sábado, 31 de janeiro de 2009

Quem manda no PSDB é José Serra

A decisão do partido tucano em apoiar o petista Tião Viana (AC) para a presidência do Senado mostra que o governador José Serra (SP) é hoje o líder mais influente do PSDB. Mais do que o apoio ao candidato do PT, o que Serra queria mesmo era ver seu partido longe de José Sarney (PMDB-AP), de quem é desafeto. Sim, o governador fez cara de paisagem, disse que não "trabalharia" na eleição no Senado, mas no final a bancada tucana, que inicialmente estava inclinada ao nome de Sarney, anunciou o surpreendente apoio a Viana. É evidente que decisão teve o dedo de Serra, principal nome do PSDB para a sucessão de Lula em 2010. Ele é hoje o "capo dei capi" do PSDB.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Dora Kramer aposta em Sarney e Aldo

Em comentário escrito aqui no dia 14 de janeiro, este blog apostava na eleição de José Sarney (PMDB-AP) e Aldo Rebelo (PCdoB-SP) nas eleições do próximo dia 2 para o comando das mesas do Senado e Câmara Federal. Nesta quinta-feira, a colunista política Dora Kramer escreve no Estadão um ótimo artigo analisando a disputa no Congresso e aposta exatamente na mesma dupla. Dora pode ser muito conservadora, alinhada com os tucanos, mas é uma das jornalistas mais bem informadas sobre os bastidores da política nacional, especialmente os de Brasília. Ninguém está dando bola para Aldo, mas a verdade é que o bom mineiro come quieto. E a cada semana que passa a turma que apóia Michel Temer (PMDB-SP) diminui a previsão de votos que ele terá na segunda-feira - já foram 400, agora são 300.

A pergunta básica que se deve fazer sobre as candidaturas no Congresso é a seguinte: a quem interessa a vitória de sicrano ou beltrano? A de Sarney interessa a Lula e ao governo, ao DEM (pela boa relação que o ex-presidente mantém com os democratas, de onde no fundo é oriundo, e pela promessa da vice-presidência) e a uma parte do tucanato, pelos mesmos motivos dos democratas. Não interessa apenas a José Serra, desafeto de Sarney e que preferia ver Tião Viana na presidência do Senado. Não é difícil prever o que vai acontecer...

E a quem, afinal, interessa a vitória de Michel Temer? Nos bastidores da Câmara o que se diz é que a vitória interessa apenas e tão somente a Michel Temer... Mesmo no PMDB, partido de Temer, há quem diga que a vitória do atual presidente concentraria nele mais poder do que seria prudente concentrar em uma só pessoa. Já a vitória de Rebelo deixaria contentes os petistas, hoje assustados com o apetite do PMDB por mais poder, praticamente todo o chamado "bloquinho" de esquerda (PSB, PCdoB e parte do PDT), uma parcela significativa do PMDB que luta há anos para tirar Temer da presidência (Geddel Vieira Lima à frente), e também ao tucanato serrista – para quem não sabe, Aldo mantém excelentes relações com o governador José Serra: ambos começaram a carreira no movimento estudantil, foram presidentes da UNE e se respeitam.

É óbvio que no caso da Câmara o compromisso partidário das 12 agremiações que selaram apoio a Temer reforça o favoritismo de Michel Temer, mas convém botar as barbas de molho. Como diz o ditado, "trair e coçar, é só começar", e o que tem de deputado se coçando na Câmara é até difícil de contar...

Grandes jornais crescem até 3% enquanto
populares têm expansão de 11% em 2008

A matéria abaixo está na Folha de S. Paulo de hoje e revela que os jornalões conseguiram aumentar a circulação em 2008, mas em um patamar bem menor do que as publicações classificadas como "populares". A Folha está orgulhosa da "liderança" entre os jornalões, mas o crescimento foi pífio: 2,87% no "melhor ano de nossas vidas" da economia brasileira. É bastante provável que em 2009 os populares continuem a crescer mas os jornalões estagnem ou até percam leitores. A ver.

Circulação de jornais aumenta 5% no país

DA REPORTAGEM LOCAL

A circulação média diária de jornais no Brasil no ano passado cresceu 5% na comparação com 2007, de 4,14 milhões de exemplares para 4,35 milhões de exemplares, segundo o IVC (Instituto Verificador de Circulação), empresa que audita a circulação de jornais no país.
O crescimento nas vendas de jornais em 2007 e 2006 havia sido de 11,8% e 6,5%, respectivamente. Apesar de a expansão em 2008 ser menor que a dos últimos dois anos, o crescimento do mercado de jornais no Brasil tem sido maior do que a média mundial -a circulação média diária no mundo subiu 2,57% em 2007, segundo a Associação Mundial de Jornais.
Entre os principais jornais do país, a Folha registrou maior crescimento na comparação com todos os seus concorrentes diretos.
A circulação média diária da Folha cresceu 2,87% no ano passado sobre 2007. A circulação de "O Estado de S. Paulo" subiu 1,82%, e a de "O Globo", 0,38%, de acordo com o IVC.
Na categoria de jornais populares, o mineiro "Super Notícia", que custa R$ 0,25, obteve expansão de 27,02% em relação a 2007. O jornal "Agora São Paulo", do Grupo Folha, registrou crescimento de 0,17% no período e continua, em sua categoria, líder em circulação média diária (83.400 exemplares no ano passado) em relação aos principais concorrentes paulistas. O "Diário de S. Paulo" registrou queda de 3,41% na circulação em 2008, que recuou para 70.009 exemplares.
Murilo Bussab, diretor de Circulação da Folha, diz que o crescimento do mercado de jornais "está claramente influenciado pelos jornais populares e pelos regionais". "E isso parece refletir o desenvolvimento econômico do país em 2008", completa.
Segundo ele, na categoria dos jornais populares, a circulação média diária no ano passado subiu 11,8% em relação a 2007 e, na categoria dos regionais, 10,4%. "O crescimento do "Super Notícia" foi "anormal" comparado com todos os outros jornais, pois teve um modelo de preço extremamente baixo e promoções agressivas para abrir o mercado de Belo Horizonte."
A Folha, segundo o IVC, é a primeira colocada do ranking de jornais do país, com 7,17% de participação de mercado e circulação média diária de 311.287 exemplares no ano passado. Em segundo lugar vem o "Super Notícia", com 6,98% de participação e venda média diária de 303.087 exemplares. Em seguida estão o jornal "Extra", do Rio, com 6,62% de participação; "O Globo", com 6,48%, e "O Estado de S. Paulo", com 5,67%, aponta o IVC.
Ricardo Costa, diretor-geral do IVC, diz que a venda de jornais está diretamente ligada ao poder aquisitivo da população e que o Brasil tem potencial para expandir esse mercado.
O consumo diário de jornais no país a cada mil habitantes é de 53 exemplares, segundo a Associação Mundial de Jornais. No México, esse número é de 148 exemplares. Nos Estados Unidos, de 241, e, no Reino Unido, de 335 exemplares. "Esses dados mostram que existe grande espaço para aumentar as vendas de jornais no Brasil. E vejo que os jornais têm feito um grande trabalho para melhorar cada vez mais os seus produtos", afirma Costa.
Para Bussab, o desempenho do setor em dezembro do ano passado já mostra desaceleração em relação à média do ano. "Isso indica que, para 2009, a expectativa deve ser de um mercado mais estável. Não deverá haver retração por efeito da crise, mas, sim, estabilização num patamar já elevado comparado com os últimos anos."

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Dois modos de ler uma mesma notícia

Na Agência Brasil:
Brasil crescerá acima da média mundial em 2009, prevê FMI
A economia brasileira terá, em 2009, um desempenho melhor que o restante do mundo e pode crescer 1,8%. O Fundo Monetário Internacional (FMI) espera que a economia mundial tenha crescimento de 0,5%, o pior desempenho desde 1945.

No Portal UOL, do Grupo Folha:
Brasil deve crescer só 1,8% no ano, prevê FMI

A partícula "só" utilizada no título do UOL constitui um recurso típico de manipulação de números no jornalismo. O título da Agência Brasil é neutro. Um título tendencioso para o governo seria algo como "Brasil de Lula crescerá quase 4 vezes mais do que a média mundial". Todos títulos são verdadeiros e expressam a mesma notícia...

Web ultrapassa impressos nos EUA

Outra notícia interessante publicada no Terra Magazine, também relacionada ao futuro dos jornais impressos.

Internet supera jornais como fonte de informação nos EUA

Um estudo do Pew Research Center mostra que a internet já superou os jornais impressos como fonte de informação - pelo menos nos Estados Unidos. Entre 2007 e 2008, a imprensa tradicional ganhou 1% de audiência; já a TV perdeu 4%. Enquanto isso, a internet, como fonte de informação, ganhou 16%. Para ler mais, clique aqui.

Aposta futebolística

É grande a expectativa com a estréia de Ronaldo Gorducho no Corinthians. Este blog aposta que o ex-jogador não permanecerá em campo mais do que 900 minutos neste semestre. Podem contar entradas no final das partidas, jogos em que ele der o pontapé inicial, não há a menor chance, é só olhar para o jovem senhor e perceber que ele já está mais para certames entre casados e solteiros, coisas assim...
Em tempo: o artilheiro do paulistão já tem nome: Washington.

Um bom artigo sobre o futuro dos jornais

O professor Bernardo Kucisnki escreveu para a Agência Carta Maior o texto que vai abaixo. É uma interessante reflexão sobre a crise dos grandes jornais mundo afora. Um cenário infelizmente bastante difícil para os impressos, especialmente nos países desenvolvidos. No Brasil, vale lembrar que o espaço para crescimento é bem maior em função da aumento do mercado leitor, que era muito pequeno dado o enorme contingente de analfabetos (funcionais ou não) e pessoas sem renda suficiente para poder comprar jornais. Com a universalização da educação e aumento da renda dos mais pobres, surge um novo público, como atesta o crescimento dos jornais populares, que crescem muito mais do que os títulos tradicionais. Ainda assim, é provável que os três fatores apontados por Kucinski (concorrência com a internet, estrangulamento do crédito e retração do mercado publicitário) tenham efeito por aqui também. Aliás, tais efeitos já começaram a ser sentidos. Abaixo, a íntegra do artigo do professor.

De repente, não mais que de repente, grandes jornais do mundo ocidental entraram em crise financeira aguda. Entre eles o New York Times, ícone do capitalismo ocidental, o El País, símbolo do novo expansionismo ibérico, os poderosos Chicago Tribune e o veterano Christian Science Monitor. Estão sem caixa. Alguns venderam seus prédios, outros buscam injeções de capital, redações foram reduzidas à metade. O Christian Science Monitor deixou de vez a forma impressa, ficando só na internet. Será o começo do fim da era dos grandes jornais?

Ignácio Ramonet apontou, no Fórum de Mídia Livre de segunda-feira (26/1), para a estreita relação, quase que orgânica, entre o capital financeiro e os grandes grupos de mídia. É como se os bancos fornecessem o combustível dos conglomerados midiáticos. Quando advém o estrangulamento do crédito, principal mecanismo desta crise depois do colapso dos grandes bancos americanos e alguns europeus, precipita-se uma situação de insolvência que já vinha tomando forma desde que a internet começou a comandar a dinâmica do jornalismo.

Para Ramonet , o aprofundamento e o espalhamento da recessão econômica, etapa seguinte desta crise, afeta profundamente o modo de produção da grande mídia, principalmente ao reduzir sua principal fonte de financiamento, a publicidade.

São três pauladas sucessivas na grande mídia impressa. Primeira paulada: o esvaziamento de suas funções pela internet, processo de natureza estrutural que deverá se aprofundar. Segunda paulada: o estrangulamento do crédito, fator apenas temporário mas que precipitou decisões radicais, algumas irreversíveis. Terceira paulada: a queda das receitas publicitárias, que está apenas no começo, devendo perdurar pelo tempo das grandes recessões, em geral três a cinco anos.

Ocupar espaços

Os grandes jornais já vinham sofrendo há muito tempo a erosão de suas funções editoriais principais, apontaram nessa mesma sessão do Fórum os jornalistas Pascual Serrano do site Rebelión, e Luiz Navarro, do La Jornada. Na invasão do Iraque, por exemplo, a grande mídia americana tornou-se uma disseminadora de mentiras geradas pelo governo. Com isso, negou sua função jornalística principal de asseverar verdades. Também perdeu sua função mediadora, na medida em que abandonou a mediação dos grandes problemas que efetivamente interessam à população. E mais; perdeu legitimidade, perdeu autenticidade.

Conclusão: mais empresas e grupos midiáticos devem fechar jornais nos próximos meses. O novo príncipe, como Octavio Ianni definiu o poder midiático dos nossos tempos, está em crise existencial.

Bom para a democracia? Talvez não. Ruim com os grandes jornais, pior sem eles. A democracia de massa precisa meios de comunicação de massa para funções de mediação e agendamento do debate nacional e mundial, que a mídia pequena ou alternativa não tem escala para exercer.

O que interessa à democracia é que esse espaço, o da comunicação de massa, seja habitado por uma mídia mais plural, mais comprometida com os valores humanos e menos com os ditames do capitalismo. Vários participantes desse debate apontaram para a necessidade do campo popular disputar a hegemonia da grande imprensa, com projetos de mesmo porte.

Também foram cobradas políticas públicas mais audazes de democratização do espaço midiático por parte dos novos governos da América do Sul. E mais empenho das entidades mais poderosas da sociedade civil na ocupação desse espaço. A hora é agora, quando a crise jogou os tycoons da comunicação na defensiva e as novas tecnologias favorecem o pluralismo no espectro eletromagnético e barateiam a produção dos meios impressos.

Dica de leitor

O blog do professor Hariovaldo Almeida Prado merece lugar de destaque e passará a fazer parte das indicações do Entrelinhas aos seus leitores. Mainardi, Olavo e Reinaldão, tremei, perto do Hariovaldo, vocês não passam de reles sociais-democratas... É realmente imperdível.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Obama e os seus comunistas

Ler textos da ultradireita é diversão garantida, mas tem gente que se supera. Olavo de Carvalho, filósofo, escreve no Diário do Comércio, jornal mantido pela Associação Comercial de São Paulo e que nada tem a ver com o DCI, onde o autor destas Entrelinhas trabalha. O texto abaixo foi publicado no último dia 22 e é um exemplo acabado da paranóia dessa turma. Quem conseguir chegar ao final do artigo sem cair na gargalhada merece um prêmio. Afinal, não é todo dia que alguém consegue botar no papel a idéia de que a CIA já está nas mãos dos comunistas. Provavelmente até o Diogo Mainardi diria: "menas", Olavão, "menas"...

Rombo de segurança

Olavo de Carvalho

Alguém espalhou pela internet o boato de que a filha de Leon Panetta, o escolhido de Barack Hussein Obama para chefiar a CIA, era comunista e amiga de Hugo Chávez. Vários blogs conservadores morderam a isca e repassaram a história, amparada numa foto de Linda Panetta – este o nome da criatura – ao lado do caudilho venezuelano. O problema é que Leon Panetta só tem filhos homens, três ao todo, e nunca viu a mocinha até o dia em que a foto dela apareceu na internet.

O episódio e os comentários sarcásticos que suscitou na mídia iluminada só serviram para desviar as atenções populares de uma outra notícia que, totalmente omitida pelos jornais e TVs, circulava pela rede no mesmo instante. Escrita pelo repórter holandês Emerson Veermat – um profissional cuja seriedade na pesquisa jornalística já obteve elogios do governo do seu país –, ela informa que Leon Panetta não precisa de nenhuma filha para lhe arranjar ligações comprometedoras com o movimento comunista: ele tem as suas próprias, diretas e muito mais sérias do que a simples amizade com um pop star da esquerda. Como membro do Congresso, ele deu ostensivo apoio ao Institute for Policy Studies (IPS), um think tank esquerdista e raivosamente anti-CIA presidido por um cidadão de nome Richard Jackson Barnett, que segundo o FBI é mais que suspeito de ser um agente da KGB. A reportagem de Veermat está em http://www.pipelinenews.org/index.cfm?page=vermaatciaid=1.8.09.htm.

