quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Povão continua comprando mais

Conforme este blog previa, a versão impressa da Folha de S. Paulo não tem dado o menor destaque aos surpreendentes índices que vem saindo sobre o comportamento da economia brasileira, a maior parte já referentes a outubro, portanto em plena crise. O jornalão que presta serviço à candidatura de José Serra à presidência adotou o lema "o que é bom a gente esconde, o que é ruim (para o governo Lula, é claro), a gente mostra". Este blog aposta que a Folha vai esconder a notícia abaixo ou então dará bem grande, com o título: "Crise leva brasileiros a estocar alimentos"...

Vendas nos supermercados crescem 11,48% em outubro, aponta Abras

Flávia Albuquerque
Repórter da Agência Brasil

São Paulo - Os supermercados brasileiros registraram, em outubro, aumento de 11,48% nas vendas reais (descontada a inflação), comparado ao mesmo período do ano passado.

Com relação a setembro, houve alta de 6,62%. Já no acumulado de janeiro a outubro, a elevação foi de 9,19%, resultado considerado o melhor entre os acumulados de 10 meses.

Em valores nominais, o Índice Nacional de Vendas da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) apresentou crescimento de 18,63% com relação a outubro de 2007 e 7,10% com relação a setembro deste ano. No acumulado do ano, as vendas aumentaram 15,30%.

De acordo com o presidente da Abras, Sussumu Honda, a alta surpreendeu o setor, que esperava detectar efeitos da crise internacional em seus números de outubro. Ele atribuiu esse resultado ao fato de que o crédito não é o principal indutor de vendas para o setor na área de alimentação. “O crescimento da massa salarial, que se situou próximo a 10%, é um dos fatores determinantes desse resultado”,afirmou.

A cesta de 35 produtos analisada pela entidade, o AbrasMercado, teve alta nominal de 2,35% em outubro ante o mês de setembro. Sem contar a inflação, o índice ficou em 1,90%. Na comparação com outubro de 2007, o AbrasMercado teve alta nominal de 17,81%, passando de R$ 218,91 para R$ 257,90. Já nos valores reais, o aumento registrado foi de 10,71%.

A pesquisa realizada pela Abras sobre as vendas de final de ano revelou que 71% dos 500 supermercadistas entrevistados aumentaram os pedidos feitos à indústria, 25% mantiveram as encomendas no mesmo patamar e 4% reduziram suas compras. Em 2007, 65% disseram ter aumentado os pedidos. Entre os produtos que devem sofrer reajustes maiores de preços, estão os produtos importados, entre os quais, os vinhos e destilados, além das castanhas, azeites e bacalhau.

Honda explicou que esse otimismo se deve aos próprios resultados vistos até o mês de outubro, além da entrada do 13o salário no mercado em novembro e dezembro, o que deve impactar no aumento das vendas no período. “Outro fator que acaba beneficiando o setor é a impossibilidade de comprar pelo crediário devido aos juros mais altos”.

Na avaliação de 75% dos entrevistados pela Abras, as expectativas são otimistas para as vendas de final de ano, com faturamento 10% maior do que em 2007. Outros 20% esperam vendas semelhantes ao ano anterior e 5% acreditam que as vendas serão 4% mais baixas.

Com relação à contratação de funcionários temporários, 57% pretendem contratar e 43% não contratarão. Segundo a pesquisa as festas de final de ano devem gerar 11 mil novas vagas nos supermercados brasileiros, com 10% desses efetivados.

Sussumu disse acreditar que as vendas fechem o ano de 2008 com crescimento de 9% a 10%. A preocupação fica por conta dos três primeiros meses do ano de 2009, já que os desdobramentos da crise mundial chegaram apenas no crédito e não ainda no consumo da população. “Nesse período já se tem uma diminuição da criação de emprego, o que impacta certamente na massa salarial”. Mesmo assim Sussumu considera que o setor continuará crescendo no ano que vem, já que o mercado de consumo interno é o que tem dado sustentação a esse crescimento.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Rodini comenta reforma e tragédia em SC

Em mais uma colaboração para o blog – na verdade duas colaborações, como se verá a seguir, o craque Jorge Rodini comenta dois assuntos que estão nas manchetes: a reforma tributária e a tragédia em Santa Catarina. Confirma abaixo o que pensa o diretor do instituto de pesquisas Engrácia Garcia.

Recente artigo publicado no jornal O Globo explicita como a reforma tributária vem sendo tratada com descaso e casuísmo no recheio de Mabel.

Reformar demanda conhecimento do que se quer alterar, sensibilidade para equalizar efeitos e custos para a população em geral e juízo para não cair na tentação do favorecimento dos amigos do Rei.

Urge diminuir a incidência de tributos, o números deles. Mas urgir não é rugir. É agir com desvelo, ética e responsabilidade no tempo necessário.

Reformar por reformar está fora do tempo. Em tempos de crise, temos que ter prudência, pois o jogo muda a toda hora. O Rei pode virar peão.

É hora de regar. É regar ou largar.

Santa Catarina sob as águas

O estado de Santa Catarina foi assolado nos últimos dias por chuvas sem precedentes, arrasando várias cidades e deixando milhares de pessoas sem teto, sem pertences e sem futuro.


Esta região formada e construída por imigrantes alemães, italianos, poloneses, portugueses é de uma diversidade ímpar no Brasil. É composta de cidades com as mais variadas vocações. Mas sempre com muito trabalho. São, normalmente, municípios bem cuidados, seus moradores receptivos, com suas inigualáveis belezas naturais.

A mesma chuva que semeia hoje traz sofrimento. Rios transbordando, falta de energia, gás natural, desabamentos, estradas destruídas. Uma tristeza catarina.

É hora de solidariedade. Muito pior que as perdas materiais de milhares de catarinenses é a constatação do aumento do número de mortos e desaparecidos. Sobrenomes diferentes para a maioria do povo brasileiro. Gente descendente de outras nações que adotaram o Brasil para seu sustento e uma nova vida. É hora de apoio... material, espiritual e político. É hora. Já faz hora.

O brasileiro, negro, branco , amarelo ou vermelho sempre foi presente ha tragédia. Um estado rico de gente, de ideal e de natureza precisa do amparo de todos os outros rincões. Não será desta vez que agiremos diferente.

O governo brasileiro precisa estar presente in loco para agilizar o trabalho de recuperação e liberação de verbas federais. E nós presentes nas doações, nas orações e no pensamento positivo.

A Catarina e seu povo têem que continuar belos e alegres. É hora. Já faz hora

Chutando cachorro morto

A mídia conservadora está aproveitando a cassação do governador tucano Cássio Cunha Lima, da Paraíba, para mostrar que também bate forte no PSDB. Ontem Ricardo Noblat escreveu sobre o assunto, aliás de forma bastante criativa, conforme se pode ler no post anterior. Hoje é a vez de Dora Kramer, no Estadão, bater firme no governador e no PSDB, mas cuidando de preservar os presidenciáveis José Serra e Aécio Neves. Bem, é sempre mais fácil surrar um paraibano cassado, que certamente vai perder o mandato. Por que essa gente não falou o mesmo antes, quando ele estava firme e forte no cargo?

De papel passado

Dora Kramer (Estadão, 26/11/2008)

Se havia alguma dúvida de que Cássio Cunha Lima é um político capaz de abusar de suas prerrogativas quando lhe convém, ele mesmo tratou de dirimi-la no epílogo do exercício de seu mandato como governador da Paraíba.

Na quinta-feira, 20, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu por unanimidade cassar Cunha Lima por uso dos recursos do Estado para obtenção de benefícios eleitorais.

Na segunda-feira, 24, a maioria governista na Assembléia Legislativa de João Pessoa fez dez sessões extraordinárias e aprovou um festival de aumentos nos gastos do estado.

Reajustou salários do funcionalismo (em alguns casos à razão de 100%), autorizou contratação de novos servidores, adiantou a aprovação do Orçamento de 2009 e, como já havia anunciado a antecipação do pagamento do 13º, deixou toda a bomba armada para estourar na mão do sucessor.

Um gesto realmente à altura do veredicto do TSE. Em português rude, o governador foi condenado à perda do mandato porque, no entendimento da Justiça, usou dinheiro público para comprar votos.

Na campanha pela reeleição, em 2006, a Fundação Ação Comunitária distribuiu 35 mil cheques no valor total de R$ 4 milhões, a título de benemerência social. Cunha Lima defendeu-se alegando completo desconhecimento a respeito da distribuição do dinheiro, uma iniciativa da diretoria da fundação ligada ao governo do Estado.

Os ministros do TSE não acreditaram na independência da entidade, cujos propósitos fizeram-se ainda mais suspeitos quando se descobriu que os recursos não se destinaram necessariamente a minorar as agruras da pobreza.

Foram achados rastros da verba no pagamento de planos de saúde, na contratação de artistas, no pagamento de TV a cabo (algo aqui soa familiar), uma situação elegantemente definida pelo ministro Eros Grau como de "marcante descontrole na distribuição de valores financeiros na proximidade do pleito".

Ainda assim, no fim de semana, entre a decisão judicial e a farra final da abertura dos cofres às corporações amigas, Cássio Cunha Lima deu entrevistas dizendo-se injustiçado: "Fui condenado pelo que não fiz."

Recebeu a solidariedade dos companheiros de partido, o PSDB, foi simbolicamente abraçado da tribuna do Senado por parlamentares de muitas agremiações, correlatas e adversárias.

Todas deixadas com cara de tacho diante do monumental recibo que Cássio Cunha Lima resolveu passar, corroborando que de fato não tem pudor em usar a máquina pública como propriedade privada.

Aproveitou os últimos momentos de posse da prerrogativa de manipular verbas públicas para armar um legado em forma de arapuca ao substituto - o segundo colocado na eleição, ex-governador José Maranhão, também alvo de processos na Justiça Eleitoral - e preparar as bases para a campanha de senador em 2010.

Pela sentença, fica inelegível só até 2009.

Popular, Cássio Cunha Lima certamente terá a legenda do PSDB garantida, votos a mancheias assegurados, cabos eleitorais desde já arregimentados entre os favorecidos pelos aumentos, um mandato praticamente conquistado e nenhuma responsabilidade sobre as contas públicas estouradas.

Seu partido, o legítimo dono do mandato, conforme recente determinação judicial, não impôs nenhum reparo. Isso a despeito de ter sido o inventor, fiador, propagador e guardião da responsabilidade fiscal.

Mas, como na política vale a regra da aplicação da lei a cada um de acordo com suas amizades, o tucanato fez-se de morto. Não deu sinal de considerar a folia paraibana nem de longe parecida com a gastança patrocinada pelo governo federal.

Quando a coisa se refere ao PT é chamada de irresponsabilidade, aparelhamento, aproveitamento, ultraje ao pudor e qualificativos assemelhados. Bem merecidos, note-se.

