sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Sarkozy imita Lula e vai ganhar aplausos

O que vai abaixo é uma matéria publicada no portal Terra. A mídia conservadora caiu matando no presidente Lula quando ele fez exatamente o mesmo que seu colega Nicolas Sarkozy. Amanhã os jornalões e revistonas estarão aplaudindo o presidente da França. Bem, o que vale para Chico deve valer para Francisco, não? Palmas para Lula, ora pois...

Sarkozy adverte a bancos que se recusam a emprestar

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, lançou nesta sexta-feira uma advertência aos banqueiros, acusados de receber o dinheiro dos contribuintes sem reabrir a torneira dos créditos, e relançou a idéia de uma nacionalização no setor.

Quinta-feira, Sarkozy pediu ao mediador René Ricol, nomeado na semana passada para enfrentar a crise financeira, que denunciasse "os exemplos de restrição inaceitável de crédito em cada departamento e em cada estabelecimento".

"Muito risco ontem, muita prudência hoje: ambos os casos são negativos. Que todos os que se arriscaram, ontem, não venham com uma prudência excessiva, hoje, para que, depois da crise bancária, tenhamos uma crise econômica", afirmou Sarkozy.

O mediador ressaltou que o Estado não hesitará em parar de emprestar dinheiro aos bancos se esses seguirem se recusando a aumentar os créditos.

"Se os bancos fecharem a torneira do crédito, fecharemos também a torneira do crédito para os bancos", advertiu Ricol em declarações à rádio France Info.

Os bancos assumiram com o governo o compromisso de aumentar de 3% para 4% os créditos concedidos às empresas e aos particulares até o fim de 2009, em troca de um plano de resgate do setor de cerca de 360 bilhões de euros.

No entanto, eles são acusados por várias empresas e particulares de tornar mais rígidas as condições para a concessão de empréstimos, o que pode impedir qualquer possibilidade de recuperação da atividade.

A Unostra, uma das principais organizações de transportadores rodoviários, acusou os bancos de restringirem o crédito e "minar" a tesouraria das pequenas empresas. O sindicato das agências de viagens também pediu ao governo que intervenha com os bancos.

"Esse plano de resgate não é dinheiro para os banqueiros, mas para os clientes dos bancos", afirmou nesta sexta-feira o ministro francês do Trabalho, Xavier Bertrand. "Na verdade, os bancos terão que manter suas linhas de crédito como estão, e com riscos", disse Ricol.

Sarkozy "não descarta entrar diretamente no capital dos bancos" se a situação perdurar, declarou o deputado Claude Goasguen, do partido UMP, no poder.

A oposição socialista concorda com esta análise. "Se quisermos controlar os bancos, precisamos estar presentes nos bancos", ressaltou um porta-voz socialista.

"Ao contrário do que foi dito, os bancos continuam a distribuir créditos. Os bancos assumiram compromissos e estão prontos para prestar contas", respondeu a diretora-geral da Federação bancária francesa, Ariane Obolensky, ao jornal Le Parisien.

Por que não Alencar e Lula?

Está começando a correr por aí que a melhor chapa para 2010 seria José Alencar para presidente com um tal de Luiz Inácio Lula da Silva de vice. Antes que alguém pergunte, sim, pela atual legislação, Lula pode concorrer à vice-presidência em 2010. Aliás, ele pode concorrer a qualquer coisa, menos à presidência de novo.

Uribe tenta, mas não consegue autorização
para disputar o 3° mandato na Colômbia

A reportagem abaixo, da agência Reuters, tem tudo a ver com a eleição de 2010, aqui no Brasil. Este blog já apontou, mais de uma vez, que a tese do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá ganhar forças, especialmente se ele conseguir atravessar a crise financeira global sem muitos arranhões em sua imagem pessoal. Neste caso, com 70% de popularidade, por que não tentar mais quatro anos no comando do país? Bem, Lula é um animal político e será dele a decisão final sobre este assunto. Se achar que a re-reeleição mancharia a sua biografia, cai fora da disputa e volta em 2014, do contrário parte para mais uma eleição presidencial. Do ponto de vista legal, seria preciso mudar as regras atuais, o que poderia ser feito via aprovação de uma Proposta de Emenda Constitucional. Do ponto de vista moral, porém, Lula precisaria de uma boa justificativa. Uma eventual mudança nas regras do jogo na Colômbia, por exemplo, onde o ultraconservador Álvaro Uribe tenta viabilizar a sua própria re-reeleição, cairia bem para o presidente brasileiro justificar as modificações por aqui. O problema é que Uribe não está tendo muito sucesso na tentativa de obter o terceiro mandato, conforme se pode ler na reportagem a seguir.

Uribe enfrenta obstáculos para viabilizar uma nova reeleição

HUGH BRONSTEIN - REUTERS

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BOGOTÁ - O fracasso inesperado esta semana no Congresso colombiano de um projeto que permitiria um terceiro mandato ao presidente Álvaro Uribe revelou fraturas na sua coalizão que podem destruir suas chances de se reeleger.

A medida, rejeitada na quarta-feira, deveria autorizar Uribe a disputar novamente as eleições de 2014, após ele sair por quatro anos em 2010, quando o seu mandato termina.

Até a derrota, o projeto era visto como uma fácil manobra política do presidente para preservar sua ampla influência sobre o país abatido por 44 anos de conflito de guerrilhas.

Ele ainda pode reverter a derrota convocando um referendo para votar pela sua autorização para disputar a presidência em 2010, mas parlamentares disseram que a derrota de quarta-feira mostra que Uribe pode não ter o apoio de que ele precisa para iniciar outra campanha presidencial.

"As chances de reeleição agora são menores do eram há uma semana", disse um membro da Congresso Santiago Castro do partido Conservador, que integra a coalizão de Uribe mas resiste aos esforços de reeleição.

O partido de coalizão Mudança Radical também está rompendo.

"Mudança Radical mostrou suas cartas e está claramente contra a reeleição agora", disse Castro. "E o partido Conservador está cogitando a idéia de ter seu próprio candidato para 2010."

No entanto, o combatente Uribe, que teve o pai assassinado em um sequestro rebelde mal-sucedido em 1983, está totalmente consciente de que nenhum outro é adversário político para ele em termos de elegibilidade.

Uribe, cujo os apoiadores no Congresso alteraram a constituição para permitir que ele concorresse a presidência em 2006, é o principal aliado da Casa Branca na América do Sul.

Parlamentares locais estão agora revendo a proposta de referendo em um constituição reescrita de novo para permitir a reeleição de Uribe em 2010.

Mas seus aliados em Washington e em Wall Street se mostram tímidos em apoiar a idéia de outra mudança na lei para mantê-lo no poder. Críticos acreditam que um terceiro mandato de Uribe poderia afetar as instituições democráticas e colocar poder demais nas mãos de um presidente.

Conhecido por seu estilo messiânico, Uribe é o único presidente colombiano que combateu a insegurança do país, ordenando ao exército colombiano que atacasse os rebeldes esquerdistas.

Os resultados da ofensiva atraíram um recorde de investimento e manter a popularidade de Uribe acima dos 70 por cento apesar de uma série de escândalos de que as forças armadas comprometeram abuso dos direitos humanos, envolvendo membros do Congresso, a maioria de sua coalizão.

(Reportagem de Hugh Bronstein)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Rio já tem candidato a governador:
Cesar Maia avisa que vai à luta em 2010

Quando não está em campanha eleitoral aberta, o prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia (foto), é um excelente analista político, conforme pode ser comprovado no post reproduzido abaixo, originalmente publicado em seu "ex-blog", como é chamada a newsletter que ele distribui diariamente, por e-mail, para quem se cadastra em seu mailing.

Sim, quando Maia comenta a política nacional e local com os olhos voltados para alguma eleição próxima, a análise perde a isenção e ele acaba tentando convencer o eleitor que seu candidato vai ganhar, com riscos de cair no ridículo - o que de fato ocorreu este ano, quando ele passou meses garantindo que sua candidata Solange Amaral subiria espetacularmente na última semana e estaria no segundo turno. Como se sabe, a candidata do DEM à prefeitura do Rio não conseguiu nem 5% do total de votos...

Como a eleição de 2010 está mais distante, Cesar Maia é capaz de fazer uma excelente análise do que vem por aí no Rio. Vale a pena ler na íntegra. Além de tudo, há uma notícia relevante no texto: ele avisa que é candidato a governador do Estado. A seguir, o texto do prefeito:

OS VETORES DA POLÍTICA FLUMINENSE APÓS A ELEIÇÃO E 2010!

1. Espacialmente, a política fluminense pode ser dividida em 9 vetores: Capital-Sul, Capital-Norte, Capital-Oeste, Baixada Fluminense, Norte/Centro Norte Fluminense, Niterói/São Gonçalo, Região dos Lagos, Sul Fluminense, e Região Serrana.

2. Na Capital-Sul a referência de Gabeira ficará estabelecida pelo tempo que ele definir um projeto político e então se avaliará o desdobramento. Não deverá ser candidato a governador, mas uma candidatura sua ao senado, se em coligação, reforçará muito esta coligação. Na Capital-Norte e na Capital-Oeste não há vetor político hegemônico, pois as oscilações entre primeiro e segundo turno foram claras, inclusive com inversões em certas áreas e a avaliação positiva do atual prefeito, aí, poderá lhe dar sustentabilidade. O exercício do poder pelo PMDB na capital nestes 18 meses pré-eleitorais definirá sua expressão política, na medida em que não vem tendo referências de opinião pública há anos.

3. Na Baixada Fluminense o fato mais expressivo foram as derrotas do PMDB nos grandes municípios. As lideranças afirmadas dos prefeitos eleitos de Nova Iguaçu (PT) e de Caxias (PSDB) vão desenhar o quadro futuro. O prefeito de Nova Iguaçu será candidato a governador, negociando, com a saída do governador a vice do PT, o apoio do PMDB. Nesse caso se fortalece muito. O PSDB, com o cacife de Caxias, avaliará o quadro político nacional e as coligações que poderá fazer regionalmente com vistas a 2010, já que ainda não tem um nome majoritário para governador.

4. O PDT reina soberano em Niterói-São Gonçalo e com força eleitoral e lideranças expressivas, será peça desejada no jogo das alianças para 2010. Garotinho ressurge das cinzas e retoma sua trajetória a partir de sua liderança no Norte-Centro Norte Fluminense, com uma base de lançamento muito forte, lastreada pelos royalties do petróleo. O Sul Fluminense sai das eleições municipais sem vetor hegemônico, com as forças divididas.

5. Na região dos Lagos, o PMDB se enfraqueceu ao se dividir e se repete a situação do Sul Fluminense: não há hegemonia. Na região Serrana a surpresa foi a vitoria do PT em Petrópolis, o que, apoiado em nível federal, será um reforço à candidatura do prefeito de Nova Iguaçu a governador.

6. O jogo para 2010 parte com uma dúvida: se o governador do PMDB sairá para ser candidato a vice-presidente ou permanece e será candidato a reeleição. O prefeito de Nova Iguaçu será candidato de seu partido. O DEM inevitavelmente lançará o atual prefeito do Rio. Garotinho afirma que é candidato de qualquer forma. O PSDB avaliará se reproduzirá aqui a aliança nacional com o DEM, reforçando a candidatura deste a governador, ou não. E o PDT avaliará o quadro estadual até o último momento de forma a buscar a parceira certa com vistas a seu fortalecimento político e parlamentar.

