segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Feliz 2008 e obrigado pela audiência

As estatísticas de acesso ao blog informam que dezembro de 2007 está fechando com o dobro da audiência do último mês do ano passado. O autor destas Entrelinhas agradece pela companhia e deseja aos leitores um excelente 2008. Será um ano interessante, com eleições nos EUA e no Brasil e uma grande incógnita a respeito do que vai ocorrer na economia mundial. Para os leitores do blog, segue abaixo o artigo semanal para o Correio da Cidadania, um rápido balanço, bastante incompleto, do que de importante ocorreu em 2007. Tenham todos uma ótima virada de ano, com muita alegria, saúde e paz.

2007: economia sustenta o governo Lula

O ano de 2007 foi extremamente positivo para o Brasil, se o olhar do analista se dirigir à economia nacional. O resultado final do crescimento do Produto Interno Bruto do país ainda não saiu, mas as estimativas mais pessimistas já são de algo em torno de 5% em relação a 2006, podendo ser até maior. A taxa de juros básica (Selic) ainda é muito alta, mas é a menor em 30 anos, em termos reais, e a mais baixa da história, em termos nominais. O desemprego nacional atingiu em novembro a menor taxa desde que o índice começou a ser medido pelo IBGE e deve fechar o ano na casa dos 7% da população economicamente ativa. As vendas de Natal refletiram tudo isto e o comércio varejista projeta um crescimento recorde, de cerca de 10% em relação ao ano anterior, o que faz deste o melhor Natal dos últimos 10 anos.

Como esta coluna tem reiterado, é a economia que sustenta a altíssima popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que também fechou o ano com aprovação recorde, em um patamar superior aos 60%, fazendo com que ele mantenha o capital político que conquistou na reeleição, em 2006, quando bateu Geraldo Alckmin (PSDB) nas urnas por exatos 60,83% dos votos válidos contra 39,17% do tucano.

Falando em taxas, a coisa parece um pouco abstrata. Ademais, o Brasil já cresceu bem mais em outros períodos sem que isto se revertesse em benefícios para a população mais pobre e carente. Não é o que parece estar acontecendo agora. Em números reais, o fato é que, desde a posse de Lula em 2003, 20 milhões de brasileiros migraram das classes D e E da população para a C. É muita gente. Continuam pobres, mas já não são miseráveis. O aumento do crédito tem deixado muitos brasileiros cheios de dívidas, mas tem permitido aos mais pobres acesso a bens de consumo que eles teriam de outra forma, permitindo assim um salto no nível de vida dessas pessoas. Nunca se vendeu tanto eletrodoméstico, computador e até mesmo automóvel no país como em 2007, e este movimento se deveu em boa parte à política de estímulo ao crédito do governo federal.

Há dois tipos de crítica que se pode fazer à política econômica de Lula. Os tucanos, de um lado, dizem que o país está perdendo uma “janela de oportunidades” porque o Brasil poderia crescer muito mais se aplicasse a ferro e fogo o receituário neoliberal e a “boa gerência” - que para o PSDB se traduz em privatizações, corte de gastos sociais, diminuição do tamanho do Estado e uma gerência mais rígida das contas públicas. Os tucanos também adoram dizer que o governo Lula vai bem não por seus próprios méritos, mas porque a economia mundial vive um momento excepcional. Este argumento, porém, ficou bastante esquisito após a crise financeira que abalou o centro do capitalismo mundial em agosto, a partir das hipotecas de alto risco, as tais subprimes. Ao contrário do que previam as cassandras de plantão, o Brasil desta vez não foi nem de perto afetado pelo mau humor dos mercados financeiros internacionais, pelo contrário. O cenário da crise das hipotecas ainda não está totalmente claro e é possível, como veremos no próximo artigo, que os problemas se agravem no próximo ano, mas o fato é que até agora Lula e sua turma mostram bom senso frente à primeira crise internacional que enfrentaram, para grande desgosto dos seus adversários democratas e tucanos.

Por outro lado, a crítica da esquerda radical ao governo federal parte do pressuposto diametralmente oposto ao dos tucanos e democratas. Para o pessoal do PSOL, PSTU e mesmo uma parcela do PT, Lula peca por manter o modelo herdado de Fernando Henrique, o que é parcialmente verdadeiro, mas não totalmente. O grande problema desses críticos é que não apresentam alternativas ao que vem fazendo o atual governo. Até pouco tempo, por exemplo, a grande bandeira da ultra-esquerda era o “rompimento” com o FMI e a auditoria na dívida externa. Ora, o governo Lula pagou o que devia ao Fundo (e também ao Clube de Paris) e “rompeu”, sem nenhum problema, os laços com o FMI. Quanto à dívida externa, vale lembrar que hoje ela é praticamente toda do setor privado e não mais do governo. Problema mesmo é a dívida interna, sobre a qual não se ouve palavra dos críticos à esquerda.

Na política, 2007 não apresentou grandes novidades. O governo ampliou sua base no Congresso, mas se trata de uma maioria instável, como ficou provado na única votação que de fato importava, a da prorrogação da CPMF. É bem verdade que o governo não se esforçou muito, porque a perda do imposto do cheque deve ser facilmente compensada pelo aumento de outros impostos e cortes pontuais no Orçamento dos próximos anos. Aparentemente, a aposta de Lula é o PAC, ou melhor, os vários PACs, que significam obras públicas a rodo, com foco na infra-estrutura, a fim de permitir o crescimento econômico do país. Se o cenário internacional não mudar, o presidente deve continuar com popularidade alta e alguma chance de fazer o seu sucessor. A solução continuísta do terceiro mandato parece no momento estar afastada, especialmente depois do plebiscito venezuelano, mas poderá até voltar à tona se nenhum nome do PT se firmar com chances de vencer em 2010.

No campo da oposição, a única novidade de destaque em 2007 foi a atuação firme do DEM, que capitaneou o movimento contra a CPMF em meio aos titubeios do aliado PSDB. Ao lado do PSOL, à esquerda, o DEM vai se firmando como partido de oposição, após perder muitos parlamentares para a base aliada. O problema do partido é a falta de uma liderança popular para disputar com viabilidade uma eleição presidencial. No PSOL, que ainda vive uma etapa de crescimento, a questão é a demasiada dependência do partido da liderança de Heloísa Helena, que tem se posicionado de forma bastante autoritária no âmbito do próprio partido.

Na próxima semana, vamos analisar aqui as perspectivas para 2008, ano de eleições aqui e nos Estados Unidos.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Wagner Iglecias: Feliz Aniversário, feliz ano novo!

Na última colaboração do ano, o professor Wagner Iglecias brinda os leitores deste blog com uma crônica bem divertida e atual. A seguir, a íntegra do artigo:

Meu amigo Zé Paulo completa 45 anos neste 31 de dezembro. Quarenta e cinco. Hora em que qualquer um inevitavelmente olha para frente, e vê que o tempo vai encurtando. E hora em que também se olha para trás, afinal já há uma boa estrada percorrida e já há um monte de coisas do que se recordar. Zé Paulo sempre foi de esquerda, sempre foi um idealista. Sonhou a vida toda com um Brasil mais democrático e sobretudo mais justo. Era adolescente no anos de chumbo, mas foi ali, nos anos setenta, que formou sua consciência política. Desde sempre a favor dos menos favorecidos.

Na juventude tinha certa admiração pelo comunismo
soviético, apesar de achar os líderes da URSS um tanto sombrios. Ambicionava conhecer Moscou e os países da Cortina de Ferro. Encantava-se com o socialismo exótico plantado em plena Cuba e tinha uma ponta de desconfiança de que a China legada ao mundo por Mao ainda seria
uma potência um dia. Flertou com o PCB mas encantou-se, de paixão, com aquela mescla estranha e com um frescor tão diferente representada pelo encontro de lideranças de movimentos sociais, católicos progressistas,
sindicalistas independentes e intelectuais de esquerda surgida no comecinho da década de oitenta.

Sim, Zé Paulo abraçou imediatamente o PT como seu partido político de coração. Era daqueles que vendiam estrelinhas e camisetas em época de eleição para ajudar na arrecadação de fundos para campanha. Montava
barraquinha nos comícios do PT, puxava as palmas e o coro nas músicas de artistas populares que tocavam antes dos discursos dos líderes do partido. Comprava briga com quem quer que fosse que criticasse o nível de escolaridade de Lula ou as veleidades socialistas do petismo. Não se importava em ser considerado o chato de plantão nos almoços de domingo com a família, quando tentava convencer parentes e amigos de que a vida só melhora pelo caminho da política e tentava conquistar seus corações e suas mentes para a novidade representada pelo partido da estrelinha.

Hoje encontro o velho Zé Paulo com os cabelos e a barba já parcialmente grisalhos. Ele já tem filhos adolescentes, sendo que a filha mais velha nasceu naquele épico e ao mesmo tempo trágico ano de 1989, quando Lula
flertou com a presidência da República mas acabou derrotado na undécima hora por Fernando Collor de Mello. Zé mostra certo desapontamento com o desinteresse dos filhos por política. Diz que de assuntos públicos eles
se interessam, no máximo, pela discussão sobre meios de preservação do meio-ambiente. E nada mais. Não empunham bandeiras a favor ou contra nada ou ninguém e estão plenamente inseridos na sociedade de consumo. Zé
no fundo não compreende a atitude, mas resigna-se. Assim como resignou-se quando soube que as campanhas eleitorais do partido, para se tornarem vitoriosas, deixaram de ser fazer com camisetas e estrelinhas.

