segunda-feira, 30 de junho de 2008

Presidente Lula aprovado por 72%?
Tem gente que "não concorda"...

Saiu mais uma pesquisa Ibope sobre a popularidade do presidente Lula e o resultado mostrou estabilidade na popularidade do governo e do presidente. No primeiro caso, a soma das avaliações positivas (ótimo e bom) foi de 58%, exatamente a mesma da enquete anterior, realizada em março. Já a aprovação ao modo de governar de Lula oscilou de 73% para 72%, dentro da margem de erro do levantamento. Evidentemente, é um resultado que só pode ser comemorado pela base governista - popularidade maior provavelmente só existe em regimes totalitários. Pelo que se pôde ler nos portais dos veículos da grande imprensa, o sucesso de Lula é profundamente lamentado nas redações. Basta ver o jeitão que a Agência Estado arrumou para dar a notícia da pesquisa do Ibope para perceber como o bom desempenho de Lula irrita a mídia, que simplesmente não consegue destacar os números mais vistosos e procura sempre alguma maneira de apontar a "grande queda" na popularidade presidencial. O que vai abaixo é a manchete e chamadas secundárias do Estadão Online. Imparcialidade à toda prova...

Aprovação do governo no combate à inflação despenca
Aprovação às medidas da gestão Lula contra alta nos preços caiu de 51% para 41%, aponta pesquisa Ibope
* Avaliação positiva de Lula fica estável em junho
* Economista: com inflação, popularidade de Lula pode cair

domingo, 29 de junho de 2008

Coisa rara: Reinaldão tem razão

O leitor fiel destas Entrelinhas pode até se espantar, mas desta vez o blogueiro Reinaldo Azevedo, colunista da revista Veja, mandou tão bem que não dá para não reproduzir. É muito raro acontecer, mas neste caso o autor deste blog concorda tanto com o colega que assinaria embaixo o post que ele publicou neste domingo, à exceção das provocações bobinhas ao presidente e petistas, aliás desnecessárias porque a nova legislação tem muito pouco a ver com Lula e o PT, é fruto de um consenso obtido na Câmara Federal. Para quem não lembra, um dos comandantes da aprovação do texto final com o endurecimento na legislação (o Senado havia abrandado um pouco) foi o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto, hoje candidato do DEM à prefeitura de Salvador.

Na essência, porém, os argumentos de Reinaldão são bons e este blog também acha a lei seca um absurdo lógico. Afinal, hoje o consumidor de cocaína, qualquer que seja a quantidade cheirada, não paga multa nem vai preso se declarar que a droga apreendida pela autoridade policial é para consumo próprio. Inclusive se estiver dirigindo um automóvel. Já o cidadão que toma 2 chopps e for flagrado pela polícia terá de pagar os R$ 955, será preso e processado. Condenado, pode pegar até 4 anos de cadeia...

No fundo, o espírito da lei é bom, positivo – proibir bêbados de dirigir e provocar acidentes. Para isto, porém, bastariam algumas medidas que inclusive estão no texto da nova lei, como a que transformou em homicídio doloso (com inteção de matar) o envolvimento de motoristas alcoolizados em acidentes fatais (antes eram classificados como homícidios culposos, sem intenção de matar e com pena bem menor). Criminalizar o ato de dirigir após dois chopinhos realmente parece a este blogueiro um exagero sem tamanho. A vida já anda dura o suficiente, o Congresso não precisava nos brindar, como o perdão do trocadilho, com mais esta atrapalhação... E antes que algum desavisado diga que Lula poderia ter vetado a porcaria toda, até o Reinaldão há de concordar que se o presidente tivesse passado a caneta, a direita estaria em festa, acusando-o a torto e a direito de ter legislado em causa própria... A seguir, o polêmico texto do colunista da Veja.


A boçalidade dos aiatolás das proibições
A lei que pode cassar a carta de motorista, com multa de quase R$ 1 mil, de quem tomar uma taça de vinho ou uma lata de cerveja é uma boçalidade. Coisa típica de país em que as leis são flagrantemente desrespeitadas pelos próprios governantes, que dividem o seu reinado com o crime organizado, mas que decidem ser draconianos com o cidadão comum. Abstenho-me de perguntar se Lula e Roberto Teixeira estavam sóbrios quando discutiam o caso Varig, por exemplo. Até porque tenho certeza: sim, eles estavam.

Não há nada que possamos fazer bêbados que Lula e Teixeira não façam muito pior estando sóbrios.

Será que estou aqui a defender que as pessoas saiam barbarizando por aí, já que o país, no ponto de vista legal, está se transformando num lupanar — para usar vocábulo acima da linha da cintura, embora a palavra designe o que vai abaixo? É claro que não. Apenas sustento que é uma estupidez impor limites tão baixos para o consumo, o que coloca o país entre os mais restritivos do mundo.

Como foi tomada essa decisão? Quais são os números? Há casos de acidentes graves no trânsito provocados por quem tomou uma lata de cerveja apenas? Ou uma taça de vinho? Duvido. É rigidez de país bananeiro — que contou, no caso, com a soma de várias militâncias da estupidez e do obscurantismo pseudo-humanistas. E reitero: que a lei seja dura, sim. Mas para punir o alcoolismo no trânsito.

Obscurantismos
Os lobistas da droga devem estar felizes a esta altura, não? A lei já lhes faculta carregar um fuminho apenas para seu consumo. No máximo, o sujeito leva um pito. Se, numa festa, o valente fumar maconha até ficar com os olhos esgazeados ou cheirar pó até eles ficarem vidrados, nada a temer: pode soprar o canudo, que a passagem está livre. É um homem de bem. Perigoso é o pobre contador que vem atrás, coitado, ou um gerente de banco: tomaram uma cerveja... Como é mesmo? “Dançou, playboy!”. Ah, sim: também dá pra mandar ver no ecstasy. O viciado tem até direito a bebedouro, garantido por lei. É um despropósito!

Alguns idiotas, proxenetas do onguismo que pretende nos sufocar com seus carinhos — embora, de fato, encham de dinheiro os seus bolsinhos —, acusam o lobby da indústria da bebida de ser contra isso ou aquilo. Eu quero que o lobby da bebida, do fumo ou das comidas que engordem se dane. O que acho insuportável é esta, com vou chamar?, “medicalização” da cultura, que nos transforma a todos em menores idiotizados, estupidificados pela suposta desinformação, dependentes de que o papai estado venha nos dizer: “Não fume, não beba, não consuma calorias, não isso, não aquilo... Nós só queremos o seu bem”.

Alguém poderia dizer: “Curioso, Reinaldo! Por que fazem o contrário com o sexo, botando máquinas de camisinha nas escolas?” Não há contradição nenhuma, mas coerência na estupidez. A “camisinha” também é a transformação do sexo apenas em questão médica: “Encape o bicho, e aí tudo é permitido”. Em qualquer caso, trata-se de diminuir o espaço da arbitragem individual.

A única nota algo dissonante nessa cruzada dos aiatolás da saúde é a tolerância com as drogas — e até o estímulo ao consumo. Mas até ela se explica se formos fazer a genealogia dessas “idéias purificadoras”: os “inteliquituais” dessa nova cultura são caudatários daquele tempo em que elas contestavam o “sistema”, entendem? Não beber, não fumar, não consumir gorduras, tudo isso é uma variante contemporânea daquela “contestação”. Não por acaso, acusam-se os lobbies de fazer pressão contra as proibições por razões “puramente de mercado”. Há uns idiotas achando que, assim, ajudam a combater o capitalismo.

Não deixa de irônico
No fim das contas, isso tudo não deixa de ser irônico — e olhem que não dirijo; a lei nem me atinge pessoalmente. Já aconteceu de eu me dizer católico aqui e ali, e as pessoas me olharem como se eu fosse um ET. Algumas me vêem até com certa piedade. Outros desandam a falar de sua vida venturosa, tão plena daquelas alegrias que, para uma pobre vítima do Vaticano, estariam vedados. Porque vocês sabem, não? Católicos ficam vendo pecado em tudo, torturando-se diante de qualquer prenúncio de prazer, mortificando-se... Ou, então, hipócritas que somos, caímos em tentação para rezar uma penca de ave-marias depois.

Quem diria, não? Estou começando a me sentir permissivo diante do triunfo dessa nova religião. Daqui a pouco, teremos de rezar algumas vezes por dia com a cabeça voltada para o Ministério da Saúde: sem fumar, sem beber, sem consumir gorduras, prontos para, com o sangue limpinho, ser sugados pelos mosquitos de José Gomes Temporão.

Estatísticas enganosas
Caso se espalhem alguns milhares ou milhões de bafômetros e se imponha o terror, é bem possível que caia o número de acidentes provocados por ingestão de álcool. É que os realmente embriagados terão sido tirados de circulação. E os idiotas dirão então: “Estão vendo? A lei foi eficaz”.

Ela foi eficaz porque pegou os bêbados — o que se pode fazer com uma lei mais racional —, não porque agrediu os nossos direitos e diminuiu a nossa joie de vivre.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Ainda sobre o Estadão

Enquanto a direção de O Estado de S. Paulo nega os rumores de venda do jornal, do lado da Globo já houve confirmação formal de interesse na compra e negociação em andamento. Mas ao que parece alguma água ainda vai rolar por debaixo da ponte. A nota abaixo está no blog Arrastão, da sempre bem informada jornalista Janaína Leite. Como dizem os italianos, se non è vero, è bene trovato.

Estadão

A disputa pelo jornal O Estado de S.Paulo está cada vez mais acirrada. Além de haver cisão entre os acionistas sobre a venda, há rumores de que os maiores interessados em comprar o diário - Globo e Abril - brigam por um sócio capitalista para concretizar a operação.

O endinheirado-alvo, conforme dizem, seria Eike Batista. Coincidência ou não, o moço recentemente enfeitou a capa da Época. Logo depois, apareceu na capa da Veja.

A avaliação dos supostos compradores seria a de que o BNDES está sob bombardeio e, portanto, não convém pedir ajuda ao banco, pois, além da concentração de mercado, os concorrentes teriam munição extra para reclamar do negócio.

Enquanto a situação não se resolve, a redação d'O Estado faz a festa. Emplaca um furo atrás do outro.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Rede Globo comprando o Estadão?