Agora, quando um governador do partido faz o que fez Cássio Cunha Lima pelo pior dos motivos (porque quis, podia, tinha a caneta, o Diário Oficial e a maioria na Assembléia) à disposição na praça, o PSDB chama de injustiça e presta solidariedade.

No partido que se pretende em breve de volta à Presidência da República, há os esforços dos governadores José Serra e Aécio Neves para construir a imagem de responsabilidade e eficiência. Mas há o empenho de um Cássio Cunha Lima em alimentar a face do atraso que, não tendo o repúdio da direção, lícito concluir que mereça dela aprazível acolhimento.

Quase garoto, 24 anos, Cunha Lima chegou à Assembléia Nacional Constituinte, em 1987, como uma grande promessa da nova geração de líderes. Vinte anos depois, é a materialização do espírito carcomido da velhíssima política em sua mais anacrônica expressão.

Em 1988 nascia o PSDB, produto da revolta dos modernos contra os retrógrados do PMDB. Chegou ainda verde ao poder, produziu os grandes avanços da estabilidade, das privatizações, das regras de Estado acima das circunstâncias de governo, mas quando o assunto é prática política, reza pela cartilha arrivista dos velhos coronéis.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Uma boa sacada de Ricardo Noblat

O que vai abaixo está no Blog do Noblat. Vale a pena ler na íntegra.

O que tem o PSDB a dizer sobre a farra de gastos na PB?

À falta do que fazer, digitei no Dr. Google "PSDB+aumento de gastos do governo". Apareceram 68.200 registros. Um do Diário Tucano de 8/8/2008 diz assim:

- Parlamentares do PSDB estão preocupados com aumento exagerado de gastos públicos patrocinado pelo governo Lula. A “farra” promovida com o dinheiro da população brasileira está sendo discutida pelos tucanos e deverá permanecer sendo assunto de discursos, estudos e até mesmo projetos de lei de iniciativa de deputados e senadores.
Outro do dia 02/10/2007 tem como título "Aécio critica aumento de gastos da União com funcionalismo público". É uma notícia da Folha Online. Que diz: "O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), criticou o aumento de gastos da União com funcionalismo público e também as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre choque de gestão com novas contratações.

- Minas Gerais é o melhor exemplo. Sem aumentar o número de servidores aumentamos a eficiência. Choque de gestão é gastar menos com a estrutura dos Estados e mais com as pessoas -, defendeu o governador."

Em entrevista à rádio tucana em 14 de agosto último, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso advertiu:

- Se o governo atual continuar ampliando muito os gastos públicos sem prestar atenção no que vai acontecer lá na frente, acho que o próximo presidente irá encontrar muitíssimas dificuldades. Terá que fazer um aperto nos gastos que este governo ainda não fez. Como o quadro geral mundial estará pior do que o atual, será uma herança pesada para o próximo governo. Ainda há tempo de se frear os gastos correntes.

O que o PSDB diz pela boca dos seus líderes mais emplumados não se escreve. Pelo menos a julgar pelo que fez ontem o governador cassado da Paraíba Cássio Cunha Lima (PSDB).

A poucos dias de largar o cargo, acusado de ter cometido abuso de poder econômico nas eleições de 2006, Cunha Lima resolveu deixar o governo ainda mais endividado para atrapalhar a vida do seu sucessor.

Com o apoio da maioria dos deputados estaduais, aprovou na Assembléia Legislativa do Estado um pacotaço de aumentos para diversas categorias de servidores públicos.

Somente o salário dos procuradores passará de R$ 4 mil para R$ 8 mil.

Cunha Lima antecipou o pagamento do 13º salário dos servidores. E anunciou a contratação imediata de 854 concursados na área de saúde.

O mínimo que se espera da direção do PSDB nacional é que critique duramente o comportamento irresponsável de um dos seus filiados mais notáveis.

Mas, esqueçam. Isso não ocorrerá.

Notícia que a Folha detesta dar

A reportagem abaixo, da Folha Online, revela que neste mês de novembro o número de famílias com dívidas em SP diminuiu, ao contrário do que seria esperado (e comemorado pelo jornal) em tempos de crise tão bicuda. O mais interessante é que a diminuição da inadimplência se deu em função do aumento da renda dos paulistanos, uma vez que o crédito mais caro e escasso não ajudou tanto. Na soma, é tudo que a Folha não gosta - ver a situação dos brasileiros melhor sob o governo do ex-operário Luiz Inácio. Amanhã, podem ter certeza, os leitores terão dificuldade de achar esta notícia no jornal. Vai ser pequenininho, pequenininho...

Número de famílias com dívidas em SP cai em novembro, diz pesquisa

O número famílias endividadas no município de São Paulo caiu quatro pontos percentuais em novembro, passando de 53% para 49%, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor da Fecomercio-SP (Federação do Comércio do Estado de São Paulo). Em relação ao mesmo período de 2007, houve queda de cinco pontos percentuais.

Do total de famílias endividadas, 37% estão com contas em atraso, em alta de dois pontos percentuais em relação ao mês anterior e em queda de um ponto ante o mesmo mês de 2007.

Segundo a entidade, a redução no nível de endividamento neste mês foi possível com o aumento dos rendimentos na região metropolitana de São Paulo e com a expansão da oferta de crédito. Dados do Banco Central divulgados hoje apontam recuperação do crédito bancário no início deste mês. Até o dia 12 desse mês, o estoque de crédito cresceu 2,5%.

"O resultado de novembro encontra-se num patamar favorável. A expectativa é de que o nível de endividamento dos consumidores paulistanos continue igual em virtude do aumento da massa de rendimentos, expansão do crédito e pagamento da 1ª parcela do 13º salário", informou a Fecomercio.

De acordo com a pesquisa, entre os consumidores com rendimento de até três salários mínimos, 54% têm algum tipo de dívida e 45% tem contas em atraso. Na faixa de renda de quatro e dez salários, 54% estão endividados (dos quais 36% com contas em atraso), enquanto entre que ganham mais de dez salários mínimos o percentual alcança 33% (dos quais 19% têm contas atrasadas).

Quando indagados sobre as despesas que mais afetaram as dívidas atuais, 32% dos consumidores apontaram os gastos com alimentação, enquanto para 23% estão os gastos com eletrodomésticos e eletroeletrônicos.

O cartão de crédito continua sendo o vilão para 47% dos consumidores. Com relação ao prazo médio de comprometimento da renda dos consumidores com dívidas, a maior incidência é verificada no período de mais de um ano (36%).

Entre os inadimplentes, 32% acreditam não ter condições de pagar total ou parcialmente as suas dívidas. Em novembro, 43% dos entrevistados tentaram renegociar suas dívidas com os credores contra 36% em outubro. Entre as dificuldades encontradas estão: taxa de juro elevada (52%), falta de recursos financeiros (22%), prazo de pagamentos curtos (13%) e credor não admite renegociação (6%).

A análise segmentada por sexo e idade mostra que as mulheres estão mais endividadas que os homens: 50% e 47% respectivamente. Por outro lado, na divisão por faixa etária, observa-se que os consumidores com idade entre 18 e 34 anos, 51% estão endividados enquanto os acima de 35 anos correspondem a 46%.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Como engabelar o leitor

A manchete da Folha Online é lapidar: "Dívida externa sobe para US$ 214 bi". Parece ruim, não é mesmo?

Lendo a matéria reproduzida abaixo, porém, o leitor é informado, no último parágrafo, que o Brasil continua credor externo, e não devedor. Depois dizem que é maldade afirmar que a Folha está adotando o lema "quanto pior, melhor"...

O valor da dívida externa total alcançou US$ 214 bilhões em outubro, com um aumento de US$ 1,9 bilhão em relação à estimativa de setembro, segundo dados divulgados hoje pelo Banco Central.

A dívida de curto prazo soma US$ 49 bilhões, e a dívida de médio e longo prazo, US$ 165 bilhões.

As reservas internacionais fecharam o mês de setembro em US$ 203 bilhões, uma queda de 4,3 bilhões. As vendas do Banco Central no mês passado somaram US$ 4,6 bilhões.

Apesar do aumento da dívida externa, o Brasil continua sendo credor externo em US$ 13,4 bilhões. Além das reservas internacionais em 203 bilhões, o país possuía US$ 2,66 bilhões em créditos no exterior e US$ 21,8 bilhões em haveres de bancos comerciais.

O mais querido é hexa e tri













Com uma atuação de gala de Rogério Ceni (foto), o tricolor do Morumbi botou a mão na taça. Hexacampeão - o único - e tricampeão (de verdade, três vezes seguidas, o único também). Ok, faltam dois jogos e o Grêmio ainda pode vencer o campeonato, se ganhar as duas partidas que restam e o São Paulo perder uma e empatar outra. Bem, este blogueiro, sãopaulino desde 1977, quando muito pequeno viu o falecido Chicão comandar a festa do primeiro título brasileiro no Mineirão, aposta uma caixa de Red Label que desta vez não vai dar para os gaúchos, que por sinal melaram o título nacional de 81 (sim, o blogueiro estava no Morumbi, viu Baltazar acertar um petardo que nunca mais acertou na vida, no ângulo, naquele fatídico um a zero, mas lembra também, com alguma nostalgia, que estava lá quando o glorioso Chulapa fez o que devia ser feito e acertou a cabeça do goleiro Leão com o bico da chuteira. Foi expulso de campo, claro, mas deu um ar de dignidade para a derrota. Futebol é mesmo para os fortes...).

