sábado, 18 de novembro de 2006

Maestri 2: equívocos nas premissas

Seguindo no debate com o professor Mário Maestri:


Qualidade diferencial importante em contexto econômico que, no mínimo, não repetirá a excelência anterior, devido à esperada retração da economia estadunidense e queda de ritmo da expansão chinesa, grandes locomotivas dos anos de glória para o comércio internacional sob os quais transcorreu o primeiro quadriênio lulista.

A análise de Maestri se baseia em duas premissas sobre as quais este blog não tem muita segurança de estarem corretas. A primeira está acima. É verdade que a economia americana pode estar iniciando um ciclo de retração? É claro que sim, mas os economistas divergem sobre o alcance deste movimento. Já a queda da expansão chinesa não chega a ser uma unanimidade. É provável que a economia internacional não tenha uma performance tão favorável quanto nos últimos anos, mas também é perfeitamente possível que o cenário continue favorável. Neste caso, visto que não será necessário "arrumar a casa", como foi feito em 2003, Lula poderá continuar a surfar na onda de crescimento econômico dos últimos 3 anos. Se o Brasil crescer continuamente por 7 anos, ainda que a taxas pequenas, por exemplo, já terá sido um marco histórico, pois desde o milagre econômico da ditadura militar não se verifica uma sequência tão longa de desenvolvimento.


O grande projeto do segundo governo Lula da Silva constitui a radicalização das soluções antipopulares, sobretudo com o objetivo de pôr fim à fratura atual entre o grande capital financeiro e os setores produtivos não ligados a ele – grandes, pequenos e médios. Delineado por Delfim Netto, o projeto governamental recebeu o tradicional batismo no economês incapaz de ser compreendido pela população comum. Ele chama-se “Déficit Nominal Zero” e prevê, simplesmente, como grande estratégia de ação, o fim dos gastos públicos superiores às receitas, sem qualquer interrupção do pagamento da dívida, folga dizer. Segundo parece, a pífia votação de Delfim Netto, incapaz de reelegê-lo, contribuirá para que, aos menos inicialmente, ele acompanhe a implementação de sua proposta como consultor pessoal e não ministro de Lula da Silva, como certamente sonhava e muitos previam. A participação do mais querido economista dos generais em um governo lulo-petista garantiria-lhe, após a ampla premiação que conheceu por seus pecados sociais, durante e após a ditadura, uma última e magnífica consagração moral, através do esculacho geral da memória da resistência democrática e social ao regime militar.

A segunda premissa de Mário Maestri é a adoção, no novo mandato de Lula, do tal Déficit Nominal Zero, mas isto ainda não é dado como líquido e certo na equipe econômica, até onde este blog tenha conhecimento. Quanto a Delfim Netto, fica a impressão de que Maestri (e boa parte da imprensa) superestima a influência do ex-ministro no atual governo. Delfim foi um interlocutor frequente de Antonio Palocci, é ouvido por Lula, mas não é o formulador da política econômica adotada pelo petismo. Como diria o saudoso ex-governador Leonel Brizola, essa política econômica vem de longe, de muito longe, lá de Washington. Delfim até discorda em parte do que vem sendo feito, já externou isto publicamente. Maestri também insiste em uma questão que, dadas as atuais circunstâncias da política brasileira, este blog vê como superada: a folha de serviços prestados por Delfim Netto ao regime militar. No que Delfim se diferenciaria de José Sarney, para citar apenas o mais conhecido aliado de Lula que serviu aos generais? Ademais, se Delfim fosse convocado hoje para a presidência do Banco Central, tal mudança seria considerada uma guinada "à esquerda" pelo mercado, tamanho o conservadorismo da atual direção do BC... De toda maneira, para fechar o raciocínio, este blog não apostaria tantas fichas nem no tal Déficit Nominal Zero e tampouco em uma inflexão conservadora da política econômica. Ao contrário, o que já previmos aqui, logo após a eleição, é a continuidade da atual gestão da economia com alguma possibilidade de "afrouxamento" da receita adotada até agora (queda mais rápida na taxa de juros, pequena redução no superávit primário, alguma desoneração localizada de tributos e, especialmente no ano eleitoral de 2008, ampliação dos gastos em programas sociais).

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