Mas Zé tenta mostrar-se otimista, especialmente nestas épocas de final de ano. Fala com orgulho do Bolsa-Familia, lembra que milhões de brasileiros estão saindo da miséria. Chama a atenção para a explosão de consumo que está ocorrendo na classe média baixa e cita Lula como o presidente mais popular do Brasil desde Getúlio Vargas. Mas fica desconcertado quando se lembra dos lucros recordes dos bancos ou até mesmo do boom da Bolsa de Valores, termômetro de uma economia ancorada na força de empresas privadas e símbolo do modelo capitalista. Quando
olha para si Zé se lembra da forma como olha os próprios filhos. Mal compreende a si mesmo, mas resigna-se a aprovar um governo tão diferente daquele do sonho socialista que ele acalentou um dia.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A culpa de Lula e as mortes nas estradas

O Natal de 2007 já é passado – segundo os lojistas, o melhor dos últimos 10 anos, do ponto de vista das vendas, obviamente – e os jornais chegam às bancas e casas dos assinantes magrinhos, com pouca notícia. O incêndio no Hospital das Clínicas, em São Paulo, rendeu boas fotos nos dois diários paulistas e os acidentes nas estradas também foram bastante explorados em função do "aumento recorde" deste tipo de tragédia. Sobre o incêndio, há pouco a comentar e desde já o blog garante que não foi culpa do governador José Serra (PSDB), embora alguns digam que ele é tão azarado que nem no Natal consegue alguns momentos de paz...

Sobre o aumento das mortes nas estradas, porém, vale a pena ler o comentário reproduzido abaixo, do jornalista Luciano Martins Costa, do Observatório da Imprensa. Este blog concorda com o argumentos e arremata: a culpa, neste caso, é mesmo do presidente Lula, como os jornalões marotamente insinuam, mas não pelas razões que eles apresentam. A culpa é de Lula porque em seu governo o país vem crescendo ano a ano, o que é muito bom, mas não deixa de provocar alguns problemas também graves. As estradas estão mais entupidas, os aeroportos estão cada vez mais lotados – sim, até o povão está tomando avião, para horror de uma certa classe média preconceituosa e invejosa que temos no Brasil. Essas coisas, no fundo, são como as dores do parto. A seguir, o lúcido texto de Luciano.


Guerra nas estradas

Mais uma vez, como acontece todos os anos, os jornais do dia 26 de dezembro trazem as estatísticas das mortes nas estradas brasileiras.

E a cada ano os números se tornam mais impressionantes.

Hoje, os jornais publicam uma avaliação parcial da Polícia Rodoviária Federal: foram 134 mortos em acidentes desde a meia-noite de sexta-feira até as 6 horas da manhã de ontem.

É bem provável que tenhamos tido, pela primeira vez, um Natal com mais mortes do que as que ocorrem no carnaval.

O balanço final será divulgado hoje, mas os dados parciais antecipados pelos jornais mostram que o número de vítimas fatais chega a ser quase 78% superior ao das ocorrências do Natal de 2006.

É a pior estatística dos últimos quatro anos, e pode ser ainda mais grave, já que ainda não haviam sido contabilizadas as ocorrências do último dia do feriado.

Segundo autoridades citadas pelo Estado de S.Paulo e a Folha, a principal causa de acidentes continua sendo a imprudência dos motoristas.

Mas o sucesso do modelo econômico adotado no Brasil tem grande relação com a tragédia.

O Estadão observa que 2007 foi o ano em que dois fatores ligados à economia aumentaram os riscos nas estradas.

O primeiro deles é a venda recorde de automóveis – foram 3 milhões de novos veículos colocados nas ruas e estradas neste ano, considerado o melhor resultado da indústria automobilística em toda a sua história.

O outro fator de risco é o aumento do consumo em geral, que provoca uma elevação na estatística de transporte de produtos industrializados e grãos pelas rodovias.

A receita da tragédia é a convivência de muito mais automóveis com muito mais caminhões, cada um deles dirigido por um motoristra apressado, nem sempre preparado e quase sempre convencido de que dificilmente será apanhado pela polícia.

Os jornais têm dado destaque todos os anos às estatísticas dos desastres, assim como têm sabido comemorar os feitos da economia.

O que parece estar faltando é relacionar uma coisa com a outra.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Um duelo improvável

O que vai abaixo é o artigo semanal do autor destas Entrelinhas para o Shopping News, encarte do DCI que circula às sextas-feiras. Em primeira mão para os leitores do blog.

O ano de 2007 vai chegando ao final e os políticos brasileiros já estão pensando no que de mais importante acontecerá no país em 2008: as eleições municipais, que mais uma vez servirão de prévia para a disputa que de fato importa, dois anos depois, em 2010, quando o Brasil poderá ter a primeira eleição presidencial sem a presença de Lula desde a redemocratização.

O voto de mais de 100 milhões de eleitores no ano que vem servirá para que a classe política avalie com mais precisão o humor dos brasileiros e comece a se preparar para 2010. É bem verdade que nem sempre o resultado das urnas do pleito municipal se reflete nas eleições gerais seguintes. Em 2004, por exemplo, quando Marta Suplicy (PT) perdeu para José Serra (PSDB) o comando da capital paulista, muita gente dizia que o tucano seria imbatível na corrida presidencial de 2006. Pois não foi que Serra nem conseguiu a legenda e teve que se contentar com a disputa pelo governo paulista?

De toda maneira, mais uma vez a eleição paulistana será determinante para os rumos da sucessão presidencial. Ninguém sabe, oficialmente, quais serão os candidatos e os institutos de pesquisa têm realizado simulações com três cenários. No primeiro, Alckmin é o candidato do PSDB, Marta concorre pelo PT e o prefeito Gilberto Kassab (DEM) disputa a reeleição. Neste caso, as enquetes têm mostrado que Marta tem uma ligeira vantagem sobre Alckmin no 1° turno e que Kassab fica na terceira posição, 10 pontos percentuais abaixo dos líderes, com cerca de 15%. É preciso levar em conta que Kassab vem subindo nas pesquisas e Alckmin, caindo.

Nos dois outros cenários, os pesquisadores retiram ora Alckmin, ora Marta da disputa. Nesses casos, o candidato que permanece fica com uma liderança folgada e Kassab chega a ser ultrapassado por Maluf (PP) e/ou Erundina (PSB). Ainda é cedo para fazer previsões, mas esta coluna não acredita em uma disputa com Alckmin e Marta, pois o risco seria grande demais para dois caciques de seus partidos. Resta saber quem vai piscar primeiro e deixar a disputa.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Jornalismo e (falta de) sensibilidade

Vale a pena ler o comentário abaixo, do jornalista Luiz Weis, no blog Verbo Solto:

Uma atrocidade e duas notícias

A banalidade do mal é um problema para a imprensa. Se o homicídio fosse uma raridade, cada caso seria manchete. Em São Paulo, faz pouco, houve um dia sem uma única morte violenta. Foi notícia.

Agora, para virar notícia de chamar a atenção, um crime precisa ser distinto – literalmente. Essa, pelo menos, é a lógica do jornalismo “que vende”.

Por esse critério, violência polícial é notícia velha. Que pode haver de essencialmente novo na história de um adolescente preso por suspeita de roubo e que aparece morto – a choques elétricos?

Nada, deve ter raciocinado quem decidiu reduzir a 11 linhetas, na seção de pirulitos Pelas Cidades, do Estado de hoje, a história de Carlos Rodrigues Júnior, 15 anos, morto pela PM na madrugada de sábado, em Bauru, no interior paulista.

Mas a repetição dos horrores do gênero não embotou a sensibilidade dos editores da Folha, que deram meia página à atrocidade, na abertura da seção Cotidiano, com chamada na primeira página.

É de rasgar o coração, a propósito, a pequena foto que acompanha a reportagem – o retrato de um menino (com 12 anos à época), sorridente, olhos vivos, de bonezinho, camisa branca, gravata borboleta e jaqueta listrada.

Do álbum da vida para a morte sob tortura.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

São Serra e o apóstolo Mauro Ricardo

Este blog estava deixando passar a excelente nota do ombudsman da Folha de S. Paulo, Mário Magalhães, sobre o tratamento dispensado pelo jornal ao secretário da Fazenda do governo Serra, Mauro Ricardo Machado Costa na semana passada. A nota saiu dia 13 e se refere a uma entrevista publicada no dia anterior. Conforme atesta o ombudsman, a Folha de S. Serra dispensou ao secretário o tratamento de apóstolo. Faz sentido.

