quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Povão terá saudade de 2007

Cada novo número divulgado sobre o comportamento da economia em 2007 mostra que vai ser difícil um novo período de crescimento tão pujante aqui no Brasil. No caso da venda de computadores, sejam eles de mesa ou portáteis, o que se verifica é o sucesso absoluto de um programa do governo, o Computador para Todos, conforme aponta a matéria abaixo, da Folha Online.

Ao desonerar o setor, o governo conseguiu forçar uma tremenda queda dos preços e ainda fez diminuir muito o chamado "mercado cinza", de máquinas montadas a partir de peças contrabandeadas. O programa, portanto, é um excelente exemplo de como a diminuição de impostos em certos setores da economia pode até elevar a arrecadação tributária deste mesmo setor. Do lado do consumidor, a queda nos preços e a possibilidade de pagar pelas máquinas em até 60 parcelas provocou uma verdadeira corrida às lojas de informática. Tudo somado, o presidente Lula tem no Computador para Todos um dos maiores trunfos de sua gestão. Afinal, foi sob o seu governo que os pobres puderam começar a pensar em comprar computadores. E, comprando computadores, os pobres ganham uma ferramenta importante para sair da condição em que se encontram. Definitivamente, não é pouca coisa.

Venda de notebooks cresceu 183% no Brasil em 2007, segundo Abinee

Cerca de 1,9 mi de notebooks foram vendidos em 2007, diz Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica.


O mercado brasileiro de computadores comercializou, em 2007, cerca de 10 milhões de unidades, o que representa um crescimento de 21,4% em relação a 2006. O maior crescimento foi o dos laptops, reforçando a busca do consumidor por maior mobilidade.

De acordo com dados divulgados pela Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), as vendas de desktops atingiram cerca de 8 milhões de unidades e as de notebooks, 1,9 milhões. No entanto, os computadores de mesa tiveram crescimento de vendas de 7%, enquanto as vendas de notebooks subiram 183%.

Ombudsman puxa a orelha da Folha: não vai
sair nada sobre a queda do preço da carne?

Na nota Lucky Lula..., este blog alertou para, digamos assim, o lado positivo do embargo da carne brasileira pela União Européia, qual seja o da queda de preços no mercado interno. Pois não é que o ombudsman da Folha de S. Paulo resolveu pegar no pé do jornal justamente porque não viu nada ali sobre este aspecto da notícia? Confira abaixo o comentário de Mário Magalhães, que também pode ser acessado na Crítica Interna desta quinta-feira.

Os 'lados' da notícia

Ao recuperar a informação de ontem do Valor sobre a interrupção de compra de carne bovina brasileira pela União Européia, a Folha abordou vários aspectos.

Esqueceu de um, por mais que não se possa antecipar com exatidão o que vai acontecer: que impacto a medida pode ter para os consumidores brasileiros?

Sei bem do prejuízo para os produtores, os trabalhadores, as contas nacionais etc.

Acontece que um fato tem vários "lados". Ontem entrei no carro, e o taxista disse: "Que beleza, hein!".

Ele contou a novidade e explicou: como haverá menor exportação de carne, os preços devem baixar nos supermercados...

Conversas e versões

Já há alguns relatos na imprensa do conteúdo das conversas privadas que tiveram os governadores Aécio Neves e José Serra, ambos do PSDB, anteontem, em Minas, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Serra, ontem em São Paulo. Convém desconfiar: o que chega aos jornalistas é a versão de uma ou de ambas as partes. Não é jamais o que realmente se falou. Aliás, na maioria das vezes, ou as duas partes combinaram o que dirão aos jornalistas ou deixam vazar apenas o que é de seu interesse particular.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Lucky Lula: embargo europeu pode
derrubar preço da carne no Brasil

Saiu em algum site especializado em economia a informação de que o embargo da União Européia à carne brasileira vai derrubar o preço do produto no mercado interno. Claro que o embargo não é bom para o Brasil, uma vez que prejudica a balança comercial. Do ponto de vista político, porém, se o preço da carne realmente cair nos supermercados e o povão puder comprar mais "mistura", quem lucra é o sortudo Luiz Inácio, o Lucky Lula do título acima. E 2008 ainda passará para história como o ano do churrasco...

Petista Bernanke reduz juro nos EUA

O governador José Serra (PSDB) está inconsolvável: o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, acaba de anunciar que a taxa básica de juros será reduzida em meio ponto percentual, caindo para 3% ao ano. Serra já desconfiava que o barbudinho Ben Bernanke, presidente do Fed, era um petista infiltrado no coração do império. Pois agora o governador de São Paulo tem absoluta certeza que Bernanke está em plena campanha pelo terceiro mandato do presidente Lula. Afinal, quando a coisa estava ficando melhorzinha para o lado do tucanato, com uma crise das boas para detonar o governo do companheiro-operário, vem o Fed e resolve trabalhar de verdade para evitar uma recessão nos EUA. Era só o que faltava, lamentam tucanos e democratas...

Desemprego em SP é o menor desde 1996

A notícia abaixo faz parte da série "É a economia, estúpido", que explica a altíssima popularidade do presidente Lula. Antes que alguém pergunte, claro que a taxa ainda é altíssima. A diferença é que no tempo de Fernando Henrique, o desemprego crescia – todo mundo conhecia alguém que tinha recebido o bilhete azul –, ao passo que desde a posse de Lula o desemprego vem caindo – hoje, todo mundo conhece alguém que conseguiu arrumar um emprego. Essas coisas fazem uma diferença brutal na confiança e auto-estima das pessoas.

Desemprego em São Paulo tem a menor taxa desde 1996

Petterson Rodrigues

São Paulo - A taxa média de desemprego na região metropolitana de São Paulo em 2007 foi a menor desde 1996. No ano passado, a taxa ficou em 14,8%, enquanto a de 1996 foi de 15,1%. No período, a taxa média de crescimento do nível de ocupação foi de 2,3%, o que corresponde à criação de 198 mil postos de trabalho, e 84 mil pessoas saíram do desemprego. Os dados são da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), divulgada hoje (30) pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

EUA: John Edwards pede para sair,
Rudy Giuliani também deve pular fora

O cenário eleitoral nos Estados Unidos começa a clarear um pouco, mas ainda segue bastante indefinido. Hoje, o democrata John Edwards anunciou a sua saída da disputa pela candidatura à Presidência dos EUA, mas não deve, pelo menos por enquanto, apoiar nenhum dos postulantes que permanecem na disputa, segundo informações das agências internacionais.

Do lado Republicano, também é esperada para hoje a renúncia de Rudolph Giuliani, o ex-prefeito de Nova York que era o favoritíssimo antes das primárias começarem e acabou se mostrando um grande fracasso eleitoral. Rudy Giuliani, informam as agências, deve anunciar apoio a John McCain.

Faltando poucos dias para a tal "super-terça", que cai bem no meio do Carnaval brasileiro, quando mais de 20 estados norte-americancos realizam as primárias, a situação parece ter se afunilado: entre os democratas, a previsão é uma disputa bem acirrada até a Convenção, entre Barack Obama e Hillary Clinton. Já entre os republicanos, John McCain conseguiu uma vantagem um pouco mais expressiva sobre os demais concorrentes, mas a verdade é que a decisão nos 22 estados ainda pode recolocar o ex-governador de Massachusetts Mitt Romney ou o ex-governador do Arkansas Mike Huckabee na briga pela Casa Branca.

Este blog não consulta videntes, como bem sabem os leitores assíduos, mas, olhando de longe, arriscaria dizer que Hillary e McCain serão os candidatos oficiais em novembro, o que resultará uma eleição também bastante acirrada.

Uma boa matéria que ninguém vai ler

Dica do antenado jornalistaIvson Sá no blog Coleguinhas, univ-vos: a matéria abaixo, publicada ontem na Agência Brasil, é na verdade uma excelente pauta para ser desenvolvida pelos jornalões e revistonas, mas certamente será deixada de lado porque não interessa aos jornalões e revistonas ficar chateando os tais 20 mil grupos familiares em questão. Uma conta rápida mostra o seguinte: R$ 145 bilhões divido por 20 mil dá a bagatela de R$ 7 milhões ao ano para cada um desses clãs. Supondo que cada clã tenha realmente os tais 50 membros, em média, cada cabeça estaria recebendo, do governo, R$ 140 mil limpinhos, a cada ano, sem cair da cadeira, sem gerar um mísero emprego.

Maior parte dos juros da dívida pública vai para 20 mil grupos familiares, revela Ipea

Cilene Figueredo

Brasília - O mercado financeiro está contribuindo para o enriquecimento de um seleto grupo de brasileiros. Segundo o estudo Os Ricos no Brasil, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), cerca de 20 mil clãs familiares (grupos compostos por 50 membros de uma mesma família) apropriam-se de 70% dos juros que o governo paga aos detentores de títulos da dívida pública.

Apenas de janeiro a novembro do ano passado, o pagamento dos juros da dívida pública pelo setor público (composto por governo federal, estados, municípios e empresas estatais) consumiu R$ 147,3 bilhões. Em entrevista hoje (29) ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional, o presidente do Ipea, Márcio Pochmann, afirmou que os ganhos no mercado financeiro provocam a transferência de renda para essa parcela da população.

De acordo com o estudo, isso ocorre porque o pagamento dos juros dos títulos da dívida, de forma geral, está atrelado à taxa básica de juros da economia, que está acima da inflação. Dessa forma, conforme o Ipea, há um ganho real dos clãs familiares e o aumento da arrecadação de tributos pelo governo, em última instância, vai para os credores da dívida.

Na opinião de Pochmann, seria interessante retirar esse lucro do mercado financeiro e inseri-lo no investimento produtivo. Segundo ele, isso pode ser feito por meio da redução da taxa de juros, construção de rodovias, construção de hospitais. Para ele, essas famílias teriam retorno financeiro semelhante se investisse o dinheiro no setor produtivo e em obras de infra-estrutura.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

PMDB pode ter candidato em São Paulo

Em uma jogada política arrojada, o PMDB de São Paulo decidiu formar uma comissão para escolher o nome do candidato do partido à prefeitura da capital paulista em outubro. O deputado federal Michel Temer e a ex-secretária Alda Marco Antonio são os dois principais nomes analisados pela comissão. A decisão de lançar uma candidatura à sucessão de Gilberto Kassab (DEM) foi tomada na manhã de hoje, em reunião do Diretório Estadual, presidido pelo ex-governador Orestes Quércia.

Serristas acusam Alckmin de incompetência

As notas reproduzidas abaixo foram publicadas originalmente no blog do jornalista Lauro Jardim, da revista Veja, e revelam o clima existente no tucanato paulista. Nada que o leitor destas Entrelinhas já não saiba – o PSDB de São Paulo vive uma verdadeira guerra interna. No fundo, as notinhas também mostram que o tal "choque de gestão" tucano não passa de cortina de fumaça. Como diria o gaiato, o buraco é mais embaixo...