Está nos blogs de Giba Um e James Akel a informação de que as Organizações Globo estariam para anunciar a compra do jornal O Estado de S. Paulo. Akel diz que o negócio gira em torno de R$ 2,5 bilhões, valor que incluiria as dívidas a serem assumidas pelos compradores. Giba Um e Akel concordam em outro valor, a ser pago para a família Mesquita: cerca de R$ 500 milhões, ou cerca de R$ 80 milhões para cada um dos seis herdeiros do Grupo Estado. Não está claro se a Agência Estado seria incluída no pacote - há um outro boato dando conta de que a Reuters estaria interessada em levar a agência. Uma outra fonte diz que o negócio está para ser fechado, mas não com a Globo de compradora - fundos de pensão, incluindo um estrangeiro, seriam os futuros proprietários do mais tradicional jornal diário de São Paulo.

A família Mesquita já está bem afastada do comando da operação, que vem sendo tocada por representantes dos credores, mas uma saída definitiva seria um marco no jornalismo brasileiro. Se a Globo de fato for a compradora, finalmente o sonho do finado Roberto Marinho de entrar com vigor no mercado paulista será concretizado. A ver.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Iglecias: dupla polarização em São Paulo

Conforme prometido, segue abaixo a análise do professor Wagner Iglecias da pesquisa Ibope sobre o cenário eleitoral na cidade de São Paulo.

A divulgação da mais recente pesquisa Ibope de intenção de voto para a eleição de prefeito da cidade de São Paulo, feita nesta quarta-feira, traz dados já relativamente conhecidos: a ex-prefeita Marta Suplicy mantém pequena margem de liderança sobre o ex-governador Geraldo Alckmin, enquanto o atual prefeito Gilberto Kassab segue bem atrás, mais próximo das intenções de voto de Paulo Maluf e Luiza Erundina do que dos dois líderes da corrida eleitoral.

Faltando pouco mais de quatro meses para o pleito, parece bastante provável que Marta, que teve uma gestão bem avaliada pela população quando passou pelo comando da cidade, venha a estar no segundo turno da disputa. Faz sentido, afinal, com a quase certa ausência de Luiza Erundina na disputa, sobra para Marta toda a faixa progressista do eleitorado paulistano, a qual está longe de ser desprezivel. Já entre os eleitores mais conservadores, a tendência é a divisão de votos entre o candidato oficial do PSDB, Geraldo Alckmin, e o candidato da coligação DEM-PMDB, Gilberto Kassab.

Muita água ainda deverá rolar por debaixo da ponte até que o quadro esteja mais definido, mas a julgar pelas últimas pesquisas há uma tendência de consolidação da polaridade entre Marta e Alckmin. Talvez o que venha a alterar esta possibilidade seja o início da campanha eleitoral na televisão, na qual Kassab terá preciosos minutos para mostrar-se ao eleitorado, bem como o papel que será desempenhado pelo governador José Serra em relação aos dois principais candidatos do campo conservador. Serra terá de apoiar, pelo menos de público, seu correligionário Alckmin, mas muito se diz que o governador tem em seu ex-companheiro de chapa Gilberto Kassab o seu preferido. A temperatura da provável disputa que ambos deverão travar pela definição de quem enfrentará Marta no segundo turno poderá, em maior ou menor grau, tornar mais curto o caminho da petista até o Palácio do Anhangabaú.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

Marta sobe, Alckmin cai e Kassab estaciona

A seguir, matéria do G1 detalhando a nova pesquisa do instituto Ibope sobre a sucessão municipal em São Paulo. Como os leitores poderão perceber, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) subiu um ponto percentual em relação ao levantamento anterior, ao passo que Geraldo Alckmin (PSDB) perdeu 3 pontos e o prefeito Gilberto Kassab (DEM) manteve-se estável, sem oscilação alguma. No próximo post, a análise de Wagner Iglecias para o Entrelinhas sobre os novos números do Ibope.

Pesquisa Ibope aponta Marta com 31% e Alckmin com 25% em São Paulo

É o segundo levantamento do Ibope para a eleição em São Paulo.
Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), tem 13%.

Do G1, em São Paulo

Pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira (25) aponta Marta Suplicy (PT) com 31% das intenções de voto e o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) com 25% na corrida eleitoral pela Prefeitura de São Paulo.

Segundo o Ibope, o prefeito de São Paulo e candidato à reeleição, Gilberto Kassab (DEM), tem 13%. O deputado federal Paulo Maluf (PP) soma 8%, e a também deputada Luíza Erundina (PSB), 7%. A vereadora Soninha (PPS) surge com 2%. O deputado Paulinho da Força (PDT) tem 2%. Brancos e nulos somam 9% e não sabem/não opinaram, 2%.

A pesquisa foi contratada pelo Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas de São Paulo e Região (Setcesp). O Ibope entrevistou 602 eleitores na capital paulista no período entre 21 a 23 de junho. A margem de erro da pesquisa é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos.

O instituto também pesquisou outros três cenários diferentes para o primeiro turno das eleições. No cenário 2, sem Maluf, Marta Suplicy aparece com 32%, contra 27% de Alckmin, 14% de Kassab, 9% de Erundina, 2% de Paulinho da Força, 2% de Soninha, 1% de Ivan Valente (PSOL) e 1% de Zulaiê Cobra (PHS). Brancos e nulos somam 10% e não sabem/não opinaram, 3%.

No cenário 3, sem Erundina, o Ibope aponta Marta com 34%, Alckmin, 27%; Kassab, 14%; e Maluf, 8%. Em seguida, vêm Soninha, 2%; Paulinho, 2%; Zulaiê Cobra, 1%; brancos e nulos, 10%; e não sabe/não opinou, 2%.

No cenário 4, sem Erundina e Maluf, Marta tem 36%; Alckmin, 30%; Kassab, 15%; Paulinho, 2%; Soninha, 2%; Ivan Valente, 1%; Zulaiê Cobra, 1%. Brancos e nulos somam 11%, e não sabe/não opinou, 3%.

A pesquisa está registrada na 1ª Zona Eleitoral de São Paulo/ SP, sob o protocolo nº 00900108-SPPE.

Segundo turno
Para um eventual segundo turno, o Ibope pesquisou três diferentes cenários. No primeiro, sem Alckmin, Marta tem 50% das intenções de votos e Kassab, 36%. Brancos e nulos somam 13%, e não sabe/não opinou, 2%.

Num segundo cenário, sem Kassab, Alckmin assume a liderança, com 49% das intenções de voto, ante 41% de Marta. Brancos ou nulos somaram 9%, e não sabe/não opinou, 1%.

No terceiro cenário, sem Marta Suplicy, Alckmin tem 54% e Kassab, 25%. Brancos e nulos totalizaram 19%, e não sabe/não opinou, 2%.

Primeira pesquisa Ibope
O primeiro levantamento do Ibope para a eleição em São Paulo foi divulgado no dia 3 de junho. Nessa pesquisa, com margem de erro de quatro pontos percentuais para mais ou para menos, foram entrevistados 602 eleitores na capital paulista no período entre 27 a 29 de maio.

Na ocasião, o instituto também pesquisou quatro diferentes cenários para o primeiro turno das eleições. No cenário principal, Marta Suplicy (PT) tinha 30% das intenções de voto, contra 28% de Geraldo Alckmin (PSDB), 13% de Gilberto Kassab (DEM) e 9% de Paulo Maluf (PP).

Propaganda eleitoral
Para o diretor de atendimento e planejamento do Ibope, Helio Gestaldi, a tendência é que os pré-candidatos mantenham índices próximos aos registrados nos dois levantamentos, com pequenas oscilações, até o início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, em 19 de agosto.

"Costumamos dizer que este o ínicio da propaganda no rádio e na TV é o grande divisor de águas da campanha, quando os candidatos têm que se preparar para uma mudança de estratégia, para a nova dinâmica que as campanhas tomam", disse.

Ainda segundo Gestaldi, é esperado que o prefeito Gilberto Kassab, que não participou de campanhas à prefeitura anteriormente, ganhe "alguns pontos" já no início da propaganda.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Inflação: histeria ou realidade?

O jornalista Paulo Henrique Amorim tem a teoria de que a grande imprensa tenta criar uma crise por mês com o objetivo de derrubar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do cargo. A crise da hora seria a volta da inflação, com nítido objetivo de ajudar a oposição a ter algum discurso consistente nas eleições de outubro.

Bem, pode ser que o PHA seja mesmo meio paranóico, mas a julgar pelas notícias de hoje, parece que ele tem uma pontinha de razão: a seguir, matéria da Agência Estado sobre a desaceleração da inflação.


IPC-S mostra recuo de preços em 6 de 7 capitais

SP registra a desaceleração mais intensa; índice sobe 0,97% ante alta de 1,23% em leitura anterior

RIO - A inflação em seis das sete capitais usadas para cálculo do Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S) desacelerou na passagem do indicador de até 15 de junho para o índice de até 22 de junho. Na capital paulista, os preços subiram 0,97%, ante alta de 1,23% apurada no índice anterior - a desaceleração mais intensa entre as capitais. A informações foram divulgadas nesta terça-feira, 24, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Além de São Paulo, houve recuo de preços no Rio de Janeiro (de 1,09% para 0,88%); Belo Horizonte (de 0,49% para 0,41%); Recife (de 1,10% para 1,03%); Porto Alegre (de 0,71% para 0,56%); e Brasília (de 1,11% para 0,98%). A única cidade a apresentar aceleração de preços no período foi a de Salvador (de 1,04% para 1,14%).

Embora todas as cidades contribuam para cálculo do IPC-S, a capital paulista é a de maior peso na formação do resultado do índice - cujo resultado total registrou desaceleração (de 1,07% para 0,89%), da quadrissemana encerrada em 15 de junho para a quadrissemana terminada em 22 de junho, conforme anunciado na segunda-feira pela FGV.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Conforme queríamos demonstrar

No artigo para o Correio da Cidadania reproduzido aqui duas notas atrás, o autor destas Entrelinhas desenvolveu e abraçou a tese de que ao governador José Serra não resta outra saída senão trabalhar contra o candidato do PSDB à prefeitura de São Paulo e a favor do prefeito Gilberto Kassab (DEM). Não se trata de uma tese particularmente original, na verdade ela é até óbvia para qualquer analista que tente raciocinar a partir do ponto de vista e dos interesses de José Serra.