Serra, o investidor

Seguem anotações sobre a reportagem da capa de ontem de Dinheiro, "Serra prevê investir R$ 41,5 bi até 2010", e seu complemento, "Governo Lula poderia ajudar mais, diz SP" (pág. B6 de ontem):
1) O jornal não informa qual seria a origem do montante. Regra elementar na cobertura da administração pública e de campanhas eleitorais é indagar "de onde vem o dinheiro". O secretário da Fazenda se pronuncia apenas sobre a fonte de parcela do investimento prometido.
2) A gestão anterior em São Paulo foi "Alckmin-Lembo", relata a Folha. Por que o jornal não informou a que partidos eles pertencem?
3) Por que o jornal não informou que José Serra é pré-candidato à Presidência? Não se trata de formalismo, mas de fato essencial à compreensão do contexto em que os vultosos e bem-vindos investimentos são alardeados.
4) Por que não informou sobre a liderança de Serra em pesquisa Datafolha publicada no domingo? É dever do jornal contar que o gestor que divulga boa notícia pode se valer dela, o que é legítimo, para ir mais longe na carreira.
5) O governo Alckmin aparece mal. Por que o jornal não informou que Alckmin, com seu "choque de gestão", foi apoiado por Serra à Presidência da República um ano atrás?
6) Por que Alckmin não foi procurado para responder?
7) A fotografia do secretário Mauro Ricardo Machado Costa olhando para cima não poderia ser mais simpática ao entrevistado. Dá a entender que ele pertence a um governo que "mira para o alto". É uma opinião tão legítima como qualquer outra, mas não cabe se associar a ela em espaço noticioso.
8) A frase destacada para o "olho" talvez fosse a mesma opção da assessoria de imprensa do governo: "Este ano foi de ajuste. Quando chegamos aqui, não imaginávamos que deveríamos alavancar tantos recursos para investimentos".
9) Na introdução às declarações, há referência a "temas discutidos" com o secretário. Não parece ter havido discussão, apenas audição. O jornal se limitou a imprimir sem espírito crítico o que o secretário falou.
10) A crítica de Costa ao governo federal, na pág. B6, exigia "outro lado", a considerar a tradição do jornal e as recomendações do Manual da Redação.
11) O jornal não publicou um senão ou porém às afirmações do secretário.
12) Para refletir: Costa dá a entender que o governo Alckmin era no mínimo incompetente; não foi essa a impressão deixada pela cobertura que a Folha fez da antiga administração. Se o jornal não estava errado, por que não contestou o colaborador de Serra?
13) Não cabe a jornalistas bater boca com entrevistados. Mas também não é seu papel reproduzir a parolagem oficial sem questioná-la.
14) Eis o verbete "jornalismo crítico" do Manual: "Princípio editorial da Folha. O jornal não existe para adoçar a realidade, mas para mostrá-la de um ponto de vista crítico".

Como manipular uma notícia

Manchete do UOL na manhã desta segunda-feira:

Vendas no varejo do país têm primeira queda do ano

O que diz o lide da reportagem:

As vendas do comércio varejista brasileiro declinaram 0,2% em outubro ante setembro, registrando a primeira taxa negativa do ano, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta segunda-feira. Na comparação com outubro do ano passado, as vendas no varejo brasileiro avançaram 9,6%.

A chamada do UOL para a tal "primeira queda do ano" é uma bobagem, uma vez que outubro foi um mês com praticamente três feriados e muito menos dias úteis do que setembro. Tanto a tal queda é um ponto fora da curva que a comparação com outubro do ano anterior as vendas no varejo avançaram quase 10%. Em geral, para se medir o que ocorre na economia, a comparação usada é a com o ano anterior. Mas se a idéia é deixar o governo mal na fita, como dizem os jovens, aí o melhor é sempre pegar o número que se encaixe melhor à tese que se quer provar. Jornalismo marrom é isto aí...

PS: dois leitores fazem correções justas a esta nota. Primeiro, é correto dizer que outubro teve dois úteis a mais do que setembro, embora os feriados certamente tenham esvaziado as vendas nos dias úteis enforcados e vésperas. Outro leitor adverte que evidentemente não há "curva fora do ponto", mas ponto fora da curva, o que já foi corrigido. No mais, a manipulação aconteceu e temos dito.

Reprovação ao governo Kassab
sobe, Geraldo Alckmin comemora

A pesquisa divulgada hoje na Folha de S. Paulo na qual o instituto do jornal verificou o crescimento da rejeição ao governo do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), é mais uma boa notícia para o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). A cada dia que passa fica mais difícil para o tucano evitar a disputa eleitoral no ano que vem, tamanhas são as chances de sucesso, tanto contra a ministra Marta Suplicy (PT) quanto contra o prefeito Kassab. Com Alckmin na disputa, perde o governador José Serra, partidário de uma aliança em torno de Kassab, e cordial inimigo de Alckmin no PSDB. No fundo, vai ser interessante acompanhar a campanha eleitoral do ano que vem se Geraldo Alckmin e Gilberto Kassab de fato se enfrentarem, o que está se tornando o cenário mais provável. Ainda mais porque o eleitorado de esquerda da capital certamente procurará um candidato alternativo, é difícil imaginar um segundo turno entre dois conservadores, o que deve trazer ainda mais emoção à disputa.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Crônica de uma derrota anunciada

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o Shopping News, encarte do DCI que circula às sextas-feiras. Em primeira mão para os leitores do blog:

O governo federal sofreu nesta semana a sua maior derrota neste ano em votações no Congresso Nacional. Na madrugada de quinta-feira, os senadores derrubaram a emenda que prorrogaria até 2011 o imposto do cheque. De nada adiantou a malandra proposta do governo, apresentada no último minuto do segundo tempo, contendo concessões ao PSDB, nem tampouco a tentativa do senador Pedro Simon (PMDB-RS) de ganhar mais algumas horas para a negociação da matéria: na soma geral, os articuladores políticos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva só conseguiram mesmo 46 votos (o presidente do Senado, governista, não votou).

Na verdade, o que se viu ontem foi um festival de incompetência da parte do governo. Pelo menos 4 dos 13 senadores tucanos gostariam de votar pela prorrogação da CPMF, pressionados pelos governadores José Serra e Aécio Neves, e só precisavam de uma boa desculpa para mudar de lado. O governo, porém, não conseguiu apresentar nem isto, pois, como demonstrou o senador Tasso Jereissati, a carta-compromisso enviada para a apreciação do plenário não continha nem sequer aquilo que o líder Romero Jucá prometeu em seu discurso.

Se realmente quisesse aprovar a prorrogação do imposto do cheque, o governo deveria ter negociado a proposta logo no começo da tramitação no Senado, porque era evidente a má-vontade da oposição em aprovar a matéria e dar ao presidente Lula mais recursos neste segundo mandato.

De positivo para o governo resta apenas o fato de que o presidente não recorreu ao balcão de negócios que torna este tipo de votação uma verdadeira corrida dos parlamentares em direção a cargos e recursos públicos. Lula não nomeou o filho do senador Romeu Tuma, não “virou” os votos dos parlamentares da base que posicionavam contra a CPMF. Se o imposto do cheque tivesse sido aprovado, esta legislatura teria terminado precocemente, pois nada de relevante seria votado até 2010. Agora, o país ganhou a chance de discutir de verdade a reforma tributária. Isto também é bom.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

FHC manda, Arthur Virgílio obedece

O senador tucano Arthur Virgílio (AM) está tendo papel fundamental na tramitação da Emenda que prorroga a CPMF. Se não fosse ele, os governadores José Serra e Aécio Neves já teriam conseguuido convencer metade da bancada a votar pela prorrogação do imposto do cheque. A postura belicista de Virgílio tem nome e sobrenome: Fernando Henrique Cardoso. Virgílio mesmo, coitado, não passa de um fantoche. Quem está no comando da operação é o ex-presidente, hoje um adepto incondicional do "quanto pior, melhor" para o governo Lula.

Jorge Rodini: o surfista Lula

Em mais uma colaboração para o blog, Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia de pesquisas, dá um rápido pitaco sobre a pesquisa divulgada hoje pela CNI e realizada pelo Ibope, que aponta um aumento na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que atingiu o maior nível de 2007. Ou seja, o que já era alto ficou enorme. Leia a seguir a análise de Rodini:

Com a divulgação de mais uma pesquisa CNI/Ibope fica evidente a facilidade com que Lula surfa nas ondas de sua popularidade.

O presidente usa parafina para manter a prancha de seu governo embicada e ágil. Seu pífio ministério, com honrosas exceções, abriga até um aloprado. Lula usa e abusa de frases de efeito, com defeitos que só a mídia enxerga, mas não propaga.

Em seu caminho terceiro-mandatista, Lula não tem quem o contraponha.Seus adversários se esgoelam para evitar a prorrogação da CPMF, mas se deixam manipular de maneira até amadora.

A aprovação de Lula é o sim de quem nada tinha. E também de quem não tem a quem recorrer. O presidente sabe muito bem disto e assim surfa em águas calmas sem que ninguém tenha a devida competência para criar marolas.

Da série "esqueçam o que escrevi"

A nota abaixo saiu na Folha de S. Paulo de hoje. O jornalista é bom, mas as fontes não ajudaram... O mercado errou e uma diferença dos 4,8%, na melhor das hipóteses de crescimento reportadas por Guilherme Barros, para os 5,7% realmente apurados pelo IBGE vai uma enormidade. Ademais, com o resultado divulgado hoje o Brasil já está bem mais próximo de um crescimento anual de 6% em 2007 do que "algo próximo a 5%", como escreveu o colunista da Folha. A seguir, a nota que Barros publicou:

Mercado Aberto

GUILHERME BARROS

O PIB do terceiro trimestre, a ser divulgado hoje pelo IBGE, manteve a aceleração do segundo trimestre e deve ter crescido entre 4,4% e 4,8% em relação a 2006, segundo projeções do mercado. Já em relação ao segundo trimestre, o PIB deve ter se expandido entre 1,1% a 1,4%.
Esses números reforçam a tese do governo de que o país deve crescer mesmo este ano algo próximo a 5%. A expectativa é que o quarto trimestre deva vir ainda mais forte do que o terceiro, principalmente diante do resultado recorde da indústria de outubro.

PIB cresce 5,7% e aprovação a Lula sobe

Esta notícia: "Economia PIB no 3º trimestre cresce 5,7% em relação a 2006" explica esta outra: "Avaliação positiva do governo Lula sobe três pontos e é a maior do ano".

Os dois links são de matérias que estão na capa do UOL. No caso do PIB de 2007, a manchete não informa, mas foi o maior crescimento desde 2004. A relação entre os fatos é tão óbvia que dispensa comentários.

Acordo entre Temporão e Serra pode
garantir a aprovação do imposto do cheque

O dia D da prorrogação da CPMF pode ser mais fácil para o governo do que muita gente imagina. Se os tucanos toparem os termos acordados entre o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), a emenda que posterga até 2011 a cobrança do imposto do cheque vai passar com pelo menos meia dúzia de votos de senadores tucanos, aliviando a estreita margem com a qual a base aliada estava operando.