Um Metrô complicado 1 | 11:40 Apesar de um aparente armistício, mais um ponto de atrito entre serristas e alckimistas deve surgir em breve na praça. O que vai elevar a temperatura da discussão entre essas duas turmas é o Metrô de São Paulo. Na semana passada, o secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo, José Luiz Portella, enviou reservadamente a José Serra uma detalhada análise do Metrô paulistano. É pau puro na gestão Alckimin.
Um Metrô complicado 2 | 11:39
O longo texto de Portella fala diversas vezes em "riscos" ou "crescimento dos riscos". Avalia que a frota é velha e que há "falta de gente na operação". Aponta a necessidade de "revisão na manutenção" e acusa a linha 3 de ter sido "construída erradamente". Sobre a linha 3, aliás, Portella diz que "irresponsavelmente" usou-se um "sistema mais barato e perigoso". Ele refere-se ao sistema de brita. Segundo Portella, "o mundo civilizado foge da brita". E acusa "falta de manutenção por anos" - anos Alckimin, evidentemente. O secretário afirma também em sua análise para o governador que o Metrô está "rodando com 30% de carga a mais do que a média esperada". Assim, "os riscos aumentam exponencialmente".
Um Metrô complicado 3 | 11:38 Portella elenca uma série de 21 medidas (11 de manutenção e 10 de operação) para amenizar esse aparente caos: vão desde a contratação de pessoal, compra de novos equipamentos de tecnologia mais moderna e a troca da tão criticada brita (um investimento de 60 milhões de reais). As medidas, anunciadas oficialmente na semana passada, servirão para, conforme as palavras de Portella, "suportarmos a travessia" - ele acha que solução só viria no final do ano que vem, com o plano de expansão do Metrô.

FHC tem razão: Deus é lulista mesmo

Duas notas abaixo, este blog comentou o artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que saiu domingo no jornal O Estado de S. Paulo. No final, Cardoso expresou sua preocupação com a possibilidade de apagão energético em função da falta de chuvas e ironizou: "eu sei que Deus é lulista, mas mesmo assim...". A julgar pelo que chove em São Paulo desde ontem, sem parar um só minuto, Deus não só é lulista como está em campanha pelo terceiro mandato do companheiro...

Davos por Dines: impecável

Vale a pena ler o final do texto desta semana do mestre Alberto Dines no Observatório da Imprensa, reporoduzido abaixo. Aliás, vale a pena ler o texto todo, no qual Dines também trata da megafraude no banco Société Géneralé, da França. O trecho final, sobre a reunião dos ricos em Davos, porém, está especialmente saboroso.

A mídia hoje é cada vez mais um negócio e cada vez menos serviço público. A bola de neve do noticiário, geralmente incontrolável, em situações de perigo institucional estanca suavemente, comandada pelo instinto de sobrevivência.

Esta megafraude vai levar tempo para ser explicada e somente será esclarecida quando cessar a intranqüilidade dos mercados financeiros. Até lá, a mídia deverá contentar-se com o dispara-e-despenca das cotações bolsistas. Ou as declarações obtidas em convescotes como o de Davos.

O Fórum Econômico Mundial encerrado no último fim de semana em Davos, Suíça, teve a mesma palpitação das discussões travadas entre os personagens tuberculosos internados num sanatório da famosa estação de inverno e retratados na Montanha Mágica, de Thomas Mann (1875-1955). O romance ganhou o Nobel de Literatura em 1929 porque espelhava as angústias da elite européia antes da Primeira Guerra Mundial. Datada, aquela retórica consegue ser mais atual do que o rescaldo do Senado dos Ricos que lá se reúne há 37 anos, em janeiro.

A edição de 2007 do Fórum Econômico não conseguiu pressentir que a bonança dos últimos anos chegava ao fim; e a de 2008, surpreendida pelos desdobramentos do tufão que derrubou o mercado hipotecário americano em meados do ano passado, não conseguiu produzir qualquer indicação mais consistente sobre o que nos aguarda.

Davos é um evento em processo de extinção, a mídia vai lá porque é chique. Chique e caro. Serve para atualizar a agenda de endereços, serve para que empresários emergentes imaginem-se donos do mundo, serve para produzir declarações nas páginas de negócios e, principalmente, para que a mídia impressa sinta-se integrada ao processo de transformação. Davos lembra os desfiles de moda onde jamais aparecem as roupas que as mulheres efetivamente vestirão na próxima estação.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Ainda sobre Jango

O ombudsman da Folha de S. Paulo, Mário Magalhães, faz uma crítica demolidora do material produzido pelo jornal sobre a denúncia de Mario Neira Barreto de que João Goulart foi assassinado a mando da ditadura militar brasileira. Vale a pena ler o material reproduzido abaixo, que faz parte da Crítica Interna de segunda-feira (28/1). No começo, o ombudsman até alivia um pouco para o lado da Folha, mas o que vem em seguida corrobora o que foi publicado neste blog às 10h47 de ontem: o jornal comeu bola e a história tem cheiro de cascata. Além do mais, conforme revela Paulo Henrique Amorim em seu blog, trata-se de pão amanhecido, pois o denunciante é manjado e já adiantou o assunto com outros jornalistas – um deles, por sinal, colunista da própria Folha. Como se vê, não se trata propriamente de um furo jornalístico...

A morte de Jango

MÁRIO MAGALHÃES

A Folha fez bem em ouvir o autoproclamado ex-agente da ditadura militar uruguaia Mario Neira Barreto (o jornal não informou se há provas ou indícios de que ele tenha de fato exercido a função).

Os crimes da ditadura militar do Brasil, das do Cone Sul e de agências como a CIA estão longe de serem esclarecidos. É obrigação jornalística dar conhecimento de testemunhos como o publicado ontem.

O alto da primeira página e os três altos de página internos, porém, constituíram exagero.

Primeiro, a versão de Neira já é conhecida pelo menos desde 2002, quando ele deu longas entrevistas contando a mesma coisa (basta buscar na internet). Nas últimas semanas, houve divulgação da entrevista que ele deu a um filho de Jango (li pela primeira vez no "Globo", há alguns dias). Seu relato aparece em livro.

Segundo, pela inconsistência da narrativa.

A chamada na capa adianta um padrão: "Para biógrafos, não há provas" (sobre a versão do uruguaio). O jornal não deveria terceirizar certas afirmações. Tudo bem em citar os biógrafos, mas a Folha não deveria se dispensar de ela mesma sustentar: não há prova alguma do que Neira afirma.

O autoproclamado ex-agente diz que seu codinome principiava por "tenente". Se ele entrou para os órgãos de segurança aos 18, 19 anos, como haveria de ser chamado de "tenente", mesmo que no nome falso?

Neira diz que monitorou Jango até sua morte. Explica que a escuta ocorria na fazenda de Maldonado. Ora, Maldonado fica no Uruguai. Jango morreu na Argentina, em uma fazenda bem distante.

Em dezembro de 1976 já havia uma ditadura militar na Argentina, ainda mais sangrenta que as de Uruguai e Brasil. Como os agentes uruguaios se arriscaram em uma operação dentro da Argentina?

Por que a CIA teria confiado a agentes uruguaios a missão de matar Goulart, e não aos argentinos?

Por que Neira não dá o nome de um só colega de operação?

Ele é conhecido por vítimas da ditadura uruguaia? A Folha checou em Montevidéu?

Quem coordenava o grupo que teria assassinado Jango?

O título "Oficiais não têm condição de responder" (pág. A4 do domingo) subscreve a versão oficial. Isso é o que dizem os militares brasileiros. Se é verdade ou não, como a Folha sabe?

No texto "Documento prova vigilância, afirma filho de Goulart" (pág. A9), o jornal se limita a transcrever afirmação. Ora, a Folha já provou, com vasta documentação histórica, que Goulart era vigiado no Uruguai. Que "agentes [o] espionaram no exílio", como diz a reportagem. A Folha deveria zelar pela sua memória, pela memória revelada em suas páginas.

Em 1976, João Goulart tinha atividade política limitada. Quem articulava era seu cunhado Leonel Brizola, que logo seria expulso do Uruguai.

Em 1976, dificilmente o delegado Sergio Paranhos Fleury falaria em nome do ditador Ernesto Geisel sobre qualquer coisa.

É possível que Jango tenha sido assassinado? Possível é. Mas os indícios até hoje conhecidos apontam para morte natural.

Como disse, se apareceu um testemunho (nem tão) novo, cabe ao jornal publicá-lo. Mas é preciso ser mais crítico e cético, da entrevista à edição.

Presidente constitucional, João Goulart foi derrubado por um golpe militar que deu início a uma ditadura. Isso é história.

Não é por isso que sua morte, a do único presidente a morrer no exílio, necessariamente tenha sido obra direta da ditadura brasileira e suas congêneres.

Erros demais 1

O quadro "Trajetória de Jango" (pág. A8 do domingo) afirma que João Goulart participou "da fundação do PTB local" em 1946, com Getúlio Vargas.

Na verdade, a fundação do PTB gaúcho (e do nacional) ocorreu em 1945. A legenda apresentou candidatos em dezembro daquele ano, também no RS.

Erros demais 2

O mesmo quadro afirma que Goulart se elegeu deputado estadual em 1946.

Salvo engano da memória, traiçoeira, não houve eleição em 1946.

Em dezembro de 1945, foram eleitos os constituintes nacionais, que depois assumiriam como senadores e deputados.

Em janeiro de 1947, houve a eleição para deputados estaduais, também com a função de elaborar as Constituições dos Estados --aí Jango deve ter concorrido.

No mesmo pleito foram eleitos mais alguns deputados federais. No então Distrito Federal, os vereadores --Carlos Lacerda foi o campeão de votos.

Erros demais 3

Há uma contradição entre o texto "Goulart foi morto a pedido do Brasil, diz ex-agente uruguaio" (pág. A4 do domingo) e o quadro "A morte de Jango" (na mesma página).

A introdução da entrevista afirma que cápsulas envenenadas seriam misturadas aos remédios de Jango "na fazenda de Maldonado".

Como, se ele estava morando em uma fazenda em Mercedes, como diz o quadro?

Maldonado fica no Uruguai, do ladinho de Punta del Este.

Mercedes, na Argentina.

O erro foi do jornal ou do entrevistado?

Erros demais 4

O texto "Goulart foi morto a pedido..." afirma que Jango "governou o Brasil de 1961 até ser deposto por um golpe militar em 31 de março de 1964".

Jango foi deposto, a rigor, em 1º de abril de 1964. Mas, tudo bem, há controvérsias.

