quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Palpites do blog para domingo e terça-feira

Domingo, no estádio Olímpico: Corinthians 1 x 3 Grêmio. No mesmo dia, no Serra Dourada: Goiás 1 x 0 Internacional. Não é preciso explicar muito, os corintianos sabem direitinho o que tais resultados significam...

Na terça-feira (ou quarta, a bem da verdade), no plenário do Senado: 39 votos pela absolvição do senador Renan Calheiros, 34 pela cassação, com oito ausências e/ou abstenções. Para cassar o presidente licenciado do Senado, como se sabe, são necessários 41 votos.

Este blog avisa que não consulta videntes, apenas faz análise lógica dos fatos. Quem viver, verá...

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

CPMF virou o pôquer do Senado

Quem quiser já pode começar a apostar. A oposição diz ter 34 votos contra a emenda que prorroga a CPMF – reuniu 32 senadores hoje e disse contar com o apoio de Pedro Simon (PMDB-RS) e de Cesar Borges (PR-BA). O governo diz que poderá ter 55 votos, sete deles capturados no PSDB e DEM, que prometem votar fechados contra o imposto do cheque. Como são 81 os senadores, alguém está blefando. O governo diz querer votar a emenda na próxima semana e a oposição respondeu que aceita. Agora é ver quem vai piscar primeiro. Este blog aposta que a CPMF passa, mas até lá vai rolar muito argumento, como gosta de dizer o senador Wellington Salgado, esfregando o polegar no indicador...

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Jorge Rodini: Fla-Flu no horário eleitoral

A propaganda do PSDB na televisão está mesmo dando o que falar. Jorge Rodini, diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia, faz uma interessante análise sobre os filmes tucanos. Confira abaixo a opinião do especialista:

A propaganda do PSDB que vem sendo divulgada na TV, na qual sugere que o PT copiou o que o PSDB fez no passado, causou comentários apaixonados tanto de petistas quanto de tucanos e analistas de outros partidos.

Tal qual um Fla-Flu sem Maracanã, esta batalha de certos e errados, de bem para o Brasil e mau para a Pátria, não tem consistência alguma. Ao criticar o Bolsa-Família no seu princípio, o PSDB corta na sua própria carne. Ao levantar a corrupção de membros do PT, o PSDB se esquece que a gênese do mensalão veio de dentro do seu próprio partido.

Por outro lado, o partido do presidente não tem do que se gabar: quantos de seus mais ilustres membros foram degolados? E quanto ao número de sindicalistas-marajás empregados nas teias e tetas do governo?

Quem criou a CPMF? E quem a continua mantendo?

Pensando nisto, e apesar disto, não vislumbramos ninguém que argumente diferente. Que pena..pensei que meus filhos fossem viver num país sem o " é dando que se recebe". Quem sabe meus netos..

Da série "por que Lula é tão popular?"

A nota abaixo está no UOL e é mais uma notícia que explica a altíssima popularidade do presidente da República. Clique no título para ler a íntegra da matéria.

Brasil entra para o grupo de 'alto desenvolvimento humano', aponta ONU

Daniel Gallas, De Londres

O Brasil entrou pela primeira vez para o grupo de países de "alto desenvolvimento humano" no ranking elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), divulgado nesta terça-feira em Brasília.

Cesar Maia diz que tucanos fazem
propaganda desastrosa na televisão

Abaixo, a análise do prefeito Cesar Maia, do Rio de Janeiro, sobre a propaganda tucana. Maia entende do assunto e é simpático ao PSDB. Imaginem se não fosse.. A nota saiu no ex-blog do prefeito e segue abaixo, na íntegra.


A LASTIMÁVEL PUBLICIDADE DO PSDB OU A CONTRA-COMUNICAÇÃO!


1. A publicidade do PSDB através de comerciais de 30" está lastimável. Poder-se-ia chamar de contra-comunicação.

2. Apresentar uma medida de governo, dizer que foi do PSDB e que o PT copiou e que isso é bom para o Brasil, tem consequências desastrosas. Uma consulta a quaisquer destas pesquisas que são publicadas pela mídia vai mostrar que a memória sobre o final do governo do presidente Fernando Henrique, continua muito negativa. Com isso a cópia do PT é percebida hoje como melhor. E ainda mais: que o governo Lula acrescentou coisas que não existiam no governo anterior, mesmo que isso seja injusto como bolsa família. Mas é a percepção pela multiplicação dos atendidos no programa. E outras marcas que o governo vai emplacando e que simulando que fez mais, e outras.

3. Mas há coisa pior. A mudança incorpora sempre alguma taxa de risco. Se uma coisa hoje é igual a outra de ontem, para que mudar se há um risco de piorar?

4. E mais ainda. Se o governo Lula copiou coisas boas, isso mostra que é responsável. Soa quase como um elogio ao atual governo e não ao anterior. E vamos ficar por aqui, sem entrar nos aspectos formais, já que a tecnologia hoje a disposição das agencias de publicidade aconselharia o uso de formas muito mais atualizadas e atraentes. Nesse último sentido, está de parabéns o PFL que com a Paula Lavigne et equipe, mostrou o que é tecnologia em publicidade, hoje.

5. Um verdadeiro desastre. Mas quem sabe não há ainda comerciais a serem divulgados? Se há, que mudem tudo e rápido, pelo amor de Deus (desculpe pois abri meu último voto tucano dizendo isso).

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Luiz Weis: Notícia de uma agressão

Mais um bom artigo sobre o desastrado Fernando Henrique Cardoso. Este foi originalmente publicado no blog Verbo Solto.

Num formidável contraste com o Estado, que abafou em 10 linhetas de um box e reduziu a uma “alfinetada” a invulgar contribuição do ex-presidente Fernando Henrique, sexta-feira, para o aviltamento do debate público no Brasil - sua fala sobre o “desprezo” de Lula pela educação - a Folha deu à baixaria até merecida chamada no alto da primeira página.

O jornal bateu também o Globo ao repercutir, como se diz nas redações, o infausto acontecimento. Em vez de citar os suspeitos de sempre – políticos do governo e da oposição – e, além de ouvir algumas das figuras carimbadas da ciência política brasileira, teve uma brilhante sacada.

Antes de ir a ela, os principais trechos da enormidade do ex-presidente:

“Nosso partido [o PSDB] tem gente acadêmica, não temos vergonha disso. Tem gente que sabe falar mais de uma língua, e também sabemos falar muito bem a nossa língua. [...] E nós faremos o possível e o impossível para que saibam falar bem a nossa língua. [...] Queremos brasileiros bem educados, e não liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria.”

A sacada da Folha foi entrevistar o segundo mais importante líder sindical brasileiro depois de Lula e seu “sucessor” no ABC, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, hoje deputado federal pelo PT.

Isso porque, diferentemente do seu mentor, Vicentinho correu atrás do prejuízo da falta de estudo, fez madureza, vestibular, e se formou em direito, em 2004.

“Prefiro alguém que não fez faculdade e faz o que Lula faz pela educação do país”, retrucou.

Claro que, antes de Lula, Fernando Henrique foi o presidente que mais fez pela educação do país – e muitas das políticas conduzidas pelo respeitado (mesmo pelos tucanos) ministro Fernando Haddad levam adiante as da era FHC.

Mas, tratando-se de quem se trata, seria de abalar o mundo se um professor-presidente de seu gabarito descurasse da educação. Ou, conforme a analogia jornalística, cachorro que morde homem não é notícia; o contrário sim. Daí a pertinência das palavras de Vicentinho.

Isso posto, vamos nos entender:

1. Lula, como incontáveis milhões de brasileiros, não pôde ir além da escola elementar. Quando podia, não foi. Presidente, chegou a dizer que ler é tedioso. E, quando fala ao povo, capricha de propósito no mau português – para sedimentar a percepção, essencialmente correta, de que ele é “um de nós”. É um desserviço.

2. Ainda assim, o que Fernando Henrique fez ontem na convenção tucana é imperdoável. [Mesmo quem discordar desse juízo, reconhecerá que foi algo importante, o que a Folha captou melhor do que a concorrência.]

É imperdoável por ser um ataque pessoal rasteiro, incompatível com a boa educação, em qualquer sentido do termo, e principalmente com a civilidade que não pode ser varrida do combate político, sob pena de degradá-lo em briga de botequim – o que, incidentalmente, já é uma realidade na blogosfera.

Ronald Reagan, o ator-presidente republicano, era um chucro. Não sabia qual o lado de cima e o de baixo de um gráfico. Detestava ler. Mas nunca o seu antecessor democrata Jimmy Carter se valeu disso para chutar-lhe o baixo ventre.

George W. Bush passou boa parte do tempo na Universidade Yale – onde só ingressou graças ao poder, à influência e ao dinheiro do pai – enchendo a cara e se drogando. Só não é monoglota porque não existe político fazendo carreira no Texas sem aprender espanhol. A sua ignorância é ampla, geral, irrestrita – e arquiconhecida. Mas nunca o seu antecessor democrata Bill Clinton se valeu disso para dar-lhe uma canelada.

Sobra a questão do porquê da agressão de Fernando Henrique. À Folha, a socióloga petista Maria Victoria Benevides atribui a violência verbal do ex-presidente a “uma constrangedora incapacidade de controlar sentimentos como inveja e ciúme”.

Já o seu amigo próximo e antigo colega de universidade Leôncio Martins Rodrigues, acha que há lógica na atitude. Segundo ele, o discurso inteiro de FHC serve, entre outras coisas, para “elevar o ânimo bélico dos tucanos, que anda em baixa” – embora admita o efeito bumerangue.

“Atacar lideranças em alta pode ser negativo para os autores”, especula.

Se assim é, deve espelhar o sentimento de grande parcela dos brasileiros informados do episódio a carta que abre o Painel da Folha de hoje, assinada por Eustáquio Moreira, de São Paulo.