Pelo que teria sido acordado, o governo se comprometeria a gastar tudo que for arrecadado com a CPMF no setor de Saúde. Em troca, o PSDB vota a prorrogação. Qual a garantia dada aos tucanos? A palavra de Temporão e Lula. Não há como carimbar a verba, de forma que na verdade tudo não passa de um acerto para que o próximo presidente, que Serra imagina ser ele próprio, não pegue a casa bagunçada e comece o governo com dinheiro em caixa. No fundo, o PSDB precisava de uma desculpa. Agora o partido avalia se a desculpa que Serra arrumou vai colar ou se o povão acabará entendendo que os tucanos não são mesmo de nada...

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Governo agora mobiliza a base aliada
para votar hoje a prorrogação da CPMF

Está quente o clima em Brasília. Horas depois de aventar deixar para a próxima semana ou mesmo para o próximo ano a votação da prorrogação da CPMF, os governistas têm dito nas últimas horas que a votação vai começar hoje mesmo, logo mais. Pode ser um blefe, mas também pode ser que o governador José Roberto Arruda (DEM-DF) tenha conseguido para Lula os votinhos que estavam faltando. Os dois tomaram café da manhã juntos nesta terça-feira.

Morte de governador pode adiar para
a próxima semana a votação da CPMF

O falecimento do governador de Roraima, Ottomar Pinto (PSDB), agora pouco, em Brasília, pode acarretar em um adiamento para a próxima semana da votação da Emenda que prorroga o imposto do cheque até 2011. O governo estava atrás e conseguiu uma boa desculpa para adiar a apreciação da matéria no Senado, prevista para amanhã, após a eleição do novo presidente do Senado, que deve ser mesmo Garibaldi Alves, indicado pelo PMDB para disputar o posto. A eleição de Garibaldi está sendo considerada uma barbada, já que ele tem apoio do DEM e de parte do PSDB, além, é claro, da base governista, com exceção de alguns senadores mais à esquerda, como Eduardo Suplicy (PT) e Cristóvam Buarque (PDT), que ainda apostavam na candidatura avulsa de Pedro Simon (PMDB-RS).

Se a votação ocorrer mesmo na semana que vem, ainda seria possível aprovar a emenda em segundo turno, entre o Natal e o Ano Novo. Não deixa de ser uma estratégia arriscada da base aliada.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sarney reluta e Garibaldi é segundo nome

Brasília ferve com as duas votações importantes da semana: CPMF e eleição para a presidência do Senado. Até este momento, 18h20 de segunda-feira, a tendência é que o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) continue resistindo e acabe recusando a indicação para entrar na disputa do comando do Senado, apesar da indicação de que não teria concorrentes no PMDB. Garibaldi Alves (PMDB-RN) continua favorito no atual cenário. O governo também trabalha nos bastidores para evitar a candidatura avulsa de Pedro Simon (PMDB-RS).

Sobre a CPMF é impossível fazer prognósticos. A votação pode ficar para quarta-feira, depois da eleição no Senado, ou mesmo para quinta-feira. Este blog aposta na vitória do governo, mas não arrisca nem de longe um palpite. Mesmo a tendência pela aprovação da matéria é tênue e ainda depende de negociações que estão em curso.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Sobre Marta, Alckmin e Kassab

A notícia do dia sem dúvida é a série de pesquisas do instituto Datafolha sobre o cenário eleitoral para as eleições municipais nas capitais de Estado mais importantes do país. A disputa que de fato importa e que terá conseqüências diretas para as eleições de 2010 está em São Paulo. Segundo o Datafolha, o ex-governador tucano Geraldo Alckmin caiu 4 pontos e agora empata tecnicamente com a ministra do Turismo, Marta Suplicy (PT), que se manteve estável na faixa dos 25% nas simulações em que seu nome foi testado. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) subiu 3 pontos e está em um patamar bem abaixo de seus possíveis adversários, com 13%.

Não é tarefa fácil analisar a pesquisa porque este cenário é hoje o mais improvável: a ex-prefeita Marta Suplicy tem dito que não quer deixar o ministério, preferindo se guardar para 2010, quando poderia se candidatar ao governo de São Paulo ou mesmo a Presidência da República. O ex-governador Geraldo Alckmin também não confirmou ainda se é candidato. Também chama atenção que a Folha tenha realizado simulações, no cenário sem Marta, apenas com Arlindo Chinaglia pelo PT, quando ele nem sequer confirmou a pré-candidatura, ao passo que José Eduardo Cardozo e Jilmar Tatto já se colocaram à disposição do partido para a disputa.

De toda maneira, é possível fazer algumas observações a partir do que os números do Datafolha trazem (a íntegra da matéria da Folha está no final deste comentário), vamos a elas:

1. No cenário sem Marta e com Alckmin, Kassab cai para terceiro lugar, ficando atrás até da ex-prefeita Luiza Erundina (PSB). É talvez o melhor quadro para o ex-governador, que derrotaria o prefeito com facilidade, com chances até de levar a disputa já no primeiro turno (Alckmin aparece com 30% e os tais 16% de Erundina tendem a diminuir à medida que a campanha se desenrole, tal qual ocorreu em 2004, em função do pequeno tempo na televisão a que os socialistas têm direito).

2. Se Alckmin não disputar, Kassab herda apenas parte da votação do ex-governador. Neste cenário, com Marta na disputa, crescem as chances do PT recuperar a prefeitura no ano que vem. É o que de mais tentador há para a ex-prefeita: ela partiria de 28%, um percentual confortável para passar para o segundo turno, e tenderia a capturar a maior parte dos votos dos candidatos de esquerda na disputa (Erundina, 11%; Soninha, 2% e Aldo, 2%). Em tese, chegaria fácil no patamar dos 40%, restando a Kassab a dura tarefa de conseguir todos os votos de Paulo Maluf (PP, 15%) para chegar perto da ex-prefeita. Hoje, parte dos malufistas já não tem a ojeriza de tempos atrás pelo PT e podem perfeitamente optar por Marta, especialmente se Maluf explicitar este apoio no segundo-turno, como já fez no passado.

3. Sem Marta e Alckmin, a disputa vira uma grande incógnita. O prefeito certamente larga na frente em função da máquina municipal (e estadual, neste caso) a apoiar sua candidatura. Estranhamente, o Datafolha não pesquisou este cenário – seria interessante saber se Erundina permaneceria à frente de Kassab ou se ele tomaria a dianteira.

A partir do que foi dito acima, algumas conclusões se impõem: se quiser continuar com cacife político, Geraldo Alckmin terá que se candidatar a prefeito no ano que vem. A taxa de intenção de votos no tucano está caindo, obviamente em função de sua menor exposição na mídia, o que é natural para um político sem cargo público e que no momento não é candidato a nada. E se desejar ser candidato, o PSDB não vai poder negar a legenda ao líder das pesquisas. Não há argumento conhecido que faça um partido ter o favorito para a disputa e abrir mão da candidatura em favor de um candidato que chega a aparecer em terceiro lugar... Ademais, Alckmin não tem muito a perder. Se acabar derrotado por Marta, cenário hoje improvável nas simulações de segundo turno, terá solidificado a imagem de anti-petista. E em uma disputa com Kassab, parece não haver chances de Alckmin acabar atrás do atual prefeito. Resumindo, ou Alckmin sai candidato no ano que vem ou corre o risco de se tornar um Luiz Antonio Fleury Filho, ex-governador que hoje tem sérias dificuldades em se eleger deputado federal.

Já para a ministra Marta Suplicy o cenário é bem diferente. Se ela entrar na disputa e sair derrotada, terá perdido a eleição e o ministério. Ademais, as simulações de segundo turno são muito negativas para ela e a sua taxa de rejeição, muito alta. Entrar na disputa com Alckmin seria uma grande bobagem, tamanhos os riscos de derrota. No cenário sem o ex-governador, a ministra tem mais chances, mas não se pode desprezar que neste caso Kassab viria com bala municipal e estadual, muita máquina e muito dinheiro.

Do prefeito Gilberto Kassab, porém, não se espera outra coisa senão a candidatura à reeleição. Só um néscio não sairia candidato em um quadro desses. Afinal, até ontem Kassab era um desconhecido, ninguém sabia quem ele era. Ganhou a prefeitura de presente e conseguiu alçar seu nome no panteão dos grandes da política paulista com o Cidade Limpa, idéia simples, barata e que "pegou" entre os munícipes. Com a eleição, Kassab, ainda que derrotado, galga mais um degrau na escala dos políticos relevantes no Estado e se cacifa, por exemplo, a ser o nome do DEM para o Senado em 2010, atropelando o secretário estadual do Trabalho, Guilherme Afif Domingos. Vencendo, poderá até disputar o governo de São Paulo, aí sim, em condições de impor a candidatura ao PSDB, quem sabe oferecendo a vaga de vice a Geraldo Alckmin.