O erro incontestável é que ele só assumiu o governo em 1963, após o plebiscito que deu fim ao regime parlamentarista. Antes, não era chefe de governo.

FHC: engraçadinho e cara de pau

Uma das boas coisas publicadas na imprensa no final de semana foi a série de artigos encomendada pelo jornal O Estado de S. Paulo aos ex-presidentes da República (pela ordem temporal, Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique), tendo como mote a tal "primeira crise" do governo Lula. Aos quatro foi requisitado um depoimento pessoal sobre as crises que viveram em seus governos. Todos os artigos são interessantes, mas o de FHC é uma pérola.

Primeiro, porque ele parece realmente achar que agiu muito bem nas crises que enfrentou, a despeito de ter entregue o país na bancarrota. Não bastasse esta demonstração de auto-suficiência e ausência de espírito crítico, Cardoso demonstra ter falta de compostura (se disser "semancol", os jovens não vão entender...) suficiente para, pasmem, advertir o presidente Lula sobre os riscos de um apagão energético nos próximos anos. De fato, até mesmo quando quer fazer graça, Cardoso se atrapalha. Seu texto termina assim: "agora é preciso, para dizer isso e dormir tranqüilo, pelo menos olhar para os gastos sem controle e dar maior seguimento aos esforços para evitar que, havendo escassez de chuvas (eu sei que Deus é lulista, mas mesmo assim...), a energia nos falte". Bem, que ele reconheça que Deus é petista (seria o Tinhoso tucano?), vá lá, mas recomendar ao atual presidente "dar maior seguimento os esforços" para evitar a crise energética é quase como dizer "faça o que eu digo, não o que eu faço". Se alguém é responsável pela crise de energia que o país (quase) vive, este alguém tem nome e sobrenome: Fernando Henrique Cardoso.

Cheiro de cascata

A Folha de S. Paulo publicou no final de semana uma série de matérias sobre uma denúncia de que o falecido presidente João Goulart foi assassinado. O jornal conseguiu a história entrevistando o ex-agente do serviço de inteligência do governo uruguaio Mario Neira Barreiro, 54 anos, 22 anos à época dos fatos. É Barreiro quem diz que Jango foi envenenado, em um crime que teria sido encomendado pelo então presidente Ernesto Geisel ao delegado Sérgio Paranhos Fleury. Não se trata propriamente de uma novidade – muita gente já especulou não apenas que Jango foi assassinado, mas também Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, os outros dois grandes líderes civis pré-regime militar. Os três morreram em um espaço de um ano, todos em circunstâncias suspeitas – JK em um estranho acidente automobilístico na via Dutra e Lacerda de um estranhíssimo processo infeccioso que se generalizou no corpo do político rapidamente, matando-o em uma semana após o processo ter tido início.

Pensando bem, é mais provável ser verdadeira a tese de triplo assassinato pela ditadura desses importantes líderes civis em um momento-chave do regime militar do que estar correta a história de Barreiro sobre Jango, que tem dois pontos especialmente fracos: primeiro, se a ditadura tivesse decidido apagar o ex-presidente, não seria Geisel quem comunicaria a decisão ao delegado Fleury. Em segundo lugar, conforme bem apontou Reinaldo Azevedo em seu blog, Barreiro diz que espionou Jango nos 4 anos que antecederam a sua morte. Se foi assim, o sujeito era mesmo um prodígio, pois teria começado na "profissão" com 18 ou 19 anos e já com a missão de vigiar um ex-presidente da República.

De fato, não chega a ser uma barriga da Folha porque quem está bancando a denúncia são os familiares de João Goulart e não apenas o ex-agente, que está preso no Rio Grande do Sul sob acusação de tráfico de armas. Bem, se o bravo diário da Barão de Limeira quiser, conseguirá outros furos deste tipo: basta mandar seus repórteres para o Instituto Pinel, está cheio de gente com histórias fantásticas para contar por lá... Talvez o próprio mentor do triplo assassinato dos líderes civis possa ser revelado em breve. Ou alguém assume o crime da Rua Cuba e conta onde estão os ossos de Dana de Teffé, para a alegria de Carlos Heitor Cony.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Ombudsman: Folha protege José Serra

A coluna deste domingo do ombudsman da Folha, Mário Magalhães, merece ser lida na íntegra – e vai reproduzida abaixo para quem não é assinante do jornal ou do UOL. Com alguma sutileza, mas não muita, o ombudsman prova que a "redação", como ele gosta de dizer, protegeu o então ministro da Saúde José Serra (PSDB), hoje governador de São Paulo. Não é a primeira vez que Magalhães revela a proteção da "redação" ao ex-colunista do jornal. Este blog já apelidou o diário da Barão de Limeira de Folha de São Serra. Mário Magalhães, o melhor ombudsman que a Folha já teve, está bem atento ao tema. Este blog aposta que ele não terá seu mandato renovado pela Direção de Redação.

Jornalismo febril


Se crianças começam a assuntar sobre a vacinação contra a febre amarela, é sinal de que o temor da doença -e da injeção- se disseminou.
Não é para menos: no princípio do ano, parcela expressiva do jornalismo sugeriu que o mal ameaça o país. A Folha não ficou de fora. Como se vê ao lado, do dia 8 até a quinta-feira passada o assunto ganhou espaço na primeira página, 14 presenças em 17 dias.
Há mesmo interesse público em saber que houve contaminação em áreas rurais. A morte em decorrência de picada de mosquito na floresta é tão trágica como a de alguém infectado nas cidades.
Acontece que desde 1942 não se conhece no Brasil transmissão de febre amarela em reduto urbano. A informação foi veiculada, mas o tom predominante, mostram os títulos da capa, foi o de escalada.
Sob uma manchete, o jornal relativizou a opinião do ministro da Saúde: "No dia em que o número de notificações de casos suspeitos de febre amarela no país subiu de 15 para 24, (...) José Gomes Temporão foi à TV fazer um pronunciamento (...) para dizer que não há risco de epidemia".
Não cabe ao jornalismo sabujar autoridades, mas não é seu papel alarmar. Quando consultou quem entende, a Folha prestou bons serviços.
Na contramão de leigos que proclamavam a urgência de imunização universal, infectologistas a condenaram.
Até a quinta, contavam-se dez mortos por febre amarela silvestre, desde 30 de dezembro. Todos a teriam contraído na mata de Goiás.
O exagero da Folha em 2008 contrasta com outro, o de 2001, quando os 22 óbitos se concentraram no primeiro trimestre. Em nenhum dia daquele ano a primeira página se referiu à moléstia.
Em março, notinha de rodapé com oito linhas noticiou: "Morre a 15ª vítima da febre amarela". Outra nota anunciara semanas antes as 39 mortes do ano anterior (mais uma se somaria à estatística).
Os registros não trouxeram a opinião do então ministro da Saúde, José Serra. Em 2000, nenhum título da capa falou em morte pela doença.
A Redação discorda: "Os números dos anos recentes justificam a cobertura que a Folha vem dando à febre amarela. Em 2004 e 2005, houve três mortes confirmadas em cada ano; em 2006, foram duas mortes; em 2007, cinco".
"Em 2008, apenas no primeiro mês do ano, já há dez mortes confirmadas (uma delas ocorrida em 30 de dezembro, mas só confirmada agora). Acresce que a Folha tem dado amplo espaço a autoridades e especialistas, com diferentes visões sobre a dimensão do problema. E a única manchete relativa ao tema tratou do pronunciamento do ministro da Saúde em que ele procurava tranqüilizar a população."
Não entendi por que os números de 2000 e 2001 não "justificaram" destaque. Sobre isso, minhas perguntas não mereceram respostas.

Luiz Weis: eles não sabem o que dizem

Excelente o comentário do jornalista Luiz Weis no blog Verbo Solto, reproduzido abaixo.


Fraude na mídia: eles não sabem o que dizem

Numa passagem de seu artigo de hoje sobre Jerome Kerviel, o funcionário do banco Societé Generale que se tornou o maior fraudador da finança global já identificado – fez a terceira casa bancária francesa perder € 4,9 bilhões, ou R$ 12,8 bi -, o correspondente do Estado em Paris, Gilles Lapouge, relata o seguinte:

“Eu questionei alguns especialistas. ‘É muito simples. Ele passava, por exemplo, uma ordem de compra e a ocultava com uma outra ordem, fictícia, de venda. No fim, o banco via apenas o saldo das duas operações, isto é, nada.’ Eu disse a esses especialistas que não havia compreendido nada. ‘Nós tampouco’, eles me responderam afavelmente.”

Leitores de jornais e revistas deviam imprimir esse parágrafo – ou recortá-lo do Estado, à moda antiga – para tê-lo diante dos olhos no momento de começar a ler qualquer notícia.

Primeiro, porque é raro um repórter dizer a uma fonte que não entendeu nada do que ela lhe disse. O costumeiro é o jornalista fingir que entendeu o que ouviu, para não passar por desinformado diante diante dos seus inestimáveis interlocutores, e tocar a declaração adiante, transcrevendo-a na matéria. É o princípio do pau na máquina.

Ele, de duas uma: ou acha que o leitor vai entender, portanto não há problema; ou acha, mais comumente, que o leitor não vai entender nada, como ele mesmo não entendeu - o que tampouco é problema, porque o leitor é que vai se sentir vexado.

Segundo, porque é tão ou mais raro a fonte confessar que tampouco entende o que acabou de dizer.

É assim – com muito maior frequência do que o público imagina – que as coisas correm no rali da (des)informação. Naturalmente, quanto mais técnico o assunto, mais a notícia que chega ao leitor tende a ser o produto do desconhecimento elevado ao quadrado.

As páginas de economia e de ciência são, por isso, as mais infestadas por essa fraude. É só pensar no que sai, para citar o exemplo mais imediato em cada caso, sobre mercados em crise ou aquecimento global. Mas nenhuma área da realidade retratada pela mídia pode ser considerada imune ao golpe da ignorância embutida no que é vendido como esclarecedor.

Já se escreveu que o cidadão que entende bem de determinado assunto, aturdido pela montanha de bobagens que acabou de ler numa matéria a respeito, só pode ficar imaginando quantas barbaridades são publicadas sobre os assuntos que desconhece. É a pura verdade.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Krugman: plano de Bush não funcionará

Todo mundo está de olho na crise americana, é o grande assunto deste início de ano. E sobre este assunto, vale a pena ler o artigo abaixo, publicado neste sábado na Folha de S. Paulo, do economista Paul Krugman, um dos mais lúcidos dos Estados Unidos. O texto é simples e a argumentação convence. De fato, o tal Plano Bush parece mesmo fadado ao fracasso, embora isto não signifique, necessariamente, o aprofundamento da crise, uma vez que o Fed (banco central dos EUA) está fazendo a sua parte e pode, com a diminuição da taxa básica de juros, ser mais eficaz na tentativa de evitar uma recessão de grandes proporções. Ainda assim, fica a sensação de que o governo Bush vai entrar para a história como um dos mais equivocados que já houve nos Estados Unidos e que a encrenca vai ficar mesmo para o próximo presidente resolver – logo, logo, estarão falando em herança maldita também por lá...