“Vergonhosa e vulgar a posição do ex-presidente [...]. O discurso de FHC está cheio de ressentimento de classe e de desprezo pelos mais pobres”, o leitor escreveu. “E esta é exatamente a marca do PSDB que o povo brasileiro rejeita [...].”

Em política, vale não necessariamente o que é, mas o que parece – e geralmente trazido pela mídia.

P.S. O nome da coisa [2]

A colunista Dora Kramer pegou na veia do em geral falso problema das diferenças entre o mensalão do PT e o do PSDB. [Ver neste blog "O nome da coisa", em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id=
{33896449-73FE-42F1-B7B1-28E92A1E10DC}&id_blog=3]

Escreve ela hoje no Estado:

“O essencial nos dois casos não é o destino dado ao dinheiro. O fundamental é sua natureza, pública, e os métodos para obtê-lo, desvio mediante contratos fraudulentos nas administrações estadual e federal. Isso só tem um nome: corrupção.”

Strip gay é motivo para cassar Giannazi?

A notícia abaixo, do Globo Online de sexta-feira, mostra um fato insólito que está ocorrendo na Assembléia Legislativa de São Paulo. Um deputado estadual do PSOL teve a idéia de jerico de levar um "transformista" para o lançamento da Frente Parlamentar GLS, ocorrido neste mês. Até aí, nada demais – se o evento era para Gays, Lésbicas e Simpatizantes, o natural seria que tal público se fizesse presente. O problema é que o tal "transformista" resolveu apresentar um showzinho e ficou quase da maneira como veio ao mundo no plenário D. Pedro I, dentro da sede da Assembléia.

Agora, Carlos Giannazi, o deputado que promoveu o evento, está sendo acusado de falta de decoro parlamentar e poderá ter seu mandato cassado pelos colegas.

A luta das minorias por seus direitos é sempre justa, mas o episódio precisa ser analisado com cuidado. O poder legislativo tem normas que devem ser obedecidas para que a atividade parlamentar ocorra dentro de um mínimo de civilidade. No ano passado, o então secretário estadual da Segurança Pública Saulo de Castro Abreu Filho, esteve na Assembléia e destratou os parlamentares com um gesto ofensivo – levantou o dedo médio para a platéia e assim ficou por alguns longos minutos. Foi o suficiente para que alguns deputados recorressem à Justiça contra o ex-secretário, algando justamente que ele quebrou o decoro que aquele ambiente impõe.

Giannazi se defendeu, mas o argumento é fraco: "Foi uma normalidade, até porque na Parada do Orgulho Gay de São Paulo, isso é absolutamente natural, é transmitido por toda a imprensa", disse ele. Ora, a Parada Gay é um evento realizado na rua, não em um plenário da Assembléia Legislativa. Melhor o deputado começar a preparar uma defesa mais consistente, pois a bancada evangélica vai jogar suas fichas neste caso. Não será surpresa se ele acabar cassado e perder seus direitos políticos, impedindo assim a candidatura à prefeitura de São Paulo em 2008. A vereadora Soninha, pré-candidata do PPS, que disputa o mesmo público de Giannazi, pode acabar correndo sozinha nesta seara.

Transformista se apresenta na AL e deputado pode perder o cargo

SPTV

SÃO PAULO - O deputado estadual Carlos Gianazzi (PSOL) pode perder o mandato por causa da performance de um transformista em evento oficial da Assembléia Legislativa. Ele é acusado de quebra de decoro parlamentar por organizar um evento que está provocando polêmica na Assembléia Legislativa de São Paulo. Deputados e convidados se reuniram para o lançamento da Frente Parlamentar em Defesa da Comunidade Gay. De repente, um transformista se aproximou dos deputados e começou a dançar durante o evento.

A performance despertou reações diferentes - cochichos, risos e uma certa inquietação. A apresentação foi no plenário Dom Pedro I, um dos espaços mais tradicionais da Assembléia Legislativa - onde acontecem, por exemplo, as reuniões das comissões de Justiça, de Cidadania e das CPIs. Até agora, o recinto só abrigava gente com traje bem social; como determina o regimento interno.

O descumprimento da norma e os trajes usados pelo transformista provocaram indignação no deputado Waldir Gnello (PTB).

- Ele (transformista) estava de roupas mínimas, calcinha e sutiã. Para uma mulher já seria inadequado; para um homem, continua sendo inadequado. Eles podem usar nos lugares privados, mas não num lugar público - justifica.

Com esses argumentos, o deputado encaminhou à presidência da Casa um pedido de explicação sobre a performance, e acusa o colega Gianazzi de quebra de decoro parlamentar por ter organizado o evento.

Gianazzi se defende, e diz que o que aconteceu não é novidade para o paulistano.

- Foi uma normalidade, até porque na Parada do Orgulho Gay de São Paulo, isso é absolutamente natural, é transmitido por toda a imprensa. As pessoas participam, os deputados participam também - rebateu.

A presidência da Assembléia ainda não se manifestou sobre o caso, e o deputado Carlos Gianazzi já começa a criar uma outra polêmica: ele quer acabar com a obrigatoriedade do terno e da gravata para os parlamentares, e ainda liberar o uso de bermuda, camiseta e boné.

Nos corredores da Câmara, dá pra notar que o regimento interno, que exige terno e gravata para os homens, já não é respeitado. Até os parlamentares cometem deslizes - a prova é que existe uma gravata escondida embaixo da mesa dos assessores do plenário, só para socorrer deputados esquecidos. Essa é a estratégia dos funcionários para manter o ritual, a qualquer custo.

- Essa gravata é daquelas compradas em lojinhas de um R$ 1, é baratinha - garante um deles.

Se o presidente da Assembléia, Vaz de Lima, encaminhar o pedido de quebra de decoro ao Conselho de Ética, o caso deve ser julgado no ano que vem.

Soninha, Serra e o que importa na política

Este blog recebeu o comentário abaixo, assinado por Soninha, sobre a nota Cheia de charme, publicada aqui na sexta-feira. Supondo que o texto seja mesmo da vereadora Soninha Francine, pré-candidata do PPS à prefeitura de São Paulo, cabem dois reparos à argumentação dela. Primeiro, vamos ao texto da vereadora.

"Será que não era melhor analisar a Câmara Municipal de São Paulo, com a bancada do PT continuamente alinhada com o Centrão - que, por se dizer independente, joga na oposição até o momento em que é convencido a votar com o governo e deixa a oposição a ver navios -para "a compreensão da política paulista", em vez de saber, pela coluna social, o que até a torcida do Flamengo já sabe e não diz nada sobre "a política paulista"? (No mesmo camarote no Morumbi estavam o governador do Rio, o Ministro dos Esportes (com esse também me encontro inúmeras vezes) e o presidente do Dir. Estadual do PT. O que isso diz sobre a política nacional? Acertou: nada). É muito veneninho e pouca análise do que realmente importa, né não?"

Antes de mais nada, o veneno é todo da colunista Mônica Bergamo, de quem Soninha parece ser fonte, já que não foi a primeira vez que a jornalista da Folha publicou notas sobre a crescente aproximação da vereadora com o governador José Serra (PSDB). Em segundo lugar, este blog considera a boa relação entre os políticos em questão relevante para a cena política paulista por um motivo simples e que já foi tratado neste espaço diversas vezes: a candidatura de Soninha à prefeitura de São Paulo serve aos interesses de Serra, uma vez que ajuda a dividir o campo de esquerda e pode até ser uma espécie de "segundo cavalo" do governador, caso Geraldo Alckmin insistir em ser candidato e/ou Gilberto Kassab (DEM), candidato que realmente mora no coração de Serra, perder fôlego.

É preciso reconhecer, porém, que a falta desta explicação na nota anterior pode ter levado algum desavisado a imaginar que estas Entrelinhas estariam avalizando o veneno de Mônica Bergamo. Bobagem: o assunto aqui é mídia e política. Relações pessoais ficam de fora, basta ler tudo que já foi publicado sobre Renan Calheiros e Mônica Veloso, por exemplo. O que importa para este blog são as consequências políticas e/ou midiáticas de acontecimentos da vida privada dos homens (e mulheres) públicos.

Ainda sobre o português de FHC

Uma boa análise sobre a polêmica envolvendo mais uma desastrada declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está na Folha de S. Paulo desta segunda-feira, escrita pelo jornalista Fernando de Barros e Silva e reproduzida abaixo, na íntegra. Ao que ele escreveu, só cabe adicionar que FHC é tudo que o presidente Lula pediu a Deus. Cada vez que abre a boca, ajuda a sedimentar a impressão de que é realmente muito, mas muito melhor ter um operário do que um intelectual rastaquera na presidência da República.

ABC da miséria nacional

SÃO PAULO - "Sabemos falar muito bem a nossa língua (...). Queremos brasileiros melhor educados (sic), e não brasileiros liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria." O que foi isso? Um acesso de esnobismo? Uma manobra diversionista para desviar o foco do mensalão tucano? Inveja e despeito? Um pouco de tudo, mas antes de mais nada Fernando Henrique Cardoso foi vulgar e mesquinho ao açular nesses termos o velho preconceito de classe que ele um dia já combateu.

Que o professor emérito e de carreira internacional tenha tropeçado no idioma nativo justamente quando zombava do metalúrgico pouco letrado é um detalhe cômico que só torna o episódio mais grotesco. O essencial não está, obviamente, no maltrato da língua, o que nem é novidade. O sociólogo um dia já manobrou muito bem as idéias, mas nunca foi um estilista. Seu texto é sofrível. Também nisso é legítimo representante da elite local.

Os tucanos falam muitas línguas, são gente que trabalha e estuda, que estuda e trabalha, disse o príncipe. Pois os estudiosos deveriam ler as 90 páginas da denúncia do procurador-geral Antonio Fernando Souza sobre o valerioduto do PSDB. Está em português, claro e cristalino.