7. Paradoxalmente, os espaços políticos do governador do PMDB se estreitaram muito no Estado desde sua vitória em 2006. Sua avaliação hoje é apenas sofrível, o exercício do poder na capital não é um passeio e o ano de 2009 não ajudará. Será um jogo que já começa animado, esse de 2010.

Rumo ao hexa

Uma pausa para política e mídia, temas centrais deste blog. Depois da vitória de ontem, no Engenhão, ficou evidente que o São Paulo só não vence este campeonato brasileiro se errar muito. Só perde para si próprio, como gostam de dizer os cronistas esportivos. E não é que a equipe seja extraordinária, as demais é que são muito ruins. O tricolor do Morumbi tem apenas 3 fora-de-série - o goleiro Rogério Ceni, que ontem deu um show de bola e catimba, e os volantes Hernanes e Jean, autores dos dois golaços contra o Botafogo. Este blog não se cansa de dizer que não consulta videntes, mas aposta que a dupla tricolor será titular na Copa de 2010, na África do Sul. Mineiro e Josué terão de se contentar com o banco de reservas. Quem viver, verá...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Aécio chama Serra para bailar

O PSDB é um partido engraçado. Foi fragorosamente derrotado nas urnas na eleição municipal deste ano – elegeu apenas 4 prefeitos em capitais de Estado –, perdeu eleitorado em relação a 2004 e elegeu menos prefeitos do que há quatro anos. Mesmo assim, os tucanos conseguem passar na grande imprensa a imagem de que foram bem eleitoralmente e de que quem perdeu foi o PT, que apesar das derrotas duras no segundo turno, conseguiu ampliar o eleitorado e o número de prefeitos eleitos em pouco mais de 40%, comparativamente a 2004. É verdade que o governador José Serra, de São Paulo, se deu bem com a vitória do seu candidato na capital, o democrata Gilberto Kassab. O grande trunfo de Serra, porém, já começa a ser ofuscado pelo desempenho midiático do correligionário e governador de Minas Aécio Neves, que nos últimos dias vem pautando a cobertura política de uma maneira simples e eficaz, qual seja a de dizer o que pensa em alto e bom som.

Serra é mesmo um político azarado. Quando tudo indicava que ele teria uma eleição tranquila em 2006, com Lula ferido pelo escândalo do Mensalão, veio Geraldo Alckmin e puxou-lhe o tapete, tirando o então prefeito de São Paulo da disputa presidencial. Agora é a vez de Aécio começar a sinalizar que se Serra pensa que já é o candidato do PSDB à presidência em 2010, é melhor tirar o cavalinho da chuva e colocar o seu nome para uma disputa interna, na forma de prévias, como fazem os americanos. Ora, isto é tudo que Serra não gosta. Tem que perder tempo debatendo, é preciso convecer os integrantes do partido com direito a voto, enfim, é preciso perder tempo em uma disputa democrática, coisa que todo mundo sabe que o governador de São Paulo não aceita bem. No fundo, José Serra gostaria de viver uma situação em que o partido implorasse para que ele assumisse a candidatura presidencial. Mas isto vai acontecer, pelo que se vê na ação de Aécio Neves ainda em 2008, dois anos antes do pleito.

No fundo, o maior eleitor de Serra hoje é a crise financeira. Para os tucanos, o "quanto pior, melhor" já virou um mote de sobrevivência política. Se o país chegar em 2010 de pé, com a economia em bom estado, o governador de São Paulo teria suas chances brutalmente diminuídas. Já se a crise pegar forte no bolso dos brasileiros, aí ele pode se colocar como o salvador da pátria, homem experiente e que conhece bem os fundamentos da economia. O problema todo é que pode haver um Aécio no caminho, dentro no PSDB ou fora dele – no PMDB, por exemplo. Que Aécio já demonstrou muito mais jogo de cintura e traquejo político do que Serra, não resta a menor sombra de dúvida. Mas é precisos esperar os próximos passos do governador mineiro para enfim perceber se ele também possui o arrojo dos grandes líderes, dos que avançam sem medo de olhar para trás e se arrepender. O jogo está só começando.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Diogo Mainardi faz escola

Os neocons devem estar em polvorosa nos EUA. Pegaram alguns deles com a boca na botija, como se pode ver abaixo e na matéria da Folha Online. Por aqui, essa turma de brucutus tem como ídolo máximo o colunista (?) Diogo Mainardi, da revista Veja. Nothing personal, mas seria prudente os funcionários da agência brasileira de inteligência ficarem espertos. O que é bom para os seguidores de Mainardi quase sempre não é bom para a democracia.

Em foto sem data de site da internet, Daniel Cowart, 20, segura arma de fogo

A seguir, a íntegra da matéria da Folha Online:

Agentes americanos dizem ter frustrado plano para matar Barack Obama

da Associated Press, em Washington

Agentes americanos frustraram um plano para assassinar o candidato democrata à Presidência, Barack Obama, e para matar a tiros ou decapitar outros 102 negros em uma onda de assassinatos no Estado do Tennessee.

Em registros da Justiça divulgados nesta segunda-feira, agentes federais afirmaram ter frustrado os planos de dois skinheads neonazistas que pretendiam roubar uma loja de armas e atacar uma escola cuja maioria dos alunos é negra. Os agentes dizem que os skinheads não revelaram o nome da escola.

Jim Cavanaugh, agente especial responsável pelo escritório de campo de Nashville do Escritório para Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos, disse que os dois homens planejavam atirar em 88 negros e decapitar outros 14. Os números 88 e 14 são simbólicos na comunidade que prega a supremacia branca.

Os homens também queriam realizar uma onda nacional de assassinatos, tendo Obama como seu alvo final, afirmou Cavanaugh à agência Associated Press.

"Eles disseram que esse seria seu último, seu ato final --que eles tentariam matar o senador Obama", disse o agente. "Eles não acreditavam que fossem conseguir, mas que morreriam tentando."

Uma porta-voz do presidenciável que o acompanha na Pennsylvania não comentou o caso.

Os dois homens, Daniel Cowart, 20, e Paul Schlesselman 18, estão detidos sem fiança.

Agentes apreenderam um rifle, uma arma de cano curto e três pistolas dos homens quando eles foram presos. Autoridades disseram que os dois homens tentavam invadir uma loja de armas para roubar mais armamentos.

Cowart e Schlesselman são acusados de porte de arma não registrada, conspirar para roubar armas e ameaçar um candidato a presidente. A investigação continua, e eles podem receber mais acusações, disse Cavanaugh.

Crise? Eleição? O internauta não quer saber

O que vai abaixo é a lista das cinco matérias mais lidas nesta segunda-feira na Folha Online. Não deixa de ser interessante reparar que até em um site que pode ser considerado "de elite" na internet (não se trata de um portal popular, focado no jornalismo de celebridades ou coisa semelhante), o que o público quer mesmo é TV, gente famosa e crime violento. Pelo andar da carruagem, só quando o pessoal do mercado financeiro começar a dar tiros na cabeça é que o brasileiro médio vai se interessar pela crise global. E tem gente achando que não demora muito...

1. Amy Winehouse volta a ser internada
2. Globo antecipa pesquisa sobre "Negócio da China", informa Outro Canal
3. Grupo invade a Bienal e picha o segundo andar
4. Mãe diz que Nayara está chateada com críticas no Orkut
5. Em entrevista a TV, Nayara volta a negar tiro de Lindemberg antes da invasão da PM

Balanço das urnas: PMDB é
o grande vencedor em 2008

O Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) lembrou os velhos tempos e fez bonito nas eleições deste ano. Neste domingo, elegeu 8 prefeitos nas 30 cidades que estavam em disputa, sendo 4 deles em capitais importantes - Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre e Florianópolis. Empatou com o PT e vai governar 6 capitais. No primeiro turno, já havia vencido a eleição em 1195 municípios, assumindo a liderança isolada no ranking dos partidos. Nenhum outro conseguiu chegar a mil eleitos. A performance é ainda mais significativa quando se considera que em São Paulo, onde o DEM venceu com Gilberto Kassab, o PMDB indicou Alda Marco Antonio para vice, com grandes chances de assumir o cargo em 2010, se Kassab disputar o governo do Estado, o que a esta altura do campeonato não deve ser considerado nem de longe improvável.

O PT foi bem no segundo turno, venceu em 8 cidades, mas a derrota nas capitais manchou a performance do partido, que cresceu cerca de 40% neste ano se comparado com o desempenho de 2004, considerando o total de prefeitos eleitos. Além das 8 vitórias, o PT divide com PSB e PSDB os louros da eleição do socialista Márcio Lacerda em Belo Horizonte – na capital mineira o vice-prefeito inclusive é do partido de Lula. Em outras cidades, como Campina Grande, onde o PMDB saiu vitorioso, o PT estava na coligação. No Rio, o PT apoiava Paes contra Gabeira no segundo turno e também acabou colaborando na vitória do peemedebista.

O PSDB teve uma performance muito discreta no segundo turno. Venceu em quatro cidades, duas delas capitais de Estado (Cuiabá e São Luis). Vai governar apenas quatro capitais (já havia conquistado Teresina e Curitiba no primeiro turno), o que é muito pouco para o partido que governo o Brasil nos oito anos que antecederam os mandatos do presidente Lula, ainda mais considerando a relevância dessas capitais - só Curitiba de fato tem peso político, e mesmo assim, limitado.

O DEM levou apenas uma cidade, São Paulo. Esta é, no entanto, a mais cobiçada de todas. A reeleição de Gilberto Kassab sem dúvida mantém os democratas como partido relevante no cenário político, mas a verdade é que de todas as legendas, a que mais perdeu foi justamente o DEM. De pouco mais de 1 mil municípios em 2004, conquistados pelo então PFL, o partido não conseguiu desta vez chegar a 800. Mesmo com a vitória em São Paulo, perdeu eleitores, em função sobretudo da derrota no Rio, onde a candidata de Cesar Maia acabou com ridículos 3%. Ademais, qualquer analista político sério atribuirá a vitória de Kassab em São Paulo muito mais a peso jogado pelo PSDB na sua eleição do que propriamente ao DEM. Kassab é um "quase-tucano" e ninguém se espante se ele mudar de partido até 2010. Todas as ressalvas feitas, a vitória paulistana tem o ingrediente de manter os democratas como satélite do PSDB, já que Kassab é um grande entusiasta da candidatura de Serra à presidência. Se ele não trocar de partido, portanto, ou mesmo ainda que troque e mantenha alguma influência no partido, tudo leva a crer que o plano de Cesar Maia de um candidatura própria em 2010 será definitivamente sepultado.

Os demais partidos de oposição tiveram uma performance simplesmente ridícula. PPS e PSOL não elegeram ninguém nas 77 maiores cidades do Brasil. O partido de Roberto Freire, é bem verdade, prefere se aliar ao PSDB e DEM em cidade onde não têm lideranças expressivas com chances de disputar uma eleição - ou seja, a maioria delas. Em São Paulo, lançou Soninha e o resultado foi pífio. É um partido que na humilde opinião deste blog, tende à irrelevância e serve para que políticos cada vez mais reacionários apareçam com verniz esquerdista, sabe-se lá por que razão. Já o ridículo desempenho do PSOL se deve em parte ao fato de que a legenda ainda está em fase muito embrionária – não tem ainda nem uma década de funcionamento – e também a uma certa vergonha de se assumir como extrema-esquerda: é quase inacreditável que tenha passado a campanha sem nem sequer mencionar a crise financeira mundial, assunto que deveria obrigatoriamente estar na pauta de um partido como o PSOL.

