domingo, 1 de novembro de 2009

O velho nadador voltou

O artigo reproduzido abaixo foi escrito pelo autor deste blog para o Correio da Cidadania no final de julho de 2003. É impressionante como permanece atual, mais de seis anos depois e ainda mais hoje, quando Fernando Henrique Cardoso voltou ao noticiário político para pregar o "fim do continuísmo" - vale a pena ler o artigo do ex-presidente, publicado nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo. Não dá para não reconhecer que FHC é quem tenta, é bom pontuar isto, apenas tenta, dar a linha política para a atuação da oposição ao governo Lula. No fundo, o artigo deste domingo revela muito mais as dificuldades que o consórcio demo-tucano vai enfrentar no próximo ano do que propriamente uma saída, um rumo ou discurso político para o futuro. E a razão para isto é muito simples: nem PSDB e muito menos o DEM possuem um projeto alternativo ao do PT para o país. Neste momento, apenas os partidos radicais de esquerda ainda têm um ligeiro esboço de projeto alternativo, ainda que de difícilima consecução. De qualquer maneira, a oposição que de fato conta está aí, sem programa, sem discurso, sem proposta alternativa. Sim, ela tem um candidato forte, mas dá até para ler nas entrelinhas do artigo de Fernando Henrique que isto não garante coisa alguma: se é para dar um "basta ao continuísmo", como ele prega, será preciso explicar para a população por que Lula e o PT são piores do que tucanos e democratas. E a comparação, infelizmente para FHC, não lhe é muito favorável...
Abaixo o texto de 2003, incrivelmente atual.

O cinismo do ex-presidente

Fernando Henrique Cardoso está de volta. Após um longo período de férias em Paris e Washington, ele tem se dedicado a duas tarefas: assediar empresários para conseguir mais recursos para o seu "instituto" e criticar o presidente Lula.
Na semana passada, os internautas que acessaram o provedor de internet Terra tiveram a oportunidade de assistir a um espetáculo deprimente: Cardoso foi o entrevistado do serviço de tevê do site e teve a seu dispor exatos 62 minutos para discorrer sobre os mais diversos temas. Muito à vontade na frente das câmeras, ele se esqueceu do velho ditado popular: quem fala muito dá bom dia a cavalo. "Sinto falta da piscina do Palácio do Alvorada, que era muito boa, e do uso do helicóptero", afirmou Fernando Henrique ao responder sobre como se sentia após ter deixado a presidência da República. Se tivesse parado nesta bobagem, nada demais. Afinal, não deixa de ser interessante que a população saiba com mais detalhes do que realmente gostava de fazer o ex-chefe da nação.
As bobagens, porém, continuaram. Fernando Henrique criticou as reformas propostas pelo governo Lula. "Eu não mexeria com direitos adquiridos", afirmou, referindo-se à proposta de reforma da Previdência Social da gestão Lula. Essa afirmação do ex-presidente, mais do que uma bobagem, é uma grande mentira, pois em diversas ocasiões o governo FHC tentou, sim, modificar direitos adquiridos, como bem lembrou um editorial da revista eletrônica Primeira Leitura, dirigida por um antigo aliado de Cardoso, o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros.
Bobagens à parte, o fato é que a atabalhoada volta de Fernando Henrique ao cenário político tem uma explicação lógica. Está faltando oposição ao governo Lula. Na prática, até agora apenas os radicais do PT e meia dúzia de gatos pingados do PSTU ocuparam o espaço destinado à oposição. Obviamente, a crítica que vem sendo feita por esses setores está, digamos assim, à esquerda do governo Lula. Embora muitas vezes a crítica dos radicais seja justa, a verdade é que não está conseguindo comover a população, que mantém alta a popularidade do presidente e até aceita esperar mais tempo pelas mudanças prometidas, conforme comprovou a recente pesquisa realizada pelo instituto Sensus, realizada para a Confederação Nacional dos Transportes.
À direita do presidente Lula, a bem da verdade, as críticas que apareciam ao seu governo se resumiam aos ataques um tanto histéricos de fazendeiros assustados com o que julgam "falta de ação" do governo contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Do ponto de vista da política econômica ou mesmo das reformas, o silêncio dos conservadores era sepulcral, mesmo porque tudo que Lula fez até aqui não foi outra coisa senão continuar o modelo anterior e carregar a tal "herança maldita", reclamando um pouco, mas aceitando o fardo até com mais resignação do que deveria.
O PSDB, até pela derrota na eleição passada, deveria naturalmente liderar a oposição a Lula, mas mostrou-se neste primeiro semestre completamente incompetente para criar fatos políticos ou combater o governo. Toda a oposição dos tucanos limitou-se às bravatas de Arthur Virgílio e José Aníbal, uma dupla que não é levada a sério nem mesmo dentro do PSDB. Serra sumiu, Alckmin e Aécio resolveram ficar de bem com o presidente (e a opinião pública) e o partido perdeu o rumo. Foi necessário que o ex-presidente Cardoso se apresentasse para o partido voltar a ter algum norte. A história da oposição a Lula está começando. Ao que parece, terá o cinismo como estratégia e um velho nadador como comandante.

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