sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ainda sobre Serra e Aécio

Um leitor deste blog fez um comentário muito interessante na nota postada aqui sobre as confusões da oposição. Diz ele que o governador José Serra é um político hábil. O argumento é bom e a discussão, válida. O autor destas Entrelinhas reconhece algumas qualidades em Serra - salvo exceções como a de Geraldo Alckmin, ninguém chega ao governo de São Paulo por acaso. Obstinação e capacidade gerencial são algumas das qualidades do governador de São Paulo, na humilde opinião deste blogueiro. Habilidade política, porém, não é, definitivamente, o forte de José Serra. Os exemplos apresentados pelo leitor são fortuitos e constituem justamente a exceção, e não a regra, no caso de Serra. Quem cobriu a campanha de 2002 pôde perceber, bem de perto, o quão inábil politicamente Serra foi (e é). Tudo ali foi um desastre, da postura do então candidato em negar ser a continuidade da gestão Fernando Henrique ao estilo "trator" na montagem da aliança. Tudo deu errado em 2002 e a culpa deve ser atribuída ao candidato, que inclusive nem era o melhor nome do PSDB para enfrentar Lula naquele momento. Depois, em 2006, Serra mostrou de que não pode mesmo ser considerado um político hábil: que outro homem público tomaria uma bola entre as pernas de ninguém mais, ninguém menos do que Geraldo Alckmin? A aliança com Quércia foi uma boa jogada em 2008? Certamente, ajudou a eleger Gilberto Kassab, mas em uma eleição nacional Quércia talvez traga mais prejuízo do que benefício a ele, Serra. A ver, mas de qualquer maneira, o blog discorda da avaliação de que Serra é um "gênio da raça". É só um político menor, à antiga, hoje vivendo de seu recall para garantir a vaga de candidato à presidência do Brasil em 2010. Ah, e um político "que se acha", como diria a filha do blogueiro.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pausa esportiva complementar

Fim da rodada, o Palmeiras fez bonito e recuperou a liderança do brasileirão. Justo, o escreve alviverde jogou bem e fez por merecer. Neste final de semana, porém, o tricolor do Morumbi pega, em casa, o Grêmio "mala branca" Barueri. Jogo de pouco risco, até porque a turma do Cruzeiro vai pensar duas vezes antes de mandar a mala para os linguarudos... Já o Palmeiras enfrenta Ronaldo, Dentinho e companhia. Parada dura, óbvio. Bem, o autor deste blog confessa que está prestes a viver uma experiência inédita na vida: torcer para o Timão. Vai tentar até cantar aqueles incompreensíveis gritos de guerra. Somos curintians desde criancinhas neste domingo, vamos até montar um esquema especial para evitar que Ronaldo curta a balada de sábado. E mais não dizemos porque não se faz necessário. Timão ê ô, Timão, ê ô!!!

Aécio, Serra e a confusão na oposição

O noticiário político dos últimos dias dá conta de uma verdadeira guerra aberta no campo oposicionista pela definição da candidatura presidencial para a sucessão do presidente Lula. É preciso ir devagar com o andor, no entanto, ao analisar os movimentos dos protagonistas desta disputa: os governadores Aécio Neves, de Minas, e José Serra, de São Paulo. Um amigo deste blog com bastante informação na aliança demo-tucana diz que muito do que Aécio vem fazendo é jogo de cena ou, para ser mais preciso, a velha estratégia de criar dificuldade para vender facilidade. Pode perfeitamente ser isto mesmo. O problema, na humilde opinião do autor destas Entrelinhas, não está em Aécio, mas na conhecida inabilidade política de Serra. Para usar uma analogia tão ao gosto do presidente Lula, Serra, da mesma maneira que o Palmeiras atual, tem dificuldades de jogar sob pressão. Em 2006, pressionado por Geraldo Alckmin, o governador paulista deu adeus à candidatura presidencial.

O cenário agora é ainda mais delicado: além de necessitar de muita articulação política e jogo de cintura, Serra tem pela frente um adversário em seu partido que é muito, mas realmente muito mais preparado do que Alckmin. Não dá nem de longe para comparar Aécio, que vem da fina flor da política brasileira, com Geraldo, ele sim, uma espécie de Forrest Gump da vida pública nacional - só se tornou governador porque Mário Covas morreu e depois conquistou espaço fazendo pose de bom moço e com frases de efeito do tipo "vamos amassar o barro"...

Isto significa que Aécio pode dar um xeque-mate em Serra? Sim, mas é preciso primeiro saber se este é de fato o desejo do governador mineiro ou se ele está apenas fazendo jogo de cena para se cacifar em Minas ou garantir espaço em um eventual governo Serra. Este blog aposta apenas que Aécio não será vice do governador paulista, nem que Fernando Henrique lhe peça isto de joelhos. Como todo bom político, Aécio pensa primeiro em sua carreira, em segundo lugar na sua carreira e, finalmente, na sua própria carreira. Carreira política, que fique bem claro.

Mesmo que Aécio esteja jogando para o público interno e sua estratégia passe longe da disputa presidencial, é bom não dar como favas contadas a candidatura de Serra. O governador pode perfeitamente se atrapalhar sozinho e coisa acabar descambando para uma definição em torno do nome de Aécio. A ver, como se diz com muita frequência nas redações de jornais...

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Pausa esportiva: suínos sob pressão

Nenhuma surpresa para quem acompanha este blog: o São Paulo dormirá líder do campeonato brasileiro. Amanhã o Palmeiras vai a campo e poderá retomar a liderança, basta vencer o Goiás. Se empatar, ficará junto com o tricolor no primeiro lugar da competição. O problema todo é que o escreve verde a partir de agora estará sob intensa pressão. Basta não sair gol nos primeiros 15 minutos e a torcida começará a "cornetar" o time. Se por acaso o adversário largar na frente, serão ouvidos os gritos de "Fora, Muricy!". É assim que as coisas funcionam do Parque Antártica. Enquanto isto, no Morumbi o jogo é outro, o time está embalando e cada dia que passa fica com mais cara de campeão. Não é que o mais querido seja tão melhor que as demais equipes, a questão é que o SPFC é o único com elenco diversificado e capaz de dar conta do recado em um campeonato longo, sem mata-mata e outros quetais. Nesta hora, a qualidade e a organização do clube fazem toda a diferença. É, o tetra, ou hepta, está chegando. Sorry periferia, mas é simples assim, e só não vê quem não quer.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Uma notícia, duas versões

No G1, portal da Globo:

Juros bancários de pessoa física são os menores da história, diz BC
No mês passado, juros de pessoas físicas caíram para 43,6% ao ano.
A série histórica do Banco Central tem início em julho de 1994


No UOL, portal da Folha:

Economia

Dados indicam aumento dos juros em outubro, diz BC


É claro que nenhuma das duas notícias é mentirosa. O Globo destacou o recorde de baixa em setembro, a Folha preferiu o aumento da taxa em outubro, justamente para esconder o recorde atingido no mês anterior. Quem escolhe os títulos sabe bem o que está fazendo, sempre. O leitor pode tirar as suas próprias conclusões.

domingo, 25 de outubro de 2009

Pausa esportiva: sim, o campeão voltou

Agora faltam apenas dois pontos. O Atlético Mineiro tem um a mais, o Internacional está empatado. Mas o que se viu hoje na Vila Belmiro foi mais um exemplo de superação que leva qualquer analista isento, como este blogueiro, a perceber que o São Paulo está com a mão na taça. Basta agora um pouco de paciência - Palmeiras e Galo não vão sustentar o resto do campeonato sob pressão. O Santos era, sim, o adversário mais complicado da série final. Palmeiras terá jogos complicados pela frente e está sem rumo, com um centroavante que ganha o dobro do goleiro Marcos - este tipo de coisa desestabiliza qualquer ambiente em clubes de futebol. E o Galo... sorry, periferia, mas Celso Roth não vai ser campeão, não tem estrela nem seu time aguenta uma série regular até o final da competição. No fundo, só uma coisa pode tirar o título do São Paulo: o apito amigo (dos adversários). Se o Flamengo vencer hoje, a cariocada pode pesar na reta final, embora o tricolor tenha demonstrado neste domingo que consegue, inclusive, vencer jogando contra 12 - os 11 adversários mais aquele janota de camisa amarela que deu o vermelho ao melhor goleiro do Brasil.

sábado, 24 de outubro de 2009

DDA ou BBB?

Abaixo, outra matéria do Valor de quinta-feira que merece ser lida para todos os que estão pensando em registrar-se no novo sistema de débito eletrônico oferecido pelo sistema bancário. A reportagem é boa, mas o editor não percebeu que o lide era outro, havia um enfoque muito melhor para o material apurado pelo repórter. Afinal, está lá explicadinho que o interesse dos bancos é a informação, e não a economia de custo que o sistema vai proporcionar. Informação sobre a vida financeira das pessoas (e empresas) que se cadastrarem, pois será possível perceber não apenas os valores pagos, mas se estão em dia e quem está recebendo. O tal DDA, portanto, tem mais a cara de um sistema do tipo "Big Brother", em que os bancos poderão calibrar a oferta de crédito de acordo com o perfil dos clientes. Para quem paga tudo em dia e gasta bastante, uma maravilha. Já para quem luta para fechar o mês, o melhor é ficar no velho e bom boleto de papel...


Boleto digital leva bancos a corrida por clientes

Fernando Travaglini, de São Paulo

Os bancos iniciaram uma corrida pela conquista de clientes para o recém-criado mercado de boletos eletrônicos. As informações geradas pelo sistema de Débito Direto Autorizado (DDA), que entrou em vigor na segunda e permite o pagamento de contas de forma totalmente eletrônica, valem ouro para as instituições, abrindo novas e promissoras possibilidades de negócios financeiros.

Não se trata apenas de economizar com o custo de impressão e postagem do título de cobrança em papel - esse é o impacto menos relevante da novidade. Os bancos que conseguirem registrar o maior número de clientes em seus sistema DDA terão maior poder de barganha para negociar a gestão do caixa de empresas, o que inclui sistemas de cobrança e recebimento.

Por outro lado, os bancos passarão a ter acesso a todas as informações de pagamento dos clientes cadastrados na sua base, independentemente do banco que emitiu o boleto. E isso criará uma ferramenta poderosa de análise de crédito. Hoje, cada banco só consegue visualizar os dados de pagamento de títulos das empresas que usam o seu serviço de cobrança.

Assim, quanto mais clientes cadastrados na sua base, mais informação os bancos acumulam em seus bancos de dados, seja para análise de crédito, seja para definição de estratégias de negócios. Isso explica toda a corrida e investimento para registrar o maior numero de clientes. "A informação tem muito valor", diz o gerente da Diretoria Comercial do Banco do Brasil, Sidney Passeri.

O BB diz que já está chegando em 500 mil clientes cadastrados. O Bradesco fala em 415 mil e o Itaú Unibanco passou de 300 mil. A soma dos três maiores bancos do país já supera o número consolidado divulgado pela Febraban, na segunda-feira, de 1 milhão de cadastrados. Uma atualização oficial dos dados só será feita em algumas semanas pela federação que reúne os bancos.

O investimento em publicidade para conquistar adeptos é pesado. Só o Bradesco, que foi o primeiro a fazer anúncio na TV, investiu R$ 8 milhões em anúncios, um valor "muito representativo", segundo o diretor de marketing Luca Cavalcanti. "Fizemos um filme de um minuto, que é uma mídia cara, e com entrada em horários nobre", diz.

Os executivos dos bancos explicam o que as informações geradas pelo DDA representam estrategicamente. "Hoje vejo quem paga em dia as cobranças do Banco do Brasil. Agora, surge outra dimensão, porque vejo se o sacado eletrônico cadastrado no DDA do BB paga em dia todas as suas faturas. Terei uma visão de crédito completa dele. Essa é uma informação diferente para análise de crédito", completa o executivo do banco estatal.

Segundo ele, "saber quem paga e para o que paga" faz parte hoje da inteligência de mercado. "Alguém que paga um plano de saúde de R$ 1,8 mil tem alto poder aquisitivo. Podemos criar estratégias para diferenciar as pessoas pelo potencial de consumo e oferecer outros produtos específicos para cada segmento", diz.

Mas o valor da informação não fica restrito ao varejo. Com uma empresa usando os serviços de cobrança, como a gestão de pagamentos e recebimentos ("cash-management") cadastrado no banco, as instituições financeiras passam a ter uma visão mais completa do fluxo de caixa de cada companhia e, por consequência, dos seus faturamentos e recebimentos futuros.