Sustentado pelo dinheiro do milionário pró-comunista Samuel Rubin (cuja Samuel Rubin Foundation também subsidia no Brasil o Instituto “Sou da Paz”), o IPS não se limitou a tomar partido dos comunistas na guerra do Vietnã e a armar várias campanhas de propaganda contra a CIA – atividades que, em si, não o distinguiriam de qualquer organização militante de esquerda. Ele foi muito além disso, organizando operações de inteligência, altamente sofisticadas, para dificultar o acesso da agência a informações que pudessem prejudicar o bloco comunista. O coordenador dessas operações foi o ex-funcionário da CIA Philip Agee, que mais tarde se confirmou ser um agente da inteligência cubana e da KGB. Entre outras realizações notáveis, o IPS, através da sua filial em Amsterdã, ajudou na publicação da revista Counterspy, onde Agee revelou o nome de vários agentes secretos da CIA, um dos quais, Richard L. Welch, foi assassinado logo depois. Não espanta que o IPS fosse descrito por Brian Crozier, diretor do London Institute for the Study of Conflict, como “a fachada intelectual perfeita para as atividades soviéticas”.

Como congressista, Leon Panetta delegou trabalhos importantes ao IPS – inclusive um projeto para a redução do orçamento militar americano – e ainda promoveu, junto com outros treze deputados, uma coleta de fundos para a festa de gala do aniversário da fundação da entidade em 1985.

As atividades subversivas do IPS já não são um grande segredo. Veermat baseou parte da sua matéria no relato meticuloso escrito por um ex-funcionário da organização, S. Steven Powell, Covert Cadre: Inside the Institute for Policy Studies, publicado em 1987 em Ottawa, Illinois, por Green Hill Publishers, Inc.

Mas nem todos os serviços prestados por Panetta aos inimigos dos EUA têm ligação com o IPS. Em 1997 foi ele quem, indicado por Bill Clinton, negociou a proposta de ceder aos chineses o estaleiro da Marinha em Long Beach, o que na época foi denunciado como um evidente risco para a segurança nacional americana (v. Rowan Scarborough, “Solomon: Is Cosco strategic threat? Long Beach deal triggers concern”, no Washington Times de 20 de maio de 1997, reproduzido nos Anais da Câmara de Representantes, em http://thomas.loc.gov/cgi-bin/query/D?r105:1:./temp/~r105Cp2PD0::). Convém recordar que diretores da estatal chinesa interessada, a Chinese Ocean Shipping Co. (Cosco), haviam feito substanciais contribuições em dinheiro para a campanha presidencial de Clinton.

Por qualquer critério mínimo de segurança, um candidato com esse curriculum vitae jamais seria aceito como agente ou mesmo como estagiário da CIA ou de qualquer outro órgão de inteligência americano. Panetta na direção da CIA não é uma falha de segurança: é um rombo. Mas, se um cidadão de nome árabe pode ser presidente dos EUA sem ter de mostrar nenhuma prova genuína de nacionalidade – e se a simples sugestão de que ele deveria apresentar essa prova é violentamente reprimida como sinal de paranóia, racismo, “teoria da conspiração” ou no mínimo falta de polidez –, então certamente deve ser impolidez maior ainda, se não pecado mortal, pretender que o diretor da CIA, apontado por governante tão excelso e intocável, deva submeter-se a algum requisito de segurança.

Tão grande é o temor de ser acusado dessa impolidez, que o próprio Veermat se abstém de insinuar que Panetta seja um colaborador consciente dos serviços de inteligência russos ou chineses. Como já se tornou de praxe nessas situações, ele atribui inteiramente à ingenuidade e à incompetência as sujeiras comunistas em que o escolhido de Obama se meteu.

Mas, nessas horas, uma idéia não me sai da cabeça. Sei que é crime hediondo dar alguma razão ao falecido senador Joe McCarthy, mesmo em coisas mínimas, mas ele costumava dizer algo que, no caso Panetta, vem muito a calhar: “Pela lei das probabilidades, não é verossímil que erros cometidos por mera incompetência ou acidente favoreçam sempre o outro lado, jamais o nosso.”

Krugman: Obama e a economia da má fé

Mais um excelente artigo de Paul Krugman, publicado originalmente em Terra Magazine, que corrobora o que foi escrito aqui sobre as críticas da colunista Míriam Leitão ao plano de Obama para recuperar a economia norte-americana. É claro que Krugman nem sabe quem é Leitão, mas trata-se de uma ótima resposta, até porque a jornalista global usa exatamente os argumentos dos republicanos para criticar medidas que nem sequer foram anunciadas. O final do artigo, em especial, é excelente. Na íntegra, para os leitores do Entrelinhas.


A economia da má fé

Por Paul Krugman, do New York Times

À medida que se inicia o debate sobre o plano de incentivo da economia do Presidente Barack Obama, uma coisa é certa: Muitos dos oponentes do plano não estão argumentando com boa fé. Os conservadores não querem, e não querem mesmo, ver um segundo New Deal e certamente não querem ver o ativismo do governo reconhecido. Então, eles estão pegando qualquer vareta que conseguem achar com a qual possam derrubar propostas para um aumento nos gastos públicos.

Alguns destes argumentos são zombarias óbvias. John Boehner, o líder das minorias da Câmara dos Representantes, já fez parte das manchetes com esta tirada: Olhando para um plano de US$ 800 bilhões para reconstruir infra-estrutura, manter serviços essenciais e outros, ele ridicularizou uma cláusula que aumentaria os serviços de planejamento familiar da Medicaid - e chamou-a de um plano para "gastar centenas de milhões de dólares em anticoncepcionais".

Mas as zombarias óbvias não representam tanto perigo aos esforços da administração de Obama para fazer com que um plano supere os obstáculos quanto os argumentos e declarações que são igualmente fraudulentas, mas possam parecer plausíveis na sua superfície para aqueles que não saibam se virar com números e conceitos econômicos. Então, como um serviço público, deixe-me tentar desmascarar alguns dos maiores argumentos antiincentivo que já surgiram. Toda vez que você ouvir alguém citando um destes argumentos, escreva a ele ou ela para chamá-lo de propagandista desonesto.

Primeiro, há o tema de discussão fictício de que o plano de Obama custará US$ 275.000 por emprego criado. Por que é fictício? Porque envolve tomar o custo de um plano que se prolongará por vários anos, criando milhões de empregos a cada ano, e dividi-lo pelos empregos criados em apenas um destes anos.

É como se um adversário do programa de almoço da escola tomasse uma estimativa do custo daquele programa pelos próximos cinco anos, então o dividisse pelo número de almoços oferecidos em apenas um destes anos e afirmasse que aquele programa era muito esbanjador, porque ele custa US$13 por almoço. (O custo real de um almoço escolar grátis, falando nisso, é de $2,57.)

O custo real por emprego do plano de Obama provavelmente estará mais perto de US$100.000 do que US$275.000 - e o custo líquido será de apenas US$60.000, uma vez que você leve em consideração o fato de que uma economia mais forte significa maior renda com impostos.

Em seguida, escreva para qualquer um que afirme que é sempre melhor reduzir impostos do que aumentar os gastos públicos, porque os contribuintes, não os burocratas, são os melhores juízes de como gastar o seu dinheiro.

Aqui está como pensar sobre este argumento: Ele implica que devemos desligar o sistema de controle de tráfego aéreo. Afinal de contas, aquele sistema é pago com taxas nas passagens aéreas - e certamente seria melhor deixar o povo que viaja manter o seu dinheiro ao invés de entregá-lo para os burocratas do governo. Se isto significasse muitas colisões no ar, bem, estas coisas acontecem.

O propósito é que ninguém realmente acredita que um dólar de redução de impostos é sempre melhor do que um dólar de gastos públicos. Enquanto isto, está claro que quando se trata de incentivo econômico, os gastos públicos oferecem muito mais retorno do investimento do que reduções de impostos - e portanto custa menos por emprego criado (veja o argumento fraudulento anterior) -, pois uma grande parcela de qualquer redução de impostos será simplesmente economizada.

Isto sugere que os gastos públicos, ao invés da redução de impostos, deveria ser o centro de qualquer plano de incentivo. Mas ao invés de aceitar aquela implicação, os conservadores buscam refúgio em um argumento absurdo contra o gasto público em geral.

Por fim, ignore qualquer um que tente fazer alguma coisa com o fato de que o principal consultor econômico tenha, no passado, favorecido políticas monetárias ao invés das políticas fiscais como uma resposta a recessões.

É verdade que a resposta normal a recessões seja reduções na taxa de juros por parte da Reserva Federal, não gastos públicos. E esta poderia ser a melhor opção neste momento, se estivesse disponível. Mas não está, porque estamos em uma situação não vista deste a década de 1930: As taxas de juros que a Reserva Federal controla já estão efetivamente em zero.

É por isso que estamos falando de incentivo fiscal em larga escala: É o que resta no arsenal de políticas, agora que a Reserva Federal gastou a sua munição. Qualquer um que citar argumentos velhos contra incentivos fiscais sem mencionar que ou não sabe muito sobre o assunto - e, portanto, não tem assunto para trazer ao debate - ou está sendo deliberadamente tacanho.

Estas são apenas alguns dos argumentos antiincentivo essencialmente fraudulentos por aí. Basicamente, os conservadores estão jogando qualquer dificuldade que conseguem contra o plano de Obama, esperando que alguma delas funcione.

Mas sabe de uma coisa: A maioria dos americanos não está ouvindo. A coisa mais animadora que ouvi nos últimos tempos foi a resposta de Obama divulgada às objeções republicanas quanto a um plano econômico orientado a gastos: "Eu venci". Ele realmente venceu - e deveria desconsiderar os esperneios daqueles que perderam.

Onde passa boi, passa boiada

A matéria abaixo, da Agência Estado, revela o que todo mundo no meio político sabe e comenta, mais em off do que em on: a eleição de Michel Temer (PMDB) na Câmara não é tão líquida e certa como o grupo político que o apóia tenta fazer crer. Temer tem o apoio de 12 partidos, mas este blog duvida que um único deles vote coeso no peemedebista. Também é evidente que a eleição se Sarney no Senado pode complicar a vida de Temer. Sim, ele ainda é o favorito, mas muito provavelmente terá de enfrentar um segundo turno na madrugada da próxima terça-feira. E na madrugada, basta lembrar a eleição de Severino Cavalcanti, tudo pode acontecer...

PT admite traições a Temer se Sarney vencer

Avaliação foi feita ontem na primeira reunião do ano da Executiva Nacional

Vera Rosa

A cúpula do PT considera "muito difícil" a eleição de Tião Viana (PT-AC) à presidência do Senado e não descarta a possibilidade de traições na Câmara, caso o senador José Sarney (PMDB-AP)vença a disputa, na segunda-feira. A avaliação foi feita ontem, na primeira reunião do ano da Executiva Nacional do PT, embora oficialmente o discurso seja o da coesão.

"Lamentavelmente o voto é secreto", afirmou o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP). "Deveria ser aberto, para assegurar a posição partidária." Ainda assim, Berzoini disse ter "total convicção" de que os deputados do PT cumprirão o acordo com o PMDB e votarão em Michel Temer (PMDB-SP) para a presidência da Câmara.

Viana esteve ontem na sede do PT e pediu à Executiva que o ajude a conquistar votos na seara tucana. O petista vai se reunir hoje com o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), e com o líder do partido no Senado, Arthur Virgílio (AM), que já manifestaram aval a Sarney. Viana aposta, porém, que o governador José Serra - desafeto de Sarney - possa reverter votos em seu benefício.

"Negar que essa disputa é difícil e acirrada é negar a realidade", admitiu Berzoini. "É difícil, mas não está encerrada." Na tentativa de dissipar as preocupações, no entanto, Berzoini lembrou que, em 2007, muitos não acreditavam na viabilidade eleitoral de Arlindo Chinaglia (PT-SP), que rachou a base de sustentação governista ao concorrer contra Aldo Rebelo (PC do B-SP).

O discurso para consumo externo, porém, não condiz com as articulações de bastidores. O receio é que deputados descontentes com o excessivo poder do PMDB deixem Temer ao relento e descarreguem votos em Aldo ou mesmo em Ciro Nogueira (PP-PI). Cálculos do partido indicam que aproximadamente 12 petistas, capitaneados pelo deputado Domingos Dutra (MA), trairão Temer.

"A votação é secreta, não há como fazer a conferência dos votos", argumentou a líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC). No diagnóstico de Viana, a nova correlação de forças no Congresso afetará as alianças para a eleição presidencial de 2010. "O PMDB, no comando da Câmara e do Senado, provoca um desequilíbrio partidário que pode afetar tanto a candidatura de Dilma (Rousseff) como a de (José) Serra", observou.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

No Senado, Lula é Sarney e Serra é Tião

A política brasileira é engraçada e engana muita gente. Na disputa pelo comando do Senado são dois os candidatos: José Sarney, do PMDB do Amapá, e Tião Viana, do PT do Acre. Todos os analistas bem informados sabem que o presidente Lula prefere a vitória de Sarney, embora não revele em público e provavelmente não trabalhe com afinco por ela, para não melindrar os petistas. Por outro lado, o PSDB está fazendo bico, ainda não optou por nenhum dos candidatos, mas um dos principais lideres do partido, o governador José Serra, trabalha para que os tucanos escolham o petista Viana. Serra detesta Sarney e sabe que ele trabalharia pela aliança de seu partido com o PT em 2010, ao passo que Viana seria mais "neutro" na relação com a oposição, de acordo com a avaliação do governador, que por sinal mantém ótimas relações com o senador acreano. A "bancada de Serra" no Senado, capitaneada por Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) - nome cotado para vice, caso o PMDB venha a apoiar o PSDB -, está em campanha por Tião Viana. Já os peemedebistas lulistas, como Renan Calheiros, trabalham forte para eleger Sarney. O palpite deste blog é que Sarney será o próximo presidente do Senado, mas convém não desprezar a força de Serra, que nos últimos tempos tem se saído muito bem como articulador político, o que não deixa de ser uma grande novidade...

Reinaldo vs. Coelho e a banca do distinto

O autor deste blog esteve lendo, no final de semana, a tal polêmica travada entre Reinaldo Azevedo e Marcelo Coelho, jornalistas da Veja e Folha, respectivamente. Para quem não leu, um resumo rápido: Coelho, em artigo na Folha, escreveu sobre os "doutores da malvadeza", referência aos colunistas da ultradireita (Reinaldão, Mainardi, Olavo e alguns outros). O texto tinha, naturalmente, um tom bastante crítico. Reinaldão acusou o golpe e escreveu vários posts em seu blog acusando Marcelo Coelho de tentar censurar as vozes da direita na imprensa. O colunista da Folha respondeu em seu blog, admitindo que havia exagerado um pouco, mas mantendo o tom do primeiro artigo, e Reinaldão mandou brasa mantendo acesa a polêmica.

Quem tiver interesse na disputa pode acessar o arquivo dos blogs dos dois jornalistas, o que interessa aqui nem é a posição de cada um: ao ler com atenção os escritos de Reinaldo no blog, repletos de grosserias contra esquerdistas, defensores do aborto, Barack Obama, Lula, Evo Morales e os índios, Chávez e latino-americanos de modo geral, este blogueiro imediatamente lembrou da letra de uma música de autoria do genial Billy Blanco, parceiro de João Gilberto, Tom Jobim e Baden Powell. Pesquisando na internet, não foi difícil recuperar a letra de "A Banca do Distinto", que segue abaixo. Vejam se não é a cara dos reinaldos, mainardis e olavos que gorjeiam na imprensa brasileira...

Não fala com pobre
Não dá mão a preto
Não carrega embrulho
Pra que tanta pose, doutor?
Por que esse orgulho?

A bruxa, que é cega, esbarra na gente e a vida estanca
O enfarte lhe pega, doutor, e acaba essa banca
A vaidade é assim: põe um pouco no alto e retira a escada
Mas fica por perto esperando sentada
Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão
Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco
Afinal, todo mundo é igual quando o tombo termina
com terra por cima e na horizontal.

Ajuda a quem ajuda

O leitor Fábio Carvalho escreve pedindo a ajuda deste blog na divulgação do site da Liga contra o Câncer, uma instituição filantrópica do Rio Grande do Norte que já tem 60 anos e se tornou um dos principais centros de oncologia do Brasil. A liga está precisando de doações e este filme explica melhor a situação da instituição e as maneiras de ajudá-la.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Míriam Leitão: Obama já errou

"O pacote fiscal de Obama é insuficiente. É menor do que o que será perdido este ano pela recessão e representa, na melhor hipótese 0,75% do PIB americano. Obama terá que ser ousado, ter medidas convincentes, para usar o momento a seu favor. Aqui, os juros caíram para 12,75%, mas precisam cair mais. Não por pressão política, mas por razões técnicas: a inflação está cedendo e a economia, derretendo."