Tudo somado, a eleição de 2008 acabou e a de 2010 já começou. Quem larga na frente? José Serra, obviamente, em função da eleição de Gilberto Kassab. Não só a vitória do aliado, aliás, mas a performance patética de Geraldo Alckmin também caiu como uma luva para Serra, que daqui para frente não precisará ser tão cordato com o correligionário. O PT tomou um belo susto ao perder tantas capitais importantes, mas está mais robusto para a disputa de 2010 do que estava em 2006. É bom não desprezar a ampliação do eleitorado e a obtenção de 40% mais prefeituras do que em 2004, pois isto ajuda bastante em eleições gerais, especialmente na logística da formação de palanques e financiamento das campanhas.

Mas a pergunta que não quer calar agora é sobre a posição do PMDB, grande vitorioso nas urnas neste ano. Afinal, como vai se comportar o PMDB? Hoje, este blog tem certeza que os peemedebistas estão majoritariamente com Lula. Sérgio Cabral, padrinho de Eduardo Paes, adoraria ser vice em uma chapa PT-PMDB. Roberto Requião é Lula. O PMDB de Minas, comandado por Hélio Costa, é Lula. O PMDB da Bahia, de Geddel Vieira de Melo, apesar das rusgas surgidas na eleição atual, também é Lula. Até Pedro Simon agora resolveu lular e deu declarações surpreendentes neste domingo, apoiando a idéia do PMDB indicar o vice em uma chapa encabeçada por Dilma Rousseff. Isto no dia em que PMDB e PT travavam uma disputa dura pela prefeitura de Porto Alegre.

Até agora, a única voz de peso a contrariar o PMDB lulista é a de Orestes Quércia. O presidente da legenda em São Paulo já disse para quem quisesse ouvir que é favorável a uma aliança com José Serra. Em 2002, quando o PMDB estava com Serra, Quércia apoiou Lula, junto com Roberto Requião. E venceu. Agora, o experiente cacique de São Paulo prefere correr ao lado do PSDB e é até possível que em 2010 esteja com Serra, mesmo contra o apoio formal do partido. E também é possível que Quércia consiga mais aliados em seu partido para a causa que defende.

Por fim, não é prudente descartar, em uma situação mais turbulência, de crise aguda na economia - que ninguém aqui deseja, obviamente, mas também não pode deixar de lado, até para o rigor da análise -, que o PMDB lance um candidato próprio. O grande problema é que não há hoje um nome capaz de unir a legenda. Sérgio Cabral talvez seja o mais forte, mas também sofre resistência. O nome que verdadeiramente uniria os peemedebistas está fora do partido: trata-se de Aécio Neves. Hoje no PSDB, o governador mineiro desmente a mudança de partido toda vez que alguém toca no assunto, mas sem muita veemência, como convém a um bom mineiro. Aécio no PMDB poderia disputar inclusive o apoio enrustido, digamos assim, do presidente Lula. Seria um nome respeitável e provavelmente agregaria mais apoios do que José Serra.

2010 está só começando. Algumas cartas já estão na mesa. Até lá, se o eleitor quiser acompanhar bem o jogo político, deve prestar atenção na economia. Os políticos estão todos de olho no desempenho da economia nacional e quem está com o governo hoje pode amanhã não estar, se a maré mudar. Lula sabe disto e é um arguto analista político, talvez o mais esperto de todos. Enquanto digere os resultados negativos de seu partido nas capitais, certamente não estará lamentando a má sorte de seus candidatos, mas pensando em como melhorar as coisas mais à frente. Para isto, todo o foco de seu governo está em evitar uma contaminação muito grande da crise mundial na economia brasileira. Se tiver sucesso, poderá eleger seu sucessor até com relativa facilidade (ou facilidade enorme, se o candidato for ele mesmo). Caso contrário, a eleição será bem disputada, com diversos candidatos. Talvez até lembre a de 1989, em que quase todos os partidos existentes lançaram algum nome para a presidência. O PMDB pode estar na cédula, com chances até de recuperar o poder que perdeu justamente em 89. Mas muita água vai rolar por debaixo da ponte até 2010. O problema todo é que às vezes a correnteza passa rápido. Rápido demais.

Alemão: Mídia, Eloá e a crise internacional

Deixando um pouco as eleições de lado, vale a pena ler o artigo abaixo, reproduzido do site Terra Magazine, de autoria do colunista Márcio Alemão. Aliás, cabe aqui um elogio público ao Terra Magazine, editado pelo craque Bob Fernandes: seja na cobertura da crise, seja nas análises de temas cotidianos - eleições, inclusive -, o site tem se revelado um dos veículos mais criativos e interessantes da internet brasileira, mostrando que com inteligência é possível oferecer reportagem e análises de qualidade, ainda que contando com poucos recursos. A maior virtude ali é o ineditismo dos enfoques das matérias e análise.

Bob e sua equipe estão sempre olhando para a realidade de um jeito diferente do que o dos jornalões e grandes portais. Quem lê jornal em São Paulo sabe bem: a capa da Folha e do Estadão em geral são parecidíssimas, a diferença entre os dois se dá apenas no grau de anti-petismo de cada um. E de resto, as coberturas são sempre idênticas, é até chato ler os dois jornalões. No Rio, na prática só há um impresso disponível, O Globo, porque o JB já não pode mais ser considerado propriamente um jornal.

E na internet, blogs à parte, é claro, basta navegar um pouco para perceber que a diversidade é mínima, os sites dos portais se limitam a reproduzir as mesmas coisas, sempre, com pequeníssimas mudanças no texto ou foco da reportagem. Por tudo isto é que vale sempre a pena dar um pulinho no Terra Magazine para ver o que Bob Fernandes anda aprontando. A seguir, a íntegra do texto de Márcio Alemão.

Cobertura da tragédia

Vale a pena comentar sobre os urubus e hienas do caso Eloá?

Talvez valha citar um momento muito interessante, no qual o roto indignou-se com o rasgado. Datena não poupou críticas à "irresponsabilidade" de Sonia Abrão.

Pouco vi, confesso.

Acompanhei à distância e tentei manter este bom distanciamento, que não foi possível porque durante esses eventos ninguém te deixa em paz, esteja você onde estiver.

Mesmo sem querer, ouvi várias sugestões e não posso dizer que alguma tenha feito sentido. "Entra logo lá e mata esse f... " foi a mais ouvida. Pois eu cheguei a imaginar um cenário: todo mundo caindo fora. Cobertura zero, silêncio. Francamente não acho que mudaria o final trágico da história, mas é certo que levaria centenas, milhares de hienas ao desespero.

É provável que um reporter se disfarçasse de carteiro para entrar no prédio com uma micro câmera. É possível que dois se vestissem de zebra, aquela famosa zebra de circo, na esperança que o sequestrador, encantado com a presença do inesperado animal abrisse a janela para jogar um pedaço de pão a ele.

Esforços de todas as partes não seriam poupados para que a determinação de manter o silêncio fosse burlada e o furo jornalístico se realizasse. Não faz muito que fomos brindados com esses excessos, durante o caso Isabella. Escrevi a respeito citando o filme de Billy Wilder, "A Montanha dos 7 Abutres" (leia aqui).

Quem sabe não tenha chegado o momento de discutir com maior seriedade essa questão: como reagem esses psicopatas quando a mídia faz deles uma celebridade, ainda que seja do mal? Já fizeram esse estudo? Não seria bom fazê-lo?

O que eu sei é o que vejo em filmes. Em determinado momento eles percebem que foram muito além da conta. Tão além que não acreditam no perdão ou na "suavização" da eventual pena. Não existe saída, por mais que os negociadores insistam em dizer o contrário.

Isso, esclareço mais uma vez, é o que vejo em filmes.

Fato é: o caso rendeu boa audiência para quem se aproveitou da tragédia. E não tem sido muito diferente o noticiário econômico. São milhões de deseperados no mundo. Os negociadores insistem: "não vendam todas suas ações; não saquem o dinheiro dos bancos, as coisas irão melhorar".

Totalmente alucinados, eles não ouvem e vendem tudo e sacam tudo e a quebradeira é geral e as pessoas começarão a pular de sacadas, estourar miolos e audiência estará garantida.

Não chegaremos a esse ponto, é claro. E vou além em uma aposta: as pessoas estão ficando fartas do jornalismo carniceiro. Alguém se lembra do extinto "O Povo na TV"? Alguém se lembra do sucesso do Ratinho? É por aí a minha aposta.

Márcio Alemão é publicitário, roteirista, colunista de gastronomia da revista Carta Capital, síndico de seu prédio, pai, filho e esposo exemplar.

Rodini: sobre muros e lamentações

Em mais uma colaboração para o blog, o santista Jorge Rodini, diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia, comenta os efeitos da crise financeira global na vida real das pessoas. A seguir, o texto na íntegra.

Nestes dias sombrios de nuvens calmas e mercados nervosos, tenho tentado manter equidistância do ímpeto e da inércia.

Ímpeto de sair por aí e gritar contra a queda do muro - de Wall Street, a Rua do Muro. E a inércia de ficar ruminando sobre o destino, sobre o futuro, sobre o que se acumula ou do que se deixou de aproveitar. O mercado socorrido pelo Estado. Ou melhor, pelos Estados americanos e europeus.

E o que é mercado? É algo que acumuladores inventaram para garantir seus altos ganhos com especulação. Mas as regras só valem para quando ganham. Quando perdem, passa a valer a intervenção do Estado. E quem é o mercado? Na euforia, quem se apropria dele são os investidores peixes grandes. Na depressão, são os investidores bagrinhos que herdam o esqueleto... Ou, pior, os reles consumidores endividados.

A globalização vale para quando as coisas andam bem, mas é muito rigorosa nos tempos das vacas frias. Se a crise começou nos seniors EUA, ela se propaga para os países asiáticos, para as potências européias e para os estagiários latino-americanos.

Uma frase que ouvi por aí pode explicar melhor este turbilhão de idéias: "quem não planeja, tem destino. Quem planeja, tem futuro". Mais uma vez, o cavalo passou arriado e o Brasil não aproveitou.

O cidadão comum vê no açougue que o bife já não é mais seu. Que o sonho do carrinho acaba no posto mais próximo. Que a casa própria estava tão perto e agora foi parar no abismo americano. Que a educação de melhor qualidade vai ficar, no máximo, para seus netos. E percebe que todo o dinheiro arrecadado de seu suor que havia parado nas mãos do Estado vai sumir no meio de mais uma bolha.

E o cidadão, mais uma vez, senta na mesa para contar para seus filhos que está na hora de economizar. Que o bolo parou de crescer. Haja farinha. Haja....

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Mendonção avisa seus colegas tucanos:
melhor aprovar rapidinho a MP 443

Enquanto os líderes oposicionistas fazem nhénhénhém, como diria aquele presidente de tão triste memória, no Congresso, criticando a medida provisória 443, que permite ao BB e CEF comprar instituições financeiras que estão com problemas, um dos mais lúcidos mentores do tucanato, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, publica um artigo na Folha de S. Paulo desta sexta-feira elogiando a atuação do Banco Central e a MP 443. O recado de Mendonção, ministro das Comunicações na gestão Fernando Henrique Cardoso, para os tucanos é claro: "alô, palermas, não brinquem com fogo e aprovem logo a medida porque senão a coisa vai ficar feia". Mais claro, impossível. A seguir a íntegra do artigo do economista.