Abaixo, a íntegra da matéria da Folha:


Em São Paulo, Alckmin cai e disputa liderança com Marta

JOSÉ ALBERTO BOMBIG
DA REPORTAGEM LOCAL

O ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e a ministra do Turismo, Marta Suplicy (PT), estariam tecnicamente empatados na liderança da corrida pela prefeitura paulistana, revela pesquisa Datafolha.
Se a eleição fosse hoje, o tucano teria 26% das intenções de voto. Ele perdeu quatro pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, feito em agosto. Marta oscilou um ponto para cima e está com 25%, seguida pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM), que ganhou três pontos e soma 13% no cenário em que os três são apresentados ao eleitor.
A pesquisa foi realizada entre 26 e 29 de novembro, com 1.089 moradores da capital paulista a partir de 16 anos. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, o que justifica o empate técnico dos líderes.
Os resultados devem acirrar ainda mais os ânimos nos bastidores da aliança PSDB-DEM, que está à frente da prefeitura paulistana e do governo do Estado, já que o tucano também perdeu pontos no cenário sem o prefeito Kassab. Ele caiu de 37% para 29% e repete o empate técnico com Marta, que foi de 23% para 27% das intenções de voto.
Quando Alckmin é retirado da disputa, Marta lidera isolada com 28% (um ponto a mais do que em agosto), seguida por Kassab, que se manteve estável na casa dos 20%.
Até agora, nenhum dos três primeiros colocados anunciou oficialmente a intenção de concorrer no ano que vem.
Do lado petista, o levantamento promete aumentar a pressão interna para que a ministra e ex-prefeita de São Paulo aceite concorrer novamente. Arlindo Chinaglia (PT), presidente da Câmara, alcança apenas 1% quando substitui Marta.
Ele foi o único petista testado na hipótese de Marta não aceitar a possibilidade de disputar.
Em agosto, na pesquisa anterior do Datafolha sobre a sucessão na capital, a ministra enfrentava críticas por conta de sua declaração relativa à crise aérea. "Relaxa e goza", sugeriu ela aos passageiros.
No mesmo período, Alckmin, candidato a presidente derrotado em 2006, estava em exposição por ter retornado de um período de estudos nos EUA, e Kassab, no cargo há pouco mais de um ano, havia iniciado uma campanha de publicidade.

Renda e escolaridade
A queda do tucano se deu principalmente em segmentos de maior renda e com escolaridade superior, justamente os mesmos nos quais ele tem as mais altas taxas de intenção de voto no levantamento.
Entre os que têm renda superior a dez salários mínimos, Alckmin perdeu 12 pontos após agosto, caindo de 50% para 38%. Marta, nesse estrato, saltou de 9% para 19%.
Alckmin também viu sua condição piorar no outro extremo da segmentação por renda. Ele foi de 27% para 17% das intenções de voto entre os que recebem até dois salários mínimos, metade do que obtém a petista Marta. O tucano, no entanto, continua líder entre os mais escolarizados, embora tenha perdido oito pontos nesse segmento -de 43% para 35%. Os demais candidatos apenas oscilaram nesse quesito.
O crescimento de Kassab, vice de José Serra (PSDB) até março de 2006, não foi suficiente para que ele assumisse sozinho a ponta no cenário sem Alckmin e sem Marta. O democrata, com 22%, está empatado na liderança com Luiza Erundina (PSB), 21%, e com Paulo Maluf (PP), 18%.

Novo nome
O Datafolha também incluiu a vereadora Soninha (PPS) no levantamento. Ela deixou o PT em setembro e anunciou a intenção de disputar a prefeitura. Quando testada no cenário com Alckmin, Marta e Kassab, Soninha obtém 2%, e a ministra oscila de 25% para 24%.
O ex-partido da vereadora teme que ela, caso candidata, trafegue na mesma faixa de eleitorado da ex-prefeita.
As ausências do tucano e da ministra possibilitam que Paulinho (PDT) consiga seu melhor desempenho, 7%. O mesmo acontece com Aldo Rebelo (PC do B), 3%, e Soninha, 4%.
O percentual dos que dizem espontaneamente (antes da apresentação dos nomes) que gostariam de votar em Kassab oscilou de 8% para 10%; em Marta foi de 8% para 7%; e em Alckmin, de 5% para 4%.
O governador José Serra e Maluf são citados espontaneamente por 2% cada um. Desde agosto, aumentou nove pontos a taxa dos que não sabem citar em quem gostariam de votar para prefeito (50% para 59%).

Ainda sobre a pesquisa em São Paulo

A nota abaixo, do blogueiro Luis Favre, mostra um detalhe das pesquisas Datafolha e Ibope que pouca gente captou. Entre Ibope e Datafolha, o Entrelinhas confia um pouco mais no segundo, menos pela metodologia e/ou pelo histórico de acertos e mais pela recusa do instituto em fazer pesquisa eleitoral sob encomenda de partidos ou candidatos. O blog aguarda a especializada opinião do santista Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia, sobre a questão.

Datafolha e IBOPE, o jogo dos erros

IBOPE sondou a opinião dos paulistanos em 14 e 15 de novembro. Datafolha, dez dias depois.

Para o IBOPE, Kassab derrotaria Marta com 10 pontos a frente num segundo turno.
Para Datafolha é o inverso.

As pesquisas são científicas e os institutos igualmente sérios.

Puxa, os paulistanos mudam em 10 dias da agua para o vinho...

Acredite se quiser

Datafolha: Marta derrota Kassab (49% X 39%)
IBOPE: Kassab derrota Marta (47% X 38%)

Erratum humanum est

Esqueci, o IBOPE foi encomendado pela Associação Comercial de SP, da qual Kassab é um dos vice-presidentes e ela é presidida por Alencar Burti, o mesmo do Cansei...

Sabe aqueles da Ética, com maiúscula.

Dica de leitura do Estadão de hoje

Vale a pena ler a entrevista abaixo, do historiador Carlos Guilherme Mota, publicada neste domingo pelo jornal O Estado de S. Paulo. É uma análise vigorosa.

Você também está atrás das grades

Fred Melo Paiva

No final dos anos 70, Carlos Guilherme Mota costumava receber em sua casa a visita do também historiador Caio Prado Júnior. Tomavam vinho juntos. Caio Prado gostava dos chilenos da marca Concha y Toro. Carlos Guilherme gostava de Caio Prado - sentia-se visitado pela versão brasileira de um Eric Hobsbawm. Diante do grande mestre, tentava extrair dele “umas cinco frases para repassar aos seus filhos e alunos”. Certa vez, foi direto ao ponto: “Professor, qual é a sua mensagem? O que o senhor me diz sobre a história do Brasil?”. Caio Prado Júnior respondeu: “O Brasil é muito atrasado”. Carlos Guilherme Mota achou a frase “um pouco pobre”. Insistiu: “Mas como assim?”. O Caio: “Muito atrasado. Muito”. Carlos Guilherme deixou pra lá.

“Historiador das idéias”, Carlos Guilherme Santos Serôa da Mota é professor titular de história da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade São Paulo (FFLCH-USP) e da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foi diretor-fundador do Instituto de Estudos Avançados da USP. É pesquisador da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas. Autor, entre outros, de Ideologia da Cultura Brasileira (Editora 34), prepara-se para o lançamento de História do Brasil - Uma Interpretação (Senac), escrito em parceria com sua mulher, a historiadora Adriana Lopez.

Na semana que passou, Carlos Guilherme Mota lembrou-se muito da frase de Caio Prado Júnior. E à luz dessa lembrança, ele concedeu ao Aliás a entrevista que segue:

A história do sistema prisional no Brasil é uma seqüência de atos de barbárie?

Quando houve a Inconfidência Mineira, ou mesmo a Revolta dos Alfaiates, as condições carcerárias eram miseráveis. Há descrições disso. E olha que foram presos ouvidor, desembargador, advogado. Tem-se a idéia de que (o jurista e poeta luso-brasileiro) Cláudio Manuel da Costa não teria suportado a situação e cometido suicídio. Mais adiante, em 1817, revolucionários do Nordeste foram presos na Bahia, entre eles Antônio Carlos de Andrada, irmão de José Bonifácio, e o clérigo Francisco Muniz Tavares. Eram pessoas, digamos, de alto coturno, tiveram alguns privilégios. Ainda assim seus testemunhos do cárcere são um horror. Durante todo o século 19 as condições são, sim, de barbárie. Não há a idéia de cidadania como a temos hoje, nem minimamente. Nos anos 1920 e 1930, comunistas e anarquistas eram recolhidos em presídios como o famoso Maria Zélia, no bairro da Liberdade, em São Paulo. Ficavam confinados em solitárias com água pingando na cabeça. Imperava por aqui - e de alguma forma ainda impera - a lei da fazenda: se você fez alguma coisa errada, mando um capanga te pegar. Se você é um criminoso, significa que pode ser morto. É por isso que, risonhamente, diz-se que a única contribuição que o Brasil deu para a república no mundo foi a tocaia. Aqui sempre houve exímios matadores.

Por que a maneira cruel de lidar com a pessoa presa se perpetua na história do Brasil?

O ex-presidente Fernando Henrique disse o seguinte à revista Piauí: “Falta ao Brasil a convicção profunda de que a lei conta”. É uma boa frase. Mas por que falta essa convicção? Porque a maneira como se pensa o direito no País permanece dentro de uma tradição estamental, do senhoriato, escravagista. Desde o Império, nossa elite nunca deixou de ser colonial e senzaleira, ainda que tenhamos transitado da economia dos escravos para a economia assalariada. Ela é aquilo que o ex-governador Cláudio Lembo denominou muito bem, num desabafo: a elite branca e má. Hoje é sabido que, no episódio dos ataques do PCC, Lembo foi acossado para mandar matar todo o mundo.

A elite brasileira é atrasada a esse ponto?

O Brasil nunca foi dado a revoluções, como as que aconteceram em outros países. O resultado é que o senhoriato gerado pelo período colonial se metamorfoseia e não há uma ruptura. Essa camada dirigente se reformula cada vez que há um movimento social mais vigoroso. A ele se opõe uma contra-revolução preventiva. Isso é o que explica a paz no Segundo Reinado, de 1840 a 1889. E ainda há muitos historiadores ingênuos que vêem dom Pedro II como grande imperador, transformado-o até em capa de Veja como “o imperador-presidente”. Este foi um período em que não se construíram universidades no ritmo que se fez em outros lugares, não se aboliu a escravidão - somente ao final e mesmo assim por pressões externas. A tal “paz imperial” se deveu a uma máquina de opressão plena. O senhoriato de então vem até os dias de hoje. O Sarney não pode vir a ser presidente do Senado? Veja Sarney e Roseana, ACM e ACM Neto. O que existe no Brasil são capitanias hereditárias.