As palavras acima foram escritas por Míriam Leitão em seu blog. Chega mesmo a ser engraçada a arrogância da colunista, que já decretou o fracasso do plano do presidente Barack Obama antes mesmo dele ser apresentado ao distinto público. Já no Brasil, a economia está "derretendo" e os juros precisam cair "por razões técnicas", não políticas.

É preciso dar um desconto para a colunista global: o mundo em que ela vivia e acreditava, da livre iniciativa, desregulamentação, do "mercadismo" desmoronou em setembro do ano passado e desde então Leitão e outros analistas que professavam fé no neoliberalismo ficaram muito confusos e nervosos, tentando se agarrar em qualquer bóia para não afundar nas profundezas do descrédito e esquecimento.

Bem, em primeiro lugar, ninguém sabe se o plano de Obama vai dar certo ou não porque ainda falta muito detalhamento sobre o plano. Míriam acha insuficiente a quantia de R$ 850 bilhões, mas é preciso saber como o novo presidente vai usar este recurso. Ela não sabe, talvez nem mesmo Obama saiba neste momento, deve estar estudando as alternativas. A crítica, portanto, é leviana.

Quanto à necessidade dos juros baixarem por "razões técnicas", trata-se de uma manjada artimanha dos conservadores, que tendem a desprezar as motivações políticas e endeusar as "técnicas". Ora, toda decisão econômica tem um fundo político. É claro que o BC leva em consideração os aspectos técnicos ao tomar suas decisões, mas no fundo a responsabilidade pela política monetária é do presidente da República, que a qualquer momento pode, no limite, demitir o presidente do BC e botar alguém alinhado com a política monetária que ele decida implantar. Leitão e demais analistas neoliberais têm como dogma o regime de metas de inflação e as demais premissas da atual política econômica (responsabilidade fiscal, alto superávit primário, etc). Lula e Meirelles podem até estar certos em manter a atual política econômica, mas ela não é necessariamente correta em qualquer situação. Se necessário for, na atual situação de crise financeira global, correções de rumo poderão ser feitas e talvez para isto seja necessário nomes novos para executar essas mudanças. É simples assim, mas Leitão certamente soltaria grunhidos estridentes contra o presidente Lula se esta hipótese se concretizar.

No fundo, ler os comentários de Míriam Leitão são bastante úteis e servem como uma bússola: se ela está pensando assim, o correto deve ser assado... Podem conferir, não tem erro!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A volta das enquetes

Já está no ar a primeira enquete DataEntrelinhas de 2009, sobre a torcida da mídia e da oposição para que a situação econômica do país piore com a crise global, de modo a derrubar a popularidade do presidente Lula. Quem, afinal, está torcendo mais para a marolinha virar tsunami? Você decide, votando na coluna ao lado.

Um bom artigo sobre Cesare Battisti

Vale a pena ler o artigo abaixo, de Sebastião Nery, publicado na edição de hoje do DCI. É uma visão um tanto diferente do caso Battisti. Vale lembrar que Nery é um crítico bastante ácido do governo Lula e, muito especialmente, do comportamento do ministro Tarso Genro (Justiça). Só que desta vez Nery acha que Tarso e Lula acertaram. Na íntegra, para os leitores do Entrelinhas.

A CABEÇA DE BATTISTI

RIO – O carrão preto, motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na Piazza Navona, em 90 e 91. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata. Um dos homens mais poderosos da Itália, conde do Papa, banqueiro de Deus, ia buscar-me para almoçar, a mim, pobre marquês, adido cultural.

Íamos aos mais discretos e charmosos restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da Itália. Às vezes o almoço foi no palacete dele, na Vila Archimede, no alto do Gianicolo, ou, em um domingo de sol, em sua casa na serra, em Grottaferrata, a poucos quilometros de Roma. Simpático, vivido, o conde Umberto Ortolani era uma figura “ambígua, misteriosa” (como dizia o “La Republica”). Mal falava, só perguntava.

Dele eu sabia que era conde da Santa Sé,“gentiluomo di sua Santitá”, banqueiro do Vaticano, socio-diretor do jornal “Corriere de la Sera”. Havia conhecido num vernissage no Masp, em São Paulo, em 84, apresentado pelo jornalista e editor José Nêumanne, do “Estado de S. Paulo”.

ORTOLANI

O que ele queria de mim? Queria o Brasil. Queria que eu convencesse o embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa a convencer o Itamaraty a lhe entregar um novo passaporte, pois tinha cidadania brasileira dada pela ditadura militar a pedido dos Mesquita do “Estado de S. Paulo” e os dois que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano lhe tomara ao descer em Roma, depois de oito anos asilado no Brasil.

Impossível. Quem tomou o passaporte foi o governo italiano. O Brasil nada tinha com aquilo. Mas ele achava que, insistindo, talvez conseguisse. Queria fugir de novo. Ou não tinha companhia melhor para sua conversa admirável sobre a política italiana e seus magníficos vinhos.

Levou-me a seu escritório na Via Condotti, 9, em cima da Bulgari :

- Desta sala saíram sete primeirios ministros: Andreotti, Craxi, etc.

UM LIVRO

O conde é uma historia exemplar do satânico poder dos banqueiros, mesmo quando, como ele, um banqueiro de Deus, vice-presidente do banco Ambrosiano, do cardeal Marcinkus, até hoje foragido nos Estados Unidos.

Os que criticam, inteiramente sem razão, o presidente Lula e o ministro Tarso Genro, por terem dado asilo político ao italiano Cesare Battisti, deviam ler um livro imperdível: “Poteri Forti” (“Fortes Poderes, o Escândalo do Banco Ambrosiano”), do jornalista italiano Ferruccio Pinotti, abrindo as entranhas do poder de corrupção do sistema financeiro, de braços dados com governos, partidos, empresários, maçonaria, mafia.

Em junho de 1982, foi encontrado estrangulado em Londres, embaixo da “Blackfriars Bridge” (“a ponte dos Irmãos Negros”), o banqueiro italiano Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, que acabava de quebrar, e tinha como diretores o cardeal Marcinkus, o conde Ortolani e o chefe da P-2 italiana (maçonaria), Licio Gelli.

MÃOS LIMPAS

Nos dias seguintes, na Itália e na Inglaterra, apareceram assassinados varios outros ligados a Calvi. (Não é só em Santo André que se limpa a área). No meio da confusão estava Ortolani, um dos quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Quando, a partir de 90, a “Operação Mãos Limpas” chegou perto deles, o conde, olhando Roma lá de cima do Gianiccolo, me dizia :

- Isso não vai acabar bem.

Depende o que é acabar bem. O ministério Publico e a Justiça enfrentaram a aliança satânica, que vinha desde 45, no fim da guerra, entre a Democracia Cristã e a máfia italiana. Houve centenas de prisões, suicídios. Nunca antes a máfia tinha sido tão encurralada e atingida. Responderam com bombas detonando carros de procuradores e juizes. Mas os grandes partidos políticos aliados (Democrata Cristão, Socialista, Liberal) explodiram. O Partido Comunista, conivente, se desintegrou. E meu amigo conde, condenado a 19 anos, morreu em 2002, aos 90 anos.

NEGRI E BATTISTI


A “Operação Mãos Limpas” não teria havido se um punhado de bravos jovens valentes e alucinados, das Brigadas Vermelhas e dos Proletarios Armados pelo Comunismo (PAC) não tivesse enfrentado o Estado mafioso.

O governo, desmoralizado, usava a máfia para elimina-los. Eles reagiam, houve mortos de lado a lado, e prisões dos lideres intelectuais, como o filósofo De Negri (asilado na França) e o romancista Cesare Battisti (asilado na França). Estava lá, vi, escrevi, acompanhei tudo.

Foram eles, os jovens rebeldes das décadas de 70 a 80, que começaram a salvar a Italia. Se não se levantassem de armas na mão, a aliança Democracia Cristã, Partido Socialista, Liberais e máfia, estaria lá até hoje. Berlusconi é o feto podre que restou, mas logo será expelido.

SALOMÉS

O corrupto Chirac, a pedido de Berlusconi, retirou o asílo politico de Battisti, que o Brasil agora lhe deu. Tarso Genro e Lula estão certos. O problema foi, era, continua político. O fascista Berlusconi (primeiro-ministro)é apoiado pelo desfrutavel velhinho comunista Giorgio Napolitano (presidente) que se escondeu quando o juiz Falcone (assassinado) e o procurador Pietro(hoje no Parlamento) fizeram a “Operação Mãos Limpas”

Não têm autoridade moral nenhuma. Por que não devolveram Caciolla, o batedor de carteira do Banco Central, quando o Brasil pediu?

As Salomés de lá e cá querem entregar a cabeça de Battisti à máfia.

Folha avisa: desemprego vai aumentar

Não deixa de ser hilária a má vontade da Folha de S. Paulo com qualquer tipo de estatística econômica que não revele a aproximação cada vez mais rápida de um verdadeiro apocalipse no Brasil, de preferência ainda sob a gestão Lula. O exemplo abaixo é bastante didático, um exercício de comparação que desnuda a torcida do pessoal que faz o diário da Barão de Limeira pelo agravamento da crise no país.

Globo Online:
Desemprego cai para 6,8% em dezembro, o menor desde 2002

Estadão.com:
Desemprego mensal no País é o menor em 6 anos

Folha Online:
Taxa de desemprego no país deve refletir crise em janeiro

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Meirelles mudou o jogo?

A decisão do Copom desta quarta-feira de reduzir a taxa básica de juros em um ponto percentual revela que o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, finalmente decidiu mudar a condução da política monetária e iniciar um ciclo de flexibilização. Alguns criticam a medida e acham a diminuição de um ponto percentual insuficiente diante da crise. Este blog acha que Meirelles pode ser muita coisa, mas burro não é. Senão vejamos: a decisão de reduzir a taxa em um ponto percentual, partindo de um Copom sabidamente conservador, já indica que nas próxima reuniões o processo de flexibilização monetária deverá continuar, com o juro básico apontando para pelo menos 11% já no primeiro semestre. Se isto de fato ocorrer, o Brasil terá o menor juro nominal desde o início do Plano Real (não é possível comparar com períodos anteriores), e a menor taxa real deste mesmo período (considerando uma inflação na casa de 5,5%, a taxa real cairia para pouco mais de 6%).

Como se vê, não é pouca coisa. Politicamente, pode ajudar bastante o discurso do "nunca antes neste país" do presidente Lula. Não vai tirar Meirelles da linha de tiro dos críticos, até porque muita crítica não passa de demagogia barata. Um Paulo Skaf, da Fiesp, por exemplo, dizendo que a redução foi de "apenas 1 ponto" é ridículo porque nem sequer espelha o que pensam os industriais paulistas, muitos dos quais rentistas e fiéis defensores da ortodoxia que o atual presidente do BC encarna.

De toda maneira, o rumo está correto, a queda da taxa básica era o que todos esperavam. Resta agora prestar atenção para o comportamento dos bancos, financeiras e do comércio em geral. A baixa do juro na ponta será repassada para o consumidor? Em que montante? A partir de amanhã, essa resposta deve começar a aparecer nas ruas, no mundo real. É ver para crer.

Obama começou bem

A decisão do novo presidente norte-americano de suspender os julgamentos na base naval de Guantánamo, acatada hoje pela justiça local, é uma boa sinalização inicial para o governo de Barack Obama. Não dá para julgar ninguém no primeiro dia de trabalho, mas pelo menos simbolicamente já foi um ato forte. Fechar a base é o próximo passo e certamente está no horizonte do presidente. Claro que todos os olhos agora estão focados na economia, mas Obama também vai fazer muita política. Talvez ele surpreenda negativamente os neocons - basta ler o blog de Reinaldo Azevedo para ver que a turminha acha que o novo presidente vai ser mais "um dos seus", ou seja, não conseguirá fugir do script ultra-conservador de George W. Bush. Ainda é mesmo muito cedo para tentar fazer previsões, mas o primeiro ato de Obama aponta para uma outra direção, bem diferente. Para o bem do planeta, é bom que os neocons esteja errado e Obama realize um governo arrojado e repleto de novidades, na economia e na política.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Krugman propõe nacionalização de bancos

Vale a pena ler até o fimo artigo abaixo, publicado no excelente Terra Magazine. Trata-se de uma análise do prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, colunista do jornal The New York Times, bastante instigante e lúcida sobre a atual relutância do governo americano em fazer o que deve ser feito: nacionalizar os bancões semi-falidos que sobrevivem como zumbis e só fazem piorar as expectativas de solução para a crise financeira global. A seguir, na íntegra, para os leitores do Entrelinhas. Ler Krugman faz bem à saúde...

Vodu de Wall Street

Paul Krugman
Do New York Times

A economia vodu de antigamente - a crença na mágica de cortes de impostos - foi banida do discurso civilizado. O culto do lado da oferta encolheu ao ponto de conter apenas excêntricos, charlatões e republicanos.

Mas reportagens recentes sugerem que muitas pessoas influentes, incluindo funcionários da Reserva Federal, agências regulatórias dos bancos e, possivelmente, membros da nova administração de Obama, tornaram-se devotos de um novo tipo de vodu: a crença de que realizando rituais financeiros complexos podemos manter os bancos mortos de pé.

Para explicar esta questão, deixe-me descrever a posição de um banco hipotético que chamarei de Gothamgroup, ou Gotham, em resumo.

No papel, Gotham tem US$2 trilhões em ativos e US$1,9 trilhão em dívidas, de forma que ele tem um patrimônio líquido de US$100 bilhões. Mas uma parcela substancial de seus ativos - vamos dizer, no valor de US$400 bilhões - são valores mobiliários apoiados por hipotecas e outros lixos tóxicos. Se o banco tentasse vender estes ativos, conseguiria não mais que US$200 bilhões.

Então Gotham é um banco zumbi: ainda está operando, mas a realidade é que já foi pro buraco. Suas ações não estão totalmente sem valor comercial - ainda têm uma capitalização de mercado de US$20 bilhões - mas este valor é totalmente baseado na esperança de que os acionistas serão resgatados por uma operação de salvamento promovida pelo governo.

Por que o governo resgataria Gotham? Porque ele desempenha um papel central no sistema financeiro. Quando se permitiu que Lehman fracassasse, os mercados financeiros congelaram e por algumas semanas a economia mundial balançou à beira de um colapso. Já que não queremos uma reprise, Gotham precisa ser mantido em funcionamento. Mas como isto pode ser feito?

Bem, o governo poderia simplesmente dar a Gotham algumas centenas de bilhões de dólares, o suficiente para torná-lo solvente de novo. Mas isto, claro, seria um presente enorme para os atuais acionistas de Gotham - e também encorajaria uma propensão excessiva ao risco no futuro. Ainda assim, a possibilidade de tal presente é o que está apoiando o preço das ações de Gotham.

Uma abordagem melhor seria fazer o que o governo fez com as poupanças e empréstimos zumbis no final dos anos 1980: apoderou-se dos bancos extintos, limpando os acionistas. Então transferiu os seus ativos ruins para uma instituição especial, a Resolution Trust Corp,; liquidou o suficiente dos débitos dos bancos para torná-los solventes; e vendeu os bancos consertados para novos donos.

A agitação atual sugere, no entanto, que as autoridades não desejam fazer uso de qualquer uma destas abordagens. Ao invés disto, elas estão supostamente gravitando na direção de uma abordagem de acordo: retirar o lixo tóxico dos balancetes dos bancos privados para um "banco ruim" ou "banco agregador" de capital aberto, que lembraria a Resolution Trust Corp., mas sem se apoderar dos bancos primeiro.

Sheila Bair, presidenta da Federal Deposit Insurance Corp., tentou recentemente descrever como isto funcionaria: "o banco agregador compraria os ativos a um valor justo". Mas o que significa "valor justo"?

No meu exemplo, o Gothamgroup está insolvente porque os supostos US$400 bilhões de lixo tóxico nos seus livros na verdade valem apenas US$200 bilhões. A única maneira de uma compra daquele lixo tóxico por parte do governo poder tornar o Gotham solvente novamente é se o governo pagar mais do que os compradores privados estão dispostos a oferecer.

Agora, talvez os compradores privados não estejam dispostos a pagar o que o lixo tóxico realmente vale: "não temos realmente qualquer precificação racional para algumas destas categorias de ativos", diz Blair. Mas o governo deveria estar no negócio de declarar que sabe melhor do que o mercado quanto valem os ativos? E será mesmo que pagando o "preço justo", ou o que quer que isto signifique, seria suficiente para tornar Gotham solvente de novo?