Ali o esquema de rapinagem dos cofres públicos a serviço de Eduardo Azeredo em 1998 é descrito como "origem e laboratório" do mensalão petista. A diferença entre a farra mineira e a que se deu sob Lula seria de escala. Não é uma gincana muito edificante.

"Estamos aprendendo com a Era Fernandina como de fato ficou brutalmente estúpido ser inteligente", escreveu no caderno Mais!, ainda em 2001, o filósofo Paulo Arantes. O "apagão" da inteligência progressista desde então só avançou. E já ficou claro a essa altura que tal breu está relacionado à falta de perspectiva decente para o país. Ou, como disse João Moreira Salles em entrevista à Folha, "nossas ambições se tornaram mais medíocres". É um moço bem-educado. E ele FHC conhece muito bem.

sábado, 24 de novembro de 2007

Wagner Iglecias: FHC, Lula e o português

Em mais uma colaboração para o Entrelinhas, o professor Wagner Iglecias comenta as barbaridades ditas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Congresso do PSDB. Vale a pena ler a íntegra do artigo:

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso encerrou de maneira polêmica o recente congresso do PSDB. Afirmou que, a depender dos tucanos, se fará o possível e o impossível para que todos os brasileiros falem de forma correta a língua portuguesa. E que não sejam mais liderados por quem despreza a educação, a começar pela própria. A declaração foi tida como deselegante na seara governista, posto que foi tomada por todos como direcionada ao presidente Lula. E Lula, como se sabe, não tem nível elevado de escolaridade. Ressalte-se, no entanto, que o presidente-operário já forneceu munição a seus adversários no passado quando admitiu sua paciência relativamente pequena para com os livros.

Mas há que se reconhecer que Fernando Henrique acertou. É sim verdade que Lula não domina tão bem as regras formais da língua portuguesa. Comete erros de concordância, suprime os esses nos finais de palavras no plural e ainda por cima tem o cacoete de colocar um “sabe” em meio a muitas de suas frases. O problema de FHC, neste caso, é que, com críticas como a que fez, ele apenas reitera para sua pessoa e para seu partido a imagem de arrogância e elitismo que marca o tucanato. Porque Lula, se fala mal o português, está nisso acompanhado por milhões de brasileiros, de origem popular como ele. Atacar o português ou a escolaridade de Lula nunca foi boa estratégia, pois ao fazê-lo corre-se o risco de se ofender o brasileiro humilde, que também derrapa no idioma e também teve pouca chance de freqüentar a escola.

A fala de Fernando Henrique foi sintomática de um partido cujos cardeais expressam-se bem não apenas em português mas também em outras línguas, mas que há tempos não consegue falar o idioma do povo. Goste-se ou não do sapo barbudo o fato é que ele sabe como ninguém falar aos ouvidos dos mais pobres. Some-se a isto os bolsas-famílias, o aumento do volume de crédito popular e a atual elevação do padrão de consumo da base da pirâmide social brasileira e se começa a entender a sintonia e o apoio maciços que Lula tem junto ao povão. Quando Fernando Henrique depreciou o jeito errado com que Lula usa a língua formal ele apenas interpôs mais um obstáculo para que seu partido reconquiste os corações e as mentes das classes populares. Diz o ditado popular que Deus escreve certo, mas por linhas tortas. Fernando Henrique não é Deus, mas para muita gente ele falou o certo em relação a Lula. O problema, para ele e para os seus, é que o fez de forma completamente torta.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Cheia de charme

A jornalista Mônica Bergamo sabe das coisas. Duas notinhas publicadas na edição desta sexta-feira da Folha de S. Paulo são emblemáticas para a compreensão da política paulista nos dias de hoje. Abaixo, o que está na coluna de Mônica:

PALMEIRAS 1
José Serra teve consultoria especializada no jogo da seleção contra o Uruguai, anteontem, no Morumbi: a vereadora Soninha (PPS-SP), comentarista de futebol, que assistiu à parte do segundo tempo ao lado do governador. "É muito divertido ver jogo com o Serra. Ele fica me perguntando: "comenta aí, Soninha, por que "tá" ruim?"

PALMEIRAS 2
Serra e Soninha têm uma paixão comum: o Palmeiras. "Se eu não fosse palmeirense, acho que a gente não teria essa aproximação. Já fomos algumas vezes ao Parque Antarctica. Putz, ele adora". Ela diz que um dos jogos foi contra o Inter. "Ele se gabava de nunca ter visto o Palmeiras perder no Parque Antarctica. Aí, contra o Inter, em 2006, ele perdeu. O Serra ficou arrasado."

Cesar Maia ironiza propaganda tucana

Do ex-blog do prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia (DEM):

INFELIZ COINCIDÊNCIA!
Ontem estrearam os comerciais do PSDB: O PT copiou e isso é bom para o Brasil. Ontem o procurador geral denunciou um senador do PSDB e um ministro de Lula!

É, definitivamente, esta não foi uma boa semana para os tucanos...

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Apareceu a margarida

O Procurador Geral da República, Antonio Fernando de Souza, finalmente apresentou a sua denúncia no caso do mensalão tucano, conforme pode ser lido na matéria abaixo, da Folha Online. Ironicamente, o protelamento da denúncia fez com que ela ocorresse justamente no dia em que o PSDB realiza um encontro em Brasília que reúne as suas principais lideranças. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, por exemplo e com todo o respeito, já tirou o seu da reta e disse que os culpados devem ser punidos.

Os principais envolvidos no caso são o senador Eduardo Azeredo, do PSDB de Minas, e o agora ex-ministro Walfrido dos Mares Guia, do PTB mineiro. Azeredo repetiu evasivas e prometeu provar a inocência. Mares Guia foi mais prático: renunciou ao cargo de ministro das Relações Institucionais para preparar a sua defesa, lembrando a atitude de Henrique Hargreaves no governo Itamar Franco. Leia abaixo a íntegra da matéria da Folha Online:

Procurador-geral oferece denúncia contra Walfrido, Azeredo e Marcos Valério

GABRIELA GUERREIRO e RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília

O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, ofereceu denúncia ao STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quarta-feira contra 15 acusados de envolvimento com o mensalão tucano, entre eles o ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais), o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e o empresário Marcos Valério.

A denúncia tem cerca de 80 páginas e os acusados devem responder por peculato e lavagem de dinheiro, entre outros crimes. No Supremo, o relator do caso é o ministro Joaquim Barbosa.
Ueslei Marcelino/Folha Imagem
Ministro Walfrido dos Mares Guia está entre os denunciados pelo procurador-geral
Ministro Walfrido dos Mares Guia está entre os denunciados pelo procurador-geral

No documento, o procurador pede que o advogado Rogério Tolentino, sócio de Valério na empresa 2S Participações, seja investigado separadamente. Ele teria recebido dinheiro do valerioduto durante a campanha de 1998, quando o então governador Eduardo Azeredo tentou, sem êxito, a reeleição.

Então vice-governador de Azeredo, Walfrido é suspeito de ter participado do comando financeiro da campanha. Também teria quitado, por meio de Marcos Valério, dívida de R$ 700 mil de Azeredo com Cláudio Mourão, tesoureiro da campanha.

Governo

Com o oferecimento da denúncia ao Supremo, Walfrido deve deixar o cargo para se defender das acusações, como antecipou reportagem de hoje de Valdo Cruz.

O líder do governo na Câmara, José Múcio Monteiro (PTB-PE), disse que o ministro está desconfortável com a situação. "Qualquer pessoa que estiver sob a égide de uma ameaça dessas estaria desconfortável. Por isso que todos estão torcendo [por ele]. [O desconforto] só ele sabe e sua família", disse Múcio, cotado para assumir o posto de Walfrido.

Múcio negou que a saída de Walfrido tenha sido discutida na reunião de hoje do conselho político. "Esse assunto [a saída de Walfrido] não foi tratado. Todos nós estamos torcendo para o melhor do país. Todos nós sabemos da contribuição que o ministro Walfrido dá para o país: seu instinto democrático, a facilidade em conversar e saber ouvir."

Wagner Iglecias: Mais do mesmo

Não tem jeito, esta quinta-feira parece ser o dia de malhar o Dunga. Agora quem escreve é o mestre Wagner Iglecias, professor de Ciência Política da USP Leste, que nem bem terminou de ler o comentário de Jorge Rodini e já bateu o dele também, com a devida indicação de novo técnico para a seleção nacional. Abaixo, a íntegra:

A seleção brasileira desta quarta-feira contra o Uruguai no Morumbi foi o que a seleção brasileira tem sido há tempos. Ou seja, um punhado de jogadores de ótima qualidade, que por talento de sobra ou lances de sorte acabam, mesmo quando jogam mal, se dando bem. É verdade que às vezes ocorrem as exceções, como naquele 0x1 diante da França, que nos custou a eliminação da Copa do Mundo da Alemanha em 2006. Mas na maioria dos casos, mesmo sem muita organização tática, temos nos dado melhor que nossos adversários. Mais ou menos naquela linha de raciocínio de que “uma hora a gente faz o gol”. E não é que quase sempre fazem mesmo?

O Brasil viu o Uruguai jogar a vontade no primeiro tempo, e só melhorou quando, por ironia, o ex-volante Dunga sacou do time o genial Ronaldinho Gaúcho para por em seu lugar um terceiro volante. Mas foi melhora pequena, que para sorte de Dunga coincidiu com o gol quase por acaso anotado por Luís Fabiano. Não fosse defesa magistral de Julio César, em plena terra de Rogério Ceni, e o Brasil teria tomado o empate logo em seguida, pois o Uruguai levou o segundo gol mas continuou em cima, relembrando a velha garra uruguaia que parecia sumida nos últimos tempos.