Da marola ao tsunami

A cortina de fumaça não paralisou o BC, que tomou medidas para lidar com a liquidez dos bancos menores

A CRISE financeira mundial chegou ao Brasil com todo o seu impacto destrutivo. Em setembro, os primeiros ventos dessa tempestade já podiam ser sentidos no âmbito mais restrito do mercado financeiro. A volatilidade dos ativos brasileiros, negociados aqui e no exterior, começou a aumentar de forma desordenada. Mas esses sentimentos não chegavam ao lado real da economia, que vivia ainda as doces brisas de um longo verão de crescimento.
A posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ajudou muito para preservar esse entusiasmo. Qualificando a crise financeira como uma questão dos países do Primeiro Mundo, ele reforçava a impressão de que as dificuldades enfrentadas eram coisa de ricos. Mas essa cortina de fumaça rósea desapareceu agora em outubro.
Primeiro, a questão pontual das empresas que especularam com o real tornou-se um problema bancário sério. Depois, a consolidação do cenário de recessão global trouxe a crise financeira às economias emergentes. Com a velocidade e a força de um tsunami, foram atingidos nos últimos dias os papéis da dívida externa (privada e pública) de vários países, trazendo de volta os fantasmas das crises asiática em 1997 e da Rússia/Brasil em 1998.
A flutuação irracional dos preços tem causado prejuízos imensos em todos os segmentos do mercado financeiro. Em razão desse estado de coisas, os bancos brasileiros reduziram de forma agressiva a concessão de crédito. Os números deste mês mostram claramente um fenômeno de descontinuidade no mercado de crédito, no momento em que a atividade produtiva da economia e a febre de consumo de milhões de brasileiros atingiam seu ponto mais alto.
Os ventos externos -agora gelados e fortes- chocaram-se com o ar quente do otimismo de todos. Podem estar certos os leitores da Folha que o impacto sobre as empresas e os consumidores vai ser muito duro e duradouro.
Felizmente para todos nós, a cortina de fumaça não paralisou o Banco Central. Enquanto o ministro da Fazenda seguia o tortuoso e perigoso caminho de negar os problemas reais, o Banco Central agiu.
Tomou medidas agressivas para lidar com a questão da liquidez dos bancos de médio porte, reduzindo o compulsório e criando incentivos para a venda de carteiras de crédito dos bancos em dificuldades. Disponibilizou dólares de sua reserva para destravar as operações de financiamento ao comércio exterior. Injetou liquidez nos mercados de câmbio, agindo nos mercados "spot" e de derivativos.
Por fim, criou mecanismos legais no caso de ser necessária uma infusão de capital nas instituições com problemas de solvência. Apesar da grita contra uma possível estatização de prejuízos, não existe no momento uma alternativa para evitar a quebra de bancos e o aprofundamento da crise. Enfrentamos hoje os mesmos resmungos ouvidos nos Estados Unidos e na Europa há poucos meses. Sugiro a leitura da revista inglesa "The Economist" desta semana para que se possa digerir com menos dificuldades a medida provisória nº 443, assinada na terça-feira.
Aqui, como no exterior, vamos ter de usar o Estado para evitar o mal maior de uma recessão profunda. O que a sociedade deve exigir é que esse movimento, se necessário, seja feito com transparência e fiscalização externa. Como nos Estados Unidos, o Congresso Nacional deve criar uma comissão para acompanhar a utilização desse mecanismo extraordinário.
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 65, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Até Datena concorda: mídia passou
dos limites na tragédia de Santo André

Vale a pena ler a entrevista abaixo, publicada originalmente no Terra Magazine. O apresentador José Luiz Datena, que comanda um dos programas mais polêmicos da televisão brasileira, achou excessiva a exploração do seqüestro das meninas Eloá e Nayara na mídia nacional. Este é um país estranho. É preciso um sujeito como o Datena para avisar que "jornalista não é negociador", logo ele, que tantas vezes já foi acusado de extrapolar todos limites do bom senso em seu programa de caráter nitidamente sensacionalista. Se Datena acha que a turma exagerou, a situação é realmente muito grave. E em várias passagens da entrevista, não dá mesmo para discordar do que ele diz. O caso de Santo André comoveu e ainda comove o Brasil. Noves fora a extrema incompetência da polícia paulista, que conseguiu a proeza de devolver uma refém menor de idade a um assassino potencial, além de invadir o local quando ele começava a dar óbvias demonstrações de cansaço, após 100 horas de negociação, o comportamento da mídia também foi nota zero. No fundo, difícil dizer que agiu pior, se a polícia ou a imprensa.
A seguir, a íntegra da entrevista.

"Jornalista não é negociador", critica Datena

Claudio Leal

No turbilhão do seqüestro das garotas Eloá e Nayara, o apresentador do programa "Brasil Urgente" (Bandeirantes), José Luiz Datena, criticou no ar as entrevistas feitas por outras emissoras com o seqüestrador Lindemberg Alves, em Santo André (SP).

A Rede Record, a RedeTV! e a Rede Globo ouviram o seqüestrador, por telefone, antes da ação da polícia. Datena, da Band, afirma que teve acesso ao número de Lindemberg, mas optou por não ouvi-lo. Em entrevista a Terra Magazine, o apresentador esclarece que não fez críticas específicas a jornalistas, mas à interferência da mídia no teatro do crime. "(Jornalista) não é negociador. Negociador é negociador". Expõe sua visão da cobertura:

- Uma palavra errada que você coloca, o cara pode pegar e matar alguém lá dentro. O fato de ele ter falado muito em televisão e aparecido muito em televisão pode ter prolongado o seqüestro, sim. Se o cara estava se sentindo o "rei do gueto", como ele falou... Isso pode ter prolongado - diz Datena.

Para ele, a imprensa não é responsável pelo desfecho trágico. Antes de julgar os policiais, prefere esperar o resultado da perícia. Guarda, porém, uma avaliação crítica do episódio e defende que ele pode servir de lição para as próximas coberturas:

- Isso tudo pode influenciar. Não é legal. Na verdade, uma cobertura como essa serve pra todo mundo aprender: a polícia, a televisão, a imprensa. Se você isola aquele local e o cara não tem imagem de televisão, acho que a situação seria outra.

Leia a entrevista:

Terra Magazine - Por que o senhor criticou a posição da imprensa de entrevistar o seqüestrador Lindemberg?
José Luiz Datena - Eu não critiquei a opinião da imprensa, meu irmão. Critiquei o fato de terem colocado no ar... É exatamente isso que estou falando pro meu diretor agora. Critiquei o fato de, isoladamente, algumas pessoas da imprensa colocarem o sujeito, que estava sob forte pressão, com arma na cabeça de duas crianças, pra falar no ar. Primeiro que jornalista não é preparado para conversar com seqüestrador.

Não é negociador?
Não é negociador. Negociador é negociador. Não estou dizendo que o negociador da polícia cometeu erro. Se o cara que está preparado pra negociar comete erros, imagine então um sujeito que não é preparado. O cara que apresenta bem, que é bom repórter, é bom jornalista, necessariamente não é um cara preparado pra falar com um seqüestrador.

Nesses momentos, quais são os cuidados que um telejornal popular precisa tomar?
Primeiro lugar que não é telejornal popular, meu irmão. É qualquer jornal. Não foi só telejornal popular que entrevistou.

Mas, no caso, o senhor criticou o programa da Sonia Abrão.
Não foi Sonia Abrão coisa nenhuma! Eu nem sabia que ela tinha entrevistado o cara. Quem estava entrevistando era a Record. A Globo entrevistou o cara também...

Sim...
Ninguém falou de Sonia Abrão, especificamente. Eu nem estava sabendo que Sonia Abrão já tinha entrevistado o cara. É que, no meu horário, eu tinha o telefone do cara e me sugeriram falar com ele. Eu disse: "Não vou falar com o cara coisa nenhuma". "Ah, mas a Record tá dando...". Isso é problema da Record, não é problema meu. Não faço isso.

Isso influencia o comportamento do seqüestrador?
Não é questão de influenciar. Uma palavra errada que você coloca, o cara pode pegar e matar alguém lá dentro. O fato de ele ter falado muito em televisão e aparecido muito em televisão pode ter prolongado o seqüestro, sim. Se o cara estava se sentindo o "rei do gueto", como ele falou... Isso pode ter prolongado.

A cobertura foi sensacionalista?
Não sei se foi sensacionalista, mas eu sei uma coisa: se fosse só eu que tivesse entrevistado o cara, tava todo mundo metendo o pau em mim.

Em outros os momentos, o senhor errou pra justificar esse tipo de crítica?
Quem errou?

Em coberturas anteriores, houve erros que justificassem essas críticas?
Você vai aprendendo com o tempo. Agora, não foi a imprensa a principal culpada pelo cara ter matado. Aliás, temos que esperar a perícia, pra ver realmente quem atirou. Não foi a imprensa a culpada disso tudo. Eu critiquei algumas pessoas que também não são as culpadas, do meu ponto de vista. Acho que não é legal fazer isso. É minha opinião.

O senhor disse que tinha o telefone do seqüestrador e optou por não ligar, é isso?
Optei por não entrevistá-lo.

Avaliou que isso prejudicaria as negociações?
É... Mas não estou dizendo que a imprensa foi a culpada ou essas pessoas. Nem sabia que Sonia Abrão tinha entrevistado! Até falei isso no programa de sexta-feira. Não sei por que a Sonia Abrão tá metendo o pau em mim. Não falei o nome dela. Mesmo porque sempre tive ela em alta consideração.

E falou isso no ar.
Nem sabia que era ela. É que o sujeito estava dando uma entrevista, não sei se era gravada ou não, pro telejornal da Record. Todo mundo me critica - "Ah, o cara faz entrevista sensacionalista..." - e eu não coloquei o cara no ar. Acho que fui o único da televisão que não colocou. Não quero dizer que eles foram responsáveis pela tragédia que aconteceu.

Mas não cria um ambiente, em torno do seqüestro, que prejudica a negociação da polícia?
Você não viu? O cara falou que era o "rei do gueto". Aparecendo em tudo que é televisão... O fato de a menina ter voltado pra lá também. Sei lá por que ela voltou pra lá, entendeu?

Isso está em outra esfera?
Pode ser a mesma também. Porque ela estava aparecendo na televisão. Isso tudo pode influenciar. Não é legal. Na verdade, uma cobertura como essa serve pra todo mundo aprender: a polícia, a televisão, a imprensa. Se você isola aquele local e o cara não tem imagem de televisão, acho que a situação seria outra. Mas não foi o fator fundamental que propiciou a tragédia. Mesmo porque não foi ninguém da imprensa que foi resgatar as meninas. Outra coisa: falam aí que a polícia americana acha que houve falhas... Qual foi a maior falha de segurança em termos de história contemporânea?

O 11 de Setembro?
Ué! Os caras enfiaram dois aviões dentro daquelas Torres Gêmeas e mais uma avião na casa de guerra dos americanos, na maior potência do mundo. Não souberam como agir na hora. Quem são eles pra ficarem criticando a ação da polícia brasileira? Deviam olhar para o próprio quintal. O mais lamentável em tudo isso foi o desfecho. Ninguém queria que isso acontecesse. Não sei se você concorda comigo, mas é minha opinião.