O equívoco do plano

PAUL KRUGMAN, DO "NEW YORK TIMES"

OS DEPUTADOS democratas e a Casa Branca chegaram a um acordo sobre um plano de estímulo econômico.
Infelizmente, o plano -que essencialmente consiste em nada mais que cortes de impostos e dá a maior parte desses cortes para pessoas em situação financeira bastante boa- parece defeituoso.
Especificamente, os democratas parecem ter recuado diante da rigidez ideológica do governo Bush, abandonando as exigências de medidas que teriam ajudado os mais necessitados. E seriam essas mesmas medidas que poderiam realmente ter tornado eficaz o plano de estímulo. São palavras duras, por isso deixem-me explicar o que está acontecendo.
Além dos descontos fiscais para empresas -que são uma história triste, para outra coluna -, o plano dá a cada trabalhador que ganhe menos de US$ 75 mil por ano um cheque de US$ 300, mais quantias adicionais para pessoas que ganham o suficiente para pagar valores substanciais de imposto de renda.
Isso garante que o grosso do dinheiro vá para pessoas que estão bem financeiramente -o que é um grande equívoco.
O objetivo de um plano de estímulo seria sustentar os gastos gerais, de modo a evitar ou limitar a profundidade de uma recessão. Se o dinheiro que o governo distribui não for gasto -se for apenas depositado nas contas bancárias das pessoas ou usado para pagar dívidas-, o plano falhará.
E mandar cheques para pessoas em boa situação financeira faz pouco ou nada para aumentar os gastos gerais. As pessoas que têm boa renda, bom crédito e emprego seguro tomam decisões de gastos com base em seu poder aquisitivo em longo prazo, e não no tamanho do último contracheque. Se você der alguns dólares a mais para essas pessoas, elas apenas os colocarão no banco.
Na verdade, isso parece ser o que aconteceu principalmente com as reduções fiscais que os norte-americanos afluentes receberam na última recessão, em 2001.
Por outro lado, o dinheiro distribuído a pessoas que não têm boa situação financeira -que estão com pouco dinheiro e vivem do salário mensal- presta um duplo serviço: alivia as dificuldades e também estimula os gastos de consumo.
É por isso que muitas das propostas de estímulo que ouvíamos até alguns dias atrás se concentravam na expansão de programas que ajudam especificamente as pessoas em dificuldades, especialmente o seguro-desemprego e o auxílio-alimentação. E foram essas as idéias de estímulo que receberam as notas mais altas em uma recente análise do Escritório de Orçamento do Congresso, apartidário.
Também se falou entre os democratas em fornecer ajuda temporária aos governos estaduais e locais, cujas finanças estão sendo massacradas pelo enfraquecimento da economia.
Como a ajuda para os desempregados, isso teria prestado um duplo serviço, evitando as dificuldades econômicas e os cortes de gastos que poderão piorar a tendência de declínio.
Mas o governo Bush aparentemente conseguiu matar todas essas idéias, em favor de um plano que dá dinheiro principalmente para os que têm menor probabilidade de gastá-lo.
Por que o governo desejaria fazer isso? Não tem nada a ver com eficiência econômica: nenhuma teoria econômica ou evidência que eu conheça diz que famílias de alta classe média tenham maior probabilidade de gastar cheques de devolução de imposto do que os pobres e desempregados.
Pelo contrário, o que parece estar acontecendo é que o governo de George W. Bush se recusa a assinar qualquer coisa que não possa ser chamada de "redução fiscal".
Por trás dessa recusa, por sua vez, está o compromisso do governo de cortar as alíquotas de impostos dos ricos enquanto bloqueia a ajuda para famílias em dificuldades -um compromisso que exige manter a mentira de que os gastos do governo são sempre ruins.
E o resultado é um plano que não apenas deixa de ajudar onde há mais necessidade, como provavelmente falhará como medida econômica.
Lembro as palavras do presidente Franklin Delano Roosevelt: "Sempre soubemos que o interesse próprio desconsiderado era moralmente ruim; agora sabemos que é economicamente ruim".
E o pior de tudo é que os democratas, que deveriam estar em uma posição forte -este governo ainda tem alguma credibilidade em política econômica?-, parecem ter cedido quase completamente.
Sim, os democratas obtiveram algumas concessões, aumentando os descontos para pessoas de baixa renda, enquanto reduziam os brindes para os afluentes. Mas basicamente permitiram que os forçassem a fazer as coisas do jeito do governo Bush.
E isso poderá ser uma coisa muito ruim.
Não sabemos com certeza quão profunda será esta próxima recessão, ou mesmo se preencherá a definição técnica de uma recessão. Mas existe uma probabilidade real de que não apenas será um grande declínio, como que a reação habitual à recessão -cortes das taxas de juros pelo Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos)- não bastará para reerguer a economia.
E, se isso acontecer, lamentaremos profundamente o fato de que o governo de George W. Bush insistiu, e os democratas aceitaram, um chamado plano de estímulo que simplesmente não vai funcionar.
PAUL KRUGMAN, economista, é colunista do "New York Times" e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de LUIZ ROBERTO MENDES GONÇALVES

Nova enquete já está no ar

A segunda pesquisa do DataEntrelinhas já está disponível na coluna ao lado. Desta vez, o blog quer saber dos leitores se eles aprovam a postura do jornal The New York Times, que nesta semana anunciou apoio às candidaturas de Hillary Clinton e John McCain nas primárias dos partidos Democrata e Republicano. Aqui no Brasil, como se sabe, poucos são os veículos de comunicação que adotam este tipo de comportamento.

DataEntrelinhas: Alckmin será candidato

A primeira enquete do blog encerrou a votação hoje. Para 64% dos leitores, o ex-governador Geraldo Alckmin, teimoso como uma mula, será, sim, candidato a prefeito de São Paulo pelo PSDB. Para 36% dos votantes, o governador José Serrra, correligionário de Alckmin, vai cortar as asinhas do candidato à presidência derrotado por Lula em 2006 e não permitirá que Geraldinho tente pela segunda vez a prefeitura de São Paulo – para quem não lembra, ele foi candidato em 2000, quando Marta Suplicy (PT) venceu o pleito.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Aerotrem da esquerda

Maldade de um aguerrido militante do PSOL: a candidatura do deputado federal Ivan Valente à prefeitura de São Paulo neste ano tem o mesmo objetivo prático das sucessivas candidaturas do folclórico Levy Fidélix, o pai do "Aerotrem" (quem é de São Paulo conhece a peça), qual seja a de promover a figura do deputado socialista para garantir a reeleição dele na Câmara Federal em 2010. De acordo com o militante, o PSOL não precisava deste tipo de candidatura.

Ainda sobre o NYT

Vale a pena ler o artigo abaixo, do blog Verbo Solto, do jornalista Luiz Weis. A opinião é ainda mais interessante quando se sabe que Weis é ele mesmo editorialista do jornal O Estado de S. Paulo. A seguir, a íntegra do texto:

Jogo jogado no Times


Onze dias antes do que os americanos chamam Super-Terça, ou Terça-Tsunami – as eleições primárias numa vintena de Estados para a escolha dos delegados democratas e republicanos às convenções nacionais que indicarão os respectivos candidatos à Casa Branca, em novembro deste ano – o New York Times põe hoje as cartas na mesa.

Anuncia que endossa as candidaturas da senadora Hillary Clinton (democrata) e do senador John McCain (republicano). Explica por que em dois textos – o primeiro com 1147 palavras, o outro com 737.

Não, aparentemente, que McCain mereça menos espaço que Hillary – as razões do apoio, em cada caso, ocuparam o que tinham de ocupar. Dois textos de igual tamanho, o jornal parece dizer, configurariam uma igualdade abstrata.

O interessante, para o observador de mídia, é que em nenhum momento se lê que “o jornal” é que apoia a mulher do ex-presidente Clinton e o ex-prisioneiro de guerra no Vietnã.

Numa prova de escrúpulo, o endosso vem do editorial board do NYT – o seu comitê editorial ou editoria de editoriais. Presumivelmente, os responsáveis pelas opiniões do jornal têm afinidades políticas e outras tantas com os controladores da empresa que o edita, em especial com o publisher Arthur Ochs Sulzberger Jr, filho do publisher anterior, Arthur Ochs Sulzberger, por sua vez filho do publisher anterior, Arthur Hays Sulzberger – tudo em família desde 1896.

Mas os editorial boards dos grandes jornais dos Estados Unidos e de outros países com a mesma tradição têm uma autonomia de dar inveja ao pessoal das páginas editoriais brasileiras – pago em primeiro lugar para pôr em letra de forma o que o dono do jornal acha da vida e de suas implicações, como se diz. Da rédea curta não escapam nem os seus editores, que operam mais como principais redatores e fechadores do espaço.

Perde com isso o leitor porque o resultado peca pela falta de matiz, mão leve e diversidade. Com as proverbiais raras exceções, na mídia brasileira editorial é monolito.

Por exemplo. Se estivessemos em 2010 e os dois principais partidos brasileiros estivessem escolhendo à americana os seus candidatos à sucessão de Lula, e um dos grandes jornais achasse que era o caso de endossar um de cada lado, não seria um “comitê editorial” que escolheria os seus preferidos e assumiria o apoio. Seria o dono da publicação, sob o eufemismo “nós”, ou o nome do jornal.

Sem falar que o apoio manifesto dos jornais americanos (ou britânicos) a candidatos a cargos eletivos - prática tradicional por ali – pouco tende a influir no noticiário eleitoral: as redações continuariam a ir atrás dos podres dos candidatos e suas campanhas.

O caso clássico é o do Wall Street Journal (pelo menos até ser comprado pelo megaempresário de mídia Rupert Murdoch). Invariavelmente, o seu “comitê editorial” apoia candidatos republicanos ou o mais conservador dos candidatos democratas.

Mas ninguém que se interesse de perto por política nos Estados Unidos pode acompanhar uma disputa presidencial sem ler, com alguma frequência, o Journal – pela isenção, qualidade e desassombro do seu noticiário político.

Aqui, a norma não escrita dos jornalões manda tratar diferentemente os políticos – colher de chá para os “nossos”, pimenta malagueta para os outros. É uma versão simplificada de como as coisas funcionam na imprensa brasileira. Mas não é uma invenção.

Os curiosos em saber por que o NYT vai de Hillary e McCain nas primárias, basta clicar aqui e aqui.