O que este blog não esperava, porém, é que o governador fosse dar uma demonstração de seu, digamos assim, apreço pelo prefeito Kassab logo no dia seguinte à Convenção do PSDB qeu escolheu Geraldo Alckmin para a disputa de outubro na capital paulista. Como se pode ler abaixo na reportagem da Agência Estado, Serra e Kassab curtiram o frio paulistano desta tarde no mesmo palácio, juntinhos. Claro que o governador não poderia dizer outra coisa para a imprensa se não que o prefeito é "automaticamente convidado" para eventos como os de hoje, mas o simbolismo do encontro é evidente: nesta segunda-feira, Serra não esteve com o candidato de seu partido, mas com o seu candidato à prefeitura de São Paulo. É como se ele, Serra, perguntasse, à la Reinaldo Azevedo: entenderam ou vou precisar desenhar?
A seguir, a matéria a Agência Estado:

Após PSDB lançar Alckmin, Serra e Kassab participam de evento

Governador de SP foi indagado sobre presença do prefeito e respondeu ' ele é convidado automaticamente'

SÃO PAULO - O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), participou nesta segunda-feira, 23, de evento em São Paulo para anunciar financiamentos no valor de R$ 2,8 bilhões para a expansão das linhas de trem e de metrô na cidade ao lado do prefeito da capital paulista, Gilberto Kassab (DEM). Indagado sobre o cunho político da presença de Kassab na cerimônia, um dia após a convenção do PSDB que rompeu formalmente a aliança com o DEM e anunciou Geraldo Alckmin (PSDB) como candidato à Prefeitura de São Paulo, o governador esquivou-se: "O prefeito é convidado automaticamente a qualquer ato envolvendo a cidade de São Paulo". Sobre questões partidárias, Serra não se manifestou. "Não posso falar de política toda vez que há um anúncio como esse", disse.

Um acordo fechado a menos de 12 horas da convenção do PSDB no domingo pôs fim à disputa entre o ex-governador e Kassab para a escolha do candidato dos tucanos à Prefeitura de São Paulo. O partido teve chapa única encabeçada por Alckmin, que foi lançado candidato com apoio unânime do PSDB. Numa reunião no sábado, o grupo de tucanos pró-Kassab concordou em retirar a chapa que pedia o apoio à reeleição do atual prefeito.

O acordo foi selado no mesmo dia em que o governador José Serra retornou a São Paulo de uma viagem ao exterior. O vereador Gilberto Natalini, um dos articuladores da chapa pró-Kassab, disse, sem revelar nomes, que a decisão do grupo atende a um pedido feito por lideranças nacionais e estaduais do PSDB. "Houve um apelo do partido em nível nacional, de lideranças estaduais de vários locais e a bancada, embora tenha certeza de que a sua tese sairia vencedora, decidiu reconsiderar e não vamos concorrer", afirmou. "Duas candidaturas jogam água no moinho do PT."

O presidente nacional do PSDB, Senador Sergio Guerra (PSDB-PE) disse que Serra teve papel decisivo no acordo que definiu um candidato próprio para o PSDB. "Sem dúvida, equilíbrio, ponderação e firmeza, também sempre foram a marca dele ", respondeu ao ser questionado sobre o papel de Serra na decisão tomada no sábado, antes da convenção do partido, no domingo.

Pobres ficam menos pobres sob Lula

O que vai abaixo está na manchete da Folha Online. Depois o pessoal não entende por que o presidente Lula é tão popular...

Salário da baixa renda sobe quatro vezes mais que de ricos

Salário dos 10% com menor renda teve alta de 21,96% entre 2003 e 2007; já os 10% com maior renda tiveram ganhos de 4,91% no mesmo intervalo, segundo Ipea.

E se Alckmin vencer?

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do blog.

O governador de São Paulo, José Serra, conseguiu abafar uma profunda crise em seu partido ao negociar a retirada da chapa que pregava a aliança do PSDB com o DEM em torno da reeleição do prefeito Gilberto Kassab. É evidente, porém, que a aclamação de Geraldo Alckmin como candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSDB não resolve todos os problemas da agremiação. O processo de escolha do candidato tucano na capital paulista já foi por si só um desastre para o PSDB e revelou que o racha no partido é muito mais grave do que seus líderes admitem. A notícia de que o secretário municipal Walter Feldman, defensor da aliança com Kassab, só se arriscou a comparecer na Convenção de domingo acompanhado de quatro quarda-costas (sim, quatro, não um ou dois, mas quatro) é emblemática do momento que vive o PSDB.

Nos bastidores tucanos corre a versão de que Serra só interviu no processo porque percebeu que poderia ser responsabilizado por uma eventual derrota de Geraldo Alckmin na Convenção e ficar com a fama de mentor da "degola" da candidatura própria. Certamente este foi um fator que Serra pesou na balança, como também foi considerada a questão da candidatura presidencial de 2010 – Alckmin supostamente apoiou o nome do governador paulista para a sucessão de Lula. Quem convive com Serra acredita, porém, que o que de fato pesou na hora da decisão final sobre o que fazer com a candidatura de Geraldo Alckmin foi a crença do governador na vitória de Gilberto Kassab em outubro. Serra acha que o prefeito disputará o segundo turno com Marta Suplicy e vencerá a ex-prefeita com boa margem de votos.

O governador paulista pode ser muita coisa, mas bobo, não é. É difícil acreditar que ele possa ter tomado a difícil decisão de não permitir o enfrentamento da ala "kassabista" do PSDB com os "alckministas" com base em "wishfull thinking" sobre a vitória de Kassab nas urnas. Se Serra acha que o prefeito vai se dar bem nesta campanha, é porque os dados disponíveis para análise do cenário são favoráveis a Gilberto Kassab. De fato, o prefeito democrata já tem mais tempo de propaganda no rádio e televisão do que seus adversários, certamente deve conseguir mais recursos ao menos do que Alckmin, e tem um discurso coerente para apresentar, qual seja o da continuidade da atual gestão. O ex-governador e agora candidato do PSDB à prefeitura paulistana, ao contrário, terá muita dificuldade em levantar dinheiro junto a fornecedores do estado ou do município e vai precisar caprichar bastante para explicar ao distinto público por que poderia ser um prefeito melhor do que o atual, cuja gestão é apoiada pelo seu próprio partido.

É verdade que na política, como no futebol, em geral vence o time mais organizado taticamente e com os melhores jogadores. Serra avaliou que neste momento Kassab e a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) têm os melhores times para a disputa de outubro. Da mesma maneira que ocorre no futebol, porém, pode dar zebra. E Alckmin tem todo o jeitão de ser a zebra da vez, pois apesar das desavenças internas em seu partido e da eventual falta de recursos para a campanha, parte de um enorme recall da eleição presidencial de 2006, em que firmou uma forte imagem "anti-petista". Ademais, Alckmin tem o dom de falar, falar, falar e nada dizer, o que pode ser bastante útil em uma eleição que ele no fundo não pode criticar o atual governo e deve se limitar a dizer que vai "fazer melhor" o que Kassab está fazendo.

Assim, com o time meio perneta, sem apoio integral nem em seu próprio partido e provavelmente sofrendo toda sorte de sabotagens internas na campanha, não é impossível imaginar que Geraldo Alckmin consiga uma empatia com o eleitorado e a vaga para o segundo turno. Evidentemente, hoje é muito difícil supor que Marta Suplicy possa ficar de fora, já que uma faixa do eleitorado tradicionalmente vota no candidato de esquerda com mais chances de vencer, o que reduz muito as chances de uma disputa entre Kassab e Alckmin no segundo turno, ainda mais com Paulo Maluf (PP) correndo por fora e também disputando os votos na faixa da direita.

Se, portanto, Alckmin passar para o segundo turno, Serra terá que fazer uma segunda avaliação da conjuntura política. Ou apóia o correligionário para valer, colocando o seu peso político (e econômico) a serviço da candidatura de Geraldo Alckmin, ou terá um inimigo no Palácio do Anhangabaú, caso o PSDB bata Marta Suplicy nas urnas.

Parece simples, mas é um pouco mais complicado, porque ainda que Serra trabalhe de verdade por Alckmin, também não é certo que, uma vez eleito, o ex-governador tenha muita boa vontade em apoiar a postulação de Serra para concorrer em 2010 à presidência do Brasil. Primeiro, porque a prefeitura será um excelente palanque para uma candidatura presidencial do próprio Alckmin, que poderá ver em 2010 uma boa janela de oportunidade para chegar ao Planalto (uma vez que Lula não concorrerá); e em segundo lugar, porque quem sempre apoiou as pretensões de Alckmin no processo pré-eleitoral deste ano foi o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Se a primeira hipótese hoje parece distante e pouco provável, sobre a segunda não há muita dúvida: afinal, como diz a música, por que Alckmin pagaria com traição a quem sempre lhe deu a mão?

Como se pode ver, a eleição municipal deste ano em São Paulo é fundamental para a definição do cenário eleitoral de 2010. José Serra tanto pode praticamente selar a sua candidatura pelo PSDB, ironicamente com uma vitórida do democrata Kassab, ou ficar muito mais longe dela, se tucano Geraldo Alckmin se tornar prefeito de São Paulo. Confuso? Bastante, mas assim é a política brasileira...

Vinicius T. Freire: Memória da ruína tucana

Vale a pena ler o artigo reproduzido abaixo, de autoria do jornalista Vinícius Torres Freire, publicado neste domingo na Folha de S. Paulo. Trata-se de uma análise lúcida e muito bem elaborada. O leitor deste blog vai reconhecer algumas idéias que vem sendo defendidas aqui, sobretudo a de que a oposição não tem proposta alternativa ao governo do PT e exatamente por isto está em crise, sem discurso. A seguir, a íntegra da análise de Vinícius.

De tão parecido com a modernidade avacalhada que implantou no país, PSDB nada tem a dizer ao público.

Os Tucanos seriam o partido da modernização, dizem eles mesmos. Se tal discussão não provoca o tédio imediato, pode-se achar até graça nisso. Mas, no fim das contas, não era verdade? A modernização tucana foi tão bem sucedida e o PSDB a encarnou tão bem que a forma do partido mal se destaca do fundo que produziu. O sucesso faz com que as idéias tucanas percam seus contornos quando confrontadas com o país modernizado: o PSDB hoje não fede nem cheira.

A "utopia do possível" do PSDB era um país mais capitalista, mas com "10% de desconto", como dizia Mangabeira Unger. Uma economia mais aberta, mas que protege a grande empresa. Um país com seu mercado de capitais e uns trocados para a escola dos pobres, para formar "capital humano". Com mais mercado e uma "rede de proteção social" que enreda os deserdados, o embrião do Bolsa Família. Com privatização e politização dos negócios privados.

O filme do PSDB era um roteiro adaptado da arenga do Banco Mundial. Era um grupo de políticos menos selvagens e de tecnocratas mais capazes, encapsulados num saquinho de chá metido no balde d"água ainda mais sujo da política partidária brasileira. Mudou muito pouco do mar de desigualdades de poder, renda e educação. Mas o saquinho de chá tucano se dissolveu no balde. A tecnocracia tucana ouviu a própria pregação do empreendedorismo e retirou-se, em especial na finança. Restaram os caciques e a "aliança com o atraso, instrumento do avanço", tal como era racionalizado o pacto com PFL e PMDB, o de sempre, de Sarney a Lula.