Nenhuma crítica específica?
Não é específica. É minha opinião. Sempre dei minha opinião. E não gostei quando disseram: "Ah, Datena criticou os colegas..." Não critiquei colegas.

Há problema em criticar colegas? Não seria corporativismo evitar fazer críticas?
Todo mundo me critica. Eu critiquei quem colocou as entrevistas no ar. E, naquela hora, era uma crítica específica ao "Jornal da Record", que estava colocando o cara no ar. Me disseram: "A Record tá colocando o cara..." Não coloquei. O cara está seqüestrando... Bandido não fala através de televisão, não fala através de jornal. Fala através de advogados, da justiça.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sobre SP, RJ, BH e Salvador

De volta à base, depois de uma rápida mas interessante viagem às capitais da Bahia, Minas e do Rio de Janeiro, vamos a algumas rápidas considerações sobre as pesquisas recém saídas do forno.

Em São Paulo, o jogo parece decidido, salvo algum grande fato político nesta sexta-feira. Marta teria de trucidar Kassab no debate ou revelar algo realmente impactante ao longo do dia. Mesmo assim, teria de ser algo demolidor, porque entre sexta e domingo o tempo é muito curto para que a população toda tome conhecimento e consiga digerir a notícia. Uma piada diz que a esta altura o candidato democrata só perde a eleição se for pego na cama com um homem vivo ou com uma mulher morta. O prefeito não é bobo, vai ao debate apenas para não ganhar a pecha de fujão, que sempre acaba tirando uns votinhos, mas deve aplicar a velha tese do futebol gaúcho de que a melhor defesa é a defesa mesmo... Retranca total, até porque a diferença é muito grande.

Em Salvador, pelo que o blogueiro pôde observar, a tendência é a vitória do prefeito João Henrique Carneiro, do PMDB, mas lá é sempre prudente não descartar uma surpresa. Walter Pinheiro, do PT, tem baixa rejeição e o apoio cada vez mais explícito do governador Jaques Wagner, um político muito querido dos baianos. Difícil achar quem fale mal de Wagner. No máximo, alguém diz que ele leva tudo na lábia ou que é um bom cervejeiro, o que em Salvador não deixa de ser um elogio. Pinheiro vai tentar repetir justamente a performance de Wagner, que, desacreditado nas pesquisas, mostrou a força que de fato tinha apenas na hora que as urnas foram abertas.

Na capital de Minas Gerais, o cenário está bem mais indefinido. Márcio Lacerda (PSB) subiu bastante nos últimos dias e embolou um jogo que parecia ganho para Leonardo Quintão (PMDB). São tantas as baixarias nesta reta final - há até acusações de violência doméstica - que não dá mais para apostar em um vencedor. Se a tendência de alta de Lacerda permanecer, então a fatura está liquidada, mas é bom não subestimar o talento de Quintão, um jovem que ainda vai dar muito o que falar na política mineira, com seu jeito de new coronel ou falso matuto, como queiram. O fato é que Quintão é espertíssimo e não será nenhuma surpresa se bater Lacerda.

O Rio de Janeiro, por fim, deve ter uma das eleições mais disputadas do Brasil. Gabeira (PV) de certa forma deu sorte de disputar com Eduardo Paes (PMDB), um político um tanto insosso, o segundo turno na Cidade Maravilhosa. Sim, porque Gabeira é sempre um sucesso em eleições legislativas, mas um fracasso quando concorre a cargos executivos. Político polêmico e arrojado, Fernando Gabeira tem muita dificuldade para obter a maioria dos votos, tantas são as idéias além de seu tempo que defende. Desta vez, porém, enfrenta um candidato cuja principal virtude é o apoio que tem do governador Sérgio Cabral e do governo federal, apesar de ter sido um crítico severo da gestão Lula. Este blog tende a acreditar mais na vitória de Paes, até pela força do voto enrustido, aquele que não aparece nas pesquisas. Aconteceu em São Paulo com Jânio Quadros - os eleitores do ex-presidente não diziam que votariam nele e as pesquisas davam Fernando Henrique na frente. Abertas as urnas, Jânio levou a prefeitura e mandou detetizar a cadeira em que FHC soberbamente tinha sentado antes de vencer a parada. No Rio, quem vota em Gabeira diz isto de alto em bom som. Já quem prefere Paes não tem esta mesma contundência. É óbvio que Gabeira vai ganhar na zona sul e entre os descolados, mas quem elege o prefeito é o povão do subúrbio, que pode achar demais da conta um prefeito que comemora a passagem para o segundo turno desfilando de toalha vermelha. Nada contra Gabeira, nenhum preconceito, muito pelo contrário. Apenas a constatação de que certas coisas não pegam bem em Campo Grande, no Realengo, em Bangu...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Parada técnica

Este blog não atualizou ontem porque o autor foi enviado a Salvador, Belo Horizonte e Rio de Janeiro para realizar matérias para o DCI, sobre as eleições nas capitais. Na quinta, tudo volta a normalidade. Antes de sair para o aeroporto de Confins, duas impressões absolutamente pessoais sobre as eleições em Salvador e Belo Horizonte. Na capital da Bahia, o prefeito João Henrique (PMDB) deverá ser reeleito. O PT errou, na humilde opinião do autor destas Entrelinhas, ao lançar candidato próprio. Se não tivesse lançado, João teria destroçado ACM Neto no primeiro turno e o PT permaneceria na administração da cidade, como aliás esteve em 40 dos 48 meses de gestão peemedebista.

Em Belo Horizonte, a disputa deve ser acirrada, mas a sensação do blog é a de que Leonardo Quintão, também do PMDB, vai fazer história e bater o candidato do prefeito, do governador e do presidente, Márcio Lacerda (PSB). Entre os analistas locais, há quem diga que Lacerda ainda se recupera e leva a prefeitura, mas a reação das ruas não é bem esta. Vai dar Quintão, o falso matuto. Uma vitória que, se concretizada, alavancará enormemente a candidatura de Hélio Costa para o governo mineiro em 2010.

Mais notícias amanhã, diretamente da Cidade Maravilhosa.

PS: E antes que passe batido, o blogueiro não ouviu o tal jingle da campanha de Gilberto Kassab "bate na madeira, Marta de novo, nem de brincadeira", mas já achou um golaço dos democratas. Ou Marta vence o debate da TV Globo de maneira inequívoca, ou Kassab também já está reeleito. Grandes problemas para os petistas, como se pode ver.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Foram a CUT e o PT, governador Serra?

A polícia do governador José Serra (PSDB) fez uma lambança no caso do seqüestro em Santo André. Devolver uma refém ao sequestrador já foi uma temeridade, mas informar que a outra refém havia morrido quando ela permanece viva, embora correndo risco de morte, é um despautério. Alô, governador, o senhor vai dizer que também foi culpa da CUT e do PT, com fins eleitorais, para beneficiar Marta Suplicy? Ou vai tomar a decisão que a sociedade clama e demitir o seu secretário de Segurança, que também na greve da Polícia Civil tem se mostrado aquém do cargo que ocupa?

Pesquisas e palpites

Mais uma vez este blog arrisca palpites sobre a próxima rodada de levantamentos sobre o humor dos eleitores nas capitais. Amanhã, sábado, sai o Datafolha de 4 capitais (Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre). Como os leitores tradicionais sabem, o Entrelinhas não costuma consultar videntes, mas tem acertado bastante os palpites, graças ao apurado faro para as tendências dos eleitores e também à modéstia do autor. Vamos lá:

São Paulo:
Kassab 53%, Marta 44%

Rio:
Gabeira 45%, Paes 42%

Belo Horizonte:
Quintão 58%, Lacerda 41%

Porto Alegre:
Fogaça 52%, Rosário 46%

Mais uma vez, os leitores podem participar e enviar, nos comentários, os seus palpites. O blog não dá prêmio, mas fará uma entrevista longa e detalhada com o vencedor(a), iniciando com a pergunta: o senhor(a) é casado(a)? Tem filhos?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Datafolha e Ibope estão em campo em SP

Os dois maiores institutos de pesquisa do país estão realizando pesquisas sobre o cenário eleitoral paulistano neste momento. O Datafolha registrou pesquisa no TRE e definiu o campo para hoje e amanhã. Já o Ibope está encerrando levantamento iniciado no dia 10 nesta quinta-feira, o que é até esquisito, em geral o período de campo não é tão longo. A pesquisa do Datafolha foi encomendado pelo jornal Folha de S. Paulo e pela TV Globo, ao passo que a do Ibope foi encomendada pelo jornal O Estado de S. Paulo. As informações estão disponíveis no site do TRE de São Paulo.

Palavra de quem entende

Finalmente alguém teve a brilhante idéia de ouvir o deputado Clodovil, gay assumido, sobre a propaganda de Marta Suplicy (PT) que questiona a sexualidade do prefeito Gilberto Kassab (DEM). Está no Terra Magazine e abaixo, na íntegra. Clô não gostou, mas também não respondeu com a contundência que lhe é peculiar. Uma pena, pois poderia ser esclarecedor.

Para Clodovil, faltou "elegância" a Marta
Claudio Leal

As insinuações da candidata a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), sobre a vida pessoal do concorrente Gilberto Kassab (DEM), desagradaram ao deputado federal Clodovil Hernandes (PR-SP). Faltou "elegância", lamenta o estilista.

Inserções televisivas da campanha do PT questionaram o estado civil do prefeito paulistano. "Você sabe mesmo quem é o Kassab? Sabe de onde ele veio? Qual a história do seu partido? Sabe se ele é casado? Tem filhos?", dizia uma voz em off. Depois de reações negativas, Marta alegou que não tinha visto o vídeo antes de ir ao ar. Exibida no domingo e na segunda-feira, 12 e 13 de outubro, a campanha foi suspensa.

Durante sabatina da Folha de S. Paulo, ontem, Kassab criticou a "falta de respeito" do PT. Questionado, o democrata negou ser homossexual: "Tem um monte de mulher querendo casar comigo". Em conversa com Terra Magazine, Clodovil reprova os ataques pessoais de Marta.

- Bom, primeiro eu acho de extrema falta de elegância mesmo. Concorrer é um direito de todos, né? Agora, nivelar por baixo é muito feio. Em todo caso, como nós estamos num país que é uma desordem, seja o que Deus quiser - lamenta o deputado paulista, que integra a base aliada do presidente Lula.

Clodovil não esconde a antipatia: "Ela é extremamente mal-educada, extremamente carreirista." Dispensável dizer que não votará no PT. "De jeito nenhum...". Prefere não medir os estragos à candidatura do prefeito de São Paulo. "Não sou a melhor pessoa pra dar esse tipo de indicação".

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Perguntar não ofende

A capa da Folha de S. Paulo desta quarta-feira foi desenhada no comitê eleitoral de Gilberto Kassab ou é só impressão? Difícil imaginar uma solução mais favorável ao prefeito do que a foto com Alckmin e a manchete "Muitas mulheres querem casar comigo, diz Kassab". E que ninguém diga que se trata de uma ironia, pois definitivamente este não é o caso. É pura estratégia de redução de danos, como se diz no jargão dos gestores de crises.