Esse conhecimento é fundamental para o banco definir os limites de crédito para a empresa, especialmente as pequenas e médias, cujas demonstrações financeiras não são tão apuradas. "Essa informação é usada como garantia de crédito e pode levar a reduções dos spreads das linhas", diz Sandra Boteguim, diretora de produtos pessoa jurídica do Itaú Unibanco.

Nesses casos, a grande vantagem é que com o DDA as cobranças serão registradas automaticamente. Hoje, muitas empresas não registravam suas cobranças nos bancos, emitindo boletos sem cadastrar os dados no banco. A companhia adquire um software do banco, com dados já configurados e ela mesma imprime e envia a cobrança, como é o caso, por exemplo, dos condomínio e até de muitas escolas. O banco só fica sabendo da conta na hora do pagamento.

Em média, o percentual de títulos emitidos pelas próprias empresas fica na casa dos 40%, mas em alguns bancos, pode atingir 70% do total de boletos. Com o DDA, a tendência é de migração de boa parte para o sistema automático, daí o esforço das instituições financeiras em atrair as empresas para o novo modelo de cobranças. "Haverá um controle mais efetivo do fluxo se a cobrança do cliente for feita pelo banco, o que facilita o desconto de recebíveis", diz Paulo de Tarso Monzani, diretor da área de comercialização de produtos e serviços do Bradesco.

A cobrança é algo praticamente exclusivo do Brasil, um sistema sofisticado construído ao longo de décadas. Segundo a diretora do Itaú, o modelo hoje é tão complexo que seria muito difícil começar algo assim do zero.

Na corrida por clientes do DDA, os bancos também estão agregando serviços para se diferenciar, já que esse produto é uma "commodity". O Santander integrou os limites do cheque especial - com dez dias sem juros - e do capital de giro para cobrir eventual falta de saldo na conta do devedor na data do pagamento. "O prazo da cobrança, agora, pela agilidade do DDA, pode ser mais curto. Pode entrar num dia e cobrar no outro. Por isso oferecemos dez dias sem juros para cobrir um eventual problema de caixa que o cliente tenha", disse Leonardo Ribeiro, superintendente de Produtos do Grupo Santander Brasil.

Já o Banco do Brasil está em fase final de teste de um sistema de desconto de duplicatas de maneira eletrônica para fornecedores de grandes empresas.

Uma boa análise sobre a oposição e o
cenário eleitoral: este filme já não passou?

Saiu no Valor Econômico de quinta-feira a excelente análise da repórter especial Maria Inês Nassif, reproduzida abaixo para os leitores do Entrelinhas. A jornalista apenas preferiu omitir, propositalmente ou não, que a situação hoje é muito parecida com a de 2006, quando o PSDB titubeou, não conseguiu decidir o candidato à presidência e depois amargou uma derrota em um cenário que a oposição imaginava bem favorável eleitoralmente - Lula vinha arranhado pelo "mensalão" e estava no ponto mais baixo de sua popularidade. Deu no que deu. Agora, com o presidente experimentando níveis inéditos de aprovação, as coisas caminham no PSDB praticamente do mesmo jeito - Aécio hoje é o Alckmin de ontem -, com a diferença básica de que também o DEM está dividido sobre a melhor opção para 2010. Vale a pena ler o texto na íntegra.

Rodrigo Maia não é do bloco do eu sozinho

Maria Inês Nassif

O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), foi condenado por seus pares menos pelo conteúdo de suas declarações do que pelo fato de tê-las feito. O fato de o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), adiar a sua decisão de ser - ou não - candidato à Presidência da República tem provocado incômodos coletivos no partido de Maia. O DEM declarou que é aliado do PSDB seja qual for o candidato e propôs-se a abrir mão da vice-presidência de uma chapa, se o PSDB considerar eleitoralmente mais interessante uma chapa puro-sangue, com Serra na Presidência e o governador de Minas, Aécio Neves, na vice, em troca do apoio em seis Estados onde vai disputar o governo com mais chances que os tucanos. As demonstrações de apoio incondicional, todavia, não foram suficientes para fazer o aliado se definir. Com expressão eleitoral cada vez mais reduzida devido ao crescimento dos partidos que apoiam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Norte e no Nordeste, todavia, suas urgências são maiores do que as de seu parceiro.

O presidente do DEM disse que a oposição está no pior dos mundos porque não tem candidato, enquanto o governo tem candidata, a ministra Dilma Rousseff (PT), e ela avança eleitoralmente. Sem definição do nome nacional, a montagem dos palanques estaduais tem andado devagar, disse o parlamentar. Além disso, avaliou que o melhor candidato seria o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), pelo fato de conseguir transitar em posições que não sejam de simples confronto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O problema de Maia ter falado isso é que ele é o presidente do DEM e por ele terão de passar as negociações com o partido de Serra. Nas eleições de 2002, o confronto entre o então presidente do PFL, Jorge Bornhausen, e o candidato tucano Serra, rachou os aliados e reduziu, em consequência, as chances de vitória do então candidato da situação do governo Fernando Henrique Cardoso. Desde então o DEM, ex-PFL, está apartado do poder e mantém a duras penas uma estrutura partidária com grandes dificuldades de sobrevivência na oposição. O partido encolheu nos últimos sete anos. E tem razões para acreditar que, se por um lado estar com o PSDB é o único caminho de que dispõe no momento para voltar a ser governo, ao mesmo tempo é uma grande parte de seu problema.

Essas não são posições e avaliações minoritárias no DEM. O desconforto com a falta de pressa na definição do candidato tucano é disseminado. E as reticências em relação a Serra se ampliam. Existem razões para isso. As pesquisas que o partido tem feito não autorizam a direção do DEM a imaginar que a candidatura de Serra vá ser um passeio. Não é nada, não é nada, Dilma Rousseff é a candidata de um presidente que tem por volta de 80% da aprovação nas pesquisas de avaliação do governo. Considera-se que o poder de transferência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não foi exercido: somente agora, e depois de um tratamento de saúde relativamente longo, Dilma está agindo como candidata, e com uma desenvoltura inesperada para uma neófita em política eleitoral. O poder de Lula sobre o PT e uma disciplina partidária que não é comum, por exemplo, num PSDB, têm agido favoravelmente também no sentido de criar para a candidata palanques relativamente sólidos nos Estados. O fato de o governo ter conseguido formalizar, a quase um ano das eleições, um acordo entre o PT e o PMDB - mesmo que a direção do PMDB ainda deixe pendente a ratificação da convenção nacional ao acordo - já é uma façanha. O natural, nessa circunstância, será os índices de intenção de voto em Dilma subirem. Esse é o momento dela, que se aproxima sem qualquer resistência do outro lado, já que a oposição não tem candidato colocado. O outro ponto é que, como depositária da transferência de votos de um presidente popular, Dilma tende a ganhar votos quando a disputa se acirrar e se polarizar. Com base nesse raciocínio, cresce a preferência por Aécio Neves, candidato com menos vocação para o confronto.

A banda governista da disputa andou rápido e o presidente Lula é o melhor eleitor do pleito de 2010. O PSDB pouco andou, apesar das facilidades abertas pelo DEM e pelo PPS, seus aliados declarados. O trunfo da candidatura Serra, que são os votos tucanos em São Paulo - Estado que tem quase um quarto do eleitorado nacional e onde o PSDB tem uma certa hegemonia -, começa a ser também um incômodo para o DEM. São Paulo é o Estado em que o partido reúne condições de crescer a sua bancada - sem bancada forte, o partido não conseguirá reassumir o seu protagonismo na vida nacional, mesmo se o PSDB vencer as eleições presidenciais. Todo o esforço eleitoral do DEM, todavia, caminha sobre uma verdade inexorável: os dois partidos se aproximaram tanto ideologicamente que crescem somente à custa do outro. São interesses quase inconciliável os dos candidatos a deputado federal dos dois partidos. Se, do lado do PSDB "serrista" de São Paulo, o chefe segura a divisão, do lado não serrista, identificado como partidário do ex-governador Geraldo Alckmin, o conflito está latente.

Alckmin, segundo as pesquisas do DEM, é o candidato com grandes chances de vitória na disputa para o governo do Estado. Outras opções abrem espaço para o PT, que nunca ganhou o governo, ou com candidato próprio, ou apoiando o deputado Ciro Gomes (PSB). O problema é que a vitória de Alckmin tem o efeito colateral de afastar qualquer pretensão política do prefeito da capital. Alckmin vencendo, é quase o fim de carreira de Kassab: o ex-governador disputaria a reeleição em 2014 e abriria espaço para o demista apenas a partir de 2018. Até lá, qualquer projeção que tenha ganhado à frente da prefeitura já terá sumido da memória do cidadão paulista. Um caminho mais seguro poderia ser o de projetar estadualmente o prefeito, lançando-o candidato ao governo e rachando o palanque paulista de Serra, sem chances de vitória, mas produzindo bancada e "recall" para as eleições seguintes. O partido elegeu 65 deputados federais em 2006. Na melhor das hipóteses, e somente se Kassab for candidato ao governo, imagina-se fazer o mesmo número no ano que vem. Sem Kassab como candidato, a perda pode ser grande.

Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pausa esportiva extraordinária

A esta altura, a pergunta que não quer calar é uma só: estarão em dia os salários do escrete alviverde do Parque Antártica, nesta noite alvejado de morte por Marcelinho e sua turma? Sim, este blog errou na previsão de mês atrás, mas agora reitera: o tetra (ou hepta) está baba para o tricolor. Nem precisa fazer tanto esforço, basta agora fritar o peixe e embalar. Os leitões tiveram uma chance, perderam o elã, como dizem os doutos, isto é, estão ajudando, igualzinho fez o Grêmio no ano passado. Está mesmo com cheiro de hepta no ar...

Blog de direita chama Serra de Nosferatu

Este blog prometeu não mexer muito com Nivaldão Cordeiro, o direitoso do Mídia Sem Máscara que se arma de argumentos fortes no debate político. Não dá para não reproduzir, porém, o texto abaixo, está um primor, talvez seja a peça de humor político mais importante do ano. Segundo o autor, há um acordo sendo tramado para que "a esquerda" permaneça no poder com Serra na presidência e o PT no governo de São Paulo. Ademais, ele qualifica a família Moreira Salles, que publica a revista Piauí, de banqueiros que abraçaram a causa esquerdista!! Alguém já avisou os Setúbal? Enfim, realmente não dá para não ler. É de rolar de rir.

O Brasil elegerá Nosferatu?

Nivaldo Cordeiro | 17 Outubro 2009

José Serra é um desenvolvimentista marxista convicto, à moda dos anos cinqüenta e, se eleito presidente, não hesitará em pôr em prática as suas crenças. Elas são o receituário consolidado da teses do PCB, do ISEB e da CEPAL. Não por acaso a narrativa de Daniela Pinheiro registra que o único ser que ousa fumar na frente do Serra, na sala dele, é João Manuel Cardoso de Mello, aquele mesmo que concebeu o Plano Cruzado.

serra"O Serra é uma alma atormentada"
Fernando Henrique Cardoso

Meu caro leitor, confesso-lhe que fiquei fortemente impressionado com a reportagem trazida a público pelo último número da revista Piauí. Claramente na origem a matéria tinha puro objetivo propagandista eleitoral, mas a jornalista que a escreveu é demasiado talentosa e conscienciosa para se limitar a fazer um mero panfleto. Acompanhou José Serra por mais de um ano e trouxe à luz flashes valiosos, não apenas para o eleitor brasileiro, como também para quem se debruça cientifica e profissionalmente sobre a cena política brasileira.

Muita gente não conhece a revista Piauí. Eu habitualmente não a leio, pois a acho uma publicação insossa e pretensiosa, recheada de conteúdo para diletantes da esquerda tida por mais culta e sofisticada. É editada por Mario Sergio Conti, talentoso jornalista que passou por vários órgãos de imprensa e escreveu um livro magnífico (NOTÍCIAS DO PLANALTO). É propriedade de gente ligada a uma família de conhecidos banqueiros que abraçaram a causa esquerdista e transitam em meio à esquerda revolucionária brasileira e mundial com desenvoltura. Este número da revista está especialmente ótimo, com a matéria sobre José Serra e com um ensaio magnífico do peruano Mario Vargas Lllosa sobre a arte de escrever romance. A página de poesia nos apresenta uma poetisa, Rose Ausländer, que escreveu no idioma alemão. Vale conferir. Na internet os poemas estão abertos ao público não assinante, bem como seu resumo biográfico.

Mas o relevante é a matéria com o Serra. Ela traz nuances psicológicas assustadoras do governador de São Paulo e um retrato biográfico primoroso do político da Mooca. Enganam-se os que pensam que José Serra tenha qualquer vestígio do que poderíamos chamar de político de direita. Ele mesmo declarou: "O governo Lula é de esquerda? Não dá para falar nisso. Com o significado do passado, eu estaria à esquerda do PT. Desenvolvimento virou coisa de esquerda. Política econômica é quase subversiva".