NYT: é assim que se faz

A notícia que vai reproduzida abaixo está na Folha Online e deveria servir de exemplo para os jornais brasileiros. Ao dizer claramente a seus leitores que candidatos apóia, o jornal The New York Times reforça a sua credibilidade. Sim, pois desta forma o público pode avaliar se as reportagens do jornal têm viés favorável aos candidatos por ele apoiados ou não. Em geral, no NYT, as matérias são bem objetivas e dissociadas da opção eleitoral do jornal.

Aqui no Brasil, se dá o oposto. Salvo raríssimas exceções, como a da revista Carta Capital, que anunciou em 2006 apoio à reeleição do presidente Lula, os jornalões preferem apoiar, digamos assim, certas "teses" em seus editoriais e, o que é pior, acabam "editorializando" as reportagens. Um bom exemplo é a revista Veja, que se tornou um panfleto da campanha de Geraldo Alckmin em 2006 sem jamais contar a seus leitores que ele era o preferido da editora Abril, responsável pela publicação de Veja.

Hoje em dia, para citar outro caso, é possível perceber o viés pró-Serra da Folha de São Paulo. Grave não é a Folha encher a bola de seu ex-colunista – é um direito do dono do jornal mandar apoiar o candidato do seu coração –, grave mesmo é a Folha usar o espaço destinado à informação para manifestar este apoio, por meio de matérias nitidamente enviesadas e, pior ainda, ausência de reportagens que poderiam desgastar o governador. Para quem acha que o blog está pegando no pé da Folha, basta ler a Crítica Interna do Ombudsman do jornal, o excelente Mário Magalhães: dia sim, dia não, ele trata da relação Folha-Serra. Chega a ser engraçado, porque o Ombudsman acaba tendo o papel de dizer à redação algo como: "menos, pessoal, menos. Vamos pelo menos disfarçar um pouco o apoio a Serra, está ficando muito descarado...".


"New York Times" anuncia apoio a candidaturas de McCain e Hillary


da Efe, em Washington

O jornal "The New York Times" anunciou nesta quinta-feira seu apoio às candidaturas presidenciais dos Estados Unidos da senadora Hillary Clinton, pelo Partido Democrata, e do também senador John McCain, pelo Partido Republicano.

Em editoriais publicados em sua página oficial, o jornal recomendou aos democratas que no curso das primárias "escolham Hillary Clinton como sua porta-bandeira para as eleições presidenciais de 2008" "Ao escutá-la falar sobre a Presidência, sua política e suas soluções para os grandes problemas dos EUA, nos sentimos enormemente impressionados pela profundidade de seus conhecimentos, pela força de seu intelecto e pela amplitude de sua experiência", assinalou.

Ao indicar seu apoio a McCain, a junta editorial do "New York Times" informou que possui grandes divergências com todos os pré-candidatos republicanos à Presidência, mas entre eles sua melhor opção é o senador pelo Arizona
McCain é "o único republicano que promete pôr fim ao estilo de governo Bush", disse.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Aécio já enfrenta fogo amigo

O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), pode ter muitos defeitos, mas tem uma grande qualidade, herdada do avô: é um político hábil. Está construindo em Minas um consenso difícil de ocorrer: a união de praticamente todas as forças políticas relevantes para eleger o prefeito de Belo Horizonte neste ano e o governador do estado em 2010. Consenso é quase impossível, o DEM e as forças de ultra-esquerda deverão apresentar candidato, mas Aécio quer uma aliança entre PSDB, PT, PMDB, PSB (que é forte em Minas), e alguns outros partidos da base aliada de Lula e dele próprio, no governo mineiro.

Basta passear um pouco pela blogosfera para perceber que a iniciativa de Aécio não agrada muito o governador José Serra, também tucano. Reinaldo Azevedo, um dos blogueiros mais alinhados a Serra, escreveu hoje duas notas detonando o governador mineiro. Segundo ele, um acordo entre PT e PSDB seria simplesmente impensável. Azevedo vê na manobra de Aécio uma tentativa de escantear Serra e tirar o governador paulista da disputa presidencial de 2010. Ora, ainda que fosse este o objetivo, Aécio estaria no seu direito, uma vez que é tão governador quanto Serra e também tem pretensões presidenciais. Cada um faz o seu jogo e no final quem for mais hábil ganha a parada. Simples assim, mas há um setor do PSDB que só aceita Serra. Reinaldo parece ter a mesma mão pesada que o candidato dos seus sonhos e já está estapeando Aécio a torto e direito.

Falta muito para 2010, mas a verdade é que não se vê em lugar nenhum disputa tão agressiva quanto a que acontece dentro do PSDB – e nem falamos aqui na situação de Geraldo Alckmin, outra vítima da mão pesada do governador paulista. De fato, o problema todo no tucanato tem nome e sobrenome: José Serra. Enquanto ele estiver na área, o PT e as esquerdas só precisam vigiar os seus "aloprados" e correr para o abraço, porque do outro lado Serra trata queimar as pontes atrás de si e semear a cizânia. No fundo, aloprado que nem ele não é fácil achar por aí...

Mercados reagem, Serra lamenta

O comportamento PMD (de psicose maníaco-depressiva, não confundir com PMDB) dos mercados financeiros está estressando o pessoal do palácio dos Bandeirantes, que aposta no "quanto pior, melhor" para aumentar as chances do chefão José Serra (PSDB) em 2010. Ontem foi dia de festa, mas já à noitinha a recuperação da bolsa de Nova York irritou o tucanato. Hoje, com Europa e NY em alta, é quase certa a recuperação também da Bovespa. Bem, o Serra podia fazer como o Lula: acordar invocado, ligar para o companheiro Bush e dizer a ele que deste jeito, não há como a oposição ganhar eleição no Brasil. Afinal, antigamente, os EUA ajudavam. Agora, na hora que a coisa estava ficando boa, vem este barbudo do Ben Bernanke e derruba os juros...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Cartão corporativo ainda vai dar
dor de cabeça para o governo federal

A história dos gastos de ministros e altos funcionários do governo com cartões de crédito corporativos pode se transformar em uma grande dor de cabeça para o presidente Lula se ele não tomar providências rápidas e mandar a turma explicar direitinho como é que está gastando o meu, o seu, o nosso suado dinheirinho. Há muita hipocrisia nas matérias que têm saído na imprensa, a começar pelo fato de que nunca ninguém se interessou pelos gastos dos ministros do presidente que criou o cartão corporativo, um tal de Fernando Henrique Cardoso.

Aliás, antes que alguém diga que este blog protege o governo Lula, o fato de FHC ter tido a idéia de jerico de criar os cartões corporativos não isenta o atual presidente, que, afinal, está mantendo o monstrengo. E também antes que alguém diga que o blog aderiu ao discurso udenista da senadora Heloísa Helena e dos Democratas, vale esclarecer que a questão do cartão corporativo é simples: no setor público, tudo que é feito na sombra acaba provocando ruído e, ainda que não haja nenhuma ilegalidade nas compras com o cartão, vai sempre pairar a dúvida. A melhor coisa, do ponto de vista do governo, é acabar logo com esta modalidade e ressarcir os ministros das notas que eles trouxerem de gastos realizados em missões de trabalho. Ou simplesmente abrir os extratos dos cartões na internet, de maneira transparente, para todos verem como o dinheiro público está sendo gasto. Continuar como está só dá munição para as forças de oposição, esteja o governo gastando direito ou não.

Palácio dos Bandeirantes em festa

O autor destas Entrelinhas queimou a língua. Depois de um dia de relativa calmaria, os mercados estão de novo em queda, para alegria do governador José Serra (PSDB), que já faz cálculos para saber se o pior da crise econômica norte-americana vai se dar perto das eleições de 2010. Para ele, como se sabe, quanto pior, melhor; e quanto mais perto das eleições, melhor ainda.

O problema é que ainda é cedo para avaliar se a crise vai mesmo afetar as economias emergentes de maneira mais dura. Se não afetar, os tucanos perderão o único discurso que tinham à mão, qual seja o de que o governo Lula não estava sabendo aproveitar a bonança mundial. A bonança, já está claro, acabou. Se o Brasil continuar crescendo, vai ser difícil para a oposição arrumar argumentos para enfrentar o candidato de Lula nas urnas.

Cardoso e Bornhausen convencem Geraldo?

O ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), informam os jornais, esteve ontem com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e vai se reunir hoje com o ex-pesidente do PFL, atual DEM, Jorge Bornhausen. Os dois estão unidos na tentativa de fazer o teimoso Geraldo desistir da candidatura à prefeitura de São Paulo em nome de uma aliança entre PSDB e DEM com vistas não apenas às eleições deste ano, mas também 2010, quando o governador José Serra seria o candidato à presidência e Alckmin, ao governo de São Paulo, sempre com o apoio dos Democratas. O grande problema deste arranjo reside na falta de confiança de Alkcmin no cumprimento do acordo, especialmente no que diz respeito à palavra de José Serra.

Se Alckmin ficar de fora, é praticamente certo que Marta Suplicy tente retomar a prefeitura para o PT, e de fato as chances da ministra aumentam, pois embora Kassab esteja em alta, ele jamais foi um político popular e vai enfrentar o batismo das urnas em uma eleição majoritária. Muita água ainda vai rolar por baixo da ponte e é bom lembrar que janeiro é um mês "café com leite" para a política – o ano só começa mesmo depois do Carnaval. Noves fora a crise internacional, 2008 já começa prometendo ser um ano agitado.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Paulinho lança na sexta candidatura em SP

O deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força Sindical, lança a sua candidatura à prefeitura de São Paulo nexta sexta-feira, dia 25, mesmo dia em que faz aniversário. O pessoal do PSB e PCdoB não deve ter gostado muito da pressa do sindicalista em colocar seu bloco na rua. A combinação era esperar até junho para ver quem estaria melhor nas pesquisas – se Paulinho, Luiza Erundina ou Aldo Rebelo – e só então fechar a candidatura do chamado "bloquinho". Paulinho, porém, largou na frente.

Ibest: Reinaldão e Nassif se espancam

Está ficando engraçada a disputa do prêmio Ibest da categoria Blog de Política, na qual estas Entrelinhas também estão concorrendo. Os jornalistas Reinaldo Azevedo e Luís Nassif travam uma disputa particular, repleta de provocações de parte a parte. Os dois brigam pela liderança, mas Reinaldão faz menos do prêmio e afirma que já pediu para o iG tirar o blog da lista, no que não foi atendido. Talvez não tenha sido suficientemente claro... Já Nassif está em campanha ativa para ultrapassar o líder. Reinaldo tem a máquina da Veja Online a seu favor, Nassif tem a do iG. Os dois mobilizam suas claques, o que se pode verificar nos comentários dos internautas nos blogs.

