Pires, secretário de Controle Interno da Casa Civil, ligado ao ex-ministro José Dirceu. Nos bastidores petistas, por sinal, há quem diga que Dirceu está mesmo por trás do bombardeio contra Dilma. Os mais maldosos chegam a dizer que não se trata de uma questão política, o que tem irritado o ex-todo poderoso do governo Lula é que Dilma estaria atrapalhando alguns de seus negócios.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Um promotor irresponsável

O que vai abaixo está no blog do jornalista Ricardo Noblat e é estarrecedor.

Promotor diz que pai matou a filha

Foi o pai, Alexandre Nardoni, que jogou pela janela a filha Isabella Nardoni, de 5 anos. A informação foi dada esta tarde pelo promotor Francisco José Cembranelli em conversa reservada com um grupo de jornalistas.

No passado o promotor foi professor de Alexandre. Refere-se a ele como "um vagabundo, que sempre viveu às custas do pai, um playboy".

Oficialmente a polícia de São Paulo diz que 70% do crime foram desvendados. O que ela não diz é que o restante não será capaz de contrariar o que já foi apurado.

O depoimento da mãe de Isabella, Ana Carolina de Oliveira, inocenta Alexandre e a madrasta Ana Carolina Jatobá.


Se Noblat publicou a frase do promotor Cembranelli entre aspas, é porque ele provavelmente tem a frase gravada. O jornalista está correto em publicar o que lhe chegou em mãos, mas o promotor jamais poderia ter dito o que disse, ainda que Nardoni seja mesmo o assassino.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Dines: crítica da mídia é missão maldita

Vale a pena ler o que escreveu Alberto Dines sobre a despedida do Ombudsman da Folha, Mário Magalhães, no Observatório da Imprensa. Na íntegra, para os leitores do blog:

Impossível separar o lançamento na grande imprensa do livro de Eugênio Bucci (Em Brasília, 19 horas, Editora Record, 2008) do anúncio da não-renovação do mandato do ombudsman da Folha de S.Paulo, Mário Magalhães [ver remissões abaixo].

A convergência não se dá apenas no tempo: a Editora Record conseguiu que os três jornalões nacionais fizessem a apresentação do livro no mesmo dia (sábado, 5/4) enquanto a melancólica despedida de Mario Magalhães deu-se no dia seguinte, domingo, evidentemente só na Folha.

A confluência dá-se também no perfil dos protagonistas – Bucci e Magalhães, embora em veículos e estilos diferentes, revelam-se esmerados e intransigentes media critics. E muito próximos no teor das manifestações. Ambas arrasadoras. Num caso, o alvo é o jornalismo oficial, no outro o jornalismo comercial.

Coragem moral

Uma frase lapidar de Bucci foi parar na primeira página do Globo (repetida na capa do seu "Segundo Caderno"):

"Pode haver a mínima ética jornalística numa empresa cuja administração seja controlada pelo governo? É claro que não. Para que o jornalismo seja viável, o governo deve ser mantido a quilômetros de distância da redação."

A mesma frase, ou paráfrase, poderia ser aplicada às empresas jornalísticas privadas:

Pode haver a mínima ética numa empresa jornalística voltada apenas para o faturamento mensal, esquecida das ameaças que a curto prazo rondam a mídia impressa? É claro que não. Para que o jornalismo privado seja viável e sobreviva à revolução tecnológica, é imperioso que interesses comerciais mesquinhos sejam mantidos a quilômetros de distância da redação.

A verdade é que Eugênio Bucci, com tranqüilidade e discrição, venceu todas as pressões. A Radiobrás que presidiu ao longo do primeiro mandato do presidente Lula não se converteu em extensão do PT ou da base aliada, seu noticiário foi eqüidistante, seu orçamento foi respeitado e a empresa não foi convertida num cabide de empregos.

No plano pessoal, Bucci conseguiu manter uma linha de independência e integridade intelectual raramente igualada na esfera palaciana nas últimas décadas: recusou publicamente o trambique do Conselho Federal de Jornalismo, denunciou a hegemonia dos assessores de comunicação na Federação dos Nacional Jornalistas (Fenaj) e contestou o governo no início do "complô da mídia", afirmando com todas as letras que governos não podem fingir-se de vítimas.

Significa que Bucci, o autor, contradiz Bucci, o presidente de uma empresa de "jornalismo público"? Não. Significa apenas que os nossos conceitos sobre a natureza das instituições não podem passar ao largo das considerações sobre a natureza humana.

É possível, sim, produzir um "jornalismo público" numa empresa estatal de um país dominado pelo patrimonialismo. Basta ter convicção, coragem moral e despir-se de qualquer arrogância.

Vaticínio confirmado

No caso da descontinuidade do mandato do ouvidor Mário Magalhães, a Folha de S.Paulo errou. E errou porque em alguns momentos, influenciada por imponderáveis conjugações dos astros, o mais ousado dos nossos jornalões age como se estivesse acima do bem e do mal, ungido pelos deuses.