Nesta frase está contida a sua psicologia e o seu dégradé político. José Serra é um desenvolvimentista marxista convicto, à moda dos anos cinqüenta e, se eleito presidente, não hesitará em pôr em prática as suas crenças. Elas são o receituário consolidado da teses do PCB, do ISEB e da CEPAL. Não por acaso a narrativa de Daniela Pinheiro registra que o único ser que ousa fumar na frente do Serra, na sala dele, é João Manuel Cardoso de Mello, aquele mesmo que concebeu o Plano Cruzado. Sarney levou a fama de ter feito explodir a inflação, mas foi este indigitado senhor, auxiliado pelo Luiz Gonzaga Belluzzo, o autor intelectual do desastre inflacionário daqueles tempos. A velha herança do PCB, do ISEB e da CEPAL, tudo somado, é o maior equívoco teórico sobre o papel do Estado e o capitalismo que se tem notícias. O Plano Cruzado é a prova histórica da alucinação teórica dessa gente. Nunca se ouviu uma palavra de mea culpa dessa gente, é como se tudo tivesse nascido da pena nefando do Sarney.

A primeira lição que a revista nos dá é que essa gente, que está fora do poder federal, desde aquela época, voltará em peso com José Serra, se eleito for. Ele mesmo é um expoente dessa corrente, que tem dominado a Unicamp desde a fundação. Lembremos que FHC teve a sensatez de pegar os brilhantes economistas da PUC-Rio para debelar a inflação criada pela Unicamp. Com Serra certamente teremos todo o arsenal intervencionista posto em marcha de uma só vez: tabelamento de câmbio e preços, estatização, controle dos salários, do comércio exterior e uma perseguição tributarista sobre as empresas e as pessoas, do que tem dado mostra Jose Serra e seu secretário da Fazenda aqui em São Paulo, destruindo setores inteiros da economia paulista na ânsia pelo esbulho tributário. Será um retrocesso enorme em matéria de política econômica. Serra considera empresários algo próximo de delinqüentes e a propriedade privada uma espécie de roubo, à moda de Rousseau. Ele declarou que seu compromisso é eliminar a pobreza e bem sabemos o que significa isso na boca de um poderoso intelectual orgânico da esquerda stalinista: a opressão do Estado sobre os que trabalham e produzem riquezas, tentando redistribuir riquezas de forma arbitrária. Essa gente acha que a lei da escassez é mito e que pobreza existe por falta da vontade política do governante. Acha também que a igualdade idealizada no plano das posses econômicas é empreendimento perfeitamente exeqüível e desejável, um imperativo moral, cabendo ao Eleito realizar a empreitada, pelo instrumento do Estado.

Não podemos esquecer que José Sarney, à época, com todos os defeitos, tinha ainda limites morais e culturais que serviam de contrapeso ao ímpeto esquerdista da gangue da Unicamp. Com Serra será bem diferente. Ele é de natureza autoritária e consolida larga experiência legislativa e executiva, o que o credencia a ser altamente eficaz na consecução dos seus objetivos. Seus auxiliares também, o que significa que nem de um período de aprendizado necessitam na sua chegada ao poder. Praticarão o mal coletivista desde a primeira hora. Um governo desse naipe pode enveredar o Brasil pela senda da tirania burocrática como jamais houve, como nem o PT ousou imaginar.

O retrato psicológico do Serra é de um homem obcecado pelo poder, incapaz de aceitar o contraditório de quem quer que seja. Bem notado que ele se relaciona bem com mulheres, mas não com homens. Mesmo Fernando Henrique relata que Serra sempre preferiu conversar com Dona Ruth a conversar com ele. Serra está sempre pronto para o enfrentamento com aqueles que ousam dizer-lhe "não" para alguma coisa. É a psicologia do ditador. Teremos um Nosferatu eleito Chanceler, como no filme V de Vingança? Uma psicologia assim é um perigo, sobretudo se obtiver o poder de mando sobre as Forças Armadas e a Polícia Federal. As dificuldades da realidade podem ser confundidas como má vontade da população ou de certas pessoas indesejadas pelo governante. A tentação de usar o poder de Estado para corrigir o mundo "rebelde" pode ser irresistível.

Devemos ter em conta também que Serra não é inimigo do PT, muito ao contrário. A estranha forma como está sendo conduzida a sucessão paulista pode esconder ações surpreendentes de bastidores: Alckmin, o favorito ao governo do Estado, está sendo rifado em favor de um principiante desconhecido, Aloysio Nunes Ferreira, talvez o único homem que conta com a confiança irrestrita de José Serra; a decisão de Gilberto Kassab de elevar de forma escandalosa o IPTU paulistano em véspera de um pleito capital e a vinda inesperada de Ciro Gomes para São Paulo, sob o patrocínio do PT, tudo somado pode indicar um acordo por cima entre grupos do PSDB de José Serra e do PT. Não devemos esquecer também que o próprio presidente da FIESP, Paulo Skaf, deve sair candidato pela legenda do PSB, o mesmo partido de Ciro Gomes agora. É de se sublinhar também que as opiniões emitidas por José Serra sobre Geraldo Alckmin não tiveram autorização para serem publicadas na matéria, por motivos óbvios.

Parece haver um acordo para a partilha prévia do poder entre as facções principais da esquerda que hoje têm o controle total da política do Brasil: Serra presidente e alguém ligado ao PT para governador do Estado de São Paulo parece ser a solução salomônica. Por isso o PT insiste na candidatura natimorta da inexpressiva Dilma. A eleição não passará assim de um mero circo grotesco com o fito de cumprir o calendário eleitoral, com tudo decidido previamente por debaixo do pano. Um engodo para com a opinião pública, que pensará que participa de um pleito sério. Ninguém dos interessados perderia com um acordo deste e todos nós seríamos feitos de tolos.

É notável a perspicácia de FHC quando disse não basta arrotar competência gerencial no comando do Estado para seduzir o eleitorado. Que uma eleição é sobretudo um processo de sedução de almas, como fez Obama nos EUA. E completou: "O Serra é um ótimo gestor e ponto final. Mas acho que ele é mais administrador e economista do que formulador. É mais pragmático que imaginativo". Disse tudo. Serra é um trator que age no mundo do imaginário político sem pensar. FHC viu o que eu vi, a alma atormentada que pode guardar a psicologia de um ditador. Estrategicamente Serra é mal formado. A declaração de FHC não foi do agrado de José Serra, que a rebateu dizendo que ele também é "teórico". Ora, FHC não se referia à cultura teórica quando falou que ele não é "formulador". O ex-presidente percebeu que em Serra há um operacional subalterno que não amadureceu ainda o suficiente para ser o primeiro mandatário, o formulador, aquele que pensa grande e que tem a capacidade de administrar e enxergar além dos conflitos passageiros dos agentes políticos do dia. É a mesma percepção minha e é aquilo que mais me apavora em pensar no day after da eventual eleição do Serra. Um sargento assumindo a posição de general.

Depois de ler a revista Piauí fiquei com a sensação de que Lula poderá deixar saudade, mesmo com seu ar estúpido e risonho de torcedor de futebol. Ao menos tem alma pacificadora, não atormentada. Não vejo bons augúrios, infelizmente, se admitirmos que não há nenhum nome capaz de derrotar José Serra para a Presidência da República.

Gente fina é outra coisa

Mais uma da ultradireita: o comentário abaixo está no blog Coturno Noturno e revela toda a fineza da turma que combate o "petismo" com unhas e dentes. A vítima desta vez é Ciro Gomes. Dá até pena do tal Coronel, que além de tudo está mal informado: o candidato de Serra em São Paulo não é Alckmin nem Aloysio, mas Gilberto Kassab (DEM). Quem viver, verá.

Bode na sala
Cheira mal. Faz barulho. É mal-educado. Mas tem lá a sua serventia. É Ciro Gomes(PSB-ex-CE-agora SP), o pior "final de carreira" da política nacional. Informam os jornais que está tudo acertado com o seu patrão, Lula. Permanece na disputa até meados do ano que vem, para chifrar as canelas de José Serra e ajudar a sua nova chefa, Dilma Rousseff. Depois, se candidata ao governo de São Paulo, para livrar Dilma dos aloprados locais e tentar dar algumas cabeçadas no desafeto de Lula, Geraldo Alckmin(PSDB), que já está virtualmente eleito, se o partido não tentar inventar o ex-terrorista Aloísio Nunes Ferreira, da mesma turma de quem? Da Dilma. Ciro Gomes, tempos atrás, resolveu deixar a barba. Não era para parecer com um petista. Era para assumir o bode que existia dentro dele.
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terça-feira, 20 de outubro de 2009

União é tudo

A notinha abaixo está no ex-blog do ex-prefeito Cesar Maia (DEM-RJ). Rodrigo Maia, filho de Cesar e presidente nacional do DEM, já manifestou sua preferência pelo nome de Aécio Neves para a disputa presidencial de 2010. Agora o pai parece ter se definido também pelo governador mineiro em detrimento de José Serra, a julgar pelo conteúdo da nota, originalmente publicada na coluna de Monica Bérgamo, da Folha de S. Paulo. Afinal, se Cesar Maia falou o que está abaixo para a jornalista, publicamente, dá para imaginar o que ele diz, privadamente, do marqueteiro Luiz González e de José Serra... Quem acompanhou a campanha de Serra em 2002 vai começar a perceber que o mesmo filme está passando de novo, em câmera lenta.

AINDA SOBRE A INFELIZ ENTREVISTA DE GONZALEZ, O MARQUETEIRO DO PSDB-SP!

(coluna Monica Bergamo - Folha SP, 20/10) O ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM-RJ) diz que gostou "tanto" da entrevista do marqueteiro Luiz González, estrategista de José Serra (PSDB-SP) numa eventual campanha à Presidência, ao jornal "Valor" que fez em seu "ex-blog" um resumo dos "melhores momentos" -aqueles em que González "tratou Dilma como "essa mulher", o Ciro como "nanico" e Marina como "bacana". [González] Estava convencidíssimo na entrevista de que o candidato a presidente era ele", diz Maia. Maia destacou também a "paulistada", em que González definiu SP como lugar de "gente informada, urbanizada, antenada". O marqueteiro não se manifestou sobre as ironias.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Eis a íntegra

Este blog tem poucos leitores, mas pode se orgulhar deles. São espertos, atentos e generosos. Desta vez foi o mineiro Ricardo Horta quem fez a gentileza de enviar a matéria completa publicada na revista Piauí sobre José Serra, comentada no post anterior. Vai abaixo, na íntegra. É longa, mas a leitura flui. Vale a pena copiar e jogar em um arquivo de word, imprimir e ler com calma. Quem tiver paciência pode ler na tela. Mas o essencial é que a leitura vale a pena. Ao Ricardo Horta, meus sinceros agradecimentos.

Sentado de pernas cruzadas num sofá na sala, enquanto acompanhava o cair da tarde pela ampla janela do seu apartamento que dá vista para uma colina do Pacaembu, Fernando Henrique Cardoso explicou como José Serra desistiu de ser candidato ao Planalto:

Ele queria sair, estava bem nas pesquisas, mas o Alckmin não recuava e ameaçava rachar o partido. Era um domingo, e na terça, algo assim, deveríamos bater o martelo. O Serra passou o fim de semana inteiro no telefone, vendo pesquisas e se encontrando com gente. Ele adora uma reunião, acho que é resquício do movimento estudantil. Na véspera, veio aqui, à noite, e ficou sentado ali, naquela poltrona. Eu e a Ruth aqui, neste sofá. Falei pouco, até porque ele fez a maioria das perguntas à Ruth. A conversa se arrastou, não acabava, e ele, cada vez mais angustiado, não decidia. Até que, meio em voz baixa, disse que sairia candidato.

Na manhã seguinte, Fernando Henrique falou ao telefone com o senador Tasso Jereissati, presidente do Partido da Social Democracia Brasileira, que lhe disse não ter tido nenhuma notícia do recém-candidato. "O tempo passou e, pouco antes do anúncio oficial, o Serra me ligou. Falou que tinha desistido, que já tinha avisado o Alckmin, e que não iria à cerimônia de anúncio do nome dele", contou o ex-presidente. "Aí ele ligou de novo, para falar que a Verônica, a filha dele, tinha achado errado avisar o Alckmin direto, que ele deveria ter ligado primeiro para o Tasso."