Não, desta vez não vai dar para o tricolor portoalegrense, a taça já pode ser enviada para o Morumbi. Se o Grêmio vencer, o Entrelinhas jura que passa a fazer campanha para Serra em 2010. Sorry, mas não tem para mais ninguém, vai dar São Paulo de novo. Não apenas por isto, mas porque os outros times tem goleiros, nós temos Rogério Ceni. A elegância impede um recado mais direto a palmeirenses e corintianos e um "morram de inveja" é pouco. Muito pouco. Temos dito...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Governador tucano é cassado,
jornalões escondem a notícia

"TSE confirma cassação de governador da Paraíba". Foi com este título, em uma nota pequena, que o Estadão noticiou a decisão do Tribunal Superior Eleitoral de cassar o mandato do governador Cássio Cunha Lima, do PSDB. O Globo optou pelo título "TSE confirma cassação de Cássio Cunha Lima". Ok, o TSE só tomou a decisão tarde da noite, o que em tese justificaria o pequeno espaço. Mas o leitor há de convir que se o governador fosse do PT, o Estadão e O Globo jamais informariam apenas o Estado governado pelo cassado. Certamente estaria nos títulos o qualificativo "petista". Sendo tucano o criminoso, o partido vira mero detalhe. E para não cometer injustiças, cabe ressaltar que o título da Folha de S. Paulo traz a informação completa: "Por unanimidade, TSE cassa governador tucano da Paraíba". Fato este que pode indicar que o governador José Serra, do qual o jornal se tornou porta-voz, não gosta muito de Cássio...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Fernando Rodrigues: é proibido pensar diferente

Se o artigo de Elio Gaspari é dos bons (ver post abaixo), a Folha desta quarta-feira traz um texto horroroso de Fernando Rodrigues, que raramente escreve tanta bobagem como o fez hoje. Talvez o colunista estivesse indisposto, com problemas intestinais, mas o fato é que o artigo reproduzido abaixo é um verdadeiro festival de grosseria e intolerância que revela a cabeça preconceituosa do jornalista. Primeiro, Rodrigues preferia que não existisse central sindical alguma, quanto mais as seis "siglas" que representam os trabalhadores no Brasil. Em seguida, ele revela ser contra o "repasse do imposto sindical" - resta saber se também é contra o uso de recursos públicos para os sindicatos patronais e entidades do sistema S. Mas o pior nem é o preconceito com os sindicalistas , essa "gentinha" inculta e deselegante, e sim a desqualificação das idéias contidas no documento que será entregue ao presidente Lula. Ora, analisando todos os pontos, não há nada muito diferente do que vem dizendo, por exemplo, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, um dos economistas que a Folha tem como fonte relevante no debate sobre a crise. Aliás, se a assinatura de Belluzzo estivesse no documento, o tratamento do jornalista seria com certeza muito diferente. No fundo, criar controle sobre o fluxo de capitais externos não é "obra empoeirada de alguém enroscado numa dobra do tempo anterior à queda do Muro de Berlim" e ninguém que assina o documento deseja "enclausurar" o Brasil. Ou Rodrigues acha que é proibido pensar diferente, o que é lamentável para um jornalista de um veículo "plural" como é a Folha, ou estava mesmo apenas em um dia ruim e usou sua pena como laxante. Este blog aposta na segunda alternativa.

As centrais e suas idéias

BRASÍLIA - As centrais sindicais brasileiras enviaram uma carta a Lula. Fazem sugestões para enfrentar a atual crise financeira internacional. O documento é útil por dois motivos. Primeiro, para saber que existem seis centrais sindicais no Brasil. Segundo, por revelar o grau de desconexão da realidade por parte dos sindicalistas.

Para economizar papel e tinta, eis apenas as siglas das centrais sindicais brasileiras: CGTB, CTB, CUT, Força Sindical, NCST e UGT. A sopa de letras se robusteceu depois de Lula aceitar repassar parte do imposto sindical a essas organizações. Com dinheiro estatal, tudo fica mais simples e fácil.

Mas não tão rápido. A crise financeira entrou em sua fase aguda no início de setembro. Foram necessários mais de 60 dias para as seis centrais produzirem o seu "documento unitário", como foi batizado, e enviá-lo a Lula.

O texto parece obra empoeirada de alguém enroscado numa dobra do tempo anterior à queda do Muro de Berlim. Os sindicalistas falam sobre a "imposição dos dogmas do livre mercado" resultando em um "ambiente propício ao ganho fácil e à especulação das megacorporações multinacionais". O diagnóstico saiu na mesma semana em que o Citigroup anunciou o corte de 52 mil empregos neste ano.

Entre as 18 propostas apresentadas pelos sindicalistas, ressurgem as sombrias sugestões de "criar mecanismos de controle de fluxo de capital externo e de controle de câmbio" ou um "programa de substituição de importações para fortalecer o mercado interno".

A Grande Depressão da década de 30 se aprofundou porque os países adotaram políticas contra o comércio internacional. Essa é a receita das centrais: o Brasil deve se enclausurar e resolver as coisas sozinho. No longo prazo, o real seria extinto, estaremos todos comendo rapadura e fazendo escambo.

Gaspari dá dica para jornais econômicos

Vale a pena ler o artigo do experiente jornalista, reproduzido abaixo, publicado na Folha nesta quarta-feira. Pelo que recomenda Gaspari, os repórteres deveriam identificar suas fontes no mercado financeiro de uma outra maneira: "fulano de tal, que já perdeu xx milhões de dólares na atual crise, diz que o governo deveria fazer..."

Vacine-se contra a parolagem papeleira

Sábios coisa nenhuma, os grandes economistas geriam fundos de investimentos que viraram farofa

CRISE É UMA COISA, opção pelo engano é outra. Em 1930, afogado na crise econômica, o presidente americano Herbert Hoover avisou: "O pior já passou (...). Dentro de 60 dias a depressão acaba". (Ela duraria outros dez anos.) Infelizmente, nos períodos de dificuldade ocorre um excesso de oferta de empulhações. Noves fora bobagens marqueteiras, como a "marolinha" de Nosso Guia e a "pequenininha gripe" da comissária Dilma Rousseff, o debate da crise está contaminado pelo excesso de análises e previsões de uma cantoria viciada, interesseira e fracassada. São economistas de bancos, diretores de fundos de investimentos e de casas de quiromancia financeira que distribuem receitas com a imponência dos cardeais e eloqüência de camelôs.
Cada um tem direito de dizer o que bem entende, mas a platéia precisa se vacinar. A primeira proteção pode ser um sistema de cotas. Para cada opinião de papeleiro que uma pessoa ouve, deve fazer força para buscar outra, de alguém que produz, seja lá o que for. Leu uma entrevista de banqueiro ou de ex-diretor do Banco Central? Tudo bem, procure ouvir alguém que fabrica um prego que seja. Se não aparecer ninguém, o caixa da lanchonete serve. Como ensinava o banqueiro Gastão Vidigal, só se pode chamar de "produto" aquilo que se pode embrulhar. Preservativo é um produto. Derivativo não é.
A segunda proteção é qualitativa e exige mais cuidado. Trata-se da correta qualificação do sábio. Num exemplo: o cidadão apresenta um arrazoado dizendo que o governo deve fazer isso ou aquilo. É um altruísta e se identifica como professor desta ou daquela universidade, ou mesmo como ex-mandarim na administração pública. Tudo bem, mas se acrescentasse que enche a geladeira de sua casa gerindo um fundo de investimentos de alto risco, a choldra entenderia melhor o que diz. Mais: nestes tempos amargos, ele poderia informar que o rendimento do seu fundo perdeu para o das cadernetas de poupança e os investidores caíram fora, restando-lhe apenas 10% da carteira que tinha antes da crise. Fundos com carteiras de R$ 1,5 bilhão encolheram para R$ 150 milhões. Quem perdeu pouco, perdeu 25% do valor. Essa é uma das virtudes do capitalismo, pois o sujeito acredita numa coisa e investe nela. Se ganha, ótimo. Se perde, põe a viola no saco e sai para outra. Infelizmente existe no Brasil uma casta de infalíveis impermeáveis ao fracasso.
Nos últimos 15 anos o debate econômico brasileiro foi fortemente influenciado pelo pensamento de professores que migraram para diretorias do Banco Central ou mandarinatos nas ekipekonômicas e de lá para a banca, onde aninharam-se. Opinavam como sábios, operavam no mercado como dondocas emergentes.
Não é razoável que defendam a alta dos juros ao mesmo tempo em que aplicam na expectativa da decisão do Copom. Mesmo assim, é direito deles, pois ninguém está proibido de ser esperto. Não é justo, porém, que se apresentem como observadores neutros, sem informar à patuléia como ganham a vida.
A identificação dos legítimos interesses desses sábios certamente mostraria à patuléia o desequilíbrio existente entre a gritaria dos papeleiros e o silêncio dos empreendedores. Afinal, alguém tem que cuidar da loja.

Desemprego cai e é o 2° menor da história

Podem apostar, amanhã a notícia abaixo, na versão da Folha Online, vai sair em pé de página nos jornalões, que só têm olhos para o que de ruim acontece na economia. E provavelmente sairá com alguma conjunção adversativa do tipo "Desemprego em outubro é o 2º menor da história, mas crise já ameaça mercado de trabalho". A seguir, a íntegra da matéria.

Taxa de desemprego cai para 7,5% em outubro, segundo o IBGE

CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio

A taxa de desemprego nas seis principais regiões metropolitanas do Brasil teve pequeno recuou em outubro, ficando em 7,5%, pouco abaixo dos 7,6% verificados no mês anterior, informou nesta quarta-feira o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em relação a outubro do ano passado (9%), o índice recuou 1,2 p.p. (ponto percentual).

É o melhor resultado para um mês de outubro, e o segundo melhor da série --iniciada em março de 2002--, atrás apenas de dezembro de 2007 (7,4%).
O contingente de desocupados totalizou 1,7 milhão de pessoas no total das regiões pesquisadas. Isso indica queda de 1,8% na comparação com setembro, e redução de 11,8% na comparação com outubro de 2007.

A população ocupada somou 22,2 milhões de pessoas, variação positiva de 0,8% em relação a setembro, nas seis regiões metropolitanas pesquisadas. Na comparação com outubro de 2007, houve expansão de 4%.

Já o rendimento médio real dos trabalhadores ocupados caiu 1,3% frente a setembro, ficando em R$ 1.258,20. Na comparação com igual período em 2007, foi constatada alta de 4,5%. Os trabalhadores no setor privado com carteira receberam, em média, R$ 1.214,10 em outubro, queda de 0,4% em relação a setembro, e incremento de 4,5% na comparação com outubro de 2007. Já os empregados no setor privado, sem carteira, receberam, em média, R$ 809,30, variação negativa de 1,2% em relação ao mês anterior, e aumento de 1,6% frente a igual período no ano passado.

O emprego na indústria manteve-se estável em outubro na comparação com o mês anterior, e registrou alta de 2,2% em relação a igual período em 2007. Na construção, houve incremento de 0,6% frente a setembro, e de 8,4% em relação a outubro de 2007. No comércio, o desempenho do mercado de trabalho foi melhor, com alta de 1,7% na comparação com o mês anterior, e de 3,1% em relação a período correspondente no ano passado.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Isto é incrível: EUA ainda contam votos

Não é piada nem pegadinha, a matéria é séria, da Folha Online. Sim, no país de Bill Gates, a turma ainda não acabou de contar os votos da eleição realizada no dia 4. Hoje, dia 18, fazem exatos 14 dias que as urnas foram fechadas. Ok, o sistema funciona assim há muito tempo e os americanos não ligam muito para o tempo que a coisa leva para terminar, mas não deixa de ser um paradoxo o pessoal de lá inventar as tecnologias mais avançadas no campo da informática e não utilizar nada daquilo em seu processo eleitoral. O que também não deixa de ser um forte argumento para o pessoal que condena a urna eletrônica brasileira e diz que o método é mais suscetível à fraude do que o velho e bom papel. Bem, este blog desde já avisa que prefere apertar e confirmar e confia no sistema.
A seguir, a íntegra da matéria da Folha Online.