Em meio à correria e ao voluntarismo dos craques brasileiros o que prevaleceu foi o óbvio: falta esquema tático à seleção. E Dunga não tem lá tanta culpa nisso. Há tempos que o maior orgulho nacional, a seleção brasileira, atua no vamo-que-vamo, na base do talento individual, da jogada de bola parada ou do lampejo de um craque em jornada inspirada. E com isso temos tido êxito, é verdade, como nas várias conquistas recentes. No passado recente nossos times foram comandados por gente que até buscava arrumar o time dentro de campo, mas que antes de tudo era boa no quesito “gestão de pessoas”. E olha que isso não é tarefa fácil, afinal geriram craques consagrados, milionários e, por que não imaginar, muitas vezes entediados.

Lembrar o peso e a tradição da amarelinha ou criar um ambiente de família junto a tantas estrelas é muito importante. Mas mais importante é dar padrão de jogo ao provável melhor time do mundo, saber mexer as peças durante a partida, mudar completamente o esquema tático no decorrer da batalha a depender dos movimentos do adversário. E nesse quesito, perdoem-me quem não goste, tem alguém que sobra: Wanderley Luxemburgo. Que além de saber tudo isso também sabe motivar os grupos que dirige. Luxa já!

Jorge Rodini: A quem Dunga quer enganar?

O jogo do Brasil contra o Uruguai da noite de ontem parece ter mexido com os torcedores. Menos de 12 horas após a vitória, o craque Jorge Rodini, diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia, já tinha enviado ao blog a sua análise sobre o que seu passou no Morumbi. O Entrelinhas trata de mídia e política, mas abre espaço para futebol sempre que a pátria de chuteiras entra em campo. Abaixo, pois, segue a íntegra do comentário de Rodini:

Dunga, o gaúcho que está técnico da seleção, não tem culpa disso. Foram os "teixeirões" que o colocaram lá. Quem tem três craques, quase gênios, como Ronaldinho, Robinho e Kaká, além de muitos outros bons jogadores, não pode depender de um gol espírita a La Gighia ou a La Valdomiro (na classificação da primeira fase da Copa 1974 contra o Zaire). Que esquema tático é este? Aliás, Dunga sabe o que é isto, um esquema tático?

Não podemos nos contentar com a desculpa do pouco tempo de treino da seleção.Se o treinador convoca só "estrangeiros" (a exceção é Kleber), parece não estar preocupado com entrosamento. Além do mais, o Uruguai teve o mesmo tempo que nós e deu um baile no Brasil. Parecia que o time da camisa azul celeste era o Brasil.

Quase foi um Morumbinazzo. Seria desastroso, mas oportuno. Dunga, o gigante anão, sofreria muito para se manter no cargo.

A seleção Dengosa, Soneca e Zangada poderia ter feito um jogo de Mestre para deixar a torcida Feliz. Mas engripou: Atchim, então!

Brasil 2 x 1 Uruguai: Josué virou o jogo

Todo mundo viu o jogo. Este blog arrisca um palpite: poucos perceberam que a entrada de Josué no lugar de Ronaldinho Gaúcho, o maior pipoqueiro que o Morumbi já recebeu, foi decisiva para mudar a partida e determinante na vitória do escrete canarinho.

Sim, somos mais de 100 milhões de técnicos, cada qual com a sua opinião definitiva sobre os fatos do campo de jogo. Pois aqui vai a destas Entrelinhas: Josué mudou o panorama do jogo por dois motivos – primeiro, porque com a entrada do ex-sãopaulino o Brasil recuperou, ou melhor, equilibrou a pegada do meio de campo, que até então era francamente favorável ao Urugai e possibilitava à celeste olímpica o domínio da articulação do jogo, especialmente no ataque; segundo, porque o volante Josué provou que também é homem de armar boas jogadas, tanto que foi dele o genial passe para o lateral Maicon no lance que resultou o segundo gol brasileiro. A bem da verdade, este blog poderia invocar aqui um terceiro motivo – até um poste no lugar de Ronaldinho Gaúcho ajudaria a seleção – mas não o faz em respeito ao passado do meia gaúcho. Não sem antes deixar de dizer que Ronaldinho é melhor, bem melhor, no banco, como opção para partidas já dadas como perdidas. Talvez nestes casos, como salvador da pátria, o pipoqueiro do Morumbi encontre motivação para jogar o futebol que sabe.

Antes que acusem estas Entrelinhas de "são-paulismo" ou coisa do tipo, cabe dizer que Kaká também decepcionou, jogou mal. E que Luís Fabiano apenas mostrou que é um jogador de pegada e sorte, mas que ainda precisa provar que merece a camisa 9 do Brasil. Por enquanto, o blog acha que ele está no nível de Aloísio e Leandro, por exemplo...

Tudo somado, o nome do jogo foi Josué, e Dunga precisa agradecer aos céus por não ter tomado uma surra histórica na quarta-feira. Se as coisas continuarem assim, não há dúvida: dias piores virão, apesar da euforia do Galvão Bueno.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Tiãozinho emocionou Lula

A notinha abaixo está na newsletter TiãoOnline - Correio da Boa Notícia, informativo que o presidente licenciado do Senado distribui por e-mail.

Fazer o bem - Um amigo que estava no Palácio do Planalto telefonou-me após assistir à cerimônia em que o presidente Lula, bastante emocionado, transformara em medida provisória, o projeto de lei de autoria do Senador Tião Viana (PT-AC), que concede pensão especial, mensal e vitalícia às pessoas atingidas pela hanseníase e que foram submetidas a isolamento e internação compulsórios em hospitais-colônias, em data anterior a 31 de dezembro de 1986.


Como o leitor pode perceber, o senador Tião Viana (PT-AC) é um homem sensível e com grande acesso ao presidente Lula. Tem futuro, o presidente interino do Senado!

Colômbia 2 x 1 Argentina

Nada como uma boa notícia para terminar (ou começar, já é madrugada de quarta-feira) o dia...
Só falta agora o Júlio César tomar um frangaço hoje contra o Uruguai para o Dunga se convencer que o número 1 no Brasil tem nome e sobrenome: Rogério Ceni.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Cadê a denúncia do mensalão tucano?

O jornalista Cláudio Humberto informa em sua coluna desta terça-feira que tão logo seja tornada pública a denúncia do Procurador Geral da República no caso do "mensalão tucano", esquema utilizado na campanha de Eduardo Azeredo à reeleição para o governo de Minas em 1998 e espécie de "pai" do mensalão petista, o ministro Walfrido dos Mares Guia deixará a pasta das Relações Institucionais para se dedicar à defesa na Justiça, uma vez que deverá ser implicado na denúncia. Segundo Cláudio Humberto, o petebista José Múcio, líder do governo na Câmara, deve suceder Walfrido. Como diriam os italianos, se non è vero, è bene trovato.

De tudo que vai acima, porém, chama especial atenção um fato singelo: o PGR está demorando bastante para fazer a denúncia contra os tucanos, ou não? Logo após a denúncia do mensalão petista, dizia-se que ele apresentaria a peça sobre o caso de Minas em questão de dias. Meses se passaram e até agora, nada...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Carro parcelado em 99 vezes, o preconceito
das elites e o 3° mandato do presidente Lula

A reportagem reproduzida abaixo, do Estadão desta segunda-feira, é ilustrativa não apenas para explicar o sucesso do presidente Lula com os pobres mas também para revelar o preconceito dos ricos com o chamado "andar debaixo", como gosta de escrever Elio Gaspari.

Quem tiver interesse de ler a matéria completa, cujo link está abaixo, vai ficar sabendo que a uma taxa de juros menor do que a Selic, os pobres estão comprando carros novos, os chamados zero quilômetro. Vai descobrir também que 46% desses compradores o fazem pela primeira vez na vida. A leitura da matéria, porém, também revela um certo desgosto do pessoal do Estadão com esta verdadeira febre no Brasil que é o consumo dos pobres desde que Lula se tornou presidente e mais especialmente neste início de segundo mandato. Todo o foco da reportagem é na possibilidade de uma situação do tipo "subprime" norte-americano no mercado de venda de automóveis a prazo, hipótese esta que uma análise fria dos números apresentados na própria reportagem já é suficiente para descartar. Afinal, a inadimplência neste setor é de apenas 3% e a legislação permite a rápida retomada dos automóveis dos inadimplentes pelo banco ou financeira que financiou o parcelamento. Na verdade, ao contrário do que diz a matéria, vender carro para pobres é um grande negócio justamente porque eles pagam mais pelo carro e a taxa de inadimplência é baixíssima.

E o que tudo isto tem a ver com o terceiro mandato do presidente Lula? Muito simples: esses brasileiros que compraram carros novos pela primeira vez na vida certamente vão associar os tempos de bonança com o atual presidente. Convoque-se um plebiscito sobre o assunto e como votarão os pobres motorizados da Era Lula? E se a tal emenda vingar, é melhor o DEM e PSDB já começarem a pensar em 2014...

Baixa renda já pode comprar carro zero em até 99 meses

Márcia De Chiara


O brasileiro já pode comprar carro zero parcelado num prazo superior a oito anos ou 99 meses, pagando juros de 0,89% ao mês ou 11,21% ao ano. A taxa é inferior à Selic, a taxa básica de juros, que está em 11,25% ao ano. Isso permitiu que uma fatia expressiva da população de menor renda comprasse pela primeira vez um carro novo.

Fernando de Barros e Silva: Tolices
demofóbicas ou "porque Lula não é Chávez"

Vale a pena ler o artigo abaixo, do jornalista Fernando de Barros e Silva, publicado nesta segunda-feira na Folha. Este blog não concorda com tudo que vai abaixo, mas considera especialmente feliz o final do texto.

O PFL mudou de nome, mas continua o mesmo, incorrigível. A julgar pelos termos da nota contra as declarações de Lula sobre a Venezuela, a neomarqueteira Paula Lavigne terá muito trabalho com seus bravos Democratas. Bisonhos em matéria de democracia, os demos foram educados na escola da ditadura. Freqüentaram-na até anteontem. Pularam, por oportunismo, no último salva-vidas para o mar da democracia, quando já fazia água no navio dos milicos.