O que eu suspeito é que as autoridades - possivelmente sem se dar conta - estão se preparando para empreender um uso da técnica "bait and switch" (lançar a isca e "fisgar" o cliente): uma política que se parece com a limpeza das poupanças e empréstimos, mas na prática equivale a dar enormes presentes aos acionistas dos bancos à custa do contribuinte, disfarçado de compras de ativos tóxicos "a um preço justo".

Por que passar por estas contorções? A resposta parece ser que Washington continua com um medo mortal da palavra que começa com N - nacionalização. A verdade é que o Gothamgroup e suas instituições irmãs já são divisões do Estado, completamente dependentes do apoio do contribuinte, mas ninguém quer reconhecer este fato e implementar a solução óbvia: uma tomada de controle explícita, embora temporária, por parte do governo. Por isso a popularidade do novo vodu, que alega, como eu disse, que rituais financeiros complexos podem reanimar bancos falecidos.

Infelizmente, o preço deste refúgio na superstição pode ser alto. Espero estar errado, mas eu suspeito que os contribuintes estão para receber outro negócio ruim - e que estamos para ganhar outro plano de resgate financeiro que falha no seu objetivo.

Uma boa notícia no meio de várias ruins

A reportagem abaixo, do UOL, é um alento em meio a tantas péssimas notícias da semana (emprego formal em queda, demissões em alta, mercados nervosos com a saúde dos bancos norte-americanos etc). Este blog desconfia que a matéria não terá muito destaque nos jornais de amanhã, Folha de S. Paulo à frente...

Venda de novos no país sobe 9% em relação a dezembro e GM assume frente

Classic/Corsa sedã em 2º, a apenas 1.600 unidades do Gol
A Fenabrave (Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores) divulgou sua primeira lista de vendas referente a 2009, tendo como base o mercado de veículos novos na primeira quinzena de janeiro. E a lista traz surpresas: no mercado de carros de passeio, a liderança no período ficou com a GM, que deixou Fiat e Volkswagen para trás. Isso ocorreu, principalmente, por conta do desempenho de sua linha de sedãs Corsa/Classic, que se não derrubou o Gol da posição de carro mais querido pelo consumidor brasileiro, conseguiu se aproximar bastante do líder virtualmente imbatível.

Nos 15 dias iniciais de janeiro de 2009, o total de automóveis e veículos comerciais leves emplacados chegou a 94.547 unidades (79.477 carros e 15.070 comercias leves), contra 86.619 do mesmo período de dezembro de 2008. A alta, portanto, foi de 9,15%, índice que havia sido antecipado pela Ford na última semana.

Houve queda, porém, na comparação com janeiro de 2008, de 1,22%, mas o ambiente era outro. Diferente da euforia e expectativa de ascensão, que marcava o mercado há um ano, o começo de 2009 chega com receio por parte das montadoras, que só não é maior por conta da ajuda governamental -- os anúncios de incentivo ao crédito e da redução do IPI até 31 de março já haviam alavancado as vendas em dezembro último e repetem a dose no começo deste ano.

# Veja, na íntegra, o relatório da Fenabrave para a primeira quinzena de janeiro de 2009

# Acompanhe, no Blog da Redação, a lista de lançamentos para o ano

GM À FRENTE
É neste cenário, permeado também por "feirões" e "saldões" de fábrica, que a GM soube se portar melhor que as rivais para obter 22,80% de participação no mercado de carros novos. Numa conta rápida, de 79.477 novas unidades vendidas, pouco mais de 18 mil ostentam a gravatinha dourada da marca Chevrolet.

A liderança, de toda forma, é pequena e localizada. A Fiat aparece logo na sequência, com 22,55%, e mantém o posto de principal montadora do país, uma vez que lidera também o ranking de veículos comerciais leves (19,15% de participação). A Volkswagen é a terceira colocada, com 21,85% das novas unidades vendidas. Ford (11,34%), Renault (5,52%), Honda (5,51%), Citroën (3,55%), Peugeot (3,27%) e Toyota (1,64%) completam a lista, enquanto montadoras menores, juntas, respondem por 0,98% do mercado.

SEDÃS CORSA COLAM NO LÍDER
Na listagem abaixo, que mostra os 15 modelos de maiores vendas na primeira quinzena do mês, na soma das categorias veículos de passeio e comerciais leves, percebe-se a "explosão" do Corsa sedã/Classic no período, vendendo 6.537 unidades em apenas quinze dias, quase a mesma quantidade de carros comercializados em todo o mês de dezembro de 2008 (foram 6.866).

Com isso, as duas gerações do modelo da Chevrolet (que contam como um modelo no ranking da Fenabrave) ficaram a apenas 1.600 unidades do Gol, referência absoluta para a indústria nacional, desta vez com 8.195 unidades vendidas. E, consequentemente, deixaram para trás a dupla de ataque da Fiat, Mille e Palio, que haviam se acostumado a alternar posições na vice-liderança ao longo do último ano.

Fica claro, também, o domínio das montadoras GM e Fiat, que sozinhas respondem por metade deste ranking, com quatro modelos cada: além do sedã Corsa em suas diferentes gerações, a primeira ainda colocou Celta, Corsa e Prisma na listagem; a Fiat, por sua vez emplacou Mille, Palio, Siena e Strada. Confira:

1º) Volkswagen Gol - 8.195 unidades
2º) Chevrolet Corsa/Classic - 6.537
3º) Fiat Mille - 5.587
4º) Fiat Palio - 5.145
5º) Chevrolet Celta - 3.815
6º) Fiat Siena - 3.086
7º) Ford Fiesta hatch - 3.058
8º) Ford Ka - 2.844
9º) Honda Civic - 2.659
10º) Volkswagen Fox/CrossFox - 2.533
11º) Fiat Strada - 2.033
12º) Chevrolet Prisma - 1.908
13º) Ford EcoSport - 1.870
14º) Chevrolet Corsa hatch - 1.779
15º) Volkswagen Voyage - 1.733

Na crise, o dinheiro muda de mão

A matéria abaixo, da Folha Online, é emblemática de uma situação que se repete em toda crise econômica: muita gente perde (empregos, patrimônio, renda etc), mas por outro lado há os que ganham e crescem nessas situações. O jornal de maior prestígio dos Estados Unidos ainda não foi vendido, mas a reportagem deixa claro que o empresário mexicano Carlos Slim Helú está "comendo pelas beiradas" e pode acabar dono do The New York Times no futuro. Não deixa de ser irônico: Slim, de origem árabe, pode acabar com a dinastia dos judeus Sulzbergs.

No fundo, a crise que afetou os EUA está arrebentando com diversos símbolos do império norte-americano: a Budweiser, cerveja-símbolo do país, foi comprada pelos belgas; o Citibank, que já foi o maior banco do país, pode acabar nas mãos de árabes e/ou chineses; a Crhysler anunciou hoje a venda de 35% da empresa para a italiana Fiat... Há muitos outros exemplos que apenas comprovam a tese de que se há muita gente perdendo dinheiro, há outros tantos ganhando. Só no final da crise, porém, será possível dizer quem se deu bem durante as turbulências, até porque comprar baratinho uma empresa ou ativo carregado de dívidas, com passivo desconhecido nem sempre é um bom negócio. A ver, como se diz por aí.

Empresário Carlos Slim injeta US$ 250 milhões no "New York Times"

O diário americano "The New York Times" ("NYT") informou nesta segunda-feira que chegou a um acordo com o bilionário mexicano Carlos Slim Helú para receber um empréstimo de US$ 250 milhões. Com o dinheiro, o jornal pretende sanar seus problemas financeiros, segundo reportagem do próprio jornal publicada na edição desta terça-feira.

Pelos termos do acordo, Slim --que já possui 6,9% da Times Company-- vai investir os US$ 250 milhões em títulos com vencimento em seis anos e garantias de convertibilidade em ações ordinárias, segundo comunicado. Os títulos também terão juros de 14% --11% pagos em dinheiro e 3% em títulos adicionais.

O principal problema do grupo é uma linha de crédito de US$ 400 milhões que vence em maio, e cujo pagamento está ficando complicado por causa da queda das vendas. Nos próximos anos, segundo a reportagem, o "NYT" tem dívidas de US$ 1,1 bilhão a pagar.

No começo de dezembro, o grupo anunciou que poderia hipotecar sua sede central em Manhattan com o objetivo de obter novo financiamento.

Igualmente, o grupo procura comprador para sua participação de 17,5% na equipe de beisebol Boston Red Sox, que está avaliada em cerca de US$ 150 milhões.

"Esse acordo nos oferece uma flexibilidade financeira para continuar a executar nossa estratégia de longo prazo", disse a executiva-chefe da Times Company, Janet Robinson. "Continuamos a explorar outras iniciativas financeiras e estamos focalizando na redução de nossa dívida total através do dinheiro que gerarmos com nossas atividades e outros passos decisivos."

Slim não terá representantes na diretoria da empresa nem ações com direitos especiais de votos, como os da família Sulzberger, que controla o grupo. No entanto, quando exercer o direito de conversão de seus títulos, Slim se tornará o maior acionista individual da Times Company, com até 17% das ações.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Serra apara arestas e nomeia Alckmin

O governador José Serra (PSDB) está levando bem a sério a sua tentativa de suceder o presidente Lula em 2010. Nesta segunda-feira, anuncia a nomeação de Geraldo Alckmin para a secretaria do Desenvolvimento de São Paulo. Todo o meio político paulista sabe o que Serra pensa de Alckmin. Coisa boa, não é. A atitude do ex-governador de sair candidato à prefeitura de São Paulo no ano passado irritou profundamente não apenas o governador, mas todo tucanato ligado a Serra. Em off, especialmente, os serristas se referiam a Alckmin de maneira no mínimo bastante deselegante.

Como diz o ditado, porém, águas passadas não movem moinhos. Serra agora está olhando para frente e não quer permitir dissidências em São Paulo, tendo o colega mineiro Aécio Neves em seu encalço pela vaga de presidenciável do PSDB. Resolveu então compor com Alckmin, que para a surpresa de muita gente aceitou a migalha oferecida pelo governador. Sim, porque a secretaria de Desenvolvimento não é nenhuma Brastemp, não tem dinheiro nem visibilidade, a grande vedete da pasta é a Fatec... Talvez a surra tomada na eleição municipal tenha acendido um sinal amarelo entre os alckmistas, levando o líder da turma a aceitar o cargo para manter-se em evidência na mídia. A menos, e esta é uma hipótese para ser levada em consideração, que a nomeação de Alckmin tenha passado por uma negociação mais ampla, envolvendo a vaga de candidato a governador pelo PSDB em 2010.

Neste caso, Alckmin estaria no time de Serra não pela secretaria chinfrim que recebeu, mas pela promessa da vaga de postulante ao Bandeirantes no próximo ano. Uma chapa que poderia contar com um nome do DEM - talvez Afif Domingos - na vaga de vice e o peemedebista Orestes Quércia concorrendo ao Senado. Nomes bem mais consistentes em termos eleitorais do que o do secretário Aloysio Nunes Ferreira, preferido de Serra para a disputa do governo.

Caged e o "quanto pior, melhor"

Em 2008, o saldo de empregos formais foi positivo em quase 1,5 milhão de vagas – foram contratados 16,659 milhões de trabalhadores e dispensados 15,2 milhões. Este foi o terceiro melhor desempenho anual do emprego formal desde que o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) começou a realizar a pesquisa, em 1999. A meta do governo, porém, era atingir o saldo de 2 milhões no ano passado. E isto só não aconteceu porque em dezembro o saldo ficou negativo em 655 mil.

O número de dezembro deve ser analisado com cuidado. Todo último mês do ano há mais demissões do que contratações, mas o que se viu no ano passado superou de longe a média da série histórica, de 300 mil a 400 mil dispensas em dezembro. Portanto, o que aconteceu ou foi o início de uma nova tendência, qual seja a de aumento brutal no desemprego (ou seja, o ponto de inflexão na curva); ou o que os estatísticos chamam de "ponto fora da curva", uma ocorrência anormal e que não aponta a tendência.

Só com os dados de janeiro será possível saber qual o rumo do mercado de trabalho no país. Até lá, evidentemente a grande imprensa vai comemorar com muita alegria a desgraça dos trabalhadores e, imaginam, do governo federal e do presidente, em especial. O que, aliás, vai ocorrer durante todo o ano de 2009 no noticiário econômico: toda boa notícia será escondida e quanto pior o número para o governo, maior o destaque no noticiário...

A vez de Barack Obama

O mundo inteiro está de olho na posse, amanhã, do primeiro presidente da República negro nos Estados Unidos, o democrata Barack Hussein Obama. A expectativa é tanto maior em função da monstruosa crise econômica que Obama herdará e terá que resolver. Por aqui, alguns analistas, como a sempre pândega Míriam Leitão, já estão torcendo para que o povo americano cobre do novo presidente uma solução rápida para os problemas e, caso ele não consiga dar conta do serviço, comece a rejeitá-lo. Leitão, em particular, acha mesmo que isto vai acontecer: "ao fim dos primeiros seis meses, a piora parecerá obra de Obama. É da natureza das sociedades democráticas, e abertas a cobrança sobre os governantes, a impaciência na espera dos resultados", escreveu a jornalista em seu blog.

O vaticínio de Míriam Leitão na verdade é um desejo que vale para Obama e para Lula. Desejo este, por sinal, de praticamente toda a grande imprensa nacional: de que ambos, Obama e Lula, se esborrachem na crise e acabem na lona, com a população pedido suas cabeças.

O problema todo é que a "análise" dessa gente é puro "wishfull thinking", como se diz na língua pátria do professor Mangabeira Unger. O povão é menos estúpido do que supõem os conservadores: este blog aposta que, lá como cá, todo mundo vai entender que a "culpa" da crise pode ser de muita gente, mas de Lula e Obama, definitivamente não é. E isto faz toda a diferença, o resultado aparece quando os pesquisadores vão para a rua perguntar ao povaréu que avaliação faz de seus chefes de Estado.

É evidente que Obama vai ter que mostrar serviço – e, pelo menos aparentemente, ele já tem um plano de vôo para enfrentar a situação –, mas a verdade é que politicamente ele já está agindo para serenar os ânimos ao dizer que a crise vai ser longa e não há milagre a ser feito no curto prazo. Para usar outra expressão da língua do professor Mangabeira, Obama está fazendo hedge, deixando claro que a herança maldita que herdará de George W. Bush é muito mais grave do que o povão está imaginando que seja. Desta maneira, se os problemas realmente só forem sanáveis a longo prazo, Obama terá dito que não foi por falta de aviso. Se, no entanto, lá por 2010 os EUA voltarem a crescer forte, o presidente poderá se apresentar como o grande estadista que debelou a maior crise da história do capitalismo. Reeleição garantida, por certo.

Segundo as pesquisas divulgadas nesta segunda-feira, Obama assume a presidência com uma popularidade à la Lula, de 79%. Apesar de todos os preconceitos existentes nos Estados Unidos, o primeiro negro a governar o país tem a confiança do seu povo. Terá pela frente um desafio monumental. Do lado de cá do Rio Grande, só nos resta confiar no taco de Obama, porque muito dos nossos problemas só serão resolvidos se os dos Estados Unidos também forem. Dedos cruzados, ora pois...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Gripe conveniente

O senador José Sarney (PMDB-AP) pode ser acusado de muita coisa – e os seus adversários locais falam horrores da situação do Maranhão após a longa dinastia da família no Estado–, mas é preciso reconhecer que Sarney é um craque da política. Cinco ou seis meses atrás, um empreiteiro do Nordeste contou a uma fonte deste blog que emissários do senador avisavam que ele "não abria mão" da presidência do Senado e já estava em campanha. Em público, porém, Sarney jamais assume a sua candidatura e vai esticando a corda até mais não poder. Já faz alguns dias que vem alegando uma gripe para evitar um encontro com o presidente Lula, que deseja saber se Sarney realmente disputará a eleição no Senado. Lula quer Sarney na presidência da Casa, mas é preciso que o candidato se assuma enquanto tal. O problema é que o PT não está gostando muito da idéia de ver o PMDB no comando das duas casas legislativas. Sarney sabe disto e vai enrolar mais um pouco para anunciar a sua candidatura, a fim de reduzir o tempo de articulação dos petistas em torno de uma outra candidatura na Câmara Federal. No fundo, porém, o grande prejudicado com isto tudo é o deputado Michel Temer (PMDB-SP), candidato à presidência da Câmara. Para este blog, não será surpresa se Temer acordar como o patinho feio do Congresso no dia 3 de fevereiro, após a eleição do dia 2...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Gomes de Almeida explica a
queda da atividade industrial

O que vai abaixo é o artigo do sempre lúcido Julio Gomes de Almeida, professor de economia da Unicamp, sobre a brecada da atividade industrial no país. Originalmente publicado no cada vez melhor portal Terra Magazine, que ganhou colunistas do porte de Noam Chomsky, Paul Krugman e Umberto Eco, o texto merece ser lido na íntegra.