Resultado final das eleições segue indefinido; três senadores ainda não foram eleitos

17/11/2008 - 20h37 -
da Folha Online
O presidente eleito dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama, já está montando a equipe de governo, mas não sabe por quanto ganhou a eleição do último dia 4. Votos não contados em vários Estados não permitem fechar a conta do voto popular, e no Missouri ainda é impossível saber quem levou os 11 votos do colégio eleitoral.

Na contagem do colégio eleitoral, Obama lidera com o voto garantido de 365 delegados, contra 162 votos conquistados pelo republicano John McCain. Para ser eleito presidente, o candidato deve conseguir mais de 270 votos no órgão que de fato define o vencedor.

Outras indefinições podem ter conseqüências práticas mais sérias para o futuro governo: em três Estados, ainda não se sabe quem venceu a eleição para o Senado. São exatamente três cadeiras que faltam para que os democratas conquistem uma maioria na Casa que lhes proteja contra manobras dos republicanos para atrasar votações e tentar barganhar mudanças.

Foram disputadas 35 das 100 vagas no Senado. Somadas as cadeiras que não estiveram em disputa às já definidas, os democratas têm 57 assentos --incluídos dois independentes que se alinham com o partido-- e os republicanos, que perderam 6 vagas para os democratas, possuem 40.

Leis estaduais

As causas das indefinições residem nas formas de votação que variam entre os Estados e no acirramento da disputa em alguns locais. Neste último caso encaixa-se Minnesota, onde o atual senador, o republicano Norm Coleman conseguiu uma vantagem de 206 votos sobre o democrata Al Franken, humorista que já fez parte do programa "Saturday Night Live".

Com uma vantagem tão pequena, no universo de 2,9 milhões de eleitores, a legislação estadual determina que uma recontagem seja feita, com inspeção cédula por cédula, o que pode levar semanas.

No Alasca, outro republicano, Ted Stevens, luta para manter o lugar no Senado, que ocupa há 40 anos. O republicano há mais tempo servindo no Senado está atrás do desafiante democrata, Mark Begich, por 3.257 votos, mas cerca de 45 mil ainda precisam ser contados. São votos de pessoas que estavam fora do Alasca no dia da eleição ou que votaram antecipadamente, por correspondência.

Stevens foi condenado por corrupção oito dias antes da eleição, por ter aceitado cerca de US$ 250 mil em presentes e ajuda para a reforma de sua casa. Ele fez um grande esforço nos últimos dias da campanha, com viagens pelo Estado e anúncios na TV, dizendo que havia sido condenado injustamente e que a sentença não era definitiva.

Mesmo que vença a disputa eleitoral --o que o transformaria no primeiro condenado por corrupção a ser eleito para o Senado-- Stevens pode ser cassado pelo voto de dois terços dos senadores.

Na Georgia, Estado considerado solidamente republicano e onde McCain venceu com 52% dos votos, o senador republicano Saxby Chambliss foi surpreendido pelo democrata Jim Martin e, apesar de ser considerado grande favorito no início da campanha, conseguiu 0,2 ponto percentual a menos do que os 50% dos votos exigidos pela legislação estadual. Os dois enfrentam-se novamente em um segundo turno marcado para o dia 2 de dezembro.

Placar indefinido

A indefinição no Missouri impede que o placar exato da vitória de Obama no colégio eleitoral seja conhecido, mas os votos contados até agora apontam para uma última vitória de McCain. O republicano tem 4.988 votos de vantagem, faltando contabilizar cerca de 6.000 votos marcados até agora como "provisórios". São votos que por algum motivo, como problemas na identificação do eleitor ou ausência do nome dele na lista de eleitores registrados, não foram contabilizados ainda.

As autoridades locais têm até esta terça-feira (18) para enviar as listas com todos os votos, e as autoridades eleitorais têm até o dia 9 de dezembro para divulgar o resultado oficial.

A situação, que poderia ser dramática caso os votos do Estado fossem decisivos para definir o vencedor da eleição, afeta a reputação do Missouri como um termômetro político do país. Desde 1904, com a exceção da disputa de 1956, o Estado deu seus votos para o vencedor da disputa presidencial.

Com agências internacionais

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Folha: quanto pior, melhor

Ontem, quinta-feira, Vinicius Torres Freire, colunista e ex-editor do caderno Dinheiro da Folha de S. Paulo, escreveu a nota abaixo em seu blog, que por sinal é dos melhores na praça para acompanhar a crise financeira global - pena não ter surgido antes. É preciso ler na íntegra para entender o que vem a seguir.

Emprego em SP: não é bem assim
A indústria paulista "perdeu" 10 mil empregos, diz a Fiesp. A queda foi de 0,41% em relação setembro. "A crise chegou, começaram as demissões?". Não é bem assim. Os dados ajustados mostram que o emprego caiu na verdade 0,13% ("com ajuste sazonal"). Em relação a outubro do ano passado, o nível de emprego cresceu 3,6%. Provavelmente, assustadas com o choque, as empresas pararam de contratar, algumas talvez temporariamente, e portanto a criação de vagas não foi suficiente para compensar as perdas "normais" de empregos. Mas ainda não há uma "onda de demissões".
Obviamente os dados são ruins. Uma queda assim não acontecia faz cinco anos. Mesmo que o susto de outubro passe para algumas empresas, quase todo mundo está colocando o pé no freio, se adiam projetos novos e, enfim, as vendas em muitos setores vão ficar pelo menos estagnadas no ano que vem (como prevêem as montadoras, por exemplo). Logo, as perspectivas para o emprego não são boas. Mas os dados econômicos de setembro estão velhos e os de outubro estão muito estremecidos pelo tumulto financeiro. Está difícil ainda de saber o que se passa na economia brasileira.


Bem, isto posto, o editor da primeira página da Folha não parece levar em consideração a opinião do seu colega especialista em economia para fazer a manchete do jornal. "Indústria fecha vagas e inadimplência cresce" é o chamativo título da primeira, acompanhado do texto "A crise financeira já começou a provocar demissões na indústria paulista e a elevar a inadimplência. O nível de emprego industrial recuou 0,41% em outubro, segundo a Fiesp. É a primeira retração no mês em cinco anos. Foram fechados 10 mil postos de trabalho em outubro, mês em que as indústrias costumam aumentar as contratações para atender às encomendas de Natal", que está em flagrante contradição com a correta análise de Vinicius.

Quem acompanha os jornais brasileiros já percebeu que a direção da Folha está em verdadeiro êxtase com a crise financeira mundial e vem imprimindo no jornal um tom que beira o ridículo, pois praticamente se comemoram as más notícias. Claro, tudo isto na esperança de que a popularidade do presidente Lula seja afetada e o candidato do jornal, o governador José Serra (PSDB), acabe beneficiado eleitoralmente. Para a Folha, quanto pior para o Brasil, melhor para Serra...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Os desafios de Obama

O que vai abaixo é o artigo do autor destas Entrelinhas para o Correio da Cidadania. Em primeira mão para os leitores do blog.

O presidente eleito dos Estados Unidos vai começar o seu governo em uma situação que lembra um pouco a que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentou no início do primeiro mandato, em 2003, guardadas as devidas proporções. Naquela época, Lula pegou o Brasil em crise, com o dólar valendo quase R$ 4, uma inflação de dois dígitos, saindo de controle, o risco-país em quase dois mil pontos. O primeiro ano de governo foi dedicado a conquistar a confiança dos mercados e a política econômica adotada para conter a inflação quase provocou uma recessão - o crescimento do PIB naquele ano foi praticamente nulo (0,5%). Para a sorte de Lula, o que veio a seguir foram cinco anos de bonança, com taxas de crescimento expressivas. Politicamente, o presidente brasileiro utilizou com habilidade a idéia de que havia recebido uma herança maldita do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso mas que, apesar dos tantos problemas, botou a casa em ordem e faz o país crescer.

Barack Obama, qualquer néscio percebe, já tem a seu favor o mesmo argumento da herança maldita. O tamanho da bomba que vai cair em seu colo, porém, é muito mais assustador. Politicamente, isto tem duas implicações: o novo presidente pode passar para a história como aquele que "resolveu" ou pelo menos minorou os efeitos da maior crise do capitalismo desde 29, se não for ainda mais grave do que a de 29; ou pode simplesmente ser engolido pelos problemas na economia e terminar o mandato com imagem muito negativa, isto se terminar o mandato.

O grande desafio de Obama, portanto, está no campo econômico, mas talvez a solução dos problemas atuais esteja fora do seu alcance. Em outras palavras, não está claro se os instrumentos disponíveis hoje pelo governo norte-americano são suficientes para lidar com a situação. Isto porque por um lado a desregulamentação da economia iniciada no governo Reagan e acentuada nos últimos 8 anos sob George W. Bush retirou do Estado diversos mecanismos que permitiriam uma intervenção mais acentuada e também porque, por outro lado, boa parte da solução dos problemas está na esfera privada, isto é, não depende de ações do governo norte-americano.

Sim, da mesma fora do que ocorreu com Lula, Obama vai precisa de sorte. Se a crise financeira mundial se agravar e se transformar em uma depressão econômica, é quase certo que só depois do seu mandato, pelo menos deste primeiro, os problemas serão resolvidos ou minorados. Os mais pessimistas chegam a dizer que em caso de depressão, dias melhores só viriam em um prazo superior a 8 anos. Por outro lado, se Barack Obama tiver sorte e a crise evoluir "apenas" para uma recessão, ele pode terminar o mandato como o presidente que solucionou a tal herança maldita, e põe maldita nisto, do seu antecessor George W. Bush. Desnecessário dizer que neste caso o segundo mandato só não estaria assegurado se sua gestão fora da esfera política se mostrasse um desastre absoluto.

Se na economia Obama vai precisar agir com firmeza e torcer bastante para que o setor privado retome a confiança no sistema e volte a investir, no campo político há muito para ser feito, até porque o legado de Bush filho nesta seara também não é dos melhores. Na política interna, o novo presidente não deverá enfrentar grandes problemas, pois a maioria conquistada com as eleições deste ano pelos democratas na Câmara e Senado foi expressiva, reduzindo as possibilidades dos republicanos obstruirem matérias de interesse do governo nas duas casas. Além disto, Obama já sinalizou que tem jogo de cintura para negociar com os rivais para garantir a sua governabilidade. No fundo, os grandes problemas políticos que Bush vai deixar para Obama resolver estão no campo da diplomacia (ou falta dela). A guerra do Iraque, o modo de lidar com o terrorismo (isto inclui o presídio de Guantánamo), as sempre difíceis relações com os países muçulmanos do Oriete Médio - o Irã, em particular, e o embargo a Cuba são algumas das questões relevantes que estarão na mesa de Obama no Salão Oval da Casa Branca. E dá para avançar muito em todas essas questões, independentemente do que ocorra na esfera econômica.