E o que isso tem a ver com a situação das cadeias?

O problema não é apenas daqueles que estão atrás das grades. Não adianta ficarmos daqui como biólogos de laboratório olhando as formigas. Nós todos somos as formigas, aprisionadas por um modelo ancestral. A sociedade civil, se é que ela existe, só faz grandes movimentos quando há carestia. Projetos sociais e políticos mais vigorosos nem entram na pauta dos partidos. Veja a inconsistência ideológica atual do PSDB, por exemplo. É um partido que se pretende socialista. O próprio petismo está dividido. Em quantas facções? Essa semana, uma matéria do Estadão disse que as cadeias de São Paulo têm 231 adolescentes. O ponto mais grave disso é que há uma indiscriminação entre adultos e menores, homens e mulheres. Estamos caminhando de marcha à ré e em alta velocidade. Tudo isso faz parte da situação em que nos metemos: há bolsões socioeconômicos de riqueza e ilhas da fantasia socioculturais. O que se vê é a vitória da cultura do marketing e da sociedade do espetáculo. E com isso se enterra a memória de qualquer pretensão à sociedade civil moderna.

Qual é seu conceito de sociedade civil moderna?

Uma sociedade em que o contrato social é nítido e respeitado. Em que são observados os deveres e as obrigações dos cidadãos. Nós somos todos prisioneiros. Chegamos a um momento-limite da história. Não é que “daqui para a frente é a barbárie”. Já é a barbárie. O sistema carcerário é apenas o intestino de todo um organismo doente.

Essa imagem remete a uma parcela, digamos, descartável da população. É isso mesmo?

É uma imagem forte. Mas pense em Tropa de Elite, o filme. Há boas cabeças dizendo que é daquela forma mesmo que o sistema vai se depurar. Eu acho que falta a essas pessoas consultar os grandes historiadores. Em Formação do Brasil Contemporâneo, Caio Prado Júnior faz um corte no ano de 1808. Ali se vê algo que é importante para entendermos a sociedade brasileira de hoje: há uma imensa massa de população que, não sendo de escravos, não podia ser de elite. São aqueles que (a historiadora) Laura de Mello e Souza chama de “os desqualificados” - a massa. Se você quiser reencontrar esses personagens pode ir, por exemplo, à fila de uma lotérica. São pessoas que estão ali para fazer uma aposta: não sendo escravos, gostariam de ser ricos. É uma massa que mal sabe fazer fila. Não quero propor disciplina militar, mas isso denota alguma coisa sobre a posição de cada um numa sociedade minimamente organizada. Aqui na Oscar Freire (nos Jardins, onde mora), catadores de papel andam com seus carrinhos na contramão às 6 horas da tarde. Por outro lado, há executivos de Harley Davidson que trafegam pela calçada. Chegamos a um ponto em que o cárcere não é a grande questão.

O senhor parece discordar da visão de um Brasil que, embora desigual, mantém uma certa harmonia.

Um país com 400 anos de escravidão não pode ser harmonioso. No Brasil, a ideologia exerce seu papel, que é o de arredondar as diferenças e ocultar o real. Mas o real está posto, nas lutas de classes entre os estamentos senhoriais e as castas lá embaixo. Somos uma sociedade muito conflituada, e por aí podemos entender melhor os fatos que sempre ocorreram nos cárceres brasileiros.

A Justiça não deveria dar conta dos excessos ocorridos nas prisões?

A legislação brasileira sempre funcionou para proteger a propriedade. Em outros tempos, se houve uma preocupação com o escravo, era de que não fosse “danificado” enquanto mercadoria. Com a imigração acontecida em princípios do século 20, muitas idéias de caráter socialista, sindicalista e anarquista acabavam em ações de deportação ou desterro - “Desterro”, aliás, batiza muitas cidades brasileiras. No Estado Novo, por volta de 1937, o então ministro da Justiça Francisco Campos criou uma frase emblemática: “Governar é prender”. Como falar de uma nova sociedade civil a partir de uma idéia como essa? Como pensar nisso se sempre tomamos o criminoso por um ser execrável - e, pior, uma pessoa matável?

Como funcionavam as masmorras do Estado Novo?

O militante comunista Harry Berger, figura de porte internacional, esteve preso com Luís Carlos Prestes em uma dessas masmorras. Com o passar do tempo, as unhas e os cabelos de Berger foram ficando muito compridos. Durante rompantes de loucura, ele urrava. A idéia era fazer o mesmo com Prestes - deixá-lo louco. Mas ele agüentou firme. Sobral Pinto, que era católico, foi quem conseguiu a soltura de Harry Berger. Diante de Getúlio, o que o grande jurista fez foi citar as normas da Sociedade Protetora dos Animais.

Como o golpe de 64 contribuiu para a escalada desse tipo de violência?

Os militares substituíram os delegadões pseudoliberais - xerifes com alguma bibliografia - que haviam surgido no final dos anos 40. Com o Deops, introduziram-se os métodos sistemáticos de mapeamento e extração de informação. Até 1976, pelo menos, muita gente foi morta sob tortura nos porões da ditadura, como se sabe. É dessa época também o nosso baby boom. Explico: Marcola não tem por volta de 40 anos? Ele não é filho de Kennedy, como se diz nos Estados Unidos a respeito dos baby boomers. Marcola, podemos dizer, é um sobrinho do Delfim.

Por que a abertura política não conseguiu mudar a situação nas cadeias no Brasil?

O deputado José Genoino já disse que, por terem sido policiados, muitos dos políticos eleitos depois da ditadura não sabem organizar a força policial. Todos os ministros da Justiça desse período - quase todos meus amigos - foram razoavelmente condescendentes com este quadro mental. Para além dos direitos humanos, há uma coisa que são os direitos da cidadania, que por aqui nunca foram observados. No Brasil, as fronteiras da cidadania e da não-cidadania se confundem. Na Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, isso é diferente porque há uma sociedade de contratos, a começar pelos de trabalho. Se a loja fecha às 18 horas, ninguém será atendido em Paris às 18h10. Nós ainda vivemos numa sociedade de status - dependendo do seu, você pode ser recebido em qualquer lugar, ainda que esteja complemente fora do horário. Há uma segunda questão: em 1970, éramos 90 milhões de habitantes no Brasil. Esse número dobrou. Como este Estado patrimonialista, afeito ao neocoronelismo político e ao populismo vai providenciar educação para a cidadania dessa gente? Aliás, aí estão eles, os tais desqualificados do período colonial...

Como promover a inclusão dessas pessoas?

Inclusão onde? Num sistema que tinha como chefe de um dos poderes o Renan Calheiros? Que pode agora ser substituído por José Sarney? Num sistema que tem o pântano do PMDB, em que todas as boas idéias chafurdam? A cada vez que a sociedade civil avança, é preciso que se construam mecanismos para que não haja retrocessos. Mas, infelizmente, a história do Brasil mostra que fazemos o contrário e andamos para trás.

O senhor vê alguma chance de um presidiário sair da cadeia melhor do que entrou?

Os presídios, hoje, comportam pelo menos o dobro de gente do que deveriam. Não há nenhum projeto consistente de reeducação. Dizer que não há verbas para tal é besteira. Para a sociedade civil burguesa, seria muito mais barato bancar isso do que ficar pagando automóveis blindados e seguranças. Mas não: esses figuras fora da lei são colocadas também para fora do direito, e assim podem ser mortas. É desse jeito desde a época da Colônia - uma jurisprudência rústica do mundo real. Daí que, em certos bairros das periferias brasileiras, é quase normal a presença dos justiceiros. De dia eles estão de farda, de noite fazem o serviço extra.

Se é mais barato recuperar o preso, por que isso não acontece?

Justamente porque vivemos o capitalismo senzaleiro. Nosso empresariado ainda é colonial. O supermercado ao lado da minha casa funciona como um porto: caminhões-contêiners chegam a qualquer hora da noite para descarregar mercadoria, em total desacordo com a lei. Na outra ponta, senhoras que lá fazem compras deixam seus motoristas estacionados onde não pode. E o menino do caixa, coitado, tem 15 minutos para almoçar. Se o sistema carcerário é o intestino, a cabeça do organismo é essa elite com mentalidade imperial. Aquilo que Cláudio Lembro chamou de a elite branca e má, está bem descrito sociológica e juridicamente por Raymundo Faoro. O modelo que estamos vivendo hoje, que nem Lula nem FHC desmontaram, é o modelo autocrático burguês. Podia ser democrático burguês, mas não é. Mário Covas dizia: “Precisamos de um choque de capitalismo”. Capitalismo vem junto com projeto nacional. Mas não é isso o que temos. Ao contrário, são medidas provisórias, essa negociação indecente com a Câmara e o Senado, as concessões insuportáveis para que se aprove a CPMF. Uma vez, Caio Prado Júnior me disse a seguinte frase: “Toda a história do Brasil sempre foi um negócio. Só um negócio”. É isso.

O que fazer diante do quadro crítico que estamos vivendo com relação à questão carcerária?