O que Reinaldo e Nassif não estão esperando é a sensacional arrancada que este blog vai dar nos últimos dias da votação, em maio. Reinaldão e Nassif ficarão a ver navios, com cara de bocós. Claro, o Entrelinhas conta com o seu voto, já, para iniciar a subida rumo ao pódio. Para votar, clique aqui, faça o seu cadastro e escolha o Entrelinhas. Quem enviar a confirmação do voto pode passar no fim do dia na sede da empresa para recolher o prêmio. Não divulgamos os valores para não causar problemas para a concorrência.

Quércia e Edinho do PT conversam hoje

Será no final da tarde desta terça-feira a conversa entre os presidentes estaduais do PMDB, Orestes Quércia, e do PT, Edinho Silva. Na pauta, a candidatura da ex-prefeita Marta Suplicy na capital e uma possível aliança entre PMDB e PT em todo o Estado de São Paulo: onde o PT vai bem, o PMDB apoiaria o candidato petista; nas cidades em que um peemedebista está na frente, o PT indicaria o vice ou apoiaria a candidatura. A conversa de hoje é a primeira, digamos assim, institucional – Edinho acaba de ser empossado na presidência estadual do PT paulista –, mas Quércia já recebeu, antes do Natal, a visita de Rui Falcão e José Mentor. Os dois foram tentar convencer o ex-governador a apoiar Marta Suplicy.

Ben Bernanke é cabo eleitoral do PT

O presidente do Fed, banco central dos Estados Unidos agiu rápido e cortou hoje a taxa de juros em 0,75 ponto percentual, em uma ação determinada e firme para conter a recessão no coração do império. Dizem as más línguas que a decisão do Fed foi recebida com palavrões no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. José Serra (PSDB) não se cansa de dizer que este Bernanke, barbudinho que é, deve ser cabo eleitoral do PT. É, Lula parece ser mesmo um homem de sorte. Já Serra, coitado...

Uma alternativa para a esquerda?

O que vai abaixo é o artigo semanal do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do blog.

A oposição de esquerda ao governo Lula se organizou, em 2006, em torno da ex-senadora Heloísa Helena (PSOL-AL), uma dissidente do partido do presidente que foi expulsa do PT depois de desobedecer sistematicamente às determinações da direção da agremiação em diversas votações no Congresso, especialmente a da reforma da Previdência.

Heloísa Helena provavelmente será candidata de novo em 2010 e uma parte substancial da esquerda vai marchar ao lado dela, apesar das contradições que marcam a personalidade da ex-senadora, uma liderança capaz de desafiar o seu próprio partido e defender posições próprias, ainda que contrariando decisões tomadas por seus correligionários, como se viu recentemente na questão do aborto. Também é quase certo que uma segunda candidatura presidencial de Helena não apresente o mesmo encanto da primeira, quando a aguerrida alagoana foi a grande novidade da disputa.

Para quem pensa a política estrategicamente, do ponto de vista da esquerda, há um outro nome disponível na praça, em torno do qual seria possível construir uma candidatura presidencial forte e com chances talvez não de vencer o pleito, mas de levar ao público uma mensagem política de inconformidade com os rumos do país, especialmente no que diz respeito à condução da política econômica. Muita gente torce o nariz para ele, mas a verdade é que o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), é hoje o único contraponto ao modo de governar petista e tucano em atividade no Brasil.

Evidentemente, Roberto Requião não é nem de longe um socialista. Dentro das limitações de um governo estadual, no entanto, ele tem conseguido polarizar com as forças conservadoras em questões importantes. Com uma postura corajosa, Requião tem enfrentado alguns tabus neoliberais e de certa forma está se saindo muito bem. Comprou briga com os produtores de transgênicos, com os concessionários de pedágio e até com o poderoso banco Itaú. Não é pouca coisa.

E para quem acha que brigar é fácil, difícil é construir, vale lembrar que Requião tem sido um interlocutor freqüente do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, com quem já fechou algumas parcerias, inclusive em torno da TV do Mercosul. Pergunte a qualquer liderança do MST sobre o tratamento que o governador do Paraná dispensa aos sem-terra e a resposta será outro alento: melhor do que em todos os demais estados do país.

A postura de Requião já começou a incomodar o establishment, tanto é que uma absurda decisão judicial proibiu o governador de apresentar seus pontos de vista na TV Educativa (e na rádio) do Paraná, reeditando no país a censura prévia.

Tudo somado, Requião tem muito mais a apresentar do que a senadora Heloísa Helena e poderia perfeitamente, neste cenário, ser o candidato das esquerdas, dentro de uma concepção de política que privilegiasse não a plataforma socialista (o que, é bom que se diga, Helena também não consegue sustentar), mas avanços no sentido de um governo mais autônomo e arrojado, talvez semelhante ao antigo nacional-desenvolvimentismo, que evidentemente não pode ser transplantado para a realidade atual.

É evidente, porém, que as alas mais conservadoras do PMDB não aceitariam com facilidade uma candidatura de Roberto Requião. Para que ele se viabilize, é preciso apoio fora do PMDB, de maneira que o próprio governador sinta confiança para colocar seu bloco na rua. Uma pré-candidatura de Requião talvez já seja suficiente para quebrar o falso debate que a campanha de 2006 no fundo apresentou, quando Alckmin dizia ser melhor gerente do que Lula e Heloísa afirmava ser a única virgem no bordel. Requião não está neste jogo, tem uma história de 8 anos à frente do governo do Paraná para apresentar aos brasileiros e provar que é, sim, possível governar de um jeito um pouco diferente. Se no final ele conseguir a legenda para disputar o pleito, melhor ainda, o debate se prolonga e fica mais animado.

A direita já tem o seu candidato: o governador José Serra (PSDB), que faz um governo sofrível e sem nenhuma novidade em São Paulo. Pelo que contam fontes tucanas, o Palácio do Bandeirantes se tornou um bunker da candidatura presidencial do governador paulista, que só pensa naquilo – a cadeira de Lula, bem entendido.

O consórcio petista não sabe ainda com quem concorrerá na eleição e provavelmente terá mais de um cavalo na disputa, se Lula não puder mesmo tentar o terceiro mandato – talvez Dilma Rousseff e Ciro Gomes, por exemplo. De toda maneira, serão cavalos que contarão com apoio a máquina governamental e, certamente, rios de dinheiro privado.

Assim, se a esquerda quiser ter alguma relevância na eleição de 2010, deve considerar a partir de agora se não valeria a pena fomentar a candidatura de Roberto Requião à presidência da República. Concorrer apenas com Heloísa Helena pode significar um repeteco do discurso de caráter udenista da eleição de 2006, que se revelou, ao fim e ao cabo, um grande fiasco.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Ex-marqueteiro de Geraldo Alckmin deve
trabalhar para Gilberto Kassab neste ano

O publicitário Luiz Gonzales, da GW, que comandou o marketing da campanha presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB) em 2006 deverá ser contratado pelo DEM para tocar a tentativa de Gilberto Kassab de reeleger-se prefeito de São Paulo. Gonzales também trabalhou para José Serra em 2006 e, segundo circula nos bastidores do PSDB, ainda não recebeu o que foi combinado com a turma de Alckmin. A vingança, como se pode ver, é mesmo um prato que se come frio.

Até agora, economia real segue forte

A notícia abaixo, em versão do UOL, impressiona. A economia brasileira segue bastante aquecida neste início de ano, apesar das turbulências internacionais. A grande questão que todos os analistas econômicos se fazem hoje é simples: qual será o grau de contaminação da crise norte-americana no resto do planeta? E a resposta de todo analista sério, neste momento, é uma só: impossivel avaliar. A volatilidade das bolsas não significa, neste momento, que a crise nos EUA tenha afetado a economia real brasileira. Só será possível perceber o tamanho do buraco norte-americano mais à frente, de forma que as consequências do baque serão sentidas no Brasil também a médio prazo e não tão imediatamente quanto as bolsas refletem.


Vendas de automóveis sobem 60% na 1ª quinzena do ano

CLÁUDIO DE SOUZA
Editor de UOL Carros

As vendas de veículos continuam em alta no Brasil, com crescimento de 60% na primeira quinzena de janeiro na comparação com o mesmo período de 2007. Entre automóveis e comerciais leves (categoria que inclui picapes e SUVs pequenos), foram emplacados 97.094 veículos até o último dia 15 -- 59,93% mais que os 59.845 dos primeiros 15 dias de 2007.

Aliança DEM-PSDB já tem jingle

Maldade ouvida por outro amigo do blog: a música-tema da campanha da chapa Gilberto Kassab-Andrea Matarazzo será Paula e Bebeto, de Milton Nascimento, aquela cujo refrão diz: "Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar". Como afirmam os italianos, "se non è vero, è bene trovato".

Exemplo de imprensa imparcial e apartidária

Um amigo do blog, estava assistindo, sábado à noite, o programa de análise política da GloboNews Fatos e Versões quando ouviu da boca da âncora, a jornalista Cristiana Lôbo, uma pergunta singela aos convidados: "como acham que o presidente Serra vai fazer no caso de...". Cristiana, que também é uma das "meninas do Jô", não chegou a completar a frase e tentou se corrigir, mas derrapou no segundo ato falho: "Ih, gente, olha eu já olhando lá na frente, no futuro..." Este blog concorda: se depender de certa parcela da mídia, não precisa nem chamar os 100 milhoes de eleitores brasileiros para votar em 2010.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Ainda sobre Quércia e Alckmin

O presidente municipal do PMDB em São Paulo, Bebeto Haddad, defende com entusiasmo uma aliança de seu partido com o PSDB, em torno da candidatura de Geraldo Alckmin à prefeitura com base em um raciocínio bastante interessante: se Alckmin vencer, o PMDB governará em coalizão a maior cidade do País, o que dispensa maiores comentários; se Alckmin perder, o que é uma hipótese hoje considerada remota, o ex-governador poderia até mesmo migrar para o PMDB a fim de disputar o governo paulista em 2010, completando assim uma chapa que teria Quércia como candidato ao Senado, uma dobradinha sem dúvida com força eleitoral.

Já os peemedebistas que defendem uma aliança com o PT dizem que o partido de Lula tem mais a oferecer, inclusive no governo federal, ao ex-governador Orestes Quércia. Até agora, porém, a verdade é que Lula não atendeu aos pleitos do PMDB paulista.