Hoje, o PSDB tem um governador denunciado à Justiça (Teotonio Vilela, Alagoas) e amigão de Renan Calheiros. No Rio Grande do Sul, os pedaços da coalizão tucana se acusam de bandidagem e mau-caratismo, todos aparentemente com razão. O governador tucano de Minas ameaça namorar o lulismo, chantagem que tem como objetivo confrontar o governador de São Paulo, que corre o risco de deixar como grande legado político a implantação do PFL (Democratas) no Estado, antes praga inaudita. Com os anos, aparecem os esqueletos corruptos do partido, vide o caso Alstom.

O neotucanato é a direita que não ousa dizer seu nome, o alckmismo, que deixou a gestão do Estado em estado de choque, vide o desastre na educação paulista, a falácia da responsabilidade fiscal e a inanidade do desenvolvimento estadual durante o governo Alckmin. No campo das "idéias", a liderança tucana no Congresso faz chacrinha sobre responsabilidade fiscal, mas vota anônima e unânime a favor de projetos que estouram o orçamento público. Se passa a picuinhas e vergonheiras como fingir-se de morta quando nota que as CPIs que defende se voltam também contra o próprio partido.

O último candidato tucano a presidente renegou o seu arremedo de programa e até mesmo a receita de bolo fernandina. Como o petismo-lulismo é a reprodução ampliada e pirateada do velho programa tucano e como o "choque de capitalismo" do PSDB realizou-se, a seu modo avacalhado, o tucanato nada tem a dizer que contraste com a realidade da política e da vida brasileiras. O PSDB é só uma briga de foice por um lugar no horário eleitoral gratuito.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Mala preta na Convenção

Ainda sobre a crise tucana, a novidade do dia foi a denúncia de um delegado do grupo de Geraldo Alckmin que teria sido "estimulado" a assinar a lista do documento que propõe a aliança do PSDB com Gilberto Kassab (DEM) por módicos R$ 100 mil, conforme se pode ler abaixo, em matéria da Folha Online. A continuar assim, deveriam chamar Paulo Maluf para, digamos, coordenar a convenção tucana...


Tucano diz que recebeu proposta de suborno de kassabistas

WANDERLEY PREITE SOBRINHO
MARCELO GUTIERRES
colaboração para Folha Online

A briga interna do PSDB em torno da indicação para concorrer à Prefeitura de São Paulo ganhou um novo personagem: Pedro Vicente, presidente do diretório do PSDB no Jardim São Luís, zona Sul de São Paulo. Ele afirmou nesta quinta-feira à Folha Online que recebeu uma proposta de R$ 100 mil "da parte dos vereadores do PSDB" para assinar a lista em favor da chapa encabeçada pelo atual prefeito Gilberto Kassab (DEM) e contrária à candidatura do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Vicente --que é favorável à candidatura Alckmin-- disse que os vereadores kassabistas montaram um "quartel general" para convencer o maior número possível de delegados a votar na chapa pró-Kassab. "Foi montado um quartel general comandado pelos vereadores", disse.

Ele disse que no último dia 9, por volta das 19h30, recebeu uma ligação de um homem que se identificou como membro do PSDB. Nessa ligação, ele pediu um encontro com Vicente para tratar da sucessão na capital paulista. "Ligaram no meu celular e perguntaram se eu era o Pedro Vicente."

Vicente afirma que aceitou o encontro, que foi marcado para acontecer no Carrefour Giovanni Gronchi, na zona sul da cidade. A reunião deveria acontecer no estacionamento do hipermercado, mas Vicente pediu para que ela fosse realizada na praça de alimentação "onde há câmeras para filmar."

"Chegando lá, ele falou que era do diretório estadual do PSDB. Eu perguntei de qual município, ele respondeu que era de São Paulo." Mas quando Vicente perguntou qual era o diretório zonal, o homem teria voltado a repetir "diretório estadual". "Aí eu perguntei o nome dele, que se identificou como Marcos Aurélio da Silva. Mas eu não sei se é verdade."

Vicente afirma que Marcos queria seu apoio para a candidatura Kassab porque ele seria muito influente no PSDB daquela região, que inclui nove diretórios: Piraporinha, Santo Amaro, Parelheiros, Cidade Ademar, Campo Limpo, Capão Redondo, Jardim São Luís, Capela do Socorro e Grajaú.

"Ele disse que se eu aceitasse, me oferecia dois cargos na prefeitura. Eu ia escolher os cargos, ir na prefeitura com os documentos, que sairia tudo no Diário Oficial. Então eu questionei: 'cargo por seis meses?'. Ele me respondeu: 'então o seu negócio é dinheiro?' e eu respondi que não era um cara barato, que era para ver até onde ele iria chegar. Então ele me ofereceu R$ 100 mil e depois baixou para R$ 50 mil", afirmou Vicente.

Vicente disse que pediu um tempo para pensar a respeito. Então fez uma reunião com os nove diretórios. "Foi quando fiquei sabendo que esse Marcos ofereceu o mesmo para os líderes de Cidade Ademar, Grajaú e Paralheiros."

Segundo o delegado tucano, ficou combinado entre as partes que Marcos ligaria para Vicente amanhã às 12h para combinar o dia do pagamento.

Vicente também diz que foram registradas outras formas de coação por parte dos kassabistas. Ele afirma que motoboys foram contratados para visitar a casa de todos os delegados para colher suas assinaturas. "Muitos diziam que a assinatura era pró-Alckmin, então alguns assinaram por engano. Alguns motoboys disseram que a assinatura era só para os vereadores, não mencionava o Kassab."

O outro lado

"Esse moço está no partido há muito pouco tempo. Ele é um provocador", afirmou o secretário municipal de Esportes, Walter Feldman, defensor da aliança com o DEM. "Ele é o cara mais agitado da zona sul. Ele foi funcionário da subprefeitura."

Feldman disse que não conhece as motivações de Vicente para fazer essas denúncias, mas pediu provas para investigar o caso. "Se ele tem uma prova disso, isso nos interessa muito. Isso é um crime. Se a denúncia for consistente, temos de fazer uma prisão em flagrante."

Mesmo assim, ele ironizou a acusação. "Eu acho incrível que alguém ofereça um valor desse por um voto. Ele deve se considerar uma pessoa muito especial. Acho que é mentira. Mas, se tiver prova, temos o interesse de investigar."

O secretário defendeu o PSDB e isentou a ala alckimista, que poderia ter articulado a denúncia. "Isso não tem nada a ver com a nossa prática e a nossa conduta. Não acredito que ninguém que esteja nessa batalha tenha esse tipo de prática. No PSDB não tem esse tipo de prática. Eu jamais acusaria o outro lado sem ter prova."

Kassab

Kassab também negou a tentativa de suborno ao tucano. "Eu estou sabendo agora, mas tenho certeza absoluta que é muito provável que não tenha fundamento [a acusação]. São acusações eleitoreiras", afirmou.

Sobre o fato de terem oferecido cargo ao tucano, Kassab afirmou: "Espero que não seja verdadeira a afirmação. O PSDB tem história, tem quadros e um presidente de diretório não está à venda", afirmou.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

O suicídio político do PSDB

Muitos analistas gostam de dizer que o presidente Lula é um homem de sorte, de muita sorte: concorreu à presidência da República por três vezes antes de chegar ao Palácio do Planalto. Poderia ter sido presidente em 1989, 1994 e 1998, período de estagnação econômica no Brasil, mas venceu em 2002, quando o planeta iniciava um ciclo de crescimento que parece estar dando os primeiros sinais de esgotamento agora, e provavelmente só terá efeitos mais drásticos por aqui no último ano do mandato de Lula, se é que o Brasil será mesmo afetado pela crise internacional, tamanha a quantidade de boas notícias (descoberta de poços de petróleo, crescimento da demanda interna etc etc) que podem ajudar o país a passar incólume nesta crise e voltar a surfar nas ondas do próximo ciclo de crescimento mundial.

De fato, Lula tem sorte, mas é possível ver a questão de um outro ponto de vista: além de muita sorte, o presidente conta, no front político interno, com a inestimável ajuda de uma oposição que não tem a mais remota idéia do que fazer para voltar ao poder. Além de não ter um discurso ou programa alternativo ao que o PT vem executando no governo federal, tucanos e democratas estão se perdendo nas guerras internas de seus partidos, que por sua vez estão conseguindo abalar a parceria entre os dois maiores partidos de oposição do país.

O caso da cidade de São Paulo é emblemático da opção das oposições pelo suicídio político. Neste domingo, o PSDB deve realizar a mais conturbada Convenção municipal de sua história, com o confronto entre os partidários da candidatura de Geraldo Alckmin à prefeitura e a ala que prega o apoio da legenda à reeleição do atual prefeito, Gilberto Kassab (DEM). A julgar pela troca de farpas entre as lideranças tucanas, o clima vai ferver.

Independentemente do resultado final da Convenção, Alckmin mais uma vez mostrou que tem força suficiente e coragem para peitar a liderança do governador José Serra, principal defensor da aliança com Kassab. Disputas internas são sempre desagradáveis, mas o que ocorre no PSDB é um pouco mais grave e certamente terá consequências em 2010 ou até antes disto, pois já há quem fale no surgimento de uma nova agremiação após a eleição deste ano.

No fundo, há dois cenários a serem considerados. Antes, porém, é preciso saber se Alckmin realmente consegue se viabilizar neste domingo. Derrotado, o ex-governador não terá muita alternativa senão deixar o PSDB, uma vez que a vitória da ala "kassabista" seria uma verdadeira humilhação para um político que já governou São Paulo e foi o candidato do partido à Presidência da República em 2006. É mais provável, no entanto, que Alckmin consiga legenda para disputar a prefeitura. Neste caso é que se abrem os tais dois cenários. Se Geraldo Alckmin vencer as eleições de outubro, José Serra ganhou um problemão e poderá começar a pensar se não vale mais a pena garantir outro mandato nos Bandeirantes do que arriscar uma disputa com o seu colega Aécio Neves pela indicação do partido para disputar a presidência da República. Alckmin certamente será uma pedra no sapato de Serra no PSDB. Como diz o ditado, vingança é um prato que se serve frio e todo o processo interno da escolha do candidato neste ano estará bem vivo na cabeça do prefeito Alckmin, que não vai deixar de graça os percalços pelos quais passou.