Com a ausência de políticas públicas que coloquem nos eixos a antiga questão nacional, não chegaremos a lugar nenhum. Conselhinhos ou conselhões, quase figurativos, com figurinhas marcadas, vão fazer com que continuemos em marcha à ré. A propósito, se é para andar para trás, que os juízes pelo menos saiam de vez em quando dos tribunais para inspecionar as cadeias, inclusive na calada da noite. Assim prescreviam as Ordenações Filipinas. Além disso, que se sonegue menos, que a máquina do Estado seja desinchada de aspones e parentelas, que o rigor com a coisa pública seja observada. Não se trata, em casos de desvios vultosos de verbas, de perda do cargo - mas de prisão rigorosa, de ministros a servidores subalternos, como acontece na França, nos Estados Unidos, na Alemanha. Que os aparelhos de Estado se reaparelhem, a partir de novas concepções de educação, com pedagogos universitários especializados em educação prisional. Que requalifiquem carcereiros e funcionários de presídios com professores nos locais, assim como médicos, dentistas, profissionais da computação e bons psicólogos. Um serviço social genérico consola, mas não adianta. Em suma, profissionais que forneçam elementos para uma requalificação social dos marginalizados nos vários ramos, de hotelaria e marcenaria ao torno mecânico. Caso contrário, os presídios continuarão sendo escolas do crime.

Para fechar: qual foi o primeiro pensamento que lhe veio à cabeça quando viu as fotos de presos acorrentados a pilastras numa delegacia de Santa Catarina?

O Brasil é muito atrasado. Muito atrasado. Muito...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Ciro, Serra e a falta do "candidato natural"

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o Shopping News, encarte do DCI que circula às sextas-feiras. Em primeira mão para os leitores do blog.


A Folha de São Paulo publicou no último domingo reportagem baseada em pesquisa do instituto do jornal sobre a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foram vários os cenários pesquisados e na soma geral, dois nomes apareceram bem cotados — o do governador José Serra (PSDB) e o do deputado federal Ciro Gomes (PSB).

Antes de analisar o resultado das sondagens, cabe lembrar que até o ombudsman do jornal estranhou o fato do Datafolha não ter incluído na pesquisa os candidatos que disputaram o segundo turno em 2006 – Geraldo Alckmin (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No caso de Alckmin, a alegação de que ele não se apresenta como candidato é um tanto estapafúrdia, uma vez que as ministras Marta Suplicy e Dilma Rousseff, especialmente a primeira, também não se apresentam como candidatas. Já a ausência de Lula chamou ainda mais atenção, uma vez que o instituto perguntou especificamente o que os entrevistados pensavam sobre a hipótese do fim do limite às reeleições, abrindo caminho para o terceiro mandato do atual presidente da República.

Estranhezas à parte, o resultado apresentado pelo Datafolha está dentro do que se poderia esperar e é até óbvio. Serra e Ciro já disputaram a presidência – Ciro em duas ocasiões – e têm grande recall na população. O mesmo vale para Heloísa Helena, que aparece bem colocada, na faixa de pouco mais de 10%. Se Alckmin ou Anthony Garotinho (PMDB) tivessem sido incluídos, certamente teriam performances semelhantes às de Serra e Ciro.

Ainda é muito cedo para especular sobre a sucessão de Lula, mas é fato que o PT hoje não tem um candidato natural para o pleito de 2010 se Lula realmente ficar fora da disputa. O governo não tem um “candidato natural” como talvez fossem os ex-ministros Zé Dirceu e Antonio Palocci, se ambos não tivessem sido alvejados pelos escândalos do mensalão e do caseiro Francenildo. Lula tem três anos pela frente para construir este candidato. Precisa começar a trabalhar já.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Tiãozinho, o breve, queria ficar mais

Corre nos bastidores do Senado uma história pouco edificante sobre o presidente interino da Casa, Tião Viana (PT-AC). Nos últimos dias, quando ficou claro que Renan Calheiros (PMDB-AL) seria absolvido em troca de sua renúncia à presidência do Senado, o interino Tião teria articulado um movimento para que Renan postergasse a renúncia. Engana-se quem imagina que a motivação do senador acreano tenha sido evitar uma eventual turbulência política na decisiva votação da CPMF: o que Tiãozinho na verdade queria era garantir, até fevereiro ou março, após o recesso, os salários e benefícios a que a Presidência da casa dá direito. A renúncia de Renan, portanto, acabou com a boquinha do ídolo das "pequenas multidões" do Acre...

Quem vai sentar na cadeira elétrica?

Vai ser um fim de semana de grandes articulações políticas, este próximo. Além da prorrogação da CPMF, a questão agora é saber quem leva a presidência do Senado. Não é um cargo fácil e já foi apelidado de "cadeira elétrica" pelo alto potencial de destruição de carreiras políticas, fora o azar que dá a seus ocupantes na vida pessoal.

O grupo de Renan quer convencer José Sarney (PMDB-AP) a concorrer e para isto seria preciso que ele topasse ser um candidato de verdade, aceitando os riscos da disputa. O que se diz nos bastidores é que o ex-presidente só topa ser for o nome de consenso, uma hipótese remota, uma vez que a oposição avalia Sarney como excessivamente governista. O senador Garibaldi Alves (PMDB-RN) tem sido badalado como nome mais forte do momento, por contar com apoios na oposição.

Pode ser uma boa estratégia para o governo ceder em relação à presidência do Senado para garantir a aprovação da CPMF, afinal, trata-se de um mandato-tampão de apenas um ano, ao passo que a receita do imposto do cheque vai durar o mandato inteiro do presidente Lula. Claro, não é tão simples assim e as negociações correm em paralelo. Mas talvez Garibaldi seja um nome que possa amaciar os duros corações tucanos e democratas.

Leituras para Plínio, o tucano

As notícias abaixo, a primeira da Folha Online e a segunda da edição desta quarta-feira da Folha de S. Paulo, fazem parte da série "afinal, por que Lula é tão popular?". Plínio, o amigo tucano de Wagner Iglecias, deveria ler as duas reportagens com atenção para compreender melhor o que faz de Lula o presidente com a mais alta taxa de aprovação desde a redemocratização (antes de Collor, não se faziam pesquisas regulares de popularidade presidencial).


Produção industrial no Brasil cresce
2,8% em outubro, maior alta desde 2003

Segundo o IBGE, o incremento da produção industrial deveu-se à ampliação do consumo doméstico.


Construção prevê expansão
recorde, apesar de gargalos


TONI SCIARRETTA - A construção civil, setor que emprega 1,75 milhão de trabalhadores formais, vive o seu melhor momento no país desde os anos 70, mas seu crescimento já esbarra em gargalos como a escassez e o aumento de preços de terrenos, cimento, aço e equipamentos, além da falta de profissionais qualificados.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Renan e Corinthians: Entrelinhas acertou

Conforme previsto aqui, o ano vai terminar com o Corinthians na segundona e Renan Calheiros (PMDB-AL) firme no Senado. Nos dois casos, o blog errou o score, mas acertou o resultado. A votação por maioria tranqüila (48 a 29) mostrou a força de Renan e a inconsistência da peça acusatória produzida pelo senador Jefferson Péres (PDT-AM). De certa forma, o resultado final favorece as articulações em torno da aprovação da CPMF nas próximas semanas, mas aí o jogo é bem mais acirrado e o Entrelinhas não arrisca palpite. Pelo menos não antes de consultar alguma boa vidente...

Wagner Iglecias: Clonagem política

Em mais uma colaboração para o blog, o cientista político Wagner Iglecias explica a um amigo tucano como a genética pode ajudar na explicação de fenômenos característicos das ciências humanas. A seguir, a íntegra do bem-humorado texto de Iglecias.

Meu amigo Plínio é tucano de quatro costados. Acha que o governo de Fernando Henrique foi o mais importante da História do Brasil. Não vê a hora de o PSDB voltar ao poder. Mas aguarda pelas eleições de 2010 pacientemente, porque Plinio é, antes de tudo, um democrata.

No fundo ele concorda com a afirmação de Fernando Henrique de que Lula não sabe falar bem o idioma. Acha até que Lula é um tanto despreparado para o exercício do cargo, que não domina as boas maneiras da liturgia do poder. Mas acha também que a democracia brasileira só estará definitivamente consolidada no dia em que o presidente-operário concluir seu segundo mandato e passar a faixa para o sucessor.

Apesar das restrições que tem a Lula, Plínio até acha o presidente simpático. Reconhece que ele tem muito carisma e que sabe falar ao povo. Mas Plínio tem ojeriza daquele pessoal do PT que cercou Lula no primeiro mandato e que ainda está por aí, como Zé Dirceu, Genoino, Palocci e os aloprados.

Plinio não suporta essa gente, especialmente Dirceu. Mas tem mais gente ligada ao governo Lula que Plínio não tolera. São os não-petistas. Ah, para os não-petistas Plínio tem suas maiores restrições. Como alguém que foi historicamente adversário de Lula e do petismo pode hoje apoiá-los? Plínio não compreende.

A resposta para a inquietação do meu amigo tucano pode estar na ciência. A medicina genética tem avançado muito nos ultimos anos e é sabido que cientistas já conseguiram clonar ratos, ovelhas etc. Ou seja, estaríamos a um passo da clonagem humana. Verdade? Mito? Sabe-se lá. Mas quem sabe ela já não começou? E aqui no Brasil? E com nossos políticos? Senão, vejamos.

Este Sarney que apóia Lula desde o começo de seu governo? Plínio se pergunta como Lula aceita o apoio de um velho coronel da política brasileira. Sem dúvida, meu caro Plínio, este aí só pode ter sido clonado. Não pode ser o mesmo Sarney que apoiou o governo Fernando Henrique. Ou pode?

E este Renan que a oposição considera um bandido? Apóia o Lula desde o início de seu mandato também. Outro que só pode ser clonado. Não pode ser o mesmo Renan que foi Ministro da Justiça do governo tucano. Não pode ser. Foi clonado tambem.