No fundo, a questão para Quércia é saber em quem confiar. Com o PT, a experiência não foi lá muito boa.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Reinaldão não quer brincar

A blogosfera é engraçada: terceiro colocado até agora no ranking do prêmio iBest na categoria Blog de Política (na qual estas Entrelinhas também estão concorrendo), o direitoso Reinaldo Azevedo pediu para sair do concurso. Pelo que deu para entender, ele não aceita concorrer com Mino Carta e reclama de não ter se inscrito no iBest. Noves fora tal atitude demonstrar o padrão de democracia de gente como Reinaldo Azevedo, fica aqui uma sugestão para os organizadores do iBest: criar a categoria Blogs Reacionários. Reinaldão teria a alavanca da Veja, mas é bem possível que terminasse atrás de seu amigo Olavo de Carvalho, aquele que diz dia sim e outro também que o Brasil já vive sobre a ditadura do proletariado, processo iniciado sob o perigoso comunista Fernando Henrique Cardoso e continuado pelo stalinista Luiz Inácio.

No fundo, Azevedo lembra aqueles meninos mimados que deixam o jogo quando o time está perdendo. Da nossa parte, continuamos humildemente pedindo os votos dos leitores e agradecendo a audiência, pequena, mas qualificada. Não temos a máquina da Veja para nos trazer internautas a rodo, mas temos bastante vontade de contribuir para o bom debate sobre a política brasileira e os rumos do país. Já o Reinaldão, como diria a minha filha de 8 anos, está se achando a última bolacha do pacote... É, ele só aceita conversar com sua própria turma. Uma pena, no fundo.

PS de 19/01, às 18h17: Reinaldão já está em primeiro. A tropa de Veja está animadinha e o blog do rapaz já alcança quase 40% dos votos. No fundo, o ato de desdenhar o prêmio não deixa de ser um bom jeito de pedir votos. Aliás, Reinaldo agora decidiu pedir votos para o MSM, do Olavão, para o DEM e PSDB, na categoria Cidadania/Política. Continua fazendo troça do iBest, mas baixou o tom. Ao que parece, as reclações eram só birrinha de criança mesmo. Em primeiro lugar no concurso, o menino ficou todo feliz. Se os organizadores atenderem ao pedido inicial e retirarem o blog, podem ter certeza que Reinaldão dirá que está sendo vítima de uma censura hedionda. A vida é mesmo complicada...

Alckmin, Quércia e o PT

A Folha Online está manchetando a negociação entre Geraldo Alckmin e Orestes Quércia (PMDB). Ora, alguém precisa avisar ao jornalista Josias de Souza, autor da nota, que a notícia é velha: desde meados do ano passado Alckmin conversa com Quércia, que teria inclusive convidado Geraldinho para ser o candidato do PMDB paulista. Atualmente, porém, Quércia estaria pendendo mais para o lado do PT, que tem encantos que Alckmin não conseguiria oferecer.

Hoje é possível dizer que existe, no PMDB de São Paulo, uma nítida divisão entre os que preferem uma aliança com Alckmin, como o presidente municipal, Bebeto Haddad – fonte de Josias –, e os que acham mais interessenta a aliança com o PT, caso do vice-presidente estadual Marcelo Barbieri. Há até quem defenda uma negociação com o prefeito Gilberto Kassab (DEM), mas aparentemente esta posição é minoritária. No PMDB paulista, porém, o que vale é a palavra de Orestes Quércia. Em entrevista para o DCI, ele disse ao autor deste blog que as conversas estão apenas começando e que o partido tem muito tempo para tomar uma posição na corrida eleitoral paulistana.

Agora temos enquete

O Blogger criou uma ferramenta que permite, com facilidade, a inserção de enquetes aí na coluna ao lado. A primeira enquete do Entrelinhas já está no ar e diz respeito à disputa interna do PSDB. Quem quiser saber os bastidores da guerra, deve descer um pouco e ler as notas sobre a troca de afagos entre Serra e Alckmin.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Wagner Iglecias: a prova de fogo do DEM

Em mais uma colaboração para o blog, o professor Wagner Iglecias aproveita a deixa do artigo sobre Kátia Abreu e comenta com mais profundidade o grande teste pelo qual passará o DEM, neste ano. A seguir, o texto na íntegra, publicado também na edição desta sexta-feira no jornal DCI.

Durante muito tempo o PFL, atual DEM, foi associado ao que de mais conservador havia na cena política brasileira. Um partido composto por líderes políticos de direita, em geral oriundos da Arena, o braço civil da ditadura militar que comandou o país entre 1964 e 1985. Mais que isso, uma agremiação formada pelas oligarquias familiares de alguns dos estados mais pobres do país, via de regra incrustadas há décadas no poder e mantendo com o eleitorado relações clientelistas, na base da troca de voto e apoio político por benesses individualizadas que em verdade deveriam ser direitos universais.

Apesar de ter possuído desde sua fundação várias correntes, o PFL sempre uniu-se em torno de interesses comuns a todas elas. O partido, à semelhança do PMDB, sempre pareceu uma federação de caciques políticos locais, com pequenas ou nulas condições de pleitear, com chances reais, a Presidência da República. Desta maneira, para além das afinidades ideológicas, o que juntou as várias facções do PFL durante tantos anos foi a oportunidade de se fazerem presentes, como aliados de alguém mais forte, no governo federal. Ressalte-se, neste sentido, que o senso de oportunidade dos pefelistas sempre foi alto. Assim foi quando da fundação do partido, para o apoio à candidatura oposicionista de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, e quando da aliança com o PSDB para o apoio ao então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso dez anos mais tarde, na eleição presidencial de 1994. De fato, desde a eleição de Tancredo os pefelistas só não ocuparam postos de destaque em Brasília durante o breve mandato de Itamar Franco e a partir de 2003, com o início do governo Lula.

Apesar dos muitos êxitos políticos conquistados desde seu surgimento o PFL sofreu também vários revezes em sua história. As urnas têm sido particularmente duras com o partido nos últimos anos, e isso se deve a uma série de fatores de naturezas as mais diversas. O mais significativo talvez seja a transformação da sociedade brasileira no último quarto de século. O Brasil modernizou-se e urbanizou-se nas duas últimas décadas ainda mais intensamente do que havia ocorrido até os anos 70, e é provável que a antiga relação que as lideranças políticas locais estabeleciam no passado com suas clientelas já não responda mais aos anseios do cidadão/eleitor. Ressalte-se ainda que os dois partidos mais competitivos no cenário nacional, PT e PSDB, embora tenham origem urbana enraizaram-se nos chamados grotões, os pequenos municípios no interior do País, em muitos dos quais onde o PFL transitava com maior desenvoltura. Esse enraizamento tucano e petista fez com que o partido visse se comprimir nos últimos anos seu espaço tradicional no "mercado eleitoral". A recíproca jamais foi verdadeira, dada a crônica debilidade do PFL no centro-sul do País e principalmente nas grandes metrópoles, onde na maioria das vezes conseguiu constituir-se apenas como a quarta ou quinta força política. Para além disso ressalte-se que o aliado PSDB sempre teve muito mais trânsito que o DEM junto aos segmentos mais dinâmicos da economia brasileira, como o setor financeiro e a indústria paulista.

Outros fatos, mais específicos, constituíram-se em pesados golpes sofridos pelo partido, tenham sido eles frutos do acaso, da ação de adversários ou dos erros de cálculo de suas lideranças. Entre eles a morte prematura do deputado Luís Eduardo Magalhães, em 1998; a renúncia de ACM ao cargo de senador, em 2001, após um prolongado processo de desgaste junto à opinião pública por conta da crise da adulteração do painel do Senado; a erosão, em 2002, da então ascendente candidatura presidencial de Roseana Sarney depois da apreensão, pela Polícia Federal, de R$ 1,34 milhão em dinheiro na sede da empresa Lunus, pertencente à senadora e a seu marido; o fim melancólico do governo de Jaime Lerner, no Paraná, também em 2002; e a progressiva diminuição do peso de lideranças como Marco Maciel na política pernambucana e de Jorge Bornhausen na política catarinense.

Para piorar um pouco mais o cenário o PFL encontra-se fora do governo federal há mais de cinco anos, algo que jamais havia ocorrido antes na história do partido. Seu nome mais conhecido, ACM, morreu em 2007 e a maioria de suas lideranças envelheceu. Há alguns anos o partido já vinha conhecendo derrotas significativas em importantes capitais de seu berço político, o Nordeste, e em 2006 foi praticamente varrido do mapa eleitoral da região, não tendo conquistado o comando de nenhum estado. Além disso a cada legislatura é menor a presença do partido na Câmara dos Deputados. Mas nem tudo são espinhos na história recente da agremiação. A sucessão geracional está em marcha, com a ascensão interna de jovens lideranças, e a mudança de nome para Democratas parece constituir-se numa iniciativa daquilo que os profissionais de marketing chamam de “reposicionamento da marca”. O novo nome do partido remete à tentativa de criar uma nova imagem, mais moderna, urbana e sintonizada com os anseios da cidadania. O partido vai aos poucos tentando aprender a ser oposição, colocando-se muitas vezes de forma bem mais incisiva em relação ao governo Lula do que o PSDB, seu parceiro preferencial. Bate duro na questão da lisura no trato do dinheiro público, reitera os valores da democracia e coloca-se como o verdadeiro herdeiro da esperança após a debàcle moral do PT no poder. Aposta na recondução de Gilberto Kassab à prefeitura de São Paulo e conta com a força de César Maia para manter o comando da prefeitura do Rio de Janeiro. Ali a candidata deverá ser Solange Amaral, numa estratégia na qual talvez se possa antever a possibilidade, nestes tempos de ventos femininos na política mundial, de o partido apostar em outra mulher para a eleição presidencial de 2010, com uma eventual candidatura da senadora Katia Abreu, de Tocantins. Daqui até lá, no entanto, muita água ainda vai rolar por debaixo da ponte, e as urnas de 2008 serão a prova de fogo para o partido. Com a palavra o eleitorado, que dirá se acredita nesta cara moderna do DEM ou se vê no partido o velho PFL de outrora.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Colasuonno desmente nomeação

O ex-prefeito de São Paulo Miguel Colasuonno desmentiu há pouco ao repórter Eduardo Bresciani, correspondente do DCI em Brasília, ter sido indicado para a Secretaria Executiva do ministério das Minas e Energia. O que também não significa que ele não possa vir a ser convidado.

Kátia Abreu pode ser a novidade em 2010

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o Shopping News. Em primeira mão para os leitores do blog, na íntegra:

Justiça seja feita, o antigo PFL, hoje Democratas, foi o primeiro partido a lançar uma mulher com chances reais na disputa para a presidência da República, antecipando a atual tendência de comando feminino das Nações. Foi em 2002, quando a então governadora do Maranhão Roseana Sarney iniciou uma pré-campanha e aparecia muito bem nas pesquisas, atrás apenas do favorito Luiz Inácio Lula da Silva.