O significado da retração da indústria

Julio Gomes de Almeida

A última pesquisa industrial do IBGE confirma a gravidade e a amplitude dos efeitos da atual crise externa sobre o setor industrial brasileiro. Este ainda é o eixo dinâmico da economia e é também - apesar de ter expressão muito menor no PIB do que o setor de serviços - quem dita o desempenho do crescimento econômico como um todo do país.

A queda de 5,2% na produção industrial em novembro com relação a outubro, associada ao recuo de 2,7% no mês anterior, resulta em um revés acumulado de quase 8%, o que já faz com que a indústria retroceda sua produção para o nível equivalente a maio do ano passado. Em nenhum outro início de retrações dos últimos 15 anos a indústria brasileira acumulou em tão pouco tempo declínio semelhante.

Esses resultados não parecem confirmar projeções da OECD para 35 países, divulgadas nessa segunda-feira, segundo as quais o Brasil será o único a escapar de uma forte desaceleração econômica nos próximos seis meses. A nosso ver, uma forte desaceleração, ou mais do que isso, uma significativa retração da economia deflagrada por uma recessão industrial, já está em curso.

As causas desse resultado industrial negativo devem ser cuidadosamente explicitadas para que se tenha presente os instrumentos de política adequados para minimizar o impacto da crise. Em primeiro lugar, é preciso observar que a restrição do crédito que se abateu sobre a economia brasileira foi dramática, seja pela escassez de financiamento externo, seja também pelo enorme conservadorismo com que as instituições financiadoras internas (exceção para o BNDES) repercutiram a crise externa.

O Banco Central não atuou bem em minimizar esses impactos sobre o crédito, limitando-se a ampliar a liquidez do sistema bancário como se isso bastasse para reativar o crédito. Este continua raro e muitíssimo mais caro do que há poucos meses atrás. São requeridas medidas mais diretas e mais arrojadas, nos moldes em que os bancos centrais de outros países vêm realizando, para reabastecer a economia de seu financiamento corrente. Isso talvez não faça com que o setor industrial recupere a produção já perdida, mas pode reduzir a intensidade de sua trajetória negativa e conter as repercussões da retração industrial sobre os demais setores da economia.

Em segundo lugar, as expectativas dos agentes internos, quais sejam investidores e consumidores com acesso ao crédito, acusaram um verdadeiro colapso, em parte porque a política monetária e cambial foi passiva diante dos efeitos internos da crise internacional.

Reduzir rapidamente a taxa básica de juros, atuar para neutralizar a instabilidade do mercado de câmbio motivada por ondas especulativas, reafirmar ou mesmo potencializar os investimentos públicos e garantir os recursos de longo prazo com que as agências de fomento contam para financiar os investimentos privados, seriam ações importantes de um "pacote" anti-recessão do Brasil. Seria relevante ainda premiar com um super incentivo de depreciação acelerada os projetos de inversão em 2009.

Essas medidas talvez também não consigam recuperar o terreno já perdido na indústria, mas, conjugadas às ações no crédito, poderão contribuir para conter a tendência descendente da economia.

Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Palpite do blog: Aldo e Sarney

Sim, ainda é muito cedo para apostar, mas este blog acha que vai dar Aldo Rebelo (PCdoB) na eleição da mesa da Câmara e José Sarney (PMDB), no Senado, com direito a prêmio de consolação para o deputado Michel Temer (PMDB). Lula não é bobo, a dupla Aldo-Sarney é muito mais confiável do que Temer-Viana. É óbvio, por outro lado, que o presidente não vai sair por aí dizendo isto...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Crise? Que crise?

Abaixo, a capa da Agência Senado, que não nos deixa mentir: o mundo pode estar desabando, mas são bem outras as preocupações dos parlamentares brasileiros...
Quem se interessou pela manchete do portal pode ler a íntegra da matéria clicando aqui.

Folha torce para crise se agravar

Outro excelente artigo do Observatório da Imprensa, que corrobora o que este blog escreveu ontem. Na íntegra para os leitores do Entrelinhas.


LEITURAS DA FOLHA
Uma notícia, duas versões

Por Luciano Martins Costa em 13/1/2009
Comentário para o programa radiofônico do OI, 13/1/2009

A notícia é o relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre a situação das maiores economias do mundo frente à crise global.

O Estado de S.Paulo e o Globo seguem a tendência das agências internacionais e anunciam que o Brasil será o menos afetado e terá o melhor desempenho em 35 países estudados, entre os quais os 11 mais desenvolvidos. Mas a Folha de S.Paulo vai na contramão e prefere destacar que o Brasil está cada vez mais próximo de um ciclo de desaceleração, embora permaneça como a única entre as principais economias mundiais que ainda apresenta um cenário positivo.

O leitor mais atento deve se perguntar: o que define a escolha de um editor, diante de um relatório técnico sobre o qual as interpretações também deveriam seguir o mesmo critério técnico?

Embora o conteúdo das reportagens dos três jornais seja rigorosamente o mesmo, o leitor da Folha tende a ficar mais pessimista com o título: "Brasil está próximo de desaceleração, diz OCDE".

Compare-se, por exemplo, com o que induz o título do Globo: "OCDE – Brasil sofrerá menos com crise". Ou com o título do Estadão: "Para OCDE, Brasil é o menos atingido pela crise".

Lidos os textos publicados pelos três principais jornais brasileiros, e comparados com as versões disponíveis na internet, observa-se que não há elementos para a escolha de um título pessimista. O que predomina no estado de espírito que se irá formar no leitor é a mera escolha do editor. Nem no conjunto de indicadores, nem nos indicadores específicos sobre desemprego, as informações originais induzem a uma interpretação diferente da que deram à notícia o Globo e o Estadão.

Mas o editor da Folha resolveu puxar para baixo, e isso basta.

Torcida contra

Observando-se o conteúdo geral do noticiário e alguns artigos publicados nos últimos dias, constata-se que o Brasil se destaca no cenário global por sua menor exposição aos riscos que atingem a economia real.

O crescimento do mercado interno, produzido por uma década de medidas estabilizadoras e cinco anos de políticas efetivas de inclusão social, e a diversificação das relações de negócios, com maior presença no mercado latino americano e menor dependência dos Estados Unidos, são apontados por instituições e analistas como os motivos do melhor posicionamento do Brasil.

No entanto, os jornais brasileiros têm preferido dar destaque às notícias isoladas sobre dificuldades de alguns setores.

No fim das contas, é o senso crítico do leitor que vai predominar. Mas não há otimismo que dure com tanta torcida contra.

Dines analisa azia de Lula

Está muito interessante o texto abaixo, do jornalista Alberto Dines, sobre a entrevista do presidente Lula à revista Piauí, originalmente publicado no Observatório da Imprensa. Na íntegra, para os leitores do blog.

AZIAS & ALKA-SELTZER
Bem-vindo ao Observatório, presidente!

Por Alberto Dines em 13/1/2009

O ano começou com um bom debate. Debate sobre a imprensa na imprensa é coisa rara desde o momento em que o assunto foi expurgado pelo pool da grande mídia. E neste comecinho do ano, com metade do país em recesso e a outra metade na sombra, o desempenho da imprensa foi discutido pelo presidente da República em pessoa!

O pronunciamiento está na edição de janeiro da excelente piauí (págs. 18-20), a revista mais bem escrita e mais bem editada do Brasil. Esvoaçou pelos jornais (apenas o Estado de S.Paulo comentou em editorial, em 8/1), azedou o humor de poucos colunistas e até provocou a inédita republicação em versão integral (OI e Folha Online, em 9/1, e O Globo, em 10/1, pág. 8).

A reprodução de O Globo veio acompanhada pela informação de que a versão completa foi distribuída pelo Planalto. Não é verdade: as íntegras de todas as manifestações do presidente são disponibilizadas no site da Secretaria de Imprensa da Presidência da República, vinculada à Secretaria de Comunicação Social (Secom).

O assunto morreu e ninguém tentou exumá-lo. O presidente de uma república democrática afirma solenemente que "a imprensa brasileira tem um comportamento histórico em relação a mim", acrescenta que não lê jornais ou revistas "por que tem problemas de azia", anuncia a obsolescência da mídia impressa diante da internet e ponto final, estamos conversados.

"Questões mercadológicas"

Não estamos: o cidadão-leitor ficou preocupado com a azia (ou pirose) presidencial. Lula vai bem, obrigado, a saúde está ótima, a qualidade das metáforas é que caiu ligeiramente. E o bordão "ou seja" usado com tanta freqüência prejudica a compreensão da frase que pretende explicitar.

O texto da piauí registra que Lula repetiu duas vezes a afirmação de que a sua ascensão à presidência "é produto direto da liberdade de imprensa" e foi enfático ao dizer que não precisa da imprensa para informar-se: "Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns trinta jornais na cabeça todo santo dia... Não há hipótese de eu estar mal informado".

O presidente listou alguns pecados clássicos da imprensa (Escola Base etc.), citou distorções e os casos em que foi obrigado a agir judicialmente contra veículos jornalísticos (Folha de S.Paulo e Rede Bandeirantes). Não há má-fé, segundo Lula, apenas "questões mercadológicas". Sensacionalismo, conclui o autor da matéria Mario Sergio Conti, diretor do mensário desde a sua criação.

Sem embargos

A parte final da entrevista consistiu numa espécie de miniprêmio Esso às estrelas do colunismo conferido pelo chefe da nação. O repórter citava um nome e o presidente sapecava a sua nota. A matéria de piauí reproduziu todos os nomes e respectivos pareceres. Omitiu Mino Carta, não é justo.

A grande verdade é que a matéria de piauí é menos importante pelo que publicou e muito mais pelo que deixou de publicar. Mario Sergio Conti é um dos mais competentes editores de revista do país e certamente tem argumentos para explicar porque uma entrevista exclusiva concedida por um presidente da República tão avesso a entrevistas pessoais sofreu tamanho corte. Tamanha manipulação – esta é a palavra.

O autor da entrevista deve esta explicação à sociedade, aos demais jornalistas, aos historiadores. O que diz um presidente da República num encontro formal, agendado e gravado, não pode estar sujeito a embargos de qualquer natureza. Faz parte da história.

Saldos e balanços

A entrevista aconteceu no dia 18 de dezembro, véspera das festas de fim de ano. A edição de janeiro deveria estar nas bancas na primeira semana útil do ano e, certamente, só ficaram abertas aquelas três pagininhas. O que fazer – reabrir a edição correndo o risco de atrasar a distribuição ou adiar a publicação para fevereiro?

Óbvio, ululante: não se amputa um pronunciamento presidencial. Sob nenhum pretexto. Mesmo que entre entrevistador e entrevistado existam vínculos pessoais, antigas empatias, a função social do jornalista obriga-o a ser rigorosamente fiel ao que foi dito e ouvido. Fiel no tocante ao teor e fiel no tocante à extensão. Um jornalista não tem mandato para avaliar ou eliminar partes de uma manifestação presidencial. A não ser que esteja a serviço do governo. Não é o caso.

A versão publicada pela piauí tem no máximo um terço da íntegra divulgada pela Secom. Justifica-se uma adaptação do texto à linguagem escrita, justificam-se cortes de palavras (ou palavrões) inaudíveis. Injustificável foi a severa compressão. Ou supressão.

Pela íntegra (ver "Presidente com azia da imprensa") percebe-se que o presidente Lula não quer brigar com a imprensa enquanto instituição. É um extraordinário avanço, admirável trabalho de pacificação empreendido pelo ministro Franklin Martins (que num dos momentos da versão impressa aparece como "ministro Franklin de Oliveira"; tudo bem, lembrar o admirável Franklin de Oliveira é sempre oportuno).

Enquanto evita o confronto institucional com a mídia, Lula mostra que não engole certos jornalistas. Daí a azia. Está no seu direito gostar ou não gostar de alguém. O que não pode é manifestar publicamente as antipatias. Equivale a veto, soa como ameaça.

Saldo do episódio: perdeu-se formidável oportunidade de promover um grande e salutar debate sobre a nossa imprensa. Fomos todos relegados à esfera gástrica. Não merecemos.

O presidente está tinindo. Pronto para participar do Observatório da Imprensa. Vai gostar: as entrevistas não são editadas.

***

Num dos trechos eliminados, o presidente Lula rebate a acusação de que o governo ajuda pequenos veículos com grandes verbas de publicidade oficial. Lula alega que a distribuição de verbas obedece a critérios técnicos, não há privilégios. "Não é assim que eu trabalho."

Na última edição de CartaCapital foram publicadas 11 páginas de anúncios: seis pagas por entidades federais e governos estaduais do PT: 54,5%.

***

Para entrar no clima da piauí, mensagem aos companheiros do watch-room do Planalto: este observador é admirador de Lev Davidovitch Bronstein desde o início dos anos 1950. E enquanto espera o entrevistado poderá trocar alguns dedos de prosa com Clara Ant em idisch (e não iídiche).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Brasil é único a escapar de desaceleração;
será que também foi por mérito de FHC?

A notícia abaixo, da BBC Brasil, revela que o Brasil deverá ser o único país, entre 35 pesquisados pela OCDE, a escapar dos efeitos mais contundentes da crise financeira global. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o país não sofrerá uma forte desaceleração da economia em 2009.

Este blog aposta que nove entre dez colunistas econômicos que escrevem nos jornalões atribuirão o bom desempenho brasileiro aos "fundamentos herdados do governo Fernando Henrique Cardoso". A turma esquece rápido, como se sabe: o que Lula herdou foi um país quebrado, com o dólar na casa do chapéu, o risco país em quase 2,6 mil pontos e inflação com dois dígitos. Mas não tem jeito, a tese da "herança bendita" já se tornou corrente entre os ilustres comentadores, muitos deles egressos do governo anterior. Felizmente, a palavra desta gente tem cada vez menos peso no debate político real, que se dá nas ruas, nos lares, nos botequins e que de fato define o pensamento (e o voto) do povão.
Abaixo, a matéria da correspondente da BBC Brasil, reproduzida pela Folha Online.

Brasil é o único em 35 países "a escapar de forte desaceleração", diz OCDE

DANIELA FERNANDES
de Paris para a BBC Brasil

As perspectivas econômicas para o Brasil continuam mais positivas do que para os países ricos e outras grandes economias emergentes, como China, Índia e Rússia, segundo relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) divulgada nesta segunda-feira em Paris.

A organização prevê que o Brasil é o único dos 35 países analisados no novo Indicador Composto Avançado que não deverá registrar forte desaceleração econômica nos próximos seis meses.

"Os Indicadores Compostos Avançados em relação a novembro de 2008 sinalizam uma desaceleração profunda nas sete grandes economias mundiais e para as grandes economias que não são membros da OCDE, principalmente a China, a Índia e a Rússia", afirma o relatório.

Já em relação ao Brasil, como havia previsto no início de dezembro passado, com dados relativos a outubro de 2008, a OCDE estima que o país deverá registrar apenas uma "leve desaceleração" de sua atividade econômica.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Ainda sobre a azia: quem lê jornais?

Faltou uma observação no post anterior: o fato de o presidente Lula não ler jornais não deve causar espanto em ninguém. Os principais executivos de empresas públicas e privadas do país também não têm este hábito por uma razão muito simples: falta de tempo. O clipping do noticiário, em geral com foco na atividade do empresário ou gestor público, é o que de fato é lido nos altos escalões. Lula certamente se informa melhor na conversa matinal com Franklin Martins e Clara Ant do que se perdesse tempo lendo as notinhas plantadas sabe-se lá por quem em cada um dos grandes jornais brasileiros. Quem tem obrigação de ler jornais e acompanhar os blogs e o noticiário na internet são os assessores, seja do presidente, dos ministros ou dos executivos das grandes companhias. No fundo, os jornalistas se ressentem deste fato, mas a verdade é que quem mais lê jornais são... os jornalistas! Sempre a procura de uma barriga na concorrência ou para conferir se conseguiram dar algum furo relevante...