Recordar é viver

Este blog já condenou duas vezes, e com veemência, a propaganda homofóbica da campanha de Marta Suplicy contra o prefeito Gilberto Kassab (DEM). Parte da imprensa, porém, começou a tratar o assunto de maneira exagerada, vendo na atitude petista uma grande baixaria e comparando a propaganda ao que de pior já aconteceu no marketing político nacional - a célebre aparição de Míriam Cordeiro, ex-mulher do presidente Lula, no programa de Collor em 1989. Desnecessário detalhar o que houve, todo mundo conhece o caso.

Bem, a verdade é que o programa petista contra Kassab foi uma grande burrice, mas nem de longe poderia ser comparado ao de Collor, a começar pelo fato de que a campanha de Marta não pagou ninguém para aparecer na telinha dizendo que o prefeito é gay. Na verdade, foi uma insinuação tola e desnecessária. Bem mais branda, por exemplo, do que a propaganda do PSDB sobre Marta em 2004, conforme se pode ler abaixo, em matéria da Folha de S. Paulo publicada no dia 31 de julho de 2004.

ELEIÇÕES 2004/CAMPANHA

Na internet, partido diz que prefeita tem “dois maridos’; PT reage e distribui cópias do documento a jornalistas em evento oficial

PSDB volta a atacar vida pessoal de Marta

CHICO DE GOIS e ANDRÉ NICOLETTI
DA REPORTAGEM LOCAL

O PSDB voltou a atacar a vida pessoal da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), vinte dias depois que deputados do partido fizeram insinuações contra ela e seu marido, Luis Favre.

Anteontem, o site do Diretório Nacional do PSDB divulgou uma nota intitulada “Dona Marta e seus “dois maridos’”, na qual fazia referência à participação do senador e ex-marido de Marta, Eduardo Suplicy, na campanha da prefeita à reeleição.

Ontem, os tucanos tiraram o texto do ar. O PT informou que irá entrar na Justiça com uma ação contra o PSDB. A prefeita afirmou que ainda não sabia se ela, pessoalmente, faria o mesmo. E o senador Eduardo Suplicy classificou de “bobagem” as afirmações feitas pelo PSDB. “Sou senador por São Paulo e a prefeita me convidou para visitar uma obra.”

Ontem à noite, o senador acompanhou a prefeita no lançamento de um comitê de campanha de Marta na Penha, zona leste.

Como divulgado anteontem pela Folha na coluna “Toda Mídia”, do jornalista Nelson de Sá, a nota dizia que “a participação do senador na campanha da ex-mulher é uma das estratégias da direção petista para enfrentar o desgaste sofrido por ela por conta da separação dos dois”.

O texto concluía que “dona Marta tem “dois maridos”. Cá entre nós: que papelzinho ridículo o senador Suplicy se prestou ao sair em “campanha” para mitigar a imagem que a sra. Marta construiu para si mesma”.

Cópias da página do PSDB foram distribuídas para os jornalistas na manhã de ontem por assessores da campanha de Marta durante evento para sancionar lei de criação dos conselhos de representantes de subprefeituras.

A assessoria de imprensa do Diretório Nacional do PSDB informou que “a orientação do partido é para não entrar nesse tipo de debate”. A assessoria admitiu que “foi um erro” a edição da nota e informou que, ao perceber o erro, retirou o texto do ar.

Ontem o candidato a prefeito do PSDB, José Serra, afirmou desconhecer a nota, mas disse não apoiar esse tipo de ataque.

De acordo com o coordenador-geral da campanha petista, deputado estadual Ítalo Cardoso, o departamento jurídico do PT entraria com uma ação na Justiça, mas ainda não estava definido se seria apenas civil ou também criminal.
O candidato a vice de Marta, Rui Falcão, disse, no lançamento de um comitê em Aricanduva, zona leste, que “pela segunda vez, adversários que se dizem detentores da ética e do trabalho agridem o PT e a prefeita”. Falcão disse que “não vamos aceitar provocações, mas também não vamos aceitar nenhum tipo de intimidação”.

Ele se referia às afirmações do deputado federal Alberto Goldman e do deputado estadual Celino Cardoso em um comício no dia 11 de julho. Na ocasião, Goldman disse: “Quero saber cadê o dinheiro. De um deles, a gente sabe onde está: na Suíça. E o da Marta? Vamos perguntar para ela ou para o marido dela onde está o dinheiro de São Paulo”.

Três pesquisas, uma surpresa

O blogueiro Ricardo Noblat adiantou o resultado das pesquisas eleitorais do Ibope no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo que serão divulgadas nesta quarta-feira no jornal O Estado de São Paulo.

Segundo Noblat, no Rio Fernando Gabeira (PV) tem 42% das intenções de voto e Eduardo Paes (PMDB), 39%. O resto, votos nulos e brancos (10%) e não sabe e não respondeu 9%. A margem de erro seria de três pontos percentuais, para mais ou para menos. Transformando a conta em votos válidos (descontados brancos, nulos e indecisos), Gabeira teria 52% contra 48% de Paes.

Em Belo Horizonte está a supresa, já adiantada por uma pesquisa de um instituto local. Leonardo Quintão (PMDB) teria, segundo o Ibope, 51% das intenções de voto e Márcio Lacerda (PSB), 33%. O resto, nulos, brancos e indecisos. "Descontados os brancos, nulos e indecisos, Quintão vai para 61%. E Lacerda, 39%", escreve Noblat. Se o candidato de Lula, do governador Aécio e do prefeito Pimentel perder, será uma façanha e tanto. José Serra (PSDB) vai abrir aquele sorriso meio esquisito e dar pulos de alegria.

Em São Paulo, a diferença entre Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição, e Marta Suplicy (PT) é bem menor do que a divulgada pela pesquisa Datafolha. No Ibope, a diferença foi de 12 pontos percentuais, no Datafolha, de 17. Segundo Noblat, o Ibope mostra Kassab com 51% de intenções de voto. Marta Suplicy teria 39%. O resto é voto nulo e branco, e maisos indecisos. Descontados nulos, brancos e indecisos, Kassab tem 56% dos votos válidos e Marta, 44%.

Em nenhum dos casos acima dá para falar em tendência do eleitorado em relação aos números do Datafolha, porque os institutos têm metodologias diferentes. No final de semana deve ser divulgado mais um levantamento do Datafolha e só então será possível perceber a curva dos candidatos no segundo turno.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O mal já foi feito

A campanha da candidata Marta Suplicy (PT) já retirou o polêmico programa com insinuações sobre a homossexualidade do prefeito Gilberto Kassab (DEM). Melhor assim, mas vai ser difícil para a candidata tirar o assunto da pauta e reverter a péssima repercussão causada pelo programa em questão. Este blog, horas depois que a peça publicitária foi ao ar, já advertia que tratava-se de um verdadeiro tiro no pé. Não deu outra, a imprensa agora só fala nisto, na "malvada Marta" que derruba reputações e se mete na vida pessoal do pobre prefeito. Ou seja, de vítima de tantas baixarias no passado, Marta agora virou algoz. O PT está culpando a imprensa por este movimento, mas neste caso o blog discorda: a culpa foi da equipe de marketing da candidata, que botou no ar tamanha estupidez sem medir direito as consequências.

Agora que o marqueteiro de Marta já vez a besteira, cabe a Luiz Gonzalez, homem de comunicação do prefeito, uma atitude rápida para evitar a, digamos assim, contaminação do comercial de Marta na campanha de Kassab: é preciso tirar urgente do ar aquela musiquinha com o refrão "agora São Paulo já sabe"...

Agora é certo: plano vai funcionar

A jornalista Míriam Leitão criticou duramente na rádio CBN o plano anticrise do primeiro-ministro britânico Gordon Brown. Este blog não tinha a menor segurança sobre a eficácia das medidas, agora tem: se dona Mírian não gostou, a coisa deve funcionar direitinho...

Wagner Iglecias: Marta e o PFL

Em mais uma colaboração para o blog, o cientista político Wagner Iglecias, professor na USP Leste, comenta o cenário eleitoral na capital de São Paulo. Vale a pena ler na íntegra:

Marta Suplicy abriu o horário gratuito da campanha eleitoral do segundo turno pela prefeitura de São Paulo afirmando que o Partido da Frente Liberal (PFL) foi varrido do mapa político nacional. E lembrou ao eleitor que seu adversário, Gilberto Kassab, foi do PFL.

Varrido do mapa talvez seja expressão muito forte para quem foi herdeiro do ex-maior partido do Ocidente, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), braço civil da ditadura militar que vigorou em nosso país de 1964 a 1985, e ainda é um partido de expressão nacional. Mas que o pefelê, atual DEM, vem minguando nas urnas nas eleições mais recentes, não há dúvida.

Neste caso, porém, não pesa muito o fato de que Kassab, se eventualmente reconduzido à prefeitura de São Paulo, seja oficialmente demista. Ou alguém duvida que os postos estratégicos de sua gestão continuarão a ser controlados por tucanos ligados ao governador José Serra?

Neste sentido, o fato de a maior cidade do país eventualmente continuar a ser comandada por um filiado do DEM tem menos relação com a força que o ex-PFL tem nas urnas e muito mais com a lógica do projeto presidencial do governador paulista para 2010, o qual passou, como se viu nesta eleição, até por uma outrora impensável aliança política de grãos-tucanos com o ex-governador Orestes Quércia, comandante da seção paulista do PMDB, em torno da reeleição de Kassab.


O que dá combustível ao argumento de Marta é o fato de que o DEM encolheu nos últimos pleitos em várias regiões do país, e em especial no Nordeste, o seu berço político. Hoje o partido não está a frente de nenhum governo nordestino, e está longe do comando das prefeituras de capitais importantes como Recife, Fortaleza e Salvador. Nesta, aliás, ACM Neto, uma das apostas para a renovação da imagem da agremiação, sequer conseguiu qualificar-se para o segundo turno da eleição municipal no domingo retrasado.

Ressalte-se ainda o resultado amargo colhido pelo partido na cidade do Rio de Janeiro, onde a candidata do prefeito demista César Maia amargou um distante sexto lugar no primeiro turno, com apenas 3% dos votos válidos. Além disso recorde-se que o encolhimento do partido ocorre também nas pequenas e médias cidades, em todo o país. Em 2000 o PFL comandava 1026 municípios brasileiros. Só o PMDB detinha mais prefeituras na época. Em 2004 o partido conquistou menos cidades, ficando com 789 municípios, sendo superado por PMDB e PSDB. Agora em 2008, quando apresentou-se ao eleitor pela primeira vez com o novo nome, Democratas, o partido venceu, em primeiro. turno, em 497 cidades, e despencou para o quinto lugar, ficando atrás de PMDB, PSDB, PT e PP. À exceção de alguns municípios importantes do interior do país, de relevante, mesmo, o DEM comanda hoje apenas o governo do Distrito Federal, na figura do ex-tucano José Roberto Arruda. E fora isto, obviamente, encontra-se fora do governo federal desde 2003, quando Lula assumiu a presidência da república.


Para além dos dados quantitativos há que se ressaltar que o PFL envelheceu, tendo perdido muito com o desaparecimento de uma liderança como Antonio Carlos Magalhães e tendo visto lideranças como Jorge Bornhausen, Jaime Lerner e Marco Maciel perderem espaço político em seus respectivos estados nos anos recentes. Há que se lembrar também que outro fato que contribuiu para o enfraquecimento eleitoral do partido refere-se à decadência de um certo tipo de relação entre classe política e sociedade, secular em nosso país e baseada na ligação direta entre oligarquias regionais e as classes sociais menos favorecidas, relação esta que tem perdido força na medida em que o Brasil se moderniza, se urbaniza e consolida suas instituições.