José Serra optou por concorrer ao governo de São Paulo num cenário no qual, segundo projeção do Datafolha, chegaria ao segundo turno na disputa pelo Planalto com oito pontos percentuais atrás de Luiz Inácio Lula da Silva. Nas simulações em que o candidato tucano era Geraldo Alckmin, o presidente seria reeleito já no primeiro turno.

Para explicar a desistência em 2006, um amigo de mais de duas décadas do governador paulista lembrou o poema "Se", no qual Rudyard Kipling indaga Se és capaz de arriscar numa única mão de cartas/ tudo quanto ganhaste em toda tua vida... "Pois bem", disse o amigo, "o Serra é um homem que não aposta sua carreira numa mão de cartas. Ele é diferente do Fernando Henrique, que pôs todas as suas fichas no Plano Real, e do Lula, que arriscou sua presidência numa política para os pobres."

O amigo contou ainda que "Serra sentiu o golpe de 2002, e não se lançou de novo porque não tinha certeza em qual chão estava pisando". Naquele ano, ele chegou ao segundo turno contra Lula, mas sua candidatura desmoronou bem antes. Entre outros motivos, porque Serra hesitou entre defender ou tomar distância do governo, àquela altura altamente impopular, de Fernando Henrique, no qual fora ministro. Tasso Jereissati, diante da impossibilidade de ser ele próprio o presidenciável do psdb, apoiou um adversário, Ciro Gomes, dividindo os tucanos nordestinos. E houve disputas entre seus dois marqueteiros, Nizan Guanaes e Nelson Biondi, que quiseram, de maneiras diferentes, recriar a sua imagem pública.

Quatro anos depois, ao sentar-se à mesa no restaurante Massimo, em São Paulo, para o jantar dos chefes do psdb para escolher o candidato do partido, Serra intuiu que aquela turma não era bem a sua - e seria derrotado outra vez se insistisse em concorrer. Estavam no jantar Aécio Neves, Tasso Jereissati e Fernando Henrique.

Numa pesquisa de agosto passado do Datafolha, Serra tinha 37% das intenções de votos e era seguido de longe por Dilma Rousseff, com 16%. Ele cumpria o roteiro de candidato: viajava pelo Brasil, fora ao Nordeste comer buchada de bode, homenageara o sanfoneiro Luiz Gonzaga, articulava candidaturas de correligionários, trocava chamegos públicos com Aécio, evitava críticas ao presidente Lula e concentrava as ações do governo paulista em obras com data de inauguração marcada para as vésperas da eleição do próximo ano. Mas, ao contrário de Dilma Rousseff, Ciro Gomes e Marina Silva, ainda não decidira se concorrerá.

"Antes de decidir, ele ouve bastante gente, mas leva mais a sério as mulheres", explicou Fernando Henrique, agradecendo o café que a empregada lhe trouxera. "Como o Serra é muito competitivo, qualquer conversa dele com um homem tende a se tornar um embate. E com as mulheres ele acha que não tem competição."

O ex-presidente acha que essa característica vem da infância: "Parece que ele foi uma criança cercada de mulheres que o paparicavam. E é fato que a sua vida foi marcada pela interlocução feminina. A madre Cristina foi essencial na formação dele. Conversava bastante com a Maria da Conceição Tavares e a Liana Aureliano, sempre falou mais com a Ruth do que comigo - não reparou como ele ficou destruído quando a Ruth morreu? -, com a Marta Suplicy, com a Soninha, com a Cosette Alves, com a Verônica."



Vicencia Marin, uma senhora baixinha e espevitada de 63 anos, é uma das mulheres com quem Serra conviveu na infância. Primos, filhos únicos, ele quatro anos mais velho do que ela, foram criados como irmãos. Para a família, eram Zé e Bidu. "Preciso falar antes com o Zé", disse Bidu ao ouvir o pedido para entrevistá-la junto com sua mãe, Teresa. Uma semana depois, elas me receberam na portaria do prédio onde Bidu mora, no Jardim Paulista ("Desculpe, é dia de limpeza, não dá para subir"), sentaram lado a lado num sofá da recepção, e a prima anunciou: "O Zé me disse para ser espontânea e contar coisas da nossa família."

Na beira de completar 90 anos, Teresa é forte e se veste com apuro. Tem os mesmos olhos do sobrinho político, e fala dele com emoção e orgulho. "A Serafina e o Francesco se casaram numa cerimônia linda, tocaram charamela, dançaram tarantela, ai, me arrepio só de lembrar", disse, com forte sotaque calabrês. Um ano depois, nasceu José Serra. A família morava na Mooca, o bairro dos imigrantes italianos, numa casa de apenas um quarto, que o filho dividiu com os pais até os 4 anos de idade, quando foi transferido para a sala.


Bidu e Zé passavam o dia na casa da avó materna, Carmela, calabresa nascida na Argentina, que foi a maior referência afetiva de Serra na infância. No livro de entrevistas O Sonhador que Faz, no qual conta sua vida, ele diz da avó: "Conversávamos muito, trocávamos confidências. Oferecia-me um amor sem tutelas." Na casa dela, ele almoçava, brincava e fazia tarefas escolares, cercado por tias e vizinhas, além de Serafina e Bidu. "Tudo o que ele queria a gente fazia: uma comida, uma brincadeira, um bolo", disse a tia Teresa, logo acrescentando: "Mas ele nunca impôs nada."

Quando Bidu tinha 5 anos, o primo Zé tomava-lhe as capitais do mundo. "Ele também me fez decorar o nome científico da Cibalena", contou. "Até hoje me lembro:dimetilaminofenildimetilpirazolona. E ele nem era hipocondríaco ainda." Ao que a tia Teresa atalhou: "Bidu, para! Ele não é hipocondríaco. Ele era precoce. Sempre foi um crânio."

A comida de Serafina e do filho era preparada em separado. Mãe e filho não comiam alho, cebola e pimentão. "Por isso, o Zé não come nada disso. Meu tio, pai dele, morreu de câncer no intestino; ele também nunca digeriu bem essas coisas. Tem o estômago como válvula de escape, somatiza tudo no estômago, sabia?", contou a prima. "Bidu, para!", interrompeu tia Teresa. "Não é nada disso. Isso a mamãe sabe: era que ele não gostava e pronto."

Segundo elas, Serra era bonzinho em casa, barulhento na escola e briguento na rua. Bidu se lembrou da ocasião em que ele desafiou um professor, conhecido como "Porquinho", a resolver uma equação, e ele não conseguiu. "O Zé sabia mais que os professores. Uma vez, ele disse que o livro estava errado, e estava mesmo! Ai, dá até vontade de chorar", disse Bidu. Seu rosto enrubesceu e lágrimas borraram a maquiagem.

Aos 11 anos, Serra e os pais se mudaram para uma casa, onde o menino teve um quarto só para ele e o que mais queria: uma escrivaninha. A ex-inquilina, uma cigana contrariada por ter que deixar a casa, contou Bidu, rogou uma praga para a nova proprietária. "Ela disse: 'Você nunca vai ter sorte nessa casa.' E minha tia Serafina depois tropeçou, caiu, quebrou o pé num degrauzinho e a vida dela nunca mais foi a mesma. Foram seis meses engessada, um ano de cama e cirurgias até o fim da vida."



Chegara a hora de Serra retribuir o afeto feminino. "Você não imagina o carinho do Zé com ela", disse Bidu, novamente derramando lágrimas. "Era minha avó com hérnias horríveis, minha tia engessada, e ele ao lado da cama o tempo inteiro, fazendo tudo para elas." Tia Teresa fez coro nas lágrimas e elogios: "Ele é assim: ajuda todo mundo. Em doença, então, nem se fala. Compra tudo com dinheiro dele. Mas emprego, ele não dá não."

Francesco quis que o filho o ajudasse no Mercado Municipal da Cantareira, onde tinha uma barraca de frutas, mas Serafina insistiu para que ele só estudasse. A relação entre pai e filho era "distante e fria", nas palavras de Bidu. "Ele era imigrante, meio rígido, não tinha senso de humor, mas era um homem muito correto, trabalhador e pontual."

A prima Bidu começou a contar que "o Zé era o galã das meninas, olho verde, lindo. Ele tinha uma namorada, o grande amor da vida dele, a...". E foi interrompida pela mãe, brava: "Ô Bidu, pode falar isso em entrevista?" A prima hesitou e prosseguiu: "Ele era lindo, galanteador, cantava Nat King Cole no ouvido das meninas, tipo o Raj, da novela, sabe?"

Egydio Bianchi, ex-presidente dos Correios, que conheceu Serra aos 14 anos,
e com quem cursou o colégio e frequentou as matinês dançantes do Clube Americano, guarda a mesma impressão que Bidu: "Ele era um sucesso, bom dançarino, só namorava garotas bonitas. Insinuante e charmoso, era o que a turma chama hoje de mulherengo."

Na adolescência, moleques da Mooca passaram a se referir a Serra como "aquele que quer ser presidente do Brasil", disse Bianchi. "Ele era um pouco precoce. Andava com biografias de Hitler e Mussolini debaixo do braço e, se não me engano, andou lendo O Capital no ônibus para Vila Bertioga. Tinha gente que o achava pernóstico; era uma coisa que ninguém fazia."

Perguntei a Bianchi, que veio a militar com o colega na Ação Popular, se alguma característica pessoal do adolescente Serra se havia mantido intacta até hoje. "Ele já tinha essa coisa de implicar", respondeu, rindo. Deu como exemplo "o Juribino, que era um ótimo dançarino de rock'n'roll, e o Serra pegava no pé dele por ser muito feio. Perguntava como eu podia ser amigo daquele cara frívolo, que tinha aparência desagradável. Implicava com o Juribino e comigo, que me dava com o sujeito". Anos mais tarde, quando precisou de um nome de guerra na ap, Serra batizou Bianchi com o nome verdadeiro do Juribino, Adilson.

Bidu havia contado que o primo implicava com ela, dizendo que tinha almofadas demais em casa e que usava muitas bijuterias. A conversa não foi adiante porque tia Teresa cortou: "Não tem isso, ele só fala coisa boa." E virando-se para mim: "Minha filha é como criança, é muito espontânea, fala sem pensar." Quando o assunto passou a ser a imagem pública de Serra, Teresa se irritou: "Não é nada disso, ele não é antipático. Ninguém sabe a imagem real dele, como ele é. Ele só não tem tempo, é isso!"

Amigos próximos e distantes, correligionários, conhecidos, jornalistas, todos que entrevistei - exceto seus familiares - consideram Serra, de alguma maneira, implicante. Já o viram implicar com comida, com a maneira de os outros se vestirem, com o vinho servido num jantar, com a redação de um cardápio, com o frio ou o calor, com o trajeto que o motorista escolheu, com o fato de ele ir devagar ou depressa, com o que colunistas escrevem a seu respeito, com as ações de aliados e adversários, com o que o presidente Lula faz e a maneira como a oposição o combate.

A diferença é que escancara suas implicâncias, enquanto a maioria dos políticos as silencia. Além disso, enfatiza divergências, cita dados de cabeça, é professoral e grave na exposição de argumentos, bufa como um francês, mostra indiferença como um italiano, tem juízos taxativos e se esforça longamente - às vezes mais do que o razoável - para que sua opinião prevaleça, mesmo em assuntos fúteis.



Ao voltar de um compromisso na periferia de São Paulo, no ano passado, José Serra contou que havia visto Sangue Negro no sábado anterior. "Achei bom, mas o Daniel Day-Lewis é muito previsível", disse, com desdém, sobre o ator inglês que ganhou o Oscar pela interpretação no filme. E esticou o queixo para frente, fechou os olhos, fez uma careta e, balançando a cabeça, mastigou um fumo imaginário. Não foi uma interpretação digna de um Oscar, mas imprevisível e engraçada.

Ele foi ator amador na universidade e trabalhou numa peça de José Celso Martinez Corrêa, o diretor do Grupo Oficina. "Se eu não fosse político, queria ser ator", disse. "Nunca me senti tão bem quanto no palco, como ator."

Na despedida, tirou cinco folhas grampeadas do meio de uma papelada e, ao entregá-las, falou: "Lê esse texto do Machado de Assis. É sobre sombras, a alma de fora e a de dentro. Tem muito a ver comigo. Li Machado quando ainda era teenager:Quincas Borba, Dom Casmurro, tudo."

"O espelho", que tem o subtítulo "Esboço de uma nova teoria da alma humana", é um conto que Machado escreveu em 1882, um ano depois da publicação do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, a obra-prima que inaugurou a sua fase realista. O conto se passa à noite, na pequena sala de uma casa no morro de Santa Teresa, no Rio. Tem quatro personagens, homens de meia-idade que discutem amigavelmente "questões de alta transcendência", e um quinto, o único com nome, Jacobina.