Não se mudam as regras do jogo no meio do jogo. Sobretudo quando estas regras foram consagradas como um marco. A circulação pela internet dos comentários diários do ombudsman representa um avanço extraordinário em matéria de transparência e responsabilidade social. Nenhum ouvidor aceitaria uma alteração tão drástica no meio do seu mandato abrindo mão de parte essencial de suas funções.

Uma empresa comercial pode tomar decisões aéticas. A necessidade de garantir a sobrevivência de centenas ou milhares de empregados pode colocá-las diante de impasses só resolvidos no plano do pragmatismo. Seres humanos – e não apenas os encarregados de proteger e estimular a ética profissional – não podem esconder debaixo do tapete as cogitações morais.

No caso de ouvidores, treinados e contratados para serem solitários e exigentes, é inadmissível que capitulem, seduzidos pela argumentação da realpolitik. Seria indecente.

Eugênio Bucci e Mário Magalhães são seres íntegros que levaram as respectivas visões de mundo e visões de vida às últimas conseqüências. Não conflitam, completam-se. Viveram seus desafios em mundos opostos, talvez irreconciliáveis, e comprovam que homens de fibra comprometidos com suas consciências, mesmo impedidos de finalizar seus projetos, jamais poderão ser vistos como derrotados.

***

Quando, em maio de 1975, Octávio Frias de Oliveira afinal aceitou a sugestão deste observador para a criação de uma coluna de crítica da mídia ("Jornal dos Jornais") na Folha de S. Paulo, foi clarividente como sempre: "Você só vai arranjar inimigos". O vaticínio confirmou-se. A crítica da mídia – tanto na esfera pública como privada – é uma função (ou missão) maldita. Viva os malditos.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Ainda sobre a despedida do Ombudsman

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para a edição desta semana do Observatório da Imprensa. Na íntegra, para os leitores do blog.

LEITURAS DA FOLHA
A estranha despedida do ombudsman

A despedida do jornalista Mário Magalhães do cargo de ombudsman da Folha de S.Paulo, em artigo publicado no domingo (6/4), está com toda a cara de ser o prenúncio de uma mudança bastante significativa na linha editorial do jornal, que de certa forma já vem tomando corpo há algum tempo. Não é possível, neste momento, afirmar que a "não-renovação" do contrato de Mário Magalhães é um "marco divisório" porque as mudanças ainda não foram totalmente concretizadas, mas o futuro provavelmente dará razão a quem apostar que a Folha está encerrando um ciclo neste início de ano.

Em primeiro, é bom analisar as alegações formais contidas no texto de Mário Magalhães para o rompimento do contrato – o primeiro desde que o jornal instituiu o cargo de ombudsman, em 1989. De acordo com o agora ex-ombudsman, a direção da Folha chegou lhe propor a renovação do mandato, mas com a condição de que deixasse de publicar na internet as críticas internas, que ele escrevia de segunda a quinta-feira comentando a edição do jornal. Magalhães conta que não concordou com a imposição e, considerando o fato como uma mudança na regra com o jogo em andamento, decidiu deixar o posto.

Ainda segundo o que escreveu Mário Magalhães, a direção da Folha alega que a tal crítica interna estava sendo aproveitada por jornais concorrentes, prejudicando assim o diário da Alameda Barão de Limeira. Ora, se isto é verdade, o prejuízo ocorria desde 2000, quando a crítica passou a ser publicada na internet. Ademais, Magalhães argumenta que é impossível manter o sigilo de um documento distribuído por e-mail a uma centena de pessoas (os jornalistas e a cúpula da Folha).

Argumentos frágeis

São dois os aspectos a serem analisados no rompimento do contrato do ouvidor. O primeiro diz respeito à decisão de não mais publicar a crítica interna na rede mundial de computadores. Mário Magalhães, em seu artigo de despedida, destrói a argumentação da direção da Folha de que o fato de outros jornais eventualmente utilizarem o trabalho do ombudsman para aprimorar seus próprios produtos seja empecilho relevante para a não publicação dos memorandos internos. Pelo que escreveu o ex-ouvidor, a não publicação dos memorandos é que poderá provocar ruídos de informação sobre o que de fato o titular do cargo tenha escrito na crítica interna, abrindo a possibilidade para a manipulação do teor dos comentários. E os jornais que quiserem ter acesso à crítica com certeza não terão maiores dificuldades de obter uma cópia, pois dificilmente o jornal conseguirá manter segredo do material.

No fundo, ainda analisando este primeiro aspecto, a alegação da Folha significaria uma capitulação da direção aos argumentos do departamento comercial, o que não é bom para o jornalismo. Por esta lógica, a própria coluna do ombudsman aos domingos deveria parar de ser publicada, pois aponta os erros da Folha, fornece dicas sobre os pontos fracos da cobertura do jornal e dá de graça uma opinião abalizada sobre como melhorar o produto jornal, inclusive o da concorrência.