E o tal Walfrido, ex-ministro da articulação política do Lula? Clonado, com certeza. Ou alguém acha que seria o mesmo Walfrido que há alguns anos fazia a cozinha das campanhas do Senador Azeredo, presidente do PSDB?
E o Roberto Jefferson, que foi estrela no recente congresso tucano, sentando-se ao lado de FHC, Serra, Aécio, Alckmin e Tasso? Outro que foi clonado, meu caro Plínio. Ou será que dá para acreditar que os tucanos receberiam como convidado de honra alguém que, além de ter sido cassado, estaria, segundo denúncia do Ministerio Publico Federal, envolvido, junto de José Dirceu e Marcos Valério, com o suposto esquema do mensalão? Alguém que foi citado entre os quarenta da tal "organização criminosa"? Não, os tucanos não receberiam uma pessoa assim. Esse Bob atual, Plínio, é clone também, não é aquele que apoiou Lula e foi próximo de Dirceu até outro dia.
Esses cientistas inventam cada coisa, não é, meu caro amigo Plínio?

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

Renan já renunciou

O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) não é mais presidente do Senado. Ele acaba de renunciar ao cargo, já durante a sessão que vai julgar o segundo pedido de cassação de seu mandato.

Ombudsman concorda com o Entrelinhas

Teve gente que achou excessiva a cobrança deste blog pela inclusão, na pesquisa do Datafolha sobre a eleição de 2010, do nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas simulações que o instituto fez. O atento Ombudsman da Folha de São Paulo, Mário Magalhães, concorda com a crítica feita aqui. Em sua Crítica Interna de segunda-feira, ele escreveu sobre o assunto:

Dois pitacos: a pesquisa sobre intenção de voto para 2010 parece importar mais a partidos e políticos que aos leitores; o nome de Lula deveria constar nos cenários apresentados aos eleitores para 2010 --há inegável interesse jornalístico nessa informação.

"Inegável interesse jornalístico" é pouco: o que todo mundo queria mesmo saber é como está o presidente Lula na pesquisa. Mas não será na Folha de São Serra que o leitor terá esta informação...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Alckmin é Aécio desde criancinha

As orelhas do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), devem ter ardido quando ele leu – e certamente leu, embora provavelmente venha a negar – a revista Época desta semana. Trata-se de uma edição especial, dedicada aos 100 brasileiros que "mais fazem acontecer", com pequenos perfis sobre cada um deles, sempre escritos por outra personalidade de relevo. Não, Serra não ficou de fora – seu perfil foi escrito pelo fiel Gilberto Kassab (DEM), que foi eleito vice-prefeito na chapa do atual governador paulista e ganhou, de mão beijada, três anos de mandato à frente da prefeitura de São Paulo. Kassab faz o que dele se espera e praticamente lança a candidatura de Serra à presidência da República, mostrando que os dois estão jogando bem juntos.

O que fez arder as orelhas do governador, porém, foi o perfil do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, escrito pelo ex-governador Geraldo Alckmin. Se para bom entendedor, meia palavra basta, o texto de Alckmin é praticamente a formalização de uma aliança com o governador mineiro com vistas às mesmas eleições presidenciais de 2010. Só que a vaga para concorrer à sucessão de Lula em 2010 é uma só...

Neste momento, é bom que se diga, ninguém no ninho tucano vai revelar ao distinto público a quantas anda a guerra interna no partido, mas a cada dia fica mais claro que as pretensões imperialistas de José Serra poderão, sim, esbarrar em nomes como os de Alckmin, Aécio e Tasso Jereissati, para falar apenas em tucanos de bico longo. Afinal, a disputa está só começando e o primeiro capítulo será jogado no ano que vem, nas eleições municipais Brasil afora.

Direita em festa: agora há
democracia na Venezuela?

Os blogs direitosos estão eufóricos com a derrota de Hugo Chávez no plebiscito venezuelano. De fato, a oposição teve uma vitória incontestável, mas não deixa de ser engraçado: na noite de domingo, quando as pesquisas de boca de urna davam a vitória ao coronel, a direita babava que Chávez tinha dado "um golpe" e que a Venezuela estava se transformando em uma ditadura porque "apenas 50%" dos eleitores tinham comparecido às urnas. Horas depois, a turma esqueceu a alta taxa de abstenção e a Venezuela voltou a ter uma "democracia robusta" com a lição que deu na "pretensões ditatoriais" de Chávez. Como diria o presidente Lula, "menas", pessoal, menas: na verdade, o baixo quórum foi fundamental para a vitória da oposição, e não o contrário. Paradoxalmente, portanto, se o povão tivesse comparecido em massa, a democracia da Venezuela seria mais representativa e Hugo Chávez teria conseguido aprovar as mudanças constitucionais
que propôs. Mas fica a lição até para blogs direitosos: é preciso torcer menos e analisar melhor.

Rodini: agonia sem fim

O craque Jorge Rodini, diretor do instituto Engrácia Garcia de pesquisas, dá seu pitaco sobre o rebaixamento do Corinthians para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Democrático que é, este blog não compartilha da tristeza de Rodini, mas registra a opinião :

A nação corintiana viveu seu pior fim de semana enquanto torcida do segundo time mais popular do Brasil. No início da parceria com a MSI, euforia total com a contratação de "los hermanos" Tevez, Mascherano, Sebá e Passarela, além de outros craquitos de grandeza semelhante.

Só haveria glórias, a partir de então. Todo o sofrimento acabaria, o Timão iria golear um a um seus adversários, seria campeão da Libertadores...

Tevez, símbolo de raça e categoria, foi embora. E lá se foram Passarela, credor de alguns punhados de dólares, e todo o resto da companhia. O iraniano/britânico Kia sumiu, a diretoria se fez de coitada e a torcida se calou.

Mistérios, desvios de dinheiro, lavagem de dólares, idas e vindas a Londres, contatos russos e o time começa a despencar.

A Fiel, sempre fiel. E o time começou a contratar jogadores de segunda. Diretoria de segunda, profissionais de segunda, torcida de primeiríssima. O time só poderia cair para a Segundona, a Série B do Campeonato Brasileiro.

Neste final de semana, vários amigos derramaram lágrimas, ficaram envergonhados, desesperados. Mas ninguém contestou um fato: o Corinthians é grande demais para ter um time tão ruim. E raça ajuda, mas não ganha jogos.

Nós, torcedores dos demais grandes times brasileiro, estamos tristes, não somente com a queda do Corinthians , mas com ascensão destes empresários milagreiros que aliciam nosas jovens promessas e desrespeitam o mais humilde dos torcedores.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Ainda sobre futebol

Sim, o blog é sobre política e mídia, mas este domingo é um dia especial: Corinthians na segundona e Palmeiras fora da Libertadores é além do que qualquer sãopaulino esperava, noves fora o pentacampeonato antecipado. Com a elegância que lhe é característica, o São Paulo até perdeu o jogo de hoje no Paraná, talvez a fim de permitir algum consolo aos pobres corintianos e palmeirenses. É, a vida anda mesmo cruel para quem não torce pelo glorioso tricolor do Morumbi...

Palpites errados, resultado correto

Este blog errou os scores, mas acertou o resultado geral: o Goiás bateu o Inter (não foi por 1 a 0, mas por 2 a 1) e o Corinthians, como todos já sabem, empatou com o Grêmio no Olímpico por 1 a 1. Conforme previsto aqui, portanto, o alvinegro paulista disputará a gloriosa série B em 2008. Bem, a verdade é que deu a lógica. O futebol muitas vezes é uma caixinha de surpresas, mas neste caso tudo conspirava contra o Timão: o time é horrível, as condições eram mais adversas (até pentacampeão São Paulo quando vai ao Sul sofre para bater Inter e Grêmio), e o concorrente tinha um estádio inteiro torcendo a seu favor. Some-se a tudo isto a tática cafajeste de entrar 15 minutos atrasado para tentar jogar sabendo o resultado dos adversários e o resultado não poderia mesmo ser outro. Nesta terça, o leitor saberá se o blog acertou também a previsão sobre a votação do caso Renan, que deverá renunciar à presidência do Senado e ser absolvido. Por ora, ficam os votos de uma boa segunda para a tal nação corintiana!

Outro esquecido no Datafolha: Alckmin

O governador José Serra (PSDB) deve ter ficado muito contente com o esquecimento do Datafolha, na pesquisa publicada neste domingo na Folha de S. Paulo, em relação ao seu antecessor no cargo e candidato do PSDB à presidência no ano passado Geraldo Alckmin. Será que Alckmin não teria uma performance melhor do que a de Serra nos cenários pesquisados pelo instituto? Ou o jornalão já determinou que Alckmin é carta fora do baralho?

Datafolha: cadê a simulação com Lula?

A Folha de S. Paulo é um jornal maroto. Neste domingo, publica uma sequência de matérias com base nas três pesquisas que seu instituto realizou: a primeira, sobre apoio à tese do fim da reeleição, mostra que 65% dos entrevistados rejeitam a possibilidade; a segunda, sobre o apoio ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, revela que aumentou 2 pontos percentuais (subiu de 48% para 50%) o número de brasileiros que aprova a gestão Lula; e a terceira foi a tradicional pesquisa de intenção de votos entre os pré-candidatos à presidência da República – o governador José Serra aparece na liderança na maior parte dos cenários.

O problema da Folha está justamente na última pesquisa. Por que motivo não foi apresentado nenhum cenário em que Lula pudesse disputar a eleição, já que o jornal pesquisou justamente esta possibilidade? Este blog desconfia que, com Lula na disputa, Serra cai para o patamar de uma Heloísa Helena (PSOL). Serrista que é, não vai ser a Folha o jornal a divulgar o massacre que seria este confronto... Dizem por aí que dá Lula com 40% e Serra, menos de 20%. Fica o registro.