Ao contrário de Serra, Jacobina não gosta de discutir. Mantém-se à margem do debate por pensar que "a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem como uma herança bestial". Tem uns 45 anos e é descrito como "provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico".

Ao discutir a "natureza da alma", os quatro personagens divergem radicalmente. Jacobina é convocado a expor sua opinião sobre o tema. Prefere contar um caso verídico, que se passou com ele, para demonstrar que o homem não tem uma alma só, mas duas.

Os amigos fazem troça de Jacobina. Ele conta que, ao ser nomeado para o posto de alferes, quando tinha 25 anos, passou a ser tratado como um homem ilustre. Foi convidado a ficar uns dias no sítio de uma tia, e a impressão se reforçou: é enaltecido pela parenta e seus escravos como alguém de destaque. Para homenageá-lo, um grande espelho é colocado no seu quarto, no qual ele se admira, orgulhoso da farda.

Mas a tia tem que viajar, os escravos fogem e Jacobina fica sozinho. Sem os elogios, sem o reconhecimento da sua condição de alferes, ele se sente perdido. O tempo não passa, o silêncio é enorme, ele não sabe o que sentir, pensar ou fazer. Usando roupas civis, olha furtivamente para o espelho e não se reconhece. Vê uma imagem sem contornos, embaçada. Desespera-se e cogita o suicídio.

Tem então a ideia de vestir o uniforme e se postar na frente do espelho. Ao levantar os olhos, Jacobina se reencontrou. O espelho reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho.

A primeira alma seria, então, interna: a maneira como a pessoa se vê. A segunda seria externa: o modo como é vista de fora, pelos outros. Para Jacobina, essas duas almas "completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades perde naturalmente metade da existência".

Como boa parte dos contos de Machado da fase madura, "O Espelho" permite múltiplas abordagens - as filosóficas (a tensão entre a existência subjetiva e a objetiva), metafísicas (a inexistência da unidade do Ser), psicanalíticas (a fase do espelho, teorizada por Jacques Lacan) e as políticas (o nome do personagem seria uma alusão aos radicais da Revolução Francesa).



Dez dias depois, Serra falou sobre o conto. Viajara ao Rio para participar de um seminário internacional de finanças, no qual foi apresentado como aquele "que lidera todas as pesquisas na sucessão do presidente Lula", e de um jantar. Era quase meia-noite quando entrou no carro e tomou o rumo do aeroporto, onde o jatinho do governo paulista o aguardava para levá-lo de volta.

Ao sentar, imediatamente pegou um frasco de álcool, à sua disposição no bolsão do assento do passageiro, e limpou as mãos. A gripe suína não existia ainda: há anos ele tem o hábito de lavar as mãos várias vezes ao dia, sobretudo depois de cumprimentar estranhos; quando não pode, usa álcool.

"O conto mostra que o Eu tem três dimensões", começou, fechando a tampa do álcool. "O Eu que você é, o que é visto pelos outros e o Eu que você vê. Machado é um gênio. Imagine, no final do século xix, sem Freud nem nada, ele chegou a essa conclusão."

Trazendo a conversa das duas almas e dos três Eus para um plano mais prático, disse: "Muita gente chega para mim, depois de um tempo, e diz: 'Nossa, não sabia que você era assim.' A pessoa quer dizer que ficou impressionada positivamente. Isso ocorre porque a gente é de um jeito, acha que é de outro, e tem uma imagem social diferente. Como político, tudo isso fica exacerbado."
Aquilo o incomodava? "Não é achar bom ou ruim, só acho curioso", respondeu. "Acho que todo mundo tem isso, mas fico me perguntando por quê."

Ventava bastante no Santos Dumont e Serra passava a mão pela testa como se tirasse uma franja imaginária do rosto. Antes de entrar no avião, ele comentou a sua imagem: "Às vezes, tendo a racionalizar demais. Como trabalho com a lógica das coisas, o que pode ser uma virtude ou defeito, como quiser, pode parecer arrogância. Mas, de fato, tenho muita dificuldade de entender como uma pessoa não compreende uma coisa que é lógica."

Correligionários que colecionam pesquisas sobre a imagem de Serra garantem que a figura de antipático e arrogante foi inventada por seus desafetos e jornalistas, e encontra respaldo apenas na classe média alta. Um deputado tucano me mostrou (com o compromisso de não citá-lo: quando se trata de Serra, até os elogios são em off) uma extensa pesquisa, feita em municípios da Bahia, onde a imagem dele é excelente.

Em Itamaraju, a 700 quilômetros de Salvador, onde boa parte da população tem antena parabólica e recebe o sinal da programação de São Paulo - assim como acontece na maioria dos municípios do Norte, Nordeste e Centro-Oeste -, a terceira característica mais citada de Serra é a simpatia. Nas pesquisas nacionais, a rejeição a ele fica em torno de 30% do eleitorado, enquanto a de Dilma Rousseff bate nos 40%.

Amigos dizem que Serra é engraçado, espirituoso, fofoqueiro e - acreditem - que adora dançar. Mas reconhecem que ele não passa essa imagem. "Serra não faz concessões, não finge ser outra pessoa, mesmo que isso lhe cause prejuízo", disse José Gregori, ex-ministro da Justiça. "Você imagina ele fazendo graça no sofá da Hebe, no programa do Faustão ou na Luciana Gimenez? Pode até fazer, mas não vai soar natural. O problema é que a política hoje passa muito por esse padrão, por essas referências."

A economista Liana Aureliano, sua amiga há quarenta anos, disse que as reações que Serra provoca dependem do interlocutor. "Ele não dá abraços efusivos nem estende a mão com vontade, o que para mim é positivo, pois mostra que não é fingido", afirmou. "Ele adora um debate, um embate, na verdade. Uma briga o alimenta intelectualmente, mas há quem ache isso chato. E ele, definitivamente, não aguenta burrice."

Uma tarde, em seu gabinete na Secretaria paulista da Cultura, João Sayad avaliou que há na persona pública dele um traço que não é levado em conta: a timidez. Depois de uma reunião numa cidade do interior do estado, ele caminhava com Serra, viu um bar e sugeriu que tomassem algo. O governador disse que não entraria porque as pessoas estavam olhando demais para ele. "Imagine só, um candidato à Presidência ter vergonha assim", disse Sayad.

Serra começou a usar o Twitter para ter contato direto e próximo com os eleitores. Em setembro, o que ele escrevia era acompanhado diariamente por mais de 100 mil pessoas. Como a troca de mensagens não é mediada, ele passou a ser chamado com frequência de "Zé" e até de "mano". Quando escreveu que havia passado a noite ouvindo Paul McCartney e o guitarrista Santana, alguém postou um comentário sarcástico: "O.k., José Serra virou político pra-frentex, psicodélico e que gosta de Woodstock e Santana... Sei." Minutos depois o governador respondeu: "Por que a surpresa? Também sou da geração do rock, dos Beatles e de Woodstock."

Ele recebe cerca de 500 mensagens pessoais por dia. Perguntei por que havia divulgado no Twitter a seguinte troca de mensagens com a apresentadora de televisão Ana Paula Padrão, da Rede Record:

"Pra quem nem e-mail tinha, você está super up to date!", escreveu ela.

"Nunca é tarde demais para aprender. A curiosidade me trouxe para cá. Gostei e vou ficando", respondeu ele.

"Foi para ela não brigar comigo", Serra explicou. "Porque ela é ciumenta e eu não a vejo faz tempo. E a Record está batendo em mim pesado por causa dessa disputa com a Globo. E ela fica fazendo cara de brava lendo...", disse.

Serra escreveu sobre dezenas de assuntos no Twitter. Mas quase nunca sobre suas ideias a respeito do Brasil e sobre política. E manteve silêncio absoluto sobre sua candidatura a presidente.



Já havia escurecido quando Fernando Henrique Cardoso levantou e abriu a janela para que a fumaça de cigarro se dispersasse. Na volta para a poltrona, disse que o silêncio de Serra não é fortuito. "Ele viu as pesquisas de opinião e não falou nada sobre a crise do Senado e o Sarney de caso pensado", contou. "Ficando quieto, ele não se confunde com os políticos, que têm uma imagem péssima, de corruptos. E aparece como um bom administrador, um governador que tem coisas para mostrar. Ficando quieto, ele deixa a briga para os outros. Veja o que aconteceu com a Dilma, que foi apresentada como candidata com tanta antecedência."

Para o ex-presidente, Serra tem uma enorme vantagem, em termos de imagem, sobre os seus eventuais adversários. "Ele nasceu na Mooca, seu pai era feirante, foi pobre, só estudou em escola pública, foi perseguido pelos militares", disse. "Num país de enorme desigualdade e de injustiça social, ele veio de baixo e se fez sozinho, não tem culpa ou responsabilidade pela pobreza. Você fica em desvantagem quando é de classe média, filho de militar e nasceu em Botafogo, como eu, por exemplo."

Fernando Henrique defende que José Serra seja o candidato dos tucanos à Presidência em 2010. Reconheceu que Aécio Neves poderia ser um concorrente "mais palatável" aos eleitores. Mas, além de acreditar que Serra terá boas chances no pleito, acha que "ele é o presidente que o Brasil precisa agora. Depois de oito anos de desconversa, evasivas e conciliações de todo tipo, o país precisa de alguém firme, com clareza e diretrizes. E o Serra é rombudo".
Mas qual política Serra defenderia na campanha eleitoral? Fernando Henrique respondeu que o conteúdo da sua plataforma e mesmo a natureza da sua Presidência devem ser definidos mais tarde. "A vitória numa campanha eleitoral depende do contexto em que ela se dá", disse.



Um menino gordinho levantou a mão e perguntou a Serra o que ele fará se for eleito presidente da República. "Uhhhhhhn, muita coisa", respondeu o governador, na frente da sala de aula. "Eu faria o governo federal trabalhar para o crescimento do emprego. Quem tem desempregado na família?", perguntou ele aos 35 alunos de uma classe de 4ª série de uma escola no Mandaqui, bairro paulistano de classe média.

Desde que foi eleito prefeito, de quando em quando ele dá aulas em escolas públicas. Explicou que é um jeito de monitorar o ensino, interagir com crianças e identificar demandas da população. Naquela tarde, Serra falou duas horas, sobre os mais variados assuntos, para uma plateia que se alternava entre surpresa e dispersa. Tomou tabuada (apenas dois alunos acertaram), fez com que lessem em voz alta ("Forte! Solta a voz! Não estou entendendo nada!", encorajou, a seu modo, um menino), definiu curiosidade mórbida ("Alguma coisa que a gente acha feio, mas quer ver"), defendeu a leitura diária de jornais, mas os criticou ("Eles publicam a notícia errada e, em vez de corrigir, dizem que eu mudei de opinião").

Sete levantaram a mão para dizer que tinham desempregados na família. "Então, quem está desempregado quer trabalhar", disse o governador. "E emprego tem a ver com que faz o governo federal, o de Brasília. Isso eu cuidaria muito se fosse eleito presidente. E cuidaria também da saúde e da educação."

Quando aumentou o número dos que olhavam pela janela ou rabiscavam cadernos, Serra pediu que os iguais a ele, filhos únicos ou palmeirenses, levantassem a mão. Havia apenas uma menina sem irmãos e cinco meninos palmeirenses, contra dez são-paulinos e dezenove corintianos. Foi a deixa para que ele introduzisse o conceito de tabela, o ponto-chave da sua aula.

Ao sair da escola, um menino chamado Eron se aproximou e entregou um papel ao governador, que prontamente começou a assinar. "Não! É para você ler", alertou o garoto. Era uma carta pedindo para que o pai, um policial militar, fosse transferido para um posto perto de sua casa. "Vou ver isso", disse o governador. (O pleito foi encaminhado, mas Serra nunca soube se foi atendido.)

Ao entrar no carro, Serra recebeu um bilhete. Haviam ligado quatro políticos, entre eles Antonio Palocci e Tasso Jereissati. "Ai, que fome", ele disse, lendo os nomes no papel. Com um sorriso, comentou: "Me sinto revigorado com crianças." O carro estacionou diante de um hospital, onde o helicóptero do governo o esperava. Ele se acomodou perto da janela, juntou alguns papéis e fez um sinal ao ajudante de ordens, que prontamente lhe passou um frasco de álcool em gel. Ao comentar a aula disse: "Nunca vi alguém falar alto ao responder a uma pergunta na frente dos outros. Quando vão escrever na lousa é sempre uma letra mínima, reparou? Tudo para se proteger."