Desde então, os pefelês prestaram relevantes serviços -a si mesmos- com Sarney, Collor e FHC, até serem defenestrados da condição de eterna linha auxiliar do poder. A travessia no deserto da oposição não os tornou melhores. Nossos liberais vivem mal longe do Estado.

Na nota divulgada no feriado, os demos acusam Lula de ter feito "a mais grave ameaça à democracia brasileira desde que assumiu o mandato" e repudiam a "sociedade com o ditador da Venezuela"; dizem a seguir que Lula "emite sinal verde a golpistas" para "impedir a alternância de poder no Brasil"; colocam-se, enfim, na linha de frente contra "tentativas de golpe de Estado com o objetivo de instalar uma ditadura no Brasil".

Podemos ficar tranqüilos: os bons demos nos salvarão da ditadura lulo-chavista. Ora, não é preciso ser muito arguto, basta ser honesto para concluir que não há semelhança relevante entre Lula e Chávez -ou entre o lulismo e o chavismo.

Chávez é um ditador "in progress", que se vale dos instrumentos da democracia para requentar o velho populismo autoritário da América Latina; Lula é de outra espécie -um tipo de Macunaíma rendido ao pragmatismo fisiológico e corrupto da política brasileira.

Uma coisa é certa: o 3º mandato entrou de vez na agenda da porção venezuelana da oposição brasileira. Tornou-se sua razão de viver -ou sobreviver. A sombra do chavismo é a bússola dos Democratas; sem ela, não sabem onde fica o sol. Se tiver juízo, Lula vira logo essa página. Os demos são ruins de voto, mas de golpe eles entendem.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Entrelinhas em breve recesso

Salvo acontecimentos extraordinários, este blog volta a atualizar no domingo, dia 18/11.

A próxima semana promete ser quente em Brasília e o autor destas Entrelinhas sabe que vai ter muito trabalho, especialmente na quinta-feira, quando deverá ser votado o pedido de cassação do presidente licenciado do Senado, Renan Calheiros.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Obrigado, doutor

O que vai abaixo é o texto semanal do autor do blog para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do Entrelinhas.

Há certas pessoas que se tornaram verdadeiras unanimidades nacionais no Brasil. Adib Domingos Jatene, médico cardiologista e ex-ministro da Saúde, é uma delas. É difícil, muito difícil mesmo, achar alguém que fale mal do doutor. Primeiro, porque Jatene é um homem que salvou e salva vidas. Muitas vidas. Inventou uma técnica cirúrgica de correção de transposição dos grandes vasos da base do coração, conhecida hoje como Operação de Jatene, que tem sido empregada mundo afora com sucesso. Segundo, porque este médico nascido em Xapuri, no Acre, é um incansável defensor do sistema público de saúde, um militante da medicina social e não aquele tipo que trata apenas a parcela da população que pode pagar caro pelo privilégio de receber um atendimento de "primeiro mundo", como gosta de dizer.

Sim, Adib Jatene é uma unanimidade nacional e talvez por isto pode fazer o que fez durante um jantar chique na capital paulista, conforme relato da jornalista Mônica Bergamo na edição de terça-feira da Folha de S. Paulo. Vale a pena reproduzir a reportagem:

Dedo em riste, falando alto, o cardiologista Adib Jatene, "pai" da CPMF e um dos maiores defensores da contribuição, diz a Paulo Skaf, presidente da Fiesp e que defende o fim do imposto: "No dia em que a riqueza e a herança forem taxadas, nós concordamos com o fim da CPMF. Enquanto vocês não toparem, não concordamos. Os ricos não pagam imposto e por isso o Brasil é tão desigual. Têm que pagar! Os ricos têm que pagar para distribuir renda".

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Numa das rodas formadas no jantar beneficente para arrecadar fundos para o Incor, no restaurante A Figueira Rubaiyat, Skaf, cercado por médicos e políticos do PT que apóiam o imposto do cheque, tenta rebater: "Mas, doutor Jatene, a carga no Brasil é muito alta!". E Jatene: "Não é, não! É baixa. Têm que pagar mais". Skaf continua: "A CPMF foi criada para financiar a saúde e o governo tirou o dinheiro da saúde. O senhor não se sente enganado?". E Jatene: "Eu, não! Por que vocês não combatem a Cofins (contribuição para financiamento da seguridade social), que tem alíquota de 9% e arrecada R$ 100 bilhões? A CPMF tem alíquiota de 0,38% e arrecada só R$ 30 bilhões". Skaf diz: "A Cofins não está em pauta. O que está em discussão é a CPMF". "É que a CPMF não dá para sonegar!", diz Jatene.

A reprodução dos fatos pela colunista da Folha parece especialmente feliz, mas muito mais interessante deve ter sido ver (e ouvir) o ocorrido ao vivo em cores. Lembra um pouco a propaganda do cartão de crédito: jantar beneficente no Figueira Rubayat, R$ 200; valet park para estacionar no restaurante por 2 horas, R$ 15; ver o Jatene enfiar o dedo no nariz do presidente da Fiesp e cobrar da elite que pague impostos, não tem preço.

De fato, é até possível contestar os argumentos de Jatene na defesa da CPMF, especificamente, mas não dá para não concordar com o ex-ministro em uma questão simples: o "imposto do cheque" é realmente o único tributo que a elite não consegue sonegar. Paulo Skaf, coitado, ficou meio sem argumentos diante da firmeza de Jatene e limitou-se a dizer que a Confins "não está em pauta". Claro que não está, pois esta contribuição a elite consegue sonegar e a CPMF, não...

No fundo, há uma certa falácia no Brasil sobre a questão da tal altíssima carga tributária. Primeiro, não é tão alta assim, pois em países mais desenvolvidos o peso dos impostos é ainda mais alto do que no Brasil; segundo, o problema não é tanto a carga, mas a falta de critério na tributação, que acaba fazendo com que os ricos paguem menos na proporção do que pagam os pobres e remediados.

Discussão técnica à parte, não deixa de ser irônico que um médico nascido no longínquo Acre, o homem que salva vidas, amigo de Paulo Maluf e Fernando Henrique Cardoso, foi quem teve a coragem de botar os pingos nos is (e o dedo na cara do presidente da Fiesp) para cobrar do representante da indústria paulista que os ricos paguem os seus impostos. Porque na esquerda, este tipo de cobrança parece estar totalmente fora de moda, soa como constrangimento ou provocação. Isto vale para o PT, cuja argumentação a favor da CPMF é tímida e defensiva, e vale também para a esquerda mais radical, que ultimamente anda de braços com o empresariado sempre que tal aliança possa resultar em desgaste ao governo Lula.

Gestos de coragem são de fato cada vez mais raros na cena brasileira. Adib Jatene, porém, mostrou que eles não desapareceram por completo. Ainda bem. Ou, como diria a voz das ruas: obrigado, doutor...

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Cristóvam Buarque aprovou, sem ressalvas,
renovação da rádio do usineiro de João Lyra

Ainda sobre o caso Renan Calheiros, não deixa de ser irônica a posição de alguns senadores hoje tão contundentes na defesa da cassação do presidente licenciado da Casa. Senão vejamos: o usineiro João Lyra afirma que o Calheiros se encarregou de renovar a licença da rádio Paraíso, outra emissora adquirida pelo usineiro. Na versão de Lyra, a renovação só se daria mediante pagamento de R$ 500 mil. O dinheiro teria sido entregue a Tito Uchoa, segundo uma das provas obtidas e encaminhada pelo usineiro ao Conselho de Ética.

Pois o relator do processo da renovação da concessão da Rádio Paraíso foi o senador Cristóvam Buarque (PDT-DF), hoje um dos mais ferrenhos opositores de Calheiros. Na época, Cristóvam disse que estava tudo certo com a concessão e seu parecer foi aprovado por unanimidade na Comissão de Educação do Senado, tendo passado também pela Câmara (em duas comissões). Agora, Cristóvam tem indicado que votará pela cassação de Renan com base em um processo que ele mesmo aprovou sem ressalvas. Como diriam os filósofos de botequim, o mundo gira, a Lusitana roda...

Teo, Pimentel e Ferreira dizem que Renan não é sócio de Lyra em empresas de mídia

Os depoimentos prestados até agora ao Conselho de Ética do Senado sobre o caso do senador Renan Calheiros (PMDB-AL) coincidem em um ponto relevante para o esclarecimento dos fatos. Tanto o governador de Alagoas, Teotonio Vilela Filho (PSDB), quanto Sérgio Luiz Ferreira e Nazário Pimentel afirmaram que o presidente licenciado do senado não é ou foi sócio do usineiro João Lyra em empresas de comunicação em Alagoas, conforme denunciou a revista Veja.

Questionado sobre o assunto, Teo Vilela afirmou que nunca ouviu falar que Renan tivesse qualquer participação em empresas de comunicação. O governador também afirmou que a grande máxima de Lyra é "quando o dinheiro ou a chibata não resolve, é porque um dos dois foi pouco".

Sérgio Luiz Ferreira foi contratado por Nazário Pimentel para fazer uma auditoria n'O Jornal e permaneceu na empresa após a conclusão do estudo. Segundo o executivo, Nazário vendeu suas empresas a João Lyra apenas. Da mesma forma que o governador Teo Vilela, Ferreira jamais ouviu nada acerca de participação de Renan Calheiros na empresa.

Já Nazário Pimentel relatou que quando pretendia vender suas empresas, procurou vários usineiros e, após alguns contatos infrutíferos, lembrou-se do nome de Joao Lyra, a quem ainda não conhecia. Redigiu então uma carta ao senador Renan Calheiros, para que este repassasse ao usineiro Lyra. Ele explicou que Renan o apresentou a João Lyra, mas disse que o senador não participou de qualquer negociação sobre a venda, tendo, inclusive, se retirado da sala quando Nazário e João Lyra começaram a tratar da transação. E afirmou que todos os pagamentos foram feitos por João Lyra, em mãos. "João Lyra não tem honra, não tem ética", disse o empresário.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Mário Magalhães: para que serve o jornal?