Sobra a azia de Lula

Muitos analistas comentaram ao longo da semana passada a entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedida à revista Piauí. A maioria dos comentários foi sobre um pequeno trecho da entrevista em que Lula confessa não ler jornais por ter problemas "de azia". Para entender o que o presidente quis dizer, porém, é preciso ler a íntegra da entrevista, muito interessante mais pelas respostas do que pelas perguntas, muitas delas mal formuladas. Não há nenhum absurdo na avaliação que Lula faz da imprensa brasileira e, apesar das inúmeras cascas de banana jogadas pelo entrevistador, o presidente respondeu serenamente a todas as provocações. O que é interessante apontar a partir da leitura da longa matéria, reproduzida abaixo, é que de fato existe um impressionante fosso entre o que a mídia divulga sobre o governo e a percepção que o povão tem deste mesmo governo. Como diria Lula, nunca antes neste país um governo foi tão bem avaliado tendo a imprensa tão contrária ao que ele realiza e, especialmente, à figura do presidente. Este fenômeno ainda precisará ser estudado e explicado no futuro. Sarney, o segundo presidente mais popular após Lula, teve a mídia inteirinha a seu favor no período áureo do Cruzado, mas não resistiu às críticas que se seguiram após o fracasso do plano. Lula vem resistindo a tudo, do mensalão à crise financeira global, pelo menos até agora. Imagine o leitor se o presidente tivesse a imprensa a seu favor, qual não seria a sua popularidade hoje em dia...

A seguir, a íntegra da entrevista publicada originalmente na revista Piauí.

Presidente, é o seguinte: eu queria saber... o senhor está com a imprensa aí há quase 40 anos na sua cola. Estando no Planalto, muda a sua relação, piora, o senhor sente que a imprensa é melhor ou pior do que o senhor achava antes ou não?

Eu não vejo, Mário Sérgio, melhora ou piora na imprensa. Eu acho que a imprensa brasileira tem um comportamento, que não é um comportamento de agora, é um comportamento histórico. Eu, por exemplo, sou um cidadão brasileiro que nunca tive a grande mídia brasileira com preocupação de fazer coisas favoráveis a mim, e nunca me preocupei muito com isso, porque antes de tudo eu acredito na inteligência de quem assina uma revista, de quem assina jornal, de quem vê televisão e escuta rádio.

Possivelmente, ainda tenha gente inocente, que acredita que tudo o que ele fala, tudo o que ele escreve é recebido pelo leitor como a verdade mais absoluta, ou seja, ele não acredita na capacidade de análise do leitor, que pega uma matéria e percebe se há má fé, se não há má fé, se a matéria está informando corretamente ou se não está informando corretamente.

Hoje a informação é muito plural, não tem mais apenas a informação de tal revista, a informação de tal jornal. A informação é veiculada por diferentes fontes. Então, quando o cidadão pega o jornal de manhã, aquela matéria ele já viu na televisão, ele já ouviu no rádio, ele já viu em vários blogs (incompreensível) diferentes, então aumenta a capacidade de interpretar do cidadão que lê.

Agora, o senhor falou uma vez, eu fiz uma matéria com o senhor, eleição municipal 2000, 2001. A gente percorreu várias cidades, uma semana, dez dias. Eu, o senhor, tinha mais gente, o Zé Dirceu... Mas aí o senhor... a relação que o senhor tinha com a imprensa, eu observava, o senhor todo dia lia o jornal no avião, lia a parte de esportes. O senhor comentava comigo, o senhor comentou duas vezes comigo: “olha, esse Painel, petista adora o Painel da Folha, até o Kennedy Alencar, eles botam nota”. O senhor tinha uma coisa que curtia a imprensa, o senhor achava, vamos dizer, engraçado. O senhor disse: “se eu tivesse até mais tempo – eu me lembro disso – se eu tivesse mais tempo eu lia isso com mais vagar”. Hoje o senhor tem tempo, o senhor curte mais, curte menos, como é que é hoje?

Bem menos, bem menos.

Isso melhora a sua vida ou não?

Não, acho que melhora. Eu fui deputado e eu sei como é que muita gente passava matérias para o Painel da Folha, para o Informe JB, para aquele negócio do Estadão. Você sabia quais os deputados que ficavam procurando jornalista, você conversava com um cara aqui e daqui...

Sabia o que era plantado...

...sabia o que era plantado e o que não era plantado. Eu sempre dizia que no PT, às vezes uma matéria que saía em um informe qualquer, ou no Painel, era mais vista do que uma matéria do Jornal Nacional. Eu falava isso em tom crítico, porque eu queria mostrar o lado mais intelectualizado da Direção do PT, que não via o que passava no Jornal Nacional, que é o que o povo vê, e via o Painel, que é uma coisa que o povo não lia.

O senhor nunca foi político de fazer esse tipo de ação, vamos dizer, o senhor nunca foi fonte de jornalista, o senhor nunca...

Não gosto, não gosto de ser fonte, porque eu acho que você estabelece uma relação promíscua com o jornalista, com o jornal, com a revista, com a televisão. Se você passa a ser uma espécie de informante privilegiado... no caso do mundo policial, isso seria informante. No mundo jornalístico é mais chique, você passa a ser fonte. Então, é o cara que planta laranja para colher manga, é o cara que planta manga para colher limão...

O senhor não acha que isso é válido também?

Eu não acho, eu não acho. Você sabe por que eu não acho? Eu não acho correto as pessoas se esconderem em nome de uma coisa fictícia, que é uma fonte. Você pode ter jornalista sério, que tem uma fonte verdadeira e, portanto, ele coloca uma matéria, e aí não é plantada, é uma matéria que alguém disse. E você tem o cara que, quem sabe, se levanta um dia, por falta de informação melhor ele planta uma fonte, e em nome da fonte ele publica o que ele quiser. Eu, sinceramente, não acho isso a coisa mais nobre da imprensa brasileira...

O senhor lê jornal hoje?

...até porque eu gostaria que a fonte fosse mais digna e pudesse dar o nome: eu, Mário Sérgio, penso tal coisa do Franklin; o Franklin pensa tal coisa do Lula, e assim o mundo seria muito mais verdadeiro e menos falso. É nisso que eu acredito.

O senhor lê jornal hoje, Presidente?

Eu leio menos do que deveria, e converso mais do que preciso.

Mas o senhor tem o hábito, de manhã o senhor pega o jornal...

Tenho não, eu não tenho isso faz tempo, faz tempo. Não é que não dá, é que eu não quero fazer.

Ah, não quer...

Eu tenho problema de azia. Eu me cuido profundamente, para não perder o humor logo cedo. Eu começo a minha atividade política tendo meia hora de conversa com o Franklin sobre a imprensa brasileira. Eu tinha com o Ricardo Kotscho, eu tinha com o André Singer, fazia uma avaliação da imprensa, as principais coisas, o que estava rolando no mundo político, o que estava rolando no mundo econômico. A partir daí tem a minha conversa diária...

E televisão, o senhor vê?

Raramente.

Raramente?

Porque não tem tempo. Raramente. Eu chego em casa muito tarde.

Mas e quando o Franklin, ou o Ricardo ou o André, diz “olha, o senhor precisa ler tal artigo ou tal documentário”?

Aí ele me traz o artigo. Aí me traz o artigo para ler, às vezes tem coisa boa na televisão e eles me trazem vídeo para eu ver, às vezes eu vejo no avião quando estou viajando.

Isso não dá para o senhor a impressão de que o senhor pode ter uma visão distorcida, sem (incompreensível)... o senhor não fica muito na mão do assessor?

Mas é muito melhor ficar na mão de um assessor em que eu confio do que na mão de um artigo que eu não conheço o jornalista. Então, eu prefiro conversar com alguém que eu recruto, da maior seriedade, e que me dá as informações corretas.

Mas saber o que está acontecendo no País e no mundo com a população, não é bom o senhor ler (incompreensível)?

Um homem que conversa com o tanto de pessoas que eu converso por dia deve ter uns 30 jornais na cabeça todo santo dia. O que acontece? Em cada conversa que você tem com uma pessoa, surge o assunto do dia, seja ele da economia, seja ele da agricultura, seja ele da política. Não há hipótese de um Presidente da República ser desinformado sobre as coisas mais importantes que acontecem no Brasil.

Agora, o que acontece é que muitas vezes você tem coisas que deformam a notícia. Por exemplo, quando nós lançamos o programa para o povo comprar material de construção com desconto, um jornal importante no Brasil publicou “Lula faveliza o Brasil”. Ou seja, é uma concepção distorcida de um cara que possivelmente não tem a menor noção do que significa as pessoas mais pobres terem acesso a comprar material de construção mais barato e poder fazer a sua casa, reformar, fazer a sua garagem, fazer seu puxadinho.

Quando eu fiz o programa Bolsa Família, as matérias que saíam deles, analistas, eram de que isso era assistencialismo. Ou seja, as pessoas muitas vezes têm a sua formação ideológica, tem a sua tese sobre as coisas. O que eu às vezes não concordo é que as pessoas, em vez de publicarem um fato como ele é, contra ou a favor, não importa, as pessoas colocam apenas aquilo que pensam sem se importar com o fato como ele é. Apesar de que eu acho que cada um pode ter sua opinião, cada um pode falar o que quiser.

Agora, saber de opiniões não lhe dá uma dimensão melhor do País?

Não, eu fico sabendo de muitas opiniões. Você pode ficar certo de que quando um jornalista importante escreve um artigo que fala do governo ou fala da economia, eu fico sabendo tão rápido quanto ele, que escreveu. A verdade é a seguinte: eu tenho uma tese hoje sobre os meios de comunicação. Eu acho que os meios de comunicação hoje estão muito mais democratizados e estão muito mais independentes... A informação está muito mais independente do que ela era antes. A possibilidade que o povo tem de receber as coisas é infinitamente maior do que em qualquer outro momento da história do nosso país.

Eu acabo de dar uma entrevista às 9h05, às 9h06 já está tudo que eu falei na internet, está tudo. Aconteceu uma coisa na Venezuela, aconteceu uma coisa com o Obama, já está tudo na internet, você não tem que esperar o jornal do dia seguinte.

Quer dizer, o jornal perdeu poder?

Eu acho que, na verdade, todos perderam poder. Todos. Do ponto de vista...

E o senhor acha isso bom?

Eu acho que isso democratiza demais as informações, porque também você tem 300 blogs. Você tem muita gente importante com blog, você tem as agências. Então, a quantidade de informação que você recebe em tempo real vai deixando tudo que demora 10 minutos obsoleto. Ou seja, tudo que demora: então o jornal fica mais obsoleto. Aliás, o próprio jornal se torna obsoleto, porque ele publica as matérias de amanhã hoje.

Você quer saber o que vai sair na Folha amanhã, você já vê na internet hoje. Você quer saber o que vai sair no Estadão, você já vê na internet hoje. Você acompanha a Veja, que sai no sábado, na quinta-feira já pela internet, você acompanha... Então, há uma facilidade enorme e isso tornou a informação muito mais independente. Eu acho que alguns companheiros da imprensa não descobriram isso, porque continuam agindo como se estivessem 40 anos atrás.

O senhor pede para ver blog, o senhor pede para ver site na internet?

Deixa eu te falar: eu recebo muita informação, porque tenho muita assessoria. Eu recebo do Franklin, eu recebo da Clara Ant, eu recebo do Gilberto Carvalho. Em cada área que sair uma matéria, você pode ficar certo de que chega o papel na minha mão na hora certa que eu preciso. Por isso é que um Presidente da República não precisa se preocupar em se levantar de manhã e ler quatro jornais, três revistas, ver todos os programas de manhã, porque isso ele vai vendo durante o dia. Aliás, todos os presidentes que eu conheço fazem exatamente o mesmo, ninguém se levanta de manhã preocupado...

Não, mas a opinião que o senhor tem desses órgãos de imprensa, vamos lá... Há muito pedido de patrão?

Não.

Não vem aqui Marinho, Civitta, (inaudível)?

De vez em quando aparece alguém aqui com um pedido normal de alguém que quer alguma coisa, que quer discutir alguma coisa com o Presidente da República. E eu trato os empresários do meio de comunicação como eu trato os empresários da construção civil, como eu trato os bancos, como eu trato o pessoal do setor siderúrgico, ou seja, é um cidadão que apresenta uma pauta de reivindicação.

Por exemplo, quando fomos discutir a TV digital, nós reunimos várias vezes todos os empresários dos meios de comunicação para discutir isso. Eu acho plenamente normal. Eu acho normal que um empresário de meio de comunicação, se precisar de dinheiro emprestado do BNDES, entre com o mesmo pedido como entra uma empresa de construção civil, como entra uma indústria automobilística. É um direito que ele tem de fazer investimento, o Brasil tem um banco que empresta, portanto, ele não deve favor nem ao banco e nem ao País.

Já tem tido retaliação nisso? O senhor negar um pedido ou o governo negar um pedido e um órgão de imprensa (inaudível) mais contra o senhor?

Não, porque a análise é eminentemente técnica. Alguém, para pegar dinheiro no BNDES, tem que apresentar um projeto que tenha, eu diria, os fundamentos técnicos corretos e por conta disso, o dinheiro é emprestado. Qualquer empresário de empresa de comunicação que entrar com um pedido de empréstimo, ele vai ser analisado – pode ficar certo – como qualquer outro.

O que há, na verdade, é um preconceito da própria imprensa contra a questão da relação dos meios de comunicação com o governo ou com os bancos públicos. Vem um agricultor de qualquer parte do Brasil, vai ao Banco do Brasil e pega dinheiro emprestado. Isso vale para o dono da Record, o dono da Globo, o dono do SBT, o dono da Bandeirantes, o dono da rádio “fulano de tal”.

Se ele tiver um projeto que seja convincente e aquele projeto seja exeqüível – aquele projeto vai gerar mais empregos, vai gerar mais distribuição de renda – o BNDES ou o Banco do Brasil deve tratar como se fosse um empréstimo comum. O empresário não precisa ficar receoso, porque eu duvido que tenha um governo capaz de querer emprestar dinheiro e pedir contrapartida. Ele seria execrado por todos os outros que não pediram empréstimo.

Então, a forma mais segura para os donos dos meios de comunicação é agir com naturalidade, e eu acho que é assim que nós agimos, é assim que age o BNDES. Eu não sei se foi a Record que queria construir um novo cenário para novela, eu me lembro da grande discussão que houve quando a Globo construiu o seu...

Jacarepaguá, né?

Eu sempre achei aquilo com muita normalidade. Amanhã, se a revista Piauí quiser fazer uma sede nova, uma gráfica nova e for ao BNDES apresentar um projeto e disser “nós vamos fazer uma gráfica, estão aqui 60 milhões de não sei das quantas, está aqui a garantia, o projeto é exeqüível”, eu acho que o BNDES tratará sem se importar com o nome.

O senhor se magoou muito alguma vez com a imprensa? Eu vou lembrar alguns casos. Primeiro, o caso do seu filho. Ainda na campanha, quando o Paulo Henrique Amorim, na Bandeirantes, o apartamento, não sei o quê, aquilo deixou o senhor muito... O senhor entrou com um processo.

Deixe-me falar uma coisa. Eu não conheço nenhum cidadão que tenha sangue de barata, a ponto de não ficar ofendido quando você vê um amigo seu, um parente seu ou um companheiro sendo agredido por coisas que são inverdades. A única coisa que eu lamento profundamente é que quando acontece a publicação de uma mentira, quando vem à tona que aquilo era mentira, não seja publicado do mesmo tamanho o desmentido. Ou seja, parece que não há pedido de desculpas nos meios de comunicação no Brasil quando erram.

Esse é um defeito que eu tenho dito publicamente: você tem direito de fazer acusações, você tem direito de manchar o nome de uma pessoa, mas você tem direito de pedir desculpas porque ninguém pode ser incriminado antes de ser julgado. O bom da democracia é que você tem um processo de denúncia, um processo de investigação, um processo de julgamento, condenação ou absolvição. Quando você é condenado, você já foi condenado previamente. Quando você é absolvido, isso não aparece. Você precisa ficar o tempo inteiro...

O senhor acha que na imprensa ocorre muito isso?

Eu acho que é uma cultura mundial nos meios de comunicação do mundo inteiro. Há uma predisposição, possivelmente do ponto de vista mercadológico, do ponto de vista... Talvez a notícia ruim tenha mais charme para vender um jornal do que uma notícia boa. Uma notícia boa, normalmente é tida como se fosse chapa branca. Se a revista Piauí fizer matérias falando bem do governo, ela vai fazer uma... Bom, fez uma. Se fizer a segunda... Mas se fizer a terceira, pronto: criou o estigma de chapa branca, e aí é melhor ser neutro. Muitas vezes, na neutralidade, você passa a ser contra...

O senhor, por exemplo, no caso do seu filho quando houve... A Veja falou que havia ligações, não sei o quê... Isso deixa o senhor...