Se realmente fizer um governo baseado nos slogans que adotou - Change e Yes, we can -, Barack Obama terá que romper com o atual status quo da diplomacia americana e promover mudanças em pelo menos alguns dos pontos elencados acima. Suspender o embargo a Cuba, por exemplo, tem alto custo político entre os eleitores de Miami e entre os conservadores de modo geral. Terá Obama coragem de enfrentar as resistências? Conversar com o regime de Teerã também não será nada fácil para o governo democrata, pois como reza o velho e surrado ditado, o Oriente Médio é um grande barril de pólvora e qualquer desatenção pode se transformar em conflito armado. Talvez a medida mais fácil para Obama seja mesmos acabar com a base de Guntánamo e mandar os supostos terroristas presos ali para julgamento em seus países. É uma medida até simples e que deve angariar simpatia para o presidente entre os eleitores de esquerda, dos EUA e do resto do mundo.

É claro que Obama pode surpreender o mundo e se destacar com uma política externa mais ousada, com mudanças mais profundas, mas este blog não esperaria muito tal movimento. A vitória de Obama já foi um marco simbólico considerável, mas a verdade é que não dá cavalo de pau em um Titanic como os EUA. O primeiro problema de Obama será conseguir desviar do enorme iceberg da crise financeira, coisa que Bush e sua equipe até agora não conseguiram fazer. Depois, na área política, será realmente interessante ver como Obama maneja o leme. Muito do futuro de todos nós no planeta depende desses movimentos.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Crise, que crise?

A notícia abaixo está no portal Terra e é a cara da elite brasileira. Faz lembrar um pouco Maria Antonieta – a versão moderna da rainha poderia ser algo assim: "a GM quebrou, não tem Corsa? Comprem Ferraris..."

Indústria Automobilística
Mesmo com crise, brasileiros compram mais Ferraris

Apesar da crise financeira que atinge o mundo e da recente alta do dólar frente ao real, os consumidores de alto poder aquisitivo continuaram, em outubro, a adquirir Ferraris no País. De acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores (Abeiva), no mês passado foram emplacados seis carros da marca italiana no Brasil, contra cinco em setembro.

Em outubro, foram compradas cinco F430 e uma 599. No ano, a montadora já vendeu no País 31 automóveis, com uma participação de 0,12% do total de veículos vendidos por empresas associadas à Abeiva.

Outro carro que teve alta nas vendas foi a BMW Série 3, que passou de 118 comercializados em setembro para 130 em outubro. No ano, já são 999 automóveis do modelo comprados.

O campeão de vendas entre os associados da Abeiva é o PT Cruiser, da Chrysler, que no mês passado foi adquirido por 207 consumidores (contra 214 em setembro). No ano, já foram 1.264.

As 15 marcas filiadas à Abeiva fecharam o mês de outubro com vendas, no atacado, 26,29% inferior às de setembro. Foram contabilizadas 2.616 unidades, contra 3.549 veículos no período anterior. Os dados de emplacamento, no entanto, indicam queda de apenas 8,51%. Em outubro, os importadores oficiais emplacaram 3.236 unidades, contra 3.537 em setembro último.

Ainda no atacado, as vendas de outubro - em comparação a igual período de 2007 - permanecem com taxa de crescimento. As 2.616 unidades significaram aumento de 79,5% em relação aos 1.457 veículos de outubro do ano passado. Assim como no acumulado de 10 meses, de 27.596 unidades, o porcentual de crescimento é de 206,42%. No ano passado, de janeiro a dezembro, a totalização era de 9.006 unidades.

Segundo o presidente da Abeiva, Jörg Henning Dornbusch, a associação vai manter a previsão de fechamento de vendas em 2008 em 32 mil unidades. Para tanto, no último bimestre do ano, as 15 marcas terão de comercializar mais 5 mil unidades.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ruim para a Folha, bom para o Brasil?

A manchete da Folha de S. Paulo de domingo (9/11) gritava, como se pode ver ao lado: “Funcionalismo custa mais que dívida”. So what?, diriam os americanos. Em português claro, e daí? De fato, a manchete em si não quer dizer coisa alguma, pois os gastos do governo federal com o funcionalismo podem ter superado os com “dívida”, como diz a Folha, em função ou do aumento salarial concedido aos servidores ou então porque o governo renegociou o pagamento dos débitos. Nos dois casos, a notícia seria motivo de comemoração, mas nitidamente não é este o tom da “reportagem” da Folha. No lead do texto, fica claro o tom condenatório do diário da Barão de Limeira: “Os gastos com o funcionalismo federal vão superar neste ano os encargos da dívida pública e se tornar a segunda maior despesa da União, só atrás dos benefícios da Previdência Social. Desde 2006, o Planalto aproveita os recordes na arrecadação tributária para dar aos servidores reajustes salariais muito superiores aos da iniciativa privada.”

A questão é bem simples e lembra muito o que a imprensa fez no começo do governo Collor, quando o presidente pedia apoio para a sua intenção de introduzir medidas liberais na economia e iniciar o processo de privatização que acabou sendo completado apenas sob Fernando Henrique. Naquela época, a mídia abraçou a pauta neoliberal de Fernando Collor de Mello e saiu fabricando “reportagens” para mostrar como era ruim, caro e ineficiente o serviço público. A mensagem que se passava era a de que em qualquer área, o setor privado funcionaria melhor. Bem, a atual crise financeira está servindo para desmontar este paradigma, mas voltemos à Folha de S. Paulo.

Agora, quase 20 anos depois de Collor, a Folha parece capitanear uma nova operação que visa fazer hegemônica algumas teses defendidas pelo candidato do jornal à presidência do Brasil, o governador tucano de São Paulo, José Serra. Sim, ele não é de falar muito sobre coisa alguma, mas nas recentes entrevistas que concedeu sobre a crise financeira, fez algumas ressalvas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e criticou especialmente os aumentos salariais concedidos e previstos ao funcionalismo público. Serra também não gosta da política de Lula de dar todo ano um reajuste real no salário mínimo. O governador de São Paulo prefere que o governo use esses recursos em obras de infra-estrutura, para agilizar o crescimento futuro do país. É uma tese respeitável - Lula preferiu aplicar o dinheiro na recuperação da renda dos trabalhadores com o intuito de dinamizar o mercado interno e gerar desenvolvimento “a partir de dentro”. Serra apostaria no crescimento “de fora”, a partir das receitas das exportações.

Bem, tudo isto posto, o que a Folha fez foi editorializar uma reportagem sem esclarecer o debate que está por trás da questão e tentando colocar os seus leitores – a maioria certamente trabalha no setor privado - contra o funcionalismo público. Pessoalmente, este blogueiro avalia que o governo Lula tem vários problemas, mas as melhores virtudes, ao longo desses dois mandatos, foram as políticas de recuperação do salário mínimo e dos proventos do funcionalismo público. Para quem não lembra, durante os 8 anos sob Fernando Henrique, os servidores comeram o pão que o diabo amassou. Várias categorias não tiveram nem sequer reajustes pela inflação. Quando Lula assumiu, começou a recuperar a auto estima e a renda dos servidores públicos.

No fundo, o que a imprensa gosta de chamar de “aparelhamento” na verdade é uma política voltada a trazer dignidade a quem trabalha no Estado. A mídia detesta a discussão, mas o fato é que se um país quer pensar grande, crescer de verdade, precisa de um corpo de burocratas qualificados e competentes e isto custa dinheiro. Por que um diretor de estatal deve ganhar menos do que um diretor de empresa privada? Ainda na opinião deste blog, deveria ganhar mais porque suas responsabilidades são maiores ao lidar com recursos públicos. Para a mídia, porém, servidor público é uma categoria nefasta, repleta de gente nomeada por parentes influentes, que trabalha pouco e ganha muito. Basta ver a sub-retranca “Lobby de servidores é forte no Congresso” que acompanha a matéria principal da Folha.

Seria, portanto, mais honesto o jornal paulista assumir que está a serviço de Serra ou apresentar o debate racionalmente, explicando aos leitores os argumentos de cada parte envolvida na questão e as implicações político-partidárias da questão. O que não dá para admitir é o uso de recursos emocionais para convencer os leitores de que o funcionalismo não presta ou que o governo Lula é perdulário. Não é disto que se trata.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Reinaldão se atrapalha nas contas

O jornalista Reinaldo Azevedo lida melhor com as palavras do que com os números. No comentário publicado em seu blog e reproduzido abaixo, ele refuta os argumentos expostos aqui sobre a eleição de Barack Obama. Bem, o ultraconservador colunista de Veja não percebeu que as suas próprias contas mostram que Obama venceu exatamente pelo voto dos negros, ou seja, que a questão racial teve importância, sim, na eleição. Senão vejamos, usando os números de Reinaldão:

Quantas pessoas votaram?
153,1 milhões

Quantas são negros?
13% - ou 19,9 milhões
Quantos negros declararam ter votado em Obama?
95% ou 18,91 milhões

Do total de eleitores, quantos são hispânicos?
8% ou 12,25 milhões
Quantos hispânicos declararam ter votado em Obama?
66% ou 8,09 milhões

Do total de eleitores, quantos são brancos?
74% ou 113,29 milhões
Quantos brancos declararam ter votado em Obama?
43% ou 48,71 milhões

LOGO, VOTARAM EM OBAMA
- 27 milhões de negros e hispânicos
- 48,71 milhões de brancos


Bem, tudo isto posto, qualquer criança vai entender: Obama perdeu a eleição entre os brancos. Se não tivesse conseguido os 95% entre os negros e 66% entre os hispânicos, McCain seria hoje o presidente dos Estados Unidos. É simples assim, basta supor que o candidato democrata fosse outro branco (ou a loira Clinton), que a votação entre os brancos fosse a mesma obtida por Obama e que o score entre os negros e hispânicos fosse menor, digamos que da ordem de 60% a 40% para os democratas. Fazendo a conta, teríamos o seguinte resultado: 48,7 milhões de brancos + 11,9 milhões de votos entre os negros + 7,5 milhões entre os hispânicos, totalizando 68,1 milhões de votos ou 44% do eleitorado total. John McCain estaria eleito. Em outras palavras, sem o apoio maciço de negros e hispânicos, o candidato democrata não teria vencido.

Felizmente Reinaldo Azevedo não precisa fazer muitas contas no seu dia a dia – a maior parte do tempo ele utiliza, com o talento que lhe é peculiar, para difundir as idéias ultraconservadoras pela blogosfera e nas páginas do panfletão de direita para o qual trabalha. O autor destas Entrelinhas não tem a pretensão de construir casas, mas também jamais confiaria ao colega da Veja esta atribuição. Se ele faz tamanha confusão com regra de três, imagine o leitor o que poderia acontecer nas operações mais complexas.