Está brilhante o comentário abaixo, escrito pelo Ombundsman da Folha de S. Paulo, jornalista Mário Magalhães, em sua crítica interna desta segunda-feira. Realmente, causa espanto a insensibilidade dos editores diante de uma notícia que mereceria pelo menos um abre de página, ainda que a apuração não estivesse completa. Um pouco de criatividade e dois ou três telefonemas para psicólogos e educadores, por exemplo, seriam suficientes para que o jornal contasse a história e apresentasse a opinião de gente que lida com crianças sobre o ocorrido...

Para que serve o jornal?

Contar histórias é um dos seus propósitos.

Em sete meses como ombudsman, não me lembro de ter visto uma história tão menosprezada pela Folha como a do menino-aranha na edição de sábado.

A maior fotografia da primeira página foi para Riquelme, 5, o pequeno herói com nome de craque argentino (nem esse aspecto futebolístico o jornal abordou). Riquelme salvou uma menina de 1 ano que estava no berço quando a casa dela pegou fogo _é o que o jornal banca. O destaque da primeira página criou uma expectativa que se frustrou.

A reportagem "'Homem-Aranha' de 5 anos entra em casa que pegava fogo e salva bebê" (pág. C4) não é só pequena em tamanho e apurada por telefone. É burocrática e insensível. Trata um feito emocionante no tom de relato sobre buraco de rua.

No fim de semana da morte de Norman Mailer, o jornal não soube reconhecer o encanto óbvio de um gesto inesquecível.

Se uma história assim não comove o jornal, o que vai comover?

Eleição no PT começa a esquentar

A disputa pela presidência do PT está ficando cada dia mais quente e animada. Segundo o que vai pelos bastidores do partido, são quatro os candidatos com chances de disputar o segundo turno: Ricardo Berzoini, José Eduardo Cardozo, Valter Pomar e Jilmar Tatto, não necessariamente nesta ordem. Nesta segunda-feira, Pomar divulgou mais apoio importante à sua candidatura, de João Pedro Stédile, líder do MST. “Espero que ganhe, e que faça uma gestão socialista”, disse o dirigente sem-terra no domingo. As eleições para a renovação das direções do Partido dos Trabalhadores serão realizadas nos dias 2 e 16 de dezembro (1º e 2º turnos). Há quem diga que Berzoini é vaga garantida na segunda votação, mas que deverá perder no segundo escrutínio em função da união de seus adversários, especialmente se o seu adversário for Tatto.

domingo, 11 de novembro de 2007

O petróleo de Lula é velho?

Já tem gente dizendo que o anúncio da quantidade de óleo que poderá ser extraída do campo de Tupi, no litoral de São Paulo, realizado na semana passada pela ministra Dilma Rousseff, foi mais um golpe de marketing do governo Lula, já que a potencialidade do campo já era conhecida faz alguns anos. A intenção do governo seria desviar as atenções da tal crise do gás, que estaria em vias de explodir com um aumento de mais de 15% no GLP. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém: a Petrobras não poderia simplesmente "segurar" uma informação como a da quantidade de petróleo no novo campo sob risco da coisa toda vazar e a empresa ser punida pela CVM e responder a processos judiciais de toda sorte, tantos seriam os prejudicados pela falta de transparência. Lula pode fazer muita coisa malvada, mas não pode inventar uma história de bilhões de barris e muito menos "esquentar" uma notícia velha. Ademais, as ações da Petrobras não subiriam 15% em um único dia se a notícia não fosse nova e importante. É mais fácil acreditar que Lula "nasceu não com aquilo voltado para a lua, mas com a própria lua no corpo", conforme teria dito um governador ao presidente em Zurique, segundo relato da jornalista Mônica Bergamo...

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

A nudez de Rogéria e a Lei do Corno Manso

Brasília é uma festa. Há de tudo na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Nesta semana, até o esclarecido deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), o mesmo que apresentou projeto de lei para legalizar a prostituição no país, achou excessiva a tal mostra de fotografias que seria realizada nas dependências da Câmara e que continha um take do travesti Rogéria vestindo camisa, gravata e mais nada. Sim, desta vez o novo Catão do Congresso brasileiro acertou: era demais da conta.

Se Gabeira mandou bem, não deixa de ser curiosa a linha de argumentação do deputado Sérgio Barradas Carneiro (PT-BA) para defender o projeto de lei 506/07, por ele apresentado à apreciação da Câmara. A proposta determina que é direito exclusivo do marido contestar a paternidade dos filhos nascidos de sua mulher. Hoje, o Código Civil permite ao marido contestar a paternidade, mas deixa em aberto a possibilidade de outros virem a fazê-lo. A intenção do projeto, argumenta o autor, "é reforçar os vínculos reais nascidos da convivência". Barradas Carneiro explica que a intenção de seu projeto é limitar ao marido, como único interessado, o legitimado a contestar a paternidade. Bem, o deputado poderia ser um pouco mais claro e dizer logo que seu projeto poupa os cornos mansos de enventuais constrangimentos...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Rei das "pequenas multidões", presidente
Tião Viana faz Lula ter saudade de Calheiros

Segundo avaliação de gente que circula com o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), os ânimos estão mais amenos para o seu lado agora. A cadeira de Renan na Mesa Diretora do Senado era o que seus adversários de fato queriam e isto eles já têm. O senador alagoano espera conseguir resguardar seu mandato com o clima melhor na Casa.

As mesmas fontes dizem que o governo já deve estar com bastante saudade do presidente Renan porque nada acontece sob a presidência interina de Tião Viana (PT-AC), que bom mesmo só é no auto-elogio, como este blog já cansou de reportar. Aliás, o próprio Tiãozinho reconhece: do que realmente gosta é acordar de manhã cedo e ouvir os passáros, conforme declarou outro dia e a imprensa inacreditavelmente manchetou. Mas o grande Tião Viana aclamado por uma "pequena multidão" no Acre está muito atrapalhado na tramitação da CPMF. E Lula não está gostando nada disto.

Super Péres já condenou Renan

A bem informada Renata Lo Prete escreveu as duas notas abaixo na coluna Painel da Folha de S. Paulo desta quinta-feira.

Voto a favor 1
Jefferson Péres (PDT-AM), relator do processo que acusa Renan Calheiros (PMDB-AL) de ter usado laranjas para comprar rádios e um jornal, deve apresentar na próxima quarta seu parecer pela cassação do presidente licenciado do Senado.

Voto a favor 2
Péres, que iniciou o trabalho alegando falta de provas, mudou de postura após virar alvo de um dossiê. Disse a colegas que houve quebra de decoro com base em "evidências" de que Renan se valeu, sim, de laranjas. O próprio peemedebista já foi informado por aliados de que terá de enfrentar nova votação no Conselho de Ética.

As notinhas de Renata fazem lembrar Rui Barbosa: foi a águia de Haia quem escreveu que o processo político começa pela sentença. O senador Peres, relator do processo contra o presidente licenciado do senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deve conhecer essa máxima. Tanto é que nem terminou a fase de instrução e já indicou que seu relatório pedirá pela cassação do colega, coisa que Lo Prete não deve ter tido grandes dificuldades para descobrir.

O problema todo é que na próxima terça-feira (13) estão marcados os depoimentos ao Conselho de Ética do Senado de novas testemunhas, como o governador de Alagoas, Teotônio Vilela (PSDB), e Nazário Pimentel. Ou Peres tem dons de vidente e já sabe que os depoimentos não vão acrescentar nada de novo ao processo ou tem uma incansável vocação para trabalhar de madrugada, uma vez que já anunciou que vai entregar o relatório na quarta-feira (14), menos de 24 horas depois dos depoimentos de Teo e Nazário.

O Lobo e o Cordeiro na política brasileira

Em Brasília, há quem veja no comportamento do pequeno Jefferson Péres (PDT-AM) na relatoria do caso Renan alguma semelhança com um personagem da velha fábula de La Fontaine reproduzida abaixo:

Um cordeiro estava bebendo água num riacho. O terreno era inclinado e por isso havia uma correnteza forte. Quando ele levantou a cabeça, avistou um lobo, também bebendo da água.

– Como é que você tem a coragem de sujar a água que eu bebo - disse o lobo, que estava alguns dias sem comer e procurava algum animal apetitoso para matar a fome.

– Senhor - respondeu o cordeiro - não precisa ficar com raiva porque eu não estou sujando nada. Bebo aqui, uns vinte passos mais abaixo, é impossível acontecer o que o senhor está falando.

– Você agita a água - continuou o lobo ameaçador - e sei que você andou falando mal de mim no ano passado.

– Não pode - respondeu o cordeiro - no ano passado eu ainda não tinha nascido.

O lobo pensou um pouco e disse:

– Se não foi você foi seu irmão, o que dá no mesmo.

– Eu não tenho irmão - disse o cordeiro - sou filho único.

– Alguém que você conhece, algum outro cordeiro, um pastor ou um dos cães que cuidam do rebanho, e é preciso que eu me vingue.

Então ali, dentro do riacho, no fundo da floresta, o lobo saltou sobre o cordeiro,a garrou-o com os dentes e o levou para comer num lugar mais sossegado.

Moral da história: se o lobo decide comer, não precisa de justificativa.

Não é preciso dizer que Péres não guarda nenhuma semelhança com o cordeiro da fábula...