Deixa, porque foi uma mentira absurda e que somente o processo vai mostrar o que aconteceu de fato. Somente um processo. Essa coisa, não adianta você ficar, também, brigando, dando murro em ponta de faca, porque essa coisa, você tem que entrar na Justiça, deixar que o processo ande... Qual é a principal condenação que eu acho que tem que ter? A Justiça normalmente obriga que a empresa que fez a matéria publique a sentença no mesmo espaço e com o mesmo tamanho de letra que foi publicada a denúncia.

Mas não funciona.

Às vezes funciona. A Folha de São Paulo, quando eu tomei posse em 2003, foi obrigada a publicar uma sentença de um juiz, de um processo que eu abri contra a Folha. Obviamente, quem leu a denúncia, não leu a sentença, porque se passou muito tempo. Mas é uma defesa até da honra.

E quando o caso é enrolado? Por exemplo, o negócio das telecomunicações. Que envolveu um monte de gente, Daniel Dantas, Zé Dirceu de um lado, Gushiken, jornais (inaudível), jornalistas (inaudível). É um caso enrolado, envolve milhões, bilhões de reais, envolve grandes empresas e envolve a imprensa. O que se faz, enquanto não se tem uma decisão?

Publica-se apenas a verdade. O que você não pode é insinuar que todo mundo é ladrão sem nenhuma prova, (inaudível) que você quer insinuar. Se você descobre que uma determinada pessoa praticou um delito qualquer, uma fraude qualquer, você faz a denúncia e investiga. O que você não pode é ficar fazendo ilações, ilações e mais ilações. Depois, passa o tempo e você não prova nada contra ninguém, mas ficaram as ilações feitas. A gente poderia pegar exemplos históricos no Brasil. O Alceni Guerra é um deles. A gente poderia pegar a Escola Base, e tantas outras coisas que acontecem. Esses dois foram os casos mais famosos, mas você pode pegar outros casos.

A imprensa tem um papel nobre, que eu acho que é a sustentação da democracia, que é a informação. A partir da informação, muita coisa acontece no mundo: cai governo, entra governo, cai general, entra general, a partir da informação. Agora, quando você transforma essa informação em um instrumento político e começa a fazer ilações sobre isso, eu acho que a nobreza diminui, e aí entra a politicagem, a má-fé.

Durante a campanha eleitoral, eu fui a uma cidade – não vou dizer qual – em que se dizia o seguinte: um candidato tinha um canal de televisão então ele apareceu em 66 reportagens durante a campanha, e o adversário não apareceu em nenhuma. Não é possível que o adversário não tenha criado um fato político que merecesse um minuto na televisão.

Eu penso, Mário Sérgio, que com toda a grandeza que eu tenho dito na minha vida... Eu falo que só cheguei à Presidência da República por causa da liberdade de imprensa. Distorcido ou não, bem ou não, o fato concreto é que como eu acredito na capacidade de discernimento do povo brasileiro – e do povo de qualquer mundo – as coisas acontecem independentemente da má vontade desse ou daquele órgão, desse ou daquele jornalista.

Agora, por que o senhor criou a TV pública? Por que o seu governo criou essa TV pública?

Porque eu acho que é necessário.

Por que?

Porque no mundo desenvolvido você tem outras coisas a informar, além daquilo que dá ibope. Eu não posso fazer dos meios de comunicação apenas uma coisa de interesse mercadológico. Nós queremos uma TV pública para informar, para promover debates sobre temas que, certamente, a TV privada não tem interesse porque... Se colocar a televisãozinha na frente do Ibope ali e começar a cair, muda de assunto imediatamente.

Eu vi uma entrevista ontem, lá, dos presidentes. Parece que é uma coisa chata pacas também, né?

Pode, mas se você for fazer só as coisas agradáveis, aí você transforma no que é hoje. Você não tem no Brasil hoje, com exceção do Roda Viva, um espaço de debate político no Brasil, os grandes temas da sociedade não tem o que ser debatido. Então, eu acho que a TV Pública cumpre esse papel. Primeiro, ela não se dispõe a disputar um espaço mercadológico com as empresas privadas, mas ela se propõe a disputar e ganhar espaço na informação, no debate dos grandes temas nacionais, que parece que são tabu serem discutidos. Você pode pegar a questão das células-tronco, você pode pegar a questão do aborto, você pode pegar a questão da crise econômica.

Houve um tempo em que neste país tinha debate. Você levava os grandes economistas para um debate. Hoje você não vê mais isso. Hoje, quando você vê uma discussão sobre economia, você vê quem? Um analista de mercado. Mulheres como Maria da Conceição Tavares, como Belluzzo, como Delfim não têm muito espaço na televisão. Você não vê mais os economistas sendo chamados a falar sobre assuntos que são pertinentes aos economistas. Então, a TV Pública, eu espero – ela está em fase de montagem ainda – que ela cumpra essa função.

Mas o senhor vê?

Muito pouco, porque ela não foi feita para mim. Ela foi feita para a sociedade brasileira. Nós estamos numa fase de comprar equipamentos ainda, de montar. Eu penso que até o final do mandato ela vai estar mais ou menos pronta e aí acaba aquela bobagem de dizerem que foi feita uma televisão para o Lula. A primeira orientação que eu dei ao companheiro Franklin foi a seguinte: se a televisão for puxa-saco do governo, ela será chata; se ela for só oposição, ela será chata. Encontrar esse ponto de equilíbrio é como a chuva. A chuva, quando chove demais, os agricultores sofrem; quando chove de menos, os agricultores sofrem. Ela tem a quantidade certa. Então, o que eu quero é isso, é que a TV Pública seja o equilíbrio da maturidade da informação no Brasil, nem ser chapa-branca, mas também não ser chapa-marron.

Presidente, o que o senhor gosta de ler? Elio Gaspari, o senhor gosta de ler?

Eu tenho profundo respeito pelo Elio Gaspari, e o acho um dos grandes jornalistas brasileiros, independentemente de gostar dele.

O Merval [Pereira]?

Eu acho o Merval, às vezes, um jornalista de um pensamento só, ou seja, contra o governo.

Clóvis Rossi?

Eu sou muito amigo do Clóvis Rossi.

Ali Kamel?

Eu acho que o Ali Kamel já fez artigos me defendendo do preconceito, mas eu tenho profundo ressentimento da campanha de 2006...

(incompreensível) de quê?

... que eu não expresso no meu comportamento, não expresso nas minhas atitudes, não expresso na minha relação com a imprensa, muito menos com a Globo. É uma coisa que está comigo.

Jânio de Freitas?

Sou um admirador do Jânio de Freitas, mesmo quando ele fala mal do governo.

Diogo Mainardi?

Eu te confesso que não leio.

Paulo Henrique Amorim?

Sempre tive admiração pelo Paulo Henrique Amorim, desde o tempo em que ele era analista econômico da Globo. Eu acho que quando ele foi trabalhar na Bandeirantes ele enveredou por um caminho, assessorado por um jornalista que já não trabalha mais com ele, que cometeram erros crônicos na imprensa. Agora, ele está com um bom programa de debates, que eu acho que... mesmo quando ele critica, você percebe que tem fundamento.

Mário, essa, para mim, é a coisa que eu acho importante. Eu não quero que as pessoas falem bem de mim. Não, não. Eu tenho 63 anos de idade, e eu duvido que tenha um jornalista, no Brasil, que um dia tenha ouvido da minha boca um pedido para que ele fizesse uma coisa favorável. A única coisa que eu gostaria é que houvesse apenas o fato como ele é. Depois, se quiser fazer análise pessoal, faça. Mas eu sou defensor de que o fato seja a razão de ser da imprensa.

Nassif? Só faltam mais dois nomes.

Eu gosto muito do Nassif. Independentemente de qualquer coisa, eu acho o Nassif um dos grandes analistas econômicos do País.

Mino Carta?

Eu sou suspeito, porque eu sou muito amigo do Mino Carta. Eu sou amigo do Mino Carta antes da Carta Capital, sou amigo do Mino Carta (incompreensível).

É por amizade que o senhor vai nas festas do Mino Carta e não vai nas festas da Globo?

Não, é por amizade, é por amizade.

Na Veja o senhor não vai é por “desamizade”?

Não, não é por isso, não. Eu acho que é uma questão de respeito ético. Eu aprendi a me respeitar. Então, quando um cidadão aprende a se respeitar, aprende com o que eu aprendi, neste país, eu não posso ir a uma festa de uma pessoa que não gosta de mim, eu não posso. Eu não posso visitar a casa de uma pessoa que passa o tempo inteiro falando mal de mim. E olha que o Mino Carta também faz críticas, mas eu tenho respeito pessoal pelo Mino Carta.

Em termos de Estado, Presidente, de governo. Já falei isso com o nosso Franklin, aqui, estamos acabando. É legítimo, ou é bom, que o governo tem que ajudar alguns órgãos de imprensa? Dois exemplos concretos: Caros Amigos tem anúncios de estatais, do governo; Carta Capital tem...

Todos têm, meu filho, todos têm.

Mas não no sentido... não no proporcional.

Proporcional, mais. Pegue todas as revistas brasileiras, todos os jornais e todas as televisões, pegue... tem revista que esculhambava o governo e a primeira página de publicidade era do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, e nunca houve nenhum problema, porque não é assim que eu trabalho.

Não é assim?

O que o companheiro Franklin estabeleceu, e é correto, é a participação em função da questão técnica. O cidadão vai ter proporcional ao que ele pode ter, nem mais, nem menos. Você não pode ter alguém que represente... que tenha uma audiência de 30% recebendo o equivalente a 70%; como você não pode ter uma que tem 10% recebendo o equivalente a 5%. Então, quando você cria critérios técnicos para poder cuidar da publicidade, obviamente que algumas pessoas que mamavam começam a ficar chateadas.

Não, eu estou falando outra coisa, em benefício da diversidade, se deveria ter uma ajuda maior a certos órgãos que são mais fracos, como existe na Europa (incompreensível)...

Eu não sei se tecnicamente tem, eu não sei. Agora, o correto é o seguinte: se tem uma coisa que ninguém pode criticar neste país, é a justeza do comportamento democrático e republicano deste governo. Este governo, este país já teve ministro de Comunicação que baixava na direção de jornais para impor coisas. Eu duvido que no meu governo o ministro da Comunicação ou um secretário da Secom tenha ido a um jornal, a uma rádio, a uma televisão pedir para não fazer tal coisa. A melhor forma, Sérgio, de a gente vencer essa batalha da democracia, é a gente sendo democrata. Não existe outro jeito.

No geral, o senhor gosta de jornalista ou não? De conversar, ou acha chato pra cacete.

Não, não.

Mais chato que político, ou não?

Primeiro, eu gosto de conversar com todo mundo. Eu acho que tem gente chata na minha família, tem gente chata no meio do jornalismo, tem gente chata no governo, tem gente chata... qualquer lugar tem gente chata e gente boa. Tem gente que é maravilhosa para conversar, tem gente que sabe contar piada, tem gente que não sabe contar piada. Tem gente que só se senta perto de você para conversar de política. Eu, por exemplo, dia de sábado e domingo não quero conversar política, quero conversar sobre futebol, sobre cinema, sobre qualquer outra coisa. Então esse cara que só sabe conversar sobre um assunto termina virando um cara que você não pode chamar para qualquer coisa. Você vai fazer um churrasco, você não vai chamar um cara... Mas eu sempre me dei bem com a imprensa.

Mas o senhor tem, o senhor sempre... mas o senhor é diferente, assim... O político tradicional brasileiro gosta de cultivar, chamar para casa, “vamos trocar uma idéia”... tudo falso! O senhor não faz isso por que o senhor não gosta?

Não, eu não faço isso, por honestidade. Eu não faço isso, por uma questão de princípios. Veja, eu tenho grandes amigos aqui. Eu tenho jornalistas aqui que são meus amigos do tempo em que eu era diretor do sindicato.

Ricardo Kotscho.

Mas o Ricardo não é... não vamos ver o Ricardo como jornalista porque já ultrapassou. Mas eu tenho companheiros aqui que eu já dormi na casa deles. Agora veja, eu sou o Presidente da República. Enquanto eu for Presidente da República, não é correto e não é prudente a gente permitir uma certa intimidade, porque isso estabelece uma promiscuidade, eu não quero. Isso é bom para o jornalista e é bom para mim. Porque daqui a pouco está o jornalista achando que ele tem informações sigilosas do presidente, e está o presidente achando que tem um jornalista que é informante dele. Aí não dá certo. Eu prefiro manter assim. Eu trato todo mundo bem, trato todo mundo com muito carinho, mas eu acho que cada um sabendo qual é o seu papel.

Mas a minha impressão é de que o senhor não gosta muito de jornalista, no que faz muito bem, mas é uma coisa... O senhor gosta... de economista o senhor gosta?

Devia ser o contrário. Deixa-me falar uma coisa para você. Eu fui freqüentador, você está lembrado disso, eu fui freqüentador do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo durante anos, anos e anos, quando o [Sindicato] dos Jornalistas foi um espaço de debate, até 1979, 1980. Mas eu sempre me dei bem com a imprensa em qualquer lugar. Quando é que eu comecei a ter uma cisma maior com a imprensa? Quando uma vez eu fui a Teófilo Otoni, se não me falha a memória, e um cidadão faz uma pergunta para mim e eu respondo a pergunta em off, e ele fala para mim: “jornalista não tem off”. E publica uma coisa eu diria insana. Não vou nem voltar ao assunto. Então eu fiquei mais comedido em dizer determinadas coisas.

O senhor não trabalha com off, não? Eu acho que nunca...

Eu não gosto, eu não gosto. Se tem que dizer, diga. Se tem que dizer, diga. Por que eu vou dizer para você e falar “não publica”? Quando eu disser para você “não publica” eu estou dizendo para você “porra, aqui tem uma coisa boa, mas vai firme”. Então eu prefiro... obviamente que quando eu não for mais Presidente da República e não tiver mais a responsabilidade institucional do cargo, eu poderei (incompreensível).

Pelo que eu entendo, presidente, pela observação que o senhor falou do fim de semana. No fim de semana, pelo que eu entendo, o senhor se isola. O senhor não encontra nem com político, nem com jornalista, nem com ninguém, só fica lá com o seu acupunturista, eu acho, não é?

Às vezes.

Joga carta, anda com a Dona Marisa...

Às vezes eu fico com a Marisa, às vezes eu pesco com a Dona Marisa... Sabe por que? É apenas precaução, apenas precaução. O mandato parece longo, mas é curto. Então veja, eu estou aqui há seis anos. Eu nunca fui a uma festa, eu nunca fui a um restaurante, nunca fui a um aniversário, eu nunca participei de nenhuma atividade. Para não dizer que eu fui a duas festas, eu fui a duas. Eu fui a uma dos 60 anos do Pão de Açúcar em São Paulo, a convite do Abílio Diniz, terminei não jantando, e fui a uma aqui esta semana, eu e o José Alencar, dos 60 anos da Andrade Gutierrez. Foram as duas coisas a que eu fui nestes seis anos de governo. Não vou nem em aniversário de companheiros.

E por que essas duas, presidente?

Essas duas porque são simbólicos 60 anos.

Não é pelo Abílio Diniz, ou por (incompreensível)?

Não, é porque são 60 anos de empresas, e eu acho importante uma empresa que dura esse tempo inteiro. Mas aqui eu tenho evitado ir até a aniversário de companheiros. Ah, mas vai ter o aniversário do Franklin. O Franklin nunca convidou também... Mas vai ter o aniversário do Marco Aurélio e tal, Marco Aurélio vai fazer uma janta. Eu prefiro não ir. Só faltam dois anos para eu terminar meu mandato...

O senhor se sente solitário no fim de semana?

Não, não... Meu caro, ficar o final de semana sem discutir problema e sem discutir economia, sem discutir política, é uma terapia que eu acho que todo político precisaria aprender a fazer. É assim, eu acho que o exercício da presidência ele é tão importante, é um cargo tão nobre em uma República, que nós precisamos aprender o momento de fazer as coisas, aprender o momento de falar, aprender o momento de ficar quieto, sabe, eu estou no aprendizado. Lamentavelmente, faltam só dois anos para terminar o mandato.
Agora, a vida é essa Mário, a vida é essa. Eu acho que a imprensa tem um papel excepcional aqui no Brasil e em qualquer parte do mundo.

Mas eu lamento que o senhor não curta mais como o senhor me dava a impressão de curtir. O senhor gostava daquela conversa de... Você viu o que o Juca Kfouri escreveu?

Não. Eu posso até gostar depois da Presidência, mas enquanto eu estou na Presidência... eu sei de presidentes que levavam editores para sua casa para jantar, almoçar, que às vezes convocavam os principais articulistas para almoçar, para jantar, eu não gosto de fazer isso.