Serra foi eleito presidente da União Nacional dos Estudantes, em 1963, quando cursava engenharia na Universidade de São Paulo. Integrava a Ação Popular, organização de origem católica, nebulosamente socialista, que não era marxista, nem revolucionária e nem defendia a União Soviética. "Ele tinha um senso de justiça exacerbado, era muito ligado às questões humanas", lembrou Egydio Bianchi. "Não era um formulador doutrinário, ele era um cara da ação."

Um de seus parâmetros na política era madre Cristina, uma freira católica formada em psicologia, com especialização em psicanálise pela Sorbonne, que fundara a AP com Herbert de Souza, o sociólogo Betinho. Numa entrevista à escritora Maria Rita Kehl e ao jornalista Paulo Vannuchi, madre Cristina, que morreu em 1997, contou como Serra entrou na vida pública quase que por acaso.

A gente pensou: temos de fazer o presidente da une. Aí fomos catar o Serra, que estava estudando engenharia. [.] Descobrimos que era inteligente e que, se déssemos uma engomada nele, ele toparia. Então, a gente pegou o Serra e disse: Você vai ser o presidente da une. Ele disse: "O que é une?" Bom, une é isto e aquilo. "Ah, tudo bem." E assim começamos a ganhar a une.

Com o golpe e o exílio, Serra abandonou a Ação Popular e a política, dedicando-se a estudar economia, primeiro no Chile e - com a derrubada de Salvador Allende - nos Estados Unidos. Sua obra acadêmica compõe-se de artigos, dos quais dois se destacaram, ambos feitos em coautoria. Um foi escrito com Fernando Henrique, em Princeton, "As desventuras da dialética da dependência". "Eu olhava pela janela e, às quatro da manhã, a luz do quarto do Serra era a única acesa", contou o ex-presidente. "Lá estava ele, revisando o artigo, que eu achava que estava pronto há muito tempo." O outro foi feito com Maria da Conceição Tavares, "Além da estagnação".



Serra voltou ao Brasil antes da anistia, em 1978, e retomou a vida acadêmica, enquanto passava por sessões de psicanálise com madre Cristina. Foi dar aula na Universidade de Campinas, onde era professor o marido de Liana Aureliano, o economista João Manuel Cardoso de Mello, um dos idealizadores do Plano Cruzado, no governo Sarney. Ele é o único a fumar no gabinete de Serra.

"Espero que não tenha vindo falar dessa baboseira de currículo", disse Cardoso de Mello ao me dar boas-vindas. Mesmo com a resposta negativa, continuou: "Ficar nessa coisa pequena, nesse detalhezinho, nessa mesquinharia se o Serra se formou ou não se formou. O Serra não terminou a graduação, e daí? Qualquer instituição de ensino pode te dar um título, depende só dos critérios que você usa. Mas não, todo mundo quer ficar nessa discussãozinha de classe média."
João Manuel disse que ele e Serra partilham a visão de que a política econômica é a chave para se resolver os problemas de desenvolvimento e crescimento do Brasil. "Essas taxas de juros estratosféricas destruíram parte da indústria brasileira", disse. "O custo social e econômico disso foram milhões de empregos perdidos."

Ele acha que os equívocos da economia remontam aos dois mandatos de Fernando Henrique. "Naqueles anos, o Brasil cresceu 2% ao ano, o que é pífio", disse. "O Serra sempre discordou do que faziam na economia, mas ele estava na turma, o que ia fazer? Passar para o pt?"

Para ele, o objetivo político de Serra é um só: "Acabar com a pobreza. O negócio dele é esse. E é possível, se o Brasil retomar uma meta de crescimento de 7% ao ano, em duas décadas a pobreza estará erradicada."

O autor de O Capitalismo Tardio considera, porém, que Serra tem uma visão fiscal ortodoxa. "Ele tem mania de não dar aumento para funcionário público, para não desequilibrar as contas públicas", disse. "Aí, teve greve de delegado querendo 500 'merréis' de aumento. Dá o aumento, porra. Imagina o custo social de uma greve de delegado? Mas ele não dá!"

João Manuel foi professor de Dilma Rousseff na Unicamp, no mestrado que ela não concluiu. "Ela e o Serra são muito parecidos, têm a mesma visão de mundo", opinou. "Se houvesse uma reorganização política, eles estariam no mesmo partido. É uma gente que não existe mais na política, gente compromissada com o Brasil. Ambos podem ser enquadrados no conceito inglês de servidor público."

Da universidade, Serra voltou à política. Em 1983, Franco Montoro o nomeou para a Secretaria de Planejamento, na qual sua marca foi a austeridade, e em seguida elegeu-se deputado. Na Constituinte, sua imagem de político de direita se consolidou por ter sido contra a nacionalização dos bancos estrangeiros e a limitação dos juros.

Foi reeleito deputado e depois senador. Fernando Henrique o nomeou ministro do Planejamento. Foi um ministro de pouca expressividade, que havia divergido do Plano Real, que domara a inflação, e continuava divergindo da equipe econômica liderada por Pedro Malan e Gustavo Franco. Ainda assim, relutou em aceitar quando Fernando Henrique o convidou, em seguida, para ser ministro da Saúde. "Achei que seria bom para o governo, para ele e para o Brasil", disse o ex-presidente, "mas ele levou um tempão para dizer sim."

A passagem de Serra pela Saúde lhe rende dividendos eleitorais até hoje. Nas pesquisas internas do psdb, constata-se que os eleitores o identificam imediatamente com os genéricos. Ele é considerado o político que ajudou os doentes e velhinhos a gastarem menos dinheiro com remédios. Também conseguiu diminuir o preço do coquetel de medicamentos contra a Aids e proibiu a propaganda de cigarro na televisão.

Para implementar essas medidas, enfrentou interesses enormes e gente influente, como os laboratórios farmacêuticos, multinacionais proprietárias de patentes, a indústria do tabaco, agências de publicidade e redes de televisão. Enfrentou um inimigo de cada vez, em defesa de causas apoiadas pela opinião pública. "Eu defendo interesses gerais, e não os especiais ou setorizados", me disse Serra. "E isso incomoda, eu sei, mas a meu ver desnecessariamente."

O ex-deputado e empresário carioca Ronaldo Cezar Coelho, que cede o seu jatinho para Serra fazer campanha, colocou a questão em outros termos: "Ele é um político que defende interesses difusos. Não representa nenhum grupo, nenhuma facção específica. Por isso, é considerado independente, o que faz com que muitos setores não se sintam acolhidos ou temam o que ele pode vir a fazer no poder."



No 1º andar do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, na centenária Estação da Luz, mais de vinte políticos aguardavam a inauguração da exposição sobre Gilberto Freyre. Ali, estavam Fernando Henrique, o prefeito Gilberto Kassab, Andrea Matarazzo, o presidente do psdb, Sérgio Guerra, e medalhões da política pernambucana: o governador Eduardo Campos, o senador Marco Maciel e o ex-senador Roberto Freire. Como um dos elevadores demorava a subir do térreo, Serra chamou uma funcionária e pediu explicações.

"O elevador está parado no térreo para receber mais gente, e então subir", disse ela.

"Não, não tem isso não, manda subir esse elevador do jeito que está", ordenou ele, rispidamente.

"Já está subindo, governador", disse a moça.

"Não está nada. O elevador está parado, olha aqui o botão de 'parado' aceso. Liga esse elevador", rebateu Serra.

Observando a cena, Roberto Freire falou: "Olha para isso, rapaz! O homem está com o Brasil inteirinho aqui e fica prestando atenção no elevador. Meu Deus, ele é estressado demais." Enquanto o governador continuava a resmungar, Freire disse: "O Serra não aguenta nada que saia do controle dele. Isso às vezes é bom, mas deve ser uma complicação da gota."

Num canto, depois, Freire disse que estava preocupado com a polarização entre Aécio Neves e José Serra dentro do psdb. "Estou trabalhando para convencer o Aécio que ele tem que ficar com o Serra", disse. "Se não ficarem juntos, vão se foder, vão perder, acabou."

Serra e Eduardo Campos subiram para o terraço do prédio do relógio na Estação da Luz, para o paulista mostrar a vista ao pernambucano. Olhando para o teto dos prédios ao redor, Serra disse: "O que fica é cultura. A coisa que o Covas fez de mais importante foi a duplicação da Rodovia dos Imigrantes. Mas ele ficou marcado pela construção da Sala São Paulo."

Deu-se uma discussão sobre a diferença entre bode, carneiro e cabrito. Alguém lembrou, longe dos ouvidos de Serra, da piada, espalhada por Fernando Henrique, de que Serra teria visto uma vaca pela primeira vez aos 50 anos de idade. Enquanto isso, Serra reconhecia candidamente nunca ter imaginado haver diferença entre bode e cabrito.

Quando ele mesmo é o alvo de sua franqueza, Serra fica involuntariamente simpático. A um amigo que tentava convencê-lo a ser candidato a presidente, argumentando que "é fácil ganhar da Dilma porque ela não tem a menor graça", por exemplo, ele retorquiu: "E eu tenho alguma graça?"
Quando a franqueza é dirigida a outros, ele é capaz de, depois de anos sem ver alguém, cumprimentá-lo com um espantado e espantoso: "Nossa, como você está gordo!" Ou então de dizer a uma mulher, como se fosse um elogio, que ela se veste como uma perua. Ele me contou que, ao encontrar com a filha de Orestes Quércia, uma moça muito bonita, lhe disse que ela era "a prova da evolução da espécie". Segundo Serra, a moça "riu da piada".

Para Regina Faria, viúva do ex-assessor da Presidência Vilmar Faria, Serra tem um senso de humor especial. Quando ela e o marido dividiram com ele um apartamento no Chile, Serra gostava, por exemplo, de dar sustos. Tanto que, quando estava grávida de sete meses, ele colocou uma cobra de papel em cima da porta do banheiro. "Quando entrei, a cobra caiu em cima de mim e tomei um tombo", contou. "O Vilmar ficou furioso, mas o Zé não tinha noção, não conseguia ver um perigo ali", disse. (Serra se lembra da cobra, mas não de Regina estar grávida.)

No seu apartamento, ela mostrou uma foto de Serra, aos 20 e poucos anos, de shorts jeans, camisa polo verde e chinelão. A seu lado, Regina fazia uma cara de deboche e uma outra moça parecia emburrada. "Era a Helga, com quem ele implicava porque tinha perna fina", contou.

Regina definiu as virtudes dele na seguinte ordem: "Tenacidade, disciplina profissional, obstinação, muito exigente, não tem medo de trabalhar com gente competente e é muito generoso." O defeito mais evidente, para ela, é classificar as pessoas à primeira vista, de modo superficial: "Ele divide as pessoas e as coloca em celas na sua cabeça. Tipo: essa é competente, aquele é burro, aquele outro é confiável, aquele não. E aí fica difícil mudar sua opinião."

Ela lembrou a viagem entre Brasília e São Paulo, em 2001, num jatinho da Presidência, trazendo o corpo do marido para ser enterrado em São Paulo. "O Zé não falou nada", contou. "Ele sentou ao meu lado e ficou 45 minutos de mãos dadas comigo. Aquilo foi muito forte, de uma profundidade que poucas pessoas conseguem ter."

Depois de falarmos sobre outros assuntos, perguntei qual ela achava ser a maior diferença entre Serra e Fernando Henrique. Novamente, ela usou a morte do marido como exemplo: "O Fernando Henrique, no enterro do Vilmar, bateu nas minhas costas e disse: 'Não chore.'"



Verônica Allende Serra usava moletom e sandálias Croc, tarde da noite, em sua casa no bairro do Morumbi. Morena, cabelos longos que lhe dão um ar latino, tem 40 anos, trabalha no mercado financeiro e é casada com Alexandre Bourgeois, filho de um francês com uma brasileira. Têm três filhos: Antonio, de 6 anos, Gabriela, de 2, e Francisco, de 10 meses. Outra filha, que havia nascido com um problema congênito, morreu aos 3 meses de vida.

(A prima Bidu contara que, graças a um tratamento de fertilidade com o médico Roger Abdelmassih, Verônica pôde ter as duas últimas crianças. Quando Bento xvi esteve em São Paulo, Abdelmassih pediu para que Serra o incluísse no encontro privado com o papa, e foi atendido. "Imagina agora, que o médico foi preso", disse Bidu, "o Zé não pode ouvir falar o nome dele.")

"Ele está rindo mais, você não acha?", perguntou Verônica. Havia meses, Serra se submetia a um tratamento dentário que mudara seu sorriso. Os dentes frontais da arcada superior foram alinhados e o recuo gengival foi recapeado com uma fina camada de resina. Ou seja, não havia mais motivo para que chargistas o retratassem como Nosferatu. O governador me dissera que apenas havia trocado de pasta dental e arrumado uns "dentes de baixo".