Por estas e por outras, seja Kassab vitorioso ou não nas urnas do próximo dia 26, Marta tem lá alguma razão no que está dizendo.


Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O povo não é bobo e sabe
que a Veja é um panfleto

O que vai abaixo é um artigo do autor destas Entrelinhas para o Observatório da Imprensa. Em primeira mão para os leitores do blog.

A revista Veja parece ter perdido definitivamente o rumo, talvez em função do vexame histórico na cobertura da crise financeira internacional. Afinal, não é todo dia que uma redação prepara uma capa espetacularmente incisiva, com Tio Sam de dedo em riste e a manchete garantindo: "Eu salvei você" (edição 2079, com data de capa 24/09), capa esta que dias depois se torna um case de "barriga" jornalística, uma vez o "crash" de 29 de setembro revelou não apenas que Tio Sam não havia conseguido salvar ninguém como estava desesperadamente em busca de uma solução que envolvesse a União Européia e até países emergentes. A barriga foi tão descomunal que na semana seguinte a rival Carta Capital fez graça e repetiu a capa da Veja, com o mesmo Tio Sam de dedo em riste, acompanhado por uma manchete marota: "Ele não salva ninguém".

Se o problema fosse apenas na forma, tudo bem, "barrigas" acontecem nas melhores redações (em Veja, com uma freqüência um tanto maior, estão aí o boimate e os milhões do Ibsen Pinheiro que não me deixam mentir). A questão central não está na forma, está no conteúdo. Veja há muito tempo não é uma revista jornalística, mas um panfletão conservador, editado por uma equipe que conta com a fina flor do pensamento reacionário brasileiro. A crise global, porém, parece ter mexido com os nervos do pessoal da Veja e o panfletão perdeu o rumo.

Em um primeiro momento, Veja apresentou ao distinto público a idéia de que a crise já tinha acabado (com o anúncio do primeiro pacote de Bush-Paulson), o que havia era um "soluço" absolutamente normal no capitalismo. Na semana seguinte, com data de capa de 1° de outubro, mas circulando no final de semana de 27/28 de setembro, portanto um dia antes do "crash" de 29/9, a revista da editora Abril voltou a dar capa para crise, fazendo uma espécie de "balanço" do que vinha ocorrendo. "Depois do Desastre" era a manchete da capa, mas o desastre real ainda nem tinha acontecido.

O problema de Veja é que os valores nos quais a revista continua acreditando e defendendo estavam virando pó com a crise e não havia discurso coerente que servisse para manter o panfletão em pé, muito menos com o disfarce de veículo jornalístico. Primeiro, veio a euforia (ok, existe uma crise, reconhecemos, mas Bush é "dos nossos", vai dar um tiro certeiro e cortar o mal pela raiz). Não funcionou, para a perplexidade dos jornalistas que cuidam de traduzir o pensamento reacionário norte-americano em uma linguagem acessível a qualquer idiota, e a revista começou a tentar reconhecer que se tratava mesmo de uma crise gravíssima e que expõe as entranhas de um sistema podre, desregulado e baseado na ganância de gente que vendia terrenos na lua sem o menor escrúpulo, contando com a certeza da impunidade.

O povo não é bobo?

Enquanto tateia em busca de um discurso para a crise – se os mercados continuarem eufóricos, provavelmente a próxima capa será um enorme "UFA" – Veja não descuida do front interno. Na edição corrente (2082, com data de capa de 15/10), a "Carta ao Leitor", espaço editorial da revista, leva o título "O povo não é bobo", acompanhada de uma grande foto do prefeito Gilberto Kassab. O recado da revista ao seu público começa assim: "O primeiro turno das eleições municipais demonstrou, outra vez, que a esmagadora maioria dos brasileiros sabe, sim, votar, ao contrário do que ainda insistem em propalar os descrentes na democracia nacional (felizmente, poucos)." Em seguida, vem o argumento "racional" de que a população votou nos melhores, gente que trabalha sério, "independente do partido". Beto Richa (PSDB) e Fernando Gabeira (PV) são citados no texto, e Kassab, na legenda da foto ("Gilberto Kassab, de São Paulo: exemplo de que a maioria dos brasileiros sabe, sim, votar"). No final do texto, o veredito final: "Não basta para um partido – qualquer um – contar só com a força de um presidente da República bem avaliado e simpático. É preciso muito mais. O povo não é bobo."

Não, de fato o povo não é bobo e já sabe que Veja tem lado. Neste ponto, aliás, seria mais honesto e correto copiar o que de bom existe nos Estados Unidos e explicitar, no editorial, que a revista apóia os candidatos da oposição, especialmente os do PSDB e DEM - legendas que por sinal apóiam Gabeira no Rio. É assim que se faz lá fora e é assim que agiram Carta Capital e, em diversas ocasiões, a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Veja, ao contrário, editorializa as reportagens. Um bom exemplo está também na edição desta semana, na reportagem que faz um balanço do resultado das urnas. A revista reconhece que o PT cresceu, mas diz que foi nos grotões. Um infográfico está lá para quem quiser fazer contas: em número absoluto de votos, o PT cresceu 1% em relação a 2004, o DEM teve 17% a menos do que na votação anterior e o PSDB perdeu 8% dos votantes de quatro anos atrás. O PMDB, líder no país pelo critério de prefeitos eleitos, viu seu eleitorado crescer 30%.

Qualquer foca de jornalismo faz as contas, soma os danos e conclui que o lead é a derrota dos partidos de oposição, que perderam exatamente 25% do eleitorado de quatro anos atrás. Qualquer foca, menos a Veja, que preferiu destacar o aumento de 30% do PMDB, um partido ônibus, que cabe qualquer um e que tem na resiliência a sua maior virtude. É justo que se dê destaque à vitória peemedebista, mas é evidente que o fato político mais relevante é a estrondosa derrota da aliança demo-tucana, com consequências evidentes na corrida sucessória de 2010.

No fundo, Veja age na política e na economia seguindo a máxima do ex-ministro Rubens Ricúpero: o que é bom (para o ideário conservador), a gente mostra; o que é ruim, a gente esconde. E nisto, fica aqui o reconhecimento, o pessoal da redação de Veja sabe fazer como ninguém...

SP: debate fraco termina "empatado"

O primeiro confronto entre Marta Suplicy (PT) e Gilberto Kassab (DEM) neste segundo turno resultou em um programa até bem interessante, com momentos de tensão e muito jogo de bastidores, com a platéia atuando para tentar desestabilizar os dois candidatos. Os marqueteiros também tiveram atuação decisiva, nos dois lados, auxiliando os dois oponentes e calibrando a estratégia de cada um nos poucos minutos que duravam os intervalos. De ponto de vista político, porém, o debate foi fraco, muito centrado em problemas pontuais da cidade.

Ora, o mundo está passando por talvez a maior crise da história do capitalismo e o tema só foi abordado em uma questão, e mesmo assim com foco no Orçamento da cidade diante da crise. Isto é muito pouco. Seria muito mais importante para o eleitor paulistano saber qual a análise que cada um faz da crise e das suas consequências para a economia brasileira do que o número de vagas em creches que cada um promete abrir nos próximos quatro anos ou na quantidade de asfalto que cada administração foi capaz de recapear. Sim, porque saber o que Kassab e Marta realmente pensam da crise seria mais importante para a decisão de voto do que questões programáticas que poderiam e serão apresentadas no horário eleitoral gratuito. Kassab defende a desregulamentação da economia, o estado mínimo, como preconiza o seu partido? Ninguém sabe. Marta acha correta a estatização do sistema financeiro, tal e qual está sendo realizada nos EUA e na Europa. Também ninguém conseguiu ficar sabendo.

Essas questões hoje são relevantes porque ajudariam a diferenciar as candidaturas. Por mais que Kassab tente dar um verniz tucano para a sua candidatura, ele faz parte do DEM, o partido que tem assumido o perfil mais conservador na atual cena política brasileira. Ok, Kassab já disse que não quer a companhia dos "dinossauros" do Nordeste (ACM Neto, Moroni Torgan etc), e no debate citou apenas Jorge Bornhausen como "companheiro", mas o público gostaria muito de saber o que ele pensa não apenas sobre as pontes e obras viárias que fará, se reeleito, mas também sobre temas mais gerais, como política econômica, segurança pública, combate à corrupção, desenvolvimento regional, entre tantos outros. O mesmo vale para Marta, com o sinal trocado, isto é, seria interessante saber o quão alinhada a ex-prefeita está com seu partido, se concorda com a política monetária do Banco Central, com a condução da crise pelo presidente Lula ou o que pensa da CPI dos Grampos.

Não se trata aqui de propor a "nacionalização" da eleição. Sim, trata-se de uma eleição local, mas o momento pede um debate mais profundo e esclarecedor sobre o que pensam os candidatos que pretendem assumir o governo da maior cidade da América Latina nos próximos quatro anos. Uma questão simples poderia levar os dois a falar um pouco e revelar suas crenças: "se estivesse hoje no comando do governo federal, teria tomado as medidas que o presidente Lula e o presidente do BC, Henrique Meirelles, tomaram ou teria feito algo diferente?" Por estratégia, Kassab evita falar mal de Lula e Marta tenta colar a sua imagem no presidente. Uma questão deste tipo poderia efetivamente fazer com que cada um largasse um pouco a máscara e dissesse o que pensa. Ainda que ambos avalizassem o que está sendo feito, seria uma informação mais útil para o paulistano do que saber se o CEU de Sapopemba vai ficar pronto agora ou daqui dois meses.

De resto, voltando ao que de fato aconteceu e não ao que deveria ter ocorrido, a verdade é que Marta começou muito bem, venceu o primeiro e o segundo bloco com a estratégia de confrontar as promessas de Kassab com os atos do prefeito, especialmente os vetos a projetos que ele agora anuncia como promessas de campanha. Depois, certamente orientado pelo marqueteiro Luiz Gonzalez, Kassab começou a se recuperar e demonstrou sangue-frio, reagindo bem aos ataques da ex-prefeita. Neste momento, ele ganhou um polêmico direito de resposta que desestabilizou a candidata do PT. A partir daí o que se viu foi Marta cada vez mais nervosa e Kassab tranquilo, atuando conforme o script de seus marqueteiros e até fazendo provocações, com apoio da claque tucano-democrata na platéia. O prefeito acabou se saindo melhor nos dois últimos blocos e empatou o jogo, o que para ele é um bom saldo, uma vez que as pesquisas lhe dão a dianteira folgada em relação à Marta.

No fundo, a candidata Marta Suplicy tem uma tarefa muito difícil pela frente. Para virar o jogo, precisa fazer todos os gols e não tomar nenhum. Isto só vai acontecer se a ex-prefeita jogar muito bem e o prefeito fizer muita besteira. Até aqui, porém, como se pode ver no post anterior, quem fez mais besteiras foi o PT...