Por fim, este blog não acha que a maioria votou em função da cor da pele de Obama. Mas tem certeza que a cor da pele de Barack Obama motivou os eleitores negros e hispânicos a votar e na proporção que se verificou nas urnas. O blogueiro de Veja não concorda com isto e tenta bolar uma argumentação mirabolante para provar que os brancos deram a vitória a Obama. Argumentação esta que, olhando de perto, não deve convencer nem o próprio autor.
A seguir, o post original de Reinaldo Azevedo.

A FARSA RACIALISTA: OBAMA FOI ELEITO PELOS BRANCOS

A nossa sorte é que jornalistas e analistas políticos não constroem casas, ou elas cairiam sobre nossas cabeças. Também não são cirurgiões, ou arrancariam as vísceras do paciente ao tentar lhes reparar algum mal. Obama, o suposto candidato de uma minoria nos EUA, foi ELEITO PELOS BRANCOS, mas a clivagem que se faz para analisar o resultado é a racial. É UM MOVIMENTO DE ESTUPIDEZ COLETIVA. É o triunfo do politicamente correto sobre a razão. Os números são inquestionáveis. E, ademais, se é para falar em racismo, então racistas foram os negros e os hispânicos, que teriam VOTADO CONTRA UM BRANCO.

OCORRE QUE A MAIORIA VOTOU CONTRA BUSH E NÃO NA PELE DE BARACK OBAMA.
E, dados os números, quem elegeu Barack Obama presidente FORAM OS BRANCOS. Basta fazer as contas (com os dados disponíveis e segundo o voto declarado, é bom deixar claro).

Quantas pessoas votaram?
153,1 milhões

Quantas são negros?
13% - ou 19,9 milhões
Quantos negros declararam ter votado em Obama?
95% ou 18,91 milhões

Do total de eleitores, quantos são hispânicos?
8% ou 12,25 milhões
Quantos hispânicos declararam ter votado em Obama?
66% ou 8,09 milhões

Do total de eleitores, quantos são brancos?
74% ou 113,29 milhões
Quantos brancos declararam ter votado em Obama?
43% ou 48,71 milhões

LOGO, VOTARAM EM OBAMA
- 27 milhões de negros e hispânicos
- 48,71 milhões de brancos

Assim, sendo verdadeiros os dados, fica evidente que:
- os brancos elegeram Barack Obama, não os negros ou hispânicos;
- se alguém quiser falar em racismo, então é o caso de procurá-lo entre os negros principalmente, e secundariamente entre os hispânicos;

- o famoso “racismo” entre os brancos é uma questão, hoje, que tem importância apenas para a militância das minorias, como sempre. Os brancos que votaram em Obama acharam que a cor da pele não tem importância ou, vá lá, é menos importante do que as restrições todas que têm ao governo Bush.

Vivemos a era do surrealismo analítico. É uma sorte — para ele próprio — que Obama não seja tão idiota quanto seus entusiastas. Se tivesse feito o discurso racial que fazem os analistas, é evidente que não teria sido eleito. Por isso, habilmente, driblou a questão e falou sempre em superar essa clivagem. Por isso omitiu a questão até e seu discurso da vitória, preferindo reafirmar a vitalidade da democracia americana.

E como! O sistema é realmente forte. Afinal, um candidato apresentado como representante de 13% da população — de todo modo, é mentira: “metade” de Obama pertence ao grupo de 74% dos americanos — é eleito como uma impressionante massa de votos do grupo que a militância apresenta como um rival. Ele não caiu nessa esparrela. Continuo no post seguinte.

É o crédito, estúpido

Vale a pena ler a análise abaixo, sobre os efeitos da crise mundial aqui no Brasil. Originalmente publicado no Terra Magazine, o texto de Júlio Gomes de Almeida revela que o grande problema hoje na economia real do país não é propriamente esta ou aquela operação mal feita e que gerou prejuízos para algumas grandes empresas e nem mesmo a questão cambial, mas a falta de crédito para fazer a roda da economia girar. O professor é cauteloso, mas é possível vislumbrar alguma melhoria neste ponto com as medidas tomadas pelo governo e também com a fusão do Itaú e Unibanco. Se o problema for mesmo só crédito, e parece que é, dá para imaginar uma retomada mais rápida do crescimento tão logo esta questão seja sanada. Talvez os pessimistas de plantão estejam errados mais uma vez. Quem viver, verá...

Passado e Futuro do Desempenho Industrial

Nos últimos tempos, quando a crise internacional se agravou, uma sucessão de acontecimentos passou a transformar fatos recentes em coisas do passado e confunde o que antes poderia ser um sinal seguro sobre o futuro. Estamos presenciando isso no Brasil e dois exemplos nos parecem muito sugestivos.

Ontem foi divulgado o resultado da produção industrial referente a setembro que sugere que a indústria brasileira passa por uma etapa extremamente boa. Passava, seria melhor dizer, pois o crescimento da indústria de 9,8% nesse mês com relação ao mesmo mês do ano passado pode ser considerado como um reflexo de um passado próximo, porém que muito dificilmente será reproduzido esse ano e, talvez, também no próximo.

Os dados da produção industrial de setembro permitem, no entanto, estabelecer algumas hipóteses sobre como a crise poderá influenciar o crescimento da indústria. Tomemos dois setores dentre os mais destacados na explicação do crescimento industrial acumulado em 2008 de 6,5%.

Veículos automotores foi um setor que contribuiu com cerca de 25% para o crescimento da produção global. Máquinas e equipamentos representaram cerca de 12% da evolução total. Estamos falando, por conseguinte, de dois setores de um total de 27 que em conjunto comandaram quase 40% do dinamismo industrial brasileiro. Ocorre que esses dois setores estão entre os que deverão ser os mais afetados pela crise econômica.

Esta "veio de fora", mas ao contrário de que muitos imaginavam contagiou de forma expressiva as expectativas dos agentes econômicos brasileiros e a concessão de crédito no país. A confiança de consumidores e empresários sofreu um verdadeiro colapso em outubro, com reduções em torno a 10% com relação a setembro.

Isso por si só já levaria a uma menor evolução das decisões de investir dos empresários e de consumir bens duráveis por parte dos consumidores, com o impacto muito negativo sobre os dois setores líderes da expansão industrial brasileira.

O fato, entretanto, é que o quadro do contágio brasileiro, embora ainda não esteja inteiramente claro, pode se revelar ainda mais adverso, pois contaminou de forma significativa o crédito na economia. Aqui não se trata das expectativas de consumidores e empresários, mas, sim, de expectativas muito adversas com que os bancos passaram a avaliar o crédito de empresas e pessoas físicas.

Não se sabe bem a razão, mas os bancos brasileiros, que não sofreram qualquer impacto direto da crise externa, já que não tinham exposições aos ativos "podres" norte-americanos, importaram a crise de crédito e contraíram fortemente os novos financiamentos para empresas e consumidores. Também elevaram significativamente as taxas de juros e reduziram os prazos.

Esse é o dado novo da equação: ao lado da piora das expectativas dos agentes reais, há uma contração muito forte do crédito na economia brasileira, devido a uma maior aversão ao risco de crédito por parte dos bancos. Esse último componente poderá tornar a desaceleração do crescimento da indústria nesse final do ano em uma retração da produção do setor nos primeiros meses do ano que vem.

Ou seja, é a restrição do crédito que poderá levar a indústria e a economia brasileira para uma recessão. A fusão de grandes bancos, que deve ter prosseguimento, e o refinanciamento dos prejuízos dos exportadores com operações com derivativos junto ao sistema bancário são fatos novos que poderão reerguer o crédito no país e evitar um retrocesso maior da indústria e do PIB global brasileiro. Se isso não ocorrer, o governo terá rapidamente que intervir no crédito para assegurar o mínimo de acesso aos recursos por parte de empresas e consumidores.

Júlio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

Nada a ver com racismo? Obama teve
95% dos votos entre eleitores negros

Alguns colunistas conservadores, como Reinaldo Azevedo, da revista Veja, estão argumentando que a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos nada tem a ver com a questão racial. O fato de Obama ser negro seria um mero detalhe, questão menor, desimportante. Bem, contra fatos não há argumentos. Nesta quinta-feira, a Folha de S. Paulo apresenta um dado muito interessante da eleição americana. No voto popular, Obama obteve espantosos 95% de preferência entre os eleitores negros contra apenas 4% de McCain - o restante votou em algum dos candidatos independentes. Sim, é verdade que tradicionalmente os negros votam com os democratas, mas, convenhamos, 95% é muita coisa. Ademais, o comparecimento do eleitorado negro foi muito maior do que em qualquer outra eleição da história, portanto é razoável supor que os votos dos afro-americanos, para usar a expressão politicamente correta, que representam 13% do total do eleitorado norte-americano, foram, sim, decisivos na eleição. Isto para não falar dos hispânicos e latinos - 66% desses eleitores optaram por Obama. Já entre os brancos, o candidato negro perdeu - 43% contra 55% de McCain. Resta óbvio que a cor de Obama teve importância real na eleição. Só não vê quem não quer.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Barack Obama: "nossa subida
será íngreme, mas chegaremos lá"

A pedidos, a íntegra do discurso da vitória de Barack Obama, proferido na noite de ontem, após a confirmação de que ele estava eleito presidente dos Estados Unidos. É uma bela peça retórica que já entrou para a história dos EUA e do mundo.

"Oi, Chicago.

Se alguém ainda duvida que a América é um lugar onde tudo é possível, ainda pergunta se o sonho dos pioneiros ainda estão vivos em nossos tempos, ainda questiona o poder da nossa democracia, esta noite é sua resposta.

É a resposta das filas que cercaram escolas e igrejas em números que essa nação nunca havia visto. Das pessoas que esperaram três horas e quatro horas, muitas pela primeira vez em suas vidas, porque acreditavam que desta vez precisava ser diferente, que as suas vozes podiam fazer diferença.

É a resposta de jovens e idosos, ricos e pobres, democratas e republicanos, negros, brancos, hispânicos, asiáticos, índios, gays, heterossexuais, deficientes e não-deficientes. Americanos que enviaram uma mensagem ao mundo de que nós nunca fomos somente uma coleção de indivíduos ou uma coleção de Estados vermelhos e azuis.

Nos somos, e sempre seremos, os Estados Unidos da América.

É a resposta que recebeu aqueles que ouviram --por tanto tempo e de tantos-- para serem cínicos, medrosos e hesitantes sobre o que poderiam realizar para que coloquem a mão no arco da história e torçam-no uma vez mais, na esperança de dias melhores.

Faz muito tempo, porém, nesta noite, por causa do que fizemos nesse dia de eleição, nesse momento decisivo, a mudança chegou à América.

Um pouco mais cedo nesta noite, recebi um telefonema extraordinariamente gracioso do senador McCain. Ele lutou muito e por muito tempo nesta campanha. Ele lutou ainda mais e por ainda mais tempo por esse país que ele ama. Ele enfrentou sacrifícios pela América que a maioria de nós nem pode começar a imaginar. Nós estamos melhores graças ao serviços desse líder bravo e altruísta.