Caso Lancellotti: dois pesos e duas medidas

Está impecável o comentário de Luiz Weis sobre o comportamento da Folha de S. Paulo na cobertura do episódio envolvendo o padre Júlio Lancellotti. O jornalista do Estadão observa em seu blog Verbo Solto que a Folha deu o título "Ex-interno diz que fazia sexo por dinheiro com padre" chamada de primeira página (saiu acima da dobra e com destaque), no último dia 28/10. Na edição desta quinta-feira, continua Weis, a mesma Folha publica matéria no caderno Cotidiano com o título "Polícia conclui que padre Júlio sofreu extorsão". "Na primeira página, nada, nem uma única palavra sobre o caso", conclui o jornalista na nota "Depois da apelação, a omissão"

Falência da BRA mostra os limites da
cobertura da imprensa especializada

O distinto leitor foi avisado pelo Valor Econômico, Gazeta Mercantil, Jornal do Comércio ou DCI sobre a delicada situação da companhia aérea BRA? Infelizmente, não. A empresa estava quebrada, mas os jornais econômicos se portaram como a Carolina do Chico, para quem a vida passou na janela e só ela mesma não viu.

Não é tarefa tão difícil assim detectar empresas que vão mal das pernas. Em geral, salários começam a atrasar, contratos não são honrados, o burburinho de que as coisas não estão boas vira conversa corrente nos corredores das firmas, enfim, há sempre muitos indícios que indicam a real situação dessas companhias, ainda que os balanços apontem cenários cor-de-rosa. Evidentemente, é preciso ter repórteres bem informados e com capacidade de perceber os sinais. De duas uma: ou os jornalões econômicos não dispõem de bons repórteres para cobrir um setor estratégico e que está em crise no Brasil há muito tempo; ou os bons repórteres que cobrem o setor cochilaram e tomaram todos uma bola por baixo das pernas. Pode ser também uma combinação dos dois fatores, a depender do jornal...

Lembo: Lula 3 vem aí

A nota abaixo está no blog do competente James Akel. Lembo de bobo não tem nada e tem se revelado um ótimo analista político. Porém, não dá para esquecer a condição do ex-governador, que integra a Executiva Nacional do DEM. Ou seja, Cláudio Lembo é "parte" no jogo político em curso e pode estar apenas querendo jogar pó de mico no salão...

CLAUDIO LEMBO
O ex-governador de São Paulo, Claudio Lembo, declara pra quem desejar saber, que ele tem certeza que virá o terceiro mandato de Lula. Lembo também diz, que muitos o acham um louco, mas, conforme diz Lembo, Deus fala pela boca dos loucos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Projeto de Gabeira que legalizava a
prostituição é rejeitado em Comissão

Vai tudo continuar como dantes no quartel de Abrantes. Fernando Gabeira, o deputado verde que hoje se dedica à crítica udenista ao governo Lula, como bem ressalvou o assíduo leitor deste blog e jornalista Jasson Andrade, não conseguiu apoio suficente para aprovar seu projeto de lei que tornava legal a prostituição no Brasil. Gabeira deve saber que a prostituição em si já não é crime, mas queria, digamos assim, assistir melhor as trabalhadoras do sexo. Se o projeto tivesse sido aprovado, é possível que Gabeira imediatamente apresentasse uma proposta de criação da Putabrás, que ficaria responsável pela fiscalização dos locais de trabalho, condições de higiene e outras garantias mais ao distinto público, com direito a selo de certificação ISO 9000 e tudo mais.

Leia abaixo a notícia da Agência Estado sobre a derrubada do projeto na CCJ da Câmara. Ao final o próprio Gabeira conta que continuará lutando pelos direitos das trabalhadoras do sexo. Não deixa de ser uma boa estratégia eleitoral...


CCJ da Câmara rejeita projeto que legaliza prostituição

Relatório do deputado ACM Neto considera o projeto constitucional, mas rejeita o mérito da proposta

LUCIANA NUNES LEAL

BRASÍLIA - A Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) da Câmara rejeitou o projeto de lei do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) que legaliza a prostituição. Por tratar de assunto penal, o projeto, mesmo rejeitado pela CCJ, terá que ser apreciado no plenário da Câmara. A lei atual não considera crime a prática da prostituição, mas criminaliza a exploração da atividade por terceiros e a manutenção de casas de prostituição.

Presente à sessão da CCJ, a presidente da Rede Brasileira de Prostitutas, Gabriela Leite, lamentou a decisão. "Sinto muito que os deputados tenham essa cabeça horrível", afirmou.

O deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), defensor da legalização, disse que o "equívoco" de Gabeira foi incluir no projeto a retirada do artigo do Código Penal que considera crime o "favorecimento da prostituição", o que provocou a reação contrária de muitos parlamentares, inclusive deputadas de atuação em defesa das mulheres.

Com o voto contrário de apenas seis deputados, foi aprovado o parecer do relator Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA) que considera o projeto constitucional, mas rejeita o mérito da proposta.

Depois da sessão, Gabeira disse que continuará na defesa da legalização da prostituição por outros meios, como apresentação de substitutivos e emendas.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

PSDB sai da negociação para negociar mais

Só quem não conhece o jogo parlamentar acredita que o PSDB "fechou questão" contra a CPMF. O que os tucanos fizeram hoje faz parte do xadrez político: desistiram da negociação para subir o preço do que desejam pelo apoio ao que o governo quer ver aprovado. Em outras palavras, os tucanos encerraram as negociações justamente para reabri-las logo mais, em melhores condições. Este blog duvida que o PSDB vote fechado contra a CMPF. Duvida também que o apoio seja unânime. Mas a maior parte da bancada vai votar de acordo com a vontade dos governadores Aécio Neves e José Serra e junto com o governo, pela aprovação do tributo. Quem viver, verá.

Gabeira quer prostituição legal no Brasil

A matéria reproduzida abaixo, originalmente publicada pela Agência Estado, revela duas coisas:
Que o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) tem uma estranha lista de prioridades em seu mandato – ou legalizar a prostituição é algo fundamental para o atual momento do país? Aliás, a prostituição já não é crime de acordo com a Constituição de 88, crime é facilitá-la.
Em segundo lugar, a matéria mostra a cabeça colonizada de certos brasileiros, Gabeira incluído. Ele se baseou em um projeto aprovado na Alemanha em 2001. Ora, em que a situação alemã se assemelha à brasileira? Gabeira faria melhor se concentrasse seus esforços em defender o meio-ambiente, assunto que, dizem, ele domina.


CCJ pode votar hoje projeto que legaliza prostituição

PAULO R. ZULINO

SÃO PAULO - A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) se reúne hoje e pode votar o Projeto de Lei 98/03, do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que legaliza a prostituição. Ao tornar exigível o pagamento pela prestação de serviços de natureza sexual, o projeto reconhece que as pessoas que prestam serviços de natureza sexual fazem jus ao pagamento por tais serviços.

O projeto também suprime do Código Penal os artigos 228 (favorecer a prostituição), 229 (manter casa de prostituição) e 231 (promover, intermediar ou facilitar a entrada, no território nacional, de pessoa que venha exercer a prostituição ou a saída de pessoa para exercê-la no exterior).

Segundo Gabeira, as medidas propostas vão reduzir malefícios decorrentes da prostituição, "uma ocupação hoje relegada à marginalidade", e permitir a adoção de futuras políticas públicas, inclusive de natureza sanitária. O projeto foi inspirado em uma lei aprovada na Alemanha em 2001. O relator, deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), recomenda a rejeição do projeto. Para ele, a previsão legal de um contrato cujo objeto seria o comércio do próprio corpo é incompatível com o ordenamento jurídico brasileiro.

Magalhães Neto também afirma ser conta a revogação dos artigos do Código Penal. Ele lembra que o fim do tráfico internacional de pessoas, por exemplo, desrespeitaria atos internacionais dos quais o Brasil é signatário, como a convenção das Nações Unidas contra o crime organizado transnacional relativo à prevenção, repressão e punição do tráfico de pessoas, em especial mulheres e crianças.

sábado, 3 de novembro de 2007

Hackers tiram Observatório da Imprensa do ar

A matéria abaixo será manchete do Observatório da Imprensa tão logo os técnicos do iG consigam recolocar o site no ar, após uma ação criminosa de hackers ocorrida na madrugada de hoje.


ATENTADO AO OI
Observatório sofre ataque de hackers e sai do ar

Alberto Dines e Luiz Antonio Magalhães


O site deste Observatório da Imprensa sofreu um atentado na madrugada de sábado (3/11). A home page do OI, a página de índice e praticamente todas as páginas internas foram hackeadas. Na home, os nomes das rubricas foram alterados e no lugar delas aparecia a “assinatura” HACKED BY HIVA DIGITAL SECURITY TEAM. O mesmo ocorreu no índice. Com esta mudança, não há como realizar a publicação de novas matérias, uma vez que o sistema não entenderia para qual rubrica seria destinada a nova entrada. Nas páginas internas, os títulos das matérias foram todos alterados, substituídos pelo algarismo 1.

Para mudar as páginas do Observatório, os hackers driblaram o firewall do provedor iG, em cujos servidores está hospedado o site. Segundo informações preliminares do suporte técnico do iG, foi a primeira vez que um ataque deste tipo ocorre com um site ali hospedado.

Uma pesquisa no Google traz 16.200 entradas para “Hiva Digital Security Team”, várias com páginas hackeadas pelo grupo mundo afora. Em uma delas, a assinatura vem com uma mensagem em inglês: “We Are Iranian Hackers Don't Forget ok ?”.

Ainda não é possível dizer se o ataque ao Observatório foi de fato realizado pelos supostos hackers internacionais ou se alguém no Brasil está usando a assinatura do grupo.

Em função do ataque, o OI ficou fora do ar durante toda a tarde e parte da noite de sábado, enquanto os técnico do iG recuperavam o conteúdo original e corrigiam a ação dos hackers.

Leia a seguir o comentário do Editor Responsável do OI, Alberto Dines, sobre o episódio:

O atentado dos hackers ao Observatório da Imprensa foi uma advertência. Equivale a um coquetel Molotov, ou uma “bomba de caseira” que se joga em uma redação. Os delinqüentes avisavam que têm condições de acessar o site clandestinamente e causar estragos maiores.