Um erro grosseiro do PT em São Paulo

O autor destas Entrelinhas esteve no estúdio da Band e comenta o debate entre os candidatos à prefeitura de São Paulo em seguida, no próximo post. Antes, porém, um breve pitaco sobre a propaganda eleitoral gratuita que voltou neste domingo nas rádios e emissoras de televisão aberta. Este blog avalia que o programa do PT paulistano erra feio ao insinuar a homossexualidade do prefeito Gilberto Kassab (DEM). A vida pessoal dos políticos é um problema particular de cada um e em nada acrescenta ao debate público, a menos que tais condutas impliquem em crimes (uso de drogas ilícitas, pedofilia etc). Além disto, a estratégia pode ser o típico caso de feitiço que se volta contra o feiticeiro, pois Marta Suplicy (PT) é uma defensora histórica dos direitos da comunidade GLTB. Ou seja, além de poder ser caracterizada como "baixaria", a insinuação pode fazer com que ela perca votos nesta comunidade. Uma derrapada feia, que se não for corrigida logo, vai causar problemas sérios à candidata petista.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Rir para não chorar


















Evidentemente, o leitor não vai encontrar esta edição nas bancas...

Fundo do poço ainda não apareceu

Pode parecer uma visão simplista, mas para que uma crise – qualquer uma, econômica, política, ou mesmo pessoal – termine, é preciso que seus efeitos sejam plenamente conhecidos, que se enxergue o tal fundo do poço. Na crise política do mensalão, por exemplo, foram dois "turning points", momentos de virada: a saída de José Dirceu do governo e, meses depois, de Antonio Palocci. Nos dois casos, o presidente Lula mostrou que a figura forte do seu governo não eram os dois auxiliares, mas ele próprio, desorientando a ação da oposição, que mirava nos ministros para "derrubar Lula".

No caso da atual crise financeira global, o fundo do poço não apareceu. O pânico vai continuar até o momento em que os agentes econômicos tenham conhecimento das perdas na economia real, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, para poder dimensionar a recessão que vem pela frente. As medidas já anunciadas, é óbvio, começarão a fazer efeito em breve e podem acalmar um pouco os mercados, mas existe um nervosismo que não pode ser combatido com pacotes porque se trata de uma questão de confiança. Até que o fundo do poço seja realmente visto e explorado, todo mundo está aguardando justamente saber se a crise já bateu no fundo ou não. Assim, qualquer informação ruim sobre a economia real repercute como uma catástrofe de grandes proporções. E neste caso em particular, nem é a mídia a culpada, pois antes mesmo da divulgação da informação concreta os mercados reagem, muitas vezes a partir de boatos e rumores, como foi o caso, ontem, das mega-perdas da GM e Ford, que ainda não foram divulgadas.

E quanto tempo isto ainda vai durar? Ninguém sabe. A situação tanto pode se assentar em um prazo curto como levar alguns meses, talvez até a posse do próximo presidente norte-americano, em janeiro - a própria indefinição sobre a futura política econômica acaba sendo um fator de stress nos mercados. Definitivamente, esses não serão bons dias para cardíacos lerem os jornais ou assistirem os noticiários na televisão. Melhor esperar 2009.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

E se o Financial Times estiver certo?

O que vai abaixo é uma matéria da BBC Brasil, publicada na Folha Online, sobre reportagem do prestigiado Financial Times, que prevê efeitos diminutos da crise financeira global no Brasil. Bem, pode não ser verdade, mas também pode ser que seja, como diria o filósofo... E se de fato o Brasil sair ileso da maior crise do capitalismo, será que a oposição terá a coragem de dizer que foi tudo mérito do governo Fernando Henrique Cardoso? Ou que o presidente Lula agiu bem em "manter a política econômica anterior"?

Este blog não arrisca palpites, mas prevê que se o país sair ileso, Lula terá um discurso pronto para usar em 2010: o de que seu governo conseguiu fazer o país atravessar a maior crise do capitalismo com poucos arranhões, ao passo que a aliança demo-tucana não conseguiu segurar a onda de duas ou três crises menores, como as da Ásia, Rússia e México. Um argumento poderoso, que pode até não conseguir, mas tem todo o potencial para eleger um poste...

Brasil deve sair "relativamente ileso" de crise, diz jornal

da BBC Brasil

Apesar de uma semana marcada pela desvalorização do real em relação ao dólar e por quedas na Bovespa, "muitos economistas ainda acreditam que o Brasil vá sair relativamente ileso da crise financeira global", segundo o "Financial Times" ("FT").

O site do jornal traz, nesta quinta-feira, uma reportagem sobre os leilões realizados pelo Banco Central na quarta-feira para conter a desvalorização do real em meio ao que o "Financial Times" chama de "a onda mais forte de venda provocada por pânico em décadas" no Brasil.

Segundo o jornal, até esta semana, grande parte da queda nos ativos brasileiros vinha sendo causada pela retirada de dinheiro do Brasil por investidores estrangeiros tentando cobrir perdas em outros mercados, mas, nos últimos dias, os investidores locais também se juntaram ao "êxodo".

O "Financial Times" diz, no entanto, que os bancos brasileiros não estão tão vulneráveis quanto os americanos ou europeus.

"O setor bancário [do Brasil] passou por uma reestruturação promovida pelo governo nos anos 90 e têm pouco da exposição a ativos de risco afetando os bancos americanos e europeus", diz o "Financial Times", acrescentando que apenas cerca de 10% do crédito bancário no país é levantado fora do Brasil.

"Um real imaginário"

As medidas do Banco Central brasileiro e as quedas registradas pela Bovespa também ganharam espaço no jornal argentino "Página 12".

Em uma reportagem intitulada "Um real imaginário", o jornal afirma que o Banco Central conseguiu, com uma "intervenção direta oportuna", frear a tendência de queda.

O jornal traz a notícia de que o índice da Bovespa terminou, na quarta-feira, cotado em 38.593 pontos básicos, e lembra que quando o Brasil alcançou a nota de grau de investimento das agências de classificação de risco, em maio, o índice se encontrava em 72 mil pontos.

Segundo o jornal, na conversa que teve com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quarta-feira, o presidente americano, George W. Bush, "tentou tranqüilizar o presidente brasileiro, garantindo que o pacote de resgate de US$ 700 bilhões de dólares terá efeito em 20 dias".

Temer vira candidato para brecar Ciro

Enquanto a crise econômica domina o noticário, ninguém deu muita bola para o lançamento, na quarta-feira, da candidatura de Michel Temer (PMDB) à presidência da Câmara dos Deputados. Por que justo agora, antes do término da eleição municipal e no meio da turbulência nos mercados financeiros? Um marqueteiro jamais recomendaria que a candidatura fosse tornada pública numa hora dessas, certamente recomendaria o adiamento da data. Ora, a razão é simples. A eleição da Câmara não é um pleito aberto, com voto do povão. É um processo que se dá no âmbito do Congresso e ali dentro todo mundo está informado sobre o que está acontecendo. E o que está acontecendo é que a candidatura do deputado Ciro Nogueira (PP-PI) cresceu e já começa a ameaçar as pretensões de Temer, que julgava ter uma eleição tranquila para um cargo que já ocupou. Ademais, a bancada do PMDB no Senado não está gostando muito da idéia de deixar a presidência para o PT e também acaba se tornando outra pedra no sapato de Michel Temer. O que o esperto presidente nacional do PMDB está tentando agora é criar um "fato consumado" e c0mprometer o PT com a sua candidatura. Se a manobra vai funcionar, só o tempo vai dizer, mas este blog tem a ligeira sensação de que ao se lançar, Temer ficou mais longe do que perto da cadeira de presidente da Câmara.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Rezem para o FMI estar certo

A matéria abaixo é do Globo Online e versa sobre as previsões do FMI para o crescimento da economia mundial. Segundo o Fundo, a América Latina vai crescer menos em 2009. Mas, apesar da crise financeira global, ainda cresce cerca de 3,25%, em média. A julgar pelo que se vê nesses momentos de pânico, se esta taxa ocorrer no Brasil já será um belo crescimento - superior, por exemplo, à média dos anos em que Fernando Henrique Cardoso governou o país. O autor deste blog tem conversado com alguns economistas que já estão prevendo um cenário bem mais catastrófico, de recessão mesmo, já a partir de 2009. É bem verdade que os catastrofistas tem errado mais do que acertado, mas vai que agora acertam... Melhor é tomar banho de sal grosso, se benzer bastante e rezar. Porque de resto o agravamento da atual crise depende muito pouco do que o governo brasileiro fizer ou deixar de fazer e sim do que os norte-americanos e europeus fizerem ou deixarem de fazer. Bem, salvo os que têm dupla cidadania, aqui ninguém elege presidente americano ou gabinete europeu, portanto não há mesmo nada a fazer senão esperar. E rezar bastante para que desta vez o FMI acerte a sua previsão.

A seguir, a íntegra da matéria do Globo Online.

WASHINGTON - Em sua pior previsão em anos, o Fundo Monetário Internacional (FMI) disse nesta quarta-feira que a economia mundial está em uma grande desaceleração, com os Estados Unidos e a Europa já em recessão ou próximos dela.

Em seu relatório Perspectivas Econômicas Mundiais, o FMI também sugere que o Brasil sentirá um impacto mais forte da crise financeira internacional no próximo ano. A economia do país, que ano passado teve um crescimento de 5,4%, este ano sofrerá uma pequena redução para 5,2%. Mas em 2009 não deverá superar os 3,5%. Bancos Centrais de diversos países cortaram juros hoje para tentar impedir a recessão mundial.


A primeira aferição das conseqüências da crise financeira dos Estados Unidos na economia mundial apresentou um resultado arrasador. De acordo com o FMI, a economia mundial, que em 2007 crescera 5%, este ano não passará de 3,9% e será ainda menor em 2009: vai crescer apenas 3% - o menor nível em sete anos.

O impacto nos EUA será ainda maior. O país crescerá meros 1,6% este e nada mais do que 0,1% no ano que vem. Em 2007, a economia americana cresceu 2%.
Essas cifras divulgadas pelo FMI não são definitivas, pois os seus economistas acreditam que ainda são fortes as tendências de que a situação piore ainda mais.

"A deterioração do mercado de imóveis nos EUA poderá ser mais profunda e mais prolongada do que o previsto, enquanto os mercados de imóveis na Europa poderão tornar-se mais frágeis" - diz um trecho do informe "Perspectivas da Economia Mundial.
Segundo o documento "a situação é excepcionalmente incerta e sujeita à consideráveis declínios". Uma recuperação, diz o FMI, "ainda não está ao alcance da vista". Na melhor das hipóteses ela surgiria, gradualmente, a partir do final de 2009.

Os seus economistas prevêem que haverá uma perda de crédito ainda acentuada. E calculam que os EUA terão de injetar ainda mais dinheiro público nos bancos e financeiras, para evitar um desastre total.
A estimativa do FMI é de que os países ricos cresceram coletivamente apenas 1% no período que vai do último trimestre do ano passado ao segundo deste ano. O índice anterior, nessa mesma época, tinha sido de 2,1%.

"A economia mundial está agora entrando em uma forte desaceleração diante do mais perigoso choque dos mercados financeiros maduros desde a década de 1930", diz o relatório.

O FMI avalia que políticas econômicas e regulatórias negligentes provavelmente permitiram que a economia global "excedesse seu limite de velocidade". Além disso, falhas nos mercados e de políticas permitiram que o estresse se aprofundasse. Agora, a economia paga o preço.


Para o Fundo, a América Latina enfrenta uma "estranha" combinação de atividade em desaceleração, condições externas piores, e inflação em alta. Segundo o FMI, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da região vai passar de 5,5% em 2007 para 4,5% em 2008 e 3,25% em 2009. A inflação brasileira atingirá 5,7% este ano, mas deverá cair para 5,1% no ano que vem.