Eu o parabenizo e parabenizo a governadora Palin por tudo que eles conquistaram. Eu estou ansioso por trabalhar com eles e renovar a promessa dessa nação nos próximos meses.

Eu quero agradecer meu parceiro nessa jornada, um homem que fez campanha com o coração e que falou para os homens e mulheres com os quais cresceu, nas ruas de Scranton, e com os quais andou de trem a caminho de Delaware, o vice-presidente eleito dos EUA, Joe Biden.

E eu não estaria aqui nesta noite sem a compreensão e o incansável apoio da minha melhor amiga dos últimos 16 anos, a rocha da nossa família, o amor da minha vida, a próxima primeira-dama dessa nação, Michelle Obama. Sasha e Malia [filhas de Obama] eu as amo mais do que vocês podem imaginar. E vocês mereceram o cachorrinho que irá morar conosco na nova Casa Branca.

E, embora ela não esteja mais entre nós, eu sei que minha avó está assistindo, ao lado da família que construiu quem eu sou. Eu sinto falta deles nesta noite. Eu sei que minha dívida com eles está além de qualquer medida.

Para minha irmã Maya, minha irmã Alma, todos os meus irmãos e irmãs, muito obrigado por todo o apoio que me deram. Sou grato a eles.

E agradeço ao meu coordenador de campanha, David Plouffe, o herói anônimo da campanha, que construiu o que há de melhor --a melhor campanha política, penso, da história dos EUA.

Ao meu estrategista-chefe David Axelrod, que tem sido um companheiro em todos os passos do caminho. À melhor equipe de campanha reunida na história da política --você fizeram isso acontecer, e eu serei sempre grato pelo que vocês sacrificaram para conseguir.

Mas, acima de tudo, eu nunca esquecerei a quem essa vitória realmente pertence. Isso pertence a vocês. Isso pertence a vocês.

Eu nunca fui o candidato favorito na disputa por esse cargo. Nós não começamos com muito dinheiro ou muitos endossos. Nossa campanha não nasceu nos corredores de Washington. Nasceu nos jardins de Des Moines, nas salas de Concord e nos portões de Charleston. Foi construída por homens e mulheres trabalhadores que cavaram as pequenas poupanças que tinham para dar US$ 5, US$ 10 e US$ 20 para essa causa.

Ela [a campanha] cresceu com a força dos jovens que rejeitaram o mito de apatia da sua geração e deixaram suas casas e suas famílias por empregos que ofereciam baixo salário e menos sono.

Ela tirou suas forças de pessoas não tão jovens assim que bravamente enfrentaram frio e calor para bater às portas de estranhos e dos milhões de americanos que se voluntariaram e se organizaram e provaram que, mais de dois séculos mais tarde, um governo do povo, pelo povo e para o povo não desapareceu da Terra.

Essa é a nossa vitória.

E eu sei que vocês não fizeram isso só para ganhar uma eleição. E eu sei que vocês não fizeram tudo isso por mim.

Vocês fizeram isso porque entendem a grandiosidade da tarefa que temos pela frente. Podemos comemorar nesta noite, mas entendemos que os desafios que virão amanhã serão os maiores de nossos tempos --duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira do século.

Enquanto estamos aqui nesta noite, nós sabemos que há corajosos americanos acordando nos desertos do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para arriscar suas vidas por nós. Há mães e pais que ficam acordados depois de os filhos terem dormido se perguntando como irão pagar suas hipotecas ou o médico ou poupar o suficiente para pagar a universidade de seus filhos. Há novas energias para explorar, novos empregos para criar, novas escolas para construir, ameaças para enfrentar e alianças para reparar.

O caminho será longo. Nossa subida será íngreme. Nós talvez não cheguemos lá em um ano ou mesmo em um mandato. Mas, América, nunca estive mais esperançoso do que chegaremos lá. Eu prometo a vocês que nós, como pessoas, chegaremos lá.

Haverá atrasos e falsos inícios. Muitos não irão concordar com todas as decisões ou políticas que eu vou adotar como presidente. E nós sabemos que o governo não pode resolver todos os problemas. Mas eu sempre serei honesto com vocês sobre os desafios que enfrentar. Eu vou ouvir vocês, especialmente quando discordarmos. E, acima de tudo, eu vou pedir que vocês participem do trabalho de refazer esta nação, do jeito que tem sido feito na América há 221 anos --bloco por bloco, tijolo por tijolo, mão calejada por mão calejada.

O que começamos 21 meses atrás no inverno não pode terminar nesta noite de outono. Esta vitória, isolada, não é a mudança que buscamos. Ela é a única chance para fazermos essa diferença. E isso não vai acontecer se voltarmos ao modo como as coisas eram. Isso não pode ocorrer com vocês, sem um novo espírito de serviço, um novo espírito de sacrifício.

Então exijamos um novo espírito de patriotismo, de responsabilidade, com o qual cada um de nós irá levantar e trabalhar ainda mais e cuidar não apenas de nós mesmos mas também uns dos outros. Lembremos que, se essa crise financeira nos ensinou uma coisa, foi que não podemos ter uma próspera Wall Street enquanto a Main Street sofre.

Nesse país, nós ascendemos ou caímos como uma nação, como um povo. Resistamos à tentação de voltar ao bipartidarismo, à mesquinhez e à imaturidade que envenenou nossa política por tanto tempo.

Lembremos que foi um homem deste Estado que primeiro carregou a bandeira do Partido Republicano à Casa Branca, um partido fundado sobre valores de autoconfiança, liberdade individual e unidade nacional.

Esses são valores que todos compartilhamos. E enquanto o Partido Democrata obteve uma grande vitória nesta noite, isso ocorre com uma medida de humildade e de determinação para curar as fissuras que têm impedido nosso progresso.

Como [o ex-presidente Abraham] Lincoln [1861-1865] afirmou para uma nação muito mais dividida que a nossa, nós não somos inimigos, e sim amigos. A paixão pode ter se acirrado, mas não pode quebrar nossos laços de afeição. E àqueles americanos cujo apoio eu ainda terei que merecer, eu talvez não tenha ganho seu voto hoje, mas eu ouço suas vozes. E eu preciso de sua ajuda. Eu serei seu presidente também.

E a todos aqueles que nos assistem nesta noite, além das nossas fronteiras, de Parlamentos e palácios, àqueles que se reúnem ao redor de rádios, nas esquinas esquecidas do mundo, as nossas histórias são únicas, mas o nosso destino é partilhado, e uma nova aurora na liderança americana irá surgir.

Àqueles que destruiriam o nosso mundo: nós os derrotaremos. Àqueles que buscam paz e segurança: nós os apoiamos. E a todos que questionaram se o farol da América ainda ilumina tanto quanto antes: nesta noite nós provamos uma vez mais que a verdadeira força da nossa nação vem não da bravura das nossas armas ou o tamanho da nossa riqueza mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança.

Esse é o verdadeiro talento da América: a América pode mudar. Nossa união pode ser melhorada. O que já alcançamos nos dá esperança em relação ao que podemos e ao que devemos alcançar amanhã.

Essa eleição teve muitos "primeiros" e muitas histórias que serão contadas por gerações. Mas há uma que está em minha mente nesta noite, sobre uma mulher que votou em Atlanta. Ela seria como muitos dos outros milhões que ficaram em fila para ter a voz ouvida nessa eleição não fosse por uma coisa: Ann Nixon Cooper tem 106 anos.

Ela nasceu apenas uma geração após a escravidão; uma época na qual não havia carros nas vias nem aviões nos céus; quando uma pessoa como ela não podia votar por dois motivos --porque era mulher ou por causa da cor da sua pele. Nesta noite penso em tudo que ela viu neste seu século na América --as dores e as esperanças, o esforço e o progresso, a época em que diziam que não podíamos, e as pessoas que continuaram com o credo: Sim, nós podemos.

Em um tempo no qual vozes de mulheres eram silenciadas e suas esperanças descartadas, ela viveu para vê-las se levantar e ir às urnas. Sim, nós podemos.

Quando havia desespero nas tigelas empoeiradas e a depressão em toda parte, ela viu uma nação conquistar seu New Deal, novos empregos, um novo senso de comunidade. Sim, nós podemos.

Quando bombas caíam em nossos portos e a tirania ameaçava o mundo, ela estava lá para testemunhar uma geração chegar à grandeza, e a democracia foi salva. Sim, nós podemos.

Ela estava lá para ver os ônibus em Montgomery, as mangueiras em Birmingham, a ponte em Selma e um pregador de Atlanta que disse "Nós Devemos Superar". Sim, nós podemos.

Um homem chegou à Lua, um muro caiu em Berlim, um mundo foi conectado por nossa ciência e imaginação. Neste ano, nesta eleição, ela tocou o dedo em uma tela e registrou o seu voto porque, após 106 anos na América, através dos melhores e dos mais escuros dos tempos, ela sabe que a América pode mudar. Sim, nós podemos.

América, nós chegamos tão longe. Nós vimos tanto. Mas há tantas coisas mais para serem feitas. Então, nesta noite, devemos nos perguntar: se nossas crianças viverem até o próximo século, se minhas filhas tiverem sorte suficiente para viver tanto quanto Ann Nixon Cooper, quais mudanças elas irão ver? Quanto progresso teremos feito?

É nossa chance de responder a esse chamado. É o nosso momento.

Esse é nosso momento de devolver as pessoas ao trabalho e abrir portas de oportunidade para nossas crianças; de restaurar a prosperidade e promover a paz; de retomar o sonho americano e reafirmar a verdade fundamental de que, entre tantos, nós somos um; que, enquanto respirarmos, nós temos esperança. E onde estamos vai de encontro ao cinismo, às dúvidas e àqueles que dizem que não podemos. Nós responderemos com o brado atemporal que resume o espírito de um povo: Sim, nós podemos.

Obrigado. Deus os abençoe. E Deus abençoe os Estados Unidos da América.

Nos EUA, a esperança venceu o medo













Segundo as projeções da CNN e do The New York Times, Barack Obama já é o novo presidente dos Estados Unidos da América. A apuração ainda está em curso, mas as projeções indicam que ele já superou os 270 votos necessários no Colégio Eleitoral. Ao que tudo indica, será uma vitória maiúscula, com os democratas obtendo uma folgada maioria também na Câmara e Senado.