São do ramo, profissionais, conhecem bem nossa navegação. Escondidos sob a assinatura de um grupo supostamente iraniano, dificilmente serão identificados. Aproveitaram o feriadão, mas foram prontamente descobertos.

No passado, empastelavam-se os jornais que incomodavam. Ou tentava-se liquidar os jornalistas inconvenientes. Agora o terrorismo é “limpo”, sem sangue, igualmente perverso.

Este Observatório da Imprensa avisa que não se intimidará. Já enfrentamos linchamentos, boicotes, listas negras. Saberemos lidar com as ameaças da canalha virtual.

Ombudsman da Folha esclarece: em
casa de ferreiro, o espeto é mesmo de pau

Está divertido o comentário abaixo, do Ombudsman da Folha de S. Paulo, Mário Magalhães. Este blog, aliás, recomenda vivamente a leitura diária da Crítica Interna do jornalista, cada vez mais afiado. Os elogios são sinceros e Mário Magalhães não é parente do autor destas Entrelinhas, diga-se logo antes que alguém pergunte. De longe, é o mais crítico e ferino Ombudsman que o jornal já teve. Fica a torcida, inclusive, para que ele seja reconduzido à função ao final de seu mandato, a exemplo de outros ombusdmans, porque está fazendo um trabalho brilhante. Mas fica também a suspeita de que a direção da Folha está torcendo para que o tempo passe depressa e o mandato de Magalhães acabe logo...
Abaixo, o texto em questão:


O convite dos outros e o nosso

A Folha publicou com destaque, ocupando quase toda a pág. A6, a reportagem "Integrantes de CPI vão de graça a show pago pela TAM".

O jornal está de parabéns. Havendo ou não conflito de interesses, é um direito dos cidadãos conhecer o relacionamento entre alguns parlamentares e a companhia que eles afirmavam investigar.

O jornal contou que na exibição do Cirque du Soleil estiveram presentes, a convite, "autoridades, congressistas e jornalistas". Mas não deu o nome de um só jornalista. A Folha deveria ter explicado a diferença de tratamento.

O tom da edição é o de que haveria conflito de interesses na presença dos senadores.

Porém o novo verbete "Ética" do "Manual da Redação" afirma que "é proibido ao jornalista pedir ingresso para eventos culturais, como shows e peças de teatro. Sempre que possível, a Folha pagará pelo ingresso dos profissionais que forem cobrir tais eventos".

Ou seja, o jornal veta o pedido de ingressos para um espetáculo como o do Cirque du Soleil, mas aceita que seus profissionais ganhem o convite. Não há restrição ao recebimento de convite sem estar a trabalho.

Como, então, cobrar os parlamentares?

Em nome da transparência e da prestação de contas aos leitores, a Folha deveria desenvolver --ou aprofundar-- esse debate.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Iglecias: um é pouco, dois é bom, três é demais

Em mais uma colaboração para o blog, o professor Wagner Iglecias comenta as articulações pelo terceiro mandato do presidente Lula. A seguir, a íntegra do artigo:


Diz o ditado popular que um é pouco, dois é bom e três é demais. Embora o sistema político brasileiro hoje gravite (a favor ou contra) em torno de Lula, e tenha em Lula o seu referencial definidor, é dificil supor que o presidente-operário venha a ser candidato a sua própria sucessão. Afinal, Lula sabe que não seria baixo o custo de descolar, via alteração constitucional, a possibilidade de se por fim ao limite de reeleições para os comandantes do Poder Executivo.

Apesar disto, os setores anti-lulistas se apavoram com a possibilidade de um terceiro mandato para o presidente. Sabem muito bem que ele provavelmente seria um fortíssimo candidato em 2010. Tome-se como exemplo as pesquisas de opinião, que têm demonstrado, há tempos, uma popularidade quase inabalável de Lula, especialmente junto ao povão, o grosso do eleitorado. Ou seja, com Lula na parada novamente a oposição poderia ver adiado mais uma vez seu sonho de retomar a presidência da república.


No jogo de cena visando 2010 os oposicionistas não se cansam, além de alertar para o perigo de tentações chavistas aqui e ali, de dizer que o petismo não tem candidato viável para disputar a sucessão presidencial. E que por isso mesmo, inclusive para manter cargos e posições de poder, o PT forçaria a barra pela mudança na Constituição.

Bobagem. A oposição sabe que o governo de Lula é impulsionado, sim, pelo carisma pessoal do presidente, mas que não se assenta exclusivamente nisto. Quem for candidato pela coalizão governista em 2010 certamente terá o que mostrar na campanha eleitoral. Estará defendendo a continuidade de um governo que terá tido erros e acertos, mas também realizações, especialmente para os mais pobres.


Independentemente das eventuais articulações de bastidores, pró e contra a alteração constitucional, e do desfecho da coisa, Lula não deveria pleitear um terceiro mandato de jeito algum. Em primeiro lugar porque a alternância no poder, de partidos e de pessoas, é saudável e fundamental para o regime democrático. E em segundo lugar porque é deplorável lançar mão de posição de poder para mudar as regras do jogo com o jogo em andamento, especialmente se isso for feito em benefício próprio.

Lula sabe que entrará para a História com algumas glórias e com alguns revezes, mas sabe também que ficará melhor na foto sem uma manobra deste tipo. De mais a mais, se fizer um bom segundo mandato e chegar à eleição de seu sucessor com bons índices de popularidade, Lula poderá pleitear um retorno ao Palácio do Planalto em 2014, possibilidade que a lei lhe faculta. Restará, numa hipótese destas, saber se o eleitorado o levaria novamente ao poder, já com quase 70 anos de idade, ou preferiria impulsionar a renovação geracional da política brasileira.


Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Terceiro mandato não é golpe,
escreve Reinaldo Azevedo

Pode parecer surpreendente, mas o colunista de Veja e blogueiro Reinaldo Azevedo acha que a discussão sobre o terceiro mandato do presidente Lula não é um "golpe", como andam dizendo os tucanos e democratas. Claro que Reinaldão é contra o terceiro mandato, mas, conforme o leitor pode ler abaixo, ele acha que mudar a lei por meio de uma Proposta de Emenda Constitucional está na regra do jogo e é politicamente legítimo. Até tu, Reinaldão?


Sobre coerência 2 – O terceiro mandato e o papel das oposições
Olhem aqui: até posso errar. Mas não sou trôpego. Não ando com o pé, a cada hora, de um lado da linha. Não sou bêbado nem equilibrista. Também vejo por aí avaliações como “terceiro mandato é golpe”. É mesmo??? Com a devida vênia, na mídia, a tese do PT como o "Moderno Príncipe", destinado a se tornar o novo imperativo categórico, é de Olavo de Carvalho e minha. Basta procurar no Google (façam isso) as vezes em que falamos sobre o assunto. Ainda que Lula desista de tentar a (re)reeleição, isso não muda o caráter do partido. A construção é bem mais ampla e tem outros requisitos, de que tenho falado aqui amiúde. O projeto do PT, a exemplo do de qualquer agremiação de esquerda que disputa eleições, é tornar os mecanismos democráticos irrelevantes.

Mas temos leis, não é? E temos leis que dizem como devem ser mudadas as leis. Uma delas é a emenda constitucional. Se o PT ou alguém da base aliada quiserem apresentar uma emenda abrindo a possibilidade do terceiro mandato — ou da reeleição sem limites, como já existe —, cadê o golpe? Na Venezuela, note-se, foi diferente. Lá, o ditador criou uma Assembléia exclusiva, e esta se encarregou de liquidar os demais Poderes. Se o PT, de fato, investisse na emenda, estaria botando mais um tijolinho no seu edifício autoritário? É inegável que sim. Mas golpe, lamento, não seria.

Não adianta, por exemplo, a tucanada ficar vociferando contra as pretensões continuístas — por enquanto, aparentemente, apenas de uma parte do PT. O que o maior partido de oposição está fazendo para combater o petismo? Negociando a CPMF com aquela dureza de que o adesismo crítico é capaz? Vocês acham que não passa pela cabeça dos petistas algo como: “Se o povo quer, se o Congresso quer, quem não quer?” Não adianta transformar Lula no condestável da República e depois implorar que ele não tente o terceiro mandato.

Sou contra a reeleição. Sou favorável a um mandato único de cinco anos. Todo mundo aqui já sabe. Opus-me à emenda da reeleição de FHC, embora considere besteira aquela história da compra de votos. Basta ver o resultado da votação para saber que era uma desnecessidade. Aquilo foi tramóia de meliantes magnificada por certo jornalismo. E foi uma mudança de regra no meio do caminho. Como seria o terceiro mandato. Por que dois e não três? “Ah, porque há exemplos no mundo...” Desculpem: a ocorrência de um fato não muda a sua essência.

Tanto a emenda de (re)reeleição seria formalmente democrática, que, caso seja aprovada, o que podem fazer os que a ela se opuserem? Vão dar um golpe de estado?

O busílis é outro: EU QUERO SABER É O QUE A OPOSIÇÃO ESTÁ FAZENDO PARA TIRAR ESSA IMPRESSÃO DE QUE O PT SÓ NÃO PARTE PARA O TERCEIRO MANDATO DE LULA SE NÃO QUISER.

Essa gente renuncia a seu papel de fazer oposição — atribuição que recebeu do eleitor — E DEPOIS CONTA COM O PT PARA BOTAR LIMITES NO PRÓPRIO PT?

Por enquanto, Lula já está reeleito. Ainda que não concorra formalmente à (re)reeleição.

Pentacampeão, primeiro e único!

Demorou, porque o blogueiro estava se recuperando da festa.
Mas a imagem diz tudo. E como sãopaulino é chique, a faixa chegou com 4 rodadas de antecedência. É mesmo para quem pode e não para quem quer...