Para quem não lembra, a candidatura de Roseana foi abortada precocemente por uma até hoje estranha operação policial que logrou encontrar R$ 1,3 milhão no escritório da empresa Lunus, do marido de Roseana, Jorge Murad, a maior parte em notas de R$ 50. Naquela época, as fotos da dinheirama tiveram efeito devastador junto à opinião pública e Roseana renunciou à disputa. Nos bastidores, os correligionários da ex-governadora atribuíram a ação da Polícia Federal ao tucano José Serra (PSDB), também ele pré-candidato à presidência da República, que acabou não contando com o apoio do PFL justamente em função do mal estar causado pela Operação Lunus.

Agora, faltando ainda dois anos para a eleição de 2010, os Democratas parecem estar preparando o nome da senadora Kátia Abreu (TO) para uma disputa que pode contar com mais mulheres do que se imagina hoje. Caso Hillary Clinton se torne presidente dos Estados Unidos, o eleitorado brasileiro certamente ficará bastante tentado a colocar também aqui uma mulher na presidência do país.

Kátia Abreu cresceu politicamente durante a tramitação da emenda que prorrogaria a CPMF, em que a oposição conseguiu uma notável vitória, capitaneada pelos Democratas. Natural de Goiânia, a senadora se formou em Psicologia na Universidade Católica de Goiás, é mãe de três filhos e tornou-se empresária rural aos 25 anos de idade, com a morte do marido. Desde 2006, é vice-presidete da Confederação Nacional da Agricultura – foi a primeira mulher a fazer parte da diretoria da CNA. Ruralista, conservadora, determinada: é bom prestar atenção em Kátia Abreu.

Entrelinhas no Prêmio iBest

Um leitor deste blog teve a bondade de indicar o Entrelinhas na lista de concorrentes na categoria "blogs de política" do Prêmio iBest, o mais importante da internet brasileira. Na concorrência, há desde o gigante Ricardo Noblat – que tem mais repórteres trabalhando para o blog dele do que muita editoria de política de jornal importante Brasil afora – até protagonistas da cena política, como os companheiros Zé Dirceu e Bob Jefferson. Para quem quiser prestigiar este espaço de debates sobre mídia e política, ou mesmo conhecer a premiação, segue o link do Prêmio iBest, já na categoria correta. Para votar, é preciso fazer um rápido cadastro. O Entrelinhas, que no momento está em 10° lugar, agradece os eventuais votos de seus leitores - dos fiéis, dos eventuais e até mesmo dos infiéis... Afinal, todo político sabe que voto não se recusa!

Colasuonno aproxima o PMDB de Marta

Se confirmada a nomeação de Miguel Colasuonno para a Secretaria Executiva do Ministério das Minas e Energia, o PMDB de São Paulo terá recebido um cargo importante na máquina administrativa do governo federal. Colasuonno hoje é um dos homens mais próximos do ex-governador Orestes Quércia e sua nomeação pode aproximar o PMDB paulista da candidatura da ministra do Turismo, Marta Suplicy (PT), à prefeitura de São Paulo.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O dinheiro sumiu

Este blog confirmou ontem uma história que já foi de certa forma contada pelo esperto James Akel em seu blog: o que está impedindo o ex-governador Geraldo Alckmin de assumir oficialmente a candidatura a prefeito de São Paulo pelo PSDB é a falta de dinheiro. Sim, pode parecer surpreendente, mas Alckmin não está conseguindo, nas sondagens que tem feito, garantias de financiamento de sua campanha. Um alto quadro tucano contou ao blog, em off, naturalmente, que o governador José Serra (PSDB) percebeu que não conseguiria matar a candidatura de Alckmin pela via da disputa política, uma vez que Alckmin domina os diretórios estadual e municipal do PSDB, e decidiu então cortar as asinhas do ex-governador pela via "econômica": mandou avisar os empreiteiros, grandes financiadores de campanhas eleitorais, que quem ajudar Geraldinho não recebe nem do governo do Estado e muito menos da prefeitura, onde pontifica o candidato de Serra, Gilberto Kassab (DEM). Ainda segundo a mesma fonte tucana, Geraldo Alckmin vai pensar mais um pouco sobre o assunto e decide em março se concorre ou não. Quanto a ter uma garantia para disputar o governo de São Paulo em troca da desistência de concorrer à prefeitura, o grupo de Alckmin avalia que Serra não cumpriria tal acordo. E é isto que pode empurrar Geraldo para a disputa neste ano, mesmo sem dinheiro.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Serra, Alckmin e os amigos da onça
















O PSDB é um partido engraçado. Olhando friamente os números das pesquisas recentes, os tucanos são favoritíssimos a recuperar o governo federal em 2010. Afinal, o governador José Serra (SP) lidera as enquetes com folga e Aécio Neves (MG) desponta com enorme potencial, para não falar do ex-governador Geraldo Alckmin (SP), que estranhamente é deixado de lado nas pesquisas, a despeito do enorme recall que deve ter em função da disputa presidencial do ano passado. Apesar de tudo isto, os tucanos mais uma vez não estão se entendendo e podem se perder nas brigas internas, abrindo caminho para a vitória do candidato do presidente Lula em 2010.

Para variar um pouco, o centro da discórdia tucana é São Paulo. Serra deseja que o partido dê suporte à candidatura do prefeito Gilberto Kassab (DEM) à reeleição, indicando o vice, provavelmente Andrea Matarazzo, que tem demonstrado grande afinidade com o prefeito. No final de semana, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso revelou seu apoio a esta estratégia e Serra ontem disse que o partido "precisa ouvir" o que diz FHC. O grupo político que gira em torno de Geraldo Alckmin, porém, está insatisfeito com a condução do processo. O ex-governador é favorito em quase todas as pesquisas de opinião e tem força no partido para forçar a sua própria candidatura. Nos bastidores, há quem diga que Alckmin tenta arrancar de Serra cargos para os seus seguidores, que foram alijados do governo com a posse do novo governador, no ano passado, além da garantia de ser o candidato do PSDB ao governo de São Paulo em 2010. Se nada disto funcionar, Alckmin sairia candidato a prefeito ou imporia a Serra uma derrota política lançando um nome do seu grupo à prefeitura apenas para impedir a aliança com Kassab. José Aníbal, por exemplo. Ontem, o governador Aécio Neves (MG) entrou na jogada e defendeu a candidatura de Alckmin à prefeitura, mostrando que o ex-governador não está isolado no partido.

Ora, se Alckmin for realmente candidato e vencer a eleição, se tornará de novo uma pedra no sapato de Serra. E isto interessa a Aécio, também ele de olho na vaga de candidato à presidência em 2010. Tudo que atrapalha Serra é bom para Aécio. E vice-versa, dizem os maldosos.

No fundo, com adversários assim, Lula pode até se dar ao luxo de ter uns amigos aloprados. Sim, eles fazem muita besteira, mas os tucanos fazem mais.

De volta ao batente

Após duas semanas de vadiagem, o blog volta ao seu ritmo normal, com atualizações diárias. O período de descanso no litoral paulista, no mesmo local em que o autor destas Entrelinhas se refugia desde 1978, serviu para algumas observações sobre a chamada "economia real" do país. É bastante visível para quem passa apenas algumas semanas por ano na praia o resultado do crescimento econômico brasileiro. Não, ainda não há conexão de banda larga em Ubatuba - o que garantiu a folga, uma vez que era inútil tentar atualizar o blog -, mas impressiona a quantidade de novos serviços disponíveis no litoral. Há "delivery" de uma infinidade de coisas - de galões de água à trivial (e tradicional) pizza paulistana, coisa inimaginável meia década atrás. Os restaurantes se multiplicaram, a oferta de novos imóveis está nas placas ao longo da velha e boa Rio-Santos, que agora se chama Rodovia Governador Mario Covas, pelo menos no trecho paulista. A euforia dos comerciantes caiçaras era evidente e os turistas pareciam também eles bastante satisfeitos em torrar seus décimos-terceiros na temporada praiana.

Nem tudo, porém, são flores. O desenvolvimento econômico é acompanhado, no litoral paulista, dos problemas crônicos de uma infra-estrutura que não foi incrementada na rapidez do crescimento da economia: o abastecimento de água é precário, as estradas não comportam tantos carros, o "boom" imobiliário gera alguns monstrengos em áreas que deveriam ter uma regra mais rígida para as construções, a fim de preservar a beleza natural – no fundo o grande chamariz da região.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

2008 lá e cá

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Dia 14, voltaremos ao funcionamento normal, com atualizações diárias. Em função da péssima conexão de internet no litoral paulista, no momento só em edições extraordinárias o blog está sendo atualizado.

O ano de 2008 vai ser muito interessante no campo político e uma verdadeira incógnita do ponto de vista da economia, não apenas no Brasil, mas principalmente no coração do império, os Estados Unidos da América.

Lá e cá teremos eleições, com a diferença que os irmãos do norte escolherão seu próximo presidente da República e nós, em uma espécie de prévia do pleito de 2010, os prefeitos que governarão as cidades brasileiras por mais quatro anos. A rigor, a sucessão do presidente Lula depende muito do que acontecer em 2008, inclusive nos Estados Unidos. Senão vejamos.

Existe no planeta uma certa tendência pela eleição de mulheres para o comando do Executivo. É verdade que Segolène Royal não vingou na França, mas a confirmação de tal tendência pode ocorrer nos Estados Unidos se Hillary Clinton se tornar a primeira norte-americana a assumir a presidência. No Brasil, isto pode ter como reflexo a consolidação da candidatura das ministras Dilma Rousseff ou Marta Suplicy. A influência dos exemplos norte-americanos no imaginário dos brasileiros não é pequena, de forma que é perfeitamente possível que a eleição de Hillary tenha um efeito maior do que se supõe hoje. Outras mulheres poderão surgir como alternativa, a exemplo de Roseana Sarney (PMDB), se a saúde lhe permitir.

A maior influência que virá dos EUA, porém, não está no campo político. Até agora, ninguém conseguiu decifrar se a crise das hipotecas de alto risco, as chamadas subprimes, terão efeito significativo no mundo real. No cenário otimista, a crise se restringe aos que nela se envolveram diretamente, com possível derrocada de um ou outro bancão e alguns solavancos no mercado financeiro. Se for assim, o Brasil seguirá na trajetória de um crescimento econômico vigoroso, que no fundo é a grande âncora da alta popularidade do presidente Lula. Se, no entanto, a crise dos subprimes contaminar a economia real dos Estados Unidos, provocando recessão no coração do sistema capitalista mundial, aí a coisa muda bastante de figura e o Brasil deve sofrer os efeitos, como de resto praticamente todos os países do mundo.

Cruzando política e economia, temos que, no primeiro cenário – sem recessão nos EUA –, Lula será o grande eleitor no final de 2008, influenciando as urnas com a sua popularidade; já o segundo cenário ajudaria bastante a oposição, que até aqui não conseguiu outro discurso senão o de criticar o governo federal, sem oferecer alternativa alguma ao que está aí.