Faz poucos dias, o primeiro negro a se eleger presidente da República dos EUA afirmou: "é tempo de a esperança vencer o medo, da união vencer a divisão", lembrando um pouco o mote do presidente Lula em 2002. Felizmente, a esperança venceu, sim, o medo. Este blog torce para que Obama faça um grande governo. A herança que o novo presidente está recebendo de George W. Bush não poderia ser pior, o que torna a sua performance ainda mais importante, crucial. Que o espírito de Franklin Delano Roosevelt anime Barack Hussein Obama Jr. e que o dia 4 de novembro de 2008 passe para a história como o início de novos tempos.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Crise? Eleição nos EUA? Internautas estão
mais interessados na briga da Luana Piovani

Pode parecer incrível, mas está lá na lista das mais lidas da Folha Online, reproduzida abaixo. No dia da eleição norte-americana e em meio a tal maior crise da história do capitalismo moderno, os internautas brasileiros estão mesmo interessados é na briga das loiras Ticiane Pinheiro, filha da eterna Garota de Ipanema, com a polêmica Luana Piovani, aquela que lançou a moda da camiseta "I fucked your boyfriend". Como se pode ver, do lado de baixo do Equador ainda vai demorar um pouco para a crise chegar no povão...

1. Ticiane Pinheiro briga com Luana Piovani
2. Presidente da Ferrari exalta Massa e o chama de "campeão"
3. Guy Ritchie quer impedir Madonna de levar filhos aos EUA
4. Lucélia Santos fala sobre rivalidade com Sônia Braga
5. Justiça manda desbloquear contas pessoais do governador do Paraná

Indústria cresce, apesar da crise

Pode parecer incrível, mas a atividade industrial no Brasil cresceu em setembro, mês em que foi detonada a crise financeira global. Sim, pode ser "um último suspiro antes da morte", mas também pode ser a prova da resiliência da economia brasileira. A ver.
Abaixo, a notícia na versão da Folha Online. Como se sabe, a Folha anda um pouco decepcionada com os números da economia nacional. Adeptos do "quanto pior, melhor", o jornalão gostaria de ver o circo pegando fogo logo, até para que o seu candidato à presidência, o tucano José Serra, possa aparecer na fita como messias e salvador da economia brasileira.

Produção industrial cresce 1,7% em setembro e 6,5% sobre 2007, aponta IBGE

CIRILO JUNIOR

Apesar da crise financeira, a produção industrial do país acelerou 1,7% em setembro frente ao mês anterior, recuperando queda de 1,2% em agosto, informou nesta terça-feira o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Em relação a setembro do ano passado, foi verificada alta de 9,8%, o que indica um quadro de 27 altas consecutivas neste dado comparativo. No ano, a indústria tem incremento de 6,5%, em relação ao verificado de janeiro a setembro de 2007. No acumulado dos últimos 12 meses, a produção industrial tem crescimento de 6,8%.

Considerando só o terceiro trimestre, a produção subiu 2,7% sobre os três meses imediatamente anteriores. Trata-se do maior resultado para um terceiro trimestre desde os 2,9% registrados no fim de setembro de 2004.

Na semana passada, a FGV (Fundação Getulio Vargas) apontou que a confiança do setor caiu 11,7% no mês passado e também para os próximos seis meses. Segundo a entidade, o pessimismo e a desaceleração causada pela crise começarão a ser sentidas na produção nos números de outubro.

Segundo Isabella Nunes, gerente de análise e estatísticas derivadas do IBGE, até setembro o dado "é bastante coerente com o que vinha sendo observado nas estatísticas anteriores". "Embora alguns setores já concedam férias coletivas, esse movimento ainda tem que ser confirmado pelas estatísticas à frente", explicou.

A Pesquisa Industrial Mensal demonstra que houve alta na produção em 20 dos 27 ramos pesquisados em setembro, na comparação com o mês anterior. A principal influência veio do setor de máquinas e equipamentos (9%). Também apresentaram alta os setores de edição e impressão (8,4%), refino de petróleo e produção de álcool (3,3%) e alimentos (1,5%).

Por outro lado, os principais resultados negativos vieram das produções de outros produtos químicos (-2,3%) e metalurgia básica (-1,7%).

Entre as categorias de uso, os bens de capital tiveram alta de 3,7% em setembro, revertendo queda de 0,5% verificada no mês anterior.Os bens de consumo semi e não-duráveis registraram aumento de 1,5% na produção, após queda de 0,3% no mês anterior. A produção de bens intermediários, que havia caído 2,7% em agosto, acelerou, mas mesmo assim, teve retração de 0,1%. Os bens de consumo duráveis apresentaram alta de 0,4% em setembro.

Na comparação com agosto do ano passado, houve incremento da produção em 25 das 27 atividades analisadas. A produção automobilística registrou expansão de 20,1% nessa base comparativa. Também avançaram as produções de outros equipamentos de transporte (44,4%) e farmacêutica (29,6%).

Ainda na relação com agosto do ano passado, a produção de bens de capital subiu 25,8% e a de consumo duráveis apresentou elevação de 14,9%. Os bens intermediários avançaram 6,6% e os bens de consumo semi e não-duráveis, 7%.

Wagner Iglecias: qual PSDB?

O que vai abaixo é mais uma colaboração do professor Wagner Iglecias para o blog. Trata-se de uma análise da disputa interna tucana, na qual os governadores José Serra e Aécio Neves já começam a colocar as suas peças no xadrez pré-eleitoral de 2010. A única ressalva a fazer ao texto sempre lúcido de Wagner é sobre a possibilidade de Aécio migrar para o PMDB, hipótese que ele não considera e que este blog não apenas não descarta como começa a achar bastante plausível.

As urnas 2008 mal se fecharam e o prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, alfinetou o governador paulista José Serra dizendo que a aliança formada em torno de sua eleição, que uniu tucanos e petistas em Minas Gerais, aponta para uma conjunção de forças de centro-esquerda, ao passo que o arco de partidos que se uniu, sob a batuta de Serra, para reeleger Gilberto Kassab em São Paulo, é de centro-direita. Muito provavelmente este foi o primeiro lance do novo round, pós-eleições municipais, que José Serra e Aécio Neves, patrocinador da candidatura de Lacerda, deverão travar até a definição do candidato tucano à presidência da república.

Independentemente do fato, há que se lembrar que se Aécio fez um movimento à esquerda, juntando ao tucanato mineiro partidos como PT e PSB, em São Paulo Serra, de fato, fez caminho contrário, afinal apostou todas as suas fichas, à revelia de Alckmin, candidato oficial do PSDB, no demista Kassab, cuja origem para a vida pública encontra-se no malufismo. Mais que isso, aliou-se a Orestes Quércia, que controla a seção local do PMDB, num movimento bastante ousado, digamos assim, posto que o mote da criação do PSDB, no final da década de 1980, foi afastar a ala que se via como a mais ética do partido de figuras como, exatamente, Orestes Quércia. De fato, em torno de Kassab no embate final contra Marta Suplicy juntaram-se forças políticas e sociais bastante conservadoras.

Para além dos sentidos claramente opostos que Aécio e Serra percorreram neste processo eleitoral de 2008 em termos de aglutinação de forças políticas, há que se ressaltar que Lacerda tem uma certa razão quando chama a atenção para a necessidade de que os candidatos à sucessão de Lula busquem formar amplas alianças não apenas eleitorais, mas sobretudo políticas. E chamou atenção para o fato de Minas Gerais ser, historicamente, um estado que gera políticos habilidosos, bons negociadores, voltados ao entendimento, e não ao confronto.

Sim, isso faz parte da “mitologia” política brasileira. Mas, no caso de Aécio, parece ir além do mito. O governador mineiro foi um hábil presidente da Câmara dos Deputados, transita bastante bem em quase todo o espectro partidário brasileiro e parece representar uma fatia da oposição que saberá valorizar o que de positivo ficará do legado do governo Lula, ao passo que no entorno de Serra, a partir de São Paulo, vão se aglutinando forças políticas e sociais bastante refratárias aos pilares do atual governo.

A impressão, grosso modo, é que dentro do PSDB podem estar se consolidando, desde já, um pólo voltado ao futuro, pautado numa espécie de era pós-Lula, e outro nem tanto. Daqui até a eleição presidencial há muito por acontecer, mas é inegável que boa parte do que se verá na disputa de 2010 passa pela luta que se trava dentro do PSDB.

Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Itaú e Unibanco juntos: é bom para o Brasil?

O anúncio da fusão do Itaú e Unibanco pegou muita gente de surpresa, embora os bancos tenham afirmado que já vinham negociando a operação há 15 meses. Na verdade, boatos sobe a venda do Unibanco correm na praça há muito anos, a grande dúvida sempre foi a respeito de quem seria o comprador. As apostas variavam entre Itaú, Bradesco e alguma instituição financeira estrangeira. No caso da disputa ficar entre os bancões nacionais, todos sabiam que o Unibanco era o diferencial que faria do comprador o maior banco do país, superando até o Banco do Brasil. Pois foi exatamente o que aconteceu - o Itaú Unibanco agora somam, em ativos, R$ 575 bilhões contra R$ 403,5 bilhões do Banco do Brasil e R$ 348,4 bilhões do Bradesco, de acordo com dados de junho do Banco Central.

Em alguns sites já tem gente criticando a "concentração" do setor bancário nacional com a fusão. Ora, vamos ser claros aqui. Em primeiro lugar, embora o Unibanco afirme que "estava conversando" com o Itaú há 15 meses, é razoável supor que a crise financeira internacional deve ter colaborado para acelerar o processo. Ademais, em uma operação complexa como a fusão de dois grandes bancos, é claro que não dá para falar em "comprador" e "comprado" como em uma venda de automóvel, mas também não dá para não enxergar o óbvio: o Itaú era o maior dos dois e ficou muito maior com a, digamos assim, incorporação do Unibanco, deixando a concorrência para trás. Bem, tudo isto posto, vamos ao que interessa. A operação é boa para o Brasil em primeiro lugar porque evitou uma eventual quebra de uma instituição financeira importante – o Unibanco. Também é bom para o Brasil ter um grande banco privado competitivo no mercado internacional e com a fusão o Itaú passa a ser o sexto maior das Américas e o maior do Hemisfério Sul.

É evidentente que a maior concorrência em geral beneficia os clientes-consumidores, mas é preciso ir devagar com o andor. Hoje o Itaú Unibanco tem como grandes competidores o BB, que é uma potência, o Bradesco, até ontem o maior banco privado do país, e o Santander, que conta com a força da matriz e tem planos de expandir suas operações no Brasil após a absorção do Real-ABN Amro. Além disto, segundo tantos analistas econômicos muito mais qualificados do que o autor deste blog, a crise financeira mundial é avassaladora e tem como consequência óbvia a concentração das instituições financeiras. Ao final do processo, muitas terão quebrado ou sido incorporadas por instituições maiores, em uma reedição do darwinismo na economia - os mais fortes sobrevivem, os mais fracos sucumbem. Que este movimento esteja acontecendo no Brasil sem a ajuda de recursos públicos é uma excelente notícia. Por toda esta soma de fatores, resta claro que a espetacular fusão anunciada nesta manhã de novembro é, sim, muito boa para o Brasil.