Sentada na cabeceira de uma mesa de vidro, de lado para um grande espelho, para o qual olhava às vezes e ajeitava o cabelo, Verônica admitiu que o pai tem uma imagem pública bem diferente da privada. Mas acrescentou que um político deve se comportar exatamente dessa maneira. "Quando o assunto é sério, a reação deve ser séria", disse. "Não é do feitio dele ficar fazendo analogias engraçadas no meio de tragédias, ou dar exemplos tirados do futebol, como se faz por aí."

Segundo ela, Serra "não finge ser o que não é. O marketing dele, se é que ele faz algum, é o da absoluta sinceridade. Ele não é um entertainer, é um ser público puro."

Em família, já discutiram, ela contou, como ele poderia deixar de ser tão professoral. "Ele pode até ser didático, mas o ideal é tentar usar palavras mais simples, um vocabulário menos acadêmico, mas nem por isso simplório", disse. "Isso ele já mudou. Quando vai dar aula na periferia, ele passa vários conceitos a partir de uma historinha, tipo um key study." Ela pensa que, como é rigoroso com as pessoas, Serra é avaliado com inflexibilidade.

Verônica tem um alerta que envia para o seu e-mail pessoal tudo o que sai na internet com a expressão "filha de Serra". Vez ou outra lhe chegam mensagens de pousadas nas montanhas que aceitam crianças. Mas em geral, são estocadas ou críticas ao pai. Ela investigou a origem de um dos blogs que mais a atacavam, e descobriu que o provedor que hospedava a página ficava no endereço de uma empresa de um parente de Ciro Gomes.



Encontrei num domingo o filho de Serra, Luciano - que tem 36 anos e parece uma versão melhorada do ator Ben Stiller. Ele estava com a namorada, uma moça loira, magra, calada e arrumada, e o pai dela, que me cumprimentou com uma das mãos cheia de castanha-do-pará. Fomos juntos para o estádio do Morumbi, onde quase 50 mil pessoas aguardavam o início do clássico Palmeiras e Corinthians.
Chegamos na tribuna de honra com o jogo começado há cinco minutos. "Perdi alguma coisa", perguntou Serra a Roberto Freire, e se sentou na ponta da cadeira como quem estivesse prestes a levantar e sair correndo. "Quem é esse 27? Quem é esse cabeludo?", perguntou alto, com os olhos fixos no campo, sem esperar a resposta.

"Aaaaaaaiiiiiiii", gritou, quando o Corinthians quase marcou um gol. "Ai, meu Deus, o medo me fez suar a mão", disse, e deslizou a mão molhada pelo meu braço direito. Na maioria do tempo, ficava calado, os olhos grudados no gramado. Vez ou outra comentava estar aliviado por um passe errado do adversário ou uma defesa benfeita do Palmeiras. Quando o juiz anulou um gol impedido do Corinthians, abraçou o filho gritando: "Êeeeeee! Que alívio!"

No segundo tempo, aparentemente incomodado com a minha presença, Luciano cochichou algo no ouvido do pai e foi embora. Faltando poucos minutos para o final, o Palmeiras marcou um gol. Em um milésimo de segundo, Serra pulou da cadeira, deu uma gravata lateral em Roberto Freire, projetou o corpo para a frente e tirou os dois pés do chão ao mesmo tempo, levando-os para trás como se pulasse corda. Grudado em Freire, que tinha o rosto vermelho e suava, ele berrava "Goooollll" com uma expressão de alegria pura, ingênua e infantil.

"O futebol tem uma dimensão afetiva e cultural para o Serra", explicou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, presidente do Palmeiras, em uma manhã em sua casa. É uma válvula de escape, uma ponte entre ele e os outros. É falando de futebol que ele se aproxima e quebra o gelo para falar com quem não conhece. Num estádio, ele se sente um brasileiro do povo, e é acolhido como um igual. Talvez por isso só estivesse relaxado interiormente no jogo contra o Corinthians, apesar de estar tenso até o Palmeiras marcar.

O avião do governo de São Paulo, fabricado havia mais de vinte anos, decolou e Serra enterrou os olhos em um jornal. Ele ia para Brasília, onde teria uma reunião com o presidente Lula para tratar sobre uma emenda da previdência social e a concessão dos aeroportos de Cumbica e Viracopos. Ainda com o avião embicado, eu puxei um assunto e ele, com a expressão grave, me disse: "Deixa passar a turbulência. Minha mão transpira, olha só!" E, pela segunda vez em menos de uma semana, senti a palma molhada deslizando pelo meu antebraço.

Quando a aeronave se estabilizou, ele aproveitou para despachar com os secretários. Enquanto olhava um gráfico sobre a situação da concessão da Cesp, houve nova turbulência. Ele se calou, ficou imóvel como uma estátua e só alguns segundos depois olhou para os lados procurando um interlocutor. "Tenho horror quando faz assim...", disse mexendo a mão direita para cima e para baixo.

O almoço foi servido, mas ele devolveu a bandeja intocada. O chefe da segurança quis saber se havia algum problema com a comida. "Muito alho", disse Serra. "Já falei um milhão de vezes e ainda me mandam coisa com alho." Providenciaram-lhe um sanduíche de queijo de minas, que ele comeu maquinalmente.

Como o voo seria longo, pedi que contasse como era a sua relação com Geraldo Alckmin e explicasse por que desistira de concorrer à Presidência, em 2006. "Mesmo quem era simpático a mim achava que o Alckmin tinha direito a ser governador", ele começou, pronunciando a palavra "direito" com sarcasmo. Durante quase meia hora, Serra discorreu sobre sua relação e opinião sobre Alckmin. Ao final, pediu que nada fosse publicado.

Passou a falar sobre comida. Defendeu a tese de que um cozinheiro de verdade sabe preparar qualquer prato sem usar alho ou cebola. Ele se incomoda quando dizem que suas implicâncias alimentares são manias - além de alho e cebola, não come frituras, não toma café e não digere sementes. Resolveu dar a receita de um macarrão "espetacular" para provar que entende do assunto. "Como chama a pasta dura?", perguntou. Alguém respondeu que era grano duro. "Ah, então essa, é com essa grano duro", continuou. "O molho leva tomate, azeite, alcaparra, já botei até gengibre. Como se chama aquela folha da moda? É rúcula, não é? Então, pode pôr também. Esse molho fica maravilhoso e não tem alho nem cebola."

Houve quem duvidasse que ele soubesse realmente preparar o tal prato. "Posso fazer essa pasta porque sei", garantiu, esclarecendo que aprendeu a cozinhar quando morou em Princeton. "Fazia truta ao forno, coisas com berries, banana assada com cravo e canela", listou.



"Eu queria ir em Heliópolis com o Zidane", disse o presidente Lula no ginásio do Ibirapuera, numa rodinha em que estavam Serra, Geraldo Alckmin e Kassab. "Mas seria demais eu ir lá só por causa dele, seria bom se tivesse uma obra do pac para inaugurar." Passava das nove da noite e eles aguardavam o início da cerimônia de formatura da primeira turma do curso de administração da Unipalmares, cujos alunos são em sua maioria negros. Havia uma mesa de salgadinhos e sanduíches. Garçons serviam espumante, uísque e cerveja. Serra beliscou um sanduichinho de pão branco. "Sanduíche é bom porque enche o estômago", justificou.

Alckmin, o paraninfo da turma, avisou que, além de atrasada, a solenidade seria longa. "Na última vez que vim, saí daqui mais de uma da manhã", disse. O presidente também estava incomodado com o horário. "Isso é hora de homem velho estar na cama", brincou Lula.

Serra aproveitou uma brecha para falar com o presidente sobre a implantação de trens na Baixada Santista. Foi sua única conversa útil da noite. Saiu do ginásio no meio de um show de mulatas. Eram quase duas da manhã, e dali a cinco horas embarcaria para o Ceará e Pernambuco. "Nossa, hoje para mim parece que já é ontem", comentou. Ele disse que estava com vontade de comer rosbife, "que não é tão gordo", mas que ia ficar mesmo em jejum.
Na semana seguinte, num trajeto de helicóptero, ele falou, a contragosto, sobre as suas relações com a imprensa. Perguntei se ele achava que suas características negativas eram mais exploradas do que as positivas. "Não, não acho, mas existe um script que alguns precisam seguir", disse. "Eu sou o cara que soprou no ouvido do Lee Oswald, entende? Tudo, acham que fui eu. O Genoíno, que era até meu amigo, disse que era eu quem estava por trás de divulgar o caso Waldomiro, um sujeito que nunca vi na vida."

O oncologista carioca Jacob Kligerman, amigo de longa data, havia dito algo parecido: "Tem duas coisas que tiram o Serra do sério: falar que foi ele que inventou a candidatura da Marina Silva para desestabilizar a da Dilma, e que foi ele o responsável pela investigação no escritório da Roseana Sarney, em 2002, quando a pf achou aquela montanha de dinheiro", disse.

No helicóptero, Serra fez uma concha com a mão e colocou ao lado de sua boca na tentativa de ser mais bem ouvido: "Em qualquer pesquisa, eu tenho, disparado, mais votos que qualquer um e na imprensa a minha imagem era de ser ruim de voto. Agora, inventaram que eu atropelo os outros, sei lá, ou que a 'turma do Serra' foi derrotada dentro do partido. Tudo isso é script. Na verdade, quem é contra mim no psdb? O Tasso?"



O ex-deputado tucano Márcio Fortes acha que o fato de o presidente ter cerca de 80% de aprovação popular não trará dificuldades a Serra. "Quem tem a aprovação é o Lula, não a Dilma", disse ele em seu escritório, no Rio. "O Serra terá o que mostrar, em matéria de realizações, tem uma experiência administrativa fantástica, e as pesquisas mostram que ele não passa falsidade, que é confiável." A opinião de Márcio Fortes é a dominante no psdb. Para os tucanos alinhados a Serra, a campanha de 2010 se dará em torno de obras e empatia, e não em torno de posições políticas e ideológicas.

Márcio Fortes tirou de uma pasta um papel rabiscado com canetas azul e vermelha. "Isso aqui é uma pesquisa encomendada pelo Planalto sobre os programas do governo Lula", falou. "Com ela dá para ter uma boa radiografia da situação." A pesquisa aponta que as características que os eleitores mais admiram nos políticos são competência, capacidade de administração e honestidade. "Isso é o Serra", ressaltou Fortes. Segundo o levantamento, o Bolsa Família tem 55% de aprovação, seguido pelo Fome Zero, que nem existe mais, com 20%, e o Minha Casa, Minha Vida, com 18%. "Olha o que as pessoas querem", interpretou Fortes. "Elas querem ter uma renda e uma casa para morar."

Aloysio Nunes Ferreira, secretário-chefe da Casa Civil do governo paulista, resumiu assim a questão do discurso de Serra na campanha: "Quem não quer a cidade com infraestrutura, com boa escola, um sistema de transporte decente? É isso que ele terá para mostrar."

Com esse objetivo, o governo Serra investirá 20 bilhões de reais, até 2010, no metrô e nos trens da região metropolitana. Na recuperação das estradas vicinais serão outros 15 bilhões até o fim do mandato. Nas escolas técnicas e profissionalizantes a meta é de aumentar em 100 mil o número de matrículas. "Serra tem o reconhecimento de ser um administrador completo", disse Nunes Ferreira.

Para Fernando Henrique, não basta Serra enumerar obras ou explicar o que precisa ser feito com a economia: "A eleição do Obama demonstrou que o bom candidato é aquele que simboliza a mudança, inspira as pessoas, lhes dá uma visão de que a vida e o país podem melhorar."

Perguntei ao ex-presidente se, como ele dissera a um conhecido comum, continuava achando que Serra tinha "paixão pela gerência", em detrimento de uma visão abrangente do Brasil, que sensibilize os eleitores.

"Não é bem assim", começou Fernando Henrique. "O Serra é um ótimo gestor e ponto final. Mas acho que ele é mais administrador e economista do que formulador. É mais pragmático que imaginativo. Então, ele precisaria calibrar melhor o discurso. Adianta pouco ele insistir em falar de economia, em juros, em câmbio flutuante, em Banco Central e metas de inflação. Todo mundo sabe que ele entende de economia. Seria melhor se ele explicasse que sabe o que é ser pobre, e como vai fazer os pobres melhorarem de vida. O Serra precisa formular uma política que leve as pessoas a ver um futuro."

Na despedida, ao abrir a porta do elevador, Fernando Henrique sorriu e alertou: "Olha lá, hein, não vá me intrigar com o Serra." Antes, sem saber que o amigo gosta do conto "O Espelho", havia dito: "O Serra é uma alma atormentada."