Por outro lado, há a possibilidade de Alckmin perder a eleição. Neste caso, claro, Serra sai fortalecido, ainda que seu candidato preferido, o prefeito Gilberto Kassab, perca a eleição. Será o momento então de uma eventual "reconciliação" tucana com o DEM e mesmo internamente, com os grupos derrotados, embora esta talvez não seja a atitude mais provável do governador Serra.

Com tamanha confusão na oposição - e o DEM vive em algumas localidades desavenças ainda mais graves com os parceiros tucanos, como ocorre no Rio Grande do Sul -, Lula só tem a agradecer. Não que o PT não tenha problemas, é claro. Aliás, já tem petista por aí dizendo que o ex-governador Geraldo Alckmin é a melhor coisa que já aconteceu para... o PT! E durma-se com um barulho desses...

terça-feira, 17 de junho de 2008

Lula já prepara Dilma para 2010

O encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com quase quatro dezenas de intelectuais, na terça-feira, em São Paulo, teve dois objetivos: prestar contas sobre as ações do governo e apresentar a ministra Dilma Rousseff como candidata do PT à presidência da República em 2010. Um dos participantes do encontro contou a este blog que Lula fez uma exposição sobre política externa, as relações do governo com os movimentos sociais e falou de algumas questões delicadas, evitando apenas temas econômicos.

Sobre o Paraguai, Lula disse que não pretende desestabilizar o seu colega recém-eleito, Fernando Lugo, mas reafirmou a posição do governo brasileiro de que o Tratado de Itaipu é inegociável. Contou também que mantém uma boa relação com Hugo Chávez, o que não ocorre com Evo Morales. Tratando das questões internas, explicou ter excelentes relações com praticamente todos os movimentos sociais, à exceção do MST, que, segundo ele, está atualmente muito dividido. Também reclamou do PT, que não teria encampado a idéia de realizar, ainda neste mandato, a reforma política, um desejo do presidente.

Ao terminar a exposição, Lula passou a palavra aos ministros que o acompanhavam - Fernando Haddad, da Educação, Luiz Dulci, da secretaria-geral da Presidência, e Dilma, chefe da Casa Civil. A ministra falou sobre o PAC e fez uma exposição técnica sobre as iniciativas do governo federal, mas falou também sobre os casos do Dossiê FHC e Varig, assegurando aos presentes a lisura do governo nos dois episódios. Lula comentou que viveu um ano difícil em 2005 e que Dilma agora está passando por um momento que guarda alguma semelhança com o que ele viveu, embora em proporções bem diferentes.

Ao final, a impressão que ficou ao interlocutor do blog foi de que o encontro serviu como uma espécie de apresentação da ministra-candidata à elite da intelectualidade petista. Ela não conhecia pessoalmente boa parte dos presentes e ficou até um pouco nervosa ao iniciar a sua explanação. Depois, demonstrou segurança, mas limitou-se a uma análise técnica da conjuntura, sem abordar aspectos políticos ou apresentar idéias próprias.

O jogo ainda está começando e muita água vai rolar por debaixo da ponte até 2010. Mas parece cada vez mais óbvio que a "mãe do PAC" é a escolhida do presidente. Se aguentar o tranco e resistir à inevitável carga que a oposição deve fazer sobre ela até lá, Dilma terá um cabo eleitoral de peso para a campanha. Não é garantia de vitória tranquila, mas pelo que se vê na falta de críticas a Lula por parte dos princiapais presidenciáveis da oposição - Aécio Neves e José Serra –, é melhor ter o presidente como aliado do que como adversário...

domingo, 15 de junho de 2008

A grande chance de Marta Suplicy

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Em primeira mão, para os leitores do blog.

A ex-ministra do Turismo Marta Suplicy (PT) já está trabalhando ativamente na sua candidatura à prefeitura de São Paulo. Tecnicamente empatada com o tucano Geraldo Alckmin na liderança das pesquisas de intenção de voto, Marta voltou para a cidade que governou por quatro anos, entre 2000 e 2004, decidida a desfazer alguns equívocos de sua primeira administração e valorizar os grandes acertos para vencer uma eleição que se anuncia difícil e complicada, especialmente em função da alta rejeição que Marta ainda carrega.

Em uma estratégia arrojada, já nas primeiras entrevistas que concedeu após deixar o ministério Marta Suplicy foi logo avisando que não repetirá a bobagem de criar novos impostos, como as taxas do lixo e de luz, que lhe renderam o apelido de "Martaxa". No fundo, a candidata tentou antecipar e dar uma resposta contundente para um tema que certamente será explorado durante a campanha, ainda mais se o governo federal não conseguir aprovar rapidamente a Contribuição Social para a Saúde e este imposto permanecer "pendurado" para a apreciação dos senadores até as eleições.

Geraldo Alckmin já percebeu que esta é uma chance de ouro para, com o perdão do trocadilho, taxar Marta e o PT de "grandes criadores de impostos". Embora o aumento da carga tributária do país tenha sido muito maior durante o governo tucano de Fernando Henrique Cardoso (28% para 35% do PIB) do que no do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (35% para 37% do PIB), para o povão, o que vale mesmo é a memória recente. Desta forma, ciente de que a questão dos impostos pode se tornar uma espécie de calcanhar de Aquiles da candidatura, Marta tratou de trazer o assunto à tona agora, na esperança de já esclarecer o público e fugir deste debate quando a eleição se aproximar.

Pelo que vem falando nos últimos dias, a ex-prefeita vai tentar jogar o foco da sua campanha na questão do trânsito infernal da capital paulista. A aposta não é fortuita, Alckmin também já deu algumas pistas de que vai tratar deste mesmo assunto em sua plataforma eleitoral. É evidente que os dois já mandaram realizar pesquisas qualitativas para saber o que vai pela cabeça dos paulistanos e o trânsito tem aparecido nas enquetes como problema número um a ser enfrentado pelo próximo prefeito.

Marta tem o que dizer a respeito de melhorar o trânsito, pois fez, em sua gestão, uma aposta bastante forte no transporte coletivo, com a criação de corredores de ônibus e do Bilhete Único. De forma um tanto atabalhoada, também realizou melhorias para os motoristas que utilizam algumas da vias mais congestionadas da cidade, com os túneis sob a avenida Faria Lima ou a ponte estaiada, projetada durante sua gestão e que acabou virando uma marca do prefeito Gilberto Kassab (DEM), que a inaugurou.

Nem tudo, porém, são flores para Marta Suplicy. A rejeição alta e a já célebre e infeliz frase do "relaxa e goza", durante a crise aérea, serão certamente exploradas por seus adversários. Será preciso uma especial atenção dos marqueteiros da campanha para diminuir a imagem de arrogância que a ex-prefeita às vezes passa para o público.

A grande vantagem da ex-prefeita na disputa deste ano está muito mais no cenário que se desenha no campo adversário do que propriamente nos méritos de sua própria plataforma eleitoral, embora os CEUs, o Bilhete Único e o apoio do presidente Lula constituam alguns trunfos com os quais ela poderá contar. Neste sábado o PSDB deverá confirmar a candidatura de Geraldo Alckmin, para desgosto do governador José Serra, que preferia ver seu partido apoiando o prefeito Kassab. Alguns analistas minimizam o racha tucano e acreditam que no segundo turno Alckmin e Kassab estarão juntos contra a ex-prefeita, o que garantiria uma vitória tranquila ou do tucano ou do democrata. Não é bem assim. A julgar pelo que se ouve nos bastidores, especialmente do PSDB, se Geraldo Alckmin conseguir for o adversário de Marta no escrutínio final, os serristas vão preferir a eleição da petista, até para evitar que o ex-governador se torne decisivo na disputa interna de 2010, apoiando, por exemplo, o governador Aécio Neves, de Minas Gerais, ou mesmo lançando seu nome para disputar a sucessão do presidente Lula.

De fato, a disputa interna no PSDB tem se intensificado nos últimos dias e os partidários da aliança com Kassab já falam em levar para a Convenção do dia 22 o nome do prefeito como cabeça de chapa, desafiando a liderança de Alckmin. É provável que o ex-governador consiga, ainda assim, a indicação para disputar o pleito de outubro, mas a demonstração pública de que o partido está rachado será no mínimo incômoda para ele, que terá que perder um bom tempo explicando a questão. Ademais, os tucanos com cargos de primeiro e segundo escalão no governo Kassab devem permanecer em seus postos, o que cria um constrangimento grande para Alckmin. Afinal, como criticar a gestão de seus correligionários? Que discurso poderá o ex-governador adotar para se diferenciar do prefeito? Se está bom, por que mudar?

Em menor grau, Kassab também sofrerá com a candidatura de Alckmin. Em terceiro lugar nas pesquisas e com Paulo Maluf em seu encalço, logo atrás, o prefeito precisará, sim, bater mais em Geraldo Alckmin do que em Marta, se quiser a vaga para disputar com ela o segundo turno. O raciocínio aqui é puramente lógico: no campo do eleitorado de esquerda, Kassab dificilmente conseguirá tirar votos, portanto terá de buscá-los no centro e à direita. Espremido entre Alckmin e Maluf, o prefeito precisa no mínimo dar algumas cotoveladas em um e outro, do contrário, sua candidatura corre o risco de simplesmente se esfarelar ao lado de dois nomes bastante competitivos e já testados nas urnas. A idéia de uma campanha propositiva é boa para quem está na frente, quando se está atrás o jogo complica, é preciso desenvolver argumentos para que o eleitor se convença de que os outros representantes do campo conservador não merecem seus votos...

Pois como Kassab vai conseguir fazer a crítica mais dura a Alckmin, candidato do partido de seu padrinho Serra e supostamente apoiado pelo governador? Até agora, Kassab tem dito que a candidatura de Geraldo Alckmin é "personalista", um argumento fraco, até porque se Alckmin serviu para ser governador de Estado e candidato a presidente, porque então ele não poderia pleitear a prefeitura da capital? Ora, Kassab precisará usar munição mais pesada, como a incompetência tucana na gestão do Metrô, o Caso Alston e outros pontos frágeis do governo Alckmin. Aí começam os problemas de Kassab, pois muita gente envolvida nesses episódios continua trabalhando com Serra e alguns até têm cargos na prefeitura. Portanto, também não será fácil para Kassab criticar seu principal adversário na corrida por uma vaga no segundo turno. E se ele decidir subir o tom das críticas, não será fácil, caso seja bem sucedido, garantir o apoio do ex-governador para a disputa do segundo turno.