O senhor se sente injustiçado pela imprensa ou não?

Não.

Não? (incompreensível)

Não. A história é que vai julgar. Vocês me julgaram. Um dia se você escrever um livro você vai dizer o que você acha que a imprensa fez comigo. Mas eu não me queixo. Eu aprendi na vida a não me queixar, meu caro. Não tem espaço para eu ficar chorando aqui. O Franklin está comigo já há algum tempo. Nunca cheguei para ele e falei: você liga para fulano, que (incompreensível). Cada um de nós é responsável pelo que faz. Todos nós temos gente de olho na gente. Todos nós temos gente de olho na gente. Então, é com essa tranqüilidade que eu tento governar o País. Se alguém acha que vai escrever um artigo “descendo o pau” e que eu vou ficar nervoso, que eu vou ficar com azia, que eu vou...esqueça.

Por exemplo, me falaram que o senhor ficou chateado, não com a revista [Piauí], a revista publicou um longo perfil do Zé Dirceu. Mas que o senhor ficou chateado, primeiro com o Zé Dirceu, e depois com a revista por ter feito aquilo.

Com a revista não. A revista fez o que ela se propôs a fazer. Eu sei também que o Serra não topou fazer.

Sabe?

Não topou fazer.

Por causa do senhor.

Eu acho uma loucura alguém [José Dirceu] que exerce um cargo político ficar uma semana, totalmente desnudado, diante de um jornalista, porque podem acontecer coisas muito agradáveis e podem acontecer coisas desagradáveis.

E ter visão política, Presidente. Eu comecei a conversa falando que eu passei uma semana com o senhor. O senhor muito afável, muita piada, muita (incompreensível), bebemos, não sei o quê, (incompreensível) fomos de Porto Alegre ao Recife de jatinho, o senhor não abriu a guarda em nenhum momento. Eu escrevi uma matéria na Folha de São Paulo, que eu não pude dizer o...

Mas eu não acho que a revista está errada em querer fazer isso. Eu acho que está errado o cara que se expõe a isso. Porque o cara acha que vai passar por algumas situações e o jornalista vai esconder. É errado esconder. A liberdade da informação que eu defendo é essa. Se eu um dia falar: Mário Sérgio, você vai andar comigo um dia por aí, e um cara me “taca” um sapato, mesmo que não tiver a televisão, você tem que dizer: um cara “tacou” um sapato no Presidente. O que não pode é, se não “tacou”, você dizer: “olha, houve intenção...”

Que um cara com sapato... estava no pé, mas...

Ontem, quase que eu tiro o sapato para jogar na imprensa. Agora é isso. Eu acho, Mário, eu acho que... Primeiro, um dia, essas coisas acontecem...um dia nós vamos analisar no Brasil o seguinte: nós tivemos duas experiências ricas neste país. Nós tivemos a primeira experiência do primeiro mandato do Fernando Henrique Cardoso, o que foi uma experiência de muito sucesso do Plano Real, uma experiência muito rica do processo de privatização do País. Parece que o chamado neoliberalismo tinha chegado ao ápice, ao Pico do Himalaia. Então, foram quatro anos de pensamento único, em que não havia espaço para você contrariar.

No meu mandato, eu acho que nós vivemos um outro período. Quatro anos de pensamento único, mas ao contrário. Isso um dia vai merecer uma análise. Quem sabe, o Marco Aurélio, quando voltar para a universidade vai fazer uma análise do que foi isso. Foi...

Jornalisticamente, têm duas coisas no seu governo até agora que são, aí merecem... o negócio do mensalão, como é que surgiu isso, como é que foi coberto, como é que acabou? E a questão Daniel Dantas. São dois casos, jornalisticamente, Presidente, que ainda são muito misteriosos.

Eu acho...

Sabe, é uma coisa que...

Eu acho que... é uma coisa que eu sempre fico imaginando. Nós estamos aqui reunidos nesta sala, entra o Marco Aurélio [Garcia, assessor especial da presidência da República] e diz que eu não devo dar entrevista para o Mário Sérgio Conti, porque o Mário Sérgio Conti sai dizendo para todo mundo que paga aos seus entrevistados.

(incompreensível)

Aí nós fazemos uma CPI e o Marco Aurélio confessa que não tem prova nenhuma contra o Mário Sérgio. Ainda assim, eu puno o Mário Sérgio. Quer dizer, no caso do mensalão, eu espero que a Justiça desvende esse mistério. Porque devem ter tantos milhões de páginas ali. Então veja: o grosso...eu fico olhando a cassação do Zé Dirceu. A dele próprio. O acusador é cassado porque não provou a acusação e, ainda assim, o Zé Dirceu é cassado. Quer dizer, eu não sei, juridicamente, qual o fundamento disso. Mas a impressão que eu tenho é de que foi uma cassação eminentemente política. Eu não acho que isso seja bom para o País, judicializar a política. Eu acho isso muito ruim, isso não é bom. Eu acho que seria melhor que o Congresso resolvesse os seus problemas sem ideologia, ou seja, as discussões serem mais profundas para que a gente não banalize a atividade política, que está muito desacreditada.
Qual foi a outra coisa que você falou?

Daniel Dantas.

Daniel Dantas, você tem uma investigação. Essa investigação está desde 2003, 2004, se não me falha a memória. Desde 2004. Isso é um processo. Vai indo, vai indo, vai indo. Qual é o papel do governo? É apenas criar as condições para que a investigação seja feita. Na hora em que ela for feita, quem estiver dentro que pague o preço. Ou quem estiver dentro e for inocente, que seja inocentado.

Mas é tão confusa a situação...

Pois é, por isso é que precisa de uma grande... É por isso que demorou...

Mas o delegado [Protógenes Queiroz] parece ser...

É por isso que demorou para ser investigado, é por isso que teve uma nova comissão estudando o inquérito, porque não há interesse de o Estado brasileiro contribuir para punir quem quer que seja, sem dar a essa pessoa o direito da mais irrestrita defesa. A pessoa tem que se defender. Tem gente que não gosta, tem que gente que acha “não, tem que pegar e condenar logo”. Não, eu sou favorável a que a gente utilize todos os mecanismos possíveis para que a pessoa tenha o direito de se defender. Até que vai chegar um momento em que não tem mais, a pessoa será condenada ou absolvida. É assim que precisa ser. Por isso é que um presidente da República não tem o direito de ficar querendo que aconteça isso ou não querendo que aconteça aquilo. A única coisa que nós temos o direito de querer é que as coisas sejam feitas da forma mais justa possível.

Sim, mas a coisa vem aqui pegando, pegaram até o Gilberto [Carvalho, chefe de gabinete de Lula] aqui. Presidente. Há inquéritos que surgem que nem lei (inaudível)...

Mas quando esses inquéritos começam a não dizer nada, quando você começa a fazer uma manchete, telefonema grampeado, e você vai escutar o que estava no telefone e não tem nada, aí você percebe que começa a banalizar as coisas que podem ser tratadas com mais seriedade. Você se esquece que foram tirar um doleiro preso para fazer julgamento do Márcio Thomaz Bastos. Daqui a pouco vão tirar o Fernandinho Beira-Mar para te julgar. Quando isso começa a acontecer, as coisas que poderiam ser tratadas com seriedade começam a ser banalizadas. Então, você pode ficar tranqüilo que quem sentar nesta cadeira aqui tem que agir, sobretudo, com muita, mas com muita consciência e tomar decisões de forma muito bem pensadas.

Última pergunta, Presidente. O senhor, depois de seis anos aqui, sente que o presidente tem mais ou menos poder do que o senhor imaginava? O presidente pode mais do que o senhor imaginava ou não pode porque é muita burocracia, porque o Brasil é muito confuso? Como é que é isso na sua cabeça?

Deixe-me lhe contar uma coisa. Eu comparo o presidente da República a um trem. Eu sou a locomotiva, a máquina pública é a estação. Trem passa um monte ali, fazem barulho, soltam fumaça, apitam, buzinam, vão embora, e a máquina está impávida ali no seu lugarzinho, às vezes não muda nem de cor. O Brasil é um país engraçado porque nós temos uma Constituição parlamentarista e um regime presidencialista. E esse é o problema de quem é oposição e pensa que nunca vai chegar ao governo. Nós fizemos uma Constituição, e o PT tem responsabilidade em algumas coisas...

Não votou...

O PT não votou porque queríamos uma mais avançada ainda, mas depois assinamos. Eu acho que hoje o presidente da República tem muito menos poder do que, por exemplo, na época do Juscelino. Não vou nem falar dos militares, estou falando dos democráticos eleitos. O Juscelino se fosse presidente da República hoje e pensasse em mudar o [Governo do] Rio de Janeiro para Brasília, ele ainda não teria conseguido licença prévia para fazer a pistazinha para o seu teco-teco pousar aqui. O Meio Ambiente, ou o Ministério Público, ou o Tribunal de Contas, ou o Poder Judiciário, ou quem tivesse perdido a licitação...

Presidente, muito francamente, isso é bom ou é ruim? Então quer dizer que Brasília poderia ver (incompreensível).

Eu acho que tem duas coisas importantes. Primeiro, que o País tenha se dotado de amplos mecanismos de fiscalização é bom, é correto e é necessário. Agora, que esses mecanismos de fiscalização sejam a razão de você, muitas vezes, demorar dois anos para começar uma obra, é ruim. Veja uma coisa, num mandato de quatro anos, qualquer que seja o presidente da República, se ele começar uma hidrelétrica, ele não termina ela. Se ele pegar uma estrada de 2 mil quilômetros, entre pensar, fazer o projeto, contratar, fazer licitação, conquistar a licença prévia, vai metade do tempo de construção. E aí começa o processo de judicialização, ou seja, alguém da sociedade entra com uma queixa popular, o Ministério Público acata, o Ibama ainda embarga.

Então tem um processo muito moroso. Como fazer para que as coisas tenham a mesma seriedade de fiscalização e, ao mesmo tempo, que a gente não perca... Hoje, quando você faz licitação, quando o Tribunal de Contas está concordando, quando o Ministério Público está concordando, quando as ONGs estão concordando, quando o Ibama já deu licença, quando o dinheiro está depositado no caixa para começar a fazer a obra, sabe o que acontece? Uma empresa que perdeu a licitação entra com um processo, e às vezes leva um ano, um ano e meio, e a obra não sai.

Eu acho que o País não pode esperar por isso. Então, era preciso... eu espero que tenha bastante coisas de mudança lá, tem projeto de mudança da lei de licitação, alguma coisa para tornar... Há quanto tempo está se fazendo aquele Anel Viário em São Paulo? Cada dia tem uma coisa... Então, tudo isso eu acho que contribui para o Custo Brasil, as coisas demorarem muito.

Então, eu acho que o presidente da República tem menos poder do que já teve neste país, fora o período militar, mas no período democrático. Acho que a Constituição de 1988 diminui o poder do presidente da República e aumenta o poder do Poder Legislativo e das instituições, como Ministério Público. Acho que isso é bom. Agora, é só encontrar o caminho do meio para que essa necessidade toda de fiscalização não seja a razão do impedimento de construir as coisas que precisam ser construídas no Brasil.

Mas o senhor está gostando de ser presidente, não é?

Eu, sinceramente, acho que...

O senhor não gostava de ser presidente do Sindicato, não gostou de ser deputado...

Parece que o povo está gostando mais do que eu.

Porque o senhor é um dos 80...

É que eu tenho, Mário... exercer o papel de presidente é complicado.

Mas é bom.

O cerceamento da liberdade individual da pessoa é total. Agora, qual é o prazer? O prazer é que você passou a vida inteira dizendo que era possível fazer algumas coisas, e quando você chega ao governo, começa a realizar. As coisas começam a acontecer e começam a ter o reconhecimento da sociedade. Eu acho que é isso a coisa prazerosa do exercício do poder.

E a frustração, Presidente? O que o senhor achava que dava para fazer mais...

Você sempre vai achar que dava para fazer mais. O cara que marca um gol, achava que poderia ter feito o segundo; o cara que ganhou uma medalha de ouro, acha que poderia ganhar a segunda. Um governo, quando termina, ele vai falar “puxa, por que eu não fiz aquilo, por que eu não fiz aquilo?” Não fez porque não foi possível fazer.

Nós tivemos uma visão do segundo mandato, que eu acho que é uma coisa consagradora. Eu sempre tive medo do segundo mandato, e dizia publicamente: eu tenho medo do segundo mandato porque você pode perder a motivação, porque pode virar mesmice, porque pode...

Quando nós pensamos em lançar o PAC, a gente pensou em lançar o PAC ainda em 1986. Depois, chegamos à conclusão... Não, em 2006. Depois chegamos à conclusão que a gente não poderia misturar o PAC com as eleições, porque ele perderia força. Então, lançamos o PAC no dia 22 de janeiro de 2007. Esse PAC tem obras e dinheiro até o dia 31 de dezembro de 2010.

Portanto, o PAC foi uma coisa que deu ao governo um aprendizado de agilidade e a descoberta que a gente faz das coisas, porque quando você não tinha dinheiro, todo mundo dizia “não tem dinheiro, não tem dinheiro”. Aí, quando você tem dinheiro, você percebe que as prefeituras não tem projeto executivo, não tem projeto básico, você percebe que os estados não têm projeto. Então, foi a partir do PAC que nós começamos a fazer tudo isso.

Nós lançamos o PAC. Eu determinei para a Dilma “agora eu quero que você chame, primeiro, a partir do governo federal, quais são as cidades e os estados que têm maiores problemas. Vamos pegar do principal problema para o menor problema. Palafitas, favelas, nós temos que atacar isso com rapidez”.

Então, chamava aqui o governador José Serra com os prefeitos das cidades mais problemáticas, o governador do Rio de Janeiro com os prefeitos das cidades mais problemáticas. Com base nessas conversas, nós levantamos os principais projetos para começar a trabalhar projeto básico, projeto executivo. Levou um ano entre você tomar decisão, reunir, preparar projeto para você começar a executar.

Então, o ano de 2009 será um ano em que teremos muitas obras em execução e em fase de acabamento no Brasil. Em 2010 será a conclusão de grande parte das obras do PAC, e aí nós vamos preparar um outro PAC. Nós vamos anunciar para o Brasil um novo planejamento que pode ser seguido ou não por quem vier depois de mim. Se eu conseguir fazer a minha sucessão, certamente a pessoa seguirá o segundo PAC.

Eu pensei que o senhor ia dizer “sucessora” e o senhor fala em sucessão, hein?

Eu falei sucessão porque eu estou pensando ainda na minha sucessão. Na verdade, é isso, eu acho que a Dilma tem todas as condições. Obviamente, o PT tem que discutir isso...

Mas está indo para ela, né?

Mas eu acho que a Dilma tem todas as condições de ter uma qualificada disputa com quem quer que seja, e tem condições de ganhar as eleições. Vamos ver se... o debate, precisa construir aliança política, que é difícil, precisa conversar com todos os companheiros, de todos os partidos.

O senhor a conhece desde quando, Presidente? Não é de muito tempo, é mais recente, né?

É engraçado. O negócio da Dilma comigo é muito engraçado. Eu tinha... Eu sempre tive assessoria para o setor energético, e mais ou menos em junho... eu sabia que a Dilma era secretária do Olívio Dutra, mas não tinha muito contato, até porque ela era do PDT, se não me falha a memória.

É, PDT.

Aí o meu grupo que cuidava de energia, quem cuidava era o Pinguelli. Então, a gente tinha a cada ano, três, quatro reuniões com vários engenheiros do setor energético, e já próximo de 2002, aparece uma companheira com um computadorzinho na mão lá. Começamos a discutir, começamos a discutir, e eu percebi que ela tinha um diferencial dos demais que estavam ali porque ela vinha com a praticidade do exercício da Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Aí eu fiquei pensando: eu acho que já encontrei a minha ministra aqui. No primeiro contato que houve, houve uma certa negociação com o PMDB para o Ministério de Minas e Energia e eu disse: para esse lugar aqui vai a companheira Dilma. Foi assim, foi uma coisa muito rápida. Ela se sobressaiu em uma reunião que tinha 15 pessoas...

Pela objetividade...

Pela objetividade e pelo alto grau de conhecimento do setor. Então foi assim que ela apareceu no meu governo.

Ótimo, Presidente. Muito obrigado. O senhor vai encontrar com o Raúl Castro, não é?

Raúl Castro.

O outro era melhor, né? Vou fazer intriga aqui.

Eu gosto dos dois.