Bode na sala

O segundo aspecto relevante no debate da saída de Mário Magalhães do posto de ouvidor é um pouco mais delicado. A fragilidade dos argumentos da direção da Folha abre espaço para uma outra forma de ver a questão, que obviamente jamais será admitida oficialmente na redação ou pela cúpula do jornal.

Mário Magalhães foi talvez o ombudsman que melhor encarnou a idéia de defensor dos leitores. A crítica do jornalista, especialmente a interna, vinha expondo o jornal muitas vezes ao ridículo, como ocorria com a cobrança pela correção dos erros cometidos, apontados à exaustão, dia sim, outro também. Este, porém, nem é o aspecto mais relevante. Importante mesmo é que Magalhães abordou com pertinência e uma certa insistência algo que poucos ouvidores tiveram a coragem de abordar: a relação do jornal com certos políticos e a editorialização da cobertura política.

Trocando em miúdos, especialmente na crítica interna o ombudsman vinha questionando se a Folha não estava demasiadamente "serrista" e volta e meia lembrava que o governador José Serra (PSDB) foi colunista do jornal. Mário Magalhães criticou, por exemplo, a cobertura do acidente no metrô de São Paulo, que abriu uma cratera junto à Marginal Pinheiros. Serra, de acordo com o que o ex-ouvidor escreveu à época, foi preservado de críticas mais duras na Folha.

Os exemplos abaixo, retirados da crítica interna, ilustram bem a firmeza de Mário Magalhães:

Bem na foto (12/07/07)

Mais uma vez, a Folha publica foto de divulgação em cobertura de evento com a presença do governador José Serra ("Manobra tucana `enterra´ CPIs em São Paulo", pág. A7).
Ou seja: o jornal só recebeu fotografias em que Serra aparece bem.
A Folha deveria escalar fotógrafo próprio, pautado com critérios jornalísticos, e não promocionais, para cobrir as atividades do governador de São Paulo.

Derrota ocultada (14/2/08)

Título do alto da pág. A8: "Vitória de Aníbal fortalece Alckmin".

Título do "Estado": "Candidato de Alckmin bate o de Serra na Câmara".

Do "Globo": "Aníbal vence no PSDB e derrota grupo de Serra".

José Serra é o governador de São Paulo.

O grande defensor, no PSDB, do apoio à candidatura de Kassab (DEM) a prefeito de São Paulo.

É presidenciável.

Mais que a vitória de Alckmin, o que ocorreu ontem foi uma derrota de Serra.
Mesmo que se divirja dessa avaliação, o título deveria incorporar a constatação inescapável: Serra perdeu.

A propósito, a reportagem informa até o placar da votação na bancada tucana de Minas. Mas não na de São Paulo.

A pergunta que faltou (21/08/07)

A Folha faz bem em publicar as opiniões de Fernando Henrique Cardoso sobre assuntos relevantes, como hoje, tratando do mensalão ("Só julgamento põe fim ao caso, diz FHC", pág. A10).

Mas faz mal quando não é crítica ao abordar o ex-presidente. Ele "lamentou que tenha demorado tanto (dois anos) para que o caso chegasse ao STF". E acrescentou: "No Brasil, a Justiça é morosa".

Por que o jornal não indagou o que o líder do PSDB pensa do desempenho do atual procurador-geral da República em comparação com o de um antecessor, indicado por FHC, que se notabilizou como "engavetador-geral da República"?

A insistência de Mário Magalhães em abordar este assunto deve ter provocado algum desconforto na cúpula da Folha. Já há na blogosfera gente defendendo a tese de que a história de não publicar a crítica interna na internet foi uma espécie de "bode na sala" do ouvidor para que ele tomasse a decisão de pedir o boné mais cedo do que o combinado, sem que a direção tivesse o ônus de, pela primeira vez desde 1989, romper o contrato unilateralmente. Não dá para ser tão assertivo, mas de certa forma faz sentido, ainda mais quando se analisa a linha editorial da Folha como um todo.

Mera coincidência?

De fato, de todos os grandes jornais brasileiros, a Folha de S.Paulo ainda é o que mais abre espaços para o contraditório e tenta aplicar a idéia de pluralidade editorial, permitindo um debate bastante arejado das idéias. Desde a segunda posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porém, é possível perceber uma mudança, ainda sutil neste momento, em vários aspectos no jornal: aumentou o grau de hostilidade ao governo federal e ao presidente, ao mesmo tempo em que começaram a aparecer matérias espantosamente acríticas sobre o governo Serra. Nos bastidores, comenta-se que a direção da Folha estaria sondando jornalistas com opiniões mais "firmes" contra o governo do PT para fazer parte da equipe.

A saída de Mário Magalhães do posto de ouvidor pode até não ter nada a ver com as mudanças em curso na Folha e constituir uma mera coincidência. Neste caso, seria apenas uma estranhíssima coincidência. Outro jeito de interpretar o rompimento do contrato se dá a partir do velho ditado espanhol: "Yo no creo en brujas pero que las hay, las hay". Melhor torcer que tenha sido mesmo uma mera coincidência...