Como se pode ver, os astros parecem estar conspirando para que Marta Suplicy volte à prefeitura. Não será uma corrida fácil e o segundo turno permanece como o grande desafio da candidata do PT, mas é difícil imaginar um cenário mais favorável para ela do que o atual, de intensa divisão no campo adversário.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Pimenta nos olhos dos outros é refresco

O ditado popular acima se aplica muito bem à nota do PSDB em defesa do governo gaúcho de Yeda Crusius, enlameado até o pescoço por conta das denúncias do vice-governador, que pertence ao DEM, tradicional aliado dos tucanos. Quando a denúncia é contra o governo Lula, o PSDB atira primeiro e pergunta depois. Já se o vice-governador revela o descalabro que se tornou a gestão de Yeda, não se pode prejulgar, pois não há nada que a desabone...

Falando em governo gaúcho e lembrando que o foco do escândalo está no Detran do Rio Grande do Sul, uma boa pauta que a imprensa de São Paulo está deixando de lado é o caso das carteiras de habilitação falsificadas no Detran paulista. Ora, os tucanos estão tomando conta da lojinha desde 1995, quando Mário Covas assumiu o governo do estado, mas a grande imprensa simplesmente ignora ou omite este fato quando são descobertas 200 mil carteiras de habilitação falsas. Se alguém cutucar um pouco, vai achar coelho neste mato...

A seguir, a íntegra da nota dos tucanos em defesa de Yeda.

"O PSDB identifica um movimento político articulado para desestabilizar o governo Yeda Crusius. Uma governadora tucana que imprimiu ao Rio Grande do Sul profundas transformações administrativas.

Como tucana, Yeda Crusius pauta sua conduta pessoal e política em princípios de lisura, competência e dignidade, tanto na defesa do estado quanto do brasil.

Sua eleição contrariou interesses e rompeu paradigmas, o que desencadeou práticas, procedimentos e ações políticas condenáveis e inadmissíveis entre partidos democráticos.

A executiva nacional do PSDB --ao mesmo tempo em que defende a apuração de desvios de conduta - rejeita qualquer atitude pessoal, administrativa e política que objetive atingir a honra de Yeda Crusius. Seu mandato conquistado nas urnas é legítimo.

Sérgio Guerra
Presidente Nacional do PSDB"

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Weis: o jogo dos dois erros

O que vai abaixo está no blog do jornalista Luiz Weis e é um bom comentário sobre o caráter da Folha de S. Paulo. Vale a pena ler na íntegra.

A Folha de hoje reconhece seis erros em matérias recentes do jornal e da revista que acompanha as suas edições dominicais. Interessam o último e o primeiro, pelo contraste abissal entre ambos, embora lançados à mesma vala.

O último corrige a citação dos nomes de dois protagonistas do romance Budapeste, de Chico Buarque. Um deles saiu como Jorge Costa, quando o certo é José Costa. Outro saiu como Krista, quando o certo é Kriska.

Erros como esse saem aos montes na imprensa todo dia em toda parte. Indicam qualquer coisa entre a pressa, a distração e o descaso pela checagem dos fatos mais elementares. Em suma, o velho e mau jornalismo vapt-vupt que passa batido para os leitores, salvo a minoria que, em cada caso, conhece de perto o assunto, ou se lembra dos seus detalhes – onde, como se sabe, está o diabo. Mas nem os que flagram a rata vão perder o sono por causa disso. E segue a vida.

No outro extremo está o primeiro erro, por ordem de entrada em cena, na seção “Erramos”. Foi detectado não por um observador anônimo, nem por um jornalista da casa atento à letra miúda de uma notícia, mas pela parte interessada – a também jornalista Vera Spolidoro, assessora de Comunicação do ministro da Justiça, Tarso Genro.

Ela mandou, e o jornal publicou, abrindo o “Painel do Leitor”, a seguinte carta:

“O redator do texto ‘Lula diz que acusações a Dilma no caso Varig são "abomináveis" (Dinheiro, ontem), sobre a ministra Dilma Rousseff e a Varig, equivocou-se duas vezes. Primeiro, ao afirmar que o ministro Tarso Genro ‘criticou a ministra em entrevista ao jornal Zero Hora’. E, segundo, que ‘foi repreendido por Lula’. Na entrevista, o ministro disse que o PT deve apresentar um nome à Presidência e que o assunto ainda não estava em discussão, nem no governo, nem no partido. Disse ao Zero Hora, textualmente: ‘Ela [a ministra Dilma] é uma gestora de confiança do presidente com todas as boas características que tem’. Quanto a ser repreendido pelo presidente, o fato simplesmente não ocorreu."

Nota da Redação remete à seção “Erramos”, onde se lê:

”Diferentemente do que informou o texto ‘Lula diz que acusações a Dilma são ‘abomináveis’, o ministro da Justiça, Tarso Genro não fez críticas a Dilma Rousseff (Casa Civil), em entrevista ao jornal Zero Hora”.

A Folha podia ter acrescentado que, se não houve crítica, tampouco o crítico terá sido repreendido pelo presidente – mas isso ainda é o de menos.

Releia-se a carta e a errata. Não é que um repórter tenha ouvido mal um comentário apressado, ou repassado por terceiros, de um ministro sobre um[a] colega. O comentário está em letra de forma em outro jornal. Literalmente, não tinha erro.

Mas a Folha se limita à fórmula burocrática do “diferentemente do que informou o texto…”, a mesma usada para retificar os erros de nomes do romance de Chico Buarque.

Há algo de errado, ou de muito errado, como se queira, com uma imprensa – hoje foi a Folha, ontem foi outro jornal, amanhã será outro ainda – que, primeiro, se permite tresler uma entrevista com um ministro de Estado sobre uma importante questão política, no caso, a sucessão do presidente da República; e, segundo, ao admitir a barbeiragem, a trata com uma espantosa naturalidade.

Compare-se essa atitude de mal-disfarçada arrogância, por exemplo, com a humildade da revista britânica The Economist, esta semana, na seguinte correção:

“O mapa na reportagem especial da semana passada sobre a ampliação da União Européia estupidamente misturou Eslováquia e Eslovênia. Também disse erradamente que a Turquia e a Croácia apresentaram as suas candidaturas: ambos os países, na realidade, já negociam o seu ingresso. Desculpem.”

Talvez seja o caso de esperar sentado pelo dia em que um jornal brasileiro se penitenciar com palavras como essas de um erro que não tinha por que ter acontecido – e que retrata um gosto perverso pela fofoca política.

Mais fortes são os poderes de Pernambuco!

Este blog achou justo o resultado da finalíssima da Copa do Brasil, apesar de um ou outro deslize da arbitragem. O Sport fez por merecer, jogou melhor o campeonato inteiro, eliminando times fortes e se apresentando bem inclusive aqui em São Paulo, no primeiro embate decisivo. Foi uma partida típica de final, nervosa, decidida nos detalhes, e com um nome que entrou para a história do futebol brasileiro: Wellington Saci, o Breve...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Enquanto isto, no reino tucano...

Denise Abreu continua falando no Senado, ora avança na jugular do governo, em outros momentos dá sinais de que não tem lá muito como provar o que diz. A oposição, é claro, vai tentar maximizar o desgaste do governo - este é o seu papel. Cada um com seus problemas, diria o gaiato. E, falando em problemas, não deixa de ser interessante observar a intensa e grandiosa solidariedade prestada pelo governador de São Paulo, José Serra (PSDB), à governadora gaúcha e sua correligionária, Yeda Crusius. Até agora, como se sabe, Serra não disse palavra sobre o que ocorre no Rio Grande. Se perguntado, certamente dirá que este não é um bom dia para falar sobre o assunto. Enquanto isto, Aécio Neves já elogiou Yeda e se colocou à disposição da governadora. Ou seja, mineiro pelo menos é solidário no câncer. Paulista, nem isto.

Denise: não foi bem aquilo que eu quis dizer

A reportagem abaixo, do portal Terra, revela um primeiro recuo da ex-diretora da Anac em relação à entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo. Ou ela guarda surpresas para o final do depoimento, ou a ministra Dilma Rousseff não tem tanta relevância na história que Denise Abreu está narrando aos senadores...

Denise Abreu nega pressão direta de Dilma

A ex-diretora da Anac Denise Abreu voltou a dizer nesta quarta-feira, no Senado, que foi pressionada pelo governo ser menos rigorosa nas exigências de documentos exigidos por lei no processo de venda de Varig. Denise, no entanto, afirmou que a ministra chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, não faria tal pressão de forma direta.

"Sejamos objetivos. A ministra Dilma (Rousseff) nunca mandaria eu fazer nada. Fui fortemente questionada do porquê estava expedindo um ofício para investigação do capital estrangeiro com entrada oficial pelo Banco Central e do Imposto de Rendal", disse.

Denise Abreu participa de audiência pública na Comissão de Infra-Estrutura do Senado, onde confirmou que sofreu pressão da Casa Civil para aprovar a venda da VarigLog e da Varig ao fundo americano Matlin Patterson em sociedade com três brasileiros.

Denise está falando

A ex-diretora da Anac Denise Abreu começou a depor na comissão de Infra-Estrutura do Senado. Pelo que se ouviu até agora, no preâmbulo em que explicou as suas motivações, a mulher está bem calma e segura do que vai falar na seqüência. Se ela de fato tem bala na agulha, saberemos em breve, mas que não se espere de Denise o estilo "não sei de nada" de outros depoentes em episódios recentes e escândalos anteriores. Não deixa de ser irônico que a oposição toda tenha pedido da cabeça da "charuteira" Denise quando ela era diretora da Anac: agora, tucanos e democratas só faltam estender o tapete vermelho para madame...

terça-feira, 10 de junho de 2008

DEM e PSDB: divórcio à vista?

Estão cada vez mais tensas e distantes as relações entre democratas e tucanos. Nas eleições de outubro, DEM e PSDB correrão separados no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, e muito provavelmente também em São Paulo. Ou seja, em nenhuma capital que de fato conta a aliança acontecerá. Mas muito pior é o que está ocorrendo no Rio Grande do Sul, onde o vice-governador democrata está desconstruindo, para usar um verbo bem ao gosto de José Serra, o governo da governadora tucana. Com amigos assim, essa gente não precisa de inimigos...

TAM nega ter feito oferta pela Varig;
Veja agora precisa apresentar provas

A nota reproduzida mais abaixo, da Agência Estado, revela que a TAM negou ter feito qualquer oferta pela Varig, embora reconheça ter avaliado o negócio – e seria de fato estranho a maior companhia aérea do país não ter analisado a possibilidade da compra da Varig.

Bem, com a negativa da TAM, ou a revista Veja apresenta alguma prova documental de que a companhia não apenas fez uma oferta, mas quis pagar exatos US$ 418 milhões a mais do que os US$ 320 milhões desembolsados pela GOL (a revista foi bastante precisa na cifra, note-se), ou então abre a fonte que forneceu a informação, a fim de que as autoridades possam investigar o que seria a maior negociata da história recente do Brasil, perdendo apenas para a privataria de Sergio Motta e seus comparsas.