Numa noite de setembro, Serra entrou em seu gabinete no Palácio dos Bandeirantes pingando colírio e contando que tinha ido ao enterro do pai do prefeito Gilberto Kassab, emendado uma maratona de reuniões e ainda teria um jantar com a colunista Dora Kramer na casa do empresário Andrea Matarazzo, para o qual estava atrasado.Ele se sentou em uma poltrona ao lado do telefone e continuou a pingar o colírio enquanto conversava sobre sua imagem, mais de um ano depois de ter me dado o conto de Machado de Assis. Dessa vez, ouviu uma lista de comentários a seu respeito feitos por amigos, aliados e adversários: mandão, implicante, bom administrador, fala antes de pensar, manipulador, tem dificuldade para relaxar, generoso, mais pragmático do que imaginativo.

"Olha, que engraçado isso", ele falou, em voz baixa, antes de ouvir a lista até o fim. De todas as características, ele se reconheceu em apenas uma: bom administrador. "O que é mandão?", indagou. "Se tem uma decisão para ser tomada, se há algo a fazer, eu faço, não fico contemplativo, esperando."

Ele não se acha implicante. "Eu gosto de provocar, isso sim. Gosto de pegar no pé para amolar as pessoas. Como quando um secretário veio aqui com um sapato escandaloso, ou quando o Arthur Virgílio usou camisa preta com terno, ou o João Sayad que faz nó de gravata mole. Mas isso é brincadeira, é uma micro-obsessividade que estabelece uma relação mais pessoal."
O que pareceu tê-lo chateado mais foi a opinião de que não é um formulador político. "De fato, não sou um teórico, mas isso não significa que não tenha uma formação teórica", afirmou. Desculpando-se por parecer cabotino, disse que no governo Montoro foi ele quem deu as linhas do que precisava ser feito. Que a concepção do sistema orçamentário e tributário que está na Constituição foi ele quem fez. E que foi ele quem criou a política adotada até hoje pelo ministério da Saúde.

Sobre suas características pessoais, reconheceu que é tímido, "o que pode ser confundido com ser orgulhoso. Tenho muito pudor de entrar num restaurante e sair cumprimentando gente de mesa em mesa. Isso vai incomodar as pessoas, isso eu não faço".

Ligaram pela segunda vez da casa de Andrea Matarazzo, cobrando a sua presença. "A Dora está me esperando há duas horas, vai ficar furiosa e brigar comigo", ele disse, olhando para o relógio. Eu o havia esperado por duas horas e meia.

A relação de Serra com a imprensa é paradoxal. A identidade política dos grandes jornais e revistas é muito maior com ele do que com Lula, Dilma Rousseff e Marina Silva. Ele tem boas relações com colunistas da imprensa escrita, apresentadores de rádio e televisão e diretores de redação. Telefona para eles amiúde, faz perguntas sobre sua vida profissional e familiar, diz que está com saudades e pede conselhos. E se dá muito bem com os patrões da grande imprensa. Tudo isso se reflete no noticiário. Mas, por outro lado, Serra é um dos políticos que mais reclama da mídia, dos erros e injustiças dos quais é, ou imagina ser, vítima.

"Serra tem um grau de preocupação altíssimo com a imprensa", disse Otavio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S.Paulo. Ele não se lembrou de qualquer outro político que se compare a Serra nesse quesito. E deu dois exemplos recentes. Citou primeiro a invasão da reitoria da Universidade de São Paulo. Antes de começar uma entrevista coletiva, Serra perguntou se Laura Capriglione, que havia escrito na Folha reportagens com críticas à atuação do governo, estava presente. O questionamento, azedo, causou mal-estar entre os jornalistas presentes.

O outro episódio ocorreu em junho, quando Serra telefonou a Frias Filho querendo publicar um artigo no caderno Mais! sobre o aniversário da morte do jornalista Vladimir Herzog. O diretor da Folha recusou porque não era inédito. Serra ligou novamente, insistiu e sugeriu outro texto. Frias Filho descobriu que esse também já havia sido publicado e, o que é pior, no concorrente, o Estadão.

Ao voltar do exílio, Serra se tornou editorialista da Folha e ficou amigo do dono do jornal, Octavio Frias de Oliveira. "Por causa disso, Serra acha que a Folha bate mais nele, para se mostrar independente", disse Frias Filho. "Ele tem caprichos, se considera injustiçado, não gosta de ser contrariado, mas que governante não é assim?", indagou.

Verônica tem uma explicação sobre a atenção excessiva que o pai dispensa à imprensa: ele ainda não encontrou um porta-voz que o satisfizesse. Serra também não tem chefe de gabinete, uma figura clássica dos porões da política. "Por isso, ele acaba fazendo o fronting", ela disse. "E se expõe demais, fica parecendo que ele quer se meter." Ela citou o exemplo da inundação das marginais dos rios Pinheiros e Tietê, em setembro, por causa das obras de duplicação. Os jornais procuraram um ex-secretário de Marta Suplicy para comentar o caso. "Isso é justo? Ele não tem o direito de reclamar disso?", perguntou ela.

Rumo à casa de Matarazzo, no carro (onde havia um frasco de álcool em gel tamanho família, colocado no meio do assento dos passageiros), Serra disse que o carisma político é um mito. "O carisma ganha eleição?", indagou, retoricamente. "Então, o Lula não tinha carisma quando perdia? A imagem do Lula, há vinte anos, não era a de hoje. Era a de briguento, e agora é o cara, segundo o Obama."



No dia seguinte, no início da tarde, Serra participou da assinatura de um convênio na área de combustíveis. Apesar de ter dormido apenas quatro horas, parecia bem-humorado. Aécio Neves havia sido entrevistado pela Folha de S.Paulo. "Não li", ele me disse. Lembrei-me de uma antiga entrevista, na qual Serra dizia admirar a maneira como Franco Montoro lidava com a imprensa. Montoro era "imbatível" porque, quando perguntavam sobre uma notícia ruim, ele sempre dizia não ter lido.

Mas reclamou de a Folha, "curiosamente", não ter publicado uma frase sua dizendo que ele era o "plano B do Aécio e o Aécio era o plano B dele". Nas últimas semanas, a chapa tucana puro-sangue na eleição de 2010 era dada como certa por vários colunistas. Serra não estava tão certo. "Uma coisa é o Aécio ser candidato à Presidência, outra é ele querer ser vice, e ele pode querer ser senador", disse.

Ele examinava uma pesquisa com eleitores do interior de São Paulo. "Olha aqui", disse, apontando a página da cidade de Jundiaí. Diante da questão, "em qual desses candidatos você não votaria de jeito nenhum?", Dilma Rousseff chegava a 23%, seguida por Ciro Gomes com 18% e ele, Serra, com 10%.

Serra retomou o assunto que o havia deixado desconfortável na véspera: "Andei pensando sobre aquilo de eu ser mais gestor do que teórico e não concordo. Acho que formulação e execução são inseparáveis." Novamente se desculpou pela autorreferência, citou várias ações imaginadas e desenvolvidas por ele na prefeitura, no governo, em ministérios e na Constituinte.

A copeira e o mordomo entraram com bandejas de prata, que iam passando para que cada um se servisse. Serra colocou no prato um pouco de carne, legumes e um bolinho de batata com cogumelos. A porção era tão exígua que o fundo da louça ficou quase todo à mostra.
Perguntado como se definia politicamente, se era de direita ou esquerda, disse que o conceito ficou obsoleto: "O governo Lula é de esquerda? Acho que não dá para falar isso. Virou uma conveniência eleitoral. Mas, com o significado do passado, eu certamente estaria mais à esquerda do que o pt. Política de desenvolvimento virou coisa de esquerda. Falar de política econômica se tornou quase subversivo."

Falava devagar e pausadamente. Um pouco de molho manchou sua gravata vermelha. Ele apertou um botão que alerta os empregados na cozinha. "Oi, você pode me quebrar um galho? Caiu um molho aqui e se não tirar agora eu perco essa gravata. Obrigado", disse à copeira com a expressão compenetrada de quem assinava o Tratado de Tordesilhas.

Tudo com Serra é sério. É raro ele rir quando um interlocutor conta uma história. Na rua, quando é cumprimentado por desconhecidos, tem sempre o mesmo gesto: tranca os lábios, como um bebê que não quer comer mais, e faz um movimento lento de cabeça, como se quisesse encostar o queixo no peito. É um cumprimento daqueles que se vê em filmes sobre a corte de Luís xv, sem a dobra do joelho. Aí, parece lembrar que algum marqueteiro o orientou a sorrir para os populares - e sorri timidamente.

Antes de voltar à discussão econômica, ele lembrou: "A coisa mais absurda que você me disse foi que eu implicava com uma menina de perna fina chamada Helga. A única Helga que eu conheci na vida foi a Helga Hoffmann, do movimento estudantil, que não tinha perna fina e nunca morou no Chile. E falar que eu implicava com um sujeito porque era feio... Nunca teve isso. Isso não é real. Você não pode escrever isso."

Tentei argumentar e ele quis encerrar o assunto: "Se aconteceu comigo, e eu estou falando que não existiu, logo não é real. Se não é real, não deve ser publicado." Lembrei um outro caso, que ele também negara ter ocorrido, e depois reconheceu que, de fato, havia acontecido, mas ele esquecera. "É, isso eu não lembrava", falou. Se ele podia ter esquecido uma coisa, podia também ter se esquecido da Helga e do feio.

Ele comentou a recente pregação de Fernando Henrique a favor da descriminalização das drogas. Acredita que o ex-presidente só pode exprimir essa opinião porque está afastado da vida pública há quase dez anos. "Um governante não pode e não deve exprimir uma opinião de médio e longo prazo que tenha um efeito imediato", disse. "Tudo o que ele falar vai ser visto por outra ótica, a das ações dele no governo. É por isso que um governante dificilmente pode ir a um debate. Tudo o que ele falar como pensador vai ser transposto para o cenário político. Não se pode esperar que a mídia faça essa distinção."

Serra havia terminado. Apesar da microporção, ainda sobrava comida no prato. Entre um doce com goiabada e musse de maracujá, optou pelo segundo. Depois, ele partiu um pêssego que parecia apetitoso, mas quando foi cortado estava todo marrom por dentro. "Antigamente não tinha fruta bonita por fora e podre por dentro: isso é a revolução verde", disse.

Perguntei quais seriam os temas da campanha do próximo ano, e ele respondeu: a folha de serviços prestados de cada candidato, o peso do ataque dos adversários e, em terceiro lugar, aspectos subjetivos, como a imagem pessoal.

Em 2002, durante a campanha, perguntaram a Lula o que ele queria para o Brasil. "Quero que todo brasileiro tenha dinheiro para tomar uma cervejinha depois do trabalho", ele respondeu. Enquanto tentava espetar uma rodela de beterraba, Serra deu sua resposta à mesma questão: "Quero que os jovens tenham emprego e perspectiva de futuro."

E o que fará se perder a eleição? "Não vou discutir isso", disse, balançando a cabeça. "Isso é sofrer por antecipação. Não sou masoquista. Não sei nem se vou ser candidato e já vou ficar pensando no que fazer se não ganhar?" Serra pretende decidir se concorrerá ao Planalto entre janeiro e março de 2010. Seu critério será bem simples: se tiver apoio político e boa colocação nas pesquisas, será candidato.



Houve no final do almoço uma conversa sobre amizade e amor. Ele se lembrou do escritor argentino Jorge Luis Borges, que dizia que a amizade era mais gratificante porque dispensava a convivência, enquanto o amor era escravo e possessivo. Por quase dez minutos, Serra falou sobre Borges, um dos escritores que mais admira. Citou frases, ilustrou situações que seriam perfeitamente definidas por um verso ou um pensamento de Borges. Perguntou se alguém à mesa conhecia o poema "Fragmentos de um evangelho apócrifo" e disse que, se alguém quisesse saber tu-do a respeito dele, bastava ler o texto. Depois, ele consertou: "Eu assino embaixo dequase tudo." (O poema está na página 50.)

Quando se levantou, constatou que o molho tinha espirrado também na camisa. Serra ficou parado, com os dois braços esticados, como se estivesse sendo revistado no portão de embarque do aeroporto, e perguntou: "E a gravata? Será que limparam? Eu gosto daquela gravata."

No dia seguinte pela manhã, ele telefonou e falou de novo dos "Fragmentos de um Evangelho Apócrifo": "Sou contra a parte que fala de matar, essas coisas. Mas o resto tem tudo a ver comigo."

No fim da tarde, chegou um e-mail de Serra: "Se você suprimir os versículos 10 e 17, o Evangelho do jlb é quase perfeito. Alguns deles eu devo ter dado a ideia ao Borges em outra encarnação."