Caso contrário, Veja mais uma vez se desmoraliza, a exemplo do caso dos já folclóricos dólares cubanos que "financiaram" a campanha de Lula em 2002, tendo um bêbado como piloto transportador da verdadeira fortuna que teria cruzado os céus da América Latina. Hoje se sabe que a campanha de Lula realmente não precisava da ajuda do comandante Fidel - e ele provavelmente nem teria ervanário disponível para ajudar o amigão –, mas a estapafúrdia teoria foi parar na capa da revista, em uma falta não apenas de critério jornalístico, mas de senso do ridículo.

Agora, voltando ao caso da venda da Varig, a bola está com Veja. Ou a revista tem provas do que escreveu – e neste caso o governo e a TAM estão encrencados – ou pode até se especializar em publicar peças de ficção, mas convém antes advertir o distinto público.

A seguir, a matéria da Agência Estado com o desmentido da TAM.

TAM informa que não fez oferta para comprar Varig


SÃO PAULO - A empresa TAM informou hoje que analisou oportunidades de investimentos no setor aéreo e não efetuou nenhuma proposta vinculativa no caso da Varig por considerar a relação risco/retorno desfavorável. Segundo reportagem veiculada na edição desta semana da revista Veja, a TAM teria apresentado uma oferta de US$ 738 milhões pela Varig. A revista questiona, então, por que a proposta da Gol, de US$ 320 milhões, foi aceita.

O caso da Varig virou polêmica desde que a ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Denise Abreu, afirmou que a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, fez pressão a favor do fundo norte-americano Matlin Patterson e de três sócios brasileiros no processo de venda da VarigLog. O negócio violaria a legislação brasileira, que limita a 20% o capital estrangeiro nas companhias aéreas.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Alguém bebeu?

A matéria reproduzida abaixo está lá na página 4 do Jornal do Brasil de domingo, 8/6/08, para quem quiser conferir. Não, não é uma brincadeira, talvez seja apenas um ato falho de um redator que não imagina que casos de corrupção possam um dia ocorrer entre os tucanos, esses seres tão impolutos. Ou será que a governadora Yeda Crusius se filiou ao Partido dos Trabalhadores e este blog ainda não ficou sabendo?

Corrupção abala governo do PT
Yeda Crusius vai mexer no alto escalão gaúcho

São Paulo

Um escândalo de corrupção pode forçar a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB), a promover alterações no primeiro escalão de sua administração. Na pior crise política de seu governo, Yeda vê seus auxiliares mais próximos sendo envolvidos por gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal e até pelo vice-governador Paulo Feijó (DEM).

Mesmo entre aliados de Yeda, há a expectativa de que ocorram exonerações do chefe da Casa Civil, César Busatto, do secretário-geral de Governo, Delson Martini, e do secretário da representação gaúcha no DF, Marcelo Cavalcante.

A crise começou quando a PF deflagrou uma operação contra um esquema que supostamente desviou R$ 44 milhões no Departamento Estadual de Trânsito (Detran) gaúcho.

Na última quarta, a CPI instalada apresentou 34 grampos feitos pela PF. Nas ligações, acusados de participar do esquema citam Delson Martini como alguém que tinha conhecimento da fraude.

Na quinta-feira, veio a público uma carta escrita pelo empresário tucano Lair Ferst. Na carta, dirigida à governadora, Ferst fala de sua participação na campanha de Yeda e denuncia a fraude do Detran.

A crise se agravou anteontem, quando o vice-governador Paulo Feijó (DEM) entregou à deputada petista Stela Farias uma gravação de uma conversa que manteve com o chefe da Casa Civil, César Busatto, em 26 de maio. Ele liga o uso do Banrisul e do Detran – sob o respectivo controle político do PMDB e do PP– ao financiamento de campanhas eleitorais. Os dois partidos pediram a demissão do secretário. O PP se reúne hoje para discutir a permanência no governo.

O agravamento da crise levou Yeda a convocar ontem uma reunião do conselho político do governo. O porta-voz do governo, Paulo Fona, anunciou que a tucana gravou um pronunciamento sobre a crise que seria veiculado na noite de ontem nas emissoras de TV rádio do Estado.

Alston, Varig e Detran-RS: a seguir
as cenas dos próximos capítulos

Deixando gabrielas e chalitas de lado, o blog volta a assuntos de alguma relevância para a Nação. Há no momento três grandes escândalos em curso no país dos escândalos: primeiro, temos o Caso Alston, que envolve políticos do PSDB de São Paulo com recebimento de propinas milionárias (em dólares, é bom que se diga), pagas pela multinacional francesa Alston para obter contratos e obras no Metrô paulistano e também em outras estatais. O episódio está sendo investigado na França e na Suíça e deve ser objeto de inquérito também aqui no Brasil, embora o governador José Serra (PSDB) até agora não tenha enxergado nenhum "fato" que merecesse ser objeto de investigação. Em outras palavras, ainda que no Brasil a coisa não ande depressa, o ritmo da apuração na Europa pode ditar o escândalo.

O segundo escândalo da hora é o da venda da Varig para a Gol. Até o presente momento, o que se tem é uma denúncia da ex-diretora da Anac Denise Abreu de que o governo, mais especificamente a Casa Civil, teria pressionado a agência para que a venda da Varig saísse de acordo com o que supostamente advogava Roberto Teixeira, o causídico compadre do presidente Lula, que pelo serviço teria recebido a bagatela de R$ 5 milhões. Mais ainda, segundo a revista Veja, a TAM teria feito uma oferta bem melhor, de US$ 738 milhões contra os US$ 320 milhões pagos pela Gol, ou seja, estariam "sobrando" US$ 418 milhões. Bem, neste caso, o próximo capítulo já está marcado e é o depoimento de Denise Abreu na Comissão de Infra-Estrutura do Senado, na quarta-feira. Se ela confirmar o que já disse ao jornal O Estado de S. Paulo, o caso tende a se transformar em um problemão para o governo, do contrário, a coisa toda não vai passar de mais um episódio para animar os afoitos oposicionistas, mas sem maiores conseqüências práticas. Ademais, é preciso que a TAM confirme que estava disposta a pagar os tais R$ 738 milhões pela Varig. Se houver desmentido, a revista Veja mais uma vez estará desmoralizada.

O último caso, mais regional, envolve o governo de Yeda Cruisius (PSDB) no Rio Grande do Sul. Eleita para ser uma vitrine da modernidade tucana, Yeda realiza um dos mais desastrados governos estaduais da história gaúcha. Em menos de um ano e meio, a governador já rompeu com o seu vice e assistiu a uma série de denúncias de corrupção envolvendo o primeiro escalão da administração estadual. O caso da "arrecadação de fundos" para campanha com origem no dinheiro público do Dentran gaúcho é uma aberração, ainda maior se se considera que o denunciante é o vice-governador do Estado. O governo de Yeda acabou antes de começar e é muito difícil que ela se recupere até 2010. Pode até não sofrer impeachment, mas jamais a analogia do "pato manco" foi tão apropriada a alguém do que a Yeda Cruisius.

Ainda sobre o acadêmico Chalita

Impossível não reproduzir aqui a mensagem que o leitor Jasson Andrade enviou ao blog, por e-mail, comentando a nota anterior, sobre a candidatura do ex-secretário Gabriel Chalita a integrante da Academia Brasileira de Letras. Como se pode verificar abaixo, a cada dia que passa o nome de Chalita ganha mais força...

"Chalita merece ser eleito para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Zélia Gatai. Ele é autor de uma obra prima: a biografia da esposa de Geraldo Alckmin. Obra prima esta que me faz lembrar outra: O PUXA-SAQUISMO AO ALCANCE DE TODOS - CARTILHA DA PUXAÇÃO SEM MESTRE, de Nestor de Holanda (Editora Letras e Artes, 1963)."

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Acredite se quiser

Gabriel Chalita, o ex-secretário da Educação de São Paulo na gestão de Geraldo Alckmin, se movimenta para conquistar a vaga de Zélia Gattai na Academia Brasileira de Letras. O pior é que dizem por aí que o rapaz pode até ganhar...

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Serra vs. Alckmin: o que dói é a grana

Mais de um jornal já publicou a história da lista de apoio à tese da coligação entre PSDB e DEM na capital paulista, que estaria sendo patrocinada pelo governador José Serra para detonar, na Convenção do dia 22 de junho, as pretensões de Geraldo Alckmin de ser o candidato tucano nas eleições de outubro. Sim, a tal lista existe, mas dela não reclamam os alckimistas, seguros da maioria que possuem para a indicação do candidato. Nos bastidores tucanos, a maior reclamação é sobre a pressão de Serra em outra seara - a do financiamento da campanha. Tucano nenhum admite em público, mas "off the records" os aliados do ex-governador Geraldo Alckmin explicam que José Serra mandou "secar a fonte": empreiteiro com obra na prefeitura ou governo do Estado que der o din-din para Geraldo vai para o fim da fila no que tem a receber da administração pública paulista e paulistana. É, digamos assim, um jogo bruto, típico de quem pensa que o lugar do corpo humano que mais dói é mesmo o bolso. Ou seja, típico de José Serra.

Falando em dinheiro, o esperto blogueiro James Akel reparou que Alckmin anda dizendo nos últimos dias que a cidade de São Paulo está "muito escura", em uma óbvia sinalização de que, uma vez eleito prefeito, o ex-governador poderá abrandar a legislação do Cidade Limpa de Gilberto Kassab. Ora, conclui Akel, esse discurso tem destinatário certo: as empresas de mídia externa, um dos ramos que sobraram para o valente Geraldo passar o chapéu e obter fundos para a sua campanha.

A soma de tudo isto é muito simples. Vença Alckmin ou vença Serra no próximo dia 22, o PSDB já começa a corrida eleitoral deste ano com um racha gravíssimo, que pode até deixar sequelas para o processo interno de escolha do candidato a presidente em 2010. Marta Suplicy e o presidente Lula agradecem...

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Dilma, Denise e Zé

Certas coisas que acontecem na política parecem coincidências e são mesmo coincidências. Outras parecem, mas não são. No início deste ano, um funcionário da Casa Civil da Presidência da República, indicado pelo ex-ministro José Dirceu, vazou um suposto dossiê sobre os gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Pegou mal para a chefe do funcionário, a ministra Dilma Rousseff, que teve até que explicar o caso no Senado, em uma sessão que acabou servindo de palanque para a ministra, tamanha a incompetência da oposição em argui-lá. Hoje, o jornal O Estado de S. Paulo publica uma nova denúncia contra Dilma, desta vez partindo da ex-diretora da Anac Denise Abreu, sobre uma suposta operação coordenada pela chefe da Casa Civil para beneficar a Varig e Roberto Teixeira, advogado da companhia e compadre do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Bem, adivinhe o leitor de quem foi a indicação de Denise Abreu para a Anac? Ganhou um doce quem pensou no ex-ministro Zé Dirceu. É claro que pode ser tudo coincidência, ainda mais considerando que Dilma se posicionou favoravelmente à fusão da Brasil Telecom com a Oi, um negócio meio aborrecido para a concorrência, especialmente a Claro, controlada pela Telmex de Carlos Slim, um dos principais clientes do consultor José Dirceu... Um dia alguém ainda vai contar essas histórias direito.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Eleição paulistana: quadro inalterado

Abaixo, matéria da Folha Online com os números da nova pesquisa Ibope sobre o cenário eleitoral em São Paulo. Em resumo, Marta Suplicy (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) seguem na frente, tecnicamente empatados, Gilberto Kassab (DEM) come poeira, em terceiro lugar. Se continuar assim, o prefeito só tem chances se reeleger caso Alckmin desista de concorrer. O governador José Serra (PSDB) deve saber bem disto, o que explicaria as desesperadas manobras de bastidores para tirar seu correligionário do páreo em favor de Kassab, candidato do coração de Serra. A cada pesquisa, porém, Alckmin fica mais forte e os defensores da aliança, mais emparedados.

Marta e Alckmin lideram disputa pela Prefeitura de São Paulo, aponta pesquisa

THIAGO FARIA

A ministra do Turismo, Marta Suplicy (PT), está tecnicamente empatada em primeiro lugar com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) na corrida à Prefeitura de São Paulo. Segundo pesquisa Setcesp/Ibope divulgada nesta terça-feira, Marta tem 30% das intenções de voto, contra 28% de Alckmin. A margem de erro da pesquisa é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos.

Em terceiro lugar está o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), com 13% das intenções de voto.

A pesquisa mostra ainda Paulo Maluf (PP) com 9% e Luiza Erundina (PSB) e Soninha Francine (PPS) empatadas com 3%.

O Ibope ouviu 602 pessoas entre os dias 27 e 29 de maio.

Segundo turno

Num eventual segundo turno entre Alckmin e Marta, o tucano aparece com vantagem sobre a petista, com 50% das intenções de voto. Marta tem 40%.

Num outro cenário, em que Marta disputa o 2º turno com Kassab, a petista venceria as eleições com 47% das intenções de voto, contra 38% do democrata.

Já se a disputa fosse entre Alckmin e Kassab, o tucano teria 56% das intenções de voto, contra 25% do democrata.

Datafolha

A última pesquisa do Datafolha, divulgada em 18 de maio, também mostra que Marta Suplicy e Geraldo Alckmin estão tecnicamente empatados na liderança da corrida pela Prefeitura de São Paulo. Marta tem 30% e Alckmin, 29%.

Foram feitas 1.087 entrevistas, no dia 15 de maio, com margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos.

Com 15%, Kassab aparece na terceira colocação. Ainda de acordo com a pesquisa, Maluf tem 8% e Erundina, 5%.

Tucanos e o malufismo: mesmos métodos

O PSDB nasceu em 1988 com um discurso "ético" - seus impolutos líderes estariam abandonando o PMDB por não compactuar com os supostos métodos heterodoxos de administrar do então governador de São Paulo Orestes Quércia. Na verdade, sabe-se hoje que a heterodoxia de Quércia foi limitar o espaço dos caciques José Serra, Fernando Henrique, Mario Covas e Franco Montoro no governo do estado. Montoro e Covas, especialmente, abraçaram a questão da "ética na política" e fizeram da lisura e honestidade no trato da coisa pública uma verdadeira bandeira eleitoral.

De fato, sobre Franco Montoro jamais se ouviu qualquer tipo de referência a deslizes nesta seara - chegou a demitir o filho Eugênio de uma secretaria estadual quando foi governador de São Paulo.

Já sobre Mario Covas o Caso Alston começa a mostrar que as coisas não se deram tão etica e honestamente quanto os paulistas imaginavam. Ao contrário: o que se vê a cada nova revelação – além do Metrô, as propinas pagas aos secretários e integrantes do primeiro escalão da administração Covas/Alckmin envolveriam também a Eletropaulo e várias outras estatais –, é a persistência de um método que a vida inteira os tucanos atribuíram ao hoje deputado Paulo Salim Maluf, ex-governador do estado e ex-prefeito da capital, qual seja o de cobrar das empresas privadas "caixinhas" para "agilizar" a liberação de verbas ou mesmo a vitória das tais empresas em licitações públicas. Covas algumas vezes enfrentou Maluf nas urnas e não se envergonhou de bradar em alto e bom som que seu adversário seria um "ladrão" dos cofres públicos e rematado corrupto. Agora se sabe que ele e seus camaradas faziam exatamente o que diziam ser "obras de Maluf". Como diz o ditado: "macaco, olha o teu rabo"...

É bem verdade, por outro lado, que os tucanos sempre foram mestres na dissimulação – agora mesmo José Serra e Geraldo Alckmin já correram a dizer que são os primeiros a desejar o esclarecimento dos fatos e o aprofundamento das investigações. Ora, ainda que no Brasil a apuração ande devagar, a nata do tucanato está nas mãos das autoridades européias (francesas e suíças), que estão investigando o episódio.

Que a Alston pagou propina já é um fato, resta agora descobrir que recebeu e como dividiu o butim por aqui. Quem recebeu sua parcela sabe que recebeu, dinheiro não nasce em árvore, e é bastante provável que a verdade, neste caso específico, venha à tona por causa justamente das investigações européias. E engana-se quem imagina que Serra está achando tudo isto muito bom porque prejudica seu adversário interno Alckmin: se metade do que corre nos bastidores tucanos for verdade, vai sobrar para covistas, alckmistas, serristas e fernandohenriquistas, pois a farra da Alston não teria esbarrado nas briguinhas internas do PSDB. É ver para crer...

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Serra intensifica operação contra Alckmin

Os bastidores do PSDB estão fervendo neste início de semana. O "talking of the town", como gostam de dizer os sempre chiques tucanos, é a implosão da candidatura de Geraldo Alckmin à prefeitura de São Paulo, que estaria sendo articulada a todo vapor no Palácio dos Bandeirantes. O chefão José Serra já teria ordenado o "delenda Alckmin" e a idéia e vencer no voto, na Convenção do partido, aprovando a coligação com o prefeito Gilberto Kassab (DEM), candidato à reeleição. Claro que o governador tem o poder da caneta, mas é bom não subestimar a tenacidade e persistência de Alckmin. Em 2006, ele deu show e bateu Serra na disputa interna do partido. Qualquer que seja o resultado, a ser conhecido ainda neste mês, o desgaste do racha no PSDB será muito maior do que se imagina por aí, com ampla possibilidade de um novo partido surgir depois das eleições deste ano.

domingo, 1 de junho de 2008

E o Caso Alston?

Já que o assunto é a coluna do competente e sério Carlos Eduardo Lins da Silva (ver nota abaixo), fica uma sugestão para a próxima semana: comparar a cobertura da Folha com a de O Estado de S. Paulo no chamado Caso Alston - a investigação que começou na Europa sobre as propinas pagas pela empresa francesa para obter bons contratos de obras na América Latina entre o final da década de 90 e o início do novo século. Como se sabe, o caso é especialmente constrangedor para o PSDB, pois o tal dinheirinho da Alston, que não foi pouco, veio molhar a mão dos tucanos que governavam São Paulo e o Brasil na época. Até o ex-genro de Fernando Henrique Cardoso teria levado o seu... Até agora, O Estado de S. Paulo vem fazendo uma cobertura bastante rigorosa e saiu na frente da concorrência com alguns bons furos de reportagem. A Folha tem mantido uma discrição talvez até exagerada para um jornal que se vangloria de não ter o "rabo preso" com ninguém. Ao longo desta próxima semana, fatos novos devem surgir e será possível analisar melhor o comportamento dos jornalões paulistas. Assunto, é claro, para o ombudsman...

Ombudsman da Folha concorda: jornal
errou na manchete sobre doações ao PT

O novo e competente omubdsman do jornal Folha de S. Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, comentou em sua coluna deste domingo a vergonhosa manchete e o desastrado enfoque dado nas páginas internas às reportagens sobre doações de grandes empresas ao PT e ao PSDB, publicadas na última segunda-feira. Este blog comentou o assunto no mesmo dia em que a Folha estampava a prova de sua tendenciosidade, mostrando como o jornal se atrapalhou inclusive ao fazer as contas da suposta "rentabilidade" para as empresas das doações feitas ao PT. Na verdade, conforme este blog alertou e o ombunsdman confirma na coluna de hoje (reproduzida abaixo), pelo critério adotado na matéria da Folha, seria muito mais negócio fazer doações ao PSDB.
A seguir, a íntegra do texto de Carlos Eduardo Lins da Silva.

Doações a partidos

Em minha opinião e na dos 14 leitores que se manifestaram sobre o assunto ao ombudsman a reportagem que a Folha publicou na segunda sobre doações a partidos colecionou equívocos.
Ela mostra, com tom de denúncia, que grandes empresas que fizeram doações ao PT em 2007 receberam por serviços prestados ao governo federal no segundo mandato do presidente Lula quantia 54 vezes maior do que a doada.
As doações foram legais e são públicas. O jornal, ao questioná-las, pode passar a impressão de não aprovar esse tipo de operação prevista na legislação. Não preferirá, de certo, que se faça uso de caixa dois e de clandestinidade.
Por serem grandes empresas, é natural que elas viessem a receber grandes contratos do governo federal. Se as licitações e concorrências que venceram também não apresentam irregularidades, não há razão para espanto.
Em todos os países em que doações a partidos políticos são permitidas pela lei, é comum que grandes corporações as façam a todas as agremiações políticas em condições de chegar ao poder. No Brasil, não é exceção.
Tanto é assim, que em retranca separada e menor, não mencionada na capa, o jornal registrou que ao menos algumas das mesmas empresas também doaram ao PSDB e receberam por serviços prestados aos governos de São Paulo e Minas Gerais.
O mais estranho é que quem se dispôs a fazer as contas descobriu que a relação entre o doado e o recebido no caso do PSDB é muito maior do que no caso do PT. Mas o destaque tanto na primeira página quanto nas internas foi